Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
quarta-feira, dezembro 07, 2005

O Sebastianismo e o Fado
Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.
As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.
O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou.
No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.
Fernando Pessoa
O Catolicismo Português
O catolicismo – cujos méritos ou defeitos, sociais ou outros, não tenho aqui que examinar – tem a singularidade notável, provinda talvez do que nele resta de Império Romano, de ser, ao mesmo tempo que universal, particularizado em cada região onde existe. A Igreja de Roma é como um regime de municípios morais centralizados num império imponderável. Vasto sistema sincrético, tanto a podemos considerar uma sobrevivência do paganismo como uma transmutação dele. E em cada onde essa religião existe, esse paganismo sobrevive, ou se transmuta, de uma maneira peculiar. Nisto se assemelha a Igreja à Ordem Maçónica, ressalvando que nesta não há elementos pagãos.
Entre os portugueses, em quem, em meu entender, a emoção supera a paixão – e é isto, creio, o que radicalmente nos distingue dos vários espanhóis – o catolicismo assume naturalmente o que poderemos chamar o aspecto franciscano, que é, por assim dizer, o aspecto essencialmente emotivo do cristianismo católico.
Do paganismo latente no catolicismo não se manifesta em nós o aspecto estético, como diversamente nos italianos e nos espanhóis, nem o aspecto imperial, como diversamente nestes e nos franceses, mas o aspecto dispersivo e fluido, próprio de tudo quanto a emoção conduz. O nosso catolicismo é sem contornos – uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do em que realmente crê. Por isso o nosso ver o Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado o Menino Jesus. Por isso não curamos de Maria Virgem, mas só de Maria Mãe.
Por isso os nossos santos autênticos são um S. João Baptista menino – isto é, de muito antes de ele ser Baptista – ou um Santo António, concebido irremediavelmente como um adolescente infantil, cuja função distintivo – a de consertar bilhas – é um milagre-brinquedo.
Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria.
Fernando Pessoa
O catolicismo – cujos méritos ou defeitos, sociais ou outros, não tenho aqui que examinar – tem a singularidade notável, provinda talvez do que nele resta de Império Romano, de ser, ao mesmo tempo que universal, particularizado em cada região onde existe. A Igreja de Roma é como um regime de municípios morais centralizados num império imponderável. Vasto sistema sincrético, tanto a podemos considerar uma sobrevivência do paganismo como uma transmutação dele. E em cada onde essa religião existe, esse paganismo sobrevive, ou se transmuta, de uma maneira peculiar. Nisto se assemelha a Igreja à Ordem Maçónica, ressalvando que nesta não há elementos pagãos.
Entre os portugueses, em quem, em meu entender, a emoção supera a paixão – e é isto, creio, o que radicalmente nos distingue dos vários espanhóis – o catolicismo assume naturalmente o que poderemos chamar o aspecto franciscano, que é, por assim dizer, o aspecto essencialmente emotivo do cristianismo católico.
Do paganismo latente no catolicismo não se manifesta em nós o aspecto estético, como diversamente nos italianos e nos espanhóis, nem o aspecto imperial, como diversamente nestes e nos franceses, mas o aspecto dispersivo e fluido, próprio de tudo quanto a emoção conduz. O nosso catolicismo é sem contornos – uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do em que realmente crê. Por isso o nosso ver o Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado o Menino Jesus. Por isso não curamos de Maria Virgem, mas só de Maria Mãe.
Por isso os nossos santos autênticos são um S. João Baptista menino – isto é, de muito antes de ele ser Baptista – ou um Santo António, concebido irremediavelmente como um adolescente infantil, cuja função distintivo – a de consertar bilhas – é um milagre-brinquedo.
Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria.
Fernando Pessoa
terça-feira, dezembro 06, 2005
Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55
Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Neste debate não me ocorre melhor argumento para fundamentar, histórica e culturalmente, os direitos da mulher em Portugal do que vexar a decrépita misoginia oriunda da mentalidade burguesa que os desrespeita e, nesta Assembleia, ainda cobra hospedagem — e a extinção da Comissão da Condição Feminina é um exemplo —, recordando-vos, Srs. Deputados, o que esqueceis. E é todo um passado português que aqui torno presente em ilustres vozes masculinas que, ao génio das mulheres, renderam a mais rasgada das admirações.
Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.
Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».
Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.
Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.
Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».
Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.
É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.
São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.
Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.
E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.
Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.
É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.
Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.
Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.
Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:
Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu
Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.
Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.
O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.
Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:
Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria
Atente nisto o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!
Risos.
Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...
Risos.
... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção
com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.
Aplausos gerais."
E em resposta a alguns deputados, refere:
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.
Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...
Risos.
... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...
Risos.
De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.
No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.
Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.
Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...
Risos.
... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...
Risos.
Mas também pode ser, que não me importo.
Risos.
Também pode ser, porque não sou puritana.
Risos.
E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.
Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...
O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!
A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.
Risos
Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra. Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.
Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Neste debate não me ocorre melhor argumento para fundamentar, histórica e culturalmente, os direitos da mulher em Portugal do que vexar a decrépita misoginia oriunda da mentalidade burguesa que os desrespeita e, nesta Assembleia, ainda cobra hospedagem — e a extinção da Comissão da Condição Feminina é um exemplo —, recordando-vos, Srs. Deputados, o que esqueceis. E é todo um passado português que aqui torno presente em ilustres vozes masculinas que, ao génio das mulheres, renderam a mais rasgada das admirações.
Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.
Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».
Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.
Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.
Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».
Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.
É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.
São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.
Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.
E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.
Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.
É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.
Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.
Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.
Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:
Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu
Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.
Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.
O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.
Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:
Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria
Atente nisto o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!
Risos.
Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...
Risos.
... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção
com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.
Aplausos gerais."
E em resposta a alguns deputados, refere:
"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.
Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...
Risos.
... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...
Risos.
De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.
No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.
Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.
Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...
Risos.
... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...
Risos.
Mas também pode ser, que não me importo.
Risos.
Também pode ser, porque não sou puritana.
Risos.
E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.
Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...
O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!
A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.
Risos
Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra. Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.
Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."
Entre parêntesis de fogo
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.
Carícias vagarosas de fumo,
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.
Cobertos pelo pedaço
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?
Acaso de um planeta alcoólico
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?
Natália Correira
domingo, dezembro 04, 2005
ALMADA NEGREIROS
ANTES DE COMEÇAR
CENA ÚNICA
(Depois de subir o pano, ouve-se um tambor que se vai afastando. Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco levanta-se, e vai espreitar ao fundo para fora. Entretanto a Boneca senta-se e está admirada de ver o Boneco a andar. Quando o Boneco volta para o lugar, fica admirado de ver a Boneca sentada a olhar para ele.)
O BONECO - Tu também te mexes como as pessoas?!
A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!...
O BONECO - Só agora é que dei por isso!
A BONECA - (Idem.) Chiu!...
O BONECO - Eu julgava que de nós os dois era eu só que podia mexer-me!
A BONECA - (Sempre muito baixinho.) Eu também julgava que de nós os dois, era eu a única que podia mexer-me!
O BONECO - E nunca sentiste a puxar por ti todas noites?!
A BONECA - (Idem.) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!
O BONECO - E tu? Puxaste por mim alguma vez?
A BONECA - (Idem.) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti, tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...
O BONECO - Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai longe, levanto-me e vou espreitar para fora...
A BONECA - Nunca te vi assim!... Às vezes sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem... e deixava-me estar boneca...
O BONECO - Se eu soubesse que tu eras como eu!
A BONECA - Se eu soubesse que também tu eras assim!
O BONECO - A culpa é tua! Eu bem puxei por ti todas as noites!
A BONECA - Que pena! E eu que não adivinhei que eras tu! Olha, perdoas? Tu não imaginas como eu sou tímida!...
O BONECO - É asneira!...
A BONECA - Chiu!... Não fales alto!
O BONECO - Não está ninguém lá fora! Eu nunca me levanto sem ter pensado primeiro se está alguém lá fora!... Só depois de ter pensado bem é que me levanto... E até hoje, ainda ninguém deu por nada... nem tu!
A BONECA - É verdade, nem eu...
O BONECO - Tu és tímida!
A BONECA - Pois sou...
O BONECO - E não há razão... pois se temos a certeza de que não está ninguém a ver! Faz algum mal?
A BONECA - Mas se vissem?
O BONECO - Não podem ver!
A BONECA - Tu tens a certeza de que não te podes enganar?
O BONECO - As pessoas é que se enganam! Nós os bonecos, nunca nos enganamos!!!...
A BONECA - A dizer a verdade, eu nunca me enganei... Mas nunca faço nada porque tenho medo de me enganar!...
O BONECO - (A ralhar.) Pareces mais uma menina do que uma boneca!!!
A BONECA - Mas o que é que queres?... Eu sou assim... A ti que és boneco, não te fica mal levantares-te por tua própria iniciativa e sem que ninguém saiba... (A crescer de interesse.) Mas achas que me ficava bem a mim uma boneca, levantar-me por minha própria vontade, sem mais nem menos?
O BONECO - Estou-te a dizer que todas as noites me fartei de puxar por ti!...
A BONECA - Eu julgava que era o Homem!
O BONECO - Ora aí está! De que serviu eu ter puxado tanto por ti, se tu te punhas a julgar outras coisas!...
A BONECA - (Perfil.) Chiu!... Supõe tu que era o Homem.
O BONECO - Mas não era o Homem, era eu!!!
A BONECA - (3/4.) Mas eu é que não sabia!...
O BONECO - Olha! Digo-te outra vez: pareces mais uma menina do que uma boneca!
A BONECA - E não dizes nada mal!... Pois quantas e quantas vezes eu me esqueço de que sou uma boneca e me ponho a pensar, exactamente como se fosse uma menina!
O BONECO - (Ri.) Isso é mesmo de boneca!
A BONECA - Mas que queres que eu faça? Eu sou assim... Não fui eu que me fiz!... E tu também não podes falar!... Tu levantas-te quando te apetece e mexes-te à tua vontade, como se fosses uma pessoa... e isto, para um boneco parece a mais!...
O BONECO - És mesmo parvinha de todo! É o que eu te digo: nem pareces uma boneca! Então tu não sabes, minha estupidazinha, que um boneco, quando não está ninguém a ver se mexe à sua vontade?
A BONECA - Já me quis parecer isso... tenho pensado muito a esse respeito... mas a certa altura começa-me a doer a cabeça e nunca consegui, até hoje, pensar esse assunto todo até ao fim!
O BONECO - Tu és uma fraca!
A BONECA - Pois sou... Não tenho coragem nenhuma! Eu nem tive coragem para me mexer da posição em que o Homem me deixasse!... E tu? Lembravas-te sempre, exactamente, da posição em que o Homem te tinha deixado?
O BONECO - Sempre!
A BONECA - Ah! Que boa memória que tu tens... Eu não sei se tenho boa memória. Nunca até hoje tive coragem para experimentar levantar-me da posição em que o Homem me tinha deixado...
O BONECO - Então como é que sabias que podias mexer-te?
A BONECA - Ouve! Eu explico-te: quando já havia muito tempo que eu não sentia nada em redor de mim, depois de o tambor se ouvir já lá muito ao longe... eu abria assim um bocadinho os olhos sem ninguém perceber... e ficava a perceber tudo... depois experimentava muito devagarinho mexer um dedo qualquer, ao calhar, e mexia!... Outras vezes estendia um nadinha uma perna, que ninguém podia dar por isso... experimentei aos poucochinhos mexer tudo, muito devagarinho e tudo mexia!... Ah! Que se eu tivesse a certeza de que não me esqueceria da posição em que o Homem me tinha deixado... eu havia de me levantar e dar uma voltazinha, para experimentar...
O BONECO - O que me espanta, é que nunca tenhas dado por mim!
A BONECA - Não estás com certeza mais admirado do que eu... mas talvez seja por eu ficar quase sempre por acaso com a cara virada p'ró chão... e quando ficasse com a cara p'ra cima, também em nada podia reparar, pois mal te sentisse mexer, punha-me logo a julgar que era o Homem que estava a puxar por ti... e fazia-me imediatamente boneca... Foi sempre tão grande o medo que eu tinha que o Homem soubesse que eu mexia, que à mais pequenina coisa me punha logo como morta...
O BONECO - Ouve lá! Porque é que falas tão baixo? A tua voz não dá mais do que isso?
A BONECA - Parece-me que dá... Ainda não experimentei gritar, mas tenho a certeza de que sou capaz de dar o grito que se ouve mais de longe!
O BONECO - Então porque falas tão baixo?
A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!... É por causa do Homem... Coitado, se ele soubesse que nós mexemos!... Tu já pensaste a sério a este respeito? Um dia, sem querer, tu julgas que o Homem não está aqui e ele está a ver-te! Que horror!!! Nem quero pensar!
O BONECO - Ora! Mesmo que o Homem me visse a mexer, julgava que era um sonho... Não acreditava...
A BONECA - Não é tanto assim!... Tu é que não sabes o que se passa! Há dias, o Homem estava bem disposto, chamou a mulher dele e disse-lhe a apontar para mim: não achas que ela - era eu - tem cara de quem está à espera de que a gente não esteja a ver para se pôr à sua vontade?
O BONECO - Foi o Homem quem disse isso assim?!
A BONECA - Juro-te pela minha boa sorte!!!
O BONECO - E a mulher do Homem o que é que disse?
A BONECA - A mulher do Homem disse assim: (Devagar.) Olha que estás para aí a dizer uma coisa que já me tem vindo à ideia muitas vezes e sem eu querer!
O BONECO - Foi só isso que eles disseram?
A BONECA - E achas pouco?!!! Os filhos deles também já andam desconfiados... e agora, em vez de irem brincar como dantes, vão-se pôr à espreita ali, daquele canto, à espera de que qualquer de nós de mexa...
O BONECO - Seja quem for, se vir um boneco a mexer sozinho, julga sempre que é um sonho... e não acredita!
A BONECA - Faz tu o que quiseres: a mim é que eles não me hão-de ver nunca a mexer sozinha!
O BONECO - Tu és medrosa!
A BONECA - Pois sou...
O BONECO - Mas eu já fui espreitar... não está ninguém aqui ao pé.
A BONECA - Tens a certeza? Tu nem sequer sabias o que eles tinham estado a dizer a nosso respeito!...
O BONECO - Sim, tenho a certeza! Foram todos juntos p'ra cidade chamar gente p'ró espectáculo daqui a bocado... O Homem levava o bombo e os pratos; quem tocava o tambor, hoje, era o filho mais velho; a mulher levava o cornetim e a filha ia à frente com o cartaz e os guizos.
A BONECA - Logo hoje por infelicidade, a filha não me quis levar com ela! Quando está contente leva-me sempre na algibeira do casaco...
O BONECO - Já por várias vezes fomos os dois juntos dentro da mesma algibeira!...
A BONECA - É verdade!... Nesse tempo não sabia que tu eras como eu...
O BONECO - É verdade!... nem eu!... e podíamos ter falado tanto, dentro da algibeira!... Fartei-me de puxar por ti!...
A BONECA - Eu não sabia que eras tu!
O BONECO - Era eu!
A BONECA - Porque não me disseste ao ouvido?
O BONECO - Eu não sabia que tu ouvias!
A BONECA - Pois ouvia!
O BONECO - E tu nunca te aborrecias de estar sempre na posição em que o Homem te tinha deixado?
A BONECA - Punha-me a pensar... Pensei muito! Pus por ordem todas as coisas que aconteceram comigo... Sei tudo de cor...
O BONECO - Conta, conta o que sabes!...
A BONECA - Só há uma coisa que eu não sei e que também aconteceu comigo...
O BONECO - O que foi?
A BONECA - Não sei explicar a razão por que são tão pequenas as pessoas que vêm todas as noites ver o espectáculo!...
O BONECO - (Ri.) São assim tão pequenas porque ainda não chegaram a grandes... As pessoas pequenas chamam-se crianças.
A BONECA - Isso não sabia eu... Era a única coisa que eu não tinha sido capaz de compreender!... Via umas pessoas maiores e outras mais pequenas, e não sabia a razão.
O BONECO - Ah! Ah! Ah!
A BONECA - Naturalmente estás-me a enganar?...
O BONECO - Não te estou a enganar, não... estou a rir-me do que terás para contar se não sabias que as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!... (Ri.)
A BONECA - E não sabia! É alguma obrigação saber essas coisas? Se começas a rir não te posso perguntar outra coisa que também não sei e que também aconteceu comigo...
O BONECO - O que foi? Pergunta!
A BONECA - P´ra onde é que vão as pessoas grandes?
O BONECO - Vão ver outras coisas!
A BONECA - Então há outras coisas?
O BONECO - São só p'rás pessoas grandes.
A BONECA - Ainda nunca vi... nunca aconteceu comigo... só sei do que já aconteceu comigo...
O BONECO - As coisas que há p'rás pessoas grandes só quando acontecem connosco é que se compreendem.
A BONECA - Talvez que ainda venham a acontecer comigo!... contigo já aconteceram?
O BONECO - Também ainda não... Só as crianças é que gostam de bonecos... As pessoas grandes fartaram-se de ver bonecos e foram ver outras coisas...
A BONECA - Naturalmente, estiveram que tempos à espera que nós mexêssemos, e como nunca nos mexêssemos nem disséssemos nada, aborreceram-se e foram-se embora!
O BONECO - Não sei se é assim como tu estás a dizer... Só sei que o Homem descobriu que as crianças gostavam de ver os bonecos a mexer como as pessoas...
A BONECA - O Homem teve uma boa lembrança de fazer mexer os bonecos por causa das crianças.
O BONECO - Do que as crianças gostavam mais era de chegar a ser bonecos!!!
A BONECA - Felizmente para o Homem, há sempre crianças por toda a parte!... Porque é que elas gostam de ver os bonecos mexer como as pessoas?
O BONECO - É porque começam a pensar em muitas coisas que ainda não aconteceram com elas!
A BONECA - Ah!... Eu sou como as crianças... só sei do que já aconteceu comigo!...
O BONECO - Conta! Conta o que sabes!
A BONECA - Eu não sei se o que aconteceu comigo tem algum valor... mas tu não calculas a porção de coisas sérias que têm passado p'la minha cabeça por causa do que aconteceu comigo!... coisas de nada e que nunca mais acabam!
O BONECO - Tu é muito divertida!!!
A BONECA - Tu não me conheces! Tu estás habituado a ver-me só por fora... nunca aconteceu veres o que eu sou por dentro!...
O BONECO - Era isso mesmo que eu queria que tu contasses!
A BONECA - Tu sabes bem que eu não tenho história... a minha história é a daquela que me fez... Mas não sei mais nada... Assim eu soubesse contar-te a única história que eu sei!
O BONECO - Sabes, sim! Conta!
A BONECA - (Pausa.) Fui feita especialmente para a própria que me fez... e p'ra mais ninguém!... Talvez a minha história não valha nada... mas foi só feita p'ra Ela!... Ela nunca pensou em mostrar-me a mim... Longe estava Ela, quando me fez, de supor que eu havia de ir p'ro teatro! Ela fez-me de propósito só p'ra Ela, p'ra não estar sozinha... fui feita aos pedacinhos, de coisas que já não serviam p'ra mais nada... Aqueles pedacinhos mais bonitos das coisas que já não serviam p'ra mais nada, guardava-os Ela p'ra me fazer a mim... Achas que tem algum valor a minha história?
O BONECO - Conta, conta que eu gosto muito!
A BONECA - Fui feita aos poucochinhos. Ela não podia estar sempre a tratar de mim... era só àquelas horas, depois de estar tudo pronto... Quando não havia mais nada que fazer... então, é que chegava a minha vez!... Mas não era porque Ela não me quisesse e muito, mas as outras coisas não podiam ficar por fazer... não achas? Era justo, eu estava depois das outras coisas... No fim de tudo, logo a seguir, era eu!... Mas quando chegava a minha vez, tu não imaginas, Boneco, a alegria que Ela trazia nos olhos!!! Via-se perfeitamente que não tinha pensado noutra coisa!... Achas que vale a pena continuar?
O BONECO - Conta, conta! Eu gosto muito!... E parece-me que estou a reconhecer essa menina!...
A BONECA - Não há outra no mundo!... E se for a mesma tu sentes logo... ainda que eu não te saiba contar a história dela!
O BONECO - Se for Ela, eu digo-te.
A BONECA - Tu não imaginas, Boneco, o que Ela fez por mim! Fui muito pensada!... Dia e noite não pensava noutra coisa... Ela cuidou imenso em dar-me um feitio que encantasse!... Fez tudo por mim!... Eu era p'ra sair melhor do que saí... Ah! Se eu fosse como Ela me tinha pensado!!! Mas eu estou contente... eles é que não sabem ver-me, eles vêem-me só por fora e julgam que por dentro não tenho nada... Não é que eu seja por dentro diferente do que eu sou por fora... é a mesma coisa... Mas eles vêem-me mal por fora, porque não sabem como eu sou por dentro... Ninguém sabe ver-me!... Oh! Ela, sim!... Se ao menos eles soubessem como eu fui feita!... Ah! Lembro-me tão bem!... Fui feita com o coração!... Se o que sai do coração fosse igual ao que está por dentro... não era uma simples boneca vestida de seda... era outra coisa! Era o próprio coração por dentro! Nunca viste o coração por dentro?
O BONECO - (Devagar.) Vi! É uma boneca vestida de seda...
A BONECA - Oh! Como tu viste bem o coração!!! Dá-me a tua mão... (Pausa.) Conta como tu viste o coração!...
O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)
A BONECA - Ouve, Boneco! Tu achas que eu sou bonita? É porque ela quis tanto fazer-me exactamente como era por dentro e por fora... E é por isso que eu me acho tão linda!... Por isso é que eu gosto tanto de mim... Olha bem p'ra mim... Já reparaste bem?... Os meus olhos... a minha boca... os meus cabelos... a cor dos meus olhos... a cor da minha boca... a cor dos meus cabelos... o meu feitio... a minha maneira de vestir... todas estas coisas são d'Ela!... Ela e eu somos uma coisa só!... Ela copiou-se exactamente em mim!...
O BONECO - Nós, os bonecos, somos o melhor retrato da idade de quem nos fez!!!
A BONECA - Ah!... Tu dizes tão certas as coisas! Vê-se perfeitamente que já aconteceram comigo!
O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)
A BONECA - Às vezes, o dia não vinha como Ela tinha esperado! Quando tal acontecia, nem eu sequer vinha a propósito... Nada lhe servia... Ninguém diria que era Ela própria que estava ali!... Mas outras vezes, tudo era d'Ela!... Ela é que animava todas as coisas... Ao pé dela tudo era riqueza e alegria! Ela havia de fazer muita falta a quem não a conhecesse!... Tu não imaginas a porção de novidade que Ela tinha p'ra dar, se alguém lhas viesse pedir!... Nunca veio ninguém! Alguns ainda olharam mas não a viram... Nunca ninguém soube que Ela era a Rainha!
O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina...
A BONECA - Uma grande Rainha que não tinha mais nada do que uma boneca feita por Ela!... Era eu, a boneca... Todos passaram diante d'Ela e ninguém se ajoelhou. Se a tivessem conhecido como eu a conheci todos ajoelhariam diante d'Ela!...
O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina!...
A BONECA - Não há outra no mundo!
O BONECO - Mas... esta que eu digo não se parece contigo!
A BONECA - E por dentro? Também não se parece comigo?
O BONECO - Por dentro é que eu te acho tal e qual!
A BONECA - É que tu ainda não me viste bem por fora!
O BONECO - Talvez sejam parecidas só por dentro...
A BONECA - Isso não pode ser! O que uma pessoa é p'ra fora é igual p'ra dentro! É uma coisa só!... Isso que tu dizes não está certo... não é assim... Tu não sabes isso bem!... Isso ainda não aconteceu contigo!
O BONECO - Tudo o que acabas de dizer acontece comigo também!...
A BONECA - É porque tu ainda não me viste bem por dentro mas agora, já que nos conhecemos, havemos de falar muito... p'ra nos conhecermos ainda melhor um ao outro, por dentro e por fora... Deus queira que isto vá muito bem connosco!
O BONECO - Eu sou como tu... tudo o que aconteceu comigo eu sei de cor... é tudo tão fácil! Só, não sei...
A BONECA - Conta, conta!
O BONECO - Foi uma das coisas que aconteceu comigo...
A BONECA - Não tenha medo de contar!
O BONECO - Não, Boneca, ouve! Deixa estar calado o meu coração... ele está calado por causa de mim.
A BONECA - Se eu soubesse falar de outras coisas!... Mas eu só sei do que aconteceu comigo.
O BONECO - Não, Boneca... não digas nada... Deixa estar calado o meu coração... Eu não soube ouvir o coração... e o que ele quer é tão claro!
A BONECA - O que é claro é como a luz!
O BONECO - A luz não se engana!...
A BONECA - Nos é que nos enganamos com a luz.
O BONECO - É assim que acontece com a luz!... (Pausa.)
A BONECA - Ouve! Tu também sentes o coração dentro de ti muito grande... que não cabe dentro do peito? Ah! Eu sou tão pequena! E o coração está dentro de mim... à espera pronto p'ra sair... pronto p'ra dar-se e a hora não chega!
O BONECO - Aquela hora que há...
A BONECA - Aquela hora que não passa... aquela hora que ainda não veio... aquela hora que deixa passar as outras adiante... as horas de esperar!...
O BONECO - Deixa estar calado o meu coração...
A BONECA - Dá-me a tua mão!... que eu saiba da tua mão... Que as tuas mãos não sejam as minhas!... que sejam outras mãos como as minhas... As minhas mãos não me bastam... faltam-me outras mãos como as minhas!
O BONECO - É assim que bate o coração...
A BONECA - Dá-me a tua mão!... que os nossos corações sejam a repetição um do outro como é justo!... que as tuas mãos me tragam festas, me tragam paz... paz que se ganha!... (Pausa.) Dá-me as tuas palavras!... essas que tu guardas... essas palavras que não morrem, nem se matam!... essas que lembram o mar... o mar que nunca pára... o mar que não se cansa... o mar que insiste... o mar que não se gasta
O BONECO - Cala-te, coração! Deixa ouvir o mar...
A BONECA - Tu também viste o mar?
O BONECO - O mar foi feito por nossa causa!...
A BONECA - Ah!... É assim, juro-te, exactamente assim o mar... Oh! Como tu o viste bem! Dá-me a tua mão p'ra ser tão grande o silêncio... (Pausa.) O mar!... não acaba nunca o mar!...
O BONECO - O mar começa sempre...
A BONECA - É como o coração dentro de mim!... E nunca sai do peito o coração!...
O BONECO - Como pode mudar-se o coração?...
A BONECA - Às vezes a luz brilha no mar... como se tivesse chegado a hora...
O BONECO - É a fé! É o coração que não se engana!
A BONECA - Mas quando o sol desaparece fico eu tão sozinha! Fico a pensar no que tem acontecido... e não sei o que me falta!... Se não fosse o luar, ainda ficava mais sozinha!... Se me ponho a pensar que o luar me faz companhia, sinto-me enganada! E nos dias em que chove, a chuva também foi enganada...
O BONECO - A quem acredita no coração tudo serve de engano.
A BONECA - Mas quando é o coração que fala, parece-me de mais p'ra mim.
O BONECO - O coração é maior que nós!
A BONECA - E eu sou tão pequenina! P'ra que me deram um coração tão grande?...
O BONECO - Deus fez-nos um coração p'ra não sermos tão pequenos como nós...
A BONECA - Mas é que não tenho forças p'ra ele! Ele é grande de mais p'ra mim! Tu já reparaste bem como eu sou pequenina?
O BONECO - Tu és do tamanho dos que têm coração.
A BONECA - Ah!... é assim, juro-te, é exactamente assim como tu estás a dizer!... mas a hora não chega!... Eu saberei esperar... mas o tempo não espera!..
O BONECO - Assim, é não saber esperar!
A BONECA - Eu por mim não me importo... mas o coração?
O BONECO - O coração espera por nós!
A BONECA - Mas tu não vês que eu sou pequenina... que não tenho forças... que eu não sou como o mar que não se gasta!... tu não vês que eu passo depressa?
O BONECO - Por mais depressa que passes, o teu coração espera por ti... o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres, o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres nunca, o teu coração não conta, não ouve. É como se não tivesse havido coração. Por mais depressa que passes, dá-te inteira ao teu coração... Porque só sabe do tempo quem não traz coração... o tempo é pecado de quem não sabe amar!!!
A BONECA - Ah!... é assim, juro! É exactamente assim que bate o coração!
O BONECO - Acredita no coração! Ele sabe de cor o que quer!... Não foi necessário ao coração ir aprender o que queria... A nossa cabeça é que precisa de aprender o que quer o coração!
A BONECA - É assim que bate o coração...
O BONECO - O coração nunca está só... O nosso coração é nosso, ele não pode viver sem aquele a quem pertence... ele espera por nós!
A BONECA - Às vezes, a cabeça quer ser mais do que o coração... e fica de costas viradas p'ro coração!
O BONECO - A cabeça não deve ser senão o que o coração quiser! Nunca é o coração que nos falta, somos nós que faltamos ao coração!
A BONECA - Ah!... é assim, juro, é assim que bate o coração!...
O BONECO - Só não entende o coração quem não sabe escutá-lo... ele está sempre a contar aquela hora por que se espera... aquela hora que existe p'ralém da sabedoria... e que tem a forma simplicíssima dum coração natural!...
(Começa-se a ouvir um tambor lá muito ao longe. De repente, os Bonecos ficam na posição em que estavam ao princípio. O tambor vem-se chegando a pouco e pouco. Quando já está bastante perto, ouvem-se muitas vozes de crianças em grande alegria. Depois percebe-se que chegaram ao pé do teatro, e é quando começa a música com o bombo, os pratos, o cornetim, o tambor e os guizos. Abre-se a cortina do fundo e do lado de fora estão sentadas nos bancos muitas crianças com as pessoas que as acompanham. Quando já está quase a começar a representação desce o pano.)
A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!...
O BONECO - Só agora é que dei por isso!
A BONECA - (Idem.) Chiu!...
O BONECO - Eu julgava que de nós os dois era eu só que podia mexer-me!
A BONECA - (Sempre muito baixinho.) Eu também julgava que de nós os dois, era eu a única que podia mexer-me!
O BONECO - E nunca sentiste a puxar por ti todas noites?!
A BONECA - (Idem.) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!
O BONECO - E tu? Puxaste por mim alguma vez?
A BONECA - (Idem.) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti, tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...
O BONECO - Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai longe, levanto-me e vou espreitar para fora...
A BONECA - Nunca te vi assim!... Às vezes sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem... e deixava-me estar boneca...
O BONECO - Se eu soubesse que tu eras como eu!
A BONECA - Se eu soubesse que também tu eras assim!
O BONECO - A culpa é tua! Eu bem puxei por ti todas as noites!
A BONECA - Que pena! E eu que não adivinhei que eras tu! Olha, perdoas? Tu não imaginas como eu sou tímida!...
O BONECO - É asneira!...
A BONECA - Chiu!... Não fales alto!
O BONECO - Não está ninguém lá fora! Eu nunca me levanto sem ter pensado primeiro se está alguém lá fora!... Só depois de ter pensado bem é que me levanto... E até hoje, ainda ninguém deu por nada... nem tu!
A BONECA - É verdade, nem eu...
O BONECO - Tu és tímida!
A BONECA - Pois sou...
O BONECO - E não há razão... pois se temos a certeza de que não está ninguém a ver! Faz algum mal?
A BONECA - Mas se vissem?
O BONECO - Não podem ver!
A BONECA - Tu tens a certeza de que não te podes enganar?
O BONECO - As pessoas é que se enganam! Nós os bonecos, nunca nos enganamos!!!...
A BONECA - A dizer a verdade, eu nunca me enganei... Mas nunca faço nada porque tenho medo de me enganar!...
O BONECO - (A ralhar.) Pareces mais uma menina do que uma boneca!!!
A BONECA - Mas o que é que queres?... Eu sou assim... A ti que és boneco, não te fica mal levantares-te por tua própria iniciativa e sem que ninguém saiba... (A crescer de interesse.) Mas achas que me ficava bem a mim uma boneca, levantar-me por minha própria vontade, sem mais nem menos?
O BONECO - Estou-te a dizer que todas as noites me fartei de puxar por ti!...
A BONECA - Eu julgava que era o Homem!
O BONECO - Ora aí está! De que serviu eu ter puxado tanto por ti, se tu te punhas a julgar outras coisas!...
A BONECA - (Perfil.) Chiu!... Supõe tu que era o Homem.
O BONECO - Mas não era o Homem, era eu!!!
A BONECA - (3/4.) Mas eu é que não sabia!...
O BONECO - Olha! Digo-te outra vez: pareces mais uma menina do que uma boneca!
A BONECA - E não dizes nada mal!... Pois quantas e quantas vezes eu me esqueço de que sou uma boneca e me ponho a pensar, exactamente como se fosse uma menina!
O BONECO - (Ri.) Isso é mesmo de boneca!
A BONECA - Mas que queres que eu faça? Eu sou assim... Não fui eu que me fiz!... E tu também não podes falar!... Tu levantas-te quando te apetece e mexes-te à tua vontade, como se fosses uma pessoa... e isto, para um boneco parece a mais!...
O BONECO - És mesmo parvinha de todo! É o que eu te digo: nem pareces uma boneca! Então tu não sabes, minha estupidazinha, que um boneco, quando não está ninguém a ver se mexe à sua vontade?
A BONECA - Já me quis parecer isso... tenho pensado muito a esse respeito... mas a certa altura começa-me a doer a cabeça e nunca consegui, até hoje, pensar esse assunto todo até ao fim!
O BONECO - Tu és uma fraca!
A BONECA - Pois sou... Não tenho coragem nenhuma! Eu nem tive coragem para me mexer da posição em que o Homem me deixasse!... E tu? Lembravas-te sempre, exactamente, da posição em que o Homem te tinha deixado?
O BONECO - Sempre!
A BONECA - Ah! Que boa memória que tu tens... Eu não sei se tenho boa memória. Nunca até hoje tive coragem para experimentar levantar-me da posição em que o Homem me tinha deixado...
O BONECO - Então como é que sabias que podias mexer-te?
A BONECA - Ouve! Eu explico-te: quando já havia muito tempo que eu não sentia nada em redor de mim, depois de o tambor se ouvir já lá muito ao longe... eu abria assim um bocadinho os olhos sem ninguém perceber... e ficava a perceber tudo... depois experimentava muito devagarinho mexer um dedo qualquer, ao calhar, e mexia!... Outras vezes estendia um nadinha uma perna, que ninguém podia dar por isso... experimentei aos poucochinhos mexer tudo, muito devagarinho e tudo mexia!... Ah! Que se eu tivesse a certeza de que não me esqueceria da posição em que o Homem me tinha deixado... eu havia de me levantar e dar uma voltazinha, para experimentar...
O BONECO - O que me espanta, é que nunca tenhas dado por mim!
A BONECA - Não estás com certeza mais admirado do que eu... mas talvez seja por eu ficar quase sempre por acaso com a cara virada p'ró chão... e quando ficasse com a cara p'ra cima, também em nada podia reparar, pois mal te sentisse mexer, punha-me logo a julgar que era o Homem que estava a puxar por ti... e fazia-me imediatamente boneca... Foi sempre tão grande o medo que eu tinha que o Homem soubesse que eu mexia, que à mais pequenina coisa me punha logo como morta...
O BONECO - Ouve lá! Porque é que falas tão baixo? A tua voz não dá mais do que isso?
A BONECA - Parece-me que dá... Ainda não experimentei gritar, mas tenho a certeza de que sou capaz de dar o grito que se ouve mais de longe!
O BONECO - Então porque falas tão baixo?
A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!... É por causa do Homem... Coitado, se ele soubesse que nós mexemos!... Tu já pensaste a sério a este respeito? Um dia, sem querer, tu julgas que o Homem não está aqui e ele está a ver-te! Que horror!!! Nem quero pensar!
O BONECO - Ora! Mesmo que o Homem me visse a mexer, julgava que era um sonho... Não acreditava...
A BONECA - Não é tanto assim!... Tu é que não sabes o que se passa! Há dias, o Homem estava bem disposto, chamou a mulher dele e disse-lhe a apontar para mim: não achas que ela - era eu - tem cara de quem está à espera de que a gente não esteja a ver para se pôr à sua vontade?
O BONECO - Foi o Homem quem disse isso assim?!
A BONECA - Juro-te pela minha boa sorte!!!
O BONECO - E a mulher do Homem o que é que disse?
A BONECA - A mulher do Homem disse assim: (Devagar.) Olha que estás para aí a dizer uma coisa que já me tem vindo à ideia muitas vezes e sem eu querer!
O BONECO - Foi só isso que eles disseram?
A BONECA - E achas pouco?!!! Os filhos deles também já andam desconfiados... e agora, em vez de irem brincar como dantes, vão-se pôr à espreita ali, daquele canto, à espera de que qualquer de nós de mexa...
O BONECO - Seja quem for, se vir um boneco a mexer sozinho, julga sempre que é um sonho... e não acredita!
A BONECA - Faz tu o que quiseres: a mim é que eles não me hão-de ver nunca a mexer sozinha!
O BONECO - Tu és medrosa!
A BONECA - Pois sou...
O BONECO - Mas eu já fui espreitar... não está ninguém aqui ao pé.
A BONECA - Tens a certeza? Tu nem sequer sabias o que eles tinham estado a dizer a nosso respeito!...
O BONECO - Sim, tenho a certeza! Foram todos juntos p'ra cidade chamar gente p'ró espectáculo daqui a bocado... O Homem levava o bombo e os pratos; quem tocava o tambor, hoje, era o filho mais velho; a mulher levava o cornetim e a filha ia à frente com o cartaz e os guizos.
A BONECA - Logo hoje por infelicidade, a filha não me quis levar com ela! Quando está contente leva-me sempre na algibeira do casaco...
O BONECO - Já por várias vezes fomos os dois juntos dentro da mesma algibeira!...
A BONECA - É verdade!... Nesse tempo não sabia que tu eras como eu...
O BONECO - É verdade!... nem eu!... e podíamos ter falado tanto, dentro da algibeira!... Fartei-me de puxar por ti!...
A BONECA - Eu não sabia que eras tu!
O BONECO - Era eu!
A BONECA - Porque não me disseste ao ouvido?
O BONECO - Eu não sabia que tu ouvias!
A BONECA - Pois ouvia!
O BONECO - E tu nunca te aborrecias de estar sempre na posição em que o Homem te tinha deixado?
A BONECA - Punha-me a pensar... Pensei muito! Pus por ordem todas as coisas que aconteceram comigo... Sei tudo de cor...
O BONECO - Conta, conta o que sabes!...
A BONECA - Só há uma coisa que eu não sei e que também aconteceu comigo...
O BONECO - O que foi?
A BONECA - Não sei explicar a razão por que são tão pequenas as pessoas que vêm todas as noites ver o espectáculo!...
O BONECO - (Ri.) São assim tão pequenas porque ainda não chegaram a grandes... As pessoas pequenas chamam-se crianças.
A BONECA - Isso não sabia eu... Era a única coisa que eu não tinha sido capaz de compreender!... Via umas pessoas maiores e outras mais pequenas, e não sabia a razão.
O BONECO - Ah! Ah! Ah!
A BONECA - Naturalmente estás-me a enganar?...
O BONECO - Não te estou a enganar, não... estou a rir-me do que terás para contar se não sabias que as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!... (Ri.)
A BONECA - E não sabia! É alguma obrigação saber essas coisas? Se começas a rir não te posso perguntar outra coisa que também não sei e que também aconteceu comigo...
O BONECO - O que foi? Pergunta!
A BONECA - P´ra onde é que vão as pessoas grandes?
O BONECO - Vão ver outras coisas!
A BONECA - Então há outras coisas?
O BONECO - São só p'rás pessoas grandes.
A BONECA - Ainda nunca vi... nunca aconteceu comigo... só sei do que já aconteceu comigo...
O BONECO - As coisas que há p'rás pessoas grandes só quando acontecem connosco é que se compreendem.
A BONECA - Talvez que ainda venham a acontecer comigo!... contigo já aconteceram?
O BONECO - Também ainda não... Só as crianças é que gostam de bonecos... As pessoas grandes fartaram-se de ver bonecos e foram ver outras coisas...
A BONECA - Naturalmente, estiveram que tempos à espera que nós mexêssemos, e como nunca nos mexêssemos nem disséssemos nada, aborreceram-se e foram-se embora!
O BONECO - Não sei se é assim como tu estás a dizer... Só sei que o Homem descobriu que as crianças gostavam de ver os bonecos a mexer como as pessoas...
A BONECA - O Homem teve uma boa lembrança de fazer mexer os bonecos por causa das crianças.
O BONECO - Do que as crianças gostavam mais era de chegar a ser bonecos!!!
A BONECA - Felizmente para o Homem, há sempre crianças por toda a parte!... Porque é que elas gostam de ver os bonecos mexer como as pessoas?
O BONECO - É porque começam a pensar em muitas coisas que ainda não aconteceram com elas!
A BONECA - Ah!... Eu sou como as crianças... só sei do que já aconteceu comigo!...
O BONECO - Conta! Conta o que sabes!
A BONECA - Eu não sei se o que aconteceu comigo tem algum valor... mas tu não calculas a porção de coisas sérias que têm passado p'la minha cabeça por causa do que aconteceu comigo!... coisas de nada e que nunca mais acabam!
O BONECO - Tu é muito divertida!!!
A BONECA - Tu não me conheces! Tu estás habituado a ver-me só por fora... nunca aconteceu veres o que eu sou por dentro!...
O BONECO - Era isso mesmo que eu queria que tu contasses!
A BONECA - Tu sabes bem que eu não tenho história... a minha história é a daquela que me fez... Mas não sei mais nada... Assim eu soubesse contar-te a única história que eu sei!
O BONECO - Sabes, sim! Conta!
A BONECA - (Pausa.) Fui feita especialmente para a própria que me fez... e p'ra mais ninguém!... Talvez a minha história não valha nada... mas foi só feita p'ra Ela!... Ela nunca pensou em mostrar-me a mim... Longe estava Ela, quando me fez, de supor que eu havia de ir p'ro teatro! Ela fez-me de propósito só p'ra Ela, p'ra não estar sozinha... fui feita aos pedacinhos, de coisas que já não serviam p'ra mais nada... Aqueles pedacinhos mais bonitos das coisas que já não serviam p'ra mais nada, guardava-os Ela p'ra me fazer a mim... Achas que tem algum valor a minha história?
O BONECO - Conta, conta que eu gosto muito!
A BONECA - Fui feita aos poucochinhos. Ela não podia estar sempre a tratar de mim... era só àquelas horas, depois de estar tudo pronto... Quando não havia mais nada que fazer... então, é que chegava a minha vez!... Mas não era porque Ela não me quisesse e muito, mas as outras coisas não podiam ficar por fazer... não achas? Era justo, eu estava depois das outras coisas... No fim de tudo, logo a seguir, era eu!... Mas quando chegava a minha vez, tu não imaginas, Boneco, a alegria que Ela trazia nos olhos!!! Via-se perfeitamente que não tinha pensado noutra coisa!... Achas que vale a pena continuar?
O BONECO - Conta, conta! Eu gosto muito!... E parece-me que estou a reconhecer essa menina!...
A BONECA - Não há outra no mundo!... E se for a mesma tu sentes logo... ainda que eu não te saiba contar a história dela!
O BONECO - Se for Ela, eu digo-te.
A BONECA - Tu não imaginas, Boneco, o que Ela fez por mim! Fui muito pensada!... Dia e noite não pensava noutra coisa... Ela cuidou imenso em dar-me um feitio que encantasse!... Fez tudo por mim!... Eu era p'ra sair melhor do que saí... Ah! Se eu fosse como Ela me tinha pensado!!! Mas eu estou contente... eles é que não sabem ver-me, eles vêem-me só por fora e julgam que por dentro não tenho nada... Não é que eu seja por dentro diferente do que eu sou por fora... é a mesma coisa... Mas eles vêem-me mal por fora, porque não sabem como eu sou por dentro... Ninguém sabe ver-me!... Oh! Ela, sim!... Se ao menos eles soubessem como eu fui feita!... Ah! Lembro-me tão bem!... Fui feita com o coração!... Se o que sai do coração fosse igual ao que está por dentro... não era uma simples boneca vestida de seda... era outra coisa! Era o próprio coração por dentro! Nunca viste o coração por dentro?
O BONECO - (Devagar.) Vi! É uma boneca vestida de seda...
A BONECA - Oh! Como tu viste bem o coração!!! Dá-me a tua mão... (Pausa.) Conta como tu viste o coração!...
O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)
A BONECA - Ouve, Boneco! Tu achas que eu sou bonita? É porque ela quis tanto fazer-me exactamente como era por dentro e por fora... E é por isso que eu me acho tão linda!... Por isso é que eu gosto tanto de mim... Olha bem p'ra mim... Já reparaste bem?... Os meus olhos... a minha boca... os meus cabelos... a cor dos meus olhos... a cor da minha boca... a cor dos meus cabelos... o meu feitio... a minha maneira de vestir... todas estas coisas são d'Ela!... Ela e eu somos uma coisa só!... Ela copiou-se exactamente em mim!...
O BONECO - Nós, os bonecos, somos o melhor retrato da idade de quem nos fez!!!
A BONECA - Ah!... Tu dizes tão certas as coisas! Vê-se perfeitamente que já aconteceram comigo!
O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)
A BONECA - Às vezes, o dia não vinha como Ela tinha esperado! Quando tal acontecia, nem eu sequer vinha a propósito... Nada lhe servia... Ninguém diria que era Ela própria que estava ali!... Mas outras vezes, tudo era d'Ela!... Ela é que animava todas as coisas... Ao pé dela tudo era riqueza e alegria! Ela havia de fazer muita falta a quem não a conhecesse!... Tu não imaginas a porção de novidade que Ela tinha p'ra dar, se alguém lhas viesse pedir!... Nunca veio ninguém! Alguns ainda olharam mas não a viram... Nunca ninguém soube que Ela era a Rainha!
O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina...
A BONECA - Uma grande Rainha que não tinha mais nada do que uma boneca feita por Ela!... Era eu, a boneca... Todos passaram diante d'Ela e ninguém se ajoelhou. Se a tivessem conhecido como eu a conheci todos ajoelhariam diante d'Ela!...
O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina!...
A BONECA - Não há outra no mundo!
O BONECO - Mas... esta que eu digo não se parece contigo!
A BONECA - E por dentro? Também não se parece comigo?
O BONECO - Por dentro é que eu te acho tal e qual!
A BONECA - É que tu ainda não me viste bem por fora!
O BONECO - Talvez sejam parecidas só por dentro...
A BONECA - Isso não pode ser! O que uma pessoa é p'ra fora é igual p'ra dentro! É uma coisa só!... Isso que tu dizes não está certo... não é assim... Tu não sabes isso bem!... Isso ainda não aconteceu contigo!
O BONECO - Tudo o que acabas de dizer acontece comigo também!...
A BONECA - É porque tu ainda não me viste bem por dentro mas agora, já que nos conhecemos, havemos de falar muito... p'ra nos conhecermos ainda melhor um ao outro, por dentro e por fora... Deus queira que isto vá muito bem connosco!
O BONECO - Eu sou como tu... tudo o que aconteceu comigo eu sei de cor... é tudo tão fácil! Só, não sei...
A BONECA - Conta, conta!
O BONECO - Foi uma das coisas que aconteceu comigo...
A BONECA - Não tenha medo de contar!
O BONECO - Não, Boneca, ouve! Deixa estar calado o meu coração... ele está calado por causa de mim.
A BONECA - Se eu soubesse falar de outras coisas!... Mas eu só sei do que aconteceu comigo.
O BONECO - Não, Boneca... não digas nada... Deixa estar calado o meu coração... Eu não soube ouvir o coração... e o que ele quer é tão claro!
A BONECA - O que é claro é como a luz!
O BONECO - A luz não se engana!...
A BONECA - Nos é que nos enganamos com a luz.
O BONECO - É assim que acontece com a luz!... (Pausa.)
A BONECA - Ouve! Tu também sentes o coração dentro de ti muito grande... que não cabe dentro do peito? Ah! Eu sou tão pequena! E o coração está dentro de mim... à espera pronto p'ra sair... pronto p'ra dar-se e a hora não chega!
O BONECO - Aquela hora que há...
A BONECA - Aquela hora que não passa... aquela hora que ainda não veio... aquela hora que deixa passar as outras adiante... as horas de esperar!...
O BONECO - Deixa estar calado o meu coração...
A BONECA - Dá-me a tua mão!... que eu saiba da tua mão... Que as tuas mãos não sejam as minhas!... que sejam outras mãos como as minhas... As minhas mãos não me bastam... faltam-me outras mãos como as minhas!
O BONECO - É assim que bate o coração...
A BONECA - Dá-me a tua mão!... que os nossos corações sejam a repetição um do outro como é justo!... que as tuas mãos me tragam festas, me tragam paz... paz que se ganha!... (Pausa.) Dá-me as tuas palavras!... essas que tu guardas... essas palavras que não morrem, nem se matam!... essas que lembram o mar... o mar que nunca pára... o mar que não se cansa... o mar que insiste... o mar que não se gasta
O BONECO - Cala-te, coração! Deixa ouvir o mar...
A BONECA - Tu também viste o mar?
O BONECO - O mar foi feito por nossa causa!...
A BONECA - Ah!... É assim, juro-te, exactamente assim o mar... Oh! Como tu o viste bem! Dá-me a tua mão p'ra ser tão grande o silêncio... (Pausa.) O mar!... não acaba nunca o mar!...
O BONECO - O mar começa sempre...
A BONECA - É como o coração dentro de mim!... E nunca sai do peito o coração!...
O BONECO - Como pode mudar-se o coração?...
A BONECA - Às vezes a luz brilha no mar... como se tivesse chegado a hora...
O BONECO - É a fé! É o coração que não se engana!
A BONECA - Mas quando o sol desaparece fico eu tão sozinha! Fico a pensar no que tem acontecido... e não sei o que me falta!... Se não fosse o luar, ainda ficava mais sozinha!... Se me ponho a pensar que o luar me faz companhia, sinto-me enganada! E nos dias em que chove, a chuva também foi enganada...
O BONECO - A quem acredita no coração tudo serve de engano.
A BONECA - Mas quando é o coração que fala, parece-me de mais p'ra mim.
O BONECO - O coração é maior que nós!
A BONECA - E eu sou tão pequenina! P'ra que me deram um coração tão grande?...
O BONECO - Deus fez-nos um coração p'ra não sermos tão pequenos como nós...
A BONECA - Mas é que não tenho forças p'ra ele! Ele é grande de mais p'ra mim! Tu já reparaste bem como eu sou pequenina?
O BONECO - Tu és do tamanho dos que têm coração.
A BONECA - Ah!... é assim, juro-te, é exactamente assim como tu estás a dizer!... mas a hora não chega!... Eu saberei esperar... mas o tempo não espera!..
O BONECO - Assim, é não saber esperar!
A BONECA - Eu por mim não me importo... mas o coração?
O BONECO - O coração espera por nós!
A BONECA - Mas tu não vês que eu sou pequenina... que não tenho forças... que eu não sou como o mar que não se gasta!... tu não vês que eu passo depressa?
O BONECO - Por mais depressa que passes, o teu coração espera por ti... o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres, o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres nunca, o teu coração não conta, não ouve. É como se não tivesse havido coração. Por mais depressa que passes, dá-te inteira ao teu coração... Porque só sabe do tempo quem não traz coração... o tempo é pecado de quem não sabe amar!!!
A BONECA - Ah!... é assim, juro! É exactamente assim que bate o coração!
O BONECO - Acredita no coração! Ele sabe de cor o que quer!... Não foi necessário ao coração ir aprender o que queria... A nossa cabeça é que precisa de aprender o que quer o coração!
A BONECA - É assim que bate o coração...
O BONECO - O coração nunca está só... O nosso coração é nosso, ele não pode viver sem aquele a quem pertence... ele espera por nós!
A BONECA - Às vezes, a cabeça quer ser mais do que o coração... e fica de costas viradas p'ro coração!
O BONECO - A cabeça não deve ser senão o que o coração quiser! Nunca é o coração que nos falta, somos nós que faltamos ao coração!
A BONECA - Ah!... é assim, juro, é assim que bate o coração!...
O BONECO - Só não entende o coração quem não sabe escutá-lo... ele está sempre a contar aquela hora por que se espera... aquela hora que existe p'ralém da sabedoria... e que tem a forma simplicíssima dum coração natural!...
(Começa-se a ouvir um tambor lá muito ao longe. De repente, os Bonecos ficam na posição em que estavam ao princípio. O tambor vem-se chegando a pouco e pouco. Quando já está bastante perto, ouvem-se muitas vozes de crianças em grande alegria. Depois percebe-se que chegaram ao pé do teatro, e é quando começa a música com o bombo, os pratos, o cornetim, o tambor e os guizos. Abre-se a cortina do fundo e do lado de fora estão sentadas nos bancos muitas crianças com as pessoas que as acompanham. Quando já está quase a começar a representação desce o pano.)
FIM
sábado, dezembro 03, 2005
ANTES DE COMEÇAR
de Almada Negreiros
de Almada Negreiros

fotografia de Luís Rocha
O Sonho do Almada
Numa noite em que reli esta peça do Almada, confesso... que me comovi até às lágrimas. No fim da leitura, sorri ironicamente dos meus olhos enevoados, não percebendo o que as tinha provocado. Se eram as lembranças da adolescência, ou se tinha estado a sonhar com o coração, no sonho do Almada. Então, decidi continuar a sonhar com um coração que não se cala. E fiquei contente, porque tinha este ponto em comum com o Almada! Fui para a cama e adormeci sem pesadelos...
Numa noite em que reli esta peça do Almada, confesso... que me comovi até às lágrimas. No fim da leitura, sorri ironicamente dos meus olhos enevoados, não percebendo o que as tinha provocado. Se eram as lembranças da adolescência, ou se tinha estado a sonhar com o coração, no sonho do Almada. Então, decidi continuar a sonhar com um coração que não se cala. E fiquei contente, porque tinha este ponto em comum com o Almada! Fui para a cama e adormeci sem pesadelos...
À Maria e ao João, que se estreiam com este texto, os meus mais sinceros desejos de felicidades, e que o Teatro lhes dê os sonhos mais bonitos das suas vidas. Afinal de contas... o que é a vida sem teatro? Nada! Porque o teatro é uma arte maior, como Mestre Almada nos mostra neste texto.
VIVA O TEATRO
VIVA
JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
Juvenal Garcês
1 de Dezembro de 2005
terça-feira, novembro 29, 2005
PARABÉNS À COMPANHIA TEATRAL DO CHIADO E AOS 10 ANOS DAS OBRAS COMPLETAS DE WILLIAM SHAKESPEARE EM 97 MINUTOS...
mais coisa menos coisa

Aos vinte e quatro dias de Novembro do ano da graça de mil novecentos e noventa e seis, estreava no reino dos Algarves, mais propriamente na cidade foraleira de Portimão, aquele que viria a constituir-se como o maior êxito teatral de sempre em terras lusas: As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, homenagem de três norte-americanos não alinhados: Adam Long, Jess Borgeson e Daniel Singer, ao Gil Vicente lá das Terras de Sua Majestade: William Shakespeare! Paródia que mereceu desde então adjectivações várias: «alucinante», «irreverente», «cardíaco», «hilariante», «desopilante», «burlesco», «divertido», «transversal», «louco», «irresistível», «fenómeno», «endiabrado», «interactivo», «mordaz», «histriónico», «genial», «excelente», «imperdível», «incontornável», «truculento», «indispensável», «obrigatório», etc., etc., etc. ...! Pois bem, volvidos nove anos a gesta da Companhia Teatral do Chiado continua com toda a pujança e regressa uma vez mais ao reino dos Algarves por ocasião do Festival de Outono da mui prestigiada instituição INATEL. O Auditório Pedro Ruivo (Conservatório Maria Campina) acolherá assim o mais energético elenco do país: João Carracedo, Manuel Mendes e Simão Rubim. A função terá lugar no dia 25 de Novembro (mera coincidência de data!) pelas 21h30. É pois com muita alegria e muita festança que a Companhia Teatral do Chiado vê as suAs Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos entrarem no 10º ano consecutivo de representações. Para os autos e para a história registe-se a 102ª digressão e a 909ª representação para um cômputo de mais 138.500 espectadores.
IMPRENSA
Lauro António Comércio do Porto
«Percebe-se porque razão muitos espectadores já viram vezes sem fim esta obra, porque ela nunca é a mesma, vive da improvisação do dia, da relação palco-plateia que se estabelece, e da inspiração de uns e outros. Este é o tipo de teatro que nenhum meio tecnológico consegue substituir. Perante o cinema, a televisão ou mesmo a interactividade do pc, este teatro não morre, sobrevive.»
Joel Neto Record
«A "soirée" é imperdível.»
José Jorge Letria Jornal da Costa do Sol
«Vale a pena ter presente o êxito desta companhia profissional que, erguendo alto a bandeira que Mário Viegas nunca deixou de empunhar, assume o teatro como um projecto profissional de qualidade que não se confina ao espartilho das modas (...) imposto pela crítica dominante.»
Ricardo Salomão Blitz
«... uma intensa interactividade com a audiência, conseguindo construir com segurança, alegria e inteligência uma enorme festa.»
Jaime Cravo Política Moderna
«A melhor homenagem (em originalidade e simplicidade) alguma vez feita ao criador de Romeu e Julieta. Eles, os três shakers preferidos de Shakespeare, com a capacidade para 37 shots de cair para o lado, merecem todas as palmas e mais algumas. Ela, a Companhia Teatral do Chiado, merece o sucesso que tem tido e o apoio que não tem do Ministério da Cultura. Juvenal Garcês foi quem dirigiu, Vasco Letria deu luz (...). Para todos eles, e mais alguns, muitos, Gustavo Rubim, Rita Lello, Jorge Pinto (...). Para todos, pensamos não ter esquecido ninguém, a POLÍTICA MODERNA tem algumas palavras que ainda ninguém lhes deu: gostámos muito do espectáculo.»
Manuel João Gomes Público
«Nunca tão poucos actores - um trio exímio na arte de comunicar - provocaram tantas gargalhadas (...)»
Eugénia Vasques Expresso
«A Revisitação hilariante da Obra Completa do velho Bardo.»
Rita Bertrand A Capital «Toda a plateia ruboresce de riso com as piadas picantes»
Ana Maria Ribeiro Correio da Manhã
«Um espectáculo absolutamente hilariante, a um ritmo de cortar a respiração»
Carla Maia Notícias Magazine
«Um trio de actores insuperável»
Fernando Midões Diário de Notícias
«Shakespeare revisitado numa obra que consegue ser plena, conseguida, lucida, critico-humorística»
Marina Ramos Público
«Um espectáculo interactivo, capaz de eliminar qualquer depressão»
Sofia Reis Valor
«Se quer passar um bom serão, não perca esta peça. Vai ver que não se arrepende.»
Carlos Porto JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias
«Situações de grande comicidade que se deve ao texto, àa tradução, ao ritmo imposto pela encenação e ao trabalho interpretativo.»
José Mendes
«Esta (...) proposta da Companhia Teatral do Chiado é irresistível. Está bem de ver e rever.»
Mulher-Aranha Público (Computadores)
«Não parei de rir»
Alexandra Carita A Capital
«Um espectáculo que já deu provas da sua qualidade»
Carla Maia de Almeida Notícias Magazine
«Garante-se riso puro e visceral»
Tito Lívio Correio da Manhã
«Um espectáculo endiabrado e velocíssimo»
Rute Coelho Tal & Qual
«Se quer passar uma noite bem-disposta, não perca»
Manuel Agostinho Magalhães Expresso
«Um "digest" de rir à gargalhada»
Jorge Sampaio, Presidente da República
«Excelente peça. Irreverente, mas muito bem feita. Aqui, aprendi a olhar Shakespeare de uma maneira muito divertida»
Ana Sousa Dias Por Outro Lado - RTP2
«Nunca ri tanto e tanto tempo seguido na minha vida. Fartei-me de chorar de rir»
Eugénia Vasques Expresso
«Os professores de literatura inglesa têm aqui uma bela proposta para um teste de avaliação de conhecimentos ou, se quiserem distribuir felicidade, para uma introdução paródica à obra de Shakespeare. A brincadeira, em ritmo e adaptação muito portugueses, pode redundar em muita seriedade.»
ANTES DE COMEÇAR
de Almada Negreiros
de Almada Negreiros

ilustração de Miguel Sá Fernandes
“(...) as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!”
ANTES DE COMEÇAR, Almada Negreiros
ANTES DE COMEÇAR, Almada Negreiros
Algures no teatro do mundo, há um boneco e uma boneca que se mexem como as pessoas. O boneco não sabe que a boneca se mexe como as pessoas e a boneca não sabe que o boneco se mexe como as pessoas. As pessoas não sabem que o boneco e a boneca se mexem como elas.
ANTES DE COMEÇAR é uma conversa entre o boneco e a boneca, quando descobrem que se mexem e falam como as pessoas.
Almada Negreiros, único grande dramaturgo português do séc. XX, construiu uma fábula comovente e simples: não são animais que falam, são dois seres que, criados por humanos, se animam na ausência dos humanos. Fantoches? Marionetas?
Boneco e boneca, soprados de vida, vêem o mundo das pessoas; o mundo das pessoas grandes e o mundo das pessoas pequeninas porque “as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!”. O boneco revela as poucas certezas do pequeno mundo que conhece; a boneca conta o que lhe aconteceu e que é tudo o que sabe. Ambos aprendem que o coração, ao invés da cabeça, sabe sempre o que quer.
Fantoches? Marionetas? Talvez. Mas…silêncio, por favor. Porque a peça antes da peça vai agora começar...
ANTES DE COMEÇAR, de Almada Negreiros é o novo espectáculo da CTC, com estreia marcada para dia 27 de Novembro, pelas 16h.
interpretação: João Marta e Maria Albergaria
encenação: Juvenal Garcês
horário: sábados e domingos às 16h; segunda a sexta-feira para escolas mediante marcação
segunda-feira, novembro 28, 2005
domingo, novembro 27, 2005

Entrevista da fadista Kátia Guerreiro a Carlos Vaz Marques, por ocasião do seu penúltimo disco "Nas mãos do fado".
Kátia Guerreiro estará nos próximos dias 9 e 10 de Dezembro de 2005 no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, para dois concertos que se esperam, uma vez mais, inesqueciveis. Este concerto dará a conhecer o seu último trabalho "Tudo ou Nada".
Clique nos links e oiça a entrevista realizada a 27 de Abril de 2004 para a TSF.
http://tsf.sapo.pt/online/common/include/streaming_audio_radio.asp?audio=/2004/04/noticias/28/1pt27.asx - primeira parte
http://tsf.sapo.pt/online/common/include/streaming_audio_radio.asp?audio=/2004/04/noticias/28/2pt27.asx - segunda parte
http://tsf.sapo.pt/online/common/include/streaming_audio_radio.asp?audio=/2004/04/noticias/28/3pt27.asx - terceira parte
http://tsf.sapo.pt/online/common/include/streaming_audio_radio.asp?audio=/2004/04/noticias/28/1pt27.asx - primeira parte
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