quarta-feira, maio 03, 2006

Mártires de Chicago: Parsons, Engel, Spies e Fischer foram enforcados, Lingg (ao centro) suicidou-se na prisão.
A justiça levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou no dia 21 de Junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida a dia 9 de Outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, a prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
No dia 11 de Novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniquidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.
AS ORIGEM DO 1º DE MAIO
"O 1º de Maio (ou melhor, as manifestações de trabalhadores no 1º de Maio), está, desde as últimas décadas do século XIX, intimamente ligado à história das lutas que determinaram o sentido histórico da movimentação social dos trabalhadores e, sobretudo, do proletariado industrial. A ligação íntima das manifestações do 1º de Maio ao processo de aquisição de uma consciência de classe generalizadamente enraizada nas massas populares explica-se pelo facto de que foram as condições de trabalho, e nomeadamente a luta, persistente e muitas vezes trágica, pela diminuição do horário de trabalho que estiveram na base do êxito organizativo do movimento operário e das expressões da sua própria capacidade. (...)
O 1º de Maio, dia do trabalhador/dia do trabalho, que hoje conhece diversos tipos de comemoração - porque "marco" e património colectivo da luta dos trabalhadores e "bandeira" visível da memória colectiva do movimento operário organizado - esteve imbricado no processo de sobrexploração inerente à expansão do capitalismo industrial no século XIX e às lutas do operariado por melhores condições de trabalho e remuneração.
A origem do 1º Maio como "marco histórico" do movimento operário situa-se nos Estados Unidos da América do Norte, exactamente no ano de 1886, data que culmina numa série de greves, manifestações e lutas que o operariado norte-americano vinha desenvolvendo sem cessar desde 1966/68, com o objectivo de conquistar o dia de oito horas de trabalho. Em 20 de Agosto de 1866, num Congresso Operário, em Baltimore, foi aprovado um documento a propósito da redução das horas de trabalho: "A primeira e maior necessidade do presente, a fim de libertarmos o trabalho deste país da escravidão capitalista, é a promulgação de uma lei, segundo a qual, o dia de trabalho deve compor-se de oito horas em todos so Estados americanos, e nós não abandonaremos, até ao triunfo, este alvo glorioso". Por outro lado, a transferência, desde Setembro de 1872, do Conselho Geral da AIT da Europa para os Estados Unidos, se significou o declínio da I Internacional na Europa, impulsionou, ainda que por breve período, a organização e capacidade de luta dos trabalhadores do Novo Mundo. Animado por operários emigrantes de origem alemã, polaca, italiana, o movimento operário norte-americano desenvolve, desde o Congresso referido, uma série de greves e manifestações ao mesmo tempo em que se implanta e consolida em todos os Estados norte-americanos desde a Nova Inglaterra à Pensylvania, do Illinois e Indiana ao Missouri e ao Maryland.
É, todavia, a partir de 1880, com a constituição da Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá e, sobretudo, a partir de 1884, com a fixação do 1º Maio como dia de greve geral pela conquista das oito horas de trabalho. Nesse ano de 1884, como em 1885 e nomeadamente em 1886, declaram-se milhares de greves em todo o território dos EUA e em três anos perto de 300 000 operários norte-americanos alcançam, com dificuldades desiguais, a jornada de oito horas de trabalho. Das catorze horas de trabalho nos inícios do século XIX chegava-se às oito horas de trabalho nos finais do século, regime que generalizadamente aplicado nas zonas mais industrializadas dos Estados Unidos, estada longe, ainda, de cobrir todo o seu território.
Mas, nas greves e manifestações do 1º de Maio de 1886, no grande centro industrial que era já Chicago, algo ocorreu de importante e trágico nas lutas pelas oito horas de trabalho, ao ponto de ser essa data e os acontecimentos de Chicago, aqueles que são comummente referenciados como a "origem" histórica do 1º de Maio como jornada de luta e dia da solidariedade internacionalista dos trabalhadores. A preparação do 1º de Maio em Chicago foi intensa e quase meticulosamente organizada. Para esse preparação fundara-se a Associação das Oito Horas e haviam-se realizado inúmeras reuniões ("meetings"), redobrando, nos dias que antecederam o 1º de Maio de 1886, em Chicago, a agitação operária e a propaganda grevista. Na feitoria de Mac Cormich foram despedidos durante a preparação do 1º de Maio cerca de 1200 operários que se haviam recusado a abandonar os sindicatos.
Milhares e milhares de operários nesse 1º de Maio de 1886 entraram em greve. Um gigantesco comício agrupou em Chicago, sob convocação da Central Operária de Chicago, mais de 25 000 indivíduos. Generalizou-se o movimento grevista que em breve atingia cerca de 60 mil trabalhadores. Manifestações e greves continuaram a 2, 3 e 4 de Maio e o patronato viu-se obrigado, na maioria da empresas, a ceder às reivindicações do operariado. No entanto, a 3 de Maio, em frente das instalações de Mac Cormich, os operários que haviam sido despedidos foram violentamente atacados pela polícia no decurso de uma manifestação. Um morto, dezenas de feridos e prisões. O Arbeiter Zeitung, diário operário de língua alemã, publicou a seguir a estes acontecimentos um apelo clamando às armas. Manifestações e tiroteio intenso seguiram-se a este apelo. Iniciava-se a maior e mais violenta repressão jamais feita nos Estados Unidos. Todos os militantes que trabalhavam no Arbeiter Zeitung foram detidos, assim como os principais dirigentes operários.
A 20 de Agosto de 1886 oito militantes operários compareceram ante o tribunal de Cook County. Julgados e condenados à morte. A dois deles, Fielden e Schwarb, foi a condenação comutada em prisão perpétua e a um terceiro a 15 anos de prisão. A sentença cumpriu-se a 11 de Novembro de 1887 sobre quatro dos detidos já que um outro, Ling, se suicidou na véspera do enforcamento. Em 1893, e após um longo inquérito, o governador do Estado do Illinois reconheceu a inocência das vítimas de Chicago. Esse reconhecimento só beneficiou três dos condenados de 1886. Os "Mártires de Chicago" e o 1º de Maio de 1886 cimentavam uma luta que ganhou, nos anos posteriores, a Europa e o Mundo. A tragédia de Chicago em breve chegou à Europa e, na Europa, a Portugal onde desde então a solidariedade para com os trabalhadores norte-americanos e para com os "Mártires de Chicago" projectou o 1º de Maio como jornada de luta e solidariedade dos trabalhadores de todo o Mundo."
In, revista História, nº 7, Maio de 1979, excerto de artigo de César Oliveira - "Origens do 1º de Maio"

segunda-feira, maio 01, 2006


Lisboa

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen


sábado, abril 29, 2006


Dei uma saltada até ao site da Mísia - http://www.misia-online.com/ - e descobri este texto cheio de verdades e de emoção. Refresca o ânimo de quem é português e de quem ama o fado. Boa Mísia!
O "Fadinho" de Paulo Cunha e Silva
Por Mísia - Público 13.01.2004
Acho chocante a maneira como Paulo Cunha e Silva (P.C.S.), director do Instituto das Artes (IA) se refere ao fado na sua recente entrevista a este jornal citando-o como exemplo de um estereótipo redutor da nossa identidade cultural no estrangeiro. Pela responsabilidade do cargo que ocupa, penso que deveria ter evitado a sobranceria da generalização. Não conheço, e dificilmente imagino, um agente cultural de outro país - numa declaração pública de intenções e não falando dos seus gostos pessoais, irrelevantes neste contexto - referindo-se repetidamente de forma desprestigiante a uma das poucas músicas urbanas europeias que, pela sua beleza e não por ser "de Portugal", representaria uma mais-valia para qualquer país, sobretudo aquele onde este senhor exerce as suas funções.
Para nos transmitir a sua ideologia não era necessário escolher uma disciplina artística como vítima. De nada serve continuarmos a invocar a nossa pequenez periférica quando comparados com outros que não escondem a sua diferenciação cultural sem por isso temerem a demissão da contemporaneidade e do cosmopolitismo.
Da mesma maneira que "não nos devemos preocupar pelo facto de na arquitectura do Siza não existir a bandeira portuguesa e dos filmes do Manoel de Oliveira não serem à volta do fado", é decepcionante que pelo facto de no fado usarmos um instrumento de trabalho que tem uma identidade não sermos uma vez mais considerados protagonistas culturais válidos - desta vez expulsos do paradisíaco "Alentejo" de P.C.S. Trabalhar com uma disciplina com identidade cultural não significa necessariamente a procura de uma especificidade étnica, de uma oficialização artística nem um pós-nacionalismo.
Ostracizar paranoicamente durante anos esta expressão artística, como se tem feito desde o 25 de Abril, é um integrismo míope e em grande parte responsável pela ausência de condições para uma autoria e criação de projectos interessantes e interdisciplinares nesta área. É por este tipo de comportamento - e não por causa do fado - que Portugal é um país triste. Porque é preciso uma lei para obrigar os portugueses a ouvirem a sua música de qualidade nas rádios, porque os nossos maiores escritores têm agentes literários estrangeiros, porque Carlos Paredes nunca teve um país à altura da sua genialidade, porque existe um snobismo cultural digno de uma república bananeira, porque demasiadas vozes do novo fado tiveram de emigrar discograficamente, porque ninguém aqui quis a Cesária Évora e agora todos a adoram, porque o Porto 2001 não conseguiu criar públicos, porque este país está bigbrotherizado culturalmente, porque não se vêem bichas nos museus e porque, claro, agora é João César Monteiro até enjoar.
Como me disse uma artista estrangeirada: prefiro pensar "o Portugal" do cinema, dos livros, da música a partir doutro país. Eles lá envergonham-se de nós... E eu acrescentaria que Portugal é um país triste porque os seus artistas têm muitas vezes de ir para longe para o amar e sentir saudades.
Fado, futebol e vinho do Porto. O que me incomoda neste tríptico da culpabilidade é que no primeiro caso, a música, a poesia e os intérpretes são elementos que configuram um dos universos em que Paulo Cunha e Silva trabalha. Isso deveria ter-lhe inspirado mais contenção e respeito. Como se pretende assim ultrapassar "o nível de desconfiança entre criadores e o Estado"? Ou talvez nós - os do fado - não sejamos criadores, não precisemos da linha de apoio à internacionalização? Poderemos sempre recorrer à linha de apoio à vítima, não é verdade?... Deixa-se "ad nauseam" o "triste fadinho" de lado pois ele exporta-se sozinho, como até agora acontece... correndo o risco de o tornar cada vez mais triste e mais fadinho. Como é possível que alguém que dirige um Instituto das Artes em 2004 não tenha uma opinião mais esclarecida e menos estereotipada?
Eu sou bloquista, do Porto e cosmopolita. Gosto das fotografias da Sophie Calle, das esculturas da Louise Bourgeois, gosto de tremoços e também de saké. Conheço os filmes do Tarkovsky, leio Kawabata e Paulo José Miranda. Adoro o Kiasma Museum em Helsínquia! Gostaria de cantar o fado de Annlee (a personagem manga do Pierre Huyghe e do Parreno) e não gosto nada de sardinhas! Quando me dá, canto fado vadio na Tasca do Careca, outras vezes no Town Hall em Nova Iorque. Fado tocado pela Maria João Pires, fado que o Bill T. Jones dança, Patrice Leconte filma e Isabelle Huppert recita. Sem nenhuma linha de apoio a não ser a linha dos meus cosméticos. Sou um bom exemplo dos muitos fados que o fado contém e de quão longe se pode estar de uma "arte oficial portuguesa".
O Governo francês condecora fadistas... e um representante oficial da cultura do meu país, onde vivo e pago impostos, fala assim? De uma música que traz aos teatros no estrangeiro turmas de alunos que estudam a nossa língua e literatura?
Camané e Kátia Guerreiro cantam no Théatre de la Ville em Paris, Mariza ganha o Prémio BBC, nos auditórios das universidades nos Estados Unidos, no festival de Avignon, em Moscovo, ouvem-se fados com palavras de Saramago, Agustina Bessa-Luís, Vasco Graça Moura. Estamos assim a afirmar nossa presença cultural no estrangeiro de uma forma local/universal e... contemporânea. E não é por ser portuguesa que esta música faz parte da programação desses espaços mas sim pela sua beleza e força devastadora. Se P.C.S. é insensível a esta realidade, pelo menos não a desfigure.
Apesar de não ser cosmopolita (que cidade portuguesa o é?), o fado pode dialogar e inspirar outras disciplinas, outros criadores de outras culturas. Por que continuam a pensá-lo como "uma casa portuguesa" a contrapor a "uma casa do mundo"? Até um turista do Bairro Alto sabe que já não é assim. Há muitos fados no fado. Bastaria a P.C.S. ter estado atento à programação da Culturgest ou do CCB.
Sakamoto, Gilbert & George, Adriana Calcanhotto, Lipovetsky e uma lista interminável interessam-se por esta música, longe de uma atitude paternalista ou populista. O fado é a assimilação de um encontro de culturas, um exemplo de globalização "avant la lettre". Auto-regenera-se continuamente. Tem um universo tão complexo e cheio de extremos como qualquer outra arte performativa. Pode também ser contemporâneo e um interessante ponto de partida para habitar o mundo - em Alfama e/ou em Berlim.

sexta-feira, abril 28, 2006

CRONOLOGIA GLÍCINIA QUARTIN



1951 -Estreia com Roberto e Melisandra texto e enc. Tomás Ribas - Grupo de Teatro Experimental - Teatro da Rua da Fé "Glicínia Quartin uma ingénua dramática de grandes possibilidades." - in Século Ilustrado
1951 - O Julgamento de Marsyas, enc. Claude-Henri Frèches - Liceu Francês L'Aiglon, de Edmond Rostand enc. Claude-Henri Frèches - Liceu Francês
1951 – Estreia com Roberto e Melisandra texto e enc. Tomás Ribas – Grupo de Teatro Experimental – Teatro da Rua da Fé "Glicínia Quartin uma ingénua dramática de grandes possibilidades." – in Século Ilustrado. O Julgamento de Marsyas , enc. Claude-Henri Frèches – Liceu Francês - L'Aiglon, de Edmond Rostand enc. Claude-Henri Frèches – Liceu Francês - Crime e Castigo de Rodney Ackland, enc. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro – Teatro Nacional D. Maria II (estagiária)
1953 – Quem tem farelos? de Gil Vicente, enc. Tomás Ribas – Teatro da Rua da Fé (na Casa da Comarca de Arganil) - Auto de S. Martinho de Gil Vicente, enc. Tomás Ribas – Teatro da Rua da Fé (na Casa da Comarca de Arganil) O Velho Ciumento de Cervantes, enc. Tomás Ribas – Teatro da Rua da Fé (na Casa da Comarca de Arganil) - Lágrimas de Nossa Senhora de Da Todi, enc. Tomás Ribas – Teatro da Rua da Fé (na Casa da Comarca de Arganil)
1954 – O Dia Seguinte de Luís Francisco Rebelo, enc. Paulo Renato – Grupo Cénico da Sociedade Guilherme Cossoul
1957 – A Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente, enc. Jacinto Ramos – Teatro Experimental de Lisboa
1958 – Se Amanhã Fosse Hoje de Carlos Avilez, enc. Carlos Avilez – Casa de Espanha
Ainda no período pré-profissional, Glicínia Quartin passou pelo teatro televisivo, onde, com o Teatro Experimental de Lisboa representou:
1952 – Guerras de Alecrim e Manjerona de António José da Silva, direcção de Pedro Bom - Auto da Alma de Gil Vicente, direcção de Pedro Bom - Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, direcção de Nuno Fradique e Pedro Bom - A Menina Tonta de Lope de Vega, direcção de Pedro Bom - Fidalgo Aprendiz de Francisco Manuel de Melo, direcção de Pedro Bom "Começa-se a saber-se que Glicínia Quartin é uma atriz portentosa." – in Século Ilustrado. O Burguês Fidalgo de Molière, direcção de Pedro Bom
1959 – As Duas Barcas de D. João da Câmara, direcção de Pedro Bom
1960 – Nas Covas de Salamanca de Cervantes, direcção de Artur Ramos
Como profissional:
No Teatro Experimental do Porto:
1965 – Os Burossáurius de Silvano Ambrogi (tradução de Glicínia Quartin), enc. João Guedes - O Auto da Índia de Gil Vicente, enc. Carlos Avilez - O Auto da Feira de Gil Vicente, enc. Carlos Avilez - A Barca do Inferno de Gil Vicente, enc. Carlos Avilez No Teatro Estúdio de Lisboa:
1965 – Ele, Ela e os Complexos de Jean Bernard Luc, enc. de Luzia Maria Martins - Mesas Separadas de Terence Rattigan, enc. de Luzia Maria Martins "Glicínia Quartin evidencia, uma vez mais, os seus inegáveis dotes de comediante, afirmando-se como um valor que o teatro sério em Portugal, nem deve perder sem crime e sem remorso." – in Diário Popular Teatro.
No Teatro Experimental de Cascais:
1966 – Casa de Bernarda Alba de Garcia Lorca, enc. de Carlos Avilez - O Mar de Miguel Torga, enc. de Carlos Avilez "As episódicas mas fulgurantes vindas de Glicínia Quartin à cena." – in Diário Popular. A Maluquinha de Arroios de André Brun, enc. de Carlos Avilez "Reune às suas invulgares qualidades de comediante a inteligência e o senso crítico." in Jornal do Comércio.
No Teatro Nacional D. Maria II:
1957 – O Pescador à Linha de Jaime Salazar Sampaio, enc. de Artur Ramos "Glicínia Quartin, um dos valores mais destacados dentro do meio experimental, soube ser de uma simplicidade notável." – in Diário Ilustrado.
1967 – Equílibrio Instável de Edward Albee, enc. Amélia Rey Colaço
1968 – As Três Perfeitas Casadas de Alejandro Casona, enc. Cayetano Luca de Tena - O Camarada Miussov de Valentin Kataiev, enc. Pedro Lemos
1969 – Os Visigodos de Jaime Salazar Sampaio, enc. de Artur Ramos - Esfera Facetada de Nuno Moniz Pereira, enc. Rogério Paulo - O Pecado de João Agonia de Bernardo Santareno, enc. Rogério Paulo
1970 – A Celestina de Fernando Rojas, enc. Cayetano Luca de Tena "Glicínia Quartin com uma admirável cena de alcova e sempre muito bem." – in Nova Antena.
No Grupo de Acção Teatral:
1970 – O Processo de Kafka de Gide-Barrault, enc. Artur Ramos
1971 – Sexta Feira às Quatro e Um Quarto de Willis Hall e Keith Waterhouse, enc. Armando Cortês - A Capital de Eça de Queirós, enc. Artur Ramos
Na Casa da Comédia:
1968 – Dias Felizes de Samuel Beckett, enc. de Artur Ramos - "A actriz mostra-nos um autêntico trabalho de criação…"
1977 – Saudades texto e enc. Ricardo Pais
1980 – Electra de Marguerite Yourcenar, enc. Filipe La Féria
1985 – Savanah Bay de Marguerite Duras, enc. Filipe La Féria
1990 – Teatro, Doce Teatro de Edward Radzinsky, enc. Fernando Heitor
N’Os Cómicos / Teatro da Trindade:
1978 – Ninguém (a partir de Frei Luís de Sousa), de Almeida Garrett, enc. Ricardo Pais e Nuno Carinhas
N’Os Bonecreiros:
1971 – O Circo Imaginário do Super Basílio de Beatrice Tanaka, enc. João Mota - A Grande Cegada , encenação colectiva
Na Cornucópia:
1973 – O Misantropo de Molière, enc. de Luís Miguel Cintra
1974 – Terror e Miséria no III Reich de Bertolt Brecht, enc. de Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra
1975 – Pequenos Burgueses de Máximo Gorki, enc. Jorge Silva Melo
1976 – Ah Q de Jean Jourdheuil e Bernard Chartreux, enc. Luís Miguel Cintra Musicas Mágicas de Catherine Dasté (direcção)
1977 – Casimiro e Carolina de Odon Von Horvath, enc. de Cristina Reis, Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra
1986 – Pai de August Strindberg, enc. Anne Consigny
1993 – Primavera Negra de Raul Brandão, enc. de Luís Miguel Cintra
Sete Portas de Botho Strauss, enc. de Luís Miguel Cintra
1994 – Triunfo do Inverno de Gil Vicente, enc. de Luís Miguel Cintra
1996 – Barba Azul de Jean-Claude Biette, enc. de Christine Laurent
1998 – Um Sonho de August Strindberg, enc. de Luís Miguel Cintra
1999 – Afabulação de Pier Paolo Pasolini, enc. de Luís Miguel Cintra
2001 – O Novo Menoza de Jacob Lenz, enc. de Luís Miguel Cintra
2002 – O Colar de Sophia de Mello Breyner Andresen enc. de Luís Miguel Cintra
2003 – Anatomia Tito Queda de Roma de Heiner Müller, enc. de Luís Miguel Cintra
2004 – A Família Schroffenstein de Kleist, enc. de Luís Miguel Cintra
Participação em Produções Independentes:
1971 – As Criadas de Jean Genet, enc. de Vitor Garcia (Teatro Experimental de Cascais)
Emílio e os Detectives de Erich Kastner, enc. Glicínia Quartin (Teatro Jovem Espectador – Teatro Vilaret)
1981 – Casamento Branco de Tadeusz Rozewicz, enc. Fernanda Lapa (Companhia Nacional 1 – Teatro Popular)
1984 – Abel, Abel de Augusto Sobral, enc. de Rogério Vieira (Teatro do Bairro Alto)
1987 – À Procura do Presente texto e enc. de Adolfo Gutkin (IFICT)
1988 – Quarteto de Heiner Müller, enc. Jorge Silva Melo (Encontros Acarte 1988)
1984 – Madalena Lê uma Carta de Jaime Salazar Sampaio, enc. Rogério de Carvalho (Teatro do Bairro Alto)
1992 – Inverno de 45 de Michel Deutsch, enc. Jorge Castro Guedes (Teatro da Trindade)
1995 – Rosa, Minha Querida Rosa de Josette Boulva e Marie Gatard, enc. de João Canijo (Teatro Nacional D. Maria II)
1999 – O que é feito de Betty Lemon? de Arnold Wesker, enc. de Manuel Cintra (Centro Cultural de Belém) Mainstream pelo Pogo Teatro (Centro Cultural de Belém)
No cinema:
1962 – D. Roberto de Ernesto de Sousa "Dá-nos a conhecer uma nova actriz dramática que vai causar sensação: Glicínia Quartin " – in Diário Popular
1964 – Crime de Aldeia Velha de Manuel Guimarães
1977 – Antes do Adeus de Rogério Ceitil
1978 – Histórias Selvagens de António Campos
1980 – Passagem ou A Meio Caminho de Jorge Silva Melo
1981 – Conversa Acabada de João Botelho
1984 – Ninguém Duas Vezes de Jorge Silva Melo
1987 – O Bobo de José Álvaro Morais
1988 – Agosto de Jorge Silva Melo - O Mistério da Boca do Inferno de José Pina
1990 – Um Passo, Outro Passo e Depois... de Manuel Mozos
1993 – Coitado do Jorge de Jorge Silva Melo 1993 – Longe daqui de João Guerra
1994 – A Caixa de Manoel de Oliveira
1995 – A Comédia de Deus de João César Monteiro - Sinais de fogo de Jorge de Sena, real. Luís Filipe Rocha
1999 – Morte Macaca, (cm)de Jeanne Waltz
2000 – António, um Rapaz de Lisboa, de Jorge Silva Melo
2004 – Conversas com Glícinia, de Jorge Silva Melo
Prémios:
1966 – Prémio Revelação da Casa da Imprensa, Maluquinha de Arroios
1968 – Prémio Nacional Lucinda Simões, com Dias felizes – (SNI)
1972 – Prémio da Crítica, com As Criadas
1992 – Nomeação para Prémio de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura
1997 – Nomeação para o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa "Distingue-se Glicínia Quartin, de temperamento dramático ímpar, pondo toda a sua sensibilidade de mulher e de artista da arte de interpretação." "… ficou a perder a biologia, parabéns ao teatro." "Enquanto existirem artistas da craveira intelectual da Glicínia Quartin não será possível que o teatro em Portugal se deixe adormecer" – in República.
Com os Artistas Unidos:
1997 – O Fim ou Tende Misericórdia de Nós, de Jorge Silva Melo (Culturgest/Litografia de Portugal)
2004 – Terrorismo, dos Irmãos Presniakov, encenação de Jorge Silva Melo – Teatro Taborda. Não Posso Adiar o Coração, de António Ramos Rosa, Mário Cesariny e outros – Sala do Senado Assembleia da República - Conversas com Glícina, de Jorge Silva Melo.
Morreu actriz Glicínia Quartin aos 81 anos
A actriz Glicínia Quartin morreu hoje em Lisboa aos 81 anos, deixando um legado de mais de 50 anos em teatro, cinema e televisão, uma carreira premiada várias vezes e condecorada pela Presidência da República.
O corpo da actriz, que morreu na sua casa de Lisboa, vai estar na capela do Cemitério dos Prazeres a partir das 12:00 de sexta-feira e o funeral realiza-se sábado às 11:00, noticiou o Público.pt, citando fonte familiar.
Glicínia Quartin nasceu em Lisboa em 1924, filha de um jornalista e de uma professora primária, e licenciou-se em Ciência Biológicas na Faculdade de Ciências de Lisboa, em 1954, trabalhando nessa área científica durante sete anos, com passagem pela Noruega, Dinamarca e Inglaterra.
Durante esse período, Glicínia Quartin foi sempre fazendo teatro, até que, depois da sua estreia cinematográfica em 1962, com «D. Roberto» de Ernesto de Sousa, decidiu dedicar-se definitivamente às artes de palco, frequentando um curso de teatro em Roma.
Na sua carreira, trabalhou com realizadores como Manuel de Oliveira, em «A Caixa», João Botelho em «Conversa Acabada», João César Monteiro em «A Comédia de Deus», Jorge de Sena em «Sinais de Fogo» e Jorge Silva Melo, em «António, um Rapaz de Lisboa».
No teatro, iniciou uma carreira profissional em 1965, no Teatro Experimental do Porto, tendo passado por várias companhias de Lisboa, como a Casa da Comédia, Teatro da Trindade, Teatro Nacional D.
Maria II, Grupo de Acção Teatral, Cornucópia ou Teatro Experimental de Cascais.
Com o último grupo teatral a que pertenceu, os Artistas Unidos, Glicínia Quartin representou em «O Fim ou tende misericórdia de nós», de Jorge Silva Melo, «Terrorismo», dos irmãos Presniakov e «Não Posso Adiar o Coração», de António Ramos Rosa.
Jorge Silva Melo foi o responsável por «Conversas com Glicínia», um documentário exibido na RTP por ocasião do 80º aniversário da actriz, no mesmo ano em que recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique do então presidente da República, Jorge Sampaio, em reconhecimento pelo »seu talento e do muito que fez pelo teatro português«.
Num texto que acompanhou a exibição de «Conversas com Glicínia», Jorge Silva Melo afirmou que «é de liberdade que nos fala a sua carreira e a sua arte, nunca fixa a esquemas convencionais, nunca seguindo receitas estabelecidas, sempre discretamente aventureira, sempre surpreendida, sempre fiel aos princípios de resistente em que foi formada».

terça-feira, abril 25, 2006

25 DE ABRIL... dia da Liberdade. Dia maior de Portugal. Neste dia todos andam numa felicidade disfarçada. 364 dias a dizerem mal de Portugal, dos Portugueses, do estado da Nação... e com razão. Um dia, apenas um - 25 de Abril - em que se sorri, fala-se da liberdade e das conquistas feitas! Mas que conquistas feitas? O Desemprego brutal? A Inflação galopante? Os Políticos corruptos? Uma Escola que desmascara o analfabetismo em ilitracia? A pseudo liberdade de pensamento ou de expressão? Quem acredita?
Eu festejo o 25 de Abril. Reconheço-lhe a maior importância para a nossa história recente... Não me imagino sem essa data. Mas tenho pena que depois tenha vindo o 26 de Abril e tudo tenho voltado ao mesmo... a mesma servidão, mascarada; o mesmo paleio, mascarado; os mesmos "barões", mascarados; o mesmo Povo, mascarado; a mesma fome, mascarada; a mesma inércia, mascarada; a mesma polícia, mascarada; os mesmos jornais, mascarados.
E para reflectir aqui fica, de novo, o "Não, Não, Não Subscrevo..." de Jorge de Sena... para ler e pensar se, realmente, o 25 de Abril não ficou encerrado, nesse dia, sobre si mesmo.

domingo, abril 23, 2006


Quem não se lembra da mítica revista "K", com publicação mensal, e gente tão famosa a colaborar nela como Filomena Mónica (aquela que agradece o apoio da Rainha de Inglaterra nos prefácios dos seus livros e que escreveu o "Bilhete de Identidade", sabe-se lá porquê), Vasco Pulido Valente (o descrente em tudo e até nele próprio), Agustina Bessa-Luís (aquela de quem Manoel de Oliveira teima em passar os livros para o ecrãn de cinema), João Bénard da Costa (o inquilino da CInemateca), entre muitos outros.
A capa da "K" (bonito trocadilho) que vos mostro é de Junho de 1991... como o tempo passa. E aproveitando a grande reportagem de Filomena Mónica sobre - e pasme-se - o "O Operário Português", aqui fica o "Operário em Construção" de Vinicius de Moraes. Leia e delicie-se.

Operário em construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção
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JMS, "As Vampiras Lésbicas de Sodoma", in Semanário, dir. por Rui Teixeira Santos, Ano XX Nº 1169, 2006-IV-13
A Companhia Teatral do Chiado, na passagem do 10º aniversário da morte de um dos seus fundadores, o grande actor Mário viegas, apresenta até 29 de Abril, no Teatro Estúdio que tem o seu nome, uma hilariante comédia do polifacetado artista Charles Busch, dramaturgo, romancista, estrela de cinema e actor.
A peça, que a companhia adaptaou, é uma paródia que, partindo das histórias de terror de vampiros, se inicia em Sodoma, nos templos bíblicos e termina numa sala de ensaios de um musical da actualidade, girando em torno de duas personagens que atravessam milénios, duas decadentes estrelas que poderiam ser de Hollywood ou do nosso pequenino Parque Mayer, com as suas rivalidades, ciúmes e vinganças. Juntando ingredientes tão diversos como o travestismo a que não falta o espectáculo marcadamente sexual dos shows de travestis, que é por si só um apelo ao riso, e a graça quase esquecida das piadas com alvo reconhecível da antiga revista à portuguesa, a peça parodia o mundo do showbizz e aquele outro, desconhecido por muitos, forçadamente alegre, que se esconde nas grandes urbes.
Do elenco, onde todos os actores sobressaem pela sua interpretação, distingue-se Simão Rubim, cujos jogos fisionómicos são inimitáveis, e Rita Lello, que compõem as duas vampiras lésbicas. Os figurinos e a cenografia de Miguel Sá Fernandes, a luz e o som de Vasco Letria e Sérgio Silva, bem como a encenação de Juvenal Garcês, são um contributo importantíssimo para fazer deste espectáculo um êxito assegurado, que certamente vai ser reposto várias vezes.