terça-feira, janeiro 09, 2007

Os Músicos Portugueses e o 25 de Abril...

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"Somos a Canção que Somos" ...E os artistas vieram para a rua num encontro com o seu público
"Com o objectivo de angariar fundos para o seu sindicato, um grupo de artistas de variedades e fado organizou um espectáculo que se realizou no Coliseu dos Recreios, com lotação esgotada. Para que o povo de Lisboa, que não conseguiu vê-los nesse espectáculo, pudesse ouvi-los, os intérpretes estiveram no Largo de Camões, onde cantaram perante um público numeroso que os aplaudiu.
Com Amália, Mourão, Maria Dulce e Rui Mascarenhas à frente, os artistas desfilaram pelas ruas da cidade, desde o Coliseu ao Camões, empunhando cartazes com "slogans" como Somos a canção que Somos e A canção está na rua.
Em conjunto cantaram Grândola Vila Morena e, antes do "show", houve uma cerimónia simbólica: o lançamento de algumas dezenas de pombos.
Maria Dulce foi muito aplaudida quando declamou o soneto Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e Simone de Oliveira teve de bisar A Desfolhada, canção com que representou Portugal numa edição de um Eurofestival.
A iniciativa, para além da angariação de fundos referida, pretendeu pôr em contacto com o público diversos artistas que não têm tido oportunidade de ser ouvidos depois do 25 de Abril, considerando-se lesados por atitudes que apelidam de discriminatórias pela parte das emissoras de rádio e televisão.
O lisboeta desprevenido mostrou surpresa com a oferta deste espectáculo gratuito e aderiu com contentamento. Os artistas não esperavam, à partida, a presença de tanto publico com o qual confraternizaram durante muitas horas.
Os participantes pretenderam demonstrar que têm o seu público e que necessitam de contactar com ele. E o público esteve lá. E aplaudiu.
No Coliseu, Amália abriu o encontro musical cantando diversos fados. Entre os artistas, contavam-se os nomes de Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Hugo Maia Loureiro, Duarte Mendes, Manuel de Almeida e as fadistas Maria da Fé e Maria Valejo."
in: Revista GENTE - semana de 16 a 22 de Julho de 1974

Jorge de Sena

CARTA AO JOVEM POETA

Meu caro jovem poeta

Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.

De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.

Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrância dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.

Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência... Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.

A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.

Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.

Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de mons­tro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.

Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Mãe Galinha


"Quinta Dimensão
Inês Teotónio Pereira
Dei por mim a fixar os dias das greves dos professores, a ouvir debates sobre a indisciplina nas escolas e a participar em discussões sobre os manuais escolares. Deprimente. O meu filho mais velho entrou para a escola e eu voltei à escola. E só cheiro da mochila já me causa arrepios. Mas entrei na escola de cabeça erguida e preparada para estreitar os laços escola/família.
No fim da minha primeira reunião como membro da Associação de Pais perguntei quando é que era a próxima. Depois de alguns segundos de silêncio responderam-me que só há uma nova reunião quando houver razões para isso: só existem reuniões de pais extraordinárias. Pensei cá para mim que, afinal, esta coisa de ser uma mãe participativa não custa muito.
Uma semana depois resolvi marcar uma reunião com a professora do meu filho, já que a associação não queria saber de mim para nada. "Porquê? Passa-se alguma coisa?", perguntou-me admirada a professora. "Não, mas apetece-me falar sobre ele consigo, já que vai passar mais horas por dia com ele do que eu. Já agora: não quer ser minha amiga?"
Uma semana depois a criança ficou de castigo porque não ouviu não sei o quê.
- Mas o quê?
- Não sei, mãe. Não ouvi.
O certo é que teve uma "bolinha cor-de-laranja". Fiquei então a saber que as crianças são todos os dias classificadas pelo comportamento através de bolinhas que vão preenchendo uma tabela semanal. Estilo jogo de futebol: verde, está tudo bem; cor-de-laranja, está mal; encarnado, vai para a rua.
Na semana a seguir descobri que o professor de música tem como objectivo que as crianças "aprendam a ouvir os sons que as rodeiam", como o estômago, os carros, as árvores - e até se lhes pede que batam palmas com os pés - "porque tudo tem um som...". Não tive coragem de pedir a marcação de uma nova reunião: as aulas só tinham começado há um mês.
O resultado de tudo isto é que o meu filhote de seis aninhos, que ainda há dois meses tinha como objectivo primordial de vida fazer os trabalhos de casa, demora meia hora a levantar-se da cama para ir para a escola. Aprendi que a escola não é para ser levada muito a sério. Ninguém leva. Nem ele."
Revista Atlântico, nº 21 - Dezembro de 2006

domingo, dezembro 24, 2006

Mário Viegas

Da peça Tiradentes (Mário Viegas,José Manuel Osório e Marcelino) tirado no Teatro da Barraca, por Humberto Osório.

Natal à Beira-Rio


NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988

Lisboa, Editorial Presença, 1988

quarta-feira, dezembro 20, 2006

O Melhor de "Bandeira"



Recordar "Quino"





Nascido em 17 de Julho de 1932 na cidade argentina de Mendoza, Joaquin Salvador Lavado é, sob o nome artístico de Quino, o criador de Mafalda. Faz o seus estudos artísticos na Universidade Nacional de Cuyo e instala-se em Buenos Aires a partir de 1954. Envereda pela carreira de ilustrador e desenhador humorístico, colaborando profusamente na imprensa do seu país ('Esto Es', 'Avivato', 'Qué', 'Leoplàn', 'Vea y Lea', 'Cuatro Patas', 'Rico Tipo', 'Siete Dias', etc.).
Em 1964 faz uma incursão única na banda desenhada e cria Mafalda, publicada inicialmente em 'Primera Plana' e, depois, em 'El Mundo' e 'Siete Dias'.

Apesar do sucesso retumbante desta criação — que é objecto de divulgação em muitos países do mundo —, Quino abandona definitivamente a sua personagem em 1973, não mais voltando ao mundo dos quadradinhos. Consagra-se desde então por inteiro ao desenho de humor, onde continua a dar até hoje a dar expressão ao seu finíssimo sentido de observação do mundo envolvente. A sua vasta obra está disponível em língua portuguesa (Edições Dom Quixote e Bertrand Editora). Ao contrário de outras bandas desenhadas que põem crianças em cena (caso dos Peanuts, por exemplo), Mafalda não é o retrato traumatizado e neurótico de uma geração inadaptada, mas um microcosmos onde se confrontam sonhos e angústias pessoais, mas também aspirações e inquietações colectivas.

Através do traço simples e eficaz de Quino, Mafalda é uma banda desenhada politica e socialmente comprometida com o seu tempo. Numa época em que o mundo dos adultos era incessantemente posto em causa pelas gerações mais novas, que aspiravam a um futuro diferente, as histórias de Mafalda eram uma outra forma de mostrar a manipulação e a moldagem das consciências individuais através de instrumentos tão temíveis como os meios de comunicação de massa (e, à cabeça de todos, a televisão), a escola ou a autoridade do Estado.

Texto: Luis Euripo (Revista do Consumidor)

Juízes rejeitam violência doméstica entre 'gays'

Barahona Possolo - Almas Cativas



"A Associação Sindical de Juízes considera que não pode haver crime de violência doméstica quando o casal é composto por duas pessoas do mesmo sexo. Por duas razões: por não existir "um caldo sociológico" de "relação de superioridade física do agente em relação à vítima" nesses casos e porque assim se antecipa a "tutela penal à tutela civil" deste tipo de relacionamento. E conclui: "A protecção da família enquanto composta por cônjuges do mesmo sexo tem um notório - e apenas esse - valor de bandeira ideológica, uma função, por assim dizer, promocional."

Trata-se de "fazer entrar pela janela aquilo que não entrou pela porta". É assim que Pedro Albergaria, um dos dois autores do parecer, sintetiza o que pensa da inclusão dos casais do mesmo sexo nas situações em que se pode verificar o crime de violência doméstica. Para este juiz, não estando previsto no Código Civil o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não se pode estabelecer no Código Penal que a violência entre um casal homossexual constitui um crime específico dos relacionamentos conjugais ou para-conjugais. Além disso, Albergaria considera que "não está minimamente demonstrado que essas situações existem - o legislador deve legislar sobre o que geralmente acontece, não sobre o que pode acontecer ".

"São lutas de todos nós"

Parece haver, pois, duas ordens de razões no parecer assinado por Pedro Albergaria e Mouraz Lopes: as ideológicas e as empíricas. Em relação às duas Rui Pereira, coordenador da Unidade de Missão para a Reforma do Código Penal, apresenta a sua total discordância. "Há pessoas do mesmo sexo a viver em união de facto, situação que a lei já prevê, portanto o argumento da 'antecipação' apresentado não está tecnicamente correcto. Se há violência nessa relação, a tutela jurídica não pode fechar os olhos. Além disso, o crime em causa envolve violência física e psíquica, e não é necessariamente o mais forte fisicamente que maltrata o outro. Aliás, por esse ponto de vista nenhum homem poderia apresentar queixa por levar pancada de outro homem em qualquer circunstância, ou uma mulher por ser agredida por outra mulher."

Certificando que "foram preocupações da revisão do Código Penal a consagração da igualdade na prática, no que respeita à orientação sexual, de acordo com a norma constitucional" Rui Pereira refuta a imputação de intuitos "promocionais": "As lutas contra discriminações são lutas de todos nós. Não é conversa retórica nem bandeira ideológica nenhuma. A igualdade é um valor jurídico em que todos nos reconhecemos como seres humanos."

Parecer "pode ser redutor"

Pedro Albergaria admite não ter pensado, quando redigiu o parecer, "na situação dos heterossexuais em uniões de facto", já que ao instituir o casamento civil como referência nesta matéria e ao excluir os casais do mesmo sexo em união de facto da tipificação do crime de violência doméstica teria então, de fazer uma de duas coisas: ou excluir também os de sexo diferente nas mesmas condições ou fundamentar a discriminação dos homossexuais, proibida pela Constituição e não prevista na lei da união de facto.

Por outro lado, o juiz reconhece que assentar a sua posição no argumento da necessidade de existência de uma relação de superioridade física "pode ser redutor". Mas, insiste, "numa situação de confronto físico é importante e quase todos os casos que chegam aos tribunais têm a ver com essa desigualdade".

Certo é que o crime previsto no artigo 152º da novo Código Penal inclui entre as potenciais vítimas do crime, para além de cônjuge e ex-cônjuge e "pessoa de outro ou do mesmo sexo com quem o agente mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem coabitação", também "progenitor ou descendente" e menores ou pessoas particularmente indefesas que coabitem com o agressor. Sem referência a diferença de sexos e incluindo o ascendente económico." - Fernanda Câncio - Diário de Notícias - 20.12.2006

Enfim...