terça-feira, outubro 03, 2006

(Foto: "As Vampiras Lésbicas de Sodoma" - Teatro-Estúdio Mário Viegas)

Poema intitulado "VAMPIRO" de Jorge de Sena

Ouço os gatos brincar. Saltam, perseguem-se.
Da rua, cuja noite um automóvel corta,
Chegaram-me risos, vozear distante.
Mais longe some-se o rodar de um eléctrico.
Tremem-me as mãos só de lembrar que pude
abandonar-te ao teu desejo agudo,
quando tão junto ao meu o contiveste,
julgando que submisso eu te seguia.
Tremem-me as mãos, as coisas me são estranhas,
algo me agarra pela nuca e me arrebata
por sibilantes portas sucessivas
de que ouço os gonzos respirar-me a vida.
Os gatos brincam? Outro carro passa?
Outros regressam? Viram-te? Tiveram-te?
Sou eu quem está dentro de ti com eles?
Num vácuo de escamas luzidias,
o sono plumbeo me rodeia, ataca
por ondas silenciosas e concentricas.
Como na morte dormirei, e digerindo
o sangue puro que te não bebi.

9/12/1950

O Melhor de "Bandeira"


quinta-feira, setembro 21, 2006


Para os muitos admiradores de Simone de Oliveira que "habitam" neste blog, aqui vai o que está programado para o Jardim de Inverno do Teatro Municipal de São Luiz - Sala anexa ao Teatro Estúdio Mário Viegas (isto é uma provocação) - para o mês de Novembro. Oportunidade unica de a ouvir cantar e contar histórias. Não percam.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Só quando vir é que acredito

Protocolo garante compra de espólio de discos portuguesesO Ministério da Cultura, a Câmara de Lisboa e a Empresa de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) assinam terça-feira um protocolo para adquirir o espólio de discos portugueses pertencentes a um coleccionador inglês, soube hoje a agência Lusa.

O espólio de cerca de 3.000 discos, na sua maioria de fado, inclui algumas das primeiras gravações de artistas nacionais, estando avaliado em cerca de um milhão de euros.

Fontes do ministério e da EGEAC disseram à Lusa que o protocolo será assinado terça-feira no Museu do Fado em Lisboa pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, o presidente da Câmara, António Carmona Rodrigues, e pelo presidente da EGEAC, José Amaral Lopes, após a apresentação do livro «Para uma história do fado», do musicólogo Rui Vieira Nery.

As fontes precisaram que, nos termos do protocolo, cada uma das entidades contribui com uma verba para a aquisição da colecção, comprometendo-se as três a desenvolver esforços para reunir o montante necessário.

Para a aquisição, o Ministério da Cultura disponibiliza 300.000 euros, a Câmara de Lisboa e a EGEAC 150.000 cada.

O espólio, na posse de Bruce Bastins, encontra-se em «muito boas condições», afiançou à Lusa José Moças, que o descobriu e propôs a sua aquisição por Portugal.

Entre os três milhares de exemplares de discos, num total de oito mil registos fonográficos, gravados entre 1904 e 1945, contam-se as vozes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria.
«Estas são as primeiras gravações de fado de sempre, que nos irão dar, certamente, uma outra perspectiva da história desta canção popular urbana», sublinhou José Moças.

Além dos fados, são «igualmente importantes do ponto de vista musical e etnográfico registos, mais tardios, de Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres, bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e o popular Alfredo Marceneiro».

«Há gravações incríveis de teatro de revista e duas dramatizações, feitas em 1911, da proclamação da República», referiu o investigador.

Muitos destes registos fonográficos, efectuados pela His Master's Voice, Columbia, Homokord, Victor ou Grammophone, estavam, há alguns anos, dados como perdidos.

O protocolo estabelece que o espólio ficará à guarda do Ministério da Cultura e que as três partes deverão proceder à sua digitalização, indicou uma das fontes.

O espólio foi descoberto em 1998, tendo a Câmara de Lisboa, desde o início, mostrado disponibilidade e interesse em o comprar.

A colecção adquiriu maior interesse com a decisão do então presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, de constituir um grupo de estudo para efectivar a candidatura do fado a Obra-Prima do Património Imaterial da Humanidade.

Rui Vieira Nery considera a aquisição da colecção discográfica «essencial para um melhor conhecimento da história fadista, nomeadamente nos primórdios da gravação fonográfica».

Segundo José Moças, além desta colecção poderá haver no futuro «mais surpresas», nomeadamente a da descoberta de outros discos de artistas portugueses no Brasil ou nos Estados Unidos.
Diário Digital / Lusa
Maria Teresa de Noronha
"Passarinho mesmo preso, és mais feliz do que eu."


Maria Teresa do Carmo Noronha nasceu em Lisboa em 1918, sendo neta dos Condes de Paraty e pertencendo desse modo a uma família da mais antiga nobreza peninsular, cuja linhagem remontava às próprias Casas Reais de Castela e de Portugal em meados do século XIV. Refira-se, de passagem, que se tratava, contudo, de uma família de tradição política liberal: o primeiro Conde, D. Miguel de Noronha Abranches Castelo Branco (1784-1849), lutara ao lado de D. Pedro IV contra a usurpação miguelista, participando mesmo nos desembarques da Terceira e do Mindelo, e o segundo, D. João Inácio de Paula de Noronha (1820-1884), fora mesmo o Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa de 1859 a 1881. De qualquer modo, no contexto conservador das primeiras décadas do século XX esta origem fidalga comportava ainda restrições sociais incontornáveis para uma jovem aristocrata, como a impossibilidade de frequentar qualquer estabelecimento público de ensino formal (Teresa de Noronha teve, em vez disso, os habituais tutores e professores privados nas áreas consideradas socialmente adequadas para o efeito) ou, obviamente, de forma mais taxativa, como a exclusão liminar de qualquer hipótese de carreira profissional.
Não dispomos de muitos dados concretos sobre os inícios da sua relação com a Música, excepto informações vagas, transmitidas no seu circuito familiar, de que teria mostrado desde muito cedo possuir uma voz belíssima, cantando com frequência em coros de igreja, e tendo chegado mesmo a integrar na juventude um coro amador regido pelo Director do Conservatório Nacional, Ivo Cruz. Terá tido lições particulares de piano em criança, mas não terá recebido, aparentemente, aulas de canto; a sua voz é, porém, um exemplo raro de empostação natural, ou seja, de uma técnica instintiva de colocação vocal apoiada no diafragma e utilizando toda a ressonância da cabeça, à semelhança do canto erudito, o que porventura poderá ter-se desenvolvido através desse seu primeiro contacto de infância com o repertório musical litúrgico, então de natureza ainda fortemente operática. O que é certo é que nos círculos aristocráticos do início do século tinha já penetrado largamente o Fado - já não, naturalmente, como expressão de uma frequência do universo marginal das tabernas e bordéis pelos fidalgos boémios, a exemplo do que sucedera com o Conde de Vimioso ou o Marquês de Castelo Melhor em meados do século XIX, mas agora como uma prática familiar inócua e respeitável, própria, inclusive, para pôr em evidência os dotes artísticos das meninas de boa família, como na mesma época sucedia, de resto, nos meios equivalentes de extracção burguesa. Teresa de Noronha, que tinha na família exemplos de fadistas amadores destacados, desde o tio-avô, D. João do Carmo de Noronha, ao próprio irmão, D. Vasco de Noronha, e que deverá ter tido desde criança contacto regular no seu meio com outros casos semelhantes, como o dos tios irmãos D. Pedro e D. António de Bragança, da casa dos Duques de Lafões, terá assim começado naturalmente a cantar o Fado no seu círculo familiar, depressa se espalhando a fama do talento de que dava provas.
O que sabemos é que em 1938, apenas com vinte anos, era convidada pela Emissora Nacional para se apresentar num programa quinzenal regular de fados, o primeiro daquela estação radiofónica. Com excepção de uma interrupção de alguns anos após o seu casamento, em finais de 1947, viria a manter este programa até 1961, granjeando uma enorme popularidade junto dos ouvintes de todo o País, que depois viria a ser reforçada pela ampla circulação dos seus discos. Escusando-se a um verdadeiro circuito profissional, que de resto à época não existia ainda de forma estável para os fadistas fora das casas de fado e dos palcos de revista e opereta, foi continuando a cantar entre família e amigos, ou ocasionalmente em festas de beneficência. Gravou ainda nos anos 40 os primeiros discos de 78 RPM, com a guitarra de Fernando Pinto Coelho e a viola de Abel Negrão, e em 1946 aceitou convites para se apresentar em Barcelona e Madrid, bem como no Brasil. A 12 de Dezembro de 1947, no entanto, casou com José António Guimarães Serôdio, Conde de Sabrosa, ele próprio um guitarrista amador de mérito que se viria a destacar como compositor de fados, e decidiu reduzir ainda mais a sua carreira, só vindo a retomar plenamente em 1952.
Neste último ano, para lá de retomar os seus programas na Emissora Nacional, voltou a gravar uma nova série de discos de 78, agora com acompanhamento de Raul Nery à guitarra e Joaquim do Vale à viola. Seriam os mesmos músicos a acompanhá-la a partir daí em todas as suas actuações, em estúdio ou ao vivo, embora reforçados, a partir de 1959, pelos restantes membros do Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Decidiu retirar-se por completo da actividade artística em 1961, querendo, segundo ela própria dizia, ser lembrada no auge das suas capacidades, e abandonou então definitivamente os seus programas de rádio. Contudo, deslocar-se-ia ainda depois dessa data a Monte Carlo, a convite dos Príncipes Rainier e Grace do Mónaco, e a Londres, aí actuando em 1964 na Casa de Portugal e na BBC, com enorme sucesso (uma curiosa faceta anedótica desta apresentação é que o efectivo impacte do programa no público televisivo local e a coincidência inesperada de os ingleses considerarem que Teresa de Noronha e Raul Nery tinham fortes parecenças físicas com a Rainha Isabel II e o Duque de Edimburgo, respectivamente, motivaram a este último respeito, a par com referências musicais muito elogiosas, uma série de referências bem-humoradas nos media britânicos).
Apresentou-se ainda na RTP em 1968, e continuou a gravar discos até 1971 (o seu derradeiro LP seria lançado no ano seguinte). Foi entretanto reduzindo cada vez mais as suas apresentações públicas, mesmo informais, interrompendo-as quase de forma definitiva em 1973. Terá cantado em público, excepcionalmente, pela última vez, segundo informações recolhidas por Daniel Gouveia, em 1976, na casa de fado Picadeiro, de Cascais. Morreu na sua casa de S. Pedro de Sintra a 5 de Julho de 1993, depois de doença prolongada.
- Excerto do texto presente na colectânea de fados de Maria Teresa de Noronha, lançada pela EMI-Music Portugal, Lda., em 2006.

domingo, setembro 10, 2006

E porque nos "post" anteriores se falou de Simone de Oliveira aqui vai o link para se ver e ouvir (com optimo som e com uma imagem, infelizmente, não tão boa) a espectacular interpretação de Simone de Oliveira no Festival da Canção de 1969, em Madrid (se a memória não me falha). É um documento fantástico, onde a força das palavras de Ary dos Santos e a força divina da voz de Simone (excelentemente bem vestida e de uma beleza extraordinária) mostram-se em todo o seu esplendor.
Desde já agradeço a "Arnaldooo" o ter-me enviado o link para este video que eu nunca havia visto... muitissimo obrigado. Uma maravilha.
http://pd.ptbyte.com/ESC/1969.ram - Desfolhada, Simone de Oliveira, 1969

sábado, setembro 09, 2006


A imagem seguinte mostra um Cartoon que apareceu numa revista militar, mais precisamente de O Condestável - Revista do Regimento de Infantaria de Aljubarrota (R. I. 7), datado do ano de 1969. Ora esse ano, entre outras coisas, ficou marcado a nivel nacional pela canção Desfolhada à Portuguesa, interpretada por Simone de Oliveira e com letra de José Carlos Ary dos Santos. Música controversa para a época, que fez correr muitas tintas nos jornais, muito latim nas rádios e televisões.
O Cartoon que vos mostro fala exactamente de Simone e da Desfolhada... mas digo-vos já que não tem piadinha nenhuma... mas enfim... temos de recuar no tempo e colocarmo-nos num quartel nos anos 60... ora vejam:

(a qualidade da imagem não é boa porque foi tirada às escondidas na Biblioteca Nacional com o telemóvel... mas não digam nada a ninguém.)

Um Recibo de Obras absolutamente genial - Capela do Bom Jesus, Braga, 1853


domingo, setembro 03, 2006

E o que prometia ser uma noite inesquecível... foi mesmo. Que junção extraordinária esta de Camané com Carlos do Carmo. As duas maiores vozes - no activo - do Fado. A antiga e a recente geração do Fado. Duas visões diferentes do que é o Fado... a mesma genialidade.
Marcado para as 22 horas, o concerto iniciou-se com dez minutos de atraso... no problem.
Milhares de pessoas - e não é exagero - enchiam o relvado frente à Torre de Belém, prontas para demonstrar que o Fado está vivo, diria mesmo vivíssimo, e recomenda-se.
O espectáculo inicia-se com Bernardo Sassetti ao piano e as palavras de Sophia de Mello Breyner pela voz de Eunice Munoz que, minutos depois, emprestou a sua voz a Álvaro de Campos e com Carlos do Carmo a prestar-lhe uma homenagem que culminou com uma imensa salva de palmas e o público de pé. "Que sorte tem este nosso país em ter uma Dama desta categoria no nosso Teatro" - referiu Carlos do Carmo.
Após o primeiro poema surge a primeira "brincadeira" da noite. Camané aparece e canta uma música do reportório de Carlos do Carmo. Depois vem Carlos e faz o mesmo... canta uma música do reportório de Camané.
Tudo o resto é deslumbramento. A Voz, as Palavras, a postura dos dois fadistas em palco. A brilhante execução dos músicos e a prestação da Orquestra Sinfonietta de Lisboa a elevar a magia da noite.
Como seria de esperar, os Fados de Carlos do Carmo foram os que maior entusiasmo causaram junto do público. "Canoas do Tejo", "Gaivota", "Cacilheiro", "Lisboa Menina e Moça" e outros, foram cantados em côro por todos os que se encontravam presentes. Quando tal não acontecia, reinava o silêncio, mostrando um público atento, deslumbrado e agradecido pela oportunidade, que eu espero que se repita, de ver Mestre e Discípulo, juntos, em palco.
Mais uma vez, e à semelhança de todos os outros concertos de Carlos do Carmo a que me referi em outros textos neste blog, não posso deixar de sublinhar a excelência de voz que Carlos do Carmo ainda possui. É extraordinário, depois de mais de 40 anos de carreira, que ele se mantenha em forma, arriscando-me mesmo a dizer que nunca esteve tão espectacular na forma de cantar.
Em pano de fundo foram sendo projectadas fotografias de Lisboa de Eduardo Gageiro, publicadas no livro "Lisboa - No Cais da Memória".