segunda-feira, novembro 13, 2006



Sexta-Feira, dia 10 de Novembro, a convite do meu amigo Duarte, fui assistir à estreia de Conversas de Camarim - com Simone de Oliveira, Vitor de Sousa e Nuno Feist, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal de São Luiz.
Foi um espectáculo muito bom, onde mais uma vez pude confirmar a excelência de Simone em palco, quer em postura quer em voz. A sensualidade e a profunda sensibilidade passada por Simone ao cantar são extraordinárias, sendo impossivel não nos comover.
O espectáculo inicia-se com "Visita de Camarim" e termina com "Palavras Gastas". O expoente máximo, para mim, foi quando Simone cantou "Rosa e a Noite", uma extraordinária música com poema de Vasco de Lima Couto.
No entanto, e apesar de achar que este é um espectáculo imprescindivel, não deixa de ter os seus "senãos"... tem Vitor de Sousa a mais. O equilibrio entre aquilo que foi a participação de Simone e aquilo que é a participação de Vitor não é o mais correcto.
Todos sabemos que Simone de Oliveira é uma contadora de histórias interessantíssima e com imensa piada. Pois da boca dela não se ouviu uma única... E o Vitor fala, fala, declama, declama, e fala, fala, declama, Simone canta, e Vitor fala, fala, declama, declama, declama, fala, fala, declama, fala, Simone canta, canta, e Vitor fala, fala, fala... é mais ou menos assim a coisa.

Acho que talvez deveriam ter chamado de Monólogos de Camarim com Vitor de Sousa e a participação generosa de Simone de Oliveira.
E atenção: eu não tenho rigosamente nada contra o Vitor de Sousa. Reconheço que tem o seu relativo valor. Mas temos de ser honesto e dizer que quem vai ver aquele espectáculo - 99,8% das pessoas - vão para ver e ouvir Simone de Oliveira, e não o Vitor de Sousa. E a sensação com que eu sai de lá foi: soube a muito pouco. Ela muito apagada - excepção feita quando canta, que aí dá tudo de uma forma espantosa - e o Vitor muito saliente.

Espero não estar a cometer nenhuma injustiça ao dizer estas coisas, que não é esse o propósito. É apenas uma opinião de alguém que esperava uma Simone mais interventiva na fala e durante o espectáculo.
Mas eu também acho que mesmo que Simone estivesse 4 horas em palco a falar e a cantar eu iria sempre dizer que sabe a pouco... porque Simone sabe sempre a pouco.
Eu ainda estou pasmo com a capacidade vocal, de graves limpos e claros, com que Simone está a cantar. Há muito tempo que não a ouvia cantar de uma forma tão certa, rigorosamente adequada à sua capacidade vocal neste momento. Simone tem, de facto, ainda muito para dar à música portuguesa e à historia do espectáculo em Portugal.

Já sabem que é só este mês de Novembro. É melhor irem já no próximo fim-de-semana. É no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz - aquele que fica nas traseiras do Teatro-Estúdio Mário Viegas - às 23.30 m. O preço dos bilhetes é de 15 € mas com alguns descontos que não vos sei dizer. Corram...

terça-feira, novembro 07, 2006


Ora vejam como em mais de cem anos nada mudou... e porque haveria de mudar...?

A Illustração – Revista Quinzenal para Portugal e Brazil, 20 de Maio de 1884, director Mariano Pina, Paris – cota Biblioteca Nacional J. 1505 M.

“Chronica

Ha dois seculos pelo menos que o mundo inteiro admitte sem discussões uma lenda que deseja passar ao estado de verdade e ao estado de axioma, e que diz assim – Paris é a terra onde melhor se fabrica o riso.
Em todo o seculo XVIII os francezes passaram a sua vida a conversar com Mlle. de Nesle e com a Pompadour, a fazer phrases pelos salões dourados e vastos das Tulherias e pelos velludos de relva dos jardins de Versailles, onde ha satyros que nos espreitam e que riem com o sorriso branco dos marmores por detraz das ramas dos castanheiros – para provarem ás gentes que só eles tinham graça, e que para além da França as sociedades matavam o seu tempo aborrecendo-se e abrindo a bocca. E appareceu Beaumarchais para confirmar a coisa, e hoje a graça parece ser feita exclusivamente de barro francez. Os inglezes, de quando em quando, pela boca de Punch ainda protestam contra semelhante lenda. Mas o Punch não tem razão – porque não tem bom barro! A Grã-Bretanha não precisa de mais gloria porque foi ella quem inventou o beef. Mas a graça, ainda não ha melhor no mercado do que a franceza, a que se encontra á venda por toda a parte, em S. Francisco e em Pekim, e que só se fabrica entre o Café de la Paix e o restaurante do Brébant, quasi sempre ás horas em que toda a Europa honesta dorme.
Mas se Paris é a terra onde melhor se fabrica o riso, é necessário tambem que todo o mundo saiba e que todo o mundo comprehenda que – Lisboa é a terra onde melhor se fabricam as cousas que fazem rir!

Uma das grandes causas que levaram Lisboa até á fabricação verdadeiramente indigena de coisas ridiculas, tendo mais originalidade e mais aspecto primitivo que a própria louça das Caldas e a louça preta d’Aveiro, é a preponderância da imbecilidade insolente nos negocios da terra, obrigando os espiritos sensatos a affastarem-se – deixando o campo livre a todos os banaes, a todos os idiotas, a todos os insignificantes, que se mettem em tudo e que tudo conquistam.
Presentemente em Lisboa raros são os indivíduos que se acham nos lugares que de direito lhes competem;
e são principalmente os governos que se encarregam de collocar os sapateiros nos lugares de alfayates e vice-versa.
De modo que um sensato e pacifico morador da Baixa que assista, sem alterar o seu sangue-frio, a tanta irregularidade e a tanto desconchavo, no dia em que precisar d’um par de botas não sabe ao certo a quem se ha de dirigir – se ao sr. Nunes Algibebe, se ao tribunal da Bôa-Hora, se á secção geodesica, se á Padaria Militar!...

(…)

Os governos lembraram-se um dia de soccorrer a arte portugueza, de ouvir todas as noutes a Somnambula, e de possuir gratis um camarote em S. Carlos. Sobretudo de possuir gratis um camarote! E como em Portugal se não sabe que destino dar a tanto dinheiro que atulha as arcas do thesouro, dão-se todos os annos 25 contos de reis para que venham italianos a Lisboa deliciar os ouvidos de Suas Excellencias os Ministros, - emquanto os pintores portuguezes que illustram em França e Italia o nosso paiz produzindo trabalhos de primeira ordem, teem que viver em Paris com pensões miseraveis;”

segunda-feira, novembro 06, 2006



Leiam este fantástico texto escrito em 1885 - por Mariano Pina - sobre o "Manneken-Pis" de Bruxelas. É uma pérola jornalistica do séc. XIX.

A Illustração – Revista Quinzenal para Portugal e Brazil, 05 de Julho de 1885, director Mariano Pina, Paris – cota Biblioteca Nacional J. 1505 M.

“Uma grande curiosidade de Bruxellas é o Manneken-Pis. Não se admirem se eu tiver de abusar um pouco de redundancias e outros trucs rhetoricos, para lhes poder explicar o que é o Manneken-Pis, que todo o viajante pode ver, impavido, n’uma rua de Bruxellas, á luz do sol hollandez, protegido por uma grade de ferro.
O Manneken-Pis é um menino de bronze, bonito e rechonchudo como um anjo de Rubens, completamente nu, como um menino Jesus, que se vê de pé, n’uma posição arrogante, a mão esquerda apoiada sobre a cintura, em cima d’uma pedra esculpida que fecha em baixo n’um tanque. É uma fonte collocada no angulo d’uma rua, de encontro a um predio. O jacto d’agua corre dia e noute, incessantemente, do corpo do menino de bronze, sempre claro, sempre fresco, sempre apetecivel, e muita filha de Bruxellas tem alli enchido o copo em noute calmosa d’agosto. Ora este jacto d’agua crystallina, que não corre da pedra esculpida onde o menino pousa, mas sim do proprio menino – corre... (nem eu sei como hei de dizer isto ás gentes graves do Sul, o que é tão natural e tão gracioso entre as gentes do Norte!) corre... corre do sitio onde nas estatuas se costuma pôr uma parra! Mas como se trata d’um innocentinho, illiminou-se a folha de vinha, e vêmol-o impavido, arrogante, a mão esquerda na cintura, a mão direita dirigindo o jacto, com toda a graça e toda a ingenuidade d’um bébé de trez annos...
Um dia um Burgo-mestre de Bruxellas, homem circumspecto, que usava oculos azues e em muita conta tinha os bons costumes e a moral, teve a ideia disparatada e idiota de querer suprimir a fonte – por indecente! O que fariam os catholicos, se um papa ou um bispo decretasse que se collocasse uma parra em todos os meninos Jesus da diocese?!... O que fizeram os moradores de Bruxellas. – Revoltaram-se em massa contra a vontade do Burgo-mestre, e o homem teve de ceder, para não ver a fonte pela primeira vez manchada de sangue. O Manneken-Pis é considerado como um fetiche. Bruxellas sem o seu menino de bronze perdia a metade do seu caracter historico. O Manneken-Pis é um resto da tradição flamenga que fez dos Paizes-Baixos no seculo XVI o povo superior em artes, industrias e sciencias que occupa uma das mais bellas paginas da historia universal.
Este menino de bronze é tambem um ricasso, tendo predios em Bruxellas como qualquer burguez. Ainda ultimamente, uma velha dama sentimental, sem herdeiros forçados, lhe deixou em testamento perto d’um milhão de francos. O executor testamentário é o Burgo-mestre da cidade. E todos os dias de festa, os moradores de Bruxellas gosam do curioso espectaculo de ver o seu Manneken-Pis fardado de general, chepéo armado, casaca de velludo bordado a ouro e prata, calções de velludo, botas de polimento, luvas brancas... Um deslumbramento!
Houve por um momento a ideia, n’estes dias de festa, ao vêl-o assim tão janota e tão bello, de que seria conveniente... fechar-lhe a torneira! Mais outra ideia d’um outro Burgo-mestre... Sempre a embirrarem com o anjinho, os maldictos! Se o proprio monarcha embirra alguma vez com elle – a corôa corre-lhe o risco! Porque de novo o publico se oppôz, e oppôz-se inergicamente a que fosse supprimido o jacto, pelo facto do anjinho se vestir de general...
E teve de se fazer um furo no riquissimo velludo! E ou seja de dia ou de noute, ou dia ordinario ou dia de festa – Manneken-Pis, do alto da sua fonte, para regalo e orgulho da bella cidade de Bruxellas, continua dirigindo, imperturbavelmente, o seu jacto... que até parece um bombeiro!..."

MARIANO PINA

domingo, novembro 05, 2006

O Meu "Jackpot" no Casino Lisboa


Ontem, dia 4 de Novembro, fui pela primeira vez ao Casino Lisboa e, por apenas 25 euros, saiu-me um JACKPOT... mais um inesquecível concerto de Carlos do Carmo.
Após ter ido à sessão das 15 e 20 ver o filme "Em Paris" - que desde já recomendo - passei pela FNAC do Saldanha Residence com o intuito de comprar dois bilhetes - para a minha mãe e irmã - para assistirem ao concerto de Rui Veloso no Pavilhão Atlântico. Acabei por sair de lá com um bilhete, para mim, para o Carlos do Carmo no Casino Lisboa.
Já perdi a conta ao número de concertos dados por Carlos do Carmo a que já assisti - creio que o primeiro foi no Teatro Camões - e creio que acabo sempre por achar que o último é sempre melhor que o anterior. Desta vez... a história repete-se.
Foi um grande, grande concerto. Sala cheia com um "público de elite", usando uma expressão do próprio Carlos do Carmo. Recebido logo em apoteose, o ritmo manteve-se assim até ao final.
Muito humor, muitas verdades e inúmeros recados à industria discográfica e às rádios portuguesas. - "Se me quiserem ouvir cantar, sintonizem a Radio Nacional de Espanha... canto lá todas as noites", ironizava Carlos do Carmo, referindo que passa mais música portuguesa nas rádios estrangeiras que nas nacionais.
Homenageou Lucilia do Carmo que, se fosse viva, completaria neste dia 4 de Novembro, 87 anos de vida. Carlos do Carmo escolheu cantar do reportório de sua mãe o fado que ele e o pai mais gostavam de ouvir Lucilia cantar - "Olhos Garotos" (que a fadista Raquel Tavares incluiu no seu disco de estreia). Este tema trouxe também consigo uma homenagem a Jaime Santos e João Linhares Barbosa.
Carlos do Carmo abriu-nos o apetite durante o concerto ao cantar três novissimos fados que irão estar presentes no seu próximo disco, cuja gravação irá começar dentro de meses. Colocou os óculos, pediu desculpa por ter de usar cábula e cantou três espantosos fados. Um escrito por Nuno Júdice, outro por Júlio Pomar (sim, o pintor) e um outro, se a memória não me falha, por Fernando Pinto do Amaral. Os fados são fantásticos, surpreendentes, sendo "o fado mais jovem" o escrito pelo octogenário Júlio Pomar. Pela amostra dada será, com toda a segurança, um disco cheio de emoções e que nos irá trazer toda uma nova geração de poetas para o Fado.
O resto, foi todo um desfilar de parte dos grandes êxitos de Carlos do Carmo - faltando apenas, com grande pena minha, "Estrela da Tarde", de Ary dos Santos -, recentes ou antigos... na sua maioria acompanhados pela belissima Orquestra Sinfonietta de Lisboa.
Foram duas horas de pura magia em que eu pude exorcizar e transpôr vários estados de alma, fosse choro ou riso, melancolia ou euforia, Vida ou Morte.
Quanto à voz e postura de Carlos do Carmo em palco nem vale a pena referir... são 43 anos a pisar as tábuas... já não tem que provar nada a ninguém. As ovações de pé, os "bravo", os demorados "encores" e as caras comovidas e satisfeitas da assistência disseram tudo.
Como se vê, foi mesmo uma noite de JACKPOT e dos grandes... e ainda tive direito ao fado (ou cançã0) "No teu Poema" que, a meu ver, é um dos mais belos poemas de sempre (então a versão cantada por Simone de Oliveira derrota-me por completo).
Só me resta dizer - Obrigado!

NO TEU POEMA

No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.

No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

José Luis Tinoco

segunda-feira, outubro 30, 2006


Morreu o especialista em criminologia Artur Varatojo

Artur Varatojo morreu ontem, aos 80 anos, vítima de cancro. O seu corpo está em câmara-ardente na Igreja do Santo Condestável, Lisboa, de onde partirá para o cemitério dos Prazeres hoje à tarde (às 16 horas).

Artur Varatojo nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Catarina, a 21 de Agosto de 1926. Em 1949 completa a sua licenciatura em Economia e Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Em 1976 licencia-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. E em 1985 obtém o Curso Superior de Medicina Legal.

"Se ao longo da sua vida Artur Varatojo tem tido ampla divulgação nos media, através de entrevistas e artigos sobre a sua obra, não é menor a sua participação como realizador de programas radiofónicos e televisivos e cronista de imprensa". Assim era apresentado o advogado criminologista na página que tinha na Internet (www.esquilo.com).

Para rádio fez a adaptação de "Ala dos Namorados", de Campos Júnior, o folhetim "O Caso das Crianças Desaparecidas", e, com o pseudónimo Dr. Fantasma, a rubrica "Na Pista do Crime", no Rádio Clube Português.

Para a televisão ,Varatojo, como especialista de criminologia e assuntos policiais, fez o programa ABC do Crime" (emitido durante 7 anos) e a "Selecção Policial" (emitida durante 8 anos). Foi autor de vários concursos da RTP, nomeadamente "Ou Sim Ou Não", "A Dama ou o Tigre" e o "Noves Fora Nada", apresentado por Artur Agostinho. Durante 17 anos escreveu para "A Capital" a crónica semanal "O Crime Visto por" .

Jornal de Noticias, 30 de Outubro de 2006

domingo, outubro 29, 2006


Elegia da Infância

Morta a infância, o que restou,
Não tem beleza nem condão:
- Um banal arremedo de presença,
Que os espelhos acusam
De temer a verdade...
Uma alma transida de mistério,
Procurando, na treva,
Um mundo que não há.

Morta a infância , que fazer?
- Cobri-la com um sorriso,
Erguer ao céu os olhos marejados
E deixá-la afundar-se
No abismo do tempo.

Morta a infância, que se apague
O meu rastro, na vida,
Já sem milagre nem grandeza!
Mas brandamente, ao menos, brandamente...
- Como pegadas em areia fina,
Delidas pela brisa
Duma tarde estival.

Carlos Queirós

quinta-feira, outubro 26, 2006

UM ACTO DE BARBÁRIE:
SOBRE O ENCERRAMENTO DO MUSEU DE ARTE POPULAR

Em Abril de 2007 tinha já o Ministério da Cultura, através dos órgãos de comunicação social, levantado a hipótese de encerramento do Museu de Arte Popular (MAP), sem qualquer tipo de justificação, e designando que viesse ocupar o seu lugar um “Centro de Interpretação dos Descobrimentos”; meses depois vimos confirmado (?) esse desejo, indicando que, afinal, aí será instalado um “Museu da Língua Portuguesa”.

A decisão é – para além de errática -, absolutamente preocupante: não é dada qualquer indicação sobre o destino da valiosíssima colecção que o Museu alberga; não é comunicada nenhuma informação sobre o futuro do edifício, como obra de arte arquitectónica única do final do Modernismo português; e sequer, em período de contenção séria das finanças públicas e em que o cidadão é obrigado a cortes cegos no orçamento para a cultura, indicação do projecto ou montantes que envolve a criação do “Centro de Interpretação dos Descobrimentos” ou do “Museu da Língua Portuguesa”.

Tudo isto quando o Museu, obrigado a um encerramento forçado para obras durante seis anos – para obras de requalificação que o Estado Português não fazia desde… 1940 – não teve nem tem condições para provar, requalificado e capaz, a sua exequibilidade cultural e a sua utilidade.

O MAP – comecemos precisamente por aqui – é, ao momento, o único pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português, de 1940. Guarda no seu interior uma colecção única de arte popular das várias regiões onde se fez sentir a cultura portuguesa, e uma das mais inestimáveis: aquando da enorme exposição realizada no final dos anos 90 pela Fundação Calouste Gulbenkian em Jacarta, boa parte das obras aí presentes vieram da colecção do MAP.

Encerrado para obras há mais de seis anos, o Museu sofre de uma lateralização inacreditável e constante da parte da tutela: não tendo recebido obras de vulto desde 1940 – repetimos desde 1940 – para a preservação do edifício, que se ia desfazendo ao longo dos anos, foi necessário o seu encerramento para obras. O Estado nem zelou pela boa preservação da colecção, mantida dentro do edifício em obras sem que o Ministério facultasse qualquer tipo de material específico de conservação (cenário inacreditável num país europeu!). Com o desfavor da tutela ao longo dos anos, que por qualquer tipo de prejuízo mental ou cultural em relação ao edifício não acelerou os processos relacionados com a requalificação, o Museu não só esteve fechado ao público, como saiu das atenções do palco mediático.

Parecia configurar-se, para aqueles que conhecem a colecção e o edifício, aquilo que agora se veio a anunciar: a proposta autocrática do poder central de encerrar um marco inestimável da cultura portuguesa no centro de Lisboa.

Outro aspecto de suma gravidade é a desatenção à própria Arte Popular. O Museu é o único, a nível nacional, a recolher uma exposição exclusivamente dedicada a um tipo de Arte que representa tanto o país como o Cinema, a Fotografia, a Arquitectura; mas que parece ser considerada pelo Ministério da Cultura como um parente pobre, já que nenhuma justificação para o fecho do Museu é dada. Estaremos – não queremos crer – perante um Ministério que não considera como parte da sua tutela a Arte Popular, com uma visão da cultura imediatista? Se não são dados motivos para o encerramento do Museu de Arte Popular, nem sobre o destino da sua colecção, o sinal que o Ministério da Cultura dará para todo o país e para o resto do mundo é de uma visão cultural limitada e não inclusiva – facto de que as instituições europeias, que financiaram a requalificação do Museu, e por toda a Europa co-financiam Museus de Arte Popular – deverão ser cabalmente informadas.

Uma outra questão levanta-se em relação ao edifício do Museu: que sentido faz encerrar um museu que, segundo José Augusto-França, marca “com a proposta ideográfica da sua arquitectura, mais do que da sua decoração acessória, o fim do processo modernista em Portugal”? Instalado num dos pavilhões da Exposição do Mundo Português, o MAP foi projectado pelo Arquitecto Jorge Segurado e nele trabalharam artistas como Tomás de Melo (Tom), Estrela Faria, Manuel Lapa, Eduardo Anahory, Carlos Botelho e Paulo Ferreira. Do acervo do Museu de Arte Popular (MAP) fazem parte peças de artesanato que há muito deixaram de se executar, constituindo por isso exemplares únicos que importa preservar.

Que destino terá a colecção museológica, bem como o arquivo e a biblioteca do MAP se o encerramento do museu se concretizar?

E que sentido faz deslocar este importante acervo para qualquer outro local, sabendo que o MAP foi projectado em função da colecção que alberga, constituindo por isso um exemplar arquitectónico-museológico sem igual (desde as peças de mobiliário expositivo aos vidros, passando pelos espaços – concebidos por arquitectos que passaram pela escola da Bauhaus, tudo no MAP está em relação com a colecção museológica)?

Para além disso, o MAP é, em si mesmo, um documento histórico incontornável para o estudo da história do Estado Novo; sendo um museu criado por um determinado contexto ideológico, e tendo vários museus do mundo, resultantes de contextos semelhantes, sido destruídos com a queda das ideologias que os originaram, o MAP é uma obra rara e importantíssima para o conhecimento e a compreensão da nossa história contemporânea.

Por último, os custos de requalificação do edifício. Nestes anos em que esteve parcial ou totalmente encerrado, o processo teve os seguintes encargos: 1ª fase: custo total – 2.889.000,00 euros
(comparticipação comunitária: 1.444.500,00 euros); 2ª fase: custo total – 822.266,84 euros (comparticipação comunitária: 509.805, 44); 3ª fase: 405.556,70 (comparticipação comunitária: 251.445,15); ou seja, a União Europeia e os contribuintes portugueses financiaram uma obra de renovação que, para todos os efeitos, não terá servido para nada. Ou, mais grave, para uma obra de requalificação de um edifício – Museu de Arte Popular – que agora, enganando os contribuintes e as instituições comunitárias, será utilizado para outros fins.

Por este meio lhe solicitamos que assine esta petição contra o encerramento do Museu de Arte Popular - um acto de verdadeira barbárie cultural, cego, sem estratégia e absolutamente grave contra um marco da cultura portuguesa do século XX. Nesta petição os subscritores:

1 – Manifestam a sua absoluta preocupação, como cidadãos e contribuintes, contra o fecho do Museu de Arte Popular, de um equipamento cultural raríssimo, último pavilhão completo da Exposição de 1940;

2 – Solicitam ao Ministério da Cultura, como cidadãos de um Estado Democrático, o esclarecimento da medida de encerramento do Museu de Arte Popular, bem como o destino a dar à sua valiosíssima colecção e ao edifício.

3 – Vêm manifestar a sua preocupação com o fecho de um edifício cultural cujas obras de requalificação custaram aos contribuintes nacionais e europeus 4116823,54 euros.

Pedro Sena-Lino
Rui Santos

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Diário de Noticias... relativo à nova temporada no Teatro-Estúdio Mário Viegas

Para aguçar o apetite...