quarta-feira, junho 28, 2006

AH GRANDE GUSTAVO...

Gustavo Rubim, "Quando Ibsen se dissolve no ar", in Mil Folhas (Público), 2006-06-24


Quando Ibsen se dissolve no ar
Tinha toda a razão Henrik Ibsen, quando disse algures que quem escreve lavra uma sentença sobre si próprio.No insólito arrazoado que fez publicar no Mil Folhas da semana passada – “Ibsen em Portugal” – Jorge Silva Melo julgou, pelo contrário (não é ibseniano quem quer), ter sentenciado definitivamente algumas afirmações que fiz à jornalista Joana Gorjão Henriques e que se podem ler, por sua vez, no Mil Folhas de 10 de Junho, sob o título “Ausência de Ibsen em Portugal é um escândalo artístico e cultural”.
Que Silva Melo quis e tentou sentenciar-me, até pessoalmente, é uma evidência, visto que me chamou, contando por alto, cinco nomes feios: mentiroso, bruxo, simplista, tradutor duvidoso e, no plano geral, ignorante.
Os insultos trazem escancarada a intenção, não só de instalar quezília, mas de a instalar num plano para o qual espera que eu me deixe arrastar. Quanto a isso, nada feito. Não desço. Fica para ele o esforço de subir, se quiser. Mas só se quiser, porque eu não costumo impor a ninguém o nível a que estou habituado.
Como se aplica a frase de Ibsen a este episódio? Simples. Por muito que eu procurasse, jamais encontraria melhor demonstração para a minha tese – a da fraca presença de Ibsen no teatro português actual – do que o próprio escrito de Silva Melo. É que nada sai dali tão nítido como o desaparecimento de Ibsen a que eu, precisamente, me referira. Um caso clássico do peixe a morrer pela boca.
De facto, é o próprio Silva Melo quem diz, e diz bem, que a síntese das minhas ideias, publicada por Joana G. Henriques, é um “texto longo”: três páginas de jornal. O que lhe faltou dizer (“et pour cause...”) é que, dessa extensão toda, nove partes em dez são ocupadas a falar do teatro de Ibsen, a propósito das quatro últimas peças do dramaturgo, agora editadas num volume da Cotovia.
Ora, o que tem Silva Melo a dizer acerca de Ibsen? Que eu desse por isso, absolutamente nada, nem uma palavra. Fosse por incapacidade ou desinteresse (venha o diabo e escolha!), preferiu agarrar-se àquele único décimo do texto em que eu falo criticamente do destino de Ibsen em Portugal, no período pós-25 de Abril de 1974. Como qualquer pessoa que saiba juntar letras compreende, é com base no conhecimento e na interpretação de Ibsen que eu lamento que as peças de Ibsen não sejam no mínimo dez vezes mais conhecidas entre nós do que realmente são. Quanto a isto, Silva Melo teve de se fazer desentendido – truque fácil para um actor - , porque não tem à mão nada que se pareça com uma interpretação de Ibsen.
O resultado está à vista. Eu falei a Joana G. Henriques da reinvenção da personagem feminina no teatro de Ibsen. Silva Melo, em troca, manda-me ler uma resma de preciosos autores masculinos, desde D. João da Câmara a Joaquim Paço d’Arcos. Eu disse que Beckett é um dramaturgo da linhagem ibseniana, o que está longe de ser coisa que se diga todos os dias. Silva Melo, atrapalhado, responde-me que se a Maria do Céu Guerra quisesse podia fazer a Hedda Gabler, já Mário Viegas não podia fazer o seu marido (ai não?...). Eu até disse que nas últimas peças de Ibsen se pode ver uma antecipação do cinema. Silva Melo, que por acaso também faz filmes, preferiu lembrar-me que Paulo Renato não ia nessa de colaborar em companhias de teatro independente.
Em resumo: sou eu a falar para um lado, e Silva Melo a desconversar para o outro. Uma página inteira do Mil Folhas gasta por Silva Melo a falar de tudo menos de Ibsen! Um desperdício. Se me queria dizer que não foi a preferência por Brecht a razão pela qual, nos últimos 32 anos, Ibsen foi muito menos representado do que Brecht (e cheira a paradoxo), macacos me mordam se era preciso despejar-me em cima uma lista de 49 nomes, ilustres e nem tanto, do teatro português dos ultimo... 90 anos! Se a ideia era inverter os papéis, pondo-me no lugar de aluno, falhou redondamente. Um mínimo de pedagogia histórica aconselhava, pelo menos, que tivesse lembrado a actriz italiana Eleonora Duse, que foi quem tornou Ibsen famoso pelas nossas bandas, quando veio representar a “Hedda Gabler” ao Teatro D. Amélia (ao S. Luiz, portanto), corria o ano de 1898. Nem isso.
Não me venha, pois, Silva Melo dar conselhos sobre a melhor tradução de Ibsen em Inglês, nem fazer insinuações rasteiras sobre a solidez do meu currículo. Eu não aceito uma coisa nem outra vinda de quem nunca representou, encenou ou traduziu, sequer do galego, quanto mais do inglês, qualquer texto de Ibsen. Não me admira que ache “fabulosa” a tradução “britânica” de Una Ellis-Fermor, pois bruxo como sou, aposto uma carcaça contra um pão de quilo que dos Estados Unidos da América (onde também se fala inglês, “hélas”!) nunca lhe chegou notícia de um senhor chamado Rolf Fjelde. Não é grave, ainda vai a tempo. É só uma questão de se convencer que em matéria de Ibsen, há mais mundo para além da Penguin e da Europa-América.
Decididamente, temos de seguir outra via, se queremos algum debate sério sobre Ibsen e Ibsen em Portugal. A essa outra via chamo eu (olha, lá vem o simplista!) a via da verdade. Aprende-se, para dar bons exemplos, com João Mora, que disse a Joana G. Henriques no dia 23 de Maio (Público p.29): “É preciso não esquecer que temos tido um teatro nacional. Têm medo de fazer o que não está na moda.” Incontestável. E, na mesma ocasião, corroborou com igual sentido da verdade Luís Miguel Cintra: “Não tem havido uma política de repertório com alguma linha de orientação.” Irrefutável. E sobre o Teatro Nacional pouco mais haverá a dizer, ficando explicadíssimo porque lá não se faz Ibsen já 34 anos.
Sobre Ibsen propriamente dito do mesmo artigo voltaria a citar Cintra, que se lhe refere como “autor fundamental”; notaria que Carlos Avilez sabe do que fala quando diz que “um dos problemas de Ibsen é o grau de complexidade de interpretação das peças”; mas termino, sublinhando esta lição do encenador João Lourenço: “A liberdade e a verdade são condições supremas na vida, e em todas as peças [de Ibsen] isto aparece. É um autor que continua actual, um escritor do nosso tempo.”
Ou nos decidimos a tirar daqui alguma consequência, ou receio que alguém acabe a falar sozinho – e desconfio que não vou ser eu.
Gustavo Rubim
Professor universitário, ensaísta, tradutor de teatro
Elenco do espectáculo Hedda Gabler de Henrik Ibsen, uma produção da Companhia Teatral do Chiado, junto da lapide comemorativa da passagem de Eleonora Duse pelo Theatro D. Amélia (actualmente São Luiz Teatro Municipal).



excerto de um texto de Sousa Bastos


"No dia 22, em recita extraordinaria, encheu-se novamente o theatro. A Duse representava pela primeira vez a peça de Ibsen Hedda Gabler. Lisboa recebeu essa preferencia da grande actriz, que quiz crear esse difficillimo papel ante o nosso publico. Sobre o desempenho da Duse foram todos unanimes em achal-o maravilhoso e demonstraram-no na mais significativa manifestação de enthusiasmo. [...]
N'este memso dia [27], às 3 horas da tarde, descerrou-se uma lapide, mandada collocar pela empreza no foyer do theatro em memoria da passagem da grande actriz por aquella scena. Assistindo grande numero de senhoras, artistas escriptores, ao som do hymno italiano, executado por uma orquestra, entrou Eleonora Duse, [...]. A lapide é de marmore rosa com a seguinde inscripção gravada em letras de ouro: ELEONORA DUSE, 12 de abril 1898. [...]

segunda-feira, junho 26, 2006

Na Sexta e Sábado assisti a dois incríveis concertos de Fado no nosso lindo e deslumbrante Castelo de São Jorge. Foram eles os concertos de Aldina Duarte e Kátia Guerreiro.
Aldina Duarte é aquilo mesmo. Alma autêntica, Fado puro e cru na voz, sensualidade no corpo e ingenuidade no sorriso. Uma fadista a 100%, sem artifícios ou encenações. Tudo em Aldina é espontâneo, do momento presente. Todo o poder das palavras saem da sua voz de forma natural, apaixonada e, acima de tudo, de forma honesta. Ah... e canta muitas vezes sentada, o que não é para todos. Sem dúvida a melhor do Fado Tradicional.
Kátia Guerreiro enche-nos com a sua presença, a sua voz que parece não conhecer limites, a sua simpatia em palco. Os seus "covers" de alguns fados de Amália Rodrigues são absolutamente deslumbrantes, não chocando rigorosamente nada ouvi-los na voz de Kátia, como tantas vezes sucede quando um cantor canta uma música que rapidamente se associa a outro que foi o melhor, o original, o divino (como acontece tantas vezes com os que teimam em cantar Amália Rodrigues).
Os fados originais de Kátia Guerreiro têm poemas lindos de alma e conteúdo. O Amor, a Traição, o Ciúme, todos os ingredientes da vida estão contemplados, quase como sendo escritos de um Diário que nós mesmo redigimos.
O grande senão do concerto foi a cena familiar semi-improvisada, com uma criancinha a subir ao palco, o público de coração enternecido, as gracinhas da criancinha e a dita criatura a distrair o público no momento maior do concerto quando Kátia cantou o "Gaivota". O público, estúpido, preferiu rir das gracinhas da criancinha, todos aos "AH" e aos "OH", como se o "Gaivota" da Kátia ouvissem por aí aos pontapés e criancinhas não as houvesse mais, por aí, com as mesmas gracinhas. (Mas por que raio têm as pessoas que ficar sempre com cara de idiotas embevecidos sempre que aparece uma criança?)
No entanto, e como disse quem comigo foi ao concerto, é tempo de a Kátia Guerreiro pensar os seus espectáculos de outra forma. Tem de se deixar levar mais pela espontaniedade, pelo improviso e pela emoção. Os seus concertos tornam-se previsíveis, com as mesmas graças supostamente espontâneas, com os belíssimos efeitos da sua voz sempre nos mesmos sítios.
O poder da voz de Kátia Guerreiro é inesgotável. Resta agora que aprenda a usá-lo de uma forma mais verdadeira e consentânea com o Fado.
Sem dúvida, a melhor (apesar de tudo) do Fado Novo... mas sem criancinhas.


Madonna finalmente lançou o seu DVD "I'm Going to Tell You a Secret", que oferece, como bónus, o seu primeiro CD gravado ao vivo.
O DVD contém um filme - realizado por Jonas Akerlund" - de quase duas horas com gravações nos bastidores da sua "Re-Invention World Tour" de 2004 e algumas cenas de palco. Enfim, a fórmula é mais ou menos a mesma que fora já experimentado em "Na Cama com Madonna".
O filme é uma bomba relativamente à realização, montagem, imagem e som. As cenas de palco são extraordinárias (ou não estivessemos a falar de Madonna), embora só raras vezes a música e actuação apareçam na sua totalidade. O que é uma pena, uma vez que está quase confirmada a não saída em DVD do concerto, supostamente gravado em Lisboa.
No que concerne às cenas de "bastidores" o caso muda, e infelizmente, de figura. Prepare-se. Ao comprar o DVD de Madonna está a adquirir um curso intensivo em duas horas sobre a Cabala... a nova, esgotante e quase enervante nova paixão de Madonna.
A intenção é boa. Abrir os olhos da humanidade para os problemas do mundo - a fome, a guerra, as diferentes discriminações, as invejas e as maldades em geral. Mas tudo o que é demais é exagero.
Na minha opinião, e ao longo dos seus vinte e tal anos de carreira, Madonna sempre chamou a atenção para todos esses problemas... quer através das palavras das suas músicas, quer pelos seus videoclips, quer por diversas atitudes que foi tomando ao longo da sua jornada. Mas fê-lo de uma forma mais discreta, mais subtil e, acima de tudo, menos chata.
Quando alguém se torna mais papista que o Papa a paciência desaparece e o sono invade-nos os olhos. Foi isso, por muito que me custe a admitir (e custa muito), que me aconteceu.
É que já são duas neste planeta... a Maria Barroso com as Encíclicas do Papa e a Madonna com os ensinamentos da Cabala. Para quando o fim?
De qualquer forma, o DVD vale muito a pena ser visto. Tem a Madonna a cantar, tem a Madonna de sentido de humor aguçado, tem a interessante relação de Madonna com o seu corpo de baile.. enfim... tem a Madonna e essa é razão suficiente para a aquisição deste DVD.
A estrutura do filme mantem a mesma que o de "Na Cama com Madonna". As cenas de palco a cores e as de bastidores a preto-e-branco, o que resulta, mais uma vez, muitissimo bem.
Depois de ver o filme e de estar convertido à Cabala, nada melhor que colocar em alto e bom som o CD e deixar que este o desperte.

sábado, junho 17, 2006

ENCERRAMENTO DO PROCESSO DE CANONIZAÇÃO DE
FREI NUNO DE SANTA MARIA



DISCURSO DO CARDEAL PATRIARCA

Este momento de encerramento da fase diocesana do Processo de Canonização de Frei Nuno de Santa Maria, é carregado de significado e de esperança. Desde a sua morte que ele é, para os portugueses, o Santo Condestável. De facto, as manifestações públicas de culto e veneração por parte do Povo, e da própria Corte, seguiram-se logo à sua morte, o que mostra como este homem cristão, que exerceu altas e decisivas funções na consolidação da independência e definição da nacionalidade, e acabou a sua vida na simplicidade contemplativa de um mosteiro de carmelitas, se tornou símbolo e modelo da santidade cristã, o que o colocou espontaneamente na situação de intercessor e protector, junto de Deus que adorou e da Santíssima Virgem, de quem era filho querido e devotado.
Quando o Papa Urbano VIII decreta que a declaração de santidade fica dependente de processo formal, faz uma excepção para aqueles cristãos a quem, há cem anos ou mais, era prestado culto e reconhecida, pelo Povo, a santidade. Era o caso de Frei Nuno de Santa Maria, que desde o início foi alvo da devoção popular e teve memória litúrgica, pelo menos no calendário da Ordem Carmelita. Só hesitações históricas, agravadas por acontecimentos como a perda da independência, em 1580, e o terramoto que destruiu o Convento do Carmo, principal centro dessa devoção, porque aí se encontrava o seu túmulo, fizeram com que se sujeitasse, várias vezes, a declaração de Santidade de Frei Nuno de Santa Maria, às exigências formais de um processo de canonização, que, em rigor, não era exigido. Espero vivamente que estes dados históricos sejam tidos em conta na análise deste processo.
Neste momento, no início do século XXI, no contexto de uma sociedade secularizada que é preciso reevangelizar, a canonização de um cristão como o Condestável do Reino, que trocou as honras e as benesses da sua situação pela humildade da vida monástica, porque a isso o impeliu a Glória de Deus e o serviço humilde dos pobres, tem a força de um sinal: a importância e a missão dos justos na Cidade. O testemunho de vida crente dos cristãos na Cidade, imprimindo ao seu serviço da sociedade a marca da novidade cristã, é hoje um caminho importante para a evangelização da Cidade. A proclamação do Evangelho é um testemunho de vida, e é quando a fé marca a qualidade de uma forma de estar e de servir, que ela se torna testemunho que interpela os corações. Desde o Antigo Testamento está dito que um justo pode salvar a Cidade.
Em D. Nuno Álvares Pereira foi impressionante esta síntese harmónica da vivência da sua fé e o desempenho das altas funções que a Nação lhe atribuiu. Ele torna-se, assim, desafio para quantos, hoje, exercendo os seus cargos ao serviço da Nação, têm tendência em separar a sua fé das funções que exercem. A nossa Cidade precisa do testemunho dos justos.
D. Nuno deu-nos, também, o testemunho da primazia de Deus e da Sua Glória, acima de todas as coisas. O seu apagamento na vida monástica, em que só se tornaram notórias, a sua humildade e o seu amor aos pobres, são afirmação dessa primazia de Deus, a Quem se ama acima de todas as coisas.
Portugal não espera pelo resultado deste processo para o venerar como Santo e Intercessor. Mas a proclamação dessa santidade, pela Igreja, confirmará a universalidade da sua caridade e do seu culto. Porque desejamos a sua canonização, tudo fizemos para a viabilizar. Porque o veneramos como Santo, pedimos-lhe que, por intercessão de Maria, nos conceda essa graça e nos ajude a obtê-la de Deus, pela mediação da Virgem, através da qual obteve sempre todos os favores divinos.

Igreja do Santo Condestável, 3 de Abril de 2004


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

sexta-feira, junho 16, 2006


Beato Nuno Álvares Pereira
Cura milagrosa de olho abre caminho à canonização

Uma cura, alegadamente milagrosa, de um olho de uma mulher de 61 anos pode ser a chave para a conclusão do processo de canonização do beato Nuno Álvares Pereira, que foi aberto pelo Patriarcado de Lisboa. Segundo Francisco Rodrigues, frade carmelita e vice-postulador para a Canonização do Beato Nuno de Santa Maria, os relatórios médicos desta cura confirmam que a ciência não tem explicação para este caso, pelo que falta apenas autorização do Vaticano para que se constitua o tribunal canónico que vai analisar o processo de canonização.
O relato do presumível milagre confirma a intervenção divina de Beato Nuno no processo de cura do olho esquerdo de uma mulher residente em Ourém, que ficou queimado com óleo que saltou de uma frigideira a ferver. Depois do acidente, em Setembro de 2000, a idosa consultou vários especialistas, que confirmaram que uma eventual recuperação da visão nesse olho, caso viesse a suceder, demoraria sempre um mínimo de um ano.

O olho deveria ficar tapado de forma a não ser sujeito à luminosidade do sol e a senhora era obrigada a tomar medicamentos diários na tentativa de debelar a queimadura. “Mas mesmo com esses tratamentos não havia garantia de cura e a solução poderia ser um transplante de córnea”, explicou à Agência LUSA o Pe. Francisco Rodrigues,

Depois de várias novenas ao Santo Condestável feitas pelo pároco local e familiares, na noite de 7 de Dezembro de 2000, a senhora “encheu-se de coragem” e rezou de forma intensa ao Beato Nuno, tendo beijado uma imagem sua. «Logo então sentiu uma paz imensa. Foi sentar-se no sofá, ligou a televisão e apercebeu-se que via desse olho», recorda o sacerdote.

De acordo com o vice-postulador, existem «várias graças divinas» que envolvem a intercessão de Beato Nuno, entre os quais «curas de vários tipos de cancro» mas os responsáveis do processo entenderam avançar apenas com este caso já que é mais «evidente» e «simples de provar».

Devido à existência de vários documentos médicos que confirmam a incapacidade e a posterior recuperação da visão, a Postulação para a Causa para a Canonização do Beato Nuno decidiu avançar com o processo, tendo enviado várias informações para o Vaticano, que acolheu com agrado a proposta.

Agora, falta somente a confirmação da Santa Sé para que o tratamento e acompanhamento desta alegada cura seja feita pelo Patriarcado de Lisboa, que irá constituir um tribunal diocesano, à semelhança do que já sucede com a canonização dos Pastorinhos de Fátima.

«O cardeal D. José Policarpo está muito empenhado, bem como o cardeal D. Saraiva Martins», prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, entidade que tutela todos os processos de santidade antes de chegarem ao Papa. Posteriormente, caberá à Congregação dos Carmelitas «propor a canonização do Beato Nuno», explicou Francisco Rodrigues, mostrando-se entusiasmado com a possibilidade de concluir um processo que tem várias centenas de anos.


Mais frade que militar

Depois da sua beatificação, em 1918, por duas vezes, a Igreja tentou promover a sua canonização, que permite o seu culto universal e não apenas em Portugal, como agora sucede.

Em 1940, o Papa Pio XII tentou «canonizá-lo por decreto» como «exemplo do soldado cristão num tempo de guerra» mas pouco tempo depois optou por um processo normal, alicerçado em milagres ou graças divinas. Na década de 60, a Ordem dos Carmelitas deu um novo fôlego ao projecto mas o início da guerra colonial acabou por fazer fracassar esses intentos, com receio de que fosse mais valorizado o seu papel como soldado do que como religioso.

«Penso que agora é que é o momento certo para a sua canonização. Em que é mais importante o seu papel como frade do que como militar», justifica o vice-postulador, embora salientando que as suas virtudes pessoais já eram nítidas durante a crise de 1383-85.

Então, D. Nuno Álvares Pereira, que é também fundador da Casa Real de Bragança, optou pelo Mestre de Avis já que recusava entregar o trono a partidários de Castela, que então apoiava o Papa de Avinhão, ao contrário de Portugal, que defendia a Cúria de Roma, durante o cisma do Ocidente.

Francisco Rodrigues recorda mesmo que D. Nuno Álvares Pereira nunca praticou «guerra ofensiva» e obrigava os seus soldados a confessar-se e a ir à missa com regularidade, proibindo-os ainda de perseguir os espanhóis derrotados após as batalhas.

sexta-feira, junho 09, 2006


Desenho do Poeta Vasco de Lima Couto.
Imagem retirada do site de Júlio César.

quinta-feira, junho 08, 2006



Um Pesadelo na Terra do Nunca
António J. Branco (www.diariodigital.sapo.pt)

Voltou o pesadelo. Da euforia da bandeira desfraldada: à janela, no carro, no carrinho, no camião, no estádio, no avião. Em todo o lado e em toda a parte, feito em movimento uniformemente acelerado. O que quer que isso seja ou signifique, adaptado ao comportamento humano entre humanos.

Não sou jornalista – embora algumas vezes seja tomado por tal – mas gosto de passear-me pelos meandros da reportagem; espreitando conteúdos, analisando temáticas, criticando atitudes, “caçando” gralhas – e como é produtiva esta arte! – e, de vez em quando, opinar segundo as minhas emoções; onde e sempre que me julgar capaz; mesmo sem ser perguntado. E julgo-me capaz, não como especialista deste ou daquele assunto, (não sou especialista em coisa alguma) mas como utilizador da informação em geral, como consumidor exigente que sou. Ou como me considero!

Voltámos ao pesadelo. Das vitórias preanunciadas e das pretensas, pesadíssimas, extensas e repetitivas “reportagens” das nossas – deles – televisões. Se algum leitor, de entre aqueles que fazem o favor de ler este escrito, souber e quiser explicar-me onde está o jornalismo naquele tipo de reportagens, eu agradeço. Com muita humildade, façam, pois, o favor, esclareçam-me!

“Os jogadores dormiram neste hotel que tem um átrio e uma recepção; almoçaram neste restaurante que tem mesas e cadeiras; levantaram-se de manhã, porque lá diz o ditado, deitar cedo e cedo erguer; beberam café e comeram torradas de pão integral amanteigadas levemente; tomaram duche com água de luso sem borbulhas; saíram por aquela porta que abre num sentido e fecha no outro; entraram pela outra porta que fecha no outro e abre num sentido; espreitaram à janela para ver a multidão e acenaram e sorriram com dentes brancos sem tártaro; falaram ao telefone com as esposas e namoradas e afins; voltaram a almoçar e desta vez consumiram beringelas com cenouras e outros vegetais; voltaram a jantar, mas agora foi arroz de cenoura sem pato; saíram pela mesma porta por onde entraram e nem deram autógrafos a quem os esperava no aeroporto e por causa disso esta senhora está muito zangada – e estava –; espreitaram de novo à janela e voltaram sorrir; chegada a noite foram caçar pardais de telhado mas também apanharam gambozinos e admiraram os pirilampos; e depois sorriram de satisfação, choraram de emoção e pentearam-se com jeitinho mesmo sem gel; utilizaram a casa de banho duas vezes – ou três conforme os casos –; entraram naquele autocarro que tem rodas e janelas; foram treinar, vieram do treino e agora partiram para o Luxemburgo mas nós nem conseguimos ver a cauda do avião”.

“Isto”, é jornalismo?

O pesadelo, é bom de ver, não é propriamente o facto da selecção participar num mundial de futebol onde se esperam resultados nunca antes alcançados. Porque o facto, em si, se não levado ao histerismo ou à alienação colectiva de mentes e de multidões, é dignificante. Não é só ser poeta que é ser mais alto; mas também, saber ser e estar como português, num universo em que os outros estão como nacionalidade própria; lutando pela sua dignificação através de pontapés artísticos na bola.

O pesadelo é outro. O pesadelo é a histeria; o fazer de conta que nada mais interessa; o fingir que se ama uma bandeira porque há razão para ser amada de dois em dois anos. O pesadelo é ter de ouvir e ver “reportagens” maquiavélicas; apelando – não bastavam os anúncios de telemóveis? – à parte mais estúpida e cretina que há em nós. O pesadelo é o apelo constante ao supérfluo, ao consumo de tecnologia para este “mundial e não perca tal”.

O pesadelo é tudo o que não faz parte do sonho.

Bem sei que posso optar por canais e estações de televisão; e de rádio; ou de jornais.

Bem sei que tenho liberdade de opção. Talvez, quem sabe, juntar-me ao Peter Pan e partir para a Terra do Nunca. Ou será que é lá – cá – que estou?

quarta-feira, junho 07, 2006


Entrevista

FERNANDO DACOSTA, AO ENSINO MAGAZINE

"O jornalismo morreu"

Fernando Dacosta afirma que se «desvalorizou» o papel do jornalista e que a ditadura ideológica do passado deu lugar a uma ditadura mercantilista. O escritor defende que o ensino obrigatório nacional deve iniciar-se na primária e terminar na universidade e que precisamos tanto de professores e doutores como de serralheiros e engenheiros. Sobre o país, diz que a crise reside no «estado de alma» e que os portugueses foram feitos para ser deuses e não escravos.


Disse que o livro é a máquina de comunicação mais perfeita e avançada da História. Não tem a massificação contribuído para que a leitura de livros e jornais, perca terreno, nomeadamente para a televisão?

A massificação conduz à indiferenciação, a indiferenciação à desistência, a desistência à apatia. Essa cadeia faz com que o livro seja preterido pelo não pensar do jornalismo róseo e pela televisão narcotizante. Pior: faz com que a literatura reflexiva dê lugar à «light». Assiste-se, por via disso, a um recuo cultural generalizado, pelo que a luta a travar não é entre os livros, os jornais e as televisões, é entre a qualidade e a pimbalhice neles e nelas, por igual, por inteiro.


As estatísticas dizem que quase 10 por cento dos desempregados (43 mil pessoas) tem um curso superior. O «canudo» é, cada vez mais, um passaporte para o desemprego?

Os responsáveis não perceberam ainda que o emprego, tal como o conhecemos, está a desaparecer, que o rendimento das pessoas não poderá vir, no futuro, só do trabalho – cada vez mais inexistente. Todos os políticos que ouvimos (veja-se a campanha presidencial) estão, mentalmente, fora desse futuro. Aproxima-se, e ninguém entre nós está preparado para ela, a maior revolução da humanidade: a da passagem para a era do lazer – passagem que não passa pelas universidades nem pelos seus «canudos» sarcófagos.


UNIVERSIDADES. Temos licenciados a mais em Comunicação Social, História, Gestão e Direito e canalizadores, electricistas e mecânicos a menos? Há excesso de cursos?

Faço minha a visão de Agostinho da Silva quando diz que as universidades devem integrar o ensino obrigatório nacional, ou seja, este começaria na primária e terminaria no superior. Necessitamos tanto de professores e doutores como de serralheiros e engenheiros. Só assim o português ascenderia ao conhecimento e ao progresso.


Segundo um estudo da Faculdade de Economia do Porto, 60 por cento dos universitários copiam nos exames. Somos um país de cábulas?

Se o que compensa é o chico-espertismo, a sub-cultura, o lobismo, o compadrio, a corrupção, a vigarice, a impunidade, o copianço, para quê a seriedade, o trabalho, a exigência, a invenção, a honradez? O masoquismo não é, convenhamos, um grande aliciante.


A partir de Outubro algumas licenciaturas serão de três anos, ao abrigo do figurino do Tratado de Bolonha. Essa uniformização com as instituições europeias trará mais qualidade ao sistema do ensino superior?

É apenas um remendo (para a globalização) numa câmara de ar irremediavelmente trilhada.


SALAZARINHOS. Salazar tem sido, passe o exagero, quase uma obsessão na sua obra. O que é o que o fascina nesse português?

Não direi que sinto fascínio por Salazar, mas sim curiosidade. A minha costela de dramaturgo fez-me um observador fascinado (aí sim) do ser humano em situações limite, excepcionais, no bem e no mal. Salazar foi o político português que mais poder deteve durante mais tempo no nosso País. Marcou-nos (aos que nasceram e se formaram no seu consulado, como eu) para sempre. «Tirou-nos uma alma e deu-nos uma alma», observa Eduardo Lourenço. Ele não caiu do céu, foi segregado por nós, de nós – todos devíamos reflectir nisso. Daí que compreender o seu fenómeno é compreender o nosso carácter.


O Portugal e os portugueses deste início de século XXI ainda demonstram resquícios do período do Estado Novo? Temos Salazares disfarçados nos dias de hoje?

Desde a Inquisição que Portugal está cheio de salazarinhos. Os de hoje dizem-se, no entanto, democráticos... muitos lutaram até contra ele, maneira de ganharem existência.


O nosso país continua «orgulhosamente só» e periférico?

Nunca fomos «orgulhosamente sós» (essa expressão tornou-se descontextualizada) pois sempre nos vertemos pelo mundo inteiro. Periféricos somos e, com a deslocação do eixo da Comunidade Europeia (alargamento) para Leste, tornar-nos-emos ainda mais.


«Somos um povo pobre, mas não miserável, velho, mas não decadente», disse. A crise que este povo com oito séculos de História atravessa é apenas de natureza financeira ou é mais ampla, de estado de alma?

É de estado de alma. Não fomos feitos para esta apagada e vil tristeza em que nos achamos, mas feitos para grandes causas, para ser deuses não escravos. No futuro que houve ontem, e que vai voltar a haver, libertar-nos-emos de novo.


A Língua Portuguesa e o ensino do português têm merecido a atenção devida por parte dos nossos políticos?

Coitados dos políticos, a maior parte deles não sabe falar nem escrever português, só sabe inglês. Os povos lusófonos tornarão, porém, a nossa (a sua) língua o seu (o nosso) petróleo do século XXI.


SEDUÇÃO. Das declarações recentes que tem proferido ressalta uma nota comum: o seu desencanto em relação ao jornalismo. Que principais pecados aponta ao sector da comunicação social? O rigor, o pluralismo e a isenção estão garantidos?

O jornalismo morreu, acho mesmo que foi cremado e as suas cinzas espalhadas no esquecimento. Hoje o que existe é a Comunicação Social (que eu não sei o que é: serão os telefones? os comboios?), um espampanante guarda-chuva que abriga todo o tipo de manipulações, negociatas, hipocrisias, cada vez mais concentrado, traficado. A crescente desvalorização do papel do jornalista (a alma do jornalismo) é fruto disso. Anteriormente vivia-se numa ditadura ideológica, hoje vive-se numa ditadura mercantilista.


Foi jornalista antes e depois do 25 de Abril. A censura sentia-se mais antes, ou agora, de forma encapotada e ao sabor dos interesses económicos e políticos?

Os jornais do passado e os órgãos de comunicação de hoje eram, são excelentes meios de ascender aos poderes vigentes, económicos, políticos, religiosos, industriais, comerciais, empresariais. Os processos para o conseguirem é que mudam, os totalitaristas utilizam a censura e o silêncio, os democratas utilizam o chinfrim e a sedução.


Se não tivesse havido a revolução dos cravos, Portugal seria exactamente o mesmo país que é hoje?

Exactamente não, mas algo de semelhante sim.


«Após as ilusões do 25 de Abril, o socialismo, da Comunidade Europeia, o cavaquismo, a globalização, caímos no aturdimento, uns, no alheamento, outros». Esta frase, por si proferida, significa que Portugal e os portugueses alimentam-se da ilusão e da utopia?

Um povo, um indivíduo sem utopias não sobrevivem.

Nuno Dias da Silva

PERFIL DE FERNANDO DACOSTA

Das raízes africanas
à atração pelo Estado Novo

Romancista, dramaturgo, jornalista, conferencista, Fernando Dacosta nasceu em Luanda a 12 de Dezembro de 1945 de onde foi, ainda criança, para o Alto Douro. Após frequentar o liceu na cidade de Lamego fixa-se em Lisboa, cursa Letras e inicia-se no jornalismo e na literatura. Foi director dos «Cadernos de Reportagem» e co-editor da «Relógio d´Água».

A sua primeira peça de teatro, «Um Jipe em Segunda Mão», sobre a guerra colonial, vale-lhe o Grande Prémio de Teatro RTP, o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos e o Prémio Casa da Imprensa.

«A Súplica» (monólogo de uma mulher em ruptura com a realidade pós 25 de Abril), «Sequestraram o Senhor Presidente» (obra localizada no período revolucionário), «A Nave Adormecida» (oratória do Portugal colonialista) e «A Frigideira» (inédito), são outros dos seus trabalhos dramatúrgicos.

«Os Retornados Estão a Mudar Portugal», narrativa da integração dos portugueses regressados de África, obtém o «Prémio Clube Português de Imprensa». «Moçambique, todo o sofrimento do mundo», vence os prémios «Gazeta» e «Fernando Pessoa» de 1991. «O despertar dos Idosos» recebe o prémio «Gazeta» de 1994.

Com «O Viúvo», metáfora sobre a perda do império, conquista o Grande Prémio de Literatura Círculo de Leitores. «Os Infiéis», parábola à volta dos que ousam traír o estabelecido, como os navegadores de quinhentos, e «Nascido no Estado Novo», crónica memoralista, são, respectivamente, os seus últimos romances e narrativa.

Apresentou durante 1991 e 1992 uma rúbrica sobre livros na RTP-1. Integrou os júris dos principais prémios literários portugueses.

Agraciado em 2005 pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. É colaborador regular da revista «Visão».

Nuno Dias da Silva

terça-feira, junho 06, 2006

Tributo a Natália de Andrade


Não é a mulher-a-dias a insinuar-se ao fotógrafo, nem a nova colecção da Lidija Kolovrat. Bem, talvez pareça uma empregada doméstica, pois desempenha certas funções do mesmo modo – esta senhora esfrega o tutano, limpa muito bem o juízo e desemtope os ouvidos de quem lhe escuta os vibratos, tenham estes a cera que tiverem. Em pose muito digna, com um sorriso encantador, ela não é senão a incomparável, diva, Natália de Andrade.
Intérprete de clássicos sem tempo, como "O nosso amor é verde" e "A noite", a cantora lírica procurou obter sucesso na década de 80, sem arrecadar os melhores elogios por terras lusas. Já em Barcelona seria aplaudida pela arte da voz que daria a conhecer aos catalães "belas canções da sua terra". E se dúvidas subsistem quanto à qualidade excepcional da "Maria Callas portuguesa", há que escutar O Rouxinol (mp3). De novo a sua música pinta um quadro de graciosos prazeres bucólicos, com esta uma das preferidas do autor deste post, o mesmo que terá, segundo ditos, uma bela curvatura numa dada região do nariz.

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