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segunda-feira, julho 24, 2006
Anda amor , ver esta serra
Onde o vento se oculta e se desfaz
A clara maravilha deste sol
Que atira um emigrante sonho para o mar
(e o mar enterra o sonho pelas vagas
que se deixam prender e naufragar)
daqui poderei ver a tua altura
dentro dos nossos voos à distância
e, de mãos dadas , pela serra adiante
- Como folhas que Deus fosse colher!
Nós poderíamos amar , ainda mais ,
Esta imensa alegria de viver.
E o teus cabelos caíam para os seios.
E em teu anseio longo, a minha imagem...
Oh meu amor
É o nosso despertar
Na fuga onde riscamos a saudade
Que vai da serra ao céu e deste ao mar.
Vasco de Lima Couto
O que me atormenta
é não saber ver
o que está por dentro
de todas as coisas
de todos os seres
(só crio caixilhos
para os meus prazeres!);
é não ter palavras
para a natureza
que é sempre essa alma
lavrada em silêncio;
é estar sempre certo
de falar demais
cometendo crimes
de imaginação;
é não ter amigos
- por desatenção,
e não ter amor
- por pedir de mais!
É chegar à noite
com dia na alma
a fazer da lua
o sol que apetece...
e, principalmente,
o que me atormenta
é o que me esquece.
Vasco de Lima Couto
in: "O Silêncio Quebrado"
João Miguel Tavares
O campo de concentração de Auschwitz mudou de nome. Desde a semana passada passou a chamar-se - convém encher os pulmões - Antigo Campo Nazi Alemão de Concentração e Extermínio em Auschwitz- -Birkenau. O baptismo quilométrico foi abençoado pela UNESCO, a partir de uma proposta da delegação polaca, que bateu à porta da instituição munida deste notável argumento: convém não confundir a cabecinha das novas gerações e explicar-lhes que a Polónia nada teve a haver com a criação ou o funcionamento do campo. Daí o "nazi". Daí o "alemão". Daí a cirúrgica substituição de artigos: não já "de Auschwitz" mas "em Auschwitz".
Tanta subtileza seria comovente não fosse o facto ela traduzir mais uma vez a péssima relação que o ocidente tem com a sua história e os seus valores - para o bem e para o mal. Não só a Europa se perde, sobretudo no conflito com o fundamentalismo islâmico, em relativismos sem sentido que desvalorizam aquilo que foram as conquistas civilizacionais de que mais se pode orgulhar, como agora, neste pequeno desvario semântico, dá mostras de recusar assumir o Holocausto como uma tragédia e uma barbárie profundamente europeias. Certamente que a Shoah é um produto do nazismo e de condições políticas muito particulares da Alemanha dos anos 30 e 40, mas o massacre de milhões de judeus compromete todo o ocidente, enquanto civilização - e é isso que a proposta da delegação polaca parece querer fazer esquecer.
Esta ideia de que Auschwitz foi um antigo-campo-nazi-alemão-onde-morreram-1,5 milhões-de-pessoas-mas-nós-não-tivemos-nada-a-ver-com-isso é uma deriva muito politicamente correcta, que acaba por branquear a dimensão do maior crime do século XX. Os polacos não tiveram nada a ver com o Holocausto? As novas gerações de alemães também não. Enquanto expoente do mal, o Holocausto é de todos e de ninguém. Que um organismo como a UNESCO, que tem como missão velar pelo património da humanidade, dê o seu aval a uma proposta amnésica, eis um triste sintoma de excesso de burocracia e de falta de memória colectiva.
sábado, julho 15, 2006
João Miguel Tavares
O Paulinho foi meu colega de turma na década de 80, no ciclo e no liceu de Portalegre. Tinha uma particularidade: era bastante ostensivo na exibição da sua homossexualidade, com trejeitos efeminados e cadernos da escola com fotografias dos Wham e iloveyous dedicados a George Michael. Durante os quatro anos em que estudámos juntos, não deve ter havido dia em que não tenha visto o Paulinho - o diminutivo já o diminuía - ser insultado, gozado, pontapeado, esbofeteado. Nas aulas de ginástica, ele aparecia sempre vestido de fato de treino e no final abalava para casa a pingar, porque não se atrevia a tomar banho no balneário juntamente com os outros rapazes. Nessa selva de dúvidas e hormonas que é a entrada na adolescência, o Paulinho não era uma pessoa. Era um paneleiro, uma bicha que existia para ser espancada. Identidade não tinha - o mundo brutal que o cercava reduzia tudo o que ele era a uma opção sexual.
Tenho-me lembrado muito dele durante o julgamento de Gisberta, que está a decorrer no Porto. A expressão que servia de grito de guerra dos miúdos que, num momento de tédio, a espancaram até à morte - "vamos dar lenha ao Gi" - remete para a mesma recusa de humanidade, para a mesma incapacidade de assimilar a diferença. Dizer, como foi dito por uma "fonte judicial", que "são miúdos" e que aquilo foi apenas "uma brincadeira que correu mal" é um insulto e uma dupla mentira: nem as crianças são um albergue de inocência e puras intenções, nem os adultos têm o direito de virar a cara a tamanha barbaridade. Tudo neste caso está a ser demasiado consensual: o Ministério Público, a defesa, as crianças, alegremente misturados numa comovente concordância. Já em 1978, na Ópera do Malandro, Chico Buarque contava a história de Geni, "rainha das loucas e dos lazarentos": "Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá para qualquer um/ Maldita Geni." Geni, Paulinho, Gisberta, o mesmo fio une-os numa rede de pre- conceitos. Velha como o mundo e que ninguém parece ter forças para romper.
sexta-feira, julho 14, 2006
Eduardo Gageiro na "Sábado"

A fotografia que vos mostro em cima, foi tirada na praia de Sesimbra pelo grande fotografo Eduardo Gageiro. E saiu publicada na extinta revista "Sábado", da semana de 12 a 18 de Julho de 1991. Há 15 anos atrás.
Mas, para mim, esta fotografia pertence ao meu álbum familiar de fotografias, uma vez que a menina que está sentada na única barraca de praia ainda montada é, nem mais nem menos, que a minha irmã mais nova.
Principalmente devido à minha mãe, a nossa familia era conhecida em Sesimbra por ser a primeira a chegar à praia e a última a abandoná-la... só assim se explica o facto de ser a única barraca montada, com as cadeirinhas já arrumadas e o banheiro, ao fundo, a aproximar-se lentamente para nos "pontapear" para fora dali.
Da fotografia, não faziamos a minima ideia de que tinha sido tirada. Confesso que já não me lembro se vimos a fotografia porque se comprou a revista "Sábado" (o meu pai é daqueles que compra tudo e mais alguma coisa para ler na praia) ou se foi algum amigo que viu e percebeu logo que era a minha irmã.
Uma coisa fica: a minha irmã como "modelo" de Eduardo Gageiro... não é para todos!
Entrevista a Eduardo Gageiro“Os meus ideais ficaram marcados no meu trabalho”
Aos 68 anos, Eduardo Antunes Gageiro assume-se como um fotógrafo que sempre procurou a diferença e a ruptura com o socialmente instituído.
Nascido em Sacavém no ano de 1935, Eduardo Gageiro publicou a sua primeira fotografia aos 12 anos, em 1947, no “Diário de Notícias”, e passados dez anos iniciou-se na profissão de repórter fotográfico, no “Diário Ilustrado”. Gageiro trabalhou nas publicações “O Século Ilustrado”, “Eva”, “Almanaque” e “Match Magazine”, foi editor da revista “Sábado” e colaborou com a delegação portuguesa da Associated Press, a Companhia Nacional de Bailado e a Presidência da República. Galardoado com diversos prémios um pouco por todo o mundo, Eduardo Gageiro é actualmente fotojornalista freelance e trabalha regularmente para a Assembleia da República.
Em 2004 foi condecorado com o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, na cerimónia do 10 de Junho realizada em Bragança.
De que forma surge a fotografia na sua vida?
O meu pai tinha um pequeno estabelecimento comercial em frente à antiga Fábrica da Loiça de Sacavém e eu, ainda muito novo, aprendi a conviver com os operários da fábrica.
A partir de certa altura, o meu pai decidiu que a minha progressão profissional deveria de passar pela própria fábrica.
Primeiro fui paquete e depois empregado de escritório neste enorme complexo industrial mas, como é óbvio, devo ter sido o pior empregado de escritório do mundo, pois não tinha aptidão para a profissão.
Mas a verdade é que foi esse facto que me marcou toda a vida: a partir dos doze, treze anos, comecei a ganhar sensibilidade para determinados factos, como por exemplo ver, à saída da fábrica, os seus antigos operários a pedirem esmola. Essa visão marcou-me e, como o meu irmão Armando tinha uma pequena máquina fotográfica de plástico, que felizmente ainda guardo de recordação, iniciei-me na fotografia tentando registar os rostos, os olhares e as expressões de toda essa miséria social.
Mais tarde, alguns amigos emprestaram-me melhores máquinas fotográficas e, com a ajuda de alguns colegas que me iam dando algumas dicas a nível estético e técnico que me fizeram evoluir bastante.
Embora seja um autodidacta, penso que cedo mostrei que tinha alguma qualidade, já que ia conseguindo registar os momentos certos e captando os olhares mais profundos de uma determinada situação.
Como avalia a fotografia portuguesa dos anos 50?
Nessa altura estava muito na moda a chamada “fotografia de salão”, muito rebuscada, onde perdurava o pôr do Sol, as paisagens idílicas, entre outras. Sem ter noção disso, penso que fui fazendo uma ruptura com esse quadro social instituído. Talvez por isso mesmo, a partir dos dezasseis anos comecei a entrar em concursos de fotografia e ganhei imensos prémios a nível nacional e internacional. O primeiro prémio que ganhei, em 1955, foi num concurso organizado pelo Sindicato dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa. Escusado será dizer que causei sensação devido à minha tenra idade.
Começou então o fotojornalismo...
É verdade. Também por essa altura comecei a trabalhar para uma revista de Vila Franca de Xira chamada Vida Ribatejana. Como tinha a tal imagem de marca um pouco diferente dos fotógrafos da altura, tive muita aceitação e, em 1957, fui trabalhar para o Diário Ilustrado.
Como não tinha grande experiência, comecei por trabalhar no laboratório e, só mais tarde, é que comecei a ser requisitado para fazer trabalhos de entrevistas onde me esmerei para mostrar serviço. Algum tempo depois havia jornalistas que já me escolhiam preferencialmente a mim para fazer alguns trabalhos. A partir daí, com altos e baixos, não mais parei e a fotografia e o fotojornalismo acompanharam-me ao longo de toda a minha vida.
Com o 25 de Abril aparece o Eduardo Gageiro mais institucional: o fotógrafo oficial da Presidência da República e da Assembleia da República. Como é que conseguiu ligar a sua irreverência profissional às regras rígidas da fotografia protocolar?
Depois da Revolução convidaram me para fazer fotografias para um catálogo oficial da Assembleia da República. As pessoas, nessa altura, já me conheciam bem, especialmente pelo trabalho que fiz durante a própria revolução. Mais tarde, necessitaram de um fotógrafo para determinadas sessões parlamentares mais importantes, e foi daí que veio o convite para trabalhar para esse órgão do Poder Central. Era um trabalho de “bate-chapas”, que não fazia com grande prazer, embora fosse necessário do ponto de vista financeiro. Fui ficando e só agora, com o Governo actual, é que prescindiram dos meus serviços e foram contratar o fotógrafo oficial do partido do Governo.
Sacavém e a Fábrica da Loiça. Duas imagens marcantes para si...
A fábrica hoje já não me diz nada. São apenas recordações de um tempo diferente, e só tenho pena de tudo ter acabado da forma como foi, com dramas familiares de milhares de pessoas. Continuo a falar com antigos trabalhadores, e tratam-me sempre com grande carinho, pois recordam-se dos bons tempos que passámos. Quanto à cidade, embora não seja muito bela e se tenha transformado num dormitório de Lisboa, é a minha cidade. Tem um museu lindíssimo, uma frente ribeirinha que, infelizmente, se continua a degradar, mas mantém alguns encantos, principalmente para as pessoas que aqui nasceram e foram criadas.
Embora em algumas alturas da minha vida, principalmente quando trabalhei no Século Ilustrado e na Presidência da República, não tenha tido muito tempo disponível, penso que ao longo dos últimos cinquenta anos, fui fotografando a cidade e as suas gentes de uma forma contínua.
Num “flash” da sua memória o 25 de Abril é o seu grande momento?
É o mais importante, quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Até aí sempre tive medo de morrer sem ver esse dia e fiquei com a sensação que, depois da Revolução, poderia morrer feliz. É claro que, para mim, que vivi os momentos mais importantes ao lado do meu amigo Salgueiro Maia, o 25 de Abril teve um impacto tremendo. Fiz algumas fotos marcantes, como aquela em que na sede da PIDE o soldado retira a fotografia do Salazar, e estive presente nos momentos mais dramáticos, como o encontro das tropas no Terreiro do Paço.
Tive a felicidade de ter boas informações e depois a coragem de estar presente. Nestas condições o importante é não ter muito medo, pois algum todos têm, e o factor sorte também é decisivo. Depois é saber aproveitar e viver o momento.
Qual a fotografia mais marcante da sua vida?
Tenho algumas fotografias importantes, como uma que tirei aquando da tomada de reféns durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ou aquela na sede da PIDE, que já referi.
Se tivesse de escolher alguma, talvez optasse por uma em que o Salgueiro Maia cerra os dentes e morde o lábio e que foi tirada na altura em que a tropas de Cavalaria 7, fiéis ao Governo, optam por aderir à Revolução. Mais tarde ele disse-me que esse foi o momento em que se apercebeu que a Revolução triunfara.
É um saudosista ou procura acompanhar o desenvolvimento?
Tenho alguma dificuldade de aderir ao digital, em termos de fotografia, porque gosto muito do cheiro do laboratório. Essa continua a ser uma paixão. No entanto, como autodidacta que sempre fui, a inovação e a modernidade fazem parte da minha maneira de ser. Tento sempre procurar e acompanhar a criação e a novidade. Tive uma vida cheia de emoções, guardo em minha casa um espólio assinalável que mais tarde será entregue ao Museu da Cerâmica de Sacavém, mas não me vejo como um saudosista.
Fonte: Câmara Municipal de Loures
Aldina
por Eduardo Prado Coelho
15 de Abril de 2004
A entrevista que Ana Sousa Dias fez com a cantora de fado Aldina Duarte foi um momento extraordinário de televisão. Habitualmente, as pessoas chegam ao estúdio apoiadas no nome que lhes dá uma imagem social. Isso cria-lhes uma responsabilidade, mas é ao mesmo tempo uma forma de amparo. A personagem pública vai à frente a abrir caminho. A personagem íntima segue escondida, espreita, avança alguns passos tímidos. A dada altura toma a dianteira e desconstrói a personagem pública. Desconstrói, isto é, desmonta as suas próprias defesas, expõe-se na sua vulnerabilidade intrínseca.
Aldina Duarte - de quem falei recentemente a propósito do seu excelente disco "Apenas o Amor" - não segue este percurso, Expõe-se logo de entrada, numa atitude sem pose. Não está à vontade, nem sempre sabe o que pode dizer, mas assume as suas próprias dificuldades de um modo tão natural e espontâneo que isso lhe dá todas as condições para nos aparecer como uma pessoa amiga que veio pela nossa casa dentro. O que é raro. O mérito cabe também ao modo de conversar de Ana Sousa Dias. Mas sem material humano não há modo que valha.
Foi essencial - como a Ana disse no fim - esquecer que se estava com um estúdio à volta. Foi essencial - como a Aldina reconheceu - esquecer que havia a televisão a cercar as pessoas. E nós próprios deixámos de lado o espírito crítico e deixámos que as pessoas rissem, se emocionassem, se indignassem, se olhassem nos olhos, se entendessem naquilo que têm de mais profundo: uma ponte de afectos. O que Aldina nos deu não foi uma personalidade, que precisa de traços e tiques sociais para se desenhar a si própria. O que a Aldina nos deu foi em primeiro lugar a capacidade de ser igual a qualquer de nós, de ter medos, ignorâncias, cautelas, desilusões, pavores inconfessáveis. Mas o que Aldina nos deu de uma maneira admirável - e inesquecível - foi uma singularidade: ela é única na sua história, ela é única no seu trabalho de artista, ela é única nos seus gostos, ela é a única no seu modo de ser. Por exemplo: filha de uma pessoa extremamente modesta que trabalhava com uns patrões, Aldina vê nesses patrões todas as marcas de um olhar sobranceiro de classe. Nesse plano, a sua descrição é sociologicamente precisa. É difícil ir mais longe no modo como a arrogância e a opressão de um olhar que se supõe superior vai afectando a imagem de um corpo de criança e adolescente. Mas no fundo ela retira a carga excessivamente moral desta situação, para ver a relação estrutural entre as pessoas: não, não, talvez eles não fossem tão maus como então se pôde pensar.
Há em Aldina uma posição política que passa primeiro por um corpo antes de se deixar envolver pela teoria. Há em Aldina uma profunda aprendizagem da solidão. E uma vontade feroz de aprender - ter uma biblioteca, isolar-se para ler, fazer cada coisa de uma só vez. E uma amiga antropóloga explicou-lhe que religião tem a ver com religar. Nesse plano, ela sente-se religiosa. Em tudo o que faz concretiza a tarefa de religar os pedaços soltos do mundo para dar um pouco mais de sentido ao mundo em que vive.
Visite o site e o blog de Aldina Duarte em:
http://www.aldinaduarte.com
quinta-feira, julho 13, 2006
Dom Vasco Teles da Gama *
Em plena euforia resultante do mundial de futebol, celebrou-se este mês mais um dia de Portugal, uma vez mais fora de Lisboa, talvez para, a pretexto de descentralizar, se evitarem confusões entre as comemorações oficiais e a homenagem que ocorre todos os anos em Lisboa aos milhares de Portugueses que, no último século, morreram por Portugal.
Que espantosa diferença entre o que se passa, por exemplo, na monarquia inglesa e o vergonhoso complexo que as autoridades portuguesas manifestam pelos seus mortos, talvez ainda fruto de uma já velha revolução, cujo significado começa, para os mais jovens, a perder-se entre as brumas da memória… É que estes mortos eram portugueses e foi por Portugal, a mando dos políticos que então exerciam o poder, que combateram, como muitos antes deles, para que, melhor ou pior, o seu País continue a existir, nove séculos depois de ter sido fundado por D. Afonso Henriques e um punhado de antepassados nossos, que no seu tempo morreram também, pela mesma causa.
Entretanto, os que agora mandam entretêm-se a sufocar a nossa agricultura e pescas às ordens de Bruxelas, mais interessada em criar mercado de consumidores para os excedentes de países mais poderosos e ricos, do que em promover as nossas. Continuam a reformar as escolas, agora com a peregrina ideia de submeter os professores ao juízo dos pais dos alunos corrécios, o mais das vezes analfabetos, até à iliteracia e indigência totais. Em resultado de anos de incompreensíveis e inacessíveis restrições no acesso às faculdades de medicina, importam-se agora médicos castelhanos, porque os que por cá se formaram nos últimos trinta anos, não chegam para as encomendas.
Para cúmulo, o parlamento livremente eleito e garante, como foi amplamente propalado, das mais amplas liberdades para o povo, ocupa-se, segundo moda importada, a promover uma legislação que equipara os fumadores aos leprosos da Idade Média! A tentação totalitária do poder, mesmo em democracia, gera estes tiques impensáveis, no que toca às regras de conduta. Querem meter o bedelho em tudo e com o avanço da tecnologia, se não reagirmos, desconfio que acabamos todos com um chip atrás da orelha e comportamentos padronizados (Já começaram com as ovelhas e as vacas…). Depois do acosso ao tabaco e ao álcool, a pretexto do terrorismo e do ambiente, só Deus sabe quantas proibições irão ainda passar por aquelas indigentes e prepotentes cabecinhas…
A republica está velha, caduca e autoritária e já não é garante nem das mínimas liberdades.
Viva Portugal, Livre e Eterno!
* Nota: o texto publicado é da exclusiva responsabilidade do autor.
In, Diário Digital
quarta-feira, julho 12, 2006
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny, Pena Capital


