terça-feira, maio 16, 2006


"Sesimbra: Retrato de uma vila de pesca" - Fotografia e cinema de Denyse Gerin-Lajoie de 17 de Maio a 24 de Junho
SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES
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1250-044 Lisboa
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SESIMBRA
FOTOGRAFIA E CINEMA


Quando, há quinze anos, decidi partilhar a minha vida entre Montreal e Lisboa interessei-me fotograficamente por diferentes aspectos da vida portuguesa e em especial pela questão da pesca, questão que sempre me pareceu primordial na vida e na cultura dos portugueses. Uma região me apaixonou: Sesimbra. Ávida desta vila, onde jovens e adultos se dedicavam à pesca artesanal e onde os preparativos para as idas ao mar se desenrolavam nas próprias ruas, fasci­nou-me de maneira indescritível. Lembrei-me então de uma época, agora longínqua, em que os pescadores do Québec navegavam pelo rio Saint Laurent à procura do bacalhau que, naqueles anos, existia em grande abundância naquelas águas frias. Veio-me também à memória a epo­peia dos pescadores portugueses que partiam para aquelas regiões à procura dos cardumes do rei dos peixes e isso antes de o Canadá existir como país.

Dizem que Sesimbra foi em tempos um abrigo para piratas. Mas também foi de lá que parti­ram muitos dos barcos que levaram os portugueses até mares inóspitos e desconhecidos, assim como serviu de fortaleza estratégica, primordial nas lutas contra os inimigos, vindos por terra e por mar. Mas agora, na minha frente, ali estavam os homens que, desde tempos imemoráveis, arriscam a vida no mar e as mulheres que, desde sempre, ficam em terra à espera, abafando a angústia, esperando um regresso são e salvo, ambos, tanto eles como elas, vivendo simultanea­mente a tradição e a modernidade.

Foi em 1989 que, pela primeira vez, fui a Sesimbra. Estávamos no mês de Março e fazia um tempo esplendoroso. Ainda me lembro, com toda a nitidez, da minha primeira descida em direcção à Vila seguindo a estrada que serpenteia a colina, da vista sobre o mar, das casas disper­sas pela encosta, até chegarmos, de súbito, ao Porto de Abrigo, fervendo de múltiplas activi­dades, por entre os barcos de mil cores, ancorados na água azul. Seguiram-se as marchas pela ruas estreitas e sinuosas, evitando as redes e as cordagens para não importunar o trabalho dos pescadores que se preparavam para voltar ao mar. As pessoas na rua, o mercado, as lojas, os restaurantes e os cafés, as janelas floridas, por vezes com peixes pendurados a secar ou roupa estendida, ao Sol, nas cordas, formavam um quadro palpitante de vida e de cor. Vinda do Norte, tudo isto me parecia um sonho, inesquecível. Um verdadeiro espectáculo, uma imensa explosão de cores. Intrigava-me também a atmosfera muito especial que se desprendia deste canto do mundo que eu desconhecia e que encontrava pela primeira vez. Disse então para comigo: um dia voltarei para fotografar a vida desta radiosa vila.

Vai-se a Sesimbra, não se passa por ela. De facto, a estrada que lá nos leva não tem outro des­tino, ela acaba junto ao mar. Quando alguém vai a Sesimbra fá-lo porque quer, por desejo, por necessidade. Ou então por erro, ou por sorte, dir-se-ia. Embora aí tenha voltado várias vezes, só no Outono de 1993 iniciei de facto o meu projecto e durante três anos fiz inúmeras estadias, fotografando as pessoas, os lugares, as actividades, os gestos e os objectos, a todas as horas do dia e durante quase todos os meses do ano. A pouco e pouco, dos planos afastados, fui-me aproximando dos pescadores e das suas famílias, das crianças, das pessoas na rua, dos comer­ciantes e da vida que se desenrolava em frente dos meus olhos e da minha câmara.
Exposição integrada no Lisbon Village Festival

domingo, maio 14, 2006



Carta de Amália Rodrigues para Amélia Rey Colaço, acompanhando umas flores - s/data (1967?)
Amélia queria ter sido
Só o não fui por um triz
Foi só por uma vogal
o seu é foi bem escolhido
Fez de si uma grande actriz
O meu á tratou-me mal

sexta-feira, maio 12, 2006

MERCEDES SOSA


VIENTOS DEL ALMA

Yo soy la noche, la mañana

Yo soy el fuego, fuego en la oscuridad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad



Vientos del alma envueltos en llamas

Suenan las voces de la quebrada

Traigo la tierra en mil colores

Como un racimo lleno de flores

Traigo la luna con su rocío

Traigo palabras con el sonido y luz de tu destino



Yo soy la noche, la mañana

Yo soy el fuego, fuego en la oscuridad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad

Yo soy el cielo, la inmensidad

Yo soy la tierra, madre de la eternidad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad



Hoy vuelvo en coplas a tu camino

Juntando eco de torbellinos

Traigo las huellas de los amores

Antigua raza y rostro de cobre

Traigo la luna con su rocío

Traigo palabras con el sonido y luz de tu destino



Yo soy la noche, la mañana

Yo soy el fuego, fuego en la oscuridad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad

Yo soy el cielo, la inmensidad

Yo soy la tierra, madre de la eternidad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad



Yo soy la noche, la mañana

Yo soy el fuego, fuego en la oscuridad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad

Yo soy el cielo, la inmensidad

Yo soy la tierra, madre de la eternidad

Soy pachamama, soy tu verdad

Yo soy el canto, viento de la libertad

domingo, maio 07, 2006



Natália Correia
Língua Mater Dolorosa
Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.

quarta-feira, maio 03, 2006

Mártires de Chicago: Parsons, Engel, Spies e Fischer foram enforcados, Lingg (ao centro) suicidou-se na prisão.
A justiça levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou no dia 21 de Junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida a dia 9 de Outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, a prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
No dia 11 de Novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniquidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.
AS ORIGEM DO 1º DE MAIO
"O 1º de Maio (ou melhor, as manifestações de trabalhadores no 1º de Maio), está, desde as últimas décadas do século XIX, intimamente ligado à história das lutas que determinaram o sentido histórico da movimentação social dos trabalhadores e, sobretudo, do proletariado industrial. A ligação íntima das manifestações do 1º de Maio ao processo de aquisição de uma consciência de classe generalizadamente enraizada nas massas populares explica-se pelo facto de que foram as condições de trabalho, e nomeadamente a luta, persistente e muitas vezes trágica, pela diminuição do horário de trabalho que estiveram na base do êxito organizativo do movimento operário e das expressões da sua própria capacidade. (...)
O 1º de Maio, dia do trabalhador/dia do trabalho, que hoje conhece diversos tipos de comemoração - porque "marco" e património colectivo da luta dos trabalhadores e "bandeira" visível da memória colectiva do movimento operário organizado - esteve imbricado no processo de sobrexploração inerente à expansão do capitalismo industrial no século XIX e às lutas do operariado por melhores condições de trabalho e remuneração.
A origem do 1º Maio como "marco histórico" do movimento operário situa-se nos Estados Unidos da América do Norte, exactamente no ano de 1886, data que culmina numa série de greves, manifestações e lutas que o operariado norte-americano vinha desenvolvendo sem cessar desde 1966/68, com o objectivo de conquistar o dia de oito horas de trabalho. Em 20 de Agosto de 1866, num Congresso Operário, em Baltimore, foi aprovado um documento a propósito da redução das horas de trabalho: "A primeira e maior necessidade do presente, a fim de libertarmos o trabalho deste país da escravidão capitalista, é a promulgação de uma lei, segundo a qual, o dia de trabalho deve compor-se de oito horas em todos so Estados americanos, e nós não abandonaremos, até ao triunfo, este alvo glorioso". Por outro lado, a transferência, desde Setembro de 1872, do Conselho Geral da AIT da Europa para os Estados Unidos, se significou o declínio da I Internacional na Europa, impulsionou, ainda que por breve período, a organização e capacidade de luta dos trabalhadores do Novo Mundo. Animado por operários emigrantes de origem alemã, polaca, italiana, o movimento operário norte-americano desenvolve, desde o Congresso referido, uma série de greves e manifestações ao mesmo tempo em que se implanta e consolida em todos os Estados norte-americanos desde a Nova Inglaterra à Pensylvania, do Illinois e Indiana ao Missouri e ao Maryland.
É, todavia, a partir de 1880, com a constituição da Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá e, sobretudo, a partir de 1884, com a fixação do 1º Maio como dia de greve geral pela conquista das oito horas de trabalho. Nesse ano de 1884, como em 1885 e nomeadamente em 1886, declaram-se milhares de greves em todo o território dos EUA e em três anos perto de 300 000 operários norte-americanos alcançam, com dificuldades desiguais, a jornada de oito horas de trabalho. Das catorze horas de trabalho nos inícios do século XIX chegava-se às oito horas de trabalho nos finais do século, regime que generalizadamente aplicado nas zonas mais industrializadas dos Estados Unidos, estada longe, ainda, de cobrir todo o seu território.
Mas, nas greves e manifestações do 1º de Maio de 1886, no grande centro industrial que era já Chicago, algo ocorreu de importante e trágico nas lutas pelas oito horas de trabalho, ao ponto de ser essa data e os acontecimentos de Chicago, aqueles que são comummente referenciados como a "origem" histórica do 1º de Maio como jornada de luta e dia da solidariedade internacionalista dos trabalhadores. A preparação do 1º de Maio em Chicago foi intensa e quase meticulosamente organizada. Para esse preparação fundara-se a Associação das Oito Horas e haviam-se realizado inúmeras reuniões ("meetings"), redobrando, nos dias que antecederam o 1º de Maio de 1886, em Chicago, a agitação operária e a propaganda grevista. Na feitoria de Mac Cormich foram despedidos durante a preparação do 1º de Maio cerca de 1200 operários que se haviam recusado a abandonar os sindicatos.
Milhares e milhares de operários nesse 1º de Maio de 1886 entraram em greve. Um gigantesco comício agrupou em Chicago, sob convocação da Central Operária de Chicago, mais de 25 000 indivíduos. Generalizou-se o movimento grevista que em breve atingia cerca de 60 mil trabalhadores. Manifestações e greves continuaram a 2, 3 e 4 de Maio e o patronato viu-se obrigado, na maioria da empresas, a ceder às reivindicações do operariado. No entanto, a 3 de Maio, em frente das instalações de Mac Cormich, os operários que haviam sido despedidos foram violentamente atacados pela polícia no decurso de uma manifestação. Um morto, dezenas de feridos e prisões. O Arbeiter Zeitung, diário operário de língua alemã, publicou a seguir a estes acontecimentos um apelo clamando às armas. Manifestações e tiroteio intenso seguiram-se a este apelo. Iniciava-se a maior e mais violenta repressão jamais feita nos Estados Unidos. Todos os militantes que trabalhavam no Arbeiter Zeitung foram detidos, assim como os principais dirigentes operários.
A 20 de Agosto de 1886 oito militantes operários compareceram ante o tribunal de Cook County. Julgados e condenados à morte. A dois deles, Fielden e Schwarb, foi a condenação comutada em prisão perpétua e a um terceiro a 15 anos de prisão. A sentença cumpriu-se a 11 de Novembro de 1887 sobre quatro dos detidos já que um outro, Ling, se suicidou na véspera do enforcamento. Em 1893, e após um longo inquérito, o governador do Estado do Illinois reconheceu a inocência das vítimas de Chicago. Esse reconhecimento só beneficiou três dos condenados de 1886. Os "Mártires de Chicago" e o 1º de Maio de 1886 cimentavam uma luta que ganhou, nos anos posteriores, a Europa e o Mundo. A tragédia de Chicago em breve chegou à Europa e, na Europa, a Portugal onde desde então a solidariedade para com os trabalhadores norte-americanos e para com os "Mártires de Chicago" projectou o 1º de Maio como jornada de luta e solidariedade dos trabalhadores de todo o Mundo."
In, revista História, nº 7, Maio de 1979, excerto de artigo de César Oliveira - "Origens do 1º de Maio"

segunda-feira, maio 01, 2006


Lisboa

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen