Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
quarta-feira, maio 31, 2006
segunda-feira, maio 29, 2006
domingo, maio 21, 2006
Largo Barão de Quintela com integridade em risco
Largo Barão de Quintela com integridade em risco
Maria João Pinto Paulo Spranger, in Diário de Notícias, 21 de Maio 2006
Por que razão é o património o primeiro valor a ser sacrificado em Portugal? Recorrentemente posta pelos profissionais do sector, a questão ressurge perante a anunciada construção de mais um parque de estacionamento subterrâneo no coração da cidade histórica. Desta feita num lugar de referência da Lisboa de finais de Setecentos, prolongando-se por todo o século XIX - o Largo Barão de Quintela, funcional e imageticamente indissociável de uma das principais peças classificadas do Chiado: o Palácio Quintela-Farrobo, à Rua do Alecrim. Lugar- -chave também no roteiro queirosiano da cidade e no longo eixo Cais do Sodré/Largo do Rato, a que Lisboa'94 daria renovada visibilidade baptizando-o como Sétima Colina.
Cinco pisos, para uma lotação de 270 lugares de estacionamento, com previsão de posterior alargamento ao vizinho parque da Praça Camões. Em ambos os casos, o direito de superfície foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) - que afirmou já não abdicar do projecto - à Fábrica da Igreja de Nossa Senhora do Loreto.
Contestado pelo movimento cívico Fórum Cidadania Lisboa, que esta semana lançou uma petição online, e pela Quercus, o projecto está a suscitar o repúdio de instituições culturais da cidade e de especialistas na área do património. Secundando a tomada de posição de Raquel Henriques da Silva, historiadora da arte, arquitectura e urbanismo, que, em artigo de opinião no jornal Público, classificou este projecto como "um torpe e inútil crime". Tomada de posição que, disse Raquel Henriques da Silva ao DN, veio "dar voz a um sem--número de outras vozes" que ao longo dos anos vêm alertando para as perdas que a cidade está a sofrer, num quadro de "sucessivos lutos".
É o caso do Centro Nacional de Cultura, que "subscreve na totalidade" a posição da investigadora. Também o Grémio Literário, pela voz do seu presidente, se manifesta "contrário a qualquer atentado ao património da cidade". "Não sendo possível harmonizar necessidades de estacionamento com o perfil daquele largo", sublinha José Macedo e Cunha, "o seu valor histórico e patrimonial prevalece sobre os demais".
"Solidário" com Raquel Henriques da Silva, o olisipógrafo José Luís de Matos enquadra este caso num longo processo de "destruição da memória" de Lisboa: "Trata-se de um projecto que vai descaracterizar por completo uma área nobre da cidade e que nada vai resolver em matéria de estacionamento."
Para lá das implicações no edificado e no perfil do largo, o quadro não será, lembra, menos crítico do ponto de vista do seu potencial arqueológico: "Naquela zona existiu uma capela, que foi [cabeça de] paróquia e certamente que irão encontrar-se vestígios dela e do cemitério em torno. Trata-se de uma zona muito sensível, urbanizada logo a partir do século XVI e que acompanha o crescimento do Bairro Alto e da zona baixa da cidade."
Também o historiador de arte José Meco afirma não compreender o porquê deste projecto nesta localização, "sobretudo quando importa libertar Lisboa do automóvel". "Aquele largo não deve ser tocado - a cidade não pode ser destruída continuamente." Com uma intervenção desse tipo, sublinha, "toda a sua fisionomia e encanto vão perder-se. E, mesmo estando aprovados os projectos, os erros também se podem corrigir, se houver bom senso e decisão".
Considerando "inaceitável" que a cidade histórica continue a ser alvo de intervenções lesivas "numa sucessão de factos consumados", José Morais Arnaud, presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, lembra, por seu turno, estarmos perante um largo que permaneceu imune a intervenções dissonantes, circunstância cada vez mais rara. "Este projecto", refere, "vai ter implicações gravíssimas ao nível do património arquitectónico e do potencial arqueológico do lugar, com impactes enormes quer na fase de obra , quer de exploração. Vai ter necessariamente implicações na estabilidade do edificado e congestionar ainda mais uma via de acesso já hoje estrangulada."
À memória, lembra Morais Arnaud, virá sempre "o gravíssimo atentado cometido na Praça da Figueira", quando da construção do seu parque subterrâneo. Ou casos recentes, "como o da casa de Garrett, que nos mostram que não temos a mínima garantia de que o património da cidade será preservado" num país "onde apenas os direitos adquiridos são intocáveis".
O que se passou na Praça da Figueira em 2000 é, também, para a olisipógrafa Marina Tavares Dias, um marco pelas piores razões: "Para se criar um parque de estacionamento cometeu-se o maior crime de lesa-património dos últimos 50 anos, com a destruição, em total impunidade, de vestígios de quase todas as eras importantes na trajectória da cidade."
Situação que se repetiria a outra escala, lembra, no Martim Moniz e no Camões, no quadro de "uma política que vem destruindo a cidade", face aos "interesses das imobiliárias e do tráfego automóvel". Política que, refere, a transformará, um dia, "numa cidade de sombras".
Por que razão é o património o primeiro valor a ser sacrificado em Portugal? Recorrentemente posta pelos profissionais do sector, a questão ressurge perante a anunciada construção de mais um parque de estacionamento subterrâneo no coração da cidade histórica. Desta feita num lugar de referência da Lisboa de finais de Setecentos, prolongando-se por todo o século XIX - o Largo Barão de Quintela, funcional e imageticamente indissociável de uma das principais peças classificadas do Chiado: o Palácio Quintela-Farrobo, à Rua do Alecrim. Lugar- -chave também no roteiro queirosiano da cidade e no longo eixo Cais do Sodré/Largo do Rato, a que Lisboa'94 daria renovada visibilidade baptizando-o como Sétima Colina.
Cinco pisos, para uma lotação de 270 lugares de estacionamento, com previsão de posterior alargamento ao vizinho parque da Praça Camões. Em ambos os casos, o direito de superfície foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) - que afirmou já não abdicar do projecto - à Fábrica da Igreja de Nossa Senhora do Loreto.
Contestado pelo movimento cívico Fórum Cidadania Lisboa, que esta semana lançou uma petição online, e pela Quercus, o projecto está a suscitar o repúdio de instituições culturais da cidade e de especialistas na área do património. Secundando a tomada de posição de Raquel Henriques da Silva, historiadora da arte, arquitectura e urbanismo, que, em artigo de opinião no jornal Público, classificou este projecto como "um torpe e inútil crime". Tomada de posição que, disse Raquel Henriques da Silva ao DN, veio "dar voz a um sem--número de outras vozes" que ao longo dos anos vêm alertando para as perdas que a cidade está a sofrer, num quadro de "sucessivos lutos".
É o caso do Centro Nacional de Cultura, que "subscreve na totalidade" a posição da investigadora. Também o Grémio Literário, pela voz do seu presidente, se manifesta "contrário a qualquer atentado ao património da cidade". "Não sendo possível harmonizar necessidades de estacionamento com o perfil daquele largo", sublinha José Macedo e Cunha, "o seu valor histórico e patrimonial prevalece sobre os demais".
"Solidário" com Raquel Henriques da Silva, o olisipógrafo José Luís de Matos enquadra este caso num longo processo de "destruição da memória" de Lisboa: "Trata-se de um projecto que vai descaracterizar por completo uma área nobre da cidade e que nada vai resolver em matéria de estacionamento."
Para lá das implicações no edificado e no perfil do largo, o quadro não será, lembra, menos crítico do ponto de vista do seu potencial arqueológico: "Naquela zona existiu uma capela, que foi [cabeça de] paróquia e certamente que irão encontrar-se vestígios dela e do cemitério em torno. Trata-se de uma zona muito sensível, urbanizada logo a partir do século XVI e que acompanha o crescimento do Bairro Alto e da zona baixa da cidade."
Também o historiador de arte José Meco afirma não compreender o porquê deste projecto nesta localização, "sobretudo quando importa libertar Lisboa do automóvel". "Aquele largo não deve ser tocado - a cidade não pode ser destruída continuamente." Com uma intervenção desse tipo, sublinha, "toda a sua fisionomia e encanto vão perder-se. E, mesmo estando aprovados os projectos, os erros também se podem corrigir, se houver bom senso e decisão".
Considerando "inaceitável" que a cidade histórica continue a ser alvo de intervenções lesivas "numa sucessão de factos consumados", José Morais Arnaud, presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, lembra, por seu turno, estarmos perante um largo que permaneceu imune a intervenções dissonantes, circunstância cada vez mais rara. "Este projecto", refere, "vai ter implicações gravíssimas ao nível do património arquitectónico e do potencial arqueológico do lugar, com impactes enormes quer na fase de obra , quer de exploração. Vai ter necessariamente implicações na estabilidade do edificado e congestionar ainda mais uma via de acesso já hoje estrangulada."
À memória, lembra Morais Arnaud, virá sempre "o gravíssimo atentado cometido na Praça da Figueira", quando da construção do seu parque subterrâneo. Ou casos recentes, "como o da casa de Garrett, que nos mostram que não temos a mínima garantia de que o património da cidade será preservado" num país "onde apenas os direitos adquiridos são intocáveis".
O que se passou na Praça da Figueira em 2000 é, também, para a olisipógrafa Marina Tavares Dias, um marco pelas piores razões: "Para se criar um parque de estacionamento cometeu-se o maior crime de lesa-património dos últimos 50 anos, com a destruição, em total impunidade, de vestígios de quase todas as eras importantes na trajectória da cidade."
Situação que se repetiria a outra escala, lembra, no Martim Moniz e no Camões, no quadro de "uma política que vem destruindo a cidade", face aos "interesses das imobiliárias e do tráfego automóvel". Política que, refere, a transformará, um dia, "numa cidade de sombras".
sexta-feira, maio 19, 2006
A próxima série de fotografias foram tiradas por um excelente fotógrafo - Manuel Luis Cochofel - nos bastidores da peça de teatro "AS VAMPIRAS LÉSBICAS DE SODOMA", em cena no TEATRO-ESTÚDIO MÁRIO VIEGAS, no Chiado, em Lisboa.
Consulte toda a série de fotografias realizadas em http://galerias.escritacomluz.com/mlcochofel/vampiras?&page=1
São 69 fotografias deslumbrantes... se quiser, pode comprar.
Tobias Monteiro
Simão Rubim
Simão Rubim
Tobias Monteiro
Tobias Monteiro
Simão Rubim
Rita Lello
Tobias Monteiro
quinta-feira, maio 18, 2006
A misteriosa vida e morte do Dr. Rau
Paula Lobo
Louco? Envenenado? Durante quatro décadas Gustav Rau guardou o tesouro longe da cobiça alheia e dos olhares do público, mas nos últimos quatro anos de vida foi mesmo obrigado a provar aos tribunais que, apesar de viver numa cadeira de rodas e de se perder pelas ruas por exagerar na auto-medicação, continuava na plena posse das suas faculdades.
Quando em 1999 fez um novo testamento a favor da Unicef alemã, Rau enfureceu os advogados das fundações suíças que criara para gerir a sua valiosa colecção privada de arte - avaliada, numa estimativa conservadora de 2001, em 600 milhões de dólares (hoje, 470 milhões de euros) -, a segunda maior do mundo, dizem os peritos, depois da Thyssen (Madrid). Um juiz de Baden-Baden acabaria por dar-lhe razão.
Em 2000, Michel Dauberville ganhou na justiça francesa a propriedade de Mar em L'Estaque (1836), de Cézanne, alegadamente roubada ao avô durante a II Guerra Mundial.
Já depois da morte do coleccionador, duas suspeitas recaíram sobre os seus colaboradores mais próximos: Robert Clementz, o secretário (que veio a Lisboa apresentar a exposição), e Sigrid Thost, que geria judicialmente os bens. Em 2002, o procurador de Estugarda abriu investigações sobre a possível venda de obras sem conhecimento do dono. E exigiu novas análises ao corpo, já que a autópsia revelou níveis elevados de substâncias tóxicas no sangue. Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha.
Filho único de um industrial que se associou à Mercedez-Benz e fez fortuna com peças para automóveis, sobrinho do milionário que produzia os caldos culinários Maggi, Gustav Rau nasceu a 21 de Janeiro 1922 e parecia destinado aos negócios.
A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os estudos de Ciências Políticas e Económicas na Universidade de Tübingen. Mobilizado para a Wermacht aos 19 anos, as convicções anti-nazis ditaram a deserção. Quando a Holanda foi invadida, Gustav entregou-se aos ingleses. E acabou o curso com distinção, em 1947.
Como esperado, continuou a gerir empresas. Solteiro e sem filhos, em 1958 gastou pela primeira vez dinheiro naquele que viria a ser o seu único luxo: comprou A Cozinheira, de Gerard Dou (século XVII). Tinha 40 anos quando foi estudar medicina na Universidade de Munique. Graduou-se em 1969, vendeu os negócios herdados do pai e do tio, especializou-se em medicina tropical e pediatria e, em 1971, criou a Fundação Médica do Dr. Rau. Objectivos: combater a pobreza no Terceiro Mundo e promover a saúde e alfabetização.
Gustav Rau começou pela Nigéria, mas foi na fronteira do Zaire com o Ruanda que concentrou esforços e fortuna. Em 1977, construiu um hospital que atendia dois mil pacientes/ano e distribuía alimentos a mais de oito mil pessoas/dia. O hospital ainda existe e foi por ele que abdicou do sonho de ter um museu em Marselha (chegou a construí-lo mas ofereceu-o à cidade). Regressado à Europa em 1997, viveu em França e no Mónaco e guardava em Zurique o seu tesouro artístico - que aumentou deixando África três vezes por ano, para ir a leilões na Europa e EUA. Um acervo ímpar que cobre 500 anos de História da Arte, adquirido seguindo apenas o próprio gosto.
Por disposição testamentária de Gustav Rau, a sua colecção terá de correr mundo durante 25 anos. A Unicef decidirá depois o que fazer com ela, mas o dinheiro só poderá ser usado em causas filantrópicas.
Seis séculos de celebração do Belo no Museu Nacional de Arte Antiga
Maria João Pinto
Tudo começa com ecos de Leonardo, em Retrato de uma jovem, de Bernardino Luini, para terminar num espaço de liberdade, com Janela Aberta em Uriage, de Pierre Bonnard. Atravessando o tempo como uma flecha, entre um e outro se percorrem seis séculos de demanda do Belo no olhar da arte europeia. Muitas são as escalas no caminho, mas essas duas obras ficarão na memória como marca d'água de Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard, a mega-exposição que, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), reúne pela primeira vez entre nós uma selecção de 95 obras--primas da colecção do médico e filantropo Gustav Rau (1922-2002).
Na apresentação da exposição - a inaugurar hoje, Dia Internacional dos Museus -, Dalila Rodrigues definiria este como "um momento histórico" na já longa trajectória do museu que dirige - pela excepcionalidade das obras em apreço, "fazendo o trânsito entre arte antiga e arte contemporânea", e pela "dimensão internacional" desta mostra, tornada fenómeno de massas na sua itinerância pelo mundo.
Nesta sua passagem por Lisboa, devido à flexibilidade de escolha que a colecção permite, Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard privilegiará, sobretudo, critérios cronológicos e geográficos em matéria de discurso expositivo: num primeiro momento, abarcando criações dos séculos XV a XVIII, com particular realce para as escolas italiana, flamenga, francesa e espanhola (Fra Angelico, Canaletto, Cranach, Fragonard, El Greco, entre outros); num segundo, percorrendo movimentos artísticos de Oitocentos e Novecentos (num desfile de criadores de primeira grandeza como Corot, Courbet, Cézanne, Manet, Degas, Monet ou Renoir).
E porque esta exposição pode ser igualmente lida "como complemento", também essa dimensão será explorada em "diálogo com o acervo do MNAA". Uma vez mais trabalhando a noção de tempo, dado que, lembrou Dalila Rodrigues, "o nosso acervo pára no início do século XIX e esta exposição progride até meados do século XX".
Pelo seu impacto e por constituir uma oportunidade de excepção, a directora do MNAA espera ver esta mostra - que obrigou ao natural reforço de medidas de segurança - receber "cem mil visitantes, no mínimo". Uma fasquia que, disse, "certamente será ultrapassada".
A inauguração está marcada para as 18.00 e prosseguirá noite dentro, até às 03.00, nos jardins do museu. "Em festa", como sublinhou Dalila Rodrigues, mesmo que "os restantes dias do ano" sejam, para os museus portugueses, "dias difíceis" num quadro de recorrentes constrangimentos orçamentais. Nessa medida, frisou ainda, o apoio externo, "em particular o apoio mecenático do Millennium bcp", representado na cerimónia pelo seu presidente, Paulo Teixeira Pinto, "foi decisivo" para que a passagem desta exposição pelas Janelas Verdes "fosse possível".
Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard ficará patente ao público até 17 de Setembro. Sendo o Dia Internacional dos Museus dedicado, este ano, aos jovens, a mostra será envolvida por uma especial atenção à "dimensão do entretenimento e do lazer". Porque, salientou Dalila Rodrigues,"também num museu é fundamental programar para todos os públicos".
Paula Lobo
Louco? Envenenado? Durante quatro décadas Gustav Rau guardou o tesouro longe da cobiça alheia e dos olhares do público, mas nos últimos quatro anos de vida foi mesmo obrigado a provar aos tribunais que, apesar de viver numa cadeira de rodas e de se perder pelas ruas por exagerar na auto-medicação, continuava na plena posse das suas faculdades.
Quando em 1999 fez um novo testamento a favor da Unicef alemã, Rau enfureceu os advogados das fundações suíças que criara para gerir a sua valiosa colecção privada de arte - avaliada, numa estimativa conservadora de 2001, em 600 milhões de dólares (hoje, 470 milhões de euros) -, a segunda maior do mundo, dizem os peritos, depois da Thyssen (Madrid). Um juiz de Baden-Baden acabaria por dar-lhe razão.
Em 2000, Michel Dauberville ganhou na justiça francesa a propriedade de Mar em L'Estaque (1836), de Cézanne, alegadamente roubada ao avô durante a II Guerra Mundial.
Já depois da morte do coleccionador, duas suspeitas recaíram sobre os seus colaboradores mais próximos: Robert Clementz, o secretário (que veio a Lisboa apresentar a exposição), e Sigrid Thost, que geria judicialmente os bens. Em 2002, o procurador de Estugarda abriu investigações sobre a possível venda de obras sem conhecimento do dono. E exigiu novas análises ao corpo, já que a autópsia revelou níveis elevados de substâncias tóxicas no sangue. Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha.
Filho único de um industrial que se associou à Mercedez-Benz e fez fortuna com peças para automóveis, sobrinho do milionário que produzia os caldos culinários Maggi, Gustav Rau nasceu a 21 de Janeiro 1922 e parecia destinado aos negócios.
A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os estudos de Ciências Políticas e Económicas na Universidade de Tübingen. Mobilizado para a Wermacht aos 19 anos, as convicções anti-nazis ditaram a deserção. Quando a Holanda foi invadida, Gustav entregou-se aos ingleses. E acabou o curso com distinção, em 1947.
Como esperado, continuou a gerir empresas. Solteiro e sem filhos, em 1958 gastou pela primeira vez dinheiro naquele que viria a ser o seu único luxo: comprou A Cozinheira, de Gerard Dou (século XVII). Tinha 40 anos quando foi estudar medicina na Universidade de Munique. Graduou-se em 1969, vendeu os negócios herdados do pai e do tio, especializou-se em medicina tropical e pediatria e, em 1971, criou a Fundação Médica do Dr. Rau. Objectivos: combater a pobreza no Terceiro Mundo e promover a saúde e alfabetização.
Gustav Rau começou pela Nigéria, mas foi na fronteira do Zaire com o Ruanda que concentrou esforços e fortuna. Em 1977, construiu um hospital que atendia dois mil pacientes/ano e distribuía alimentos a mais de oito mil pessoas/dia. O hospital ainda existe e foi por ele que abdicou do sonho de ter um museu em Marselha (chegou a construí-lo mas ofereceu-o à cidade). Regressado à Europa em 1997, viveu em França e no Mónaco e guardava em Zurique o seu tesouro artístico - que aumentou deixando África três vezes por ano, para ir a leilões na Europa e EUA. Um acervo ímpar que cobre 500 anos de História da Arte, adquirido seguindo apenas o próprio gosto.
Por disposição testamentária de Gustav Rau, a sua colecção terá de correr mundo durante 25 anos. A Unicef decidirá depois o que fazer com ela, mas o dinheiro só poderá ser usado em causas filantrópicas.
Seis séculos de celebração do Belo no Museu Nacional de Arte Antiga
Maria João Pinto
Tudo começa com ecos de Leonardo, em Retrato de uma jovem, de Bernardino Luini, para terminar num espaço de liberdade, com Janela Aberta em Uriage, de Pierre Bonnard. Atravessando o tempo como uma flecha, entre um e outro se percorrem seis séculos de demanda do Belo no olhar da arte europeia. Muitas são as escalas no caminho, mas essas duas obras ficarão na memória como marca d'água de Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard, a mega-exposição que, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), reúne pela primeira vez entre nós uma selecção de 95 obras--primas da colecção do médico e filantropo Gustav Rau (1922-2002).
Na apresentação da exposição - a inaugurar hoje, Dia Internacional dos Museus -, Dalila Rodrigues definiria este como "um momento histórico" na já longa trajectória do museu que dirige - pela excepcionalidade das obras em apreço, "fazendo o trânsito entre arte antiga e arte contemporânea", e pela "dimensão internacional" desta mostra, tornada fenómeno de massas na sua itinerância pelo mundo.
Nesta sua passagem por Lisboa, devido à flexibilidade de escolha que a colecção permite, Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard privilegiará, sobretudo, critérios cronológicos e geográficos em matéria de discurso expositivo: num primeiro momento, abarcando criações dos séculos XV a XVIII, com particular realce para as escolas italiana, flamenga, francesa e espanhola (Fra Angelico, Canaletto, Cranach, Fragonard, El Greco, entre outros); num segundo, percorrendo movimentos artísticos de Oitocentos e Novecentos (num desfile de criadores de primeira grandeza como Corot, Courbet, Cézanne, Manet, Degas, Monet ou Renoir).
E porque esta exposição pode ser igualmente lida "como complemento", também essa dimensão será explorada em "diálogo com o acervo do MNAA". Uma vez mais trabalhando a noção de tempo, dado que, lembrou Dalila Rodrigues, "o nosso acervo pára no início do século XIX e esta exposição progride até meados do século XX".
Pelo seu impacto e por constituir uma oportunidade de excepção, a directora do MNAA espera ver esta mostra - que obrigou ao natural reforço de medidas de segurança - receber "cem mil visitantes, no mínimo". Uma fasquia que, disse, "certamente será ultrapassada".
A inauguração está marcada para as 18.00 e prosseguirá noite dentro, até às 03.00, nos jardins do museu. "Em festa", como sublinhou Dalila Rodrigues, mesmo que "os restantes dias do ano" sejam, para os museus portugueses, "dias difíceis" num quadro de recorrentes constrangimentos orçamentais. Nessa medida, frisou ainda, o apoio externo, "em particular o apoio mecenático do Millennium bcp", representado na cerimónia pelo seu presidente, Paulo Teixeira Pinto, "foi decisivo" para que a passagem desta exposição pelas Janelas Verdes "fosse possível".
Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard ficará patente ao público até 17 de Setembro. Sendo o Dia Internacional dos Museus dedicado, este ano, aos jovens, a mostra será envolvida por uma especial atenção à "dimensão do entretenimento e do lazer". Porque, salientou Dalila Rodrigues,"também num museu é fundamental programar para todos os públicos".
terça-feira, maio 16, 2006

"Sesimbra: Retrato de uma vila de pesca" - Fotografia e cinema de Denyse Gerin-Lajoie de 17 de Maio a 24 de Junho
SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES
Rua Barata Salgueiro, nº 36
1250-044 Lisboa
Tel.: 213138510
Fax: 213138519
SESIMBRA
FOTOGRAFIA E CINEMA
Quando, há quinze anos, decidi partilhar a minha vida entre Montreal e Lisboa interessei-me fotograficamente por diferentes aspectos da vida portuguesa e em especial pela questão da pesca, questão que sempre me pareceu primordial na vida e na cultura dos portugueses. Uma região me apaixonou: Sesimbra. Ávida desta vila, onde jovens e adultos se dedicavam à pesca artesanal e onde os preparativos para as idas ao mar se desenrolavam nas próprias ruas, fascinou-me de maneira indescritível. Lembrei-me então de uma época, agora longínqua, em que os pescadores do Québec navegavam pelo rio Saint Laurent à procura do bacalhau que, naqueles anos, existia em grande abundância naquelas águas frias. Veio-me também à memória a epopeia dos pescadores portugueses que partiam para aquelas regiões à procura dos cardumes do rei dos peixes e isso antes de o Canadá existir como país.
Dizem que Sesimbra foi em tempos um abrigo para piratas. Mas também foi de lá que partiram muitos dos barcos que levaram os portugueses até mares inóspitos e desconhecidos, assim como serviu de fortaleza estratégica, primordial nas lutas contra os inimigos, vindos por terra e por mar. Mas agora, na minha frente, ali estavam os homens que, desde tempos imemoráveis, arriscam a vida no mar e as mulheres que, desde sempre, ficam em terra à espera, abafando a angústia, esperando um regresso são e salvo, ambos, tanto eles como elas, vivendo simultaneamente a tradição e a modernidade.
Foi em 1989 que, pela primeira vez, fui a Sesimbra. Estávamos no mês de Março e fazia um tempo esplendoroso. Ainda me lembro, com toda a nitidez, da minha primeira descida em direcção à Vila seguindo a estrada que serpenteia a colina, da vista sobre o mar, das casas dispersas pela encosta, até chegarmos, de súbito, ao Porto de Abrigo, fervendo de múltiplas actividades, por entre os barcos de mil cores, ancorados na água azul. Seguiram-se as marchas pela ruas estreitas e sinuosas, evitando as redes e as cordagens para não importunar o trabalho dos pescadores que se preparavam para voltar ao mar. As pessoas na rua, o mercado, as lojas, os restaurantes e os cafés, as janelas floridas, por vezes com peixes pendurados a secar ou roupa estendida, ao Sol, nas cordas, formavam um quadro palpitante de vida e de cor. Vinda do Norte, tudo isto me parecia um sonho, inesquecível. Um verdadeiro espectáculo, uma imensa explosão de cores. Intrigava-me também a atmosfera muito especial que se desprendia deste canto do mundo que eu desconhecia e que encontrava pela primeira vez. Disse então para comigo: um dia voltarei para fotografar a vida desta radiosa vila.
Vai-se a Sesimbra, não se passa por ela. De facto, a estrada que lá nos leva não tem outro destino, ela acaba junto ao mar. Quando alguém vai a Sesimbra fá-lo porque quer, por desejo, por necessidade. Ou então por erro, ou por sorte, dir-se-ia. Embora aí tenha voltado várias vezes, só no Outono de 1993 iniciei de facto o meu projecto e durante três anos fiz inúmeras estadias, fotografando as pessoas, os lugares, as actividades, os gestos e os objectos, a todas as horas do dia e durante quase todos os meses do ano. A pouco e pouco, dos planos afastados, fui-me aproximando dos pescadores e das suas famílias, das crianças, das pessoas na rua, dos comerciantes e da vida que se desenrolava em frente dos meus olhos e da minha câmara.
Rua Barata Salgueiro, nº 36
1250-044 Lisboa
Tel.: 213138510
Fax: 213138519
SESIMBRA
FOTOGRAFIA E CINEMA
Quando, há quinze anos, decidi partilhar a minha vida entre Montreal e Lisboa interessei-me fotograficamente por diferentes aspectos da vida portuguesa e em especial pela questão da pesca, questão que sempre me pareceu primordial na vida e na cultura dos portugueses. Uma região me apaixonou: Sesimbra. Ávida desta vila, onde jovens e adultos se dedicavam à pesca artesanal e onde os preparativos para as idas ao mar se desenrolavam nas próprias ruas, fascinou-me de maneira indescritível. Lembrei-me então de uma época, agora longínqua, em que os pescadores do Québec navegavam pelo rio Saint Laurent à procura do bacalhau que, naqueles anos, existia em grande abundância naquelas águas frias. Veio-me também à memória a epopeia dos pescadores portugueses que partiam para aquelas regiões à procura dos cardumes do rei dos peixes e isso antes de o Canadá existir como país.
Dizem que Sesimbra foi em tempos um abrigo para piratas. Mas também foi de lá que partiram muitos dos barcos que levaram os portugueses até mares inóspitos e desconhecidos, assim como serviu de fortaleza estratégica, primordial nas lutas contra os inimigos, vindos por terra e por mar. Mas agora, na minha frente, ali estavam os homens que, desde tempos imemoráveis, arriscam a vida no mar e as mulheres que, desde sempre, ficam em terra à espera, abafando a angústia, esperando um regresso são e salvo, ambos, tanto eles como elas, vivendo simultaneamente a tradição e a modernidade.
Foi em 1989 que, pela primeira vez, fui a Sesimbra. Estávamos no mês de Março e fazia um tempo esplendoroso. Ainda me lembro, com toda a nitidez, da minha primeira descida em direcção à Vila seguindo a estrada que serpenteia a colina, da vista sobre o mar, das casas dispersas pela encosta, até chegarmos, de súbito, ao Porto de Abrigo, fervendo de múltiplas actividades, por entre os barcos de mil cores, ancorados na água azul. Seguiram-se as marchas pela ruas estreitas e sinuosas, evitando as redes e as cordagens para não importunar o trabalho dos pescadores que se preparavam para voltar ao mar. As pessoas na rua, o mercado, as lojas, os restaurantes e os cafés, as janelas floridas, por vezes com peixes pendurados a secar ou roupa estendida, ao Sol, nas cordas, formavam um quadro palpitante de vida e de cor. Vinda do Norte, tudo isto me parecia um sonho, inesquecível. Um verdadeiro espectáculo, uma imensa explosão de cores. Intrigava-me também a atmosfera muito especial que se desprendia deste canto do mundo que eu desconhecia e que encontrava pela primeira vez. Disse então para comigo: um dia voltarei para fotografar a vida desta radiosa vila.
Vai-se a Sesimbra, não se passa por ela. De facto, a estrada que lá nos leva não tem outro destino, ela acaba junto ao mar. Quando alguém vai a Sesimbra fá-lo porque quer, por desejo, por necessidade. Ou então por erro, ou por sorte, dir-se-ia. Embora aí tenha voltado várias vezes, só no Outono de 1993 iniciei de facto o meu projecto e durante três anos fiz inúmeras estadias, fotografando as pessoas, os lugares, as actividades, os gestos e os objectos, a todas as horas do dia e durante quase todos os meses do ano. A pouco e pouco, dos planos afastados, fui-me aproximando dos pescadores e das suas famílias, das crianças, das pessoas na rua, dos comerciantes e da vida que se desenrolava em frente dos meus olhos e da minha câmara.
Exposição integrada no Lisbon Village Festival
segunda-feira, maio 15, 2006
Hotel Palácio Estoril - Cartões de Visita
domingo, maio 14, 2006
Amélia queria ter sido
Só o não fui por um triz
Foi só por uma vogal
o seu é foi bem escolhido
Fez de si uma grande actriz
O meu á tratou-me mal
Subscrever:
Mensagens (Atom)












