segunda-feira, outubro 30, 2006


Morreu o especialista em criminologia Artur Varatojo

Artur Varatojo morreu ontem, aos 80 anos, vítima de cancro. O seu corpo está em câmara-ardente na Igreja do Santo Condestável, Lisboa, de onde partirá para o cemitério dos Prazeres hoje à tarde (às 16 horas).

Artur Varatojo nasceu em Lisboa, na freguesia de Santa Catarina, a 21 de Agosto de 1926. Em 1949 completa a sua licenciatura em Economia e Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Em 1976 licencia-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. E em 1985 obtém o Curso Superior de Medicina Legal.

"Se ao longo da sua vida Artur Varatojo tem tido ampla divulgação nos media, através de entrevistas e artigos sobre a sua obra, não é menor a sua participação como realizador de programas radiofónicos e televisivos e cronista de imprensa". Assim era apresentado o advogado criminologista na página que tinha na Internet (www.esquilo.com).

Para rádio fez a adaptação de "Ala dos Namorados", de Campos Júnior, o folhetim "O Caso das Crianças Desaparecidas", e, com o pseudónimo Dr. Fantasma, a rubrica "Na Pista do Crime", no Rádio Clube Português.

Para a televisão ,Varatojo, como especialista de criminologia e assuntos policiais, fez o programa ABC do Crime" (emitido durante 7 anos) e a "Selecção Policial" (emitida durante 8 anos). Foi autor de vários concursos da RTP, nomeadamente "Ou Sim Ou Não", "A Dama ou o Tigre" e o "Noves Fora Nada", apresentado por Artur Agostinho. Durante 17 anos escreveu para "A Capital" a crónica semanal "O Crime Visto por" .

Jornal de Noticias, 30 de Outubro de 2006

domingo, outubro 29, 2006


Elegia da Infância

Morta a infância, o que restou,
Não tem beleza nem condão:
- Um banal arremedo de presença,
Que os espelhos acusam
De temer a verdade...
Uma alma transida de mistério,
Procurando, na treva,
Um mundo que não há.

Morta a infância , que fazer?
- Cobri-la com um sorriso,
Erguer ao céu os olhos marejados
E deixá-la afundar-se
No abismo do tempo.

Morta a infância, que se apague
O meu rastro, na vida,
Já sem milagre nem grandeza!
Mas brandamente, ao menos, brandamente...
- Como pegadas em areia fina,
Delidas pela brisa
Duma tarde estival.

Carlos Queirós

quinta-feira, outubro 26, 2006

UM ACTO DE BARBÁRIE:
SOBRE O ENCERRAMENTO DO MUSEU DE ARTE POPULAR

Em Abril de 2007 tinha já o Ministério da Cultura, através dos órgãos de comunicação social, levantado a hipótese de encerramento do Museu de Arte Popular (MAP), sem qualquer tipo de justificação, e designando que viesse ocupar o seu lugar um “Centro de Interpretação dos Descobrimentos”; meses depois vimos confirmado (?) esse desejo, indicando que, afinal, aí será instalado um “Museu da Língua Portuguesa”.

A decisão é – para além de errática -, absolutamente preocupante: não é dada qualquer indicação sobre o destino da valiosíssima colecção que o Museu alberga; não é comunicada nenhuma informação sobre o futuro do edifício, como obra de arte arquitectónica única do final do Modernismo português; e sequer, em período de contenção séria das finanças públicas e em que o cidadão é obrigado a cortes cegos no orçamento para a cultura, indicação do projecto ou montantes que envolve a criação do “Centro de Interpretação dos Descobrimentos” ou do “Museu da Língua Portuguesa”.

Tudo isto quando o Museu, obrigado a um encerramento forçado para obras durante seis anos – para obras de requalificação que o Estado Português não fazia desde… 1940 – não teve nem tem condições para provar, requalificado e capaz, a sua exequibilidade cultural e a sua utilidade.

O MAP – comecemos precisamente por aqui – é, ao momento, o único pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português, de 1940. Guarda no seu interior uma colecção única de arte popular das várias regiões onde se fez sentir a cultura portuguesa, e uma das mais inestimáveis: aquando da enorme exposição realizada no final dos anos 90 pela Fundação Calouste Gulbenkian em Jacarta, boa parte das obras aí presentes vieram da colecção do MAP.

Encerrado para obras há mais de seis anos, o Museu sofre de uma lateralização inacreditável e constante da parte da tutela: não tendo recebido obras de vulto desde 1940 – repetimos desde 1940 – para a preservação do edifício, que se ia desfazendo ao longo dos anos, foi necessário o seu encerramento para obras. O Estado nem zelou pela boa preservação da colecção, mantida dentro do edifício em obras sem que o Ministério facultasse qualquer tipo de material específico de conservação (cenário inacreditável num país europeu!). Com o desfavor da tutela ao longo dos anos, que por qualquer tipo de prejuízo mental ou cultural em relação ao edifício não acelerou os processos relacionados com a requalificação, o Museu não só esteve fechado ao público, como saiu das atenções do palco mediático.

Parecia configurar-se, para aqueles que conhecem a colecção e o edifício, aquilo que agora se veio a anunciar: a proposta autocrática do poder central de encerrar um marco inestimável da cultura portuguesa no centro de Lisboa.

Outro aspecto de suma gravidade é a desatenção à própria Arte Popular. O Museu é o único, a nível nacional, a recolher uma exposição exclusivamente dedicada a um tipo de Arte que representa tanto o país como o Cinema, a Fotografia, a Arquitectura; mas que parece ser considerada pelo Ministério da Cultura como um parente pobre, já que nenhuma justificação para o fecho do Museu é dada. Estaremos – não queremos crer – perante um Ministério que não considera como parte da sua tutela a Arte Popular, com uma visão da cultura imediatista? Se não são dados motivos para o encerramento do Museu de Arte Popular, nem sobre o destino da sua colecção, o sinal que o Ministério da Cultura dará para todo o país e para o resto do mundo é de uma visão cultural limitada e não inclusiva – facto de que as instituições europeias, que financiaram a requalificação do Museu, e por toda a Europa co-financiam Museus de Arte Popular – deverão ser cabalmente informadas.

Uma outra questão levanta-se em relação ao edifício do Museu: que sentido faz encerrar um museu que, segundo José Augusto-França, marca “com a proposta ideográfica da sua arquitectura, mais do que da sua decoração acessória, o fim do processo modernista em Portugal”? Instalado num dos pavilhões da Exposição do Mundo Português, o MAP foi projectado pelo Arquitecto Jorge Segurado e nele trabalharam artistas como Tomás de Melo (Tom), Estrela Faria, Manuel Lapa, Eduardo Anahory, Carlos Botelho e Paulo Ferreira. Do acervo do Museu de Arte Popular (MAP) fazem parte peças de artesanato que há muito deixaram de se executar, constituindo por isso exemplares únicos que importa preservar.

Que destino terá a colecção museológica, bem como o arquivo e a biblioteca do MAP se o encerramento do museu se concretizar?

E que sentido faz deslocar este importante acervo para qualquer outro local, sabendo que o MAP foi projectado em função da colecção que alberga, constituindo por isso um exemplar arquitectónico-museológico sem igual (desde as peças de mobiliário expositivo aos vidros, passando pelos espaços – concebidos por arquitectos que passaram pela escola da Bauhaus, tudo no MAP está em relação com a colecção museológica)?

Para além disso, o MAP é, em si mesmo, um documento histórico incontornável para o estudo da história do Estado Novo; sendo um museu criado por um determinado contexto ideológico, e tendo vários museus do mundo, resultantes de contextos semelhantes, sido destruídos com a queda das ideologias que os originaram, o MAP é uma obra rara e importantíssima para o conhecimento e a compreensão da nossa história contemporânea.

Por último, os custos de requalificação do edifício. Nestes anos em que esteve parcial ou totalmente encerrado, o processo teve os seguintes encargos: 1ª fase: custo total – 2.889.000,00 euros
(comparticipação comunitária: 1.444.500,00 euros); 2ª fase: custo total – 822.266,84 euros (comparticipação comunitária: 509.805, 44); 3ª fase: 405.556,70 (comparticipação comunitária: 251.445,15); ou seja, a União Europeia e os contribuintes portugueses financiaram uma obra de renovação que, para todos os efeitos, não terá servido para nada. Ou, mais grave, para uma obra de requalificação de um edifício – Museu de Arte Popular – que agora, enganando os contribuintes e as instituições comunitárias, será utilizado para outros fins.

Por este meio lhe solicitamos que assine esta petição contra o encerramento do Museu de Arte Popular - um acto de verdadeira barbárie cultural, cego, sem estratégia e absolutamente grave contra um marco da cultura portuguesa do século XX. Nesta petição os subscritores:

1 – Manifestam a sua absoluta preocupação, como cidadãos e contribuintes, contra o fecho do Museu de Arte Popular, de um equipamento cultural raríssimo, último pavilhão completo da Exposição de 1940;

2 – Solicitam ao Ministério da Cultura, como cidadãos de um Estado Democrático, o esclarecimento da medida de encerramento do Museu de Arte Popular, bem como o destino a dar à sua valiosíssima colecção e ao edifício.

3 – Vêm manifestar a sua preocupação com o fecho de um edifício cultural cujas obras de requalificação custaram aos contribuintes nacionais e europeus 4116823,54 euros.

Pedro Sena-Lino
Rui Santos

Assine em UM ACTO DE BARBÁRIE - ENCERRAMENTO DO MUSEU DE ARTE POPULAR

Diário de Noticias... relativo à nova temporada no Teatro-Estúdio Mário Viegas

Para aguçar o apetite...

quarta-feira, outubro 25, 2006

Importa-se de repetir...?

"A palavra Comédia, a mim, provoca-me arrepios."

Frase dita pelo Encenador João Lourenço, ontem, no Teatro Nacional D. Maria II, na conferência intitulada "Encontro em torno de Ibsen com os Encenadores", que contou também com a participação do Encenador Juvenal Garcês e do Especialista em Ibsen Gustavo Rubim.
Como é que um homem de Teatro pode dizer semelhante coisa??? Se alguém me souber dizer...
O Poeta Carlos Queirós

terça-feira, outubro 24, 2006

Recordar o Poeta Carlos Queirós (um dos meus Poetas mais queridos)

Queirós, Carlos (José Carlos Queirós Nunes Ribeiro)

(1907 - 1949)


Poeta português, natural de Lisboa. José Carlos Queirós Nunes Ribeiro estudou na Universidade de Coimbra. É considerado um elo de ligação entre as gerações de Orpheu e da Presença, estando o seu nome sobretudo ligado a esta última. Colaborou em várias publicações, como a Revista de Portugal, a Contemporânea, a Variante, a Atlântico, e dirigiu a Litoral e a Panorama.

Distinguindo-se de muitos dos traços típicos da poesia presencista, os seus temas principais são os da nostalgia da infância, do amor e do ofício de poeta, temas tradicionais envoltos num certo humor irónico, num estilo depurado que conjuga classicismo, romantismo e modernidade. Escreveu Desaparecido (1935, Prémio Antero de Quental) e Breve Tratado de Não-Versificação (1948). Deixou, também, inéditos, incluídos no volume póstumo Poesia de Carlos Queirós (1966). É, ainda, autor dos ensaios Homenagem a Fernando Pessoa (1936) e de uma Carta à Memória de Fernando Pessoa, publicada na Presença, nº 40, Julho de 1936.



Libera me

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Carlos Queirós

Desaparecido

Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapar'ceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser meu
- Livre o instinto, em vez de coagido.
"De casa de seus pais desapar'ceu..."
Eu, o feliz desapar'cido!

Carlos Queirós

Paisagem
Nós sabemos que é grave o que se passa
Quando nada parece acontecer.
Nada se passa, não se passa nada,
Nem graça nem desgraça,
Nem uma ideia vem para entreter,
Nem um amigo para conversar,
Nem essa cara que se vê passar
Todos os dias ao entardecer.
Nem toca o telefone, nem na escada
Há um ruído estranho. Nada, nada
Parece acontecer. Nem graça nem desgraça...
Mas sabemos que é grave o que se passa:
- É a morte que anda à caça
E o tempo que anda a pascer.


Nós sabemos que é grave o que se passa
Quando nada parece acontecer.
Nem graça nem desgraça...
- É a morte que anda à caça
E o tempo que anda a pascer.


Carlos Queirós

terça-feira, outubro 17, 2006


Acabo de chegar a casa vindo da festa dos 25 anos de carreira em Teatro do Actor Simão Rubim.
Confesso que é com imensa dificuldade que escrevo o que quer que seja sobre o Simão. Tudo o que possa escrever é pouco e não irá fazer jus ao que ele merece que seja escrito sobre ele.
Teve a festa que merecia. A representar no palco e na plateia uma sala cheia de amigos que não deixaram de estar presente para lhe dar os parabéns e desejar outros 25 anos cheios de sucessos e conquistas.
A melhor palavra para descrevê-lo será, entre muitas outras, Apaixonado. Apaixonado pelo Teatro, apaixonado pelas memórias, apaixonado pelos amigos, apaixonado pela vida.
Mas também Revoltado. Revoltado pelo modo como o Teatro é tratado pelo governo, revoltado contra aqueles que maltratam o Teatro (normalmente, vindo de pessoas ligadas ao próprio meio teatral), revoltado contra os lobbies instalados.
No discurso que proferiu no final da peça - enquanto tirava as unhas postiças e se desmaquilhava - Simão Rubim agradeceu, emocionado, ao Teatro Experimental de Cascais (que frequenta desde os 11 anos) na pessoa de Carlos Avillez e João Vasco e, claro está, a Mário Viegas e Juvenal Garcês. Emocionado, emocionando-me, Simão abandona o palco.
E é esta uma, das muitas, qualidades que admiro em Simão Rubim. Não se esquece, nunca, daqueles que o apoiaram hoje, como ontem.
Para mim, o Simão - e ele não ficará zangado se juntar também Juvenal Garcês - é uma escola onde tenho aprendido muito, sempre, todos os dias. Ouvi-lo falar de Teatro, da sua Vida, de Mário Viegas, é algo que me emociona sempre e que me enriquece interiormente.
Jamais poderei retribuir tudo aquilo que com ele aprendi, todos os medos que ele me ajudou a enfrentar (bem mais do que aqueles que ele julga), todos os momentos - alguns bem caricatos (Igreja na Passagem de Ano, lembraste?) - que passamos juntos.
Não quero dizer mais. Acho que ele sabe bem tudo aquilo que representa para mim, a amizade inesgotável e o carinho infindável que tenho para com ele... mas tinha de deixar aqui o meu tributo publico a si e ao seu trabalho.
Por todas as gargalhadas que já me fizeste dar, por todas as lágrimas que já me fizeste derramar (incluindo as de hoje), por todas as emoções que já vivi contigo, um imenso beijo de ternura, de profundo respeito e amizade.
Muitos parabéns pelos teus 25 anos de Palco, muitos parabéns por cada peça levada à cena.
Cá estarei para comemorar contigo os teus 50 anos de carreira (e, portanto, os 35 anos das Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos).
Obrigado pela Amizade profunda.
Um beijo e um grande abraço
Julie Andrews...

sexta-feira, outubro 13, 2006


No próximo Sábado, dia 14, o meu Avô paterno - Delfim - vai comemorar 99 anos de vida... 99 anos. Como ele próprio refere - em jeito de resumo de uma vida - nasceu numa Monarquia, viu nascer a República, sobreviveu a duas Grandes Guerras, sobreviveu ao Salazarismo e tenta sobreviver aos "Carroceiros" (expressão usada pelo próprio) que depois dele vieram. Acha o Mário Soares um "palhaço" e um "chéché", o Jorge Sampaio um "piegas", o Sócrates um "vaidoso" e Guterres um "merdas"... Só para nomear alguns.
Lembra-se de instalarem a luz electrica no Porto (de onde é natural), referindo sempre que esta, tal como hoje a TvCabo, só era instalada em algumas divisões da casa.
Viveu intensamente (enquanto solteiro, claro!) o Parque Mayer, contando histórias perfeitamente "surreais", em episódios cómicos que eu só julgava possíveis nas rábulas dos filmes antigos portugueses ou do velho, enquanto novo, Raul Solnado (quantas vezes não o ouvi a rir e a contar a célebre rábula do Soldado da Guerra).
Fez da Baixa e do Chiado a sua segunda casa (duplex, portanto). Até há muito pouco tempo ainda lá ia tomar o seu café ao sitio do costume. Agora já não vai. "Morreram todos... eramos por vezes mais de 30, agora só resto eu", diz... sorrindo e ironizando.
Escreve-lhe ainda um amigo, mais novo (uns 80 e tal) a quem ele dera emprego no seu escritório da Rua da Madalena. Mas escreve da Suiça (País, não a Pastelaria).
A Rua dos Fanqueiros, continua a ser aquela rua onde tudo se encontra e onde "apenas lá é que arranjas isso que procuras", diz... e quem se atreve a tentar convencê-lo do contrário?!?!
Não faz muito tempo perguntou-me se o Nina, no Largo do Picadeiro, ainda tinha por lá umas espanholas. Ficou contentissimo por saber que tal "espaço de convivio" ainda existia, embora as nacionalidades que por lá passem sejam mais viradas a Leste.
Deixou de ler o jornal "O Diabo". Descobriu as maravilhas do "Compact Disc", embora eu ache que ele nem se apercebeu da mudança do Vinil para a Cassette. Primeira encomenda? Um CD do Carlos Paredes.
Só no ano passado, deixou o seu único cigarro diário, embora não dispense um cálice de Porto, Lacrima, Contreau ou Licor Beirão. Por Lagosta ou Camarões é capaz de dançar o vira.
Continua vaidoso. Sempre impecavelmente bem vestido, penteado, barbeado e cheiroso.
Na vida profissional era representante de grandes marcas internacionais de tecidos. Pelo toque percebe logo se um tecido é bom ou mau. Normalmente diz sempre que é mau... no tempo dele é que era... e devia ser. Mas mostrar uma peça de roupa nova ao meu Avô pode ser a coisa mais frustante deste mundo. Eu já não o faço. Quase que chorou quando encerraram o Marks & Spencer da Avenida Guerra Junqueiro. Contenta-se agora com a Springfield, de que - até - não diz mal.
Para ele os espanhóis são o melhor que o mundo tem. Depois sim, vêm as crianças. Ele ainda tem um costela de São Tiago de Compostela... mas não precisava de exagerar. Deve odiar o Nuno Álvares Pereira e a Batalha de Aljubarrota... hei-de perguntar-lhe.
Os padres nunca o convenceram... Quando da cerimónia religiosa dos 50 anos de casado, a minha Avó obrigou-o a confessar-se. Esteve que tempos fechado com o padre - padre Apolinário - no confessionário. A minha avó, comovida e, por certo, aliviada, pensava que ele estava a expiar os 50 anos de pecados cometidos e nunca confessados. Claro que não... futebol foi o tema de conversa entre confessor e confessado... Deus foi o árbitro.
Tardes inteiras passámos (eu e os meus irmãos) a jogar Biriba (jogo de cartas oriundo do Brasil) ou Krapô (será assim que se escreve??); e a minha Avó (normalmente na equipa adversária) a refilar da "caganeira" monstruosa que ele tem a jogar seja o que fôr.
Faz-lhe impressão os preguiçosos ou aqueles que vivem bem sem trabalharem... "aquele malandro vive do quê, afinal?".
Só no ano passado começou a usar bengala. Não queria nada. "Disparate... usar bengala é para velhos... eu não estou velho. Hum...". Gargalhada geral, pois tá claro.
O seu sonho, neste momento, é chegar aos 100 anos e ir directo à Multiopticas usufruir dos "descontos iguais à idade"... e se fizer 101 não me admira se lá fôr receber a percentagem de lucro.
Escrevo tudo isto não sei porquê!!! Memórias que ficam já registadas. No fundo, talvez seja o orgulho de ter um avô com esta vivência, idade e total usufruto de todas as suas capacidades. Ou porque me assusta a aproximação da data do aniversário. Já lá vai o tempo em que me entusiasmavam os aniversários da minha familia mais chegada. Agora já não. Assustam-me. Fico triste ao olhar a mesa, todos em redor dela... e para o ano? A mesa será composta por todos, tal qual, como no ano anterior? E se faltar alguém? Já falta um, o avô materno. E faz falta, muita. Não quero que falte jamais mais ninguém... se assim fosse...
Quem me dera ser como o David e escrever isto, com a perfeita consciência da finitude... e a sua aceitação:

Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in "Cancioneiro de Natal"
Mas não deixa de ser uma cadeia fantástica. Do meu Avô criou-se um filho; este fez-se Pai de seis; destes já se geraram quatro. Estará assegurada a minha sobrevivência acompanhada - e não solitária - neste mundo?
E já agora? O que é que se compra de prenda de aniversário a uma pessoa que faz 99 anos???
Aceitam-se sugestões.