terça-feira, junho 06, 2006

Tributo a Natália de Andrade


Não é a mulher-a-dias a insinuar-se ao fotógrafo, nem a nova colecção da Lidija Kolovrat. Bem, talvez pareça uma empregada doméstica, pois desempenha certas funções do mesmo modo – esta senhora esfrega o tutano, limpa muito bem o juízo e desemtope os ouvidos de quem lhe escuta os vibratos, tenham estes a cera que tiverem. Em pose muito digna, com um sorriso encantador, ela não é senão a incomparável, diva, Natália de Andrade.
Intérprete de clássicos sem tempo, como "O nosso amor é verde" e "A noite", a cantora lírica procurou obter sucesso na década de 80, sem arrecadar os melhores elogios por terras lusas. Já em Barcelona seria aplaudida pela arte da voz que daria a conhecer aos catalães "belas canções da sua terra". E se dúvidas subsistem quanto à qualidade excepcional da "Maria Callas portuguesa", há que escutar O Rouxinol (mp3). De novo a sua música pinta um quadro de graciosos prazeres bucólicos, com esta uma das preferidas do autor deste post, o mesmo que terá, segundo ditos, uma bela curvatura numa dada região do nariz.

Cartoon Bandeira



quinta-feira, junho 01, 2006

Os Amigos, Camilo Castelo Branco


A Rabeca, 15 de Outubro de 1933, Ano XVIII, Editor João D. Casaca, Tipografia Casaca, Portalegre


OS AMIGOS

Amigos, cento e dez, ou talvez mais
Eu já contei. Vaidades que sentia:
Supuz que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortezia,
Que, já farto de os ver, me escapulia
Ás suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente:
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

“Que vamos nós – diziam – lá fazer?
Se ele está cego, não nos póde ver!...”
Que cento e nove impávidos marotos.

CAMILO CASTELO BRANCO

Quantos cabellos tem um cabeça e Porque é que as mulheres fallão tanto

Ora vejam esta notícia com alto valor científico, publicada no jornal “Gazeta de Portalegre” de dia 17 de Setembro de 1865. Versa assim:

Quantos cabellos tem um cabeça?

Têem-se até hoje considerado tão difícil de contar os cabellos de uma cabeça, como as estrellas do céo ou os grãos de areia do mar; houve um sábio alemão, que emprehendeu este trabalho, que contou os cabellos de quatro cabeças femininas, tirando deduções practicas.

As quatro cabeças submettidas a esta prova deram os seguintes resultados:

Loura – 140:419 cabellos
Castanho – 109:440 cabellos
Preta – 102:962 cabellos
Encarnada – 83:740 cabellos

Estas quatro cabelleiras eram pouco mais ou menos do mesmo peso. Uma cabelleira de mulher peza quatorze onças, segundo as asserções do sábio alemão.
Se este sábio fizesse a experiência na cabeça do cabo de polícia da Voz do Alemtejo, veria quam fácil é a contagem dos cabellos da cabeça.”

E alegrem-se os corações das louras… têm mais cabelo que as outras… terão dado o Nobel a este “sábio cientista” alemão?


E não resisto em transcrever esta outra notícia, desta feita de dia 29 de Outubro de 1865.

Porque é que as mulheres fallão tanto?

Dizem os rabinos que a palavra Eva deriva-se d’outra que se intitula conversar. A primeira mulher tomou esse nome porque, quando Deus criou o mundo, caíram do céu doze cestos cheios de tagarellice, e ella apanhou nove, em quanto seu marido apenas apanhou tres.
Parece nos que, depois que se fundaram os governos representativos, vieram mais alguns outros, que foram todos apanhados pelos parlamentos.”

Maravilhoso, não?

quarta-feira, maio 31, 2006

Vasco de Lima Couto e Dalila Rocha

Dalila Rocha e Vasco de Lima Couto em Guerras do Alecrim e Manjerona, de António José da Silva (o Judeu), pelo Teatro Experimental do Porto, encenação de António Pedro, foto de Fernando Aroso

domingo, maio 21, 2006

Largo Barão de Quintela com integridade em risco

Largo Barão de Quintela com integridade em risco
Maria João Pinto Paulo Spranger, in Diário de Notícias, 21 de Maio 2006

Por que razão é o património o primeiro valor a ser sacrificado em Portugal? Recorrentemente posta pelos profissionais do sector, a questão ressurge perante a anunciada construção de mais um parque de estacionamento subterrâneo no coração da cidade histórica. Desta feita num lugar de referência da Lisboa de finais de Setecentos, prolongando-se por todo o século XIX - o Largo Barão de Quintela, funcional e imageticamente indissociável de uma das principais peças classificadas do Chiado: o Palácio Quintela-Farrobo, à Rua do Alecrim. Lugar- -chave também no roteiro queirosiano da cidade e no longo eixo Cais do Sodré/Largo do Rato, a que Lisboa'94 daria renovada visibilidade baptizando-o como Sétima Colina.

Cinco pisos, para uma lotação de 270 lugares de estacionamento, com previsão de posterior alargamento ao vizinho parque da Praça Camões. Em ambos os casos, o direito de superfície foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) - que afirmou já não abdicar do projecto - à Fábrica da Igreja de Nossa Senhora do Loreto.

Contestado pelo movimento cívico Fórum Cidadania Lisboa, que esta semana lançou uma petição online, e pela Quercus, o projecto está a suscitar o repúdio de instituições culturais da cidade e de especialistas na área do património. Secundando a tomada de posição de Raquel Henriques da Silva, historiadora da arte, arquitectura e urbanismo, que, em artigo de opinião no jornal Público, classificou este projecto como "um torpe e inútil crime". Tomada de posição que, disse Raquel Henriques da Silva ao DN, veio "dar voz a um sem--número de outras vozes" que ao longo dos anos vêm alertando para as perdas que a cidade está a sofrer, num quadro de "sucessivos lutos".

É o caso do Centro Nacional de Cultura, que "subscreve na totalidade" a posição da investigadora. Também o Grémio Literário, pela voz do seu presidente, se manifesta "contrário a qualquer atentado ao património da cidade". "Não sendo possível harmonizar necessidades de estacionamento com o perfil daquele largo", sublinha José Macedo e Cunha, "o seu valor histórico e patrimonial prevalece sobre os demais".

"Solidário" com Raquel Henriques da Silva, o olisipógrafo José Luís de Matos enquadra este caso num longo processo de "destruição da memória" de Lisboa: "Trata-se de um projecto que vai descaracterizar por completo uma área nobre da cidade e que nada vai resolver em matéria de estacionamento."

Para lá das implicações no edificado e no perfil do largo, o quadro não será, lembra, menos crítico do ponto de vista do seu potencial arqueológico: "Naquela zona existiu uma capela, que foi [cabeça de] paróquia e certamente que irão encontrar-se vestígios dela e do cemitério em torno. Trata-se de uma zona muito sensível, urbanizada logo a partir do século XVI e que acompanha o crescimento do Bairro Alto e da zona baixa da cidade."

Também o historiador de arte José Meco afirma não compreender o porquê deste projecto nesta localização, "sobretudo quando importa libertar Lisboa do automóvel". "Aquele largo não deve ser tocado - a cidade não pode ser destruída continuamente." Com uma intervenção desse tipo, sublinha, "toda a sua fisionomia e encanto vão perder-se. E, mesmo estando aprovados os projectos, os erros também se podem corrigir, se houver bom senso e decisão".

Considerando "inaceitável" que a cidade histórica continue a ser alvo de intervenções lesivas "numa sucessão de factos consumados", José Morais Arnaud, presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, lembra, por seu turno, estarmos perante um largo que permaneceu imune a intervenções dissonantes, circunstância cada vez mais rara. "Este projecto", refere, "vai ter implicações gravíssimas ao nível do património arquitectónico e do potencial arqueológico do lugar, com impactes enormes quer na fase de obra , quer de exploração. Vai ter necessariamente implicações na estabilidade do edificado e congestionar ainda mais uma via de acesso já hoje estrangulada."

À memória, lembra Morais Arnaud, virá sempre "o gravíssimo atentado cometido na Praça da Figueira", quando da construção do seu parque subterrâneo. Ou casos recentes, "como o da casa de Garrett, que nos mostram que não temos a mínima garantia de que o património da cidade será preservado" num país "onde apenas os direitos adquiridos são intocáveis".

O que se passou na Praça da Figueira em 2000 é, também, para a olisipógrafa Marina Tavares Dias, um marco pelas piores razões: "Para se criar um parque de estacionamento cometeu-se o maior crime de lesa-património dos últimos 50 anos, com a destruição, em total impunidade, de vestígios de quase todas as eras importantes na trajectória da cidade."

Situação que se repetiria a outra escala, lembra, no Martim Moniz e no Camões, no quadro de "uma política que vem destruindo a cidade", face aos "interesses das imobiliárias e do tráfego automóvel". Política que, refere, a transformará, um dia, "numa cidade de sombras".

sexta-feira, maio 19, 2006

A próxima série de fotografias foram tiradas por um excelente fotógrafo - Manuel Luis Cochofel - nos bastidores da peça de teatro "AS VAMPIRAS LÉSBICAS DE SODOMA", em cena no TEATRO-ESTÚDIO MÁRIO VIEGAS, no Chiado, em Lisboa.
Consulte toda a série de fotografias realizadas em http://galerias.escritacomluz.com/mlcochofel/vampiras?&page=1
São 69 fotografias deslumbrantes... se quiser, pode comprar.

Tobias Monteiro


Simão Rubim


Simão Rubim


Tobias Monteiro


Tobias Monteiro


Simão Rubim


Rita Lello


Tobias Monteiro

quinta-feira, maio 18, 2006

Bernardino Luini (c. 1485-1532), Retrato de jovem mulher, c. 1525. Óleo sobre madeira. Pertencente à Colecção Rau, s/A, Cologne.
A misteriosa vida e morte do Dr. Rau

Paula Lobo

Louco? Envenenado? Durante quatro décadas Gustav Rau guardou o tesouro longe da cobiça alheia e dos olhares do público, mas nos últimos quatro anos de vida foi mesmo obrigado a provar aos tribunais que, apesar de viver numa cadeira de rodas e de se perder pelas ruas por exagerar na auto-medicação, continuava na plena posse das suas faculdades.

Quando em 1999 fez um novo testamento a favor da Unicef alemã, Rau enfureceu os advogados das fundações suíças que criara para gerir a sua valiosa colecção privada de arte - avaliada, numa estimativa conservadora de 2001, em 600 milhões de dólares (hoje, 470 milhões de euros) -, a segunda maior do mundo, dizem os peritos, depois da Thyssen (Madrid). Um juiz de Baden-Baden acabaria por dar-lhe razão.

Em 2000, Michel Dauberville ganhou na justiça francesa a propriedade de Mar em L'Estaque (1836), de Cézanne, alegadamente roubada ao avô durante a II Guerra Mundial.

Já depois da morte do coleccionador, duas suspeitas recaíram sobre os seus colaboradores mais próximos: Robert Clementz, o secretário (que veio a Lisboa apresentar a exposição), e Sigrid Thost, que geria judicialmente os bens. Em 2002, o procurador de Estugarda abriu investigações sobre a possível venda de obras sem conhecimento do dono. E exigiu novas análises ao corpo, já que a autópsia revelou níveis elevados de substâncias tóxicas no sangue. Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha.

Filho único de um industrial que se associou à Mercedez-Benz e fez fortuna com peças para automóveis, sobrinho do milionário que produzia os caldos culinários Maggi, Gustav Rau nasceu a 21 de Janeiro 1922 e parecia destinado aos negócios.

A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os estudos de Ciências Políticas e Económicas na Universidade de Tübingen. Mobilizado para a Wermacht aos 19 anos, as convicções anti-nazis ditaram a deserção. Quando a Holanda foi invadida, Gustav entregou-se aos ingleses. E acabou o curso com distinção, em 1947.

Como esperado, continuou a gerir empresas. Solteiro e sem filhos, em 1958 gastou pela primeira vez dinheiro naquele que viria a ser o seu único luxo: comprou A Cozinheira, de Gerard Dou (século XVII). Tinha 40 anos quando foi estudar medicina na Universidade de Munique. Graduou-se em 1969, vendeu os negócios herdados do pai e do tio, especializou-se em medicina tropical e pediatria e, em 1971, criou a Fundação Médica do Dr. Rau. Objectivos: combater a pobreza no Terceiro Mundo e promover a saúde e alfabetização.

Gustav Rau começou pela Nigéria, mas foi na fronteira do Zaire com o Ruanda que concentrou esforços e fortuna. Em 1977, construiu um hospital que atendia dois mil pacientes/ano e distribuía alimentos a mais de oito mil pessoas/dia. O hospital ainda existe e foi por ele que abdicou do sonho de ter um museu em Marselha (chegou a construí-lo mas ofereceu-o à cidade). Regressado à Europa em 1997, viveu em França e no Mónaco e guardava em Zurique o seu tesouro artístico - que aumentou deixando África três vezes por ano, para ir a leilões na Europa e EUA. Um acervo ímpar que cobre 500 anos de História da Arte, adquirido seguindo apenas o próprio gosto.

Por disposição testamentária de Gustav Rau, a sua colecção terá de correr mundo durante 25 anos. A Unicef decidirá depois o que fazer com ela, mas o dinheiro só poderá ser usado em causas filantrópicas.

Seis séculos de celebração do Belo no Museu Nacional de Arte Antiga

Maria João Pinto

Tudo começa com ecos de Leonardo, em Retrato de uma jovem, de Bernardino Luini, para terminar num espaço de liberdade, com Janela Aberta em Uriage, de Pierre Bonnard. Atravessando o tempo como uma flecha, entre um e outro se percorrem seis séculos de demanda do Belo no olhar da arte europeia. Muitas são as escalas no caminho, mas essas duas obras ficarão na memória como marca d'água de Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard, a mega-exposição que, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), reúne pela primeira vez entre nós uma selecção de 95 obras--primas da colecção do médico e filantropo Gustav Rau (1922-2002).

Na apresentação da exposição - a inaugurar hoje, Dia Internacional dos Museus -, Dalila Rodrigues definiria este como "um momento histórico" na já longa trajectória do museu que dirige - pela excepcionalidade das obras em apreço, "fazendo o trânsito entre arte antiga e arte contemporânea", e pela "dimensão internacional" desta mostra, tornada fenómeno de massas na sua itinerância pelo mundo.

Nesta sua passagem por Lisboa, devido à flexibilidade de escolha que a colecção permite, Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard privilegiará, sobretudo, critérios cronológicos e geográficos em matéria de discurso expositivo: num primeiro momento, abarcando criações dos séculos XV a XVIII, com particular realce para as escolas italiana, flamenga, francesa e espanhola (Fra Angelico, Canaletto, Cranach, Fragonard, El Greco, entre outros); num segundo, percorrendo movimentos artísticos de Oitocentos e Novecentos (num desfile de criadores de primeira grandeza como Corot, Courbet, Cézanne, Manet, Degas, Monet ou Renoir).

E porque esta exposição pode ser igualmente lida "como complemento", também essa dimensão será explorada em "diálogo com o acervo do MNAA". Uma vez mais trabalhando a noção de tempo, dado que, lembrou Dalila Rodrigues, "o nosso acervo pára no início do século XIX e esta exposição progride até meados do século XX".

Pelo seu impacto e por constituir uma oportunidade de excepção, a directora do MNAA espera ver esta mostra - que obrigou ao natural reforço de medidas de segurança - receber "cem mil visitantes, no mínimo". Uma fasquia que, disse, "certamente será ultrapassada".

A inauguração está marcada para as 18.00 e prosseguirá noite dentro, até às 03.00, nos jardins do museu. "Em festa", como sublinhou Dalila Rodrigues, mesmo que "os restantes dias do ano" sejam, para os museus portugueses, "dias difíceis" num quadro de recorrentes constrangimentos orçamentais. Nessa medida, frisou ainda, o apoio externo, "em particular o apoio mecenático do Millennium bcp", representado na cerimónia pelo seu presidente, Paulo Teixeira Pinto, "foi decisivo" para que a passagem desta exposição pelas Janelas Verdes "fosse possível".

Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard ficará patente ao público até 17 de Setembro. Sendo o Dia Internacional dos Museus dedicado, este ano, aos jovens, a mostra será envolvida por uma especial atenção à "dimensão do entretenimento e do lazer". Porque, salientou Dalila Rodrigues,"também num museu é fundamental programar para todos os públicos".