terça-feira, dezembro 19, 2006

Natália Correia



UMA HISTÓRIA VERDADEIRA DE NATAL

Orquestra de anjos o Natal
tem um som de cristal e prata
mas é uma valsa de cacos que toca
nos bidões do bairro de lata.

Versáteis músicos os anjos
com caracóis de fios de ovo
também um tango de metralha
tocam É a música dos novos

magos que esmagam cidades
num cinzeiro de bombardeamentos
mas é Natal porque no mundo
estar presente é dar presentes.

Que dar ao filho a mãe que a vida
remenda com sucata pública?
Daria a lua se ela não fora
do presidente da república.

No magro corpo rebuscando
de mãe a dádiva precisa
levanta as saias e mostra ao filho
uma flor de pêlo Natal da vida.

Natália Correia

Sebastião da Gama


O Sol já se escondeu

O Sol já se escondeu...
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei.)

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas vou ainda cantando,
temendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(...Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado.)

Sebastião da Gama - Serra-mãe, 2ªEd. (1957)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Mercedes Sosa - Gracias a La Vida

Uma grande cantora... um poema deslumbrante... delicie-se.

sábado, dezembro 09, 2006

A minha árvore é maior que a tua

"Todos os departamentos de sociologia do país deveriam interromper a sua actividade corrente para se debruçarem sobre esse estranho fenómeno chamado "a maior árvore de Natal da Europa". Lamentavelmente, e por mais voltas que dê à cabeça, não consigo imaginar por que razão milhares de pessoas esgotam a sua paciência em intermináveis filas de trânsito para ver um cone metálico gigante a brilhar. Que um bosquímano do Kalahari mude a sua vida por causa de uma garrafa de Coca-Cola, como no velho filme, eu ainda consigo compreender, mas que tão grande turba se arraste por causa de 75 metros de lâmpadas é algo que ultrapassa o meu pobre entendimento. Mistérios da condição humana. A sociologia, a antropologia ou a zoologia que me expliquem o prodígio, se faz favor.

É que, para tornar a história ainda mais bizarra, o manifesto sucesso da iniciativa patrocinada pelo Millenium bcp provocou uma onda de ciumeira nos outros bancos, que agora procuram pôr de pé o seu megaevento natalício, se possível ainda mais mega do que a mega-árvore do bcp. No ano passado, o BES prometeu fazer nevar em Lisboa, mas não conseguiu mais que sujar com uns flocos pífios os passeios do Marquês de Pombal. Este ano é o "Natal Monumental Santander Totta" (belo nome), que conduziu à instalação de uma tenda gigante na Praça da Figueira, onde até se pode largar os filhos enquanto se vai às compras.

Resumindo, temos duas das três mais importantes praças de Lisboa ocupadas com publicidade à banca, na forma de supostas homenagens ao espírito natalício. Não sei do que é que os outros bancos estão à espera. O BPI poderia perfeitamente construir o maior trenó do mundo, com renas à proporção, e colocá-lo no meio do Rossio, que está um bocado despido; e a Caixa Geral de Depósitos deveria investir num presépio em tamanho XXL para a Praça do Município, quem sabe aproveitando parte do edifício da câmara para estábulo. Porque não? A dívida que Santana deixou é grande. Talvez se conseguisse um abatimento nos juros."

João Miguel Tavares, Diário de Noticias - 09 de Dezembro de 2006

sexta-feira, dezembro 08, 2006

"Fusilamientos de 3 de Mayo de 1808"

Francisco Goya

"CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA"

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

domingo, dezembro 03, 2006

Importa-se de repetir...?

Mais uma excelente frase dita pelo nosso Rei sem trono, D. Duarte Pio
"Explicaram-me o assunto de maneira muito natural: mostraram-me um boi e uma vaca a copular e achei aquilo um bocado nojento.
Até aos seis anos, pensava que as crianças nasciam como cogumelos, não sei porquê. Talvez fosse romântico."
In, Revista Sábado

O Melhor de "Bandeira"


sábado, dezembro 02, 2006

Critica do jornal "Público" (Suplemento Mil Folhas)


Critica literária do jornal Publico, suplemento Mil Folhas, à reedição (revista e aumentada) do livro Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta. Texto de Adelino Gomes - 1 de Dezembro de 2006
"Nove anos depois surge uma nova versão de Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta. Revista, aumentada e muito melhorada.
(Novas) Máscaras de Salazar

Quando veio a lume, em 1997, causou incómodo. Talvez surdo, mas muito embaraçoso. A forma como nos oferecia Salazar - próximo, quase íntimo, o que significa também, inevitavelmente, humano, terno - chocava com a imagem canónica do duro, distanto, desumano ditador que durante quase quatro décadas comandou os destinos de Portugal.

Porque quebrava um tabu, o livro não passou despercebido e foi conquistando leitores, ano após ano. Mas, porque, por via de regra, a incorrecção política se paga caro - e esta, para mais, nos chegava de um antifascista e democrata reconhecido -, ficou muito aquém do reconhecimento público que merecia. Ou, talvez, porque há mesmo um tempo que é preciso deixar passar antes de nos sentirmos preparados para olharmos certos episódios da vida colectiva. Sobretudo aqueles que nos estão mais próximos e de que menos nos orgulhamos, porque nos confrontam com as nossas tibiezas, a nossa cobardia. Porque cruamente nos devolvem uma imagem do país e dos portugueses na qual, afinal, nos reconhecemos a nós também.

Nove anos passados, a editora Casa das Letras/Editorial Notícias relança "Máscaras de Salazar", de Fernando Dacosta. Numa "versão revista e aumentada", escreve-se na capa, que promete a "revelação de factos desconhecidos", enumerados na contracapa: Salazar não caiu da cadeira; conservou escondidas duas cápsulas de cianeto fornecidas por Hitler; a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento; foi ele que sugeriu a fuga de Cunhal da prisão de Caxias; e a Santa Sé chegou a considerá-lo a "encarnação viva do demónio".

Mesmo quando capa e contracapa nos soam a publicidade demagógica e algo enganosa - as cápsulas, a terem existido, não foram fornecidas por Hitler, mas trazidas de Berlim por um diplomata, escreve-se no texto; a sugestão da fuga de Cunhal terá sido feita à PIDE, não a este, como parece sugerir-se; e onde é que estão os "documentos inéditos" que provem algumas destas novidades? -, trata-se de factos ou hipóteses de factos suficientes para aguçar a curiosidade do mais indiferente dos leitores.

(Re)Lemos o livro. Lá estão os actores conhecidos do regime do Estado Novo (oposição incluída, ainda que esta mais efemeramente, quase como ruído de fundo). E, entre todos, nos lugares cimeiros, Salazar e Maria de Jesus.

O Salazar frio e implacável na condução dos negócios do Estado e a fiel D. Maria, "a verdadeira, apesar de oculta, primeira dama do Estado Novo", actuando na zona mais obscura mas não menos influente dos bastidores em que, tantas vezes, se jogam, comprometem, criam destinos. Mas também e sobretudo as múltiplas máscaras que Salazar usava nas relações com o exterior e no pequeno mundo, em que mais do que ele, D. Maria, matreira, imperava.

Um mundo rural, aldeia implantada no centro de Lisboa, onde "chegou a haver 500 galinhas (existiam chocadeiras a petróleo para os ovos)"; para onde "amigos de Viseu, Santa Comba, Elvas e Braga" enviavam, "todas as semanas, cestos recheados de carnes, fumeiros, enchidos, hortaliças, pão-de-ló, broa, queijo, vinho, azeite"; e na qual "chegou a haver 13 pessoas hospedadas, a comer, a vestir, a calçar", a quem o camponês António sustentava, tal pai adoptivo (protector da desventura ou/e pedófilo?) de duas "afilhadas" e de mais uma quantidade de "miúdas", a uma das quais, encarregada de lhe preparar a água para o banho, uma vez pelo menos (contado pela própria) "apareceu de roupa interior", gabando-lhe o "muito jeito".

Um secreto, misterioso, contraditório mundo - Salazar frequentador de astrólogos e videntes; Salazar anticlerical, "mais crente na Providência do que em Deus"; Salazar "ao mesmo tempo sensível e cínico, casto e pervertido, (...) medíocre e genial, íntegro e desgraçado" - na intimidade de cujos regentes o jovem repórter Fernando Dacosta, então a trabalhar na agência Europa-Press, da Opus Dei, foi admitido, em meados da década de 60. Primeiro por D. Maria; depois por Salazar, quando este o soube oriundo de Segões, aldeia próxima de Viseu, e com adolescência passada na Folgosa, junto à Régua, zona de que "gostava muito".

Para lá da escrita - que lhe sai das mãos cinzeladas, como raros cronistas se preocupam em fazer, entre nós -, Fernando Dacosta confirma-se, nesta nova versão do livro, como senhor de excepcional capacidade de encenação. Que aplica, acima de tudo, na cerzidura de anódinos episódios do quotidiano aos quais dá alma e profundo sentido vivencial.

Além dos textos inéditos, com as tais revelações para encher o olho, o autor foi buscar pedaços do seu "Nascido no Estado Novo", que está a ser actualizado e será republicado "em breve".

De tudo isto - e, quem sabe, também, das lentes do tempo através das quais agora lemos a obra? - resulta uma versão "revista e aumentada". Na verdade, aos nossos olhos, muitíssimo melhorada. Tornando-a de leitura obrigatória para quem, despido de verdades ("das grandes primeiro que das pequenas/das tuas antes que de quaisquer outras" como aconselhava Cesariny), queira lançar novo olhar sobre os anos, cruciais anos para sucessivas gerações de portugueses, que vão do final da I República até 1970, data da morte de António de Oliveira Salazar.

Máscaras de Salazar
Autor - Fernando Dacosta
Editor - Casa das Letras/Editorial Notícias, 10ª Edição
371 págs., €18,50"

INFORMAÇÃO

Fernando Dacosta irá apresentar o livro - MÁSCARAS DE SALAZAR - através de um debate a realizar-se na próxima terça-feira, dia 5 de Dezembro de 2006, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza, pelas 6 horas da tarde, com a presença do próprio e de outros convidados.