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sexta-feira, dezembro 08, 2006
"CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA"
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena
domingo, dezembro 03, 2006
Importa-se de repetir...?
sábado, dezembro 02, 2006
Critica do jornal "Público" (Suplemento Mil Folhas)

Quando veio a lume, em 1997, causou incómodo. Talvez surdo, mas muito embaraçoso. A forma como nos oferecia Salazar - próximo, quase íntimo, o que significa também, inevitavelmente, humano, terno - chocava com a imagem canónica do duro, distanto, desumano ditador que durante quase quatro décadas comandou os destinos de Portugal.
Porque quebrava um tabu, o livro não passou despercebido e foi conquistando leitores, ano após ano. Mas, porque, por via de regra, a incorrecção política se paga caro - e esta, para mais, nos chegava de um antifascista e democrata reconhecido -, ficou muito aquém do reconhecimento público que merecia. Ou, talvez, porque há mesmo um tempo que é preciso deixar passar antes de nos sentirmos preparados para olharmos certos episódios da vida colectiva. Sobretudo aqueles que nos estão mais próximos e de que menos nos orgulhamos, porque nos confrontam com as nossas tibiezas, a nossa cobardia. Porque cruamente nos devolvem uma imagem do país e dos portugueses na qual, afinal, nos reconhecemos a nós também.
Nove anos passados, a editora Casa das Letras/Editorial Notícias relança "Máscaras de Salazar", de Fernando Dacosta. Numa "versão revista e aumentada", escreve-se na capa, que promete a "revelação de factos desconhecidos", enumerados na contracapa: Salazar não caiu da cadeira; conservou escondidas duas cápsulas de cianeto fornecidas por Hitler; a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento; foi ele que sugeriu a fuga de Cunhal da prisão de Caxias; e a Santa Sé chegou a considerá-lo a "encarnação viva do demónio".
Mesmo quando capa e contracapa nos soam a publicidade demagógica e algo enganosa - as cápsulas, a terem existido, não foram fornecidas por Hitler, mas trazidas de Berlim por um diplomata, escreve-se no texto; a sugestão da fuga de Cunhal terá sido feita à PIDE, não a este, como parece sugerir-se; e onde é que estão os "documentos inéditos" que provem algumas destas novidades? -, trata-se de factos ou hipóteses de factos suficientes para aguçar a curiosidade do mais indiferente dos leitores.
(Re)Lemos o livro. Lá estão os actores conhecidos do regime do Estado Novo (oposição incluída, ainda que esta mais efemeramente, quase como ruído de fundo). E, entre todos, nos lugares cimeiros, Salazar e Maria de Jesus.
O Salazar frio e implacável na condução dos negócios do Estado e a fiel D. Maria, "a verdadeira, apesar de oculta, primeira dama do Estado Novo", actuando na zona mais obscura mas não menos influente dos bastidores em que, tantas vezes, se jogam, comprometem, criam destinos. Mas também e sobretudo as múltiplas máscaras que Salazar usava nas relações com o exterior e no pequeno mundo, em que mais do que ele, D. Maria, matreira, imperava.
Um mundo rural, aldeia implantada no centro de Lisboa, onde "chegou a haver 500 galinhas (existiam chocadeiras a petróleo para os ovos)"; para onde "amigos de Viseu, Santa Comba, Elvas e Braga" enviavam, "todas as semanas, cestos recheados de carnes, fumeiros, enchidos, hortaliças, pão-de-ló, broa, queijo, vinho, azeite"; e na qual "chegou a haver 13 pessoas hospedadas, a comer, a vestir, a calçar", a quem o camponês António sustentava, tal pai adoptivo (protector da desventura ou/e pedófilo?) de duas "afilhadas" e de mais uma quantidade de "miúdas", a uma das quais, encarregada de lhe preparar a água para o banho, uma vez pelo menos (contado pela própria) "apareceu de roupa interior", gabando-lhe o "muito jeito".
Um secreto, misterioso, contraditório mundo - Salazar frequentador de astrólogos e videntes; Salazar anticlerical, "mais crente na Providência do que em Deus"; Salazar "ao mesmo tempo sensível e cínico, casto e pervertido, (...) medíocre e genial, íntegro e desgraçado" - na intimidade de cujos regentes o jovem repórter Fernando Dacosta, então a trabalhar na agência Europa-Press, da Opus Dei, foi admitido, em meados da década de 60. Primeiro por D. Maria; depois por Salazar, quando este o soube oriundo de Segões, aldeia próxima de Viseu, e com adolescência passada na Folgosa, junto à Régua, zona de que "gostava muito".
Para lá da escrita - que lhe sai das mãos cinzeladas, como raros cronistas se preocupam em fazer, entre nós -, Fernando Dacosta confirma-se, nesta nova versão do livro, como senhor de excepcional capacidade de encenação. Que aplica, acima de tudo, na cerzidura de anódinos episódios do quotidiano aos quais dá alma e profundo sentido vivencial.
Além dos textos inéditos, com as tais revelações para encher o olho, o autor foi buscar pedaços do seu "Nascido no Estado Novo", que está a ser actualizado e será republicado "em breve".
De tudo isto - e, quem sabe, também, das lentes do tempo através das quais agora lemos a obra? - resulta uma versão "revista e aumentada". Na verdade, aos nossos olhos, muitíssimo melhorada. Tornando-a de leitura obrigatória para quem, despido de verdades ("das grandes primeiro que das pequenas/das tuas antes que de quaisquer outras" como aconselhava Cesariny), queira lançar novo olhar sobre os anos, cruciais anos para sucessivas gerações de portugueses, que vão do final da I República até 1970, data da morte de António de Oliveira Salazar.
Máscaras de Salazar
Autor - Fernando Dacosta
Editor - Casa das Letras/Editorial Notícias, 10ª Edição
371 págs., €18,50"
INFORMAÇÃO
Fernando Dacosta irá apresentar o livro - MÁSCARAS DE SALAZAR - através de um debate a realizar-se na próxima terça-feira, dia 5 de Dezembro de 2006, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza, pelas 6 horas da tarde, com a presença do próprio e de outros convidados.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
terça-feira, novembro 28, 2006
Parabéns à Companhia Teatral do Chiado pelos Dez Anos em Cena das OBRAS COMPLETAS DE WILLIAM SHAKESPEARE EM 97 MINUTOS
Primeiro Elenco
Segundo Elenco
Terceiro Elenco
Quarto Elenco
Quinto Elenco(que é igual ao primeiro, mas com mais anos em cima)
É pois com muita alegria que a Companhia Teatral do Chiado vê as suAs Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos atigirem hoje o 10º ano consecutivo de representações.
Para os autos e para a história registam-se a 118ª digressões e a 1.019ª representações para um cômputo de 156.020 espectadores.
Lauro António Comércio do Porto
«Percebe-se porque razão muitos espectadores já viram vezes sem fim esta obra, porque ela nunca é a mesma, vive da improvisação do dia, da relação palco-plateia que se estabelece, e da inspiração de uns e outros. Este é o tipo de teatro que nenhum meio tecnológico consegue substituir. Perante o cinema, a televisão ou mesmo a interactividade do pc, este teatro não morre, sobrevive.»
Joel Neto Record
«A "soirée" é imperdível.»
José Jorge Letria Jornal da Costa do Sol
«Vale a pena ter presente o êxito desta companhia profissional que, erguendo alto a bandeira que Mário Viegas nunca deixou de empunhar, assume o teatro como um projecto profissional de qualidade que não se confina ao espartilho das modas (...) imposto pela crítica dominante.»
Ricardo Salomão Blitz
«... uma intensa interactividade com a audiência, conseguindo construir com segurança, alegria e inteligência uma enorme festa.»
Jaime Cravo Política Moderna
«A melhor homenagem (em originalidade e simplicidade) alguma vez feita ao criador de Romeu e Julieta. Eles, os três shakers preferidos de Shakespeare, com a capacidade para 37 shots de cair para o lado, merecem todas as palmas e mais algumas. Ela, a Companhia Teatral do Chiado, merece o sucesso que tem tido e o apoio que não tem do Ministério da Cultura. Juvenal Garcês foi quem dirigiu, Vasco Letria deu luz (...). Para todos eles, e mais alguns, muitos, Gustavo Rubim, Rita Lello, Jorge Pinto (...). Para todos, pensamos não ter esquecido ninguém, a POLÍTICA MODERNA tem algumas palavras que ainda ninguém lhes deu: gostámos muito do espectáculo.»
Manuel João Gomes Público
«Nunca tão poucos actores - um trio exímio na arte de comunicar - provocaram tantas gargalhadas (...)»
Eugénia Vasques Expresso
«A Revisitação hilariante da Obra Completa do velho Bardo.»
Rita Bertrand A Capital
«Toda a plateia ruboresce de riso com as piadas picantes»
Ana Maria Ribeiro Correio da Manhã
«Um espectáculo absolutamente hilariante, a um ritmo de cortar a respiração»
Carla Maia Notícias Magazine
«Um trio de actores insuperável»
Fernando Midões Diário de Notícias
«Shakespeare revisitado numa obra que consegue ser plena, conseguida, lucida, critico-humorística»
Marina Ramos Público
«Um espectáculo interactivo, capaz de eliminar qualquer depressão»
Sofia Reis Valor
«Se quer passar um bom serão, não perca esta peça. Vai ver que não se arrepende.»
Carlos Porto JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias
«Situações de grande comicidade que se deve ao texto, àa tradução, ao ritmo imposto pela encenação e ao trabalho interpretativo.»
José Mendes
«Esta (...) proposta da Companhia Teatral do Chiado é irresistível. Está bem de ver e rever.»
Mulher-Aranha Público (Computadores)
«Não parei de rir»
Alexandra Carita A Capital
«Um espectáculo que já deu provas da sua qualidade»
Carla Maia de Almeida Notícias Magazine
«Garante-se riso puro e visceral»
Tito Lívio Correio da Manhã
«Um espectáculo endiabrado e velocíssimo»
Rute Coelho Tal & Qual
«Se quer passar uma noite bem-disposta, não perca»
Manuel Agostinho Magalhães Expresso
«Um "digest" de rir à gargalhada»
Jorge Sampaio, Presidente da República
«Excelente peça. Irreverente, mas muito bem feita. Aqui, aprendi a olhar Shakespeare de uma maneira muito divertida»
Ana Sousa Dias Por Outro Lado - RTP2
«Nunca ri tanto e tanto tempo seguido na minha vida. Fartei-me de chorar de rir»
Eugénia Vasques Expresso
«Os professores de literatura inglesa têm aqui uma bela proposta para um teste de avaliação de conhecimentos ou, se quiserem distribuir felicidade, para uma introdução paródica à obra de Shakespeare. A brincadeira, em ritmo e adaptação muito portugueses, pode redundar em muita seriedade.»
domingo, novembro 26, 2006
Reedição - Revista e Aumentada - de "As Máscaras de Salazar" - de Fernando Dacosta
Depoimentos inéditos
Revelação de factos desconhecidos
Versão revista e aumentada 50 000 exemplares vendidos
Uma obra decisiva para a compreensão do século XX português (El País)
Através de dezenas de depoimentos inéditos, incluindo os do próprio Salazar e de D. Maria, a revelação de dados até agora completamente desconhecidos:
. O ex-presidente do Conselho não caiu de nenhuma cadeira.
. Conservou, escondidas, duas cápsulas de cianeto fornecidas por Hitler.
. A Pide matou Delgado sem o seu conhecimento.
. Foi ele que sugeriu a fuga de Cunhal da prisão de Caxias.
. As razões que levaram a Santa Sé a considerá-lo a «encarnação viva do demónio».
«O mundo dacostiano alcança uma complexidade, uma riqueza e uma dimensão invulgares. Encena, com grande maestria, rupturas que constituem a tragédia nacional portuguesa.» (Patrick Durrer, Universidade de Zurique)
«Fernando Dacosta tem sido um dos mais significativos intérpretes do universo do chamado Estado Novo, ditadura de fato cinzento e não de uniforme, dirigida por pessoas com formação universitária e não por militares.» (Henrik Nilsson, Svenska Dagbladet, Suécia)
«Não há nada de semelhante na moderna literatura portuguesa. Fernando Dacosta é um escritor a ser conhecido fora de Portugal.» (Celso de Oliveira, World Literature Today, Universidade de Oklahoma)
Mário Cesariny - 1923/2006
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco









