sexta-feira, setembro 15, 2006

Só quando vir é que acredito

Protocolo garante compra de espólio de discos portuguesesO Ministério da Cultura, a Câmara de Lisboa e a Empresa de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) assinam terça-feira um protocolo para adquirir o espólio de discos portugueses pertencentes a um coleccionador inglês, soube hoje a agência Lusa.

O espólio de cerca de 3.000 discos, na sua maioria de fado, inclui algumas das primeiras gravações de artistas nacionais, estando avaliado em cerca de um milhão de euros.

Fontes do ministério e da EGEAC disseram à Lusa que o protocolo será assinado terça-feira no Museu do Fado em Lisboa pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, o presidente da Câmara, António Carmona Rodrigues, e pelo presidente da EGEAC, José Amaral Lopes, após a apresentação do livro «Para uma história do fado», do musicólogo Rui Vieira Nery.

As fontes precisaram que, nos termos do protocolo, cada uma das entidades contribui com uma verba para a aquisição da colecção, comprometendo-se as três a desenvolver esforços para reunir o montante necessário.

Para a aquisição, o Ministério da Cultura disponibiliza 300.000 euros, a Câmara de Lisboa e a EGEAC 150.000 cada.

O espólio, na posse de Bruce Bastins, encontra-se em «muito boas condições», afiançou à Lusa José Moças, que o descobriu e propôs a sua aquisição por Portugal.

Entre os três milhares de exemplares de discos, num total de oito mil registos fonográficos, gravados entre 1904 e 1945, contam-se as vozes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor e Maria Victoria.
«Estas são as primeiras gravações de fado de sempre, que nos irão dar, certamente, uma outra perspectiva da história desta canção popular urbana», sublinhou José Moças.

Além dos fados, são «igualmente importantes do ponto de vista musical e etnográfico registos, mais tardios, de Maria Alice, Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres, bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e o popular Alfredo Marceneiro».

«Há gravações incríveis de teatro de revista e duas dramatizações, feitas em 1911, da proclamação da República», referiu o investigador.

Muitos destes registos fonográficos, efectuados pela His Master's Voice, Columbia, Homokord, Victor ou Grammophone, estavam, há alguns anos, dados como perdidos.

O protocolo estabelece que o espólio ficará à guarda do Ministério da Cultura e que as três partes deverão proceder à sua digitalização, indicou uma das fontes.

O espólio foi descoberto em 1998, tendo a Câmara de Lisboa, desde o início, mostrado disponibilidade e interesse em o comprar.

A colecção adquiriu maior interesse com a decisão do então presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, de constituir um grupo de estudo para efectivar a candidatura do fado a Obra-Prima do Património Imaterial da Humanidade.

Rui Vieira Nery considera a aquisição da colecção discográfica «essencial para um melhor conhecimento da história fadista, nomeadamente nos primórdios da gravação fonográfica».

Segundo José Moças, além desta colecção poderá haver no futuro «mais surpresas», nomeadamente a da descoberta de outros discos de artistas portugueses no Brasil ou nos Estados Unidos.
Diário Digital / Lusa
Maria Teresa de Noronha
"Passarinho mesmo preso, és mais feliz do que eu."


Maria Teresa do Carmo Noronha nasceu em Lisboa em 1918, sendo neta dos Condes de Paraty e pertencendo desse modo a uma família da mais antiga nobreza peninsular, cuja linhagem remontava às próprias Casas Reais de Castela e de Portugal em meados do século XIV. Refira-se, de passagem, que se tratava, contudo, de uma família de tradição política liberal: o primeiro Conde, D. Miguel de Noronha Abranches Castelo Branco (1784-1849), lutara ao lado de D. Pedro IV contra a usurpação miguelista, participando mesmo nos desembarques da Terceira e do Mindelo, e o segundo, D. João Inácio de Paula de Noronha (1820-1884), fora mesmo o Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa de 1859 a 1881. De qualquer modo, no contexto conservador das primeiras décadas do século XX esta origem fidalga comportava ainda restrições sociais incontornáveis para uma jovem aristocrata, como a impossibilidade de frequentar qualquer estabelecimento público de ensino formal (Teresa de Noronha teve, em vez disso, os habituais tutores e professores privados nas áreas consideradas socialmente adequadas para o efeito) ou, obviamente, de forma mais taxativa, como a exclusão liminar de qualquer hipótese de carreira profissional.
Não dispomos de muitos dados concretos sobre os inícios da sua relação com a Música, excepto informações vagas, transmitidas no seu circuito familiar, de que teria mostrado desde muito cedo possuir uma voz belíssima, cantando com frequência em coros de igreja, e tendo chegado mesmo a integrar na juventude um coro amador regido pelo Director do Conservatório Nacional, Ivo Cruz. Terá tido lições particulares de piano em criança, mas não terá recebido, aparentemente, aulas de canto; a sua voz é, porém, um exemplo raro de empostação natural, ou seja, de uma técnica instintiva de colocação vocal apoiada no diafragma e utilizando toda a ressonância da cabeça, à semelhança do canto erudito, o que porventura poderá ter-se desenvolvido através desse seu primeiro contacto de infância com o repertório musical litúrgico, então de natureza ainda fortemente operática. O que é certo é que nos círculos aristocráticos do início do século tinha já penetrado largamente o Fado - já não, naturalmente, como expressão de uma frequência do universo marginal das tabernas e bordéis pelos fidalgos boémios, a exemplo do que sucedera com o Conde de Vimioso ou o Marquês de Castelo Melhor em meados do século XIX, mas agora como uma prática familiar inócua e respeitável, própria, inclusive, para pôr em evidência os dotes artísticos das meninas de boa família, como na mesma época sucedia, de resto, nos meios equivalentes de extracção burguesa. Teresa de Noronha, que tinha na família exemplos de fadistas amadores destacados, desde o tio-avô, D. João do Carmo de Noronha, ao próprio irmão, D. Vasco de Noronha, e que deverá ter tido desde criança contacto regular no seu meio com outros casos semelhantes, como o dos tios irmãos D. Pedro e D. António de Bragança, da casa dos Duques de Lafões, terá assim começado naturalmente a cantar o Fado no seu círculo familiar, depressa se espalhando a fama do talento de que dava provas.
O que sabemos é que em 1938, apenas com vinte anos, era convidada pela Emissora Nacional para se apresentar num programa quinzenal regular de fados, o primeiro daquela estação radiofónica. Com excepção de uma interrupção de alguns anos após o seu casamento, em finais de 1947, viria a manter este programa até 1961, granjeando uma enorme popularidade junto dos ouvintes de todo o País, que depois viria a ser reforçada pela ampla circulação dos seus discos. Escusando-se a um verdadeiro circuito profissional, que de resto à época não existia ainda de forma estável para os fadistas fora das casas de fado e dos palcos de revista e opereta, foi continuando a cantar entre família e amigos, ou ocasionalmente em festas de beneficência. Gravou ainda nos anos 40 os primeiros discos de 78 RPM, com a guitarra de Fernando Pinto Coelho e a viola de Abel Negrão, e em 1946 aceitou convites para se apresentar em Barcelona e Madrid, bem como no Brasil. A 12 de Dezembro de 1947, no entanto, casou com José António Guimarães Serôdio, Conde de Sabrosa, ele próprio um guitarrista amador de mérito que se viria a destacar como compositor de fados, e decidiu reduzir ainda mais a sua carreira, só vindo a retomar plenamente em 1952.
Neste último ano, para lá de retomar os seus programas na Emissora Nacional, voltou a gravar uma nova série de discos de 78, agora com acompanhamento de Raul Nery à guitarra e Joaquim do Vale à viola. Seriam os mesmos músicos a acompanhá-la a partir daí em todas as suas actuações, em estúdio ou ao vivo, embora reforçados, a partir de 1959, pelos restantes membros do Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Decidiu retirar-se por completo da actividade artística em 1961, querendo, segundo ela própria dizia, ser lembrada no auge das suas capacidades, e abandonou então definitivamente os seus programas de rádio. Contudo, deslocar-se-ia ainda depois dessa data a Monte Carlo, a convite dos Príncipes Rainier e Grace do Mónaco, e a Londres, aí actuando em 1964 na Casa de Portugal e na BBC, com enorme sucesso (uma curiosa faceta anedótica desta apresentação é que o efectivo impacte do programa no público televisivo local e a coincidência inesperada de os ingleses considerarem que Teresa de Noronha e Raul Nery tinham fortes parecenças físicas com a Rainha Isabel II e o Duque de Edimburgo, respectivamente, motivaram a este último respeito, a par com referências musicais muito elogiosas, uma série de referências bem-humoradas nos media britânicos).
Apresentou-se ainda na RTP em 1968, e continuou a gravar discos até 1971 (o seu derradeiro LP seria lançado no ano seguinte). Foi entretanto reduzindo cada vez mais as suas apresentações públicas, mesmo informais, interrompendo-as quase de forma definitiva em 1973. Terá cantado em público, excepcionalmente, pela última vez, segundo informações recolhidas por Daniel Gouveia, em 1976, na casa de fado Picadeiro, de Cascais. Morreu na sua casa de S. Pedro de Sintra a 5 de Julho de 1993, depois de doença prolongada.
- Excerto do texto presente na colectânea de fados de Maria Teresa de Noronha, lançada pela EMI-Music Portugal, Lda., em 2006.

domingo, setembro 10, 2006

E porque nos "post" anteriores se falou de Simone de Oliveira aqui vai o link para se ver e ouvir (com optimo som e com uma imagem, infelizmente, não tão boa) a espectacular interpretação de Simone de Oliveira no Festival da Canção de 1969, em Madrid (se a memória não me falha). É um documento fantástico, onde a força das palavras de Ary dos Santos e a força divina da voz de Simone (excelentemente bem vestida e de uma beleza extraordinária) mostram-se em todo o seu esplendor.
Desde já agradeço a "Arnaldooo" o ter-me enviado o link para este video que eu nunca havia visto... muitissimo obrigado. Uma maravilha.
http://pd.ptbyte.com/ESC/1969.ram - Desfolhada, Simone de Oliveira, 1969

sábado, setembro 09, 2006


A imagem seguinte mostra um Cartoon que apareceu numa revista militar, mais precisamente de O Condestável - Revista do Regimento de Infantaria de Aljubarrota (R. I. 7), datado do ano de 1969. Ora esse ano, entre outras coisas, ficou marcado a nivel nacional pela canção Desfolhada à Portuguesa, interpretada por Simone de Oliveira e com letra de José Carlos Ary dos Santos. Música controversa para a época, que fez correr muitas tintas nos jornais, muito latim nas rádios e televisões.
O Cartoon que vos mostro fala exactamente de Simone e da Desfolhada... mas digo-vos já que não tem piadinha nenhuma... mas enfim... temos de recuar no tempo e colocarmo-nos num quartel nos anos 60... ora vejam:

(a qualidade da imagem não é boa porque foi tirada às escondidas na Biblioteca Nacional com o telemóvel... mas não digam nada a ninguém.)

Um Recibo de Obras absolutamente genial - Capela do Bom Jesus, Braga, 1853


domingo, setembro 03, 2006

E o que prometia ser uma noite inesquecível... foi mesmo. Que junção extraordinária esta de Camané com Carlos do Carmo. As duas maiores vozes - no activo - do Fado. A antiga e a recente geração do Fado. Duas visões diferentes do que é o Fado... a mesma genialidade.
Marcado para as 22 horas, o concerto iniciou-se com dez minutos de atraso... no problem.
Milhares de pessoas - e não é exagero - enchiam o relvado frente à Torre de Belém, prontas para demonstrar que o Fado está vivo, diria mesmo vivíssimo, e recomenda-se.
O espectáculo inicia-se com Bernardo Sassetti ao piano e as palavras de Sophia de Mello Breyner pela voz de Eunice Munoz que, minutos depois, emprestou a sua voz a Álvaro de Campos e com Carlos do Carmo a prestar-lhe uma homenagem que culminou com uma imensa salva de palmas e o público de pé. "Que sorte tem este nosso país em ter uma Dama desta categoria no nosso Teatro" - referiu Carlos do Carmo.
Após o primeiro poema surge a primeira "brincadeira" da noite. Camané aparece e canta uma música do reportório de Carlos do Carmo. Depois vem Carlos e faz o mesmo... canta uma música do reportório de Camané.
Tudo o resto é deslumbramento. A Voz, as Palavras, a postura dos dois fadistas em palco. A brilhante execução dos músicos e a prestação da Orquestra Sinfonietta de Lisboa a elevar a magia da noite.
Como seria de esperar, os Fados de Carlos do Carmo foram os que maior entusiasmo causaram junto do público. "Canoas do Tejo", "Gaivota", "Cacilheiro", "Lisboa Menina e Moça" e outros, foram cantados em côro por todos os que se encontravam presentes. Quando tal não acontecia, reinava o silêncio, mostrando um público atento, deslumbrado e agradecido pela oportunidade, que eu espero que se repita, de ver Mestre e Discípulo, juntos, em palco.
Mais uma vez, e à semelhança de todos os outros concertos de Carlos do Carmo a que me referi em outros textos neste blog, não posso deixar de sublinhar a excelência de voz que Carlos do Carmo ainda possui. É extraordinário, depois de mais de 40 anos de carreira, que ele se mantenha em forma, arriscando-me mesmo a dizer que nunca esteve tão espectacular na forma de cantar.
Em pano de fundo foram sendo projectadas fotografias de Lisboa de Eduardo Gageiro, publicadas no livro "Lisboa - No Cais da Memória".

sexta-feira, agosto 11, 2006


Não há nada pior do que começar o dia a ouvir más noticias. Então quando esse dia coincide com a data do nosso aniversário... ainda pior. Foi o que me aconteceu ontem - dia 10 de Agosto - data em que comemorei os meus recem-chegados 29 anos.
Passei a meia-noite do dia 9 para o dia 10 com alguns dos meus amigos mais queridos, pessoas que me ajudam a estar bem, a crescer, a aprender... a viver.
Foi uma noite calma, de muita conversa, onde constatei realmente que o que de mais importante o mundo tem para nos oferecer são os amigos. Carinho, ajuda, compreensão, abraços e beijos.
Cheguei a casa feliz.
Dia 10 acordo com aquela sensação anual (normalmente sempre do dia 10 de cada Agosto de cada ano) de que "este ano é que vai ser... tudo vai mudar... agora é que isto leva um rumo...". Sensação esta que se vai esmorecendo ao longo dos dias que passam, renovável depois por mais 6 meses quando chega a passagem de ano. E assim se vive de ilusões semestrais.
Mas este ano foi tudo diferente. Acordo, ligo o rádio... tragédia. Mais ameaças de atentados, pavor em aeroportos, não sei quantos aviões que podiam ou iriam explodir em pleno vôo, sabe-se lá porquê, sabe-se lá com quem lá dentro e sobre a cabeça de quem iriam cair os destroços.
Pronto... assim se mata num minuto o que devia durar um semestre... os meus 6 meses de ilusão... explodiram sem levantar vôo.
Que fiz eu? Aconcheguei a almofada, virei-me para o outro lado, Mercedes Sosa em volume máximo... E eis que me é restituido um trimestre à ilusão da vida com esta letra magnifica, na sua voz magnifica:

GRACIAS A LA VIDA

Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me dio dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en el alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre que yo amo.



Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido y el abecedario

Con el las palabras que pienso y declaro

Madre, amigo, hermano y luz alumbrando,

La ruta del alma del que estoy amando



Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado la marcha de mis pies cansados

Con ellos anduve ciudades y charcos

Playas y desiertos, montañas y llanos

Y la casa tuya, tu calle y tu patio.



Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me dio el corazon que agita su marco

Cuando miro el fruto del cerebro humano

Cuando miro el bueno tan lejos del malo

Cuando miro el fondo de tus ojos claros.



Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Asi yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto.

terça-feira, agosto 08, 2006



Madonna desafia protestos e encena crucificação em Roma

Madonna ignorou o coro de protestos religiosos e encenou uma crucificação no concerto que deu em Roma, domingo à noite, como parte da sua digressão mundial Confessions. À margem da controvérsia, a cantora deixou um apelo à paz entre islão e judaísmo.

Perante uma audiência de 70 mil fãs, no estádio olímpico da capital italiana, Madonna voltou a desafiar as críticas, incluindo uma ameaça de excomunhão, e voltou a ser erguida, com uma coroa de espinhos na cabeça, numa cruz revestida de pequenos espelhos.

No centro da polémica esteve a integração de símbolos religiosos no espectáculo, considerada ofensiva por líderes católicos, muçulmanos e judaicos. Madonna defendeu-se com a justificação de que as imagens faziam parte de um apelo a um maior envolvimento na luta contra a sida.

Representantes da Igreja Católica chegaram a acusar a artista de blasfémia e de provocação, um sentimento que esta só inflamou ainda mais ao convidar o Papa a estar presente no concerto.

Porém, a única mensagem que Madonna reservou para a noite foi de paz. "É possível ter paz neste mundo. Vocês devem acreditar que mudar o mundo é possível", disse rodeada de dois bailarinos, com o Crescente Vermelho e a Estrela de David desenhados nos seus corpos.

O momento mais aguardado pelo público aconteceu quando interpretou o tema Live to Tell, durante o qual encenou a sua crucificação - uma secção que faz parte da digressão desde o seu arranque, em Maio -, ao mesmo tempo que eram projectadas imagens e números de pessoas em sofrimento em todo o mundo. A Rainha da Pop apimentou o espectáculo de duas horas e meia com outras imagens controversas, chegando, a certa altura, a mostrar fotografias do Papa Bento XVI logo a seguir às do ditador italiano Benito Mussolini.

Um desafio à fé

Uma fã de Madonna, Tonia Valerio, de 39 anos, disse à agência Reuters que achou a crucificação "desnecessária e provocadora". "Por estarmos em Roma, preferia que não o tivesse feito. Mas é a Madonna, ela é um ícone, e isso compensa a sua necessidade de provocar", explicou.

O cardeal do Vaticano Ersilio Tonino, que falou com o consentimento de Bento XVI, classificou o concerto como "um blasfemo desafio à fé" e uma "profanação da cruz". O cardeal apelou à excomunhão de Madonna, educada como católica.

A porta-voz da artista, Liz Rosenberg, recusou a ideia de que o espectáculo constituía um insulto à religião. "O contexto da cena na cruz não é negativo nem foi concebido para desrespeitar a Igreja", afirmou.

A Igreja Católica condenou no passado vários dos videoclips e digressões de Madonna e um grupo do Vaticano alertou, em 2004, que a mais recente crença religiosa da autora de Like a Virgin, a Cabala (uma forma mística de judaísmo), constituía uma potencial ameaça à fé católica.

A polémica viaja agora para Moscovo, em antecipação do primeiro concerto da cantora na Rússia, no dia 11 de Setembro. A Igreja Ortodoxa russa já apelou aos seus fiéis para boicotarem o espectáculo, uma vez mais devido à apropriação da imagem de Jesus Cristo na cruz.

Diário de Notícias - 08 Agosto 2006

Madonna under fire over mock crucifixion

Religious groups have reacted furiously after Madonna appeared hanging from a cross and wearing a crown of thorns during her latest world tour.

During her performance at the Los Angeles forum, Madonna appeared strapped to a 20 foot high crucifix, prompting outrage from Christian leaders.

A Church of England spokesman said: "Is Madonna prepared to take on everything else that goes with wearing a crown of thorns?

"And why would someone with so much talent seem to feel the need to promote herself by offending so many people?"

David Muir of the Evangelical Alliance told the Evening Standard: "It is downright offensive. Madonna's use of Christian imagery is an abuse and it is dangerous.

"The Christian reaction to this sort of thing tends to be tempered but if the same thing was done with the imagery and iconography of other faiths the reaction woulld be very different."

During last night's performance, the Material Girl also mocked Prime Minister Tony Blair and US President George Bush in a video montage by juxtaposing their images against those of dictators Osama bin Laden, Hitler and Robert Mugabe.

She also directed an insult at President Bush with a joke about oral sex.

It is not the first time Madonna has upset religious groups and political leaders.

In 1989, the Vatican wanted her banned from performing in Italy after it deemed her video for Like A Prayer as blasphemous.

Madonna will be performing in Britain in July and August and fans are expected to pay up to £200 for a ticket.

Daily Mail - 23 Maio 2006

sexta-feira, agosto 04, 2006

Elisabeth Schwarzkopf, Opera Singer, Dies at 90
By ANTHONY TOMMASINI
Published: August 4, 2006

Elisabeth Schwarzkopf, the German-born soprano whose interpretations of Strauss and Mozart made her one of the most dazzling artists of her time, died yesterday at her home in Austria. She was 90.

Her death was reported by Austrian state television. Citing a funeral home director, the broadcaster, ORF, said Miss Schwarzkopf had died in the town of Schruns in Austria’s westernmost province, Vorarlberg. No cause of death was given.

To her legions of admirers, Miss Schwarzkopf was a peerless interpreter of Strauss’s Marschallin, Mozart’s Donna Elvira and other operatic roles. But her image was tarnished in her later years by revelations that she had lied about the extent of her association with the Nazis during World War II.

Not only had she performed for the Nazis, it was learned, but she had also been a member of the party. In her defense, she said that for an artist needing work, joining the party had been “akin to joining a union.”

For a singer of such unquestionable stature, Miss Schwarzkopf’s work was controversial. In her prime, she possessed a radiant lyric soprano voice, impressive technical agility and exceptional understanding of style. From the 1950’s until the 1970’s, she was for many listeners the high priestess of the lieder recital, a sublime artist who brought textual nuance, interpretive subtlety and elegant musicianship to her work.

But others found her interpretations calculated, mannered and arch (the “Prussian perfectionist,” one critic called her), and complained that in trying to add textual vitality, Miss Schwarzkopf resorted to crooning and half-spoken dramatic effects.

Connoisseurs and critics could be surprisingly divided about her basic vocal gifts.

Will Crutchfield, reviewing some live recordings of Miss Schwarzkopf in recital, wrote in The New York Times in 1990: “It was always clear that she had a superior voice (a smooth, glamorous lyric soprano) and superior technical command.” Yet Peter G. Davis, writing in The Times in 1981, described her career as “a triumph of intelligence and willpower over what was basically an unremarkable voice.”

The consensus, however, was that in roles like the Marschallin and other Strauss heroines (Ariadne in “Ariadne auf Naxos,” the countess in “Capriccio”), as well as Mozart’s Fiordiligi and Countess Almaviva and Wagner’s Eva and Elsa, she could sing incomparably, with shimmering tone and richness and charismatic presence.

She was an uncommonly beautiful woman, despite a visible gap between her two front teeth that she never bothered to correct, with light hair and deep-set gray eyes. For a time in her younger years she pursued a career as a film actress and might have succeeded had she continued.

A hard-working, self-challenging singer, she performed 74 roles in 53 operas, including Anne Trulove in the world premiere of Stravinsky’s “Rake’s Progress” in Venice in 1951. Her lieder repertory included hundreds of songs by Schubert, Schumann, Mozart and Strauss, and she was a pioneering champion of the songs of Hugo Wolf, which she sang with insight and affecting beauty.

Olga Maria Elisabeth Frederike Schwarzkopf was born on Dec. 9, 1915, in Jarotschin, Germany, in what is now west-central Poland. Both her parents were Prussian. Friedrich Schwarzkopf, her father, a classics schoolmaster, was an easygoing intellectual. Her mother, the former Elisabeth Frohling, was an efficient homemaker who took charge of her adored only child’s education and budding musical career.

Friedrich Schwarzkopf’s work as a teacher necessitated that the family move several times. When Elisabeth was 13, they settled in Magdeburg, Germany, where she studied piano, guitar, viola and organ and developed a naturally high, light voice that kept her in demand for concerts at school and local amateur performances.

The family moved to Berlin in 1933, the year Hitler came to power. Miss Schwarzkopf attended the Berlin Royal Augusta School and later won admission to the Hochschule für Musik. In 1934, before beginning her formal training, she won a grant from the League of National Socialist Students for a cycling and camping trip to England, where she learned English. She retained a fondness for the country, which after the war embraced her as an artist and made her a Dame of the British Empire in 1992.

At the music school, students were required to attend daily lectures on Hitler’s National Socialist movement, and in 1935, when she was nearly 20, Miss Schwarzkopf joined the student association of the National Socialist Party. Alan Jefferson, a Schwarzkopf biographer, said she became führerin of the student organization and that one of her responsibilities as ideological leader was to “keep an eye on other students.”

Her teacher at the Hochschule für Musik, Lula Mysz-Gmeiner, though distinguished in her field, inexplicably believed that Miss Schwarzkopf should be a contralto. It was not until after her formal training, in 1938, when she began singing with the Berlin State Opera, that Miss Schwarzkopf came into her own vocally.

During this time she gained a reputation as a singer fiercely determined to leap from the small roles typically assigned a newcomer into substantive parts. The director of the company, Wilhelm Rode, had won the favor of Joseph Goebbels, the Nazi propaganda minister. One reason Miss Schwarzkopf later gave for cooperating with the Nazis was that it was incumbent on aspiring singers in the company to support the party.

But until the 1980’s, she maintained that she had never officially joined the Nazi Party. She denied having done so in three Allied questionnaires in 1945, a time during the occupation when former party members were usually barred from public performance in Germany.

In 1982, however, a music historian at the University of Vienna, Oliver Rathkolb, published a doctoral dissertation that revealed details of her party membership. The information had come from documents discovered in the Allied Denazification Bureau in Vienna and subsequently moved to the National Archives in Washington.

According to these records, Miss Schwarzkopf applied for membership on Jan. 26, 1940, and was accepted on March 1 of that year, becoming Nazi member No. 7548960. Scholars and authors have since placed her application for party membership even earlier.

In an interview with The Times in 1983, Miss Schwarzkopf denied she had been a party member. But when told of these documents by The Times, she admitted that she had joined the party. “We thought nothing of it,” she said. “We just did it.” In a letter to The Times, she expanded on her explanation: “It was akin to joining a union, and exactly for the same reason: to have a job.”

In other interviews, she quoted in her defense the first line of Tosca’s famous aria: “Vissi d’arte,” which translates, “I lived for art.”

Discussion of her Nazi past re-emerged briefly in connection with tributes to her on her 80th birthday. Mr. Jefferson’s biography, “Elisabeth Schwarzkopf,” which came out at the time, raised debate about her wartime role, depicting her as an ambitious singer who was focused on furthering her career.

As a Nazi, Miss Schwarzkopf gave performances at party functions and sang for Waffen SS troops at the front. Some researchers believe she became a member of Goebbels’s Reichstheaterkammer, working in the propaganda ministry and appearing in some films.

Still, if she had hoped that party affiliation would quickly advance her career at the Berlin State Opera, it did not work as planned. She was still expected to sing, sometimes nightly, bit roles in “Carmen,” “Die Fledermaus” and frothy operettas.

Her breakthrough came with the dauntingly difficult coloratura role of Zerbinetta in “Ariadne auf Naxos,” which she first sang in late 1940. Her performance won the attention of Maria Ivogün, a noted exponent of the role. Miss Ivogün was so impressed, she took on Miss Schwarzkopf as a private student, coaching her in the high soprano repertory, and training her as a lieder singer. Miss Schwarzkopf was soon engaged by the Vienna State Opera.

She realized that her future lay with the lyric soprano repertory. Engagements followed at the first postwar Salzburg Festival in 1947, where she worked with the conductor Wilhelm Furtwängler, and in subsequent summers, when she formed a close working relationship with the conductor Herbert von Karajan. She also toured with the Vienna State Opera in 1947, traveling to London, where she performed in “Don Giovanni” and “Fidelio” at Covent Garden.

The London performances were an enormous success, and she was invited to join the newly founded Covent Garden company. She sang with the company for the next five years, performing not just her German repertory but also Violetta, Mimi, Gilda, and Massenet’s Manon, all in English.

Her career and repertory choices were now being shaped by Walter Legge, then a music administrator and critic. Born in London in 1906, Legge had no formal training in music but was musically astute. He had been an assistant to Sir Thomas Beecham and was largely responsible for forming the Philharmonia Orchestra and Chorus.

After the war, Legge worked mainly for recording companies. It was during a scouting trip to Vienna in search of new talent for EMI Records that the severe-looking, bespectacled Legge first heard Miss Schwarzkopf in an audition. Thus began an artistic partnership that grew into a life partnership. Legge, then divorced from his first wife, Nancy Evans, a mezzo-soprano, married Miss Schwarzkopf in 1953.

Opinion is divided about the effect Legge had on Miss Schwarzkopf as an artist. He tended to treat her as a musical and intellectual inferior. He was capable of berating her in public when she failed to meet his approval.

But he introduced her to a wealth of repertory, especially the songs of Hugo Wolf, and as artistic director of EMI Records, he supervised her recordings, coaching her in detail and ensuring that the engineers captured her voice at its best. Given Miss Schwarzkopf’s association with the Nazis, there was some trepidation about launching her American career. Her debut in the United States was delayed until October 1953, but that performance, a single sold-out song recital at Town Hall in New York, captivated the critics.

This was followed in late 1954 by an American tour, which ended back at Town Hall. A critic for Musical America wrote that Miss Schwarzkopf’s singing at Town Hall had “displayed the exquisite finish, technical mastery and interpretive felicity that had marked her debut recital here last season.”

In the fall of 1956 she sang a recital at Carnegie Hall. It was the first time the hall had ever been sold out for a program of German lieder.

Miss Schwarzkopf’s American operatic debut came in 1955 with the San Francisco Opera as the Marschallin. Mildred Norton, a critic for The Saturday Review, reported that a capacity audience had saluted a “memorable new Princess Werdenberg.” Miss Schwarzkopf, she wrote, was “a poised and vibrant new personality with a vocal radiance and a personal grace.”

Her debut at the Metropolitan Opera did not occur until October 1964, again as the Marschallin. Though Raymond Erickson, a critic for The Times, noted less freshness and bloom in Miss Schwarzkopf’s voice (she was nearly 49), he said she had “conquered her listeners, and the roar that filled the house when she took her bows must be the kind that the most vain prima donna could ask for.”

Outside the Metropolitan Opera House, there were scattered protests over her wartime career, and Miss Schwarzkopf had a chilly relationship with the Met’s general manager Rudolf Bing, an Austrian-born Jew. Besides her six performances of the Marschallin that debut season, she sang only one more time at the Met, a Donna Elvira in 1966.

But she performed frequently in New York in recital and with orchestras and continued to win devoted admirers around the world. Many of her EMI recordings became immediate classics. Among them were her Mozart song album with the pianist Walter Gieseking and her Schubert song album with the pianist Edwin Fischer, both recorded in 1952; her 1957 recording of “Rosenkavalier,” conducted by Karajan, and, one of her finest achievements, her 1959 recording of “Capriccio,” conducted by Wolfgang Sawallisch.

As her career slowed, she began giving master classes, usually teaming with Legge, gaining a reputation as an insightful but almost impossibly exacting coach. In 1977-78, she embarked on a swan song recital tour, mostly accompanied by the pianist Geoffrey Parsons, who was her partner for her official farewell recital in Zurich on March 19, 1979. Two days later, Legge, who had become embittered that his talents were no longer sought by recording companies, died of a heart attack at 72.

Miss Schwarzkopf leaves no immediate survivors. Asked once whether she regretted having had no children, she replied, “I have 500 children, the songs I sing.”


Daniel J. Wakin contributed reporting for this obituary.

New York Times


Morreu aos 90 anos a maior cantora de Mozart e Strauss do século XX

Retirada nos Alpes austríacos (e, antes, nos Alpes suíços), parecia que ela sempre viveria ali, nas alturas. Mas não. A vida alguma vez tinha de ceder e a de Elisabeth Schwarzkopf cedeu ontem, ao início da madrugada, em Schruns, no Vorarlberg (Áustria). Tinha 90 anos.

Espantosa vida e magnífica carreira. Nascida a 9 de Dezembro de 1915, em Jarotschin (Posnânia), a jovem Olga Marie Elisabeth Frederike chega em Março de 1933 a Berlim, para estudar na Escola Superior de Música, primeiro com Lula Mysz-Gmeiner, depois com Maria Ivogün e o marido desta, Michael Rauch- eisen: diziam-na mezzo, até contralto (!), acabou soprano coloratura. Anos mais tarde, transita para soprano lírico. E aí se fará imortal.

Estreia operática como 2.ª Rapariga das Flores numa produção do Parsifal, na Deutsches Opernhaus, a 15 de Abril de 1938. Contrai tuberculose em 1943. Já curada, vai para a Staatsoper de Viena em 1944. Será com esse milagroso ensemble artístico, sob a batuta de Karl Böhm, que a Schwarzkopf se vestirá de Zerbinetta, Musetta, Mimì, Violetta, Konstanze. A mudança para soprano lírico permite-lhe abraçar, enfim, os compositores pelos quais sempre a adoraremos: Mozart e Strauss. Walter Legge, director da EMI, contrata-a logo em Março de 1946 (cantou um Lied de Wolf na audição...). A EMI será sempre a sua casa a partir daí. E Legge o seu marido (casam-se em 1953) até à morte dele, em 1979.

Em 1947 e 1948, a estrela nascente dá-se a conhecer à Europa operófila, quando a Staatsoper faz residências no Covent Garden e no Scala. A "receita" que usa é... Mozart: em Londres, "diz-se" Donna Elvira e em Milão "faz-se" Condessa. A rendição é total. A sala londrina não se cansa de a chamar até 1959 e a Milão irá sempre até 1963. Salzburgo ouve- -a, quase sem interrupção, de 1947 a 1964 e a Bayreuth vai em 1951, como Eva e Woglinde. Estreia a Anne Trulove do Rake's Progress, de Stravins- ky (La Fenice, 1951). Os EUA, conquista-os aos poucos: Carnegie Hall (1953), San Francisco Opera (55), Lyric Opera Chicago (59), enfim, o Met, em 1964. E em 1965. E 1966! Os "presentes" que tem são poucos - mas quanto valem: Dona Elvira, Condessa, Fiordiligi em Mozart; a Condessa e a Marechala em Strauss e a Alice Ford, do Falstaff ! E opereta, com gosto! Mas, sobretudo, uma consumada, requintada e inspirada intérprete de Lied: Mozart, Schubert, Brahms, Strauss, Mahler e, acima de todos, Hugo Wolf, cujo génio deu a conhecer pelo mundo inteiro.

Despede-se dos palcos de ópera em 1971/1972 (Bruxelas) e dos recitais de Lied em 1979 (Zurique). Depois disso, ensinou até ter forças. Por ironia, morreu durante o Festival de Salzburgo, no ano-Mozart...
Diário de Noticias - 04 Agosto de 2006