terça-feira, janeiro 03, 2006



SÉ DE LISBOA
Estampa de 1840


Uma antiga tradição fala-nos de Veríssimo, Máxima e Júlia, como mártires lisbonenses na perseguição de Diocleciano (viragem do século III para o IV). O certo é que, meio século depois, encontramos a diocese presidida por Potâmio, seu primeiro bispo conhecido, que interveio nas polémicas doutrinais do Cristianismo de então (arianismo).
No século V chegaram os bárbaros. Sob a monarquia visigótica, os bispos de Lisboa participaram em vários concílios, de Toledo, de Viarico no de 633 a Landerico no de 693. Como sucedeu por toda a parte, datará desta época a descentralização do culto, da cidade para os campos em redor, constituindo-se as primeiras paróquias rurais.
Dos princípios do século VIII a meados do XII, Lisboa esteve sob domínio muçulmano. Não conhecemos o nome de nenhum dos seus bispos deste período, mas continuaram a existir cristãos na cidade e seu território. Aquando da tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, existia um bispo moçárabe ( = cristão sob domínio muçulmano) em Lisboa.
Depois da conquista, a diocese foi refeita, ficando por seu bispo o inglês D. Gilberto, vindo com os cruzados: Lisboa ficaria oficialmente ligada (sufragânea) à arquidiocese de Compostela até ao fim do século XIV. Construiu-se a Sé, no local onde fora a mesquita e talvez antes a Sé visigoda, sendo o único monumento românico que resta na capital.
A Sé tinha o seu Cabido de cónegos que apoiavam o bispo e mantinham uma escola capitular. Nessa escola estudaria em menino Santo António de Lisboa, já na viragem para o século XIII. Além da Sé e das paróquias que rapidamente se estabeleceram, a partir talvez de antigas comunidades moçárabes, Lisboa viu levantar-se por iniciativa de D. Afonso Henriques o mosteiro de S. Vicente de Fora (por ficar fora das muralhas da altura). S. Vicente foi martirizado em Valência no século IV, e as suas relíquias foram depois muito veneradas pelos moçárabes no cabo algarvio que tem o seu nome. O nosso primeiro rei trouxe-as para Lisboa, ficando guardadas na Sé. O referido mosteiro foi um importante centro cultural e nele se formou também Santo António.
Em 1289 o bispo D. Domingos Jardo fundou o colégio dos Santos Paulo, Elói e Clemente, para o ensino de cânones e teologia. Pouco depois e, com intermitências, até ao século XVI, Lisboa dispôs duma Universidade fundada por D. Dinis com o apoio do clero. A Universidade só ensinou Teologia a partir do século XV, sendo até aí ministrada nos conventos dos dominicanos e franciscanos, levantados no século XIII. Na segunda década deste século nasceu em Lisboa Pedro Julião, mais tarde papa com o nome de João XXI (1276-1277).
Em 1393, Lisboa foi elevada a metrópole eclesiástica, sendo seu primeiro arcebispo D. João Anes. Ficaram-lhe sufragâneas várias dioceses portuguesas do centro e sul, a que se juntaram outras, ultramarinas, no século seguinte. No século XVI, o cardeal D. Henrique, arcebispo de Lisboa, aplicou na diocese os decretos reformadores do Concílio de Trento, devendo-se-lhe, nomeadamente a fundação do seminário diocesano de Santa Catarina em 1566. Era um estabelecimento modesto e os seus alunos frequentavam as aulas do grande colégio jesuita de Santo Antão.


Eram tempos de intensa vida religiosa, alimentada por muitas congregações religiosas e associações de piedade e caridade, ligadas a mosteiros, conventos e paróquias: a primeira Misericórdia foi fundada em 1498 numa capela do claustro da Sé de Lisboa. Desde o final do século XV não se permitiam divergências religiosas no país; mas a missão ultramarina - tão magnificamente evocada no mosteiro dos Jerónimos - pedia constantemente obreiros: entre tantos outros, Lisboa deu S. João de Brito à Índia e o Padre António Vieira ao Brasil, ambos jesuítas do século XVII.
Em 1716, o papa Clemente XI elevou a capela real a basílica patriarcal, ficando a antiga diocese dividida em duas até 1740, ano em que foi reunificada. Sucederam-se até hoje dezasseis patriarcas à frente da Igreja lisbonense, de D. Tomás de Almeida a D. José Policarpo: os patriarcas de Lisboa são sempre feitos cardeais no primeiro consistório a seguir à sua nomeação para esta Sé.
Depois do grande terramoto de 1755, teve de se remodelar o tecido paroquial de Lisboa, com outros templos e outras delimitações. A reorganização das paróquias da cidade, feita pelo patriarca D. Fernando de Sousa e Silva em 1780, ficou como base dos complementos ulteriores. Nesse mesmo ano, a rainha D. Maria I cedeu-lhe o antigo colégio dos jesuítas em Santarém, para aí transitando o seminário diocesano. Foi também D. Maria I quem mandou construir a basílica da Estrela em honra do Sagrado Coração de Jesus.
Após grandes perturbações ligadas às invasões francesas e às lutas liberais com as respectivas sequelas, a reorganização diocesana deveu-se especialmente ao patriarca D. Guilherme Henriques de Carvalho, em meados do século XIX. Foi ele quem conseguiu reabrir o seminário diocesano de Santarém em 1853. Os seus sucessores até à terceira década do século XX tiveram de sustentar a vida católica contra grandes reptos ideológicos e institucionais, antes e depois da implantação da República.
A partir de 1929, o patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira consolidou a vida diocesana, fomentando as vocações sacerdotais, fundando novos seminários - Olivais (1931), Almada (1935) e Penafirme (1960) - , multiplicando paróquias e impulsionando o apostolado laical. Foi também no seu tempo que reabriu a Sé de Lisboa, depois de arquitectonicamente reintegrada. O seu sucessor, D. António Ribeiro, continuou-lhe a obra, nos termos novos exigidos pelo Concílio Vaticano II e o Portugal de antes e depois do 25 de Abril. Em 1975 criaram-se as dioceses de Setúbal e Santarém, destacadas do Patriarcado de Lisboa. Em 1984, D. António Ribeiro fundou o seminário de Caparide.
Em Outubro de 1998, o patriarca D. José Policarpo transferiu os serviços diocesanos para o antigo mosteiro de S. Vicente de Fora, que já os alojara de 1834 a 1910.


D. Manuel Clemente

segunda-feira, janeiro 02, 2006


O Panorama – Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis

26 de Setembro de 1839, Ano III, Nº 126, Cota BN J. 155 B

Primeiro luto preto em Portugal – O primeiro luto desta cor, que se tomou neste reino, foi por morte de D. Philippa, tia d’elrei D. Manuel: até este tempo o luto era de burel branco.”

sexta-feira, dezembro 30, 2005

OS SINOS

Sino de La Giralda

O Panorama – Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis
23 de Setembro de 1837, Ano I, Nº 21, Cota BN J. 155 B
“OS SINOS

O indagar a origem dos sinos e a sua historia não nos parece coisa de pequena curiosidade. Os antigos usavam delles não só para misteres prophanos, mas também para os sagrados. Estrabão nos diz que a hora do mercado era indicada por um sino; e Plínio refere que de roda do sepulchro de certo rei antigo da Toscana estava pendurada uma fieira de sinos. Em Roma era costume marcar a hora do banho, tocando uma sineta: os guardas nocturnos traziam-na também, e servia para acordar os servos nas casas dos grandes e ricos. Trazia o gado chocalhos para metter medo aos lobos, ou antes para lhes servirem de amuletos. Esta usança, que ainda hoje dura, nos faz recordar dos tempos antigos. Geralmente se crê que Paulino, bispo de Nola, foi o primeiro que introduziu nas igrejas o uso dos sinos, pelos annos de 400 da nossa era. Antigos historiadores nos referem que o bispo de Orleans, estando na cidade de Sens, que se achava cercada, fez fugir o exercito sitiador mandando tocas os sinos da igreja de Santo Estêvão; prova evidente de que ainda neste tempo não eram geralmente conhecidos em França.
Os primeiros sinos de grande dimensão, falla delles Beda, no anno 680. Antes deste período em muitas partes da Europa usavam os christãos primitivos de matracas para reunir a congregação dos fieis.
As campainhas começaram provavelmente a apparecer nas procissões religiosas, e foram depois usadas pelos músicos seculares. As sinetas nem sempre se traziam nas mãos: ás vezes as tinham penduradas, e as tocavam com matellos: n’alguns manuscriptos se encontra o rei David pintado no principio do livro dos Psalmos, tocando-as dessa maneira. Era costume na idade media festejar a chegada dos reis, ou pessoas distinctas, tocando os sinos das igrejas, costume que até ao século presente se perpetuou entre nós.
Corriam-se os sinos dos mosteiros antigamente com cordas, cuja extremidade era adornada de anneis de bronze ou de prata: tocavam-nos a principio os monges, ficou depois esta incumbência aos criados, ou aos que não podiam fazer outra coisa, como, por exemplo, os cegos.
Na igreja catholica os sinos baptizam-se e benzem-se dando-se-lhe ordinariamente o nome de algum sancto. O ritual deste ceremonia encontra-se no pontifical romano.
Cria-se d’antes que ao dobrarem os sinos pelos defunctos, quanto maior fosse o sino, tanto mais longe fugiria o diabo. De sorte que para arredar o espírito diabólico pagavam-se grossas sommas a troco de dobrar o sino grande da cathedral quando morria qualquer pessoa.
Eis-aqui o pezo (em Libras) respectivo dos principaes sinos da Europa:

O da imperatriz Anna, em Moscow - 432:000
O de Boris Goniduff, em Moscow - 288:000
Sino grande de Novogorod - 70:000
Sino d’Amboise, em Ruão - 40:000
Sino de Vienna - 30:000
Sino grande de Oxford - 18:000
Sino grande de S. Paulo de Londres - 11:000

O Panorama – Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis

04 de Novembro de 1837, Ano I, Nº 27, Cota BN J. 155 B


Singularidade do nome de Napoleão – Este nome, que em francez se escreve Napoleon, compõe-se de duas palavras gregas, que significam leão do deserto.
O mesmo nome engenhosamente combinado forma uma phrase que offerece singular analogia com o carácter daquelle homem extraordinário.

1 Napoléon
6 apoléôn
7 poléon
3 oléôn
4 léôn
5 éon
2 on



Cortando successivamente a primeira letra desta palavra, e depois a de cada palavra restante, formam-se seis palavras gregas, cuja traducção litteral, designada pela ordem dos números, é: Napoleão, sendo o leão dos povos, ía destruindo as cidades.

Torre de Belém - Lisboa - 1877

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Quando um Homem Quiser




Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

És meu irmão amigo

És meu irmão


E tu que dormes só no pesadelo do ciúme

Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume

E sofres o Natal da solidão sem um queixume

És meu irmão amigo

És meu irmão


Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

Tu que inventas bonecas e combóios de luar

E mentes ao teu filho por não os poderes comprar

És meu irmão amigo

És meu irmão


E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão amigo

És meu irmão


Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher




Intérprete: Paulo de Carvalho

Música: Fernando Tordo

Letra: Ary dos Santos

quarta-feira, dezembro 21, 2005


Maria Rattazzi sobre o Teatro de São Carlos
(1876 - 1879)
"(...) Eis-nos, pois, no teatro. É realmente um teatro ou um botequim? O que é certo é que, desde as portas que dão ingresso para a sala, em qualquer parte do edifício, do fundo dos mais obscuros recantos até ao telhado, S. Carlos é uma vasta loja de bebidas: corredores, salas, gabinetes, bastidores, escadas, estão pejados de fumantes e de fumo. Há uma ordem que proíbe fumar no interior do teatro; mas o que é uma ordem em face do costume? Visto que toda a gente transgride, porque toda a gente tem razão. As proibições, em Portugal, são escritas ora em pergaminho, ora na película de uma cebola. Umas ficam, outras leva-as o vento. A que proíbe fumar, é das últimas. E contudo, nada mais acertado e justo, não é verdade? Pois tende o bom senso de não o dizer. Desfechar-vos-iam uma gargalhada no nariz.
Um dia, por ocasião de ir ver o palco, notando que toda a gente andava de cigarro ou charuto na boca, um dos meus compatriotas, o sr. X..., teve a audácia de manifestar algumas apreensões a propósito da possibilidade de um incêndio; eventualidade muito possivel, dado o estado do material e dos aparelhos que, pela sua vetustez, equivalem a um vasto montão de matérias inflamáveis. Pois estas reflexões foram repelidas da maneira mais original.
- A sua Ópera de Paris - respondeu-se-lhe -, a sua Ópera onde era proibido fumar, e onde se não fuma, ardeu; o nosso S. Carlos é incombustível; a sua glória preserva-o do incêndio!
Que responder a semelhante argumento?
Há ainda outras razões que se poderiam invocar com sobejos motivos.
Sabido é que o fumo do tabaco incomoda os estrangeiros e mesmo os nacionais, e que há muitas pessoas que se privam do prazer da música para não correrem o risco de ser asfixiadas. É frequente ouvir queixaram-se cantores e cantoras, de não somenos reputação, de que são fumados, como presuntos da Vestfália, antes de entrar em cena. Eis o que se lhe responde:
- É costume! O Tejo pode secar ou desviar-se da corrente, mas o costume é inflexível.
Conversava, uma vez, a respeito destes inconvenientes, num camarote, com uma encantadora portuguesa, esposa de um diplomata espanhol, senhora de bastante espírito.
- É abominável, mas verdadeiro, dizia ela; odeio o cheiro acre e nauseabundo que os nossos fumantes largam nos corredores e que se respira por todos os lados. É preciso contudo resignar-me, e só começarei a queixar-me no dia... - naturalmente prestes a raiar - em que se mascar tabaco e se salivar sobre a cabeça do próximo, como na América.
Não resta mais nenhum traço a dar neste quadro de usos e costumes.
Pode ler-se, nos bastidores de S. Carlos, escritos em letras de quinze centímetros de alto, cinco ou seis avisos, do seguinte teor literal: É EXPRESSAMENTE PROIBIDO FUMAR NO PALCO."


AVE-MARIA


----- Nas nossas Ruas, ao noitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

----- O céu parece baixo e de neblina,
O gás estravassado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

----- Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!

----- Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

----- Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

----- E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

----- E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

----- Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
As portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

----- Vazam-se pos arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

----- Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

----- Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

CESÁRIO VERDE


NOITE FECHADA


----- Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!

----- E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
A vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

----- A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

----- Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

----- Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções retas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

----- Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

----- E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

----- Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

----- Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

----- E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos mogasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

----- E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

CESÁRIO VERDE

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Quadras ao gosto popular


Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia…

Fernando Pessoa