Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
quarta-feira, julho 12, 2006
terça-feira, julho 11, 2006
Descobri que era europeia
Natália Correia
"Trouxe curiosidades para a América. E não as levo no regresso. Também não levo certezas. Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita. Deixo-as aqui, como um tributo à alta montanha que o pequeno esquilo não logra trepar. Não foi medo nem desesperança que me tolheram os passos na escalada. Foi a simples verificação dum facto: a América é um problema de que só ela tem a chave. A solução desse problema só interessa aos americanos. Se tentarmos compreendê-la, partindo de nós próprios, da nossa concepção do que ela "possa ser", escolhemos o caminho mais longo, porque nós somos estruturalmente diferentes.
Apontar as diferenças que nos extremam seria a recapitulação da História.
Ponhamos, pois, a questão nestes termos: gostei ou não gostei da América?
Ainda aqui a minha posição é ambígua. É tão impossível gostar da América como não gostar. Isto traduz-se num sentimento abstracto: o da fascinação. E qual é a fonte donde brota essa fascinação? O enorme tablado onde se desenrola a esotérica urdidura da tragédia americana. O seu esoterismo não é o inviolável segredo dos deuses. É a crise do desenvolvimento. Uma puberdade física e mental que convive, no seu âmago, com os fantasmos das coisas irreveladas. Nas suas células em formação ferve o sangue coagulado de várias taras sem poros para se evaporarem, a neurastenia da solidão acompanhada, um romantismo turbulento e um puritanismo mórbido. Objectiva e utópica, intransigente e tolerante, aventureira e calculista, arrebatada e grave, magnânima e egoísta, franca e enigmática, tudo de bom e de mau, de elevado e de mesquinho, nela existe em potencial, como num barro tosco a que o cinzel dos séculos ainda não deu forma.
É a antítese da tragédia europeia filtrada no cristal do tempo: a serenidade clássica da experiência e da razão.
Os americanos transmitem-nos a angústia do inacabado. Eles não são completamente generosos, nem completamente egoístas; não são completamente cordiais, nem completamente hostis. São seres por revelar.
Agosto de 1950"
O Tribunal de Contas detectou um vasto conjunto de irregularidades na gestão da Companhia Nacional de Bailado (CNB) responsabilizando a directora, Ana Caldas, por eventuais infracções financeiras, tendo enviado o caso para o Ministério Público.
A directora da CNB assumiu, entre outros, encargos sem dotação orçamental no valor de 3,6 milhões de euros e efectuou pagamentos ilegais a funcionários superiores a 573 mil euros.
O rol de irregularidades, que foi detectado no âmbito de uma auditoria, é extenso e vai desde a utilização de um fundo de maneio para despesas não cobertas, até à realização de pagamentos antes da celebração dos contratos, passando por autorizações e pagamentos ilegais aos trabalhadores, nomeadamente a artistas convidados.
Embora a auditoria se concentre na gestão do ano de 2004, não deixaram de ser analisadas as contas de 2003 e até de 2005, revelando que as irregularidades com dinheiro do Orçamento de Estado se estenderam no tempo.
Os auditores foram confrontados com registos manuais e até mesmo com a ausência de documentos. Por exemplo, “na área de pessoal, a inexistência de documentos de suporte adequados impossibilitou o controlo sobre o cumprimento dos limites legais e a correcção dos valores processados a título de trabalho suplementar”, lê-se no relatório divulgado ontem
O Ministério da Cultura recebeu com “preocupação” este relatório e , de acordo com fonte oficial, “vai fomentar todas as medidas necessárias a um estrito acompanhamento da actual gestão da CNB, no sentido de evitar a prossecução de tais irregularidades”.
CULTURA DÁ 'ORIENTAÇÕES'
Estas já seriam do conhecimento da tutela que, desde Março de 2005, está a dar orientações “explícitas” para que a gestão da CNB seja “norteada pelas normas aplicáveis aos institutos, serviços e organismos da Administração Pública”.
Entretanto, o Governo está a preparar-se para integrar, numa só entidade, a CNB e o Teatro Nacional de S. Carlos. Até lá, “os dois organismos mantêm a sua individualidade e identidade”, garantiu ainda a mesma fonte oficial.
Entre as irregularidades mais graves encontram-se a assunção de encargos sem dotação orçamental, ou seja, compromissos para os quais a directora sabia que não teria dinheiro. Em 2003, foram assumidos encargos de mais de 445 mil euros, e em 2004, esse valor, superou os 3,2 milhões de euros.
Enviado para o Ministério Público, este documento poderá dar origem a sanções ou mesmo à devolução aos cofres do Estado dos valores gastos indevidamente.
Entre estes contam-se pagamentos (ilegais) relativos a prémios de refeição, atribuição e pagamento de telemóveis a funcionários e despesas de representação atribuídas sem conhecimento da tutela.
O CM tentou contactar a presidente da CNB, Ana Caldas. Até ao fecho desta edição não obtivemos qualquer resposta.
SAMPAIO MEDALHOU
Ana Caldas estudou no estúdio de Wanda Ribeiro da Silva, tendo entrado na Escola de Dança do Conservatório Nacional em1973, para assistir à professora Julia Cross. Em 1985 foi nomeada para a Comissão Instaladora da ED e dez anos depois para a Comissão de Reconversão do CN. É directora da CNB desde 2001 e este ano recebeu, de Jorge Sampaio, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.
TURCO DIRIGE 70 BAILARINOS EM LISBOA
A CNB possuía, em 2004, 132 funcionários, entre os quais perto de 70 bailarinos. Cerca de um terço são estrangeiros e dançam quase todos os papéis principais na ‘meia centena’ de espectáculos, que são apresentados, maioritariamente, no Teatro Camões, em Lisboa.
Dos restantes, cerca de metade raramente pisa o palco. Uma reconversão profissional séria, há muito aguardada, resolveria muitos dos problemas artísticos de uma companhia dita ‘nacional’ mas que não apresenta uma única obra de um criador português na presente temporada.
Bailados do director artístico, Mehmet Balkan, que dirige, em simultâneo, na Turquia outra companhia, pontuam num ano que abriu com ‘D. Quixote’ e fechará com ‘O Lago dos Cisnes’. Apesar de ambos integrarem o reportório da CNB, a direcção comprou a Balkan as suas ‘versões’, aumentando as suas despesas artísticas.
ALGUNS EXEMPLOS DA GESTÃO
APARTAMENTO
A Companhia Nacional de Bailado, que atribuiu um ordenado de 5500 euros ao seu director artístico, Mehmet Balkan, e ainda lhe pagava a renda do apartamento (mil euros). Em Junho de 2004, e no âmbito da renovação do contrato, passou a pagar-lhe 725,21 euros a título de ajudas de custo, sem recibo. Só nesta caso, foram pagos ilegalmente cerca de 11 mil euros.
TELEMÓVEIS
A direcção decidiu, sem autorização do Ministério da Cultura, atribuir telemóveis a trabalhadores, assumindo consequente despesas ilegais e pagamentos indevidos, segundo o relatório do TC. Neste âmbito, foram pagos mais 14 326 euros.
RECEITAS
As receitas de bilheteira eram controladas manualmente, numa folha de caixa, sem periodicidade definida. Também as receitas das vendas de artigos de merchandising e programas de espectáculos eram registados à mão, não havendo qualquer comprovativo das operações.
Raquel Oliveira/A.L - Correio da Manhã (8 de Julho)
____________
A directora da CNB assumiu, entre outros, encargos sem dotação orçamental no valor de 3,6 milhões de euros e efectuou pagamentos ilegais a funcionários superiores a 573 mil euros.
O rol de irregularidades, que foi detectado no âmbito de uma auditoria, é extenso e vai desde a utilização de um fundo de maneio para despesas não cobertas, até à realização de pagamentos antes da celebração dos contratos, passando por autorizações e pagamentos ilegais aos trabalhadores, nomeadamente a artistas convidados.
Embora a auditoria se concentre na gestão do ano de 2004, não deixaram de ser analisadas as contas de 2003 e até de 2005, revelando que as irregularidades com dinheiro do Orçamento de Estado se estenderam no tempo.
Os auditores foram confrontados com registos manuais e até mesmo com a ausência de documentos. Por exemplo, “na área de pessoal, a inexistência de documentos de suporte adequados impossibilitou o controlo sobre o cumprimento dos limites legais e a correcção dos valores processados a título de trabalho suplementar”, lê-se no relatório divulgado ontem
O Ministério da Cultura recebeu com “preocupação” este relatório e , de acordo com fonte oficial, “vai fomentar todas as medidas necessárias a um estrito acompanhamento da actual gestão da CNB, no sentido de evitar a prossecução de tais irregularidades”.
CULTURA DÁ 'ORIENTAÇÕES'
Estas já seriam do conhecimento da tutela que, desde Março de 2005, está a dar orientações “explícitas” para que a gestão da CNB seja “norteada pelas normas aplicáveis aos institutos, serviços e organismos da Administração Pública”.
Entretanto, o Governo está a preparar-se para integrar, numa só entidade, a CNB e o Teatro Nacional de S. Carlos. Até lá, “os dois organismos mantêm a sua individualidade e identidade”, garantiu ainda a mesma fonte oficial.
Entre as irregularidades mais graves encontram-se a assunção de encargos sem dotação orçamental, ou seja, compromissos para os quais a directora sabia que não teria dinheiro. Em 2003, foram assumidos encargos de mais de 445 mil euros, e em 2004, esse valor, superou os 3,2 milhões de euros.
Enviado para o Ministério Público, este documento poderá dar origem a sanções ou mesmo à devolução aos cofres do Estado dos valores gastos indevidamente.
Entre estes contam-se pagamentos (ilegais) relativos a prémios de refeição, atribuição e pagamento de telemóveis a funcionários e despesas de representação atribuídas sem conhecimento da tutela.
O CM tentou contactar a presidente da CNB, Ana Caldas. Até ao fecho desta edição não obtivemos qualquer resposta.
SAMPAIO MEDALHOU
Ana Caldas estudou no estúdio de Wanda Ribeiro da Silva, tendo entrado na Escola de Dança do Conservatório Nacional em1973, para assistir à professora Julia Cross. Em 1985 foi nomeada para a Comissão Instaladora da ED e dez anos depois para a Comissão de Reconversão do CN. É directora da CNB desde 2001 e este ano recebeu, de Jorge Sampaio, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.
TURCO DIRIGE 70 BAILARINOS EM LISBOA
A CNB possuía, em 2004, 132 funcionários, entre os quais perto de 70 bailarinos. Cerca de um terço são estrangeiros e dançam quase todos os papéis principais na ‘meia centena’ de espectáculos, que são apresentados, maioritariamente, no Teatro Camões, em Lisboa.
Dos restantes, cerca de metade raramente pisa o palco. Uma reconversão profissional séria, há muito aguardada, resolveria muitos dos problemas artísticos de uma companhia dita ‘nacional’ mas que não apresenta uma única obra de um criador português na presente temporada.
Bailados do director artístico, Mehmet Balkan, que dirige, em simultâneo, na Turquia outra companhia, pontuam num ano que abriu com ‘D. Quixote’ e fechará com ‘O Lago dos Cisnes’. Apesar de ambos integrarem o reportório da CNB, a direcção comprou a Balkan as suas ‘versões’, aumentando as suas despesas artísticas.
ALGUNS EXEMPLOS DA GESTÃO
APARTAMENTO
A Companhia Nacional de Bailado, que atribuiu um ordenado de 5500 euros ao seu director artístico, Mehmet Balkan, e ainda lhe pagava a renda do apartamento (mil euros). Em Junho de 2004, e no âmbito da renovação do contrato, passou a pagar-lhe 725,21 euros a título de ajudas de custo, sem recibo. Só nesta caso, foram pagos ilegalmente cerca de 11 mil euros.
TELEMÓVEIS
A direcção decidiu, sem autorização do Ministério da Cultura, atribuir telemóveis a trabalhadores, assumindo consequente despesas ilegais e pagamentos indevidos, segundo o relatório do TC. Neste âmbito, foram pagos mais 14 326 euros.
RECEITAS
As receitas de bilheteira eram controladas manualmente, numa folha de caixa, sem periodicidade definida. Também as receitas das vendas de artigos de merchandising e programas de espectáculos eram registados à mão, não havendo qualquer comprovativo das operações.
Raquel Oliveira/A.L - Correio da Manhã (8 de Julho)
____________
Adjunto da Ministra da Cultura vai acompanhar a gestão da CNB
José Mário Silva - Diário de Notícias (11 Julho)
O Ministério da Cultura (MC) está apreensivo com a extensa lista de irregularidades contabilísticas apontadas à direcção da Companhia Nacional de Bailado (CNB) por uma auditoria do Tribunal de Contas (TC), divulgada publicamente na sexta-feira.
Em declarações à Lusa, fonte ministerial garantiu que um adjunto do gabinete de Isabel Pires de Lima terá sido nomeado para acompanhar de perto a gestão da CNB, reflectindo assim a "preocupação" com que a ministra encarou os resultados da auditoria. "O acompanhamento à CNB já vinha sendo feito, mas agora será realizado de uma forma mais explícita", adiantou a mesma fonte.
Recorde-se que o Programa para a Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE) prevê uma alteração do estatuto jurídico da companhia, que deverá fundir-se em breve com o Teatro Nacional de São Carlos num novo tipo de organismo: a Entidade Pública Empresarial.
No relatório da auditoria, enviado ao Ministério Público, o TC criticou a pouca fiabilidade do sistema de controlo interno da CNB, resultante de uma "inadequada salvaguarda" de activos e da falta de separação entre funções e regulamentos, tanto no âmbito da gestão de pessoal como nos procedimentos de carácter administrativo e financeiro. Além de uma série de despesas e contratações feitas pela directora da CNB, Ana Pereira Caldas, sem a necessária autorização da tutela, a auditoria detectou encargos sem dotação orçamental que ascenderam a 444 mil euros em 2003 e 3,2 milhões de euros em 2004.
Apesar destas derrapagens gerarem um evidente mau estar no Palácio da Ajuda, a fonte citada pela Lusa reconhece que "a CNB, nos últimos cinco anos, esteve sempre numa situação grave de suborçamentação, só ultrapassada com este Governo".
Após alguns dias de silêncio, Ana Pereira Caldas respondeu ontem publicamente às acusações de que é alvo na auditoria do TC, sublinhando que o ano em causa (2004) foi "particularmente difícil", uma vez que o início da gestão do Teatro Camões, no Parque das Nações (Lisboa), coincidiu com a perda de autonomia financeira da companhia. Uma situação que só terá ficado resolvida em 2005, com um reforço de 2,7 milhões de contos do MC.
Ana Caldas afirmou ainda que "não se pode esperar que o dinheiro chegue", porque "os espectáculos têm data marcada e há compromissos". Quanto ao acompanhamento da gestão por um elemento do MC, considerou-o "positivo".
sexta-feira, julho 07, 2006
TEATRO
Por Mário Viegas
Um beijinho no actor Simão Rubim
Na última crónica que escrevi, fui de uma violência verbal enorme contra uns pseudo-intelectuais. Aquilo é que foi dizer mal e destilar veneno!!
Hoje (só para variar) apetece-me só dizer bem. E, para dizer bem de «pessoas de Teatro», passo a citar:
CARLOS AVILEZ – Encenador e actual Director do Teatro Nacional Dona Maria Dois e fundador, há 30 anos (com outros amigos Actores), do Teatro Experimental de Cascais, onde eu me estreei em 16 de Janeiro de 1968, como Actor profissional. Perdoem-me a efeméride!...
Este homem ama, de facto, o Teatro como poucos! Há muitos anos que vou ver os espectáculos do T.E.C. e lá está sempre o Carlos, à porta, a ver entrar e sair o público. A ver se gostaram ou não... A controlar os espectáculos... Agora no Dona Maria Dois, sucede o mesmo!! Ele lá está, diariamente no átrio ou no restaurante, a viver os espectáculos. Só assim se pode ser um grande homem de Teatro!!
Fazendo do Teatro a sua casa e dos seus amigos. Que bonito!
EUNICE MUÑOZ – Vão vê-la na peça «O Caminho para Meca». Que humildade, aparente simplicidade, que bonita!! Obrigado pelo seu comovedor Trabalho, que acompanho há anos, Eunice!!!
«A Humildade deve ser a 1ª qualidade de um Actor»
Ora aqui estão dois belos exemplos, num meio teatral em que qualquer «menina ou menino», fazem um reclame na TV, dizem 6 frases numa telenovela e numa peça que ninguém vê e se permitem logo «cagar sentenças» sobre o Teatro entrevistas... Ou, pior do que isso, identificarem-se como Actores. São logo Actores...
Mas dentro do reino da Humildade e da Simplicidade, gostaria de dizer bem do:
SIMÃO RUBIM – Está na Companhia Teatral do Chiado há cinco anos. Fez, muitíssimo bem, 4 papéis lindíssimos em peças do Eduardo De Fillippo que eu encenei: «Nápoles Milionária», «A Arte da Comédia» e «A Grande Magia». Foi o protagonista de «A Birra do Morto» de Vicente Sanches e prepara-se agora para ser um dos protagonistas de «O Homem-Elefante», o nosso próximo espectáculo. Tem-me ajudado em tudo: bilheteira, programas, traduções (fala perfeitamente o inglês), produções, luzes, sei lá...
E sabem como eu o reconheci?!
Fui passar uma semana a Londres com o Actor Juvenal Garcês, para ver Teatro. E não é que Dustin Hoffman, o famoso super-star do Cinema, estava a fazer «O Mercador de Veneza» no Teatro Phoenix, em pleno centro de Londres. Esgotadíssimo há semanas, claro!!! Lembrei-me de ir espreitar o final do espectáculo, para lhe pedir um autógrafo, à porta dos artistas. Podem pensar que é piroso, mas foi mesmo assim!! Bem, estavam lá mais de 100 pessoas com a mesma ideia: japoneses, meninas histéricas com máquinas fotográficas, e até uma senhora de bengala, sentada numa cadeira de lona, mesmo em frente da porta...
Esperamos aí uns 45 minutos. Saiam outros actores, técnicos, etc. Fecharam a luz das traseiras do Teatro e ficou tudo frustradíssimo. Eis que aparece o director do Teatro, acompanhado por 2 guarda-costas do Dustin Hoffman, de aspecto sinistro. Um era forte, rabo de cavalo, óculos escuros. Outro alto, magro, cara com borbulhas, óculos escuros. Dois verdadeiros «gangsters»... E diz:
«-Desculpem, mas o senhor Dustin Hoffman já saiu por outra porta, pois está muito cansado esta noite».
Desilusão e fúria total. Houve uns assobios e eu, como bom português e no meu péssimo inglês, avanço e digo-lhes provocatóriamente:
«-E nós também estamos muito cansados de estar, aqui ao frio, à espera do Sr. Hoffman!»
Logo os dois «guarda-costas» avançaram para mim e o magrinho tira os óculos e põe-me a mão no braço:
«-Olha!! Tu não és o Mário Viegas?! Eu sou português. De Cascais. Comecei a fazer Teatro no TEC, com o Avillez. E agora estou aqui a trabalhar neste Teatro».
Logo nessa noite eu, o Juvenal Garcês e o Simão, ficamos amigos para sempre. E este homem apareceu-nos, um ano depois, em Lisboa, para inaugurar connosco a Companhia Teatral do Chiado em 1990. Já tinha conseguido fazer uma peça em Londres, figurações em Óperas, pequenos papéis numa óptima série da BBC, trabalhando em hotéis, como porteiro e como «pseudo-guarda-costas» de Hoffman. E mais grave ainda, ter sido aceite numa das melhores escolas de Teatro inglesas, o que é dificílimo!!
É com estas pessoas AMIGAS, HUMILDES, TALENTOSAS; que se constrói uma Companhia... Um Espectáculo. E não com pretensiosos e medíocres, que proliferam cada vez mais no nosso Teatro, Televisão e Cinema. Que até apresentam falsas biografias e cursos tirados «lá fora»...
Bem... Hoje é só para dizer bem!
Obrigado Simãozinho! (Pela tua Humildade e Talento)
Obrigado Eunice! (Pela sua Luz para Meca)
Obrigado Carlos! (Pelo seu Amor aos Actores)
P.S. – Atenção! Esta croniqueta não tem nada a ver com o nosso Joaquim d’Almeida, mais conhecido pelo «Quim d’Hollywood», ou com o nosso Filipe La Féria, que escreveu um «curriculum» num programa do Dona Maria, a dizer que tinha um Curso de Encenação tirado em Londres, quando só lá esteve uns tempos a servir à mesa num restaurante... o que, aliás não é vergonha.
Por Mário Viegas
Um beijinho no actor Simão Rubim
Na última crónica que escrevi, fui de uma violência verbal enorme contra uns pseudo-intelectuais. Aquilo é que foi dizer mal e destilar veneno!!
Hoje (só para variar) apetece-me só dizer bem. E, para dizer bem de «pessoas de Teatro», passo a citar:
CARLOS AVILEZ – Encenador e actual Director do Teatro Nacional Dona Maria Dois e fundador, há 30 anos (com outros amigos Actores), do Teatro Experimental de Cascais, onde eu me estreei em 16 de Janeiro de 1968, como Actor profissional. Perdoem-me a efeméride!...
Este homem ama, de facto, o Teatro como poucos! Há muitos anos que vou ver os espectáculos do T.E.C. e lá está sempre o Carlos, à porta, a ver entrar e sair o público. A ver se gostaram ou não... A controlar os espectáculos... Agora no Dona Maria Dois, sucede o mesmo!! Ele lá está, diariamente no átrio ou no restaurante, a viver os espectáculos. Só assim se pode ser um grande homem de Teatro!!
Fazendo do Teatro a sua casa e dos seus amigos. Que bonito!
EUNICE MUÑOZ – Vão vê-la na peça «O Caminho para Meca». Que humildade, aparente simplicidade, que bonita!! Obrigado pelo seu comovedor Trabalho, que acompanho há anos, Eunice!!!
«A Humildade deve ser a 1ª qualidade de um Actor»
Ora aqui estão dois belos exemplos, num meio teatral em que qualquer «menina ou menino», fazem um reclame na TV, dizem 6 frases numa telenovela e numa peça que ninguém vê e se permitem logo «cagar sentenças» sobre o Teatro entrevistas... Ou, pior do que isso, identificarem-se como Actores. São logo Actores...
Mas dentro do reino da Humildade e da Simplicidade, gostaria de dizer bem do:
SIMÃO RUBIM – Está na Companhia Teatral do Chiado há cinco anos. Fez, muitíssimo bem, 4 papéis lindíssimos em peças do Eduardo De Fillippo que eu encenei: «Nápoles Milionária», «A Arte da Comédia» e «A Grande Magia». Foi o protagonista de «A Birra do Morto» de Vicente Sanches e prepara-se agora para ser um dos protagonistas de «O Homem-Elefante», o nosso próximo espectáculo. Tem-me ajudado em tudo: bilheteira, programas, traduções (fala perfeitamente o inglês), produções, luzes, sei lá...
E sabem como eu o reconheci?!
Fui passar uma semana a Londres com o Actor Juvenal Garcês, para ver Teatro. E não é que Dustin Hoffman, o famoso super-star do Cinema, estava a fazer «O Mercador de Veneza» no Teatro Phoenix, em pleno centro de Londres. Esgotadíssimo há semanas, claro!!! Lembrei-me de ir espreitar o final do espectáculo, para lhe pedir um autógrafo, à porta dos artistas. Podem pensar que é piroso, mas foi mesmo assim!! Bem, estavam lá mais de 100 pessoas com a mesma ideia: japoneses, meninas histéricas com máquinas fotográficas, e até uma senhora de bengala, sentada numa cadeira de lona, mesmo em frente da porta...
Esperamos aí uns 45 minutos. Saiam outros actores, técnicos, etc. Fecharam a luz das traseiras do Teatro e ficou tudo frustradíssimo. Eis que aparece o director do Teatro, acompanhado por 2 guarda-costas do Dustin Hoffman, de aspecto sinistro. Um era forte, rabo de cavalo, óculos escuros. Outro alto, magro, cara com borbulhas, óculos escuros. Dois verdadeiros «gangsters»... E diz:
«-Desculpem, mas o senhor Dustin Hoffman já saiu por outra porta, pois está muito cansado esta noite».
Desilusão e fúria total. Houve uns assobios e eu, como bom português e no meu péssimo inglês, avanço e digo-lhes provocatóriamente:
«-E nós também estamos muito cansados de estar, aqui ao frio, à espera do Sr. Hoffman!»
Logo os dois «guarda-costas» avançaram para mim e o magrinho tira os óculos e põe-me a mão no braço:
«-Olha!! Tu não és o Mário Viegas?! Eu sou português. De Cascais. Comecei a fazer Teatro no TEC, com o Avillez. E agora estou aqui a trabalhar neste Teatro».
Logo nessa noite eu, o Juvenal Garcês e o Simão, ficamos amigos para sempre. E este homem apareceu-nos, um ano depois, em Lisboa, para inaugurar connosco a Companhia Teatral do Chiado em 1990. Já tinha conseguido fazer uma peça em Londres, figurações em Óperas, pequenos papéis numa óptima série da BBC, trabalhando em hotéis, como porteiro e como «pseudo-guarda-costas» de Hoffman. E mais grave ainda, ter sido aceite numa das melhores escolas de Teatro inglesas, o que é dificílimo!!
É com estas pessoas AMIGAS, HUMILDES, TALENTOSAS; que se constrói uma Companhia... Um Espectáculo. E não com pretensiosos e medíocres, que proliferam cada vez mais no nosso Teatro, Televisão e Cinema. Que até apresentam falsas biografias e cursos tirados «lá fora»...
Bem... Hoje é só para dizer bem!
Obrigado Simãozinho! (Pela tua Humildade e Talento)
Obrigado Eunice! (Pela sua Luz para Meca)
Obrigado Carlos! (Pelo seu Amor aos Actores)
P.S. – Atenção! Esta croniqueta não tem nada a ver com o nosso Joaquim d’Almeida, mais conhecido pelo «Quim d’Hollywood», ou com o nosso Filipe La Féria, que escreveu um «curriculum» num programa do Dona Maria, a dizer que tinha um Curso de Encenação tirado em Londres, quando só lá esteve uns tempos a servir à mesa num restaurante... o que, aliás não é vergonha.

Como artista fez arte pela arte. Como benemérita fez o bem pelo bem. Uma aristocrata do século XIX a quem se devem as “Cozinhas Económicas”, uma das raras escultoras que existiram em Portugal.
Maria Luísa de Sousa Holstein, duquesa de Palmela.
Na segunda metade do século XIX, começos do século XX, o panorama das Artes Plásticas, no feminino, em Portugal, contava na Pintura com nomes como as irmãs Sousa, Aurélia e Sofia, Sara Vasconcelos Gonçalves, Alda Machado Santos, Raquel Roque Gameiro ou Milly Possoz, só para referir algumas. Porém, na Escultura, unicamente se destacou, embora boa parte dos nossos historiadores de Arte dela se esqueçam frequentemente: Maria Luísa de Sousa Holstein, terceira duquesa de Palmela.
O conde de Sabugosa, seu amigo, deixou-nos páginas cheias de pitoresco sobre a personalidade fascinante desta aristocrata, para lá do apreço indisfarçável que tinha pelo talento da sua amiga. Nascida em berço de ouro, neta do primeiro duque de Palmela, uma das mais polémicas e sedutores figuras da nossa História, que foi o braço direito de D. Pedro IV na consolidação do regime liberal no nosso país, e neta da não menos famosa Eugénia Teles da Gama, a quem Garrett se referiu nos mais elogiosos termos, foi, acima de tudo, uma esclarecida senhora do seu tempo, generosa e talentosa, o que aliado, a uma grande fortuna, fez dela uma personalidade notável.
A educação daquela que foi uma menina exemplar, na verdadeira acepção da palavra, foi até aos nove anos orientada pelo avô, que encontrava nela a sua dilecta herdeira. Frequentou em Paris o Colégio do Sacré Coeur (que em 1904 passou a Lycée Sacré Coeur), onde as filhas da aristocracia europeia recebiam uma educação religiosa ministrada por freiras, mas que contava ainda com aulas de Artes Plásticas, visitas a museus e monumentos, concertos e toda uma convivência social que fazia parte dessa mesma educação.
Maria Luísa conviveu com grandes nomes da Pintura e Escultura. Curiosamente, nasceu no mesmo ano que Renoir, conheceu Guillaume, ficou amiga de Rodin, com quem manteve correspondência depois do seu regresso a Portugal. Os seus pais foram Domingos de Sousa Holstein também diplomata como o avô e Maria Luísa de Noronha e Sampaio.
Desce cedo, Maria Luísa demonstrou um talento especial para o desenho. Teve aulas de escultura com Anatole Calmels esse mestre francês que viera para Portugal como escultor da Corte e que deixou mais rico o património nacional com o seu grupo escultórico “A Glória Coroando o Génio e o Valor” no Arco da Rua Augusta, não esquecendo o frontão da Câmara Municipal de Lisboa e a estátua de D. Pedro IV no Porto. Mais ligadas á duquesa ficaram as duas estátuas “O Trabalho” e “A Força Moral que, a partir de 1902, passaram a dar imponência à fachada do Palácio Palmela onde se encontra hoje a Procuradoria-Geral da República. Na sala daquele palácio onde hoje reposam os Códigos era onde “os meninos”, junto à lareira que ainda está lá, punham os sapatinhos de Natal e esperavam as prendas do Menino Jesus, como me disse o último jardineiro da Casa Palmela, antes de passar a ser a Procurador-Geral da República.
O casamento do ano
Se a “máquina do tempo” existisse gostaria de ter entrado nela, sorrateiramente e recuado perto de 150 anos, até ao dia l5 de Abril de 1863. Lisboa, nesse dia, tinha as suas atenções viradas para um acontecimento social "o casamento do ano” e eu poderia, quem sabe, entrar no Palácio Palmela e ajudar Maria Luísa de Sousa Holstein-Beck a envergar o seu lindíssimo vestido de noiva e a ajudá-la a percorrer os corredores de mármore do seu palácio até à capela (hoje, infelizmente desaparecida, devido ao grande incêndio de 1981) que fora concebida tendo por modelo as riquíssimas capelas de S. João Baptista e de S. Roque, da igreja do mesmo nome, em Lisboa. O tecto era um arco de cesto com pinturas em perspectiva com motivos religiosos. De janelas superiores entrava a luz levemente coada, no altar-mor uma pintura com a passagem da vida da Virgem - a Assunção - nas paredes quadros da escola italiana com motivos sacros, onde predominava o verde combinado com talha dourada.
Discretamente misturada entre os amigos e convidados e prestando especial atenção à entrada do casal real, D. Luís e D. Maria Pia, que foram os padrinhos de casamento, os meus olhos perscrutariam o semblante do noivo, tentando adivinhar os mais íntimos sentimentos naquele rapaz de vinte sete anos, já com uma história militar de que se podia orgulhar. Aos vinte e anos, alistara-se como voluntário na armada inglesa, tendo participado na Guerra da Crimeia (1853-1856). Mas, naquele dia, o seu mar azul seriam os olhos da sua jovem noiva Maria Luísa.
O noivo António de Sampaio e Pina Brederode visconde de Lançada, capitão da Guarda Real dos Archeiros, par do reino, oficial-mor da Casa Real e, entre outros títulos, cavaleiro da Torre e Espada. Era um casamento normal entre famílias com ascendência comum, se bem que algumas vozes dissessem baixinho que a neta do primeiro duque de Palmela escolhera marido num grau social mais baixo.
A festa de casamento foi de tal modo faustosa que, conta a escritora Berta Leite, as salas do Palácio estiveram abertas três dias para que os de fora pudessem apreciar não só o palácio como as deslumbrantes prendas de casamento.
Os noivos e convidados dançaram no salão de baile onde o mobiliário era estilo Luís XVI. As crónicas mundanas da época relataram em pormenor esta boda, os caprichosos vestidos das senhoras, alguns mandados fazer no estrangeiro outros nas óptimas costureiras francesas que havia em Lisboa e todos os convidados teriam certamente sido motivo de conversas durante longos serões.
Entre flores e obras de arte
A terceira duquesa de Palmela, de seu nome completo Maria Luísa Domingues Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Xavier Sales de Borja de Assis Paula de Sousa Holstein Beck, era também terceira marquesa do Faial e terceira condessa do Calhariz e de Sanfrè.
Foi a rainha D. Maria Pia quem introduzira na corte o hábito de nomear as mulheres dos altos dignitários para suas camareiras. Dado o grande número de senhoras da aristocracia, nessas condições, só de tempos a tempos é que era reclamada a presença junto da rainha da terceira duquesa de Palmela, que tinha também essa honrosa incumbência, e que pouco tempo tirava à sua vida privada, à família e aos seus momentos de criatividade, quando desenhava, pintava ou esculpia.
A duquesa acompanhou as obras de restauro que promoveu no palácio, construído nos finais do século XVIII, em várias ocasiões, a primeira das quais pouco depois de casar e já depois de ter sido mãe, pela primeira vez, da sua filha Helena Maria, nascida em Fevereiro de 1864. A mãe de Maria Luísa morreu-lhe em 1861 e o pai três anos depois. Com apenas 24 anos, a duquesa ficou senhora absoluta de um valioso património.
O seu palácio foi também redecorado com novas e valiosas peças que o casal Palmela adquiria em Portugal e no estrangeiro, onde muitas vezes passavam férias. O próprio avô Pedro tinha feito restauros e ampliações no palácio, para onde foi viver, depois de se reformar da política que tantas glórias e amarguras lhe causou. Restara-lhe a alegria de coleccionar obras de arte e transmitir à neta esse amor pelo Belo.
Sabe-se que a duquesa tinha um especial carinho pelas árvores e flores e que aprendeu mesmo horticultura para poder explicar aos jardineiros como tratar e cuidar das flores conforme as estações do ano. O palácio tinha sempre nas jarras flores frescas do seu jardim.
No lindíssimo estúdio que a duquesa mandou construir nas traseiras do palácio, entre flores e árvores, passava longas horas dedicada à escultura. Se bem que os motivos religiosos fossem uma das suas fontes de inspiração, muitos outros temas a encantaram, e também se dedicou a moldar e esculpir bustos de figuras conhecidas ou notáveis da sociedade do seu tempo.
O casal Palmela, bem ao estilo da sociedade do seu tempo, num período em que se vivia alguma acalmia europeia e, em Portugal, se gozavam os anos de progresso do “fontismo” (de Fontes Pereira de Melo), fazia uma intensa vida social, sendo o Palácio do Rato local de encontros culturais, bailes e jantares de convívio com grandes nomes da cena internacional: de realçar as faustosas festas de Carnaval, que já vinham do tempo do avô Pedro, especialmente naquele ano de 1885,que contou com uma orquestra de ciganos do príncipe Esterhazy e também aquele memorável jantar onde se homenageou a actriz famosa Sarah Bernhardt, corria o mês de Novembro de 1895. O teatro tinha um lugar importante na vida lisboeta. A rainha D. Maria Pia tinha fama de chegar quase sempre atrasada, ao ponto de ser vulgar o rei D. Luís telefonar para o Teatro S. Carlos a dizer para começarem o espectáculo sem a presença dela, o que nunca aconteceu
O apelido Holstein entrara na família Palmela pelo casamento da princesa Mariana Leopoldina de Holstein, filha de Frederico Guilherme, duque de Holstein, herdeiro da Noruega, e da duquesa Maria Antónia Josefina de Sanfrè com Manuel de Sousa, avô de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela.
Os loiros cabelos da Escandinávia
Maria Amália Vaz de Carvalho fala dos cabelos loiros da sua amiga Maria Luísa que tinham sido de um "loiro da Escandinávia", pátria dos remotos avós”. É a referência ao sangue no norueguês que lhe corria nas veias. Tinha a duquesa olhos azuis e um rosto de uma serenidade patente nos quadros e fotografias que dela conhecemos, tanto nos seus anos de juventude, como nos últimos anos da sua vida.
Olga de Morais Sarmento, em “As Minhas Memórias”, recorda a duquesa já nos últimos anos da sua vida. “Impossível seria falar da sociedade de então sem anotar o nome da Duquesa de Palmela. «Vi-a ainda algumas vezes, já envelhecida, com a cabeça sempre linda. Depois do regicídio, que, aliás, precedeu de pouco a sua morte, conservava-se numa distante reclusão. Ela soubera ser, no final do século passado e princípio deste, quase uma rainha. Com o seu cabelo grisalho penteado desprendidamente para cima, aliava a uma distinção incomparável uma bondade profunda e uma inteligência excepcional.»
Artista, era amiga dos artistas, auxiliando-os não apenas com o seu dinheiro mas também com o seu afecto, a sua solidariedade amiga, a aura que lhes criava. A ela se deve que Maria Amália tenha escrito uma das suas obras mais notáveis "A Vida do Duque de Palmela”. A duquesa mais tarde, legaria a Maria Amália Vaz de Carvalho uma casa em Cascais e uma quantia em forma de pensão.
Se Maria Luísa de Sousa Holstein Beck foi no seu tempo a mais famosa duquesa, isso deveu-se à sua personalidade invulgar, ao seu talento como escultura e à sua sincera e constante devoção aos pobres e desprotegidos.
O progresso chegava devagarinho a Portugal. Em 1856, é inaugurado o primeiro troço de caminho-de-ferro de Lisboa ao Carregado, mas pobreza sempre Portugal teve e, em finais do século XIX, Lisboa tinha uma população de fracos recursos que necessitava de apoio, em especial o operariado que, desenraizado do seu ambiente rural, lutava, nas grandes cidades, com muitas dificuldades, já para não referir as pobres crianças que então enxameavam as nossa ruas. Foi a pensar especialmente neles que a duquesa de Palmela e Maria Isabel de Lemos Saint-Léger, marquesa de Rio Maior, pensaram promover uma instituição de assistência que servisse refeições, a preços módicos, às camadas da população mais carenciadas.
Para a 3ª duquesa de Palmela, «cada pobre tem sobeja razão de reclamar contra as iniquidades com que o mundo o oprime e de reivindicar um estado de ordem mais perfeito». Partindo desta ideia, Maria Luísa decidiu criar em Lisboa a instituição que foi a «Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas». Com o apoio de várias famílias aristocratas, da alta finança e outras pessoas generosas anónimas, a duquesa de Palmela vai viajar pela Europa, em viagem de estudo. Visitou nomeadamente a Suíça e a Inglaterra para ver como se estrutura uma instituição de assistência de modo a que o seu projecto tivesse bases e pudesse permanecer no tempo.
De regresso a Portugal, passa a contar com o apoio de grande número do pessoas com espírito de caridade, em especial, da marquesa de Rio Maior, também ela uma das senhoras mais famosas e preocupadas com os outros no seu tempo. Tinha grande jovialidade e uma memória assinalável, que nunca perdeu, mesmo já com idade avançada. Ditou as suas memórias à escritora Branca de Conta Colaço.
O conde de Sabugosa, seu amigo, deixou-nos páginas cheias de pitoresco sobre a personalidade fascinante desta aristocrata, para lá do apreço indisfarçável que tinha pelo talento da sua amiga. Nascida em berço de ouro, neta do primeiro duque de Palmela, uma das mais polémicas e sedutores figuras da nossa História, que foi o braço direito de D. Pedro IV na consolidação do regime liberal no nosso país, e neta da não menos famosa Eugénia Teles da Gama, a quem Garrett se referiu nos mais elogiosos termos, foi, acima de tudo, uma esclarecida senhora do seu tempo, generosa e talentosa, o que aliado, a uma grande fortuna, fez dela uma personalidade notável.
A educação daquela que foi uma menina exemplar, na verdadeira acepção da palavra, foi até aos nove anos orientada pelo avô, que encontrava nela a sua dilecta herdeira. Frequentou em Paris o Colégio do Sacré Coeur (que em 1904 passou a Lycée Sacré Coeur), onde as filhas da aristocracia europeia recebiam uma educação religiosa ministrada por freiras, mas que contava ainda com aulas de Artes Plásticas, visitas a museus e monumentos, concertos e toda uma convivência social que fazia parte dessa mesma educação.
Maria Luísa conviveu com grandes nomes da Pintura e Escultura. Curiosamente, nasceu no mesmo ano que Renoir, conheceu Guillaume, ficou amiga de Rodin, com quem manteve correspondência depois do seu regresso a Portugal. Os seus pais foram Domingos de Sousa Holstein também diplomata como o avô e Maria Luísa de Noronha e Sampaio.
Desce cedo, Maria Luísa demonstrou um talento especial para o desenho. Teve aulas de escultura com Anatole Calmels esse mestre francês que viera para Portugal como escultor da Corte e que deixou mais rico o património nacional com o seu grupo escultórico “A Glória Coroando o Génio e o Valor” no Arco da Rua Augusta, não esquecendo o frontão da Câmara Municipal de Lisboa e a estátua de D. Pedro IV no Porto. Mais ligadas á duquesa ficaram as duas estátuas “O Trabalho” e “A Força Moral que, a partir de 1902, passaram a dar imponência à fachada do Palácio Palmela onde se encontra hoje a Procuradoria-Geral da República. Na sala daquele palácio onde hoje reposam os Códigos era onde “os meninos”, junto à lareira que ainda está lá, punham os sapatinhos de Natal e esperavam as prendas do Menino Jesus, como me disse o último jardineiro da Casa Palmela, antes de passar a ser a Procurador-Geral da República.
O casamento do ano
Se a “máquina do tempo” existisse gostaria de ter entrado nela, sorrateiramente e recuado perto de 150 anos, até ao dia l5 de Abril de 1863. Lisboa, nesse dia, tinha as suas atenções viradas para um acontecimento social "o casamento do ano” e eu poderia, quem sabe, entrar no Palácio Palmela e ajudar Maria Luísa de Sousa Holstein-Beck a envergar o seu lindíssimo vestido de noiva e a ajudá-la a percorrer os corredores de mármore do seu palácio até à capela (hoje, infelizmente desaparecida, devido ao grande incêndio de 1981) que fora concebida tendo por modelo as riquíssimas capelas de S. João Baptista e de S. Roque, da igreja do mesmo nome, em Lisboa. O tecto era um arco de cesto com pinturas em perspectiva com motivos religiosos. De janelas superiores entrava a luz levemente coada, no altar-mor uma pintura com a passagem da vida da Virgem - a Assunção - nas paredes quadros da escola italiana com motivos sacros, onde predominava o verde combinado com talha dourada.
Discretamente misturada entre os amigos e convidados e prestando especial atenção à entrada do casal real, D. Luís e D. Maria Pia, que foram os padrinhos de casamento, os meus olhos perscrutariam o semblante do noivo, tentando adivinhar os mais íntimos sentimentos naquele rapaz de vinte sete anos, já com uma história militar de que se podia orgulhar. Aos vinte e anos, alistara-se como voluntário na armada inglesa, tendo participado na Guerra da Crimeia (1853-1856). Mas, naquele dia, o seu mar azul seriam os olhos da sua jovem noiva Maria Luísa.
O noivo António de Sampaio e Pina Brederode visconde de Lançada, capitão da Guarda Real dos Archeiros, par do reino, oficial-mor da Casa Real e, entre outros títulos, cavaleiro da Torre e Espada. Era um casamento normal entre famílias com ascendência comum, se bem que algumas vozes dissessem baixinho que a neta do primeiro duque de Palmela escolhera marido num grau social mais baixo.
A festa de casamento foi de tal modo faustosa que, conta a escritora Berta Leite, as salas do Palácio estiveram abertas três dias para que os de fora pudessem apreciar não só o palácio como as deslumbrantes prendas de casamento.
Os noivos e convidados dançaram no salão de baile onde o mobiliário era estilo Luís XVI. As crónicas mundanas da época relataram em pormenor esta boda, os caprichosos vestidos das senhoras, alguns mandados fazer no estrangeiro outros nas óptimas costureiras francesas que havia em Lisboa e todos os convidados teriam certamente sido motivo de conversas durante longos serões.
Entre flores e obras de arte
A terceira duquesa de Palmela, de seu nome completo Maria Luísa Domingues Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Xavier Sales de Borja de Assis Paula de Sousa Holstein Beck, era também terceira marquesa do Faial e terceira condessa do Calhariz e de Sanfrè.
Foi a rainha D. Maria Pia quem introduzira na corte o hábito de nomear as mulheres dos altos dignitários para suas camareiras. Dado o grande número de senhoras da aristocracia, nessas condições, só de tempos a tempos é que era reclamada a presença junto da rainha da terceira duquesa de Palmela, que tinha também essa honrosa incumbência, e que pouco tempo tirava à sua vida privada, à família e aos seus momentos de criatividade, quando desenhava, pintava ou esculpia.
A duquesa acompanhou as obras de restauro que promoveu no palácio, construído nos finais do século XVIII, em várias ocasiões, a primeira das quais pouco depois de casar e já depois de ter sido mãe, pela primeira vez, da sua filha Helena Maria, nascida em Fevereiro de 1864. A mãe de Maria Luísa morreu-lhe em 1861 e o pai três anos depois. Com apenas 24 anos, a duquesa ficou senhora absoluta de um valioso património.
O seu palácio foi também redecorado com novas e valiosas peças que o casal Palmela adquiria em Portugal e no estrangeiro, onde muitas vezes passavam férias. O próprio avô Pedro tinha feito restauros e ampliações no palácio, para onde foi viver, depois de se reformar da política que tantas glórias e amarguras lhe causou. Restara-lhe a alegria de coleccionar obras de arte e transmitir à neta esse amor pelo Belo.
Sabe-se que a duquesa tinha um especial carinho pelas árvores e flores e que aprendeu mesmo horticultura para poder explicar aos jardineiros como tratar e cuidar das flores conforme as estações do ano. O palácio tinha sempre nas jarras flores frescas do seu jardim.
No lindíssimo estúdio que a duquesa mandou construir nas traseiras do palácio, entre flores e árvores, passava longas horas dedicada à escultura. Se bem que os motivos religiosos fossem uma das suas fontes de inspiração, muitos outros temas a encantaram, e também se dedicou a moldar e esculpir bustos de figuras conhecidas ou notáveis da sociedade do seu tempo.
O casal Palmela, bem ao estilo da sociedade do seu tempo, num período em que se vivia alguma acalmia europeia e, em Portugal, se gozavam os anos de progresso do “fontismo” (de Fontes Pereira de Melo), fazia uma intensa vida social, sendo o Palácio do Rato local de encontros culturais, bailes e jantares de convívio com grandes nomes da cena internacional: de realçar as faustosas festas de Carnaval, que já vinham do tempo do avô Pedro, especialmente naquele ano de 1885,que contou com uma orquestra de ciganos do príncipe Esterhazy e também aquele memorável jantar onde se homenageou a actriz famosa Sarah Bernhardt, corria o mês de Novembro de 1895. O teatro tinha um lugar importante na vida lisboeta. A rainha D. Maria Pia tinha fama de chegar quase sempre atrasada, ao ponto de ser vulgar o rei D. Luís telefonar para o Teatro S. Carlos a dizer para começarem o espectáculo sem a presença dela, o que nunca aconteceu
O apelido Holstein entrara na família Palmela pelo casamento da princesa Mariana Leopoldina de Holstein, filha de Frederico Guilherme, duque de Holstein, herdeiro da Noruega, e da duquesa Maria Antónia Josefina de Sanfrè com Manuel de Sousa, avô de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela.
Os loiros cabelos da Escandinávia
Maria Amália Vaz de Carvalho fala dos cabelos loiros da sua amiga Maria Luísa que tinham sido de um "loiro da Escandinávia", pátria dos remotos avós”. É a referência ao sangue no norueguês que lhe corria nas veias. Tinha a duquesa olhos azuis e um rosto de uma serenidade patente nos quadros e fotografias que dela conhecemos, tanto nos seus anos de juventude, como nos últimos anos da sua vida.
Olga de Morais Sarmento, em “As Minhas Memórias”, recorda a duquesa já nos últimos anos da sua vida. “Impossível seria falar da sociedade de então sem anotar o nome da Duquesa de Palmela. «Vi-a ainda algumas vezes, já envelhecida, com a cabeça sempre linda. Depois do regicídio, que, aliás, precedeu de pouco a sua morte, conservava-se numa distante reclusão. Ela soubera ser, no final do século passado e princípio deste, quase uma rainha. Com o seu cabelo grisalho penteado desprendidamente para cima, aliava a uma distinção incomparável uma bondade profunda e uma inteligência excepcional.»
Artista, era amiga dos artistas, auxiliando-os não apenas com o seu dinheiro mas também com o seu afecto, a sua solidariedade amiga, a aura que lhes criava. A ela se deve que Maria Amália tenha escrito uma das suas obras mais notáveis "A Vida do Duque de Palmela”. A duquesa mais tarde, legaria a Maria Amália Vaz de Carvalho uma casa em Cascais e uma quantia em forma de pensão.
Se Maria Luísa de Sousa Holstein Beck foi no seu tempo a mais famosa duquesa, isso deveu-se à sua personalidade invulgar, ao seu talento como escultura e à sua sincera e constante devoção aos pobres e desprotegidos.
O progresso chegava devagarinho a Portugal. Em 1856, é inaugurado o primeiro troço de caminho-de-ferro de Lisboa ao Carregado, mas pobreza sempre Portugal teve e, em finais do século XIX, Lisboa tinha uma população de fracos recursos que necessitava de apoio, em especial o operariado que, desenraizado do seu ambiente rural, lutava, nas grandes cidades, com muitas dificuldades, já para não referir as pobres crianças que então enxameavam as nossa ruas. Foi a pensar especialmente neles que a duquesa de Palmela e Maria Isabel de Lemos Saint-Léger, marquesa de Rio Maior, pensaram promover uma instituição de assistência que servisse refeições, a preços módicos, às camadas da população mais carenciadas.
Para a 3ª duquesa de Palmela, «cada pobre tem sobeja razão de reclamar contra as iniquidades com que o mundo o oprime e de reivindicar um estado de ordem mais perfeito». Partindo desta ideia, Maria Luísa decidiu criar em Lisboa a instituição que foi a «Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas». Com o apoio de várias famílias aristocratas, da alta finança e outras pessoas generosas anónimas, a duquesa de Palmela vai viajar pela Europa, em viagem de estudo. Visitou nomeadamente a Suíça e a Inglaterra para ver como se estrutura uma instituição de assistência de modo a que o seu projecto tivesse bases e pudesse permanecer no tempo.
De regresso a Portugal, passa a contar com o apoio de grande número do pessoas com espírito de caridade, em especial, da marquesa de Rio Maior, também ela uma das senhoras mais famosas e preocupadas com os outros no seu tempo. Tinha grande jovialidade e uma memória assinalável, que nunca perdeu, mesmo já com idade avançada. Ditou as suas memórias à escritora Branca de Conta Colaço.
Cozinhas Económicas e distribuição de refeições
Foi a própria duquesa do Palmela quem do seu bolso mandou comprar todo o equipamento, desde as mesas aos talheres, passando pelas cadeiras, fogões, etc. De França vieram algumas Irmãs da Caridade de São Vicente de Paula e, quando tudo estava organizado, inaugurou-se a primeira Cozinha Económica, na Travessa do Forno aos Prazeres, escolha criteriosa, dado ser das zonas com maior população de operários.
A 8 de Dezembro de 1893, dia santo para a Igreja Católica as portas abriram-se na que seria uma das mais importantes instituições de beneficência que Portugal possuiu. Depois desta Cozinha, outras se lhe seguiram, nos Anjos, em Alcântara, Xabregas, S. Mamede, onde se davam refeições a 500 crianças, S. Bento, outra ainda nos próprios jardins do Palácio de Palmela e a última seria, anos mais tarde, no cais de Santarém à Sé.
REFEIÇÃO POR 90 RÉIS
Foi a própria duquesa do Palmela quem do seu bolso mandou comprar todo o equipamento, desde as mesas aos talheres, passando pelas cadeiras, fogões, etc. De França vieram algumas Irmãs da Caridade de São Vicente de Paula e, quando tudo estava organizado, inaugurou-se a primeira Cozinha Económica, na Travessa do Forno aos Prazeres, escolha criteriosa, dado ser das zonas com maior população de operários.
A 8 de Dezembro de 1893, dia santo para a Igreja Católica as portas abriram-se na que seria uma das mais importantes instituições de beneficência que Portugal possuiu. Depois desta Cozinha, outras se lhe seguiram, nos Anjos, em Alcântara, Xabregas, S. Mamede, onde se davam refeições a 500 crianças, S. Bento, outra ainda nos próprios jardins do Palácio de Palmela e a última seria, anos mais tarde, no cais de Santarém à Sé.
REFEIÇÃO POR 90 RÉIS
A primeira refeição constou de uma tigela de sopa de grão com arroz, bacalhau guisado, 200 gramas de pão e 2 decilitros de vinho - todo por 90 reis. Nos outros dias, o vinho não estava incluído.
O próprio rei D. Carlos mandava grande parte do produto das suas caçadas em Mafra e Vila Viçosa para se confeccionarem as refeições nas «Cozinhas Económicas» e os excedentes das pescarias levadas a efeito no iate real “Amélia” tinham o mesmo destino, diz-nos Rocha Martins.
Na Cozinha Económica, instalada junto ao seu palácio, servia a duquesa refeições a duzentos crianças, todos os dias.
Um dia o conde de Sabugosa com curiosidade de ver a última escultura da duquesa, esperou-a, no seu atelier, junto ao jardim de sua casa. Conversaram e o conde, comentando a sua generosidade chamou-lhe «socialista», termo que na época tinha uma conotação um pouco diferente da de hoje. A conversa prosseguiu e Maria Luísa acrescentou: «Também eu sou socialista, mas o socialismo que me encanta e atrai é o do conde Tolstoi, que percorria as estepes da Rússia atirando com mãos generosas a sua fortuna aos que morriam de fome e de frio nas cabanas afogadas de neve”. É assim que eu compreendo a missão dos ricos, eles são no mundo os depositários dos bens que pertencem aos deserdados. Só a justa distribuição pode trazer a igualdade pregada por S. Paulo.»
«O supérfluo dos ricos é o património dos pobres». Frase que a 3ª duquesa dizia e cumpriu na sua vida.
É sabido que a escritora Maria Amália Voz de Carvalho e a duquesa de Palmela eram grandes amigas. A duquesa ia a casa da escritora no seu «coupé» forrado de cetim, parava naquele número 1 da travessa de Santa Catarina, (na época quase tão célebre em Lisboa como o nº 10 de Downing Street em Londres), às 4 da tarde. Passava horas conversando com a escritora, à saída, prolongava ainda a retirada, numa indolência propositada, para ficar mais tempo. Por isso, dela disse com graça Maria Amália, sua grande amiga: «À duquesa de Palmela nem sequer falta, como aos grandes generais, a arte infinitamente subtil da retirada» (como escreveu Luís de Oliveira Guimarães em Senhoras Conhecidas, Lisboa, 1945).
Gervásio Lobato disse daquela que foi conhecida em Lisboa apenas por «a Duquesa» como se fosse a única. “Não se limita a ser caritativa é benemérita:«Da mesma maneira que como uma artista a duquesa faz simplesmente arte pela arte, como benemérita faz simplesmente o bem pelo bem»
A Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas” iria continuar depois da morte da duquesa, em 1909. Contava 68 anos. Esta instituição viria a ser conhecida pela «sopa do Sidónio», a partir do ano de 1918. Os tempos da guerra (1914-1918) trouxeram a miséria a muitas famílias portuguesas e conta-se que era o próprio Sidónio Pais (que foi Presidente da República entre 1917 e 1918 e morreu assassinado) e um filho que, de noite, iam fornecer as Cozinhas Económicas para que, ao menos, a sopa não faltasse aos mais pobres.
Estas Cozinhas passam, anos mais tarde, para as Misericórdias de Lisboa.
Para lá desta obra de assistência, Maria Luísa de Sousa Holstein ficou ligada a grande número de outras iniciativas como o Instituto de Socorros a Náufragos, o Hospital do Rego, a Assistência Nacional aos Tuberculosos, criado pela rainha D. Amélia, entre outras.
Esculpir o barro e o mármore
As suas mãos de artista moldaram o barro e esculpiram o mármore com uma delicadeza e frescura únicas e que ficaram patentes em significativo número de obras, desde “Diógenes”, fundido em bronze, que foi exposto no Salon de Paris em 1884, passando por “Santa Teresa”, premiada no Salon de 1886, “Pretinha”, “Sulamite”, “Alegria” ou o “Fiat Lux”, oferecido a D. António de Lencastre, médico do Paço, e outras esculturas, expostas em museus, embora grande parte pertença a colecções particulares ou a amigos e familiares da duquesa. Ao Museu Nacional de Belas Artes foi oferecido o “Génio do Progresso da Medicina” em bronze.
Em 1901, e em anos seguintes a duquesa de Palmela, vai expor na Sociedade Nacional de Belas Artes e em Paris e terá participado pela última vez no Rio de Janeiro em 1908.
Em 1903 a duquesa de Palmela fora recebida como a Primeira Mulher Académica de Mérito da Academia Real de Belas Artes de Lisboa. Com Josefa Brito do Rio, condessa de Ficalho, vai criar aquela que foi a célebre “Fábrica do Ratinho’. Quem hoje possui peças de cerâmica dessa oficina pode ver o símbolo do “ratinho” e sentir-se feliz por possuir uma peça muito rara e muito valiosa, pois a produção não foi grande.
Camareira da rainha D. Amélia de Bragança, a duquesa de Palmela encontrava-se no Palácio das Necessidades no dia seguinte ao do regicídio (assassinato do rei D. Carlos e do filho Luís Filipe). Após a reunião do Conselho de Estado, aproximou-se do ministro João Franco e discretamente perguntou-lhe: «Isto é o fim da Monarquia, não é, conselheiro?» como a adivinhar a resposta.
Maria Luísa de Sousa Holstein era uma senhora de grande cultura. Estudara em França, como se disse e conhecia vários países, privava com embaixadores, falando-lhes normalmente na língua deles. Interessada por tudo o que a rodeava, estava sempre bem informada, parece até que o seu telefone foi, logo a seguir ao do Palácio da Ajuda, um dos primeiros a ser instalado em Lisboa. Daí, podermos afirmar que conhecia bem o que se passava no resto do mundo e a evolução que a sociedade portuguesa iria sofrer. Só que ninguém podia adivinhar que a República começaria em Portugal com um banho de sangue, talvez evitável. Nas suas casas de Sesimbra e Calhariz possuía a duquesa das mais completas pinacotecas do país.
À Sociedade de Geografia de Lisboa foi oferecido, em 21 de Junho de 1909, o busto de Sá da Bandeira, por quem a duquesa nutria grande admiração, pois foi companheiro de lutas de seu avô Pedro, primeiro duque de Palmela. Nesse dia presidiu à sessão solene na Sociedade de Geografia o rei D. Manuel II, acompanhado pelo infante D. Afonso. Entre os convidados encontravam-se dois sobrinhos-netos do marquês de Sá da Bandeira. Caetano Alberto da Silva, director da revista «O Ocidente» disse a propósito: «Sá da Bandeira teve agora urna consagração suprema. A duquesa de Palmela modelou em mármore o busto do intrépido general.»
Algumas vozes invejosas (como sempre houve e haverá) diziam que as esculturas da duquesa tinham intervenção do seu mestre Calmels. «Ora elas são por demais femininas para se poder arredar essa hipótese.» (Fernando Pamplona).
O casal Palmela mereceu sempre a atenção dos jornalistas, talvez pela aura de simpatia e elegância que Maria Luísa de Sousa Holstein e o marido transmitiam e que fazia deles o alvo preferencial das crónicas mundanas. Eram notícia quando, com o seu vestido branco, foi servir discretamente as refeições numa das Cozinhas Económicas, era notícia quando o marido lhe ofereceu um iate a que foi posto o nome de “Surpresa”; eram notícia quando promovia uma “batalha de flores’ na Avenida da Liberdade, com o fim de angariar fundos para as despesas das Cozinhas Económicas; era notícia quando recebe menções honrosas, em Paris e no Rio de Janeiro, pelas suas esculturas, enfim eram sempre notícia, numa época em que só era famoso quem tinha verdadeiro merecimento para tal.
A 3ª duquesa de Palmela morreu na sua quinta de São Sebastião, em Sintra.«A nota culminante e comoventíssima do seu enterro foi dada pelo povo, pelos velhos que mal podiam andar, pelas pobres mulheres de xaile e lenço, com os filhos ao colo, por toda aquela multidão saída não se sabia de onde, e que a ia acompanhando, a pé, levando muitos os seus humildes ramos de flores - todos, as flores que mais eloquentes pareciam à alma gentilíssima da Duquesa de Palmela - lágrimas, muitas lágrimas nos olhos» (Olga de Morais Sarmento).
A 3ª duquesa de Palmela deixou um valioso património artístico cheio de “de graça nervosa e juvenil’ ela que assinava apenas M.ª Palmella sculp.(abreviatura de escultora em latim)
O BICHINHO DE CONTA
Se bem que a 3ª duquesa de Palmela tenha por si só uma personalidade fascinante e talento suficiente para ficar na memória de todos, é difícil não falarmos dos seus antepassados. É o caso da sua bisavó que ficou na História de Portugal conhecida pelo “O Bichinho de Conta”.
Isabel Juliana de Sousa Coutinho Monteiro Paim era amiga, desde pequena, de Alexandre de Sousa Holstein com quem sempre brincara na quinta do Calhariz. Com o passar dos tempos, eram mais do que amigos e nunca duvidaram, que seriam, um dia, marido e mulher. Isabel perdera a mãe ainda criança e o pai passava a vida em Paris, gozando a sua viuvez, dado aos prazeres da vida, que aproveitava, na sua condição de embaixador de Portugal em França.
Mas na corte do rei D. José I o, então conde de Oeiras, depois marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, sabendo que Isabel Paim era herdeira de uma grande fortuna e de um ainda mais honroso nome de família, que entroncava em Tomás Paim, fidalgo inglês que viera no séquito de D. Filipa de Lencastre, como secretário da futura rainha de Portugal, tratou de combinar o casamento daquela menina de quinze anos com o seu segundo filho, José Francisco, que contava catorze.
O pai da noiva, Vicente Paim não viu qualquer inconveniente no casamento e combina-se o enlace. Só que ninguém pensou que Isabel podia ter opinião contrária. Uma menina daquela idade “não tem querer” dizia-se. Obedecia ao pai e mais nada. Mas Isabel opôs-se obstinadamente: «Que nunca casaria com outro que não o seu amigo de infância Alexandre.»
Mas o pai e o marquês obrigaram-na a casar. E numa cerimónia que teve de ser íntima, e que foi presidida pelo próprio irmão do futuro marquês de Pombal, em 11 de Abril de 1768, Isabel Juliana vê-se “casada” com um rapaz que detestava, não só por ser filho de quem era, mas porque o seu marido só podia ser o seu Alexandre, que entretanto fora com a mãe viver para o Piemonte (Itália), não fosse Sebastião José de Carvalho e Melo tomar alguma das suas despóticas atitudes.
Realmente, o casamento realizou-se mas não se consumou, porque a noiva não permitiu que o noivo lhe tocasse. Aquela menina de cabelos negros aos canudos, de cara magra e nariz fino, tinha um queixo voluntarioso e iria fazer frente ao noivo, ao pai, às tias e ao aterrador conde de Oeiras, que, de início pensou tratar-se de um capricho de uma menina rica, mas que com o passar dos meses percebeu que o assunto era sério.
Quando a vontade derruba montanhas
Isabel Monteiro Paim mandou fazer um saco com dois lençóis, atados bem junto ao pescoço, onde dormia, para que o noivo nem tivesse a pretensão de tentar tocar-lhe. E por isso o marquês, era motivo de troça do Paço. Furioso, terá mesmo dito, referindo-se àquela que se recusava ser sua nora:«É um bichinho de conta que me quer deter os passos».
Passam-se três anos e, o noivo, José Francisco de Carvalho Daum queixa-se ao pai de que o casamento ainda se não consumara, isto é que os noivos ainda não tinham tido intimidades de casal. Era altura de o marquês de Pombal tomar uma atitude drástica. Pediu a anulação do casamento, não sem primeiro mandar a teimosa menina para o convento de Santa Joana, onde a abadessa era a irmã do futuro marquês de Pombal. Como era de esperar a jovem Isabel foi tratada quase como presidiária.
A família de Isabel Monteiro Paim não lhe deu qualquer apoio, talvez por que temesse as represálias do marquês de Pombal. Daí não se opôr a que a jovem fosse depois desterrada para o Convento do Calvário, em Évora, onde era absolutamente proibido contactar fosse com quem fosse. Só a grande esperança de que um dia os seus desejos se cumprissem, faziam ter vontade de viver à jovem Isabel Paim. E esse dia chegou.
O rei D. José I morreu em 1777 e a rainha D. Maria I demite o ministro de seu pai, o marquês de Pombal. Novos tempos para os que sofreram a oposição de Sebastião José de Carvalho e Melo
Como nos contos de fadas, Alexandre ainda solteiro, herdeiro de uma fortuna e de um título (marquês de Isnardi, conde de Sanfrè) corre para junto da sua amada, que ainda vai visitar atrás das grades do convento de Évora. Casam em Julho de 1779. Foi um verdadeiro casamento de amor. Isabel e Alexandre foram os pais de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela, que nasceu em Turim a 8 de Maio de 1781.
Texto: Maria Luísa V. de Paiva Boléo / Ilustração Artur Henriques
Na Cozinha Económica, instalada junto ao seu palácio, servia a duquesa refeições a duzentos crianças, todos os dias.
Um dia o conde de Sabugosa com curiosidade de ver a última escultura da duquesa, esperou-a, no seu atelier, junto ao jardim de sua casa. Conversaram e o conde, comentando a sua generosidade chamou-lhe «socialista», termo que na época tinha uma conotação um pouco diferente da de hoje. A conversa prosseguiu e Maria Luísa acrescentou: «Também eu sou socialista, mas o socialismo que me encanta e atrai é o do conde Tolstoi, que percorria as estepes da Rússia atirando com mãos generosas a sua fortuna aos que morriam de fome e de frio nas cabanas afogadas de neve”. É assim que eu compreendo a missão dos ricos, eles são no mundo os depositários dos bens que pertencem aos deserdados. Só a justa distribuição pode trazer a igualdade pregada por S. Paulo.»
«O supérfluo dos ricos é o património dos pobres». Frase que a 3ª duquesa dizia e cumpriu na sua vida.
É sabido que a escritora Maria Amália Voz de Carvalho e a duquesa de Palmela eram grandes amigas. A duquesa ia a casa da escritora no seu «coupé» forrado de cetim, parava naquele número 1 da travessa de Santa Catarina, (na época quase tão célebre em Lisboa como o nº 10 de Downing Street em Londres), às 4 da tarde. Passava horas conversando com a escritora, à saída, prolongava ainda a retirada, numa indolência propositada, para ficar mais tempo. Por isso, dela disse com graça Maria Amália, sua grande amiga: «À duquesa de Palmela nem sequer falta, como aos grandes generais, a arte infinitamente subtil da retirada» (como escreveu Luís de Oliveira Guimarães em Senhoras Conhecidas, Lisboa, 1945).
Gervásio Lobato disse daquela que foi conhecida em Lisboa apenas por «a Duquesa» como se fosse a única. “Não se limita a ser caritativa é benemérita:«Da mesma maneira que como uma artista a duquesa faz simplesmente arte pela arte, como benemérita faz simplesmente o bem pelo bem»
A Sociedade Promotora das Cozinhas Económicas” iria continuar depois da morte da duquesa, em 1909. Contava 68 anos. Esta instituição viria a ser conhecida pela «sopa do Sidónio», a partir do ano de 1918. Os tempos da guerra (1914-1918) trouxeram a miséria a muitas famílias portuguesas e conta-se que era o próprio Sidónio Pais (que foi Presidente da República entre 1917 e 1918 e morreu assassinado) e um filho que, de noite, iam fornecer as Cozinhas Económicas para que, ao menos, a sopa não faltasse aos mais pobres.
Estas Cozinhas passam, anos mais tarde, para as Misericórdias de Lisboa.
Para lá desta obra de assistência, Maria Luísa de Sousa Holstein ficou ligada a grande número de outras iniciativas como o Instituto de Socorros a Náufragos, o Hospital do Rego, a Assistência Nacional aos Tuberculosos, criado pela rainha D. Amélia, entre outras.
Esculpir o barro e o mármore
As suas mãos de artista moldaram o barro e esculpiram o mármore com uma delicadeza e frescura únicas e que ficaram patentes em significativo número de obras, desde “Diógenes”, fundido em bronze, que foi exposto no Salon de Paris em 1884, passando por “Santa Teresa”, premiada no Salon de 1886, “Pretinha”, “Sulamite”, “Alegria” ou o “Fiat Lux”, oferecido a D. António de Lencastre, médico do Paço, e outras esculturas, expostas em museus, embora grande parte pertença a colecções particulares ou a amigos e familiares da duquesa. Ao Museu Nacional de Belas Artes foi oferecido o “Génio do Progresso da Medicina” em bronze.
Em 1901, e em anos seguintes a duquesa de Palmela, vai expor na Sociedade Nacional de Belas Artes e em Paris e terá participado pela última vez no Rio de Janeiro em 1908.
Em 1903 a duquesa de Palmela fora recebida como a Primeira Mulher Académica de Mérito da Academia Real de Belas Artes de Lisboa. Com Josefa Brito do Rio, condessa de Ficalho, vai criar aquela que foi a célebre “Fábrica do Ratinho’. Quem hoje possui peças de cerâmica dessa oficina pode ver o símbolo do “ratinho” e sentir-se feliz por possuir uma peça muito rara e muito valiosa, pois a produção não foi grande.
Camareira da rainha D. Amélia de Bragança, a duquesa de Palmela encontrava-se no Palácio das Necessidades no dia seguinte ao do regicídio (assassinato do rei D. Carlos e do filho Luís Filipe). Após a reunião do Conselho de Estado, aproximou-se do ministro João Franco e discretamente perguntou-lhe: «Isto é o fim da Monarquia, não é, conselheiro?» como a adivinhar a resposta.
Maria Luísa de Sousa Holstein era uma senhora de grande cultura. Estudara em França, como se disse e conhecia vários países, privava com embaixadores, falando-lhes normalmente na língua deles. Interessada por tudo o que a rodeava, estava sempre bem informada, parece até que o seu telefone foi, logo a seguir ao do Palácio da Ajuda, um dos primeiros a ser instalado em Lisboa. Daí, podermos afirmar que conhecia bem o que se passava no resto do mundo e a evolução que a sociedade portuguesa iria sofrer. Só que ninguém podia adivinhar que a República começaria em Portugal com um banho de sangue, talvez evitável. Nas suas casas de Sesimbra e Calhariz possuía a duquesa das mais completas pinacotecas do país.
À Sociedade de Geografia de Lisboa foi oferecido, em 21 de Junho de 1909, o busto de Sá da Bandeira, por quem a duquesa nutria grande admiração, pois foi companheiro de lutas de seu avô Pedro, primeiro duque de Palmela. Nesse dia presidiu à sessão solene na Sociedade de Geografia o rei D. Manuel II, acompanhado pelo infante D. Afonso. Entre os convidados encontravam-se dois sobrinhos-netos do marquês de Sá da Bandeira. Caetano Alberto da Silva, director da revista «O Ocidente» disse a propósito: «Sá da Bandeira teve agora urna consagração suprema. A duquesa de Palmela modelou em mármore o busto do intrépido general.»
Algumas vozes invejosas (como sempre houve e haverá) diziam que as esculturas da duquesa tinham intervenção do seu mestre Calmels. «Ora elas são por demais femininas para se poder arredar essa hipótese.» (Fernando Pamplona).
O casal Palmela mereceu sempre a atenção dos jornalistas, talvez pela aura de simpatia e elegância que Maria Luísa de Sousa Holstein e o marido transmitiam e que fazia deles o alvo preferencial das crónicas mundanas. Eram notícia quando, com o seu vestido branco, foi servir discretamente as refeições numa das Cozinhas Económicas, era notícia quando o marido lhe ofereceu um iate a que foi posto o nome de “Surpresa”; eram notícia quando promovia uma “batalha de flores’ na Avenida da Liberdade, com o fim de angariar fundos para as despesas das Cozinhas Económicas; era notícia quando recebe menções honrosas, em Paris e no Rio de Janeiro, pelas suas esculturas, enfim eram sempre notícia, numa época em que só era famoso quem tinha verdadeiro merecimento para tal.
A 3ª duquesa de Palmela morreu na sua quinta de São Sebastião, em Sintra.«A nota culminante e comoventíssima do seu enterro foi dada pelo povo, pelos velhos que mal podiam andar, pelas pobres mulheres de xaile e lenço, com os filhos ao colo, por toda aquela multidão saída não se sabia de onde, e que a ia acompanhando, a pé, levando muitos os seus humildes ramos de flores - todos, as flores que mais eloquentes pareciam à alma gentilíssima da Duquesa de Palmela - lágrimas, muitas lágrimas nos olhos» (Olga de Morais Sarmento).
A 3ª duquesa de Palmela deixou um valioso património artístico cheio de “de graça nervosa e juvenil’ ela que assinava apenas M.ª Palmella sculp.(abreviatura de escultora em latim)
O BICHINHO DE CONTA
Se bem que a 3ª duquesa de Palmela tenha por si só uma personalidade fascinante e talento suficiente para ficar na memória de todos, é difícil não falarmos dos seus antepassados. É o caso da sua bisavó que ficou na História de Portugal conhecida pelo “O Bichinho de Conta”.
Isabel Juliana de Sousa Coutinho Monteiro Paim era amiga, desde pequena, de Alexandre de Sousa Holstein com quem sempre brincara na quinta do Calhariz. Com o passar dos tempos, eram mais do que amigos e nunca duvidaram, que seriam, um dia, marido e mulher. Isabel perdera a mãe ainda criança e o pai passava a vida em Paris, gozando a sua viuvez, dado aos prazeres da vida, que aproveitava, na sua condição de embaixador de Portugal em França.
Mas na corte do rei D. José I o, então conde de Oeiras, depois marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, sabendo que Isabel Paim era herdeira de uma grande fortuna e de um ainda mais honroso nome de família, que entroncava em Tomás Paim, fidalgo inglês que viera no séquito de D. Filipa de Lencastre, como secretário da futura rainha de Portugal, tratou de combinar o casamento daquela menina de quinze anos com o seu segundo filho, José Francisco, que contava catorze.
O pai da noiva, Vicente Paim não viu qualquer inconveniente no casamento e combina-se o enlace. Só que ninguém pensou que Isabel podia ter opinião contrária. Uma menina daquela idade “não tem querer” dizia-se. Obedecia ao pai e mais nada. Mas Isabel opôs-se obstinadamente: «Que nunca casaria com outro que não o seu amigo de infância Alexandre.»
Mas o pai e o marquês obrigaram-na a casar. E numa cerimónia que teve de ser íntima, e que foi presidida pelo próprio irmão do futuro marquês de Pombal, em 11 de Abril de 1768, Isabel Juliana vê-se “casada” com um rapaz que detestava, não só por ser filho de quem era, mas porque o seu marido só podia ser o seu Alexandre, que entretanto fora com a mãe viver para o Piemonte (Itália), não fosse Sebastião José de Carvalho e Melo tomar alguma das suas despóticas atitudes.
Realmente, o casamento realizou-se mas não se consumou, porque a noiva não permitiu que o noivo lhe tocasse. Aquela menina de cabelos negros aos canudos, de cara magra e nariz fino, tinha um queixo voluntarioso e iria fazer frente ao noivo, ao pai, às tias e ao aterrador conde de Oeiras, que, de início pensou tratar-se de um capricho de uma menina rica, mas que com o passar dos meses percebeu que o assunto era sério.
Quando a vontade derruba montanhas
Isabel Monteiro Paim mandou fazer um saco com dois lençóis, atados bem junto ao pescoço, onde dormia, para que o noivo nem tivesse a pretensão de tentar tocar-lhe. E por isso o marquês, era motivo de troça do Paço. Furioso, terá mesmo dito, referindo-se àquela que se recusava ser sua nora:«É um bichinho de conta que me quer deter os passos».
Passam-se três anos e, o noivo, José Francisco de Carvalho Daum queixa-se ao pai de que o casamento ainda se não consumara, isto é que os noivos ainda não tinham tido intimidades de casal. Era altura de o marquês de Pombal tomar uma atitude drástica. Pediu a anulação do casamento, não sem primeiro mandar a teimosa menina para o convento de Santa Joana, onde a abadessa era a irmã do futuro marquês de Pombal. Como era de esperar a jovem Isabel foi tratada quase como presidiária.
A família de Isabel Monteiro Paim não lhe deu qualquer apoio, talvez por que temesse as represálias do marquês de Pombal. Daí não se opôr a que a jovem fosse depois desterrada para o Convento do Calvário, em Évora, onde era absolutamente proibido contactar fosse com quem fosse. Só a grande esperança de que um dia os seus desejos se cumprissem, faziam ter vontade de viver à jovem Isabel Paim. E esse dia chegou.
O rei D. José I morreu em 1777 e a rainha D. Maria I demite o ministro de seu pai, o marquês de Pombal. Novos tempos para os que sofreram a oposição de Sebastião José de Carvalho e Melo
Como nos contos de fadas, Alexandre ainda solteiro, herdeiro de uma fortuna e de um título (marquês de Isnardi, conde de Sanfrè) corre para junto da sua amada, que ainda vai visitar atrás das grades do convento de Évora. Casam em Julho de 1779. Foi um verdadeiro casamento de amor. Isabel e Alexandre foram os pais de D. Pedro de Sousa Holstein, primeiro duque de Palmela, que nasceu em Turim a 8 de Maio de 1781.
Texto: Maria Luísa V. de Paiva Boléo / Ilustração Artur Henriques
Este texto é dedicado ao P.U.
quinta-feira, julho 06, 2006
Eu confesso que acho tudo isto muito triste e decadente... Onde está o Portugal e os Portugueses que eu gostaria que existissem... Sinceramente... antes a Aldeia da Roupa Branca a isto...
segunda-feira, julho 03, 2006
Os mandamentos de um espectador de teatro
TEATRO
Por Mário Viegas
10 mandamentos para 1 espectador de teatro
1º NÃO CHEGARÁS ATRASADO, incomodando a concentração daqueles que estão a Representar e dos outros (que chegaram religiosamente a horas) que estão a assistir ao Santo Sacrifício do Teatro.
2º NÃO FALARÁS BAIXINHO com o ou a acompanhante; incomodando com a tua inclinação de cabeça o Espectador de trás, e distraindo os Actores celebrantes do Santo Sacrifício do teatro.
3º NÃO ADORMECERÁS NEM RESSONARÁS, dando marradas para a frente ou para trás, ou pondo a mão nos olhos para os outros pensarem que estás muito concentrado no Santo Sacrifício do teatro.
4º NÃO TOSSIRÁS NEM TE ASSOARÁS com grande ruído, escolhendo as melhores pausas dos celebrantes do Santo Sacrifício do Teatro.
5º NÃO TE ABANARÁS constantemente com o programa, distraindo os que estão, religiosamente, ao teu lado e irritando os que estão no palco a celebrar o Santo Sacrifício do Teatro.
6º NÃO COMERÁS rebuçados, pipocas, caramelos, chocolates, pastilhas, comprimidos; tirando-os muito devagarinho, fazendo com o papel e as pratinhas o mais diabólico, satânico e herético ruído numa sala de espectáculos em que se celebra o Santo Sacrifício do Teatro.
7º NÃO LEVARÁS relógios com pipis electrónicos, telemóveis e sacos de plásticos que andarás constantemente a pôr, ora entre as pernas, ora no colo, perturbando os que celebram o Santo Sacrifício do Teatro.
8º NÃO LERÁS OU FOLHEARÁS o programa durante a celebração do Santo Sacrifício do Teatro para tentar saber qual é o nome de determinado Actor, ou para tentar perceber a sequência do Santo Sacrifício do Teatro.
9º NÃO PEDIRÁS borlas ou insistirás em descontos, a que não tens direito, para assistir à celebração do Santo Sacrifício do Teatro.
10º NÃO OLHARÁS «com umas grandes ventas» para o vizinho do lado, que achou religiosamente Graça ao que tu não achaste, ou que, piamente e cheio de Fé, se levantou logo para aplaudir, enquanto tu bates palmas por frete e já a pensar ir a correr tirar a porcaria do teu carrinho, ou a porcaria do teu sobretudo do bengaleiro, mais cedo do que os outros.
ASSIM: SUBIRÁS PURO AOS CÉUS!
OU
ASSIM: PODERÁS IR A 13 DE MAIO À COVA DA IRIA
OU
ASSIM: PODERÁS IR E COMUNGAR NO CASAMENTO REAL
de Sua Majestade Sereníssima Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael De Bragança, chefe da Sereníssima Casa de Bragança, Duque de Bragança, de Guimarães e de Barcelos, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, de Ourém, de Barcelos, de Faria, de Neiva e de Guimarães; e de sua Augusta Noiva Isabel Inês De Castro Corvello de Herédia.
IDE E ESPALHAI A BOA NOVA!!
Os mandamentos de um espectador de teatro
Por Mário Viegas
10 mandamentos para 1 espectador de teatro
1º NÃO CHEGARÁS ATRASADO, incomodando a concentração daqueles que estão a Representar e dos outros (que chegaram religiosamente a horas) que estão a assistir ao Santo Sacrifício do Teatro.
2º NÃO FALARÁS BAIXINHO com o ou a acompanhante; incomodando com a tua inclinação de cabeça o Espectador de trás, e distraindo os Actores celebrantes do Santo Sacrifício do teatro.
3º NÃO ADORMECERÁS NEM RESSONARÁS, dando marradas para a frente ou para trás, ou pondo a mão nos olhos para os outros pensarem que estás muito concentrado no Santo Sacrifício do teatro.
4º NÃO TOSSIRÁS NEM TE ASSOARÁS com grande ruído, escolhendo as melhores pausas dos celebrantes do Santo Sacrifício do Teatro.
5º NÃO TE ABANARÁS constantemente com o programa, distraindo os que estão, religiosamente, ao teu lado e irritando os que estão no palco a celebrar o Santo Sacrifício do Teatro.
6º NÃO COMERÁS rebuçados, pipocas, caramelos, chocolates, pastilhas, comprimidos; tirando-os muito devagarinho, fazendo com o papel e as pratinhas o mais diabólico, satânico e herético ruído numa sala de espectáculos em que se celebra o Santo Sacrifício do Teatro.
7º NÃO LEVARÁS relógios com pipis electrónicos, telemóveis e sacos de plásticos que andarás constantemente a pôr, ora entre as pernas, ora no colo, perturbando os que celebram o Santo Sacrifício do Teatro.
8º NÃO LERÁS OU FOLHEARÁS o programa durante a celebração do Santo Sacrifício do Teatro para tentar saber qual é o nome de determinado Actor, ou para tentar perceber a sequência do Santo Sacrifício do Teatro.
9º NÃO PEDIRÁS borlas ou insistirás em descontos, a que não tens direito, para assistir à celebração do Santo Sacrifício do Teatro.
10º NÃO OLHARÁS «com umas grandes ventas» para o vizinho do lado, que achou religiosamente Graça ao que tu não achaste, ou que, piamente e cheio de Fé, se levantou logo para aplaudir, enquanto tu bates palmas por frete e já a pensar ir a correr tirar a porcaria do teu carrinho, ou a porcaria do teu sobretudo do bengaleiro, mais cedo do que os outros.
ASSIM: SUBIRÁS PURO AOS CÉUS!
OU
ASSIM: PODERÁS IR A 13 DE MAIO À COVA DA IRIA
OU
ASSIM: PODERÁS IR E COMUNGAR NO CASAMENTO REAL
de Sua Majestade Sereníssima Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael De Bragança, chefe da Sereníssima Casa de Bragança, Duque de Bragança, de Guimarães e de Barcelos, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, de Ourém, de Barcelos, de Faria, de Neiva e de Guimarães; e de sua Augusta Noiva Isabel Inês De Castro Corvello de Herédia.
IDE E ESPALHAI A BOA NOVA!!
Os mandamentos de um espectador de teatro
quarta-feira, junho 28, 2006
AH GRANDE GUSTAVO...
Gustavo Rubim, "Quando Ibsen se dissolve no ar", in Mil Folhas (Público), 2006-06-24
Quando Ibsen se dissolve no ar
Tinha toda a razão Henrik Ibsen, quando disse algures que quem escreve lavra uma sentença sobre si próprio.No insólito arrazoado que fez publicar no Mil Folhas da semana passada – “Ibsen em Portugal” – Jorge Silva Melo julgou, pelo contrário (não é ibseniano quem quer), ter sentenciado definitivamente algumas afirmações que fiz à jornalista Joana Gorjão Henriques e que se podem ler, por sua vez, no Mil Folhas de 10 de Junho, sob o título “Ausência de Ibsen em Portugal é um escândalo artístico e cultural”.
Que Silva Melo quis e tentou sentenciar-me, até pessoalmente, é uma evidência, visto que me chamou, contando por alto, cinco nomes feios: mentiroso, bruxo, simplista, tradutor duvidoso e, no plano geral, ignorante.
Os insultos trazem escancarada a intenção, não só de instalar quezília, mas de a instalar num plano para o qual espera que eu me deixe arrastar. Quanto a isso, nada feito. Não desço. Fica para ele o esforço de subir, se quiser. Mas só se quiser, porque eu não costumo impor a ninguém o nível a que estou habituado.
Como se aplica a frase de Ibsen a este episódio? Simples. Por muito que eu procurasse, jamais encontraria melhor demonstração para a minha tese – a da fraca presença de Ibsen no teatro português actual – do que o próprio escrito de Silva Melo. É que nada sai dali tão nítido como o desaparecimento de Ibsen a que eu, precisamente, me referira. Um caso clássico do peixe a morrer pela boca.
De facto, é o próprio Silva Melo quem diz, e diz bem, que a síntese das minhas ideias, publicada por Joana G. Henriques, é um “texto longo”: três páginas de jornal. O que lhe faltou dizer (“et pour cause...”) é que, dessa extensão toda, nove partes em dez são ocupadas a falar do teatro de Ibsen, a propósito das quatro últimas peças do dramaturgo, agora editadas num volume da Cotovia.
Ora, o que tem Silva Melo a dizer acerca de Ibsen? Que eu desse por isso, absolutamente nada, nem uma palavra. Fosse por incapacidade ou desinteresse (venha o diabo e escolha!), preferiu agarrar-se àquele único décimo do texto em que eu falo criticamente do destino de Ibsen em Portugal, no período pós-25 de Abril de 1974. Como qualquer pessoa que saiba juntar letras compreende, é com base no conhecimento e na interpretação de Ibsen que eu lamento que as peças de Ibsen não sejam no mínimo dez vezes mais conhecidas entre nós do que realmente são. Quanto a isto, Silva Melo teve de se fazer desentendido – truque fácil para um actor - , porque não tem à mão nada que se pareça com uma interpretação de Ibsen.
O resultado está à vista. Eu falei a Joana G. Henriques da reinvenção da personagem feminina no teatro de Ibsen. Silva Melo, em troca, manda-me ler uma resma de preciosos autores masculinos, desde D. João da Câmara a Joaquim Paço d’Arcos. Eu disse que Beckett é um dramaturgo da linhagem ibseniana, o que está longe de ser coisa que se diga todos os dias. Silva Melo, atrapalhado, responde-me que se a Maria do Céu Guerra quisesse podia fazer a Hedda Gabler, já Mário Viegas não podia fazer o seu marido (ai não?...). Eu até disse que nas últimas peças de Ibsen se pode ver uma antecipação do cinema. Silva Melo, que por acaso também faz filmes, preferiu lembrar-me que Paulo Renato não ia nessa de colaborar em companhias de teatro independente.
Em resumo: sou eu a falar para um lado, e Silva Melo a desconversar para o outro. Uma página inteira do Mil Folhas gasta por Silva Melo a falar de tudo menos de Ibsen! Um desperdício. Se me queria dizer que não foi a preferência por Brecht a razão pela qual, nos últimos 32 anos, Ibsen foi muito menos representado do que Brecht (e cheira a paradoxo), macacos me mordam se era preciso despejar-me em cima uma lista de 49 nomes, ilustres e nem tanto, do teatro português dos ultimo... 90 anos! Se a ideia era inverter os papéis, pondo-me no lugar de aluno, falhou redondamente. Um mínimo de pedagogia histórica aconselhava, pelo menos, que tivesse lembrado a actriz italiana Eleonora Duse, que foi quem tornou Ibsen famoso pelas nossas bandas, quando veio representar a “Hedda Gabler” ao Teatro D. Amélia (ao S. Luiz, portanto), corria o ano de 1898. Nem isso.
Não me venha, pois, Silva Melo dar conselhos sobre a melhor tradução de Ibsen em Inglês, nem fazer insinuações rasteiras sobre a solidez do meu currículo. Eu não aceito uma coisa nem outra vinda de quem nunca representou, encenou ou traduziu, sequer do galego, quanto mais do inglês, qualquer texto de Ibsen. Não me admira que ache “fabulosa” a tradução “britânica” de Una Ellis-Fermor, pois bruxo como sou, aposto uma carcaça contra um pão de quilo que dos Estados Unidos da América (onde também se fala inglês, “hélas”!) nunca lhe chegou notícia de um senhor chamado Rolf Fjelde. Não é grave, ainda vai a tempo. É só uma questão de se convencer que em matéria de Ibsen, há mais mundo para além da Penguin e da Europa-América.
Decididamente, temos de seguir outra via, se queremos algum debate sério sobre Ibsen e Ibsen em Portugal. A essa outra via chamo eu (olha, lá vem o simplista!) a via da verdade. Aprende-se, para dar bons exemplos, com João Mora, que disse a Joana G. Henriques no dia 23 de Maio (Público p.29): “É preciso não esquecer que temos tido um teatro nacional. Têm medo de fazer o que não está na moda.” Incontestável. E, na mesma ocasião, corroborou com igual sentido da verdade Luís Miguel Cintra: “Não tem havido uma política de repertório com alguma linha de orientação.” Irrefutável. E sobre o Teatro Nacional pouco mais haverá a dizer, ficando explicadíssimo porque lá não se faz Ibsen já 34 anos.
Sobre Ibsen propriamente dito do mesmo artigo voltaria a citar Cintra, que se lhe refere como “autor fundamental”; notaria que Carlos Avilez sabe do que fala quando diz que “um dos problemas de Ibsen é o grau de complexidade de interpretação das peças”; mas termino, sublinhando esta lição do encenador João Lourenço: “A liberdade e a verdade são condições supremas na vida, e em todas as peças [de Ibsen] isto aparece. É um autor que continua actual, um escritor do nosso tempo.”
Ou nos decidimos a tirar daqui alguma consequência, ou receio que alguém acabe a falar sozinho – e desconfio que não vou ser eu.
Gustavo Rubim
Professor universitário, ensaísta, tradutor de teatro
Professor universitário, ensaísta, tradutor de teatro

Elenco do espectáculo Hedda Gabler de Henrik Ibsen, uma produção da Companhia Teatral do Chiado, junto da lapide comemorativa da passagem de Eleonora Duse pelo Theatro D. Amélia (actualmente São Luiz Teatro Municipal).
excerto de um texto de Sousa Bastos
"No dia 22, em recita extraordinaria, encheu-se novamente o theatro. A Duse representava pela primeira vez a peça de Ibsen Hedda Gabler. Lisboa recebeu essa preferencia da grande actriz, que quiz crear esse difficillimo papel ante o nosso publico. Sobre o desempenho da Duse foram todos unanimes em achal-o maravilhoso e demonstraram-no na mais significativa manifestação de enthusiasmo. [...]
N'este memso dia [27], às 3 horas da tarde, descerrou-se uma lapide, mandada collocar pela empreza no foyer do theatro em memoria da passagem da grande actriz por aquella scena. Assistindo grande numero de senhoras, artistas escriptores, ao som do hymno italiano, executado por uma orquestra, entrou Eleonora Duse, [...]. A lapide é de marmore rosa com a seguinde inscripção gravada em letras de ouro: ELEONORA DUSE, 12 de abril 1898. [...]
excerto de um texto de Sousa Bastos
"No dia 22, em recita extraordinaria, encheu-se novamente o theatro. A Duse representava pela primeira vez a peça de Ibsen Hedda Gabler. Lisboa recebeu essa preferencia da grande actriz, que quiz crear esse difficillimo papel ante o nosso publico. Sobre o desempenho da Duse foram todos unanimes em achal-o maravilhoso e demonstraram-no na mais significativa manifestação de enthusiasmo. [...]
N'este memso dia [27], às 3 horas da tarde, descerrou-se uma lapide, mandada collocar pela empreza no foyer do theatro em memoria da passagem da grande actriz por aquella scena. Assistindo grande numero de senhoras, artistas escriptores, ao som do hymno italiano, executado por uma orquestra, entrou Eleonora Duse, [...]. A lapide é de marmore rosa com a seguinde inscripção gravada em letras de ouro: ELEONORA DUSE, 12 de abril 1898. [...]
segunda-feira, junho 26, 2006
Na Sexta e Sábado assisti a dois incríveis concertos de Fado no nosso lindo e deslumbrante Castelo de São Jorge. Foram eles os concertos de Aldina Duarte e Kátia Guerreiro.
Aldina Duarte é aquilo mesmo. Alma autêntica, Fado puro e cru na voz, sensualidade no corpo e ingenuidade no sorriso. Uma fadista a 100%, sem artifícios ou encenações. Tudo em Aldina é espontâneo, do momento presente. Todo o poder das palavras saem da sua voz de forma natural, apaixonada e, acima de tudo, de forma honesta. Ah... e canta muitas vezes sentada, o que não é para todos. Sem dúvida a melhor do Fado Tradicional.
Kátia Guerreiro enche-nos com a sua presença, a sua voz que parece não conhecer limites, a sua simpatia em palco. Os seus "covers" de alguns fados de Amália Rodrigues são absolutamente deslumbrantes, não chocando rigorosamente nada ouvi-los na voz de Kátia, como tantas vezes sucede quando um cantor canta uma música que rapidamente se associa a outro que foi o melhor, o original, o divino (como acontece tantas vezes com os que teimam em cantar Amália Rodrigues).
Os fados originais de Kátia Guerreiro têm poemas lindos de alma e conteúdo. O Amor, a Traição, o Ciúme, todos os ingredientes da vida estão contemplados, quase como sendo escritos de um Diário que nós mesmo redigimos.
O grande senão do concerto foi a cena familiar semi-improvisada, com uma criancinha a subir ao palco, o público de coração enternecido, as gracinhas da criancinha e a dita criatura a distrair o público no momento maior do concerto quando Kátia cantou o "Gaivota". O público, estúpido, preferiu rir das gracinhas da criancinha, todos aos "AH" e aos "OH", como se o "Gaivota" da Kátia ouvissem por aí aos pontapés e criancinhas não as houvesse mais, por aí, com as mesmas gracinhas. (Mas por que raio têm as pessoas que ficar sempre com cara de idiotas embevecidos sempre que aparece uma criança?)
No entanto, e como disse quem comigo foi ao concerto, é tempo de a Kátia Guerreiro pensar os seus espectáculos de outra forma. Tem de se deixar levar mais pela espontaniedade, pelo improviso e pela emoção. Os seus concertos tornam-se previsíveis, com as mesmas graças supostamente espontâneas, com os belíssimos efeitos da sua voz sempre nos mesmos sítios.
O poder da voz de Kátia Guerreiro é inesgotável. Resta agora que aprenda a usá-lo de uma forma mais verdadeira e consentânea com o Fado.
Sem dúvida, a melhor (apesar de tudo) do Fado Novo... mas sem criancinhas.

Madonna finalmente lançou o seu DVD "I'm Going to Tell You a Secret", que oferece, como bónus, o seu primeiro CD gravado ao vivo.
O DVD contém um filme - realizado por Jonas Akerlund" - de quase duas horas com gravações nos bastidores da sua "Re-Invention World Tour" de 2004 e algumas cenas de palco. Enfim, a fórmula é mais ou menos a mesma que fora já experimentado em "Na Cama com Madonna".
O filme é uma bomba relativamente à realização, montagem, imagem e som. As cenas de palco são extraordinárias (ou não estivessemos a falar de Madonna), embora só raras vezes a música e actuação apareçam na sua totalidade. O que é uma pena, uma vez que está quase confirmada a não saída em DVD do concerto, supostamente gravado em Lisboa.
No que concerne às cenas de "bastidores" o caso muda, e infelizmente, de figura. Prepare-se. Ao comprar o DVD de Madonna está a adquirir um curso intensivo em duas horas sobre a Cabala... a nova, esgotante e quase enervante nova paixão de Madonna.
A intenção é boa. Abrir os olhos da humanidade para os problemas do mundo - a fome, a guerra, as diferentes discriminações, as invejas e as maldades em geral. Mas tudo o que é demais é exagero.
Na minha opinião, e ao longo dos seus vinte e tal anos de carreira, Madonna sempre chamou a atenção para todos esses problemas... quer através das palavras das suas músicas, quer pelos seus videoclips, quer por diversas atitudes que foi tomando ao longo da sua jornada. Mas fê-lo de uma forma mais discreta, mais subtil e, acima de tudo, menos chata.
Quando alguém se torna mais papista que o Papa a paciência desaparece e o sono invade-nos os olhos. Foi isso, por muito que me custe a admitir (e custa muito), que me aconteceu.
É que já são duas neste planeta... a Maria Barroso com as Encíclicas do Papa e a Madonna com os ensinamentos da Cabala. Para quando o fim?
De qualquer forma, o DVD vale muito a pena ser visto. Tem a Madonna a cantar, tem a Madonna de sentido de humor aguçado, tem a interessante relação de Madonna com o seu corpo de baile.. enfim... tem a Madonna e essa é razão suficiente para a aquisição deste DVD.
A estrutura do filme mantem a mesma que o de "Na Cama com Madonna". As cenas de palco a cores e as de bastidores a preto-e-branco, o que resulta, mais uma vez, muitissimo bem.
Depois de ver o filme e de estar convertido à Cabala, nada melhor que colocar em alto e bom som o CD e deixar que este o desperte.
Subscrever:
Mensagens (Atom)