sexta-feira, abril 06, 2007

A Extraordinária Arte de (Saber) Representar


Não se tem "Dúvida" alguma que este se trata de um enorme texto. Fala de tabús, da moralidade e do dever versus a realidade (normalmente dura, cruel, onde há subjugadores e subjugados, fortes e fracos, os que têm e podem e os que não têm e não podem.
Texto profundo, limpo do acessório, irónico e central.
A encenação de Ana Luísa Guimarães é muito bem conseguida, linear, contida, nada pretensiosa.
O cenário é muito bom, claustrófico q.b., fechado e em cunha, mas sempre iluminado com um feixe de luz... Deus?
Como referiu o Fernando D., para o Teatro só são necessárias duas coisas: as palavras do autor e o corpo do actor. Concordo.
Quanto às palavras não há a menor "Dúvida" de que se está perante um grande texto - vencedor do prémio Pulitzer 2005". E quanto aos actores?
A Eunice Muñoz dá uma grande lição da arte de representar naquele palco do Maria Matos. De uma força impressionante, irónia e com imenso sentido de humor, Eunice Muñoz é uma lição viva do que deve ser o ofício da representação e interpretação, de como se está num palco, a forma de dizer as palavras, de mexer corpo. Uma vivacidade comovente que nos convençe, a cada segundo, de que ainda muito tem para oferecer aos palcos portugueses. Chegou mesmo a ser presenteada com uma ovação no final de umas das cenas, tal foi o seu brilhantismo.
O mesmo, infelizmente, não se pode dizer relativamente ao Diogo Infante. A sua representação foi muito mediocre, sem a força e a subtileza que a personagem exigia. Sempre no mesmo tom, com uma voz colocada que não lembra a ninguém, não conseguiu transmitir qualquer tipo de sentimento ou reacção, chegando mesmo ao ponto de ser aborrecido nas "homilias" pregadas.
Isabel Abreu interpretou uma noviça altamente convincente e segura.
Lucília Raimundo, com um papel curto e extremamente interessante, protagoniza uma das cenas fulcrais e perturbantes da história. Contudo, o que tinha tudo para ser um dos momentos altos - devido ao tema em conversa e ao ponto de vista e de realidade da personagem por ela interpretada - não o foi. Lucília Raimundo aparece frouxa e desmaiada, sem dar a pujança que a defesa dos seus argumentos exigia.
Resumindo, estamos perante um excelente texto e duas representações - uma soberba, outra bem feita - que merecem a visita ao Teatro Maria Matos.
O último senão da noite veio com os agradecimentos. Por uma questão de respeito e consideração, quando se tem uma grande actriz - com uma longa e reconhecida carreira - o mínimo que se deve fazer é deixá-la chegar sozinha ao palco para agradecer. Tal não aconteceu com a Eunice Muñoz. Na primeira entrada para os agradecimentos a Eunice deveria, no início ou no fim da entrada do restanto elenco, comparecer no palco sozinha. Tive a perfeita consciência que a grande maioria das palmas destinavam-se, de facto, a homenagear a Eunice. Foram altamente merecidas, embora divididas pelos restantes três elementos.
Vá ao Teatro...
E uma última pergunta: Por que é que já não se usam as pancadas de Molière?

Cortem-lhe a cabeça!

Artigo de Luciano Amaral, Professor Universitário.

"Portugal tem mesmo coisas engraçadas. Um grupo de maduros sem mais nada para fazer põe-se a telefonar para a televisão do Estado e "elege" Salazar como o "maior português" de todos os tempos. Foi quanto bastou para as nossas almas pensantes se mortificarem em reflexões espantosas sobre um sinistro salazarismo latente ou renascente. Parece que não eram só os maduros dos telefones que não tinham mais nada para fazer.
Dos múltiplos e vastos lençóis perpetrados sobraram dois excelentes artigos de Jorge Almeida Fernandes e Pedro Magalhães, ambos no jornal Público. Concentro-me no primeiro, por ter apreciado especialmente algumas considerações. Almeida Fernandes relembrou a atávica "dificuldade da esquerda em pensar o salazarismo", nunca ultrapassando o prisma da caricatura. Coisa que, como muito bem notou, "saiu-lhe cara". Recorda ele que, ao longo dos anos 60, Portugal conheceu as mais elevadas taxas de crescimento da sua História, viu os campos esvaziarem-se e o país urbanizar-se, viu nascer uma nova classe média, viu os costumes alterarem-se. E podia ter ido mais longe: também foi sob Salazar que Portugal entrou na "Europa", a Europa da Escandinávia, do Reino Unido, da Suíça e da Áustria, que se juntou na EFTA em 1960; também foi sob Salazar que o analfabetismo se reduziu drasticamente no País; também foi sob Salazar que começou a primeira expansão séria da Segurança Social (ainda com o nome de "Previdência"). Tudo coisas que podem ser feitas sem liberdade política. Dito de forma breve, foi sob o salazarismo que o País começou a "modernizar-se", no sentido que o termo adquiriu no século XX, algo que entretanto prosseguiu até hoje, agora incluindo também a tal liberdade política. Fernandes nota até como, por causa disto, a oposição se sentiu obrigada nos anos 60 a alterar o seu discurso: da crítica "antifascista" passou à crítica "anticapitalista", precisamente porque via o País aproximar-se dos índices do "centro" capitalista.
Para Fernandes, estranho é o "antifascismo" serôdio que agora deu em aparecer. E está muito bem estranhado. Na verdade, não se percebe a que "fascismo" se opõe ele. Ou talvez perceba: também as crianças têm os seus amigos e inimigos imaginários. Parece a rainha de copas de Alice no País das Maravilhas, que via adversários por todo o lado e passava o tempo a mandar cortar--lhes a cabeça.
Donde se conclui que o mais interessante não foi o resultado do concurso mas as reacções da intelligentsia nacional a ele. Esta intelligentsia mostrou que não percebeu, não quer perceber e provavelmente nunca perceberá o século XX português. De facto, o nosso século XX só poderá ser percebido se também o salazarismo for percebido de forma apropriada. O salazarismo é o momento pivot do século, que define o seu passado e o seu futuro imediatos. Prova disso é o facto de tanta gente precisar ainda hoje de definir o nosso regime relativamente a ele, nem que seja por oposição. O que, aliás, não é bom sinal. O regime deveria valer pelo que tem a oferecer de positivo e não por comparação com uma coisa que, pelos vistos, era tão notoriamente má.
A concentração da reflexão (?) na violência política do salazarismo impede muita gente de perceber que ele teve mais adesões do que se julga. A maior parte dos que estavam com ele não era por medo da pancadaria e da censura, mas por gostarem da solução. Não falo de casos raros e minoritários, do estilo do comunista Carlos Rates, que se passou para o regime. Falo sobretudo do pessoal político da I República, gente que teria de ser considerada de "esquerda" e aderiu em grande número ao salazarismo. De facto, o salazarismo dividiu esse pessoal político entre um grupo que se lhe opôs e outro que se lhe juntou (talvez a maioria). Basta pensar em alguns colaboradores de Salazar, que incluíam maçons, carbonários e constituintes de 1911, como Albino dos Reis, Manuel Rodrigues, Bissaia Barreto ou Duarte Pacheco. Porque é que isto aconteceu não se percebe com as banalidades costumeiras sobre o assunto.
Salazar não merece certamente ser considerado o "maior português", mas merece algo mais do que aquilo que apologistas e detractores andam por aí a dizer. Sobretudo, merece ser estudado e desmitificado. Se isso já tivesse sido feito, provavelmente nem sequer ganharia o famoso reality show histórico. Como em muitas outras coisas, parece que o cidadão comum percebe melhor o que se passa do que tantas cabeças atafulhadas de livros e teorias. Quando perguntados sobre quem achavam ser o maior português, em sondagens que cumpriam os necessários requisitos técnicos, nomeadamente sem o enviesamento da amostra que existiu no concurso da televisão, os portugueses votaram nos clássicos Afonso Henriques, Camões ou D. Henrique. Mostraram ser bem mais crescidinhos do que as luminárias que querem guiar o nosso caminho.

Uma coisa é certa: À semelhança da História do mundo que ficou dividida entre antes e depois de Cristo, a nossa História parece caminhar a passos largos para um antes e depois de Salazar…

O seu a seu dono!

domingo, abril 01, 2007

As Vampiras Lésbicas de Sodoma vencem o festival HUMORFEST

João Carracedo, Manuel Mendes, Rita Lello,Simão Rubim, Tobias Monteiro e João Craveiro

O espectáculo As Vampiras Lésbicas de Sodoma foi premiado pelo público do festival de humor de Lagoa - Humorfest, como melhor espectáculo da edição de 2007. Esta foi a terceira digressão deste espectáculo que contou com 598 espectadores divididos por duas sessões.

sábado, março 31, 2007

sexta-feira, março 30, 2007

MARIA CALLAS EM LISBOA E O ESCÂNDALO NA ÓPERA DE ROMA

(clique na imagem para ler artigo)
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A passagem de uma grande cantora por Lisboa

Maria callas foi, talvez, a artista de quem recentemente pior se falou em todo o mundo, em repercussão da sua atitude no Teatro da Opéra de Roma.

Esperava-se com natural ansiedade a vinda da genial cantora ao nossa País, para se constatar se, de facto, Maria Callas mereceria tudo aquilo que lhe foi chamado: incorrecta, agressiva, mal educada. A crítica foi, porém, unânime em declarar que a artista é pura e simplesmente extraordinária, e não fez sequer alusão aos terríveis defeitos que lhe foram atribuídos.

Efectivamente, Maria Callas revelou-se interessante, elegantíssima, de lindos olhos e perfeitíssimos dentes, e... amável.

O seu sucesso no teatro S. Carlos foi tão estrondoso, como o foi o escandâlo que estalou em Roma, quando a cantora se recusou a cantar o final da ópera "Norma" de Bellini. E se bem que o assunto fosse delicadíssimo, Maria Callas não hesitou abordá-lo e a dar gentilmente as explicações que o público necessitava para poder continuar a acreditar nela.

Assim, a insigne artista declarou que não guarda rancor, nem aos jornalistas nem mesmo àqueles que a insultaram, sob a janela do quarto de hotel onde se encontrava hospedada. Apenas lamenta profundamente que Sampaoli, o director artístico do teatro de Roma, não a tivesse querido substituir, como Maria Callas desejava, em virtude de se não encontrar bem de saúde.

Coagida pelos seus deveres e animada por umas momentâneas melhoras, a artista acabou por cantar, tendo notado imediatamente a péssima forma em que se achava. Os aplausos que recebeu irritaram-na, porque sentiu que não eram merecidos, e a segunda ária que cantou veio confirmar a sua apreensão: a sua voz diminuira consideràvelmente e estava incapacitada de prosseguir.

As palmas que ouviu, enquanto se dirigia ao seu camarim, soaram dolorosamente aos seus ouvidos, e a sua indignação começou quando todos aqueles que a rodeavam pretenderam exigir que cantasse... de qualquer forma.

Então, deu-se qualquer coisa de difícil de explicar embora muito fácil de comprrender. Maria Callas que não preza ùnicamente a sua reputação, lembrou-se do respeito que a sua arte e até o nome do autor da "Norma" lhe mereciam e recusou-se terminantemente continuar o espectáculo.

Parece-nos que àquilo que se chamou o escândalo da Callas, se deveria chamar, com mais razão, o drama da Callas.

Por Lisboa, passou Maria Callas, deixando um rasto da sua arte, que só muito tempo poderá fazer esquecer. O resto é lamentável, mas lamentável principalmente pelo muito que a feriu.

Crónica Feminina, nº 73, 14-04-1958"

quarta-feira, março 28, 2007

O Meu Colega William Shakespeare - António Pedro


The Reduced Shakespeare Company is one of the world's best-known touring comedy troupes. Now in its fifth year at London's Criterion Theatre, the company's The Complete Works of William Shakespeare (abridged), an irreverent, fast-paced romp through the Bard's plays, is London's longest-running comedy.

Aos vinte e quatro dias de Novembro do ano da graça de mil novecentos e noventa e seis, estreava no reino dos Algarves, mais propriamente na cidade foraleira de Portimão, aquele que viria a constituir-se como o maior êxito teatral de sempre em terras lusas: As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, homenagem de três norte-americanos não alinhados: Adam Long, Jess Borgeson e Daniel Singer, ao Gil Vicente lá das Terras de Sua Majestade: William Shakespeare! Paródia que mereceu desde então adjectivações várias: «alucinante», «irreverente», «cardíaco», «hilariante», «desopilante», «burlesco», «divertido», «transversal», «louco», «irresistível», «fenómeno», «endiabrado», «interactivo», «mordaz», «histriónico», «genial», «excelente», «imperdível», «incontornável», «truculento», «indispensável», «obrigatório», etc., etc., etc. ...!

Fabricante de luvas é o que o pai queria que ele fosse - e não foi. Letrado apenas ou filósofo em disfarce, poeta, vá lá! - mas não aquele mesmo "good William" que dirigia a companhia dos "Homens do Rei", montava e representava as suas peças em que nem sequer reservava para si os principais papéis, é o que queriam dele os literatos - mas também não foi.

O que ele foi é quem foi: William Shakespeare, nascido em Stratford-upon-Avon, no condado de Warwickshire em Inglaterra, (gentleman, sim senhor, mas depois de celebrizado) no dia 23 de Abril de 1564, ao que se supõe e gostariam os ingleses que fosse, por ser dia de S. Jorge. Esse, o tal que tendo escrito, montado e representado uma quantidade fabulosa de comédias e de tragédias durante cerca duma vintena de anos, deixou um dia a Londres que o glorificara e enriquecera tão calada e misteriosamente como lá chegara, para voltar a casa, aconchegar-se e morrer, outra vez no dia 23 de Abril - e desta feita a data é certa - de 1616, na cidade ribeirinha em que tinha nascido 52 anos antes.

Pois. E o resto é congeminação de congeminadores que nunca viram por dentro como uma peça se põe em pé. Que não sabem como o afluir do espectador à bilheteira depende de como é doseado o efeito dum diálogo ou acertado o comprimento duma cena. Pois! Que quem souber como elas mordem e vir como da exploração duma personagem pitoresca (nascida em outra peça e feita a pedido) surge essa maravilha de construção teatral que são as "nerry Wifes", aparentemente uma comédia de costumes, mas que toca as notas todas do divertimento, da farça à "féerie", não tem dúvida um momento sobre a identidade do autor. A identidade da profissão do autor - homem de dentro do teatro, a quem o génio fez sair do seu palco para a eternidade por obra e graça do Espírito Santo, que parece que é quem intervém nestas coisas, escrevendo, ali, às pressas, para que se pudesse ensaiar outra peça enquanto uma estava em cena, encurtando, aumentando, suprimindo e acrescentando cenas, segundo a qualidade e o número de actores de que dispunha e segundo o público a que destinava a representação.

Olha os literatos a fazerem destas coisas!

A grande trapalhada dos quartos e dos fólios, das discrepâncias textuais nas primeiras e segundas edições das suas obras, vem daí. A eternidade aconteceu-lhe. O que escrevia destinava-se à vida efémera da palavra falada, do conflito vivido por gente em face de gente - ao teatro, isto é - à ocasião.

Essa ocasião tinha condições extraordinárias no tempo da rainha Isabel. Os cais de Londres, ao pé dos quais estava "O Globo", formigavam de gente com dinheiro fácil e desejosa de emoções fortes; o mundo cultural da Renascença abrira-se a um horizonte imenso que os "humanistas" tinham sabido, pelo menos, ensinar que se podia conceber à medida do homem; o palco chamado isabelino - um grande proscénio aberto por três lados, encostado a uma parede perfurada e sobremontado por uma varanda - deixava livre a imaginação do autor sem as restrições aristolélicas da unidade de tempo e de lugar; a indumentária teatral era elementar, convencional e barata: Troilo e Créssida andavam em cena mais ou menos vestidos como o Hamlet e Lady Macbeth.

Ao grande aparato cenográfico da Idade Média sucedera-se a elementaridade sucinta dum palco em que tudo era a imaginar.

"Nesta arena de galos poderão caber
Os vastos campos da França?
Poder-se-ão, entre estas tábuas, juntar os capacetes
Que semeavam de espanto os ares de Agincourt?
Deixai trabalhar as forças da imaginação
Supondo agora que estão fechadas
Entre estas duas paredes
Duas grandes monarquias.
Supri com o pensamento a nossa imperfeição.
Quando falarmos de cavalos
Pensai vê-los marcando na terra mole os cascos orgulhosos.
É com essa imaginação que tendes de ataviar os reis,
Mudando-os de lugar, saltando sobre o tempo
E fazendo caber numa hora de ampulheta
O que leva muitos anos a acontecer." - Do prólogo de Henrique V.

É claro que o génio é génio e nunca o génio humano subiu a craveira mais alta do que a deste homem meão de estatura, bigodinho fruste, olhos redondos sempre de pálpebra visível e a testa despovoada de cabelo até ao cocuruto da cabeça, boca bem talhada, cabelos como asas emoldurando o oval do rosto até ao baixo das orelhas e, que nos seus retratos, se nos apresenta todo bem posto: gibão de veludo agaloado por várias bandas e o cabeção de renda engomada esticado, grande e todo triques-à-beirinha. Nem eu quero negar isso nem cometer a estultícia (tão à moda) de explicar por motivos sociais alheios e circundantes a misteriosa aparição do génio num indivíduo. Abelhas não somos e, mesmo as abelhas, só fabricam nas mestras a possibilidade monstruosa de porem ovos à bruta. Não é disso que se trata mas da liberdade.
Coitado do génio a que tudo atravanca o caminho e, desde a censura à finança, tudo o impede de manifestar-se! Nascido como nasceu, dotado como nasceu, um século mais cedo ou um século mais tarde, ou noutro lugar que não fosse a Londres daquele tempo (que o digam os espanhóis de génio seus contemporâneos) o significado, a extensão, a profundidade e a liberdade da sua obra, se não a sua beleza literária também genial, não teriam atingido o que atingiram.
Não fosse ele homem do palco ou fosse outro o palco para que concebia o seu teatro e as restrições do lugar lhe atrapalhariam a fluência. Prisões, campos de batalha, salas reais de trono, os pátios das conjuras, antros de feiticeiras, florestas, cemitérios, ruas de cidades a distâncias enormes umas das outras, sucedem-se ao ritmo fácil desta imaginação para que se apela, dum adereço dum telão ou dum letreiro.
Não fosse ele inglês e homem do seu tempo e essa cavalgada monstruosa de crimes, de ambições de conjuras infames e monstruosidades com que ele teceu o estofo dos tronos em que se sentaram as personagens duma história que viu à luz de mil archotes de sangue, e não soaria talvez ao cantante bronze dos sinos maravilhosos a sua liberdade de falar:

"Pompa vã e glória vã do mundo - eu vos odeio!
E sinto o coração de novo aberto. Quão miserável
É o pobre homem que depende do favor dos príncipes!
Existem, entre o sorriso a que aspiramos
No seu semblante ameno e a sua ruína
Mais angústias mortais e medos, do que existem
Ou guerras ou mulheres." - Henrique VIII, fala do cardeal Wolsey

Ser quem escreveu isto o próprio amante da rainha, como agora anda um preopinante a querer provar? Deixemo-nos de asneiras! [Nota Autor: É de propósito que não cito o autor da "nova teoria". Era só o que faltava dar-lhe publicidade!]
10 tragédias históricas, mais outras 13 tragédias, mais 14 comédias, ao que me lembro e falta-me a pachorra para ir verificar a certeza destes números... Tanto faz, neste caso, mais uma ou menos uma! Uma montanha. E, nessa montanha, a cada passo um espanto, quase a cada verso ou a cada linha de prosa uma beleza. Bem-aventurada fluência!

Notícias dele como autor e actor só se têm ao certo desde 1592. Tudo isso é mais ou menos depois dessa data e antes de 1614. E além das suas peças, ainda representou algumas de Ben Jonson. E, a avaliar pela comezaina que fez com ele e com Michael Drayton, de que lhe resultou a morte, segundo mais tarde contou o vigário de Stratford, e a contar com a caçada furtiva na coutada de Sir Thomas Lucy, a que deve ter-se seguido lauta ceia e foi o motivo concreto da sua quase fuga inesperada de Stratford para Londres - bendita hora! - ainda lhe sobrava tempo para pândegas...
Santo William Shakespeare, meu irmão, herói e mártir, como eu disse num programa de televisão, bicho de teatro pelo génio, pelo vício, por ofício e pelo sangue, perdoa aos literatos que não sabem o que dizem... e ensina-lhes, pelo menos, a escrever bem.

Festeja-se-lhe agora o centenário. Se houver homens na Terra e se não tiverem perdido a graça de falar, festejar-se-á o seu milenário também, que os homens mudam pouco, mesmo em mil anos, no que têm de essencialmente mau e essencialmente bom, nas suas ambições, no seu amor, nos seus ridículos e nas suas fúrias.
Festejá-lo-ão os homens, porque não arrefece o sangue vivo das suas personagens nem as envelhece o tempo. Festejá-lo-ão os poetas, porque foi poeta, os dramaturgos porque foi dramaturgo. Festejá-lo-ão sempre e sobretudo os homens de teatro, fabricantes do efémero, porque foi ao serviço dessas duas horas de riso ou de angústia que sempre tentam erguer no ar como um perfume que se desfaz, que um seu colega de génio compôs uma obra que o transcendeu ou transpôs efémero para a eternidade.

António Pedro, Revista Colóquio, nº 29, Junho de 1964, Fundação Calouste Gulbenkian".

Transcrevi este texto para o Juvenal e para o Simão... embora o Cintra também o devesse ler... se entender.

terça-feira, março 27, 2007

DIA MUNDIAL DO TEATRO

(clique na foto)
E porque é hoje o Dia Mundial do Teatro, faço uma pequena homenagem a uma das maiores actrizes de sempre do Teatro em Portugal - Eunice Muñoz - que estreia hoje, no Teatro Municipal Maria Matos - a peça "Dúvida".
Desta vez foi buscar um artigo saído em 11 de Fevereiro de 1965, na revista Colecção Cinema. Assim, homenageia-se a actriz pelo seu trabalho nos palcos e nos ecrãns.
Espero que gostem.
"Galeria do Cinema Nacional - Eunice Muñoz
- Nome completo: Eunice do Carmo Muñoz Borges
- Nasceu em Lisboa, a 30 de Julho de 1930
A considerada pela crítica como a maior actriz da sua geração, Eunice Muñoz possui uma excepcional galeria de interpretações teatrais, das quais se destacam "Joana d'Arc", "O Milafre de Ana Sullivan" e "O Adorável Mentiroso". Não é só no drama que se distingue, pois no desempenho noutro género notabiliza-se da mesma forma. Recordemos a sua presença na farsa ("Os Direitos da Mulher" e "Três em Lua de Mel") e mais recentemente na comédia ("Mary Mary").
Ao longo dos seus 23 anos de actividade, intercalados com um período de desânimo no qual tentou ser uma empregada comercial, Eunice tem dado o seu concurso, sempre com nota de relevo, à Rádio e Televisão, interpretando folhetins e diversos apontamentos de tele-teatro, destacando-se neste último sector "As Cenas da Vida de uma Actriz".
FILMOGRAFIA
1946 - "Camões", de Leitão de Barros
- "Um Homem do Ribatejo", de Henrique Campos
1947 - "Os Vizinhos do Rés-do-chão", de Alexandre Perla
1948 - "Não há Rapazes Maus", de Eduardo Maroto, (Onde a sua voz se ouvia, narrando a biografia do Padre Américo)
1949 - "A Morgadinha dos Canaviais", de Caetano Bonucci
- "Ribatejo", de Henrique Campos
- "Cantiga da Rua", de Henrique Campos
1964 - "O Trigo e o Joio", de Manuel Guimarães."

quarta-feira, março 21, 2007

Projecto Guttenberg


Acede ao blog www.pagina-a-pagina.blospot.com e fica a saber do que se trata o Projecto Guttenberg.
Podes inscrever-te como revisor de obras ou fazer download de milhares de livros - EBOOK - em várias línguas e sobre variadíssimos assuntos, em formato txt.
Pode-se ainda descarregar IMAGENS, PARTITURAS DE MÚSICAS, AUDIOFILES, AUDIOBOOKS, e tudo de uma forma legal e autorizada, pois este trata-se de um projecto institucional a nivel mundial.
Vale a pena passar por lá.
Para saber mais podes também visitar http://www.gutenberg.org/wiki/PT_Principal.
Lista completa

Esta é a lista completa de obras em língua portuguesa concluídas e disponíveis no Projecto Gutenberg. A grande maioria passou pelo Distributed Proofreaders.
Por ordem alfabética (autor):
Ameno, Francisco Luís
Anchieta, St. Joseph
Anes, Bandarra Gonçalo
Azevedo, Guilherme d’
Barbosa, Vicente
Bocage, Manoel Maria de Barbosa du
Braga, Teófilo
Brandão, Raúl
Camões, Luis Vaz de
Castelo Branco, Camilo
Castilho, António Feliciano de
Castro, Urbano de
Coelho, Trindade
Daniel, João
Dinis, Júlio
Espanca, Florbela
Feijó, António
Figueiredo, António Cândido de
Fonseca, Sebastião da
Freitas, Joaquim de Melo
Galvão, Duarte
Garrett, Almeida
Gil, Augusto
Gonzaga, Tomás António
Herculano, Alexandre
Lendas e Narrativas
Volume I;
Volume II;
Opúsculos por Alexandre Herculano
Volume I;
Volume II;
Volume IV;
Volume V;
Volume VII;
Volume IX;
Junqueiro, Guerra
Leal, José da Silva Mendes
Lopes, Fernão
Matos, Júlio de
Neto, J. Simões Lopes
Nobre, António
Nunes, Cláudio José
Ortigão, Ramalho e Queirós, Eça
As Farpas:
Pato, Raymundo Antonio de Bulhão
Pina, Rui de
Queirós, Eça de
Quental, Antero de
Sepúlveda, Cristóvão
Serpa Pinto, Alexandre Alberto da Rocha de
Silva, Possidonio da
Tolentino, Nicolau
Vasconcellos, António Augusto Teixeira de
Verde, Cesário
Viana, A. R. Gonçalves
Villeneuve, João