quarta-feira, dezembro 07, 2005

O Catolicismo Português
O catolicismo – cujos méritos ou defeitos, sociais ou outros, não tenho aqui que examinar – tem a singularidade notável, provinda talvez do que nele resta de Império Romano, de ser, ao mesmo tempo que universal, particularizado em cada região onde existe. A Igreja de Roma é como um regime de municípios morais centralizados num império imponderável. Vasto sistema sincrético, tanto a podemos considerar uma sobrevivência do paganismo como uma transmutação dele. E em cada onde essa religião existe, esse paganismo sobrevive, ou se transmuta, de uma maneira peculiar. Nisto se assemelha a Igreja à Ordem Maçónica, ressalvando que nesta não há elementos pagãos.
Entre os portugueses, em quem, em meu entender, a emoção supera a paixão – e é isto, creio, o que radicalmente nos distingue dos vários espanhóis – o catolicismo assume naturalmente o que poderemos chamar o aspecto franciscano, que é, por assim dizer, o aspecto essencialmente emotivo do cristianismo católico.
Do paganismo latente no catolicismo não se manifesta em nós o aspecto estético, como diversamente nos italianos e nos espanhóis, nem o aspecto imperial, como diversamente nestes e nos franceses, mas o aspecto dispersivo e fluido, próprio de tudo quanto a emoção conduz. O nosso catolicismo é sem contornos – uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do em que realmente crê. Por isso o nosso ver o Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado o Menino Jesus. Por isso não curamos de Maria Virgem, mas só de Maria Mãe.
Por isso os nossos santos autênticos são um S. João Baptista menino – isto é, de muito antes de ele ser Baptista – ou um Santo António, concebido irremediavelmente como um adolescente infantil, cuja função distintivo – a de consertar bilhas – é um milagre-brinquedo.
Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria.

Fernando Pessoa

terça-feira, dezembro 06, 2005

Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55

Notável discurso da deputada Natália Correia, na sessão parlamentar de 22 de Março de 1990 e publicada no Diário da Assembleia da República a 23 de Março de 1990, número 55

"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Neste debate não me ocorre melhor argumento para fundamentar, histórica e culturalmente, os direitos da mulher em Portugal do que vexar a decrépita misoginia oriunda da mentalidade burguesa que os desrespeita e, nesta Assembleia, ainda cobra hospedagem — e a extinção da Comissão da Condição Feminina é um exemplo —, recordando-vos, Srs. Deputados, o que esqueceis. E é todo um passado português que aqui torno presente em ilustres vozes masculinas que, ao génio das mulheres, renderam a mais rasgada das admirações.
Logo no século XVI, Rui Gonçalves, lente de Direito Civil, oriundo da ilha de São Miguel, o que me é, obviamente, motivo de orgulho, defende os «privilégios e prerrogativas que o género feminino tem por direito comum e ordenaçooens do reino, mais que o género masculino», num livro assim intitulado, em que reconhece levar a mulher decidida vantagem de ânimo e psique nas qualidades requeridas para a governação do reino.
Ainda no século XVI, dentro do ideário do humanismo cívico, Duarte Nunes de Leão, na sua Descrição do Reino de Portugal, enaltece os prodígios das mulheres que nessa época tinham grande eminência nas letras, e João de Barros, no seu Espelho de Casados, afirmando que as mulheres são tão hábeis e sabedoras quanto os homens, acrescenta: «e se me disserem que muitas o não são, digo eu que também há muitos néscios e desarrazoados».
Certamente que tão fervoroso feminismo tinha o seu fundamento numa plêiada de mulheres notáveis. Dispensando-me de evocar aquelas cuja fama logrou romper as sombras com que a crónica as envolveu — Joana Vaz, Públia, Hortênsia de Castro e outras —, recordo, das latinisias que precederam de 50 anos o círculo letrado da infama D. Maria, essa extraordinária Leonor de Noronha, discípula dilecta de Cataldo Parísio Sículo, animador na corte portuguesa de um movimento cultural de cariz renascentista, que nela diz ter encontrado uma coisa do céu, a sibila de cumas.
Pois terá sido, na opinião autorizada do camonista José Maria Rodrigues, na tradução, e acrescento por D. Leonor, da Crónica Geral, de Marcanlonio Cocei Sabellicus, e da Crónica Geral da Eneida, do mesmo autor, que Camões encontrou uma das fontes de Os Lusíadas.
Considere-se ainda que não só nas letras, mas também nas armas (o que não me entusiasma muito, mas é um facto!), se distinguiram as mulheres que, oriundas da linhagem de Brites de Almeida e de Deuladeu Martins, e prosseguida nas guerras da Restauração com Mariana Lencasire, e no século XIX, com a Maria da Fonte, protagonizaram, no século XVI, em Cafim, no Norte de África, c sobretudo nos cercos de Diu, um ardor na peleja que legendariamente se acendeu na bravura de Ana Fernandes, a celebrada «velha de Diu».
Mas, já entrando no século XVII, continuam a fazer-se ouvir as vozes masculinas que rendem louvores aos méritos intelectuais e artísticos e mesmo proféticos do sexo feminino. É D. Francisco de Portugal na sua Arte de Galantería, dizendo ser coisa assaz lúcida o estimar o que as mulheres dizem como profecias e oráculos.
É D. Francisco Manuel de Melo e outros escritores a nomearem «fénix dos engenhos lusitanos» essa genial poetisa Soror Violante do Céu, que, antes de professar, já aos 17 anos era assaz admirada para que fosse escolhida uma comédia da sua autoria para ser representada nas festas oferecidas a Filipe III, na sua visita a Portugal.
São os corifeus da literatura a consagrarem outra notável poetisa, Soror Maria do Céu, «assombro do sexo feminino, inveja do masculino e admiração de ambos», assim a glorificaram os do seu tempo, preito que lhe é rendido pelo próprio qualifïcador do Santo Ofício, Padre Manuel Boaventura de São Gião, que, no seu parecer sobre um livro da poetisa, não escasso em timbres profanos como a poesia de Soror Violante do Céu, diz que ela é prodígio da natureza que excede a apreensão humana.
Em cobrar encómios semelhantes não lhes fica atrás Madalena da Glória, que, com as outras duas, forma a cintilante triologia de poetisas do século xvii, pois, como as outras, teve panegirístas fanáticos, que a designaram por «fénix dos engenhos».
Soror Madalena da Glória era também pintora, o que me leva a acentuar que a pintura, bastante cultivada neste período por mulheres artistas, hoje ignoradas, teve o seu expoente feminino em Josefa de Óbidos, que continua a encantar-nos com a voluptuosidade da doçaria das suas naturezas-mortas e com o lirismo encantador dos seus Meninos Jesus.
E chegamos ao século xviii. O Iluminismo contém uma componente feminista de que é arauto Luís António Vemey, que, no seu Verdadeiro Método de Estudar, essa extraordinária figura da nossa história da pedagogia, prescreve o que se deve ensinar às mulheres, que considera tão dotadas intelectualmente quanto os homens, indo mesmo ao ponto de afirmar que se elas se dedicassem ao estudo como os homens, então veríamos quem reinava.
Também desta época, mas não compartilhando a confiança iluminística na razão, é uma obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, em que o autor, Matias Aires, se insurge contra a situação da mulher sujeita a uma condenável subalternização. Em bom entendimento estaria ele nestas ideias com a irmã, Teresa Margarida da Silva Orta, nascida no Brasil, autora da novela Aventuras de Diofenes, em que se inscreve a marca feminista, que teve a honra de ser a percursora do romance brasileiro.
É nesta época, em que proliferam poetizas de grande mérito, que, de entre elas, esplende Leonor de Almeida, a grande Aloma. Já muito jovem, reclusa no convento de Cheias em virtude do seu parentesco com os Távoras, Leonor de Almeida faz afluir ao convento os melhores poetas do tempo, que vão admirar esse prodígio feminino. E dela que erradia, em Portugal, uma nova cultura que faz voltar a atenção da juventude para uma literatura que, vinda da Alemanha, vai revolucionar as letras nacionais: o Romantismo.
Alexandre Herculano era um desses jovens, que, no elogio que tece à poetisa por ocasião da sua morte, se confessa discípulo dessa mulher, sua mestra em conhecimentos nos quais nenhum português a igualava. São palavras de Alexandre Herculano.
Pois é este Alexandre Herculano, cavaleiro romântico da Ordem da Sabedoria Feminina, que na sua História de Portugal acentua ter sido durante a regência de D. Teresa que a nacionalidade portuguesa começou a caractcrizar--se, tornando-se ela própria — ela, D. Teresa — vítima do excesso com que fez radicar-se e definir-se esse sentimento.
Nesta mesma doutrina se situa Fernando Pessoa quando exalta em D. Teresa o seio augusto que amamentou a Nação. E previne:
Dê lua prece outro desuno A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu
Envelheceu, sim, pois fatalmente terá de enfermar o homem de cansaço do poder, segundo a lei natural de que tudo se esgota, atingindo o seu termo.
Exorto-vos, por isso, Srs. Deputados, como representantes da Nação que no seu longo passado tanto enalteceu a mulher, através das vozes dos seus mais ilustres varões, o que desmente a tradição machista portuguesa, a tomar o alerta do poeta como bom conselheiro. Expulsai do vosso ânimo e das vossa práticas uma agónica miso-ginia, que ofende a memória dos ascendentes que ilustraram o vosso sexo.
O feminismo histórico, que forte incidência teve na implantação e desenvolvimento da I República, é assaz conhecido para que lhe dê realce nesta minha resenha dos olvidados vultos masculinos que tanto enalteceram os engenhos femininos. Mas, na aurora desse feminismo, cumpre recordar D. António da Costa e o conde de Sabugosa, que se distinguiram como cronistas do relevo que a mulher teve na sociedade portuguesa. E recordarei que o conde de Sabugosa dedicou páginas de grande admiração a essa notável duquesa de Palmeia, escultora e fundadora das cozinhas económicas, conhecida no seu tempo como a duquesa socialista, trisavô do deputado Pedro Campilho e meu grande amigo, ascendência que muito o honra.
Assinale-se que estes dois autores eram representantes do «velho» Portugal, que aos méritos intelectuais da mulher deu o pedestal que o patrismo burguês tudo faria por derrubar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Propus-me trazer à luz vozes ignoradas ou esquecidas do passado que, provando ser o tão falado machismo português uma gabarolice frívola sem consistência nem tradição cultural no nosso país, se juntam à prece com que o poeta da Mensagem termina o poema que dedica à mãe da nacionalidade:
Mas iodo o vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante De novo o cria
Atente nisto o sexo masculino c saiba renascer das cinzas de um poder que milenariamente lhe pesa. Porque já neste mundo de vertiginosas mudanças, sociólogos do futuro avançam vaticínios baseados na leitura de sinais que indicam que no ano 2000 o poder transitará para a liderança feminina. Salvo seja! Que esfalfadela!

Risos.

Por mim, podem os homens ficar nos governos a gerir coisas cada vez menos interessantes, mas de que eles gostam muito, como a economia e a política que a serve,...

Risos.

... contanto que tirem da sua natureza aquilo que também há de feminino neles, a fim de que não haja fricção
com a política de desenvolvimento cultural, que, essa sim, deve ser o pelouro das mulheres que, pela sua sensibilidade e paixão pelas artes, estão naturalmente vocacionadas para a exercer, não esquecendo, claro, que a cultura é o «motor» da mudança exigida pela crise de valores que está a abalar os alicerces desta nossa civilização que o homem fundou.
Aplausos gerais."

E em resposta a alguns deputados, refere:

"A Sr.ª Natália Correia (PRD): — Querido amigo Pedro Campilho, agradeço-lhe as palavras que teve.
Minha querida amiga, falemos assim, Manuela de Aguiar, há coisas em que efectivamente não nos entendemos. Realmente, a minha querida amiga segue uma linha feminista que eu não sigo...

Risos.

... e que às vezes colide com determinadas atitudes que eu estranho em si, mas enfim...

Risos.

De qualquer maneira, devo dizer que não falo em divisão de trabalho e que fundamentei histórica e culturalmente o que disse.
No entanto, quero lembrar-lhe que foi sempre nos salões das mulheres que se desenvolveu a cultura europeia.
Não sei, mas talvez se interesse pela economia. Não repudiu a política. O que repudiu é a política tal como ela se exerce. Por isso, penso que tem de nascer uma nova cultura para que dela brote uma nova política. Enfio, sim, aí estamos de acordo.
Apesar de pensar que a mulher tem uma palavra muito importante a dizer no Poder, sou pelo androginato social, não estou interessada na inversão de valores. Não podemos derrubar os simpáticos homens, que são tão agradáveis...

Risos.

... para as mulheres realmente tomarem conta do Poder. Não!... Sou pela bissexualidade!... Bem, não propriamente no aspecto erótico...

Risos.

Mas também pode ser, que não me importo.

Risos.

Também pode ser, porque não sou puritana.

Risos.

E se unirmos o que há de feminino no homem... foi por isso que lancei uma exortação para que o homem assuma o que tem de feminino, porque isso é necessário. E quando falo de uma cultura nunca digo uma cultura feminina, mas digo a cultura do feminino, que é também a cultura do homem que, subjugado, enfim, por uma cultura nacionalista, teve de esmagar esses impulsos.
Porém, esses impulsos são muito necessários para a mudança da nossa sociedade. Agora, naturalmente, a mulher, por uma ociosidade a que foi forçada, foi acumulando energias que talvez a predisponham para ser mais activa no mundo da política cultural, que eu penso ser o seu domínio natural, porque é a cultura que vai transformar tudo. Sempre foi assim e assim há-de ser. Não estou a substimar o papel da mulher, bem pelo contrário! Quanto àquele senhor...

O Sr. Amândio Gomes (PSD): — Amândio Gomes!

A Oradora: — Desculpe, Sr. Deputado, mas faço-lhe notar que a «bomba» demográfica é um perigo que ameaça a nossa civilização.

Risos

Realmente a reprodução da espécie tem de continuar, nós não podemos desaparecer da face da Terra. Todavia, a «mulher parideira» não é propriamente o modelo que me encanta.

Aplausos do PRD. do PS. do PCP e de Os Verdes e risos do PSD e do CDS."

BREVE ENCONTRO

Entre parêntesis de fogo
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.

Carícias vagarosas de fumo,
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.

Cobertos pelo pedaço
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?

Acaso de um planeta alcoólico
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?

Natália Correira

domingo, dezembro 04, 2005


ALMADA NEGREIROS

ANTES DE COMEÇAR




CENA ÚNICA


(Depois de subir o pano, ouve-se um tambor que se vai afastando. Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco levanta-se, e vai espreitar ao fundo para fora. Entretanto a Boneca senta-se e está admirada de ver o Boneco a andar. Quando o Boneco volta para o lugar, fica admirado de ver a Boneca sentada a olhar para ele.)

O BONECO - Tu também te mexes como as pessoas?!

A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!...

O BONECO - Só agora é que dei por isso!

A BONECA - (Idem.) Chiu!...

O BONECO - Eu julgava que de nós os dois era eu só que podia mexer-me!

A BONECA - (Sempre muito baixinho.) Eu também julgava que de nós os dois, era eu a única que podia mexer-me!

O BONECO - E nunca sentiste a puxar por ti todas noites?!

A BONECA - (Idem.) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!

O BONECO - E tu? Puxaste por mim alguma vez?

A BONECA - (Idem.) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti, tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...

O BONECO - Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai longe, levanto-me e vou espreitar para fora...

A BONECA - Nunca te vi assim!... Às vezes sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem... e deixava-me estar boneca...

O BONECO - Se eu soubesse que tu eras como eu!

A BONECA - Se eu soubesse que também tu eras assim!

O BONECO - A culpa é tua! Eu bem puxei por ti todas as noites!

A BONECA - Que pena! E eu que não adivinhei que eras tu! Olha, perdoas? Tu não imaginas como eu sou tímida!...

O BONECO - É asneira!...

A BONECA - Chiu!... Não fales alto!

O BONECO - Não está ninguém lá fora! Eu nunca me levanto sem ter pensado primeiro se está alguém lá fora!... Só depois de ter pensado bem é que me levanto... E até hoje, ainda ninguém deu por nada... nem tu!

A BONECA - É verdade, nem eu...

O BONECO - Tu és tímida!

A BONECA - Pois sou...

O BONECO - E não há razão... pois se temos a certeza de que não está ninguém a ver! Faz algum mal?

A BONECA - Mas se vissem?

O BONECO - Não podem ver!

A BONECA - Tu tens a certeza de que não te podes enganar?

O BONECO - As pessoas é que se enganam! Nós os bonecos, nunca nos enganamos!!!...

A BONECA - A dizer a verdade, eu nunca me enganei... Mas nunca faço nada porque tenho medo de me enganar!...

O BONECO - (A ralhar.) Pareces mais uma menina do que uma boneca!!!

A BONECA - Mas o que é que queres?... Eu sou assim... A ti que és boneco, não te fica mal levantares-te por tua própria iniciativa e sem que ninguém saiba... (A crescer de interesse.) Mas achas que me ficava bem a mim uma boneca, levantar-me por minha própria vontade, sem mais nem menos?

O BONECO - Estou-te a dizer que todas as noites me fartei de puxar por ti!...

A BONECA - Eu julgava que era o Homem!

O BONECO - Ora aí está! De que serviu eu ter puxado tanto por ti, se tu te punhas a julgar outras coisas!...

A BONECA - (Perfil.) Chiu!... Supõe tu que era o Homem.

O BONECO - Mas não era o Homem, era eu!!!

A BONECA - (3/4.) Mas eu é que não sabia!...

O BONECO - Olha! Digo-te outra vez: pareces mais uma menina do que uma boneca!

A BONECA - E não dizes nada mal!... Pois quantas e quantas vezes eu me esqueço de que sou uma boneca e me ponho a pensar, exactamente como se fosse uma menina!

O BONECO - (Ri.) Isso é mesmo de boneca!

A BONECA - Mas que queres que eu faça? Eu sou assim... Não fui eu que me fiz!... E tu também não podes falar!... Tu levantas-te quando te apetece e mexes-te à tua vontade, como se fosses uma pessoa... e isto, para um boneco parece a mais!...

O BONECO - És mesmo parvinha de todo! É o que eu te digo: nem pareces uma boneca! Então tu não sabes, minha estupidazinha, que um boneco, quando não está ninguém a ver se mexe à sua vontade?

A BONECA - Já me quis parecer isso... tenho pensado muito a esse respeito... mas a certa altura começa-me a doer a cabeça e nunca consegui, até hoje, pensar esse assunto todo até ao fim!

O BONECO - Tu és uma fraca!

A BONECA - Pois sou... Não tenho coragem nenhuma! Eu nem tive coragem para me mexer da posição em que o Homem me deixasse!... E tu? Lembravas-te sempre, exactamente, da posição em que o Homem te tinha deixado?

O BONECO - Sempre!

A BONECA - Ah! Que boa memória que tu tens... Eu não sei se tenho boa memória. Nunca até hoje tive coragem para experimentar levantar-me da posição em que o Homem me tinha deixado...

O BONECO - Então como é que sabias que podias mexer-te?

A BONECA - Ouve! Eu explico-te: quando já havia muito tempo que eu não sentia nada em redor de mim, depois de o tambor se ouvir já lá muito ao longe... eu abria assim um bocadinho os olhos sem ninguém perceber... e ficava a perceber tudo... depois experimentava muito devagarinho mexer um dedo qualquer, ao calhar, e mexia!... Outras vezes estendia um nadinha uma perna, que ninguém podia dar por isso... experimentei aos poucochinhos mexer tudo, muito devagarinho e tudo mexia!... Ah! Que se eu tivesse a certeza de que não me esqueceria da posição em que o Homem me tinha deixado... eu havia de me levantar e dar uma voltazinha, para experimentar...

O BONECO - O que me espanta, é que nunca tenhas dado por mim!

A BONECA - Não estás com certeza mais admirado do que eu... mas talvez seja por eu ficar quase sempre por acaso com a cara virada p'ró chão... e quando ficasse com a cara p'ra cima, também em nada podia reparar, pois mal te sentisse mexer, punha-me logo a julgar que era o Homem que estava a puxar por ti... e fazia-me imediatamente boneca... Foi sempre tão grande o medo que eu tinha que o Homem soubesse que eu mexia, que à mais pequenina coisa me punha logo como morta...

O BONECO - Ouve lá! Porque é que falas tão baixo? A tua voz não dá mais do que isso?

A BONECA - Parece-me que dá... Ainda não experimentei gritar, mas tenho a certeza de que sou capaz de dar o grito que se ouve mais de longe!

O BONECO - Então porque falas tão baixo?

A BONECA - (Muito baixinho.) Chiu!... É por causa do Homem... Coitado, se ele soubesse que nós mexemos!... Tu já pensaste a sério a este respeito? Um dia, sem querer, tu julgas que o Homem não está aqui e ele está a ver-te! Que horror!!! Nem quero pensar!

O BONECO - Ora! Mesmo que o Homem me visse a mexer, julgava que era um sonho... Não acreditava...

A BONECA - Não é tanto assim!... Tu é que não sabes o que se passa! Há dias, o Homem estava bem disposto, chamou a mulher dele e disse-lhe a apontar para mim: não achas que ela - era eu - tem cara de quem está à espera de que a gente não esteja a ver para se pôr à sua vontade?

O BONECO - Foi o Homem quem disse isso assim?!

A BONECA - Juro-te pela minha boa sorte!!!

O BONECO - E a mulher do Homem o que é que disse?

A BONECA - A mulher do Homem disse assim: (Devagar.) Olha que estás para aí a dizer uma coisa que já me tem vindo à ideia muitas vezes e sem eu querer!

O BONECO - Foi só isso que eles disseram?

A BONECA - E achas pouco?!!! Os filhos deles também já andam desconfiados... e agora, em vez de irem brincar como dantes, vão-se pôr à espreita ali, daquele canto, à espera de que qualquer de nós de mexa...

O BONECO - Seja quem for, se vir um boneco a mexer sozinho, julga sempre que é um sonho... e não acredita!

A BONECA - Faz tu o que quiseres: a mim é que eles não me hão-de ver nunca a mexer sozinha!

O BONECO - Tu és medrosa!

A BONECA - Pois sou...

O BONECO - Mas eu já fui espreitar... não está ninguém aqui ao pé.

A BONECA - Tens a certeza? Tu nem sequer sabias o que eles tinham estado a dizer a nosso respeito!...

O BONECO - Sim, tenho a certeza! Foram todos juntos p'ra cidade chamar gente p'ró espectáculo daqui a bocado... O Homem levava o bombo e os pratos; quem tocava o tambor, hoje, era o filho mais velho; a mulher levava o cornetim e a filha ia à frente com o cartaz e os guizos.

A BONECA - Logo hoje por infelicidade, a filha não me quis levar com ela! Quando está contente leva-me sempre na algibeira do casaco...

O BONECO - Já por várias vezes fomos os dois juntos dentro da mesma algibeira!...

A BONECA - É verdade!... Nesse tempo não sabia que tu eras como eu...

O BONECO - É verdade!... nem eu!... e podíamos ter falado tanto, dentro da algibeira!... Fartei-me de puxar por ti!...

A BONECA - Eu não sabia que eras tu!

O BONECO - Era eu!

A BONECA - Porque não me disseste ao ouvido?

O BONECO - Eu não sabia que tu ouvias!

A BONECA - Pois ouvia!

O BONECO - E tu nunca te aborrecias de estar sempre na posição em que o Homem te tinha deixado?

A BONECA - Punha-me a pensar... Pensei muito! Pus por ordem todas as coisas que aconteceram comigo... Sei tudo de cor...

O BONECO - Conta, conta o que sabes!...

A BONECA - Só há uma coisa que eu não sei e que também aconteceu comigo...

O BONECO - O que foi?

A BONECA - Não sei explicar a razão por que são tão pequenas as pessoas que vêm todas as noites ver o espectáculo!...

O BONECO - (Ri.) São assim tão pequenas porque ainda não chegaram a grandes... As pessoas pequenas chamam-se crianças.

A BONECA - Isso não sabia eu... Era a única coisa que eu não tinha sido capaz de compreender!... Via umas pessoas maiores e outras mais pequenas, e não sabia a razão.

O BONECO - Ah! Ah! Ah!

A BONECA - Naturalmente estás-me a enganar?...

O BONECO - Não te estou a enganar, não... estou a rir-me do que terás para contar se não sabias que as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!... (Ri.)

A BONECA - E não sabia! É alguma obrigação saber essas coisas? Se começas a rir não te posso perguntar outra coisa que também não sei e que também aconteceu comigo...

O BONECO - O que foi? Pergunta!

A BONECA - P´ra onde é que vão as pessoas grandes?

O BONECO - Vão ver outras coisas!

A BONECA - Então há outras coisas?

O BONECO - São só p'rás pessoas grandes.

A BONECA - Ainda nunca vi... nunca aconteceu comigo... só sei do que já aconteceu comigo...

O BONECO - As coisas que há p'rás pessoas grandes só quando acontecem connosco é que se compreendem.

A BONECA - Talvez que ainda venham a acontecer comigo!... contigo já aconteceram?

O BONECO - Também ainda não... Só as crianças é que gostam de bonecos... As pessoas grandes fartaram-se de ver bonecos e foram ver outras coisas...

A BONECA - Naturalmente, estiveram que tempos à espera que nós mexêssemos, e como nunca nos mexêssemos nem disséssemos nada, aborreceram-se e foram-se embora!

O BONECO - Não sei se é assim como tu estás a dizer... Só sei que o Homem descobriu que as crianças gostavam de ver os bonecos a mexer como as pessoas...

A BONECA - O Homem teve uma boa lembrança de fazer mexer os bonecos por causa das crianças.

O BONECO - Do que as crianças gostavam mais era de chegar a ser bonecos!!!

A BONECA - Felizmente para o Homem, há sempre crianças por toda a parte!... Porque é que elas gostam de ver os bonecos mexer como as pessoas?

O BONECO - É porque começam a pensar em muitas coisas que ainda não aconteceram com elas!

A BONECA - Ah!... Eu sou como as crianças... só sei do que já aconteceu comigo!...

O BONECO - Conta! Conta o que sabes!

A BONECA - Eu não sei se o que aconteceu comigo tem algum valor... mas tu não calculas a porção de coisas sérias que têm passado p'la minha cabeça por causa do que aconteceu comigo!... coisas de nada e que nunca mais acabam!

O BONECO - Tu é muito divertida!!!

A BONECA - Tu não me conheces! Tu estás habituado a ver-me só por fora... nunca aconteceu veres o que eu sou por dentro!...

O BONECO - Era isso mesmo que eu queria que tu contasses!

A BONECA - Tu sabes bem que eu não tenho história... a minha história é a daquela que me fez... Mas não sei mais nada... Assim eu soubesse contar-te a única história que eu sei!

O BONECO - Sabes, sim! Conta!

A BONECA - (Pausa.) Fui feita especialmente para a própria que me fez... e p'ra mais ninguém!... Talvez a minha história não valha nada... mas foi só feita p'ra Ela!... Ela nunca pensou em mostrar-me a mim... Longe estava Ela, quando me fez, de supor que eu havia de ir p'ro teatro! Ela fez-me de propósito só p'ra Ela, p'ra não estar sozinha... fui feita aos pedacinhos, de coisas que já não serviam p'ra mais nada... Aqueles pedacinhos mais bonitos das coisas que já não serviam p'ra mais nada, guardava-os Ela p'ra me fazer a mim... Achas que tem algum valor a minha história?

O BONECO - Conta, conta que eu gosto muito!

A BONECA - Fui feita aos poucochinhos. Ela não podia estar sempre a tratar de mim... era só àquelas horas, depois de estar tudo pronto... Quando não havia mais nada que fazer... então, é que chegava a minha vez!... Mas não era porque Ela não me quisesse e muito, mas as outras coisas não podiam ficar por fazer... não achas? Era justo, eu estava depois das outras coisas... No fim de tudo, logo a seguir, era eu!... Mas quando chegava a minha vez, tu não imaginas, Boneco, a alegria que Ela trazia nos olhos!!! Via-se perfeitamente que não tinha pensado noutra coisa!... Achas que vale a pena continuar?

O BONECO - Conta, conta! Eu gosto muito!... E parece-me que estou a reconhecer essa menina!...

A BONECA - Não há outra no mundo!... E se for a mesma tu sentes logo... ainda que eu não te saiba contar a história dela!

O BONECO - Se for Ela, eu digo-te.

A BONECA - Tu não imaginas, Boneco, o que Ela fez por mim! Fui muito pensada!... Dia e noite não pensava noutra coisa... Ela cuidou imenso em dar-me um feitio que encantasse!... Fez tudo por mim!... Eu era p'ra sair melhor do que saí... Ah! Se eu fosse como Ela me tinha pensado!!! Mas eu estou contente... eles é que não sabem ver-me, eles vêem-me só por fora e julgam que por dentro não tenho nada... Não é que eu seja por dentro diferente do que eu sou por fora... é a mesma coisa... Mas eles vêem-me mal por fora, porque não sabem como eu sou por dentro... Ninguém sabe ver-me!... Oh! Ela, sim!... Se ao menos eles soubessem como eu fui feita!... Ah! Lembro-me tão bem!... Fui feita com o coração!... Se o que sai do coração fosse igual ao que está por dentro... não era uma simples boneca vestida de seda... era outra coisa! Era o próprio coração por dentro! Nunca viste o coração por dentro?

O BONECO - (Devagar.) Vi! É uma boneca vestida de seda...

A BONECA - Oh! Como tu viste bem o coração!!! Dá-me a tua mão... (Pausa.) Conta como tu viste o coração!...

O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)

A BONECA - Ouve, Boneco! Tu achas que eu sou bonita? É porque ela quis tanto fazer-me exactamente como era por dentro e por fora... E é por isso que eu me acho tão linda!... Por isso é que eu gosto tanto de mim... Olha bem p'ra mim... Já reparaste bem?... Os meus olhos... a minha boca... os meus cabelos... a cor dos meus olhos... a cor da minha boca... a cor dos meus cabelos... o meu feitio... a minha maneira de vestir... todas estas coisas são d'Ela!... Ela e eu somos uma coisa só!... Ela copiou-se exactamente em mim!...

O BONECO - Nós, os bonecos, somos o melhor retrato da idade de quem nos fez!!!

A BONECA - Ah!... Tu dizes tão certas as coisas! Vê-se perfeitamente que já aconteceram comigo!

O BONECO - Não me perguntes nada... Deixa estar calado o meu coração... (Pausa.)

A BONECA - Às vezes, o dia não vinha como Ela tinha esperado! Quando tal acontecia, nem eu sequer vinha a propósito... Nada lhe servia... Ninguém diria que era Ela própria que estava ali!... Mas outras vezes, tudo era d'Ela!... Ela é que animava todas as coisas... Ao pé dela tudo era riqueza e alegria! Ela havia de fazer muita falta a quem não a conhecesse!... Tu não imaginas a porção de novidade que Ela tinha p'ra dar, se alguém lhas viesse pedir!... Nunca veio ninguém! Alguns ainda olharam mas não a viram... Nunca ninguém soube que Ela era a Rainha!

O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina...

A BONECA - Uma grande Rainha que não tinha mais nada do que uma boneca feita por Ela!... Era eu, a boneca... Todos passaram diante d'Ela e ninguém se ajoelhou. Se a tivessem conhecido como eu a conheci todos ajoelhariam diante d'Ela!...

O BONECO - Parece-me que estou a reconhecer essa menina!...

A BONECA - Não há outra no mundo!

O BONECO - Mas... esta que eu digo não se parece contigo!

A BONECA - E por dentro? Também não se parece comigo?

O BONECO - Por dentro é que eu te acho tal e qual!

A BONECA - É que tu ainda não me viste bem por fora!

O BONECO - Talvez sejam parecidas só por dentro...

A BONECA - Isso não pode ser! O que uma pessoa é p'ra fora é igual p'ra dentro! É uma coisa só!... Isso que tu dizes não está certo... não é assim... Tu não sabes isso bem!... Isso ainda não aconteceu contigo!

O BONECO - Tudo o que acabas de dizer acontece comigo também!...

A BONECA - É porque tu ainda não me viste bem por dentro mas agora, já que nos conhecemos, havemos de falar muito... p'ra nos conhecermos ainda melhor um ao outro, por dentro e por fora... Deus queira que isto vá muito bem connosco!

O BONECO - Eu sou como tu... tudo o que aconteceu comigo eu sei de cor... é tudo tão fácil! Só, não sei...

A BONECA - Conta, conta!

O BONECO - Foi uma das coisas que aconteceu comigo...

A BONECA - Não tenha medo de contar!

O BONECO - Não, Boneca, ouve! Deixa estar calado o meu coração... ele está calado por causa de mim.

A BONECA - Se eu soubesse falar de outras coisas!... Mas eu só sei do que aconteceu comigo.

O BONECO - Não, Boneca... não digas nada... Deixa estar calado o meu coração... Eu não soube ouvir o coração... e o que ele quer é tão claro!

A BONECA - O que é claro é como a luz!

O BONECO - A luz não se engana!...

A BONECA - Nos é que nos enganamos com a luz.

O BONECO - É assim que acontece com a luz!... (Pausa.)

A BONECA - Ouve! Tu também sentes o coração dentro de ti muito grande... que não cabe dentro do peito? Ah! Eu sou tão pequena! E o coração está dentro de mim... à espera pronto p'ra sair... pronto p'ra dar-se e a hora não chega!

O BONECO - Aquela hora que há...

A BONECA - Aquela hora que não passa... aquela hora que ainda não veio... aquela hora que deixa passar as outras adiante... as horas de esperar!...

O BONECO - Deixa estar calado o meu coração...

A BONECA - Dá-me a tua mão!... que eu saiba da tua mão... Que as tuas mãos não sejam as minhas!... que sejam outras mãos como as minhas... As minhas mãos não me bastam... faltam-me outras mãos como as minhas!

O BONECO - É assim que bate o coração...

A BONECA - Dá-me a tua mão!... que os nossos corações sejam a repetição um do outro como é justo!... que as tuas mãos me tragam festas, me tragam paz... paz que se ganha!... (Pausa.) Dá-me as tuas palavras!... essas que tu guardas... essas palavras que não morrem, nem se matam!... essas que lembram o mar... o mar que nunca pára... o mar que não se cansa... o mar que insiste... o mar que não se gasta

O BONECO - Cala-te, coração! Deixa ouvir o mar...

A BONECA - Tu também viste o mar?

O BONECO - O mar foi feito por nossa causa!...

A BONECA - Ah!... É assim, juro-te, exactamente assim o mar... Oh! Como tu o viste bem! Dá-me a tua mão p'ra ser tão grande o silêncio... (Pausa.) O mar!... não acaba nunca o mar!...

O BONECO - O mar começa sempre...

A BONECA - É como o coração dentro de mim!... E nunca sai do peito o coração!...

O BONECO - Como pode mudar-se o coração?...

A BONECA - Às vezes a luz brilha no mar... como se tivesse chegado a hora...

O BONECO - É a fé! É o coração que não se engana!

A BONECA - Mas quando o sol desaparece fico eu tão sozinha! Fico a pensar no que tem acontecido... e não sei o que me falta!... Se não fosse o luar, ainda ficava mais sozinha!... Se me ponho a pensar que o luar me faz companhia, sinto-me enganada! E nos dias em que chove, a chuva também foi enganada...

O BONECO - A quem acredita no coração tudo serve de engano.

A BONECA - Mas quando é o coração que fala, parece-me de mais p'ra mim.

O BONECO - O coração é maior que nós!

A BONECA - E eu sou tão pequenina! P'ra que me deram um coração tão grande?...

O BONECO - Deus fez-nos um coração p'ra não sermos tão pequenos como nós...

A BONECA - Mas é que não tenho forças p'ra ele! Ele é grande de mais p'ra mim! Tu já reparaste bem como eu sou pequenina?

O BONECO - Tu és do tamanho dos que têm coração.

A BONECA - Ah!... é assim, juro-te, é exactamente assim como tu estás a dizer!... mas a hora não chega!... Eu saberei esperar... mas o tempo não espera!..

O BONECO - Assim, é não saber esperar!

A BONECA - Eu por mim não me importo... mas o coração?

O BONECO - O coração espera por nós!

A BONECA - Mas tu não vês que eu sou pequenina... que não tenho forças... que eu não sou como o mar que não se gasta!... tu não vês que eu passo depressa?

O BONECO - Por mais depressa que passes, o teu coração espera por ti... o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres, o teu coração não espera mais ninguém... Se tu não vieres nunca, o teu coração não conta, não ouve. É como se não tivesse havido coração. Por mais depressa que passes, dá-te inteira ao teu coração... Porque só sabe do tempo quem não traz coração... o tempo é pecado de quem não sabe amar!!!

A BONECA - Ah!... é assim, juro! É exactamente assim que bate o coração!

O BONECO - Acredita no coração! Ele sabe de cor o que quer!... Não foi necessário ao coração ir aprender o que queria... A nossa cabeça é que precisa de aprender o que quer o coração!

A BONECA - É assim que bate o coração...

O BONECO - O coração nunca está só... O nosso coração é nosso, ele não pode viver sem aquele a quem pertence... ele espera por nós!

A BONECA - Às vezes, a cabeça quer ser mais do que o coração... e fica de costas viradas p'ro coração!

O BONECO - A cabeça não deve ser senão o que o coração quiser! Nunca é o coração que nos falta, somos nós que faltamos ao coração!

A BONECA - Ah!... é assim, juro, é assim que bate o coração!...

O BONECO - Só não entende o coração quem não sabe escutá-lo... ele está sempre a contar aquela hora por que se espera... aquela hora que existe p'ralém da sabedoria... e que tem a forma simplicíssima dum coração natural!...





(Começa-se a ouvir um tambor lá muito ao longe. De repente, os Bonecos ficam na posição em que estavam ao princípio. O tambor vem-se chegando a pouco e pouco. Quando já está bastante perto, ouvem-se muitas vozes de crianças em grande alegria. Depois percebe-se que chegaram ao pé do teatro, e é quando começa a música com o bombo, os pratos, o cornetim, o tambor e os guizos. Abre-se a cortina do fundo e do lado de fora estão sentadas nos bancos muitas crianças com as pessoas que as acompanham. Quando já está quase a começar a representação desce o pano.)


FIM

sábado, dezembro 03, 2005

ANTES DE COMEÇAR
de Almada Negreiros


fotografia de Luís Rocha
O Sonho do Almada
Numa noite em que reli esta peça do Almada, confesso... que me comovi até às lágrimas. No fim da leitura, sorri ironicamente dos meus olhos enevoados, não percebendo o que as tinha provocado. Se eram as lembranças da adolescência, ou se tinha estado a sonhar com o coração, no sonho do Almada. Então, decidi continuar a sonhar com um coração que não se cala. E fiquei contente, porque tinha este ponto em comum com o Almada! Fui para a cama e adormeci sem pesadelos...
À Maria e ao João, que se estreiam com este texto, os meus mais sinceros desejos de felicidades, e que o Teatro lhes dê os sonhos mais bonitos das suas vidas. Afinal de contas... o que é a vida sem teatro? Nada! Porque o teatro é uma arte maior, como Mestre Almada nos mostra neste texto.

VIVA O TEATRO
VIVA
JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS

Juvenal Garcês
1 de Dezembro de 2005

terça-feira, novembro 29, 2005

PARABÉNS À COMPANHIA TEATRAL DO CHIADO E AOS 10 ANOS DAS OBRAS COMPLETAS DE WILLIAM SHAKESPEARE EM 97 MINUTOS...
mais coisa menos coisa


Aos vinte e quatro dias de Novembro do ano da graça de mil novecentos e noventa e seis, estreava no reino dos Algarves, mais propriamente na cidade foraleira de Portimão, aquele que viria a constituir-se como o maior êxito teatral de sempre em terras lusas: As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, homenagem de três norte-americanos não alinhados: Adam Long, Jess Borgeson e Daniel Singer, ao Gil Vicente lá das Terras de Sua Majestade: William Shakespeare! Paródia que mereceu desde então adjectivações várias: «alucinante», «irreverente», «cardíaco», «hilariante», «desopilante», «burlesco», «divertido», «transversal», «louco», «irresistível», «fenómeno», «endiabrado», «interactivo», «mordaz», «histriónico», «genial», «excelente», «imperdível», «incontornável», «truculento», «indispensável», «obrigatório», etc., etc., etc. ...! Pois bem, volvidos nove anos a gesta da Companhia Teatral do Chiado continua com toda a pujança e regressa uma vez mais ao reino dos Algarves por ocasião do Festival de Outono da mui prestigiada instituição INATEL. O Auditório Pedro Ruivo (Conservatório Maria Campina) acolherá assim o mais energético elenco do país: João Carracedo, Manuel Mendes e Simão Rubim. A função terá lugar no dia 25 de Novembro (mera coincidência de data!) pelas 21h30. É pois com muita alegria e muita festança que a Companhia Teatral do Chiado vê as suAs Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos entrarem no 10º ano consecutivo de representações. Para os autos e para a história registe-se a 102ª digressão e a 909ª representação para um cômputo de mais 138.500 espectadores.
IMPRENSA

Lauro António Comércio do Porto
«Percebe-se porque razão muitos espectadores já viram vezes sem fim esta obra, porque ela nunca é a mesma, vive da improvisação do dia, da relação palco-plateia que se estabelece, e da inspiração de uns e outros. Este é o tipo de teatro que nenhum meio tecnológico consegue substituir. Perante o cinema, a televisão ou mesmo a interactividade do pc, este teatro não morre, sobrevive.»

Joel Neto Record
«A "soirée" é imperdível.»

José Jorge Letria Jornal da Costa do Sol
«Vale a pena ter presente o êxito desta companhia profissional que, erguendo alto a bandeira que Mário Viegas nunca deixou de empunhar, assume o teatro como um projecto profissional de qualidade que não se confina ao espartilho das modas (...) imposto pela crítica dominante.»

Ricardo Salomão Blitz
«... uma intensa interactividade com a audiência, conseguindo construir com segurança, alegria e inteligência uma enorme festa.»

Jaime Cravo Política Moderna
«A melhor homenagem (em originalidade e simplicidade) alguma vez feita ao criador de Romeu e Julieta. Eles, os três shakers preferidos de Shakespeare, com a capacidade para 37 shots de cair para o lado, merecem todas as palmas e mais algumas. Ela, a Companhia Teatral do Chiado, merece o sucesso que tem tido e o apoio que não tem do Ministério da Cultura. Juvenal Garcês foi quem dirigiu, Vasco Letria deu luz (...). Para todos eles, e mais alguns, muitos, Gustavo Rubim, Rita Lello, Jorge Pinto (...). Para todos, pensamos não ter esquecido ninguém, a POLÍTICA MODERNA tem algumas palavras que ainda ninguém lhes deu: gostámos muito do espectáculo.»

Manuel João Gomes Público
«Nunca tão poucos actores - um trio exímio na arte de comunicar - provocaram tantas gargalhadas (...)»

Eugénia Vasques Expresso
«A Revisitação hilariante da Obra Completa do velho Bardo.»

Rita Bertrand A Capital «Toda a plateia ruboresce de riso com as piadas picantes»

Ana Maria Ribeiro Correio da Manhã
«Um espectáculo absolutamente hilariante, a um ritmo de cortar a respiração»

Carla Maia Notícias Magazine
«Um trio de actores insuperável»

Fernando Midões Diário de Notícias
«Shakespeare revisitado numa obra que consegue ser plena, conseguida, lucida, critico-humorística»

Marina Ramos Público
«Um espectáculo interactivo, capaz de eliminar qualquer depressão»

Sofia Reis Valor
«Se quer passar um bom serão, não perca esta peça. Vai ver que não se arrepende.»

Carlos Porto JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias
«Situações de grande comicidade que se deve ao texto, àa tradução, ao ritmo imposto pela encenação e ao trabalho interpretativo.»

José Mendes
«Esta (...) proposta da Companhia Teatral do Chiado é irresistível. Está bem de ver e rever.»

Mulher-Aranha Público (Computadores)
«Não parei de rir»

Alexandra Carita A Capital
«Um espectáculo que já deu provas da sua qualidade»

Carla Maia de Almeida Notícias Magazine
«Garante-se riso puro e visceral»

Tito Lívio Correio da Manhã
«Um espectáculo endiabrado e velocíssimo»

Rute Coelho Tal & Qual
«Se quer passar uma noite bem-disposta, não perca»

Manuel Agostinho Magalhães Expresso
«Um "digest" de rir à gargalhada»

Jorge Sampaio, Presidente da República
«Excelente peça. Irreverente, mas muito bem feita. Aqui, aprendi a olhar Shakespeare de uma maneira muito divertida»

Ana Sousa Dias Por Outro Lado - RTP2
«Nunca ri tanto e tanto tempo seguido na minha vida. Fartei-me de chorar de rir»

Eugénia Vasques Expresso
«Os professores de literatura inglesa têm aqui uma bela proposta para um teste de avaliação de conhecimentos ou, se quiserem distribuir felicidade, para uma introdução paródica à obra de Shakespeare. A brincadeira, em ritmo e adaptação muito portugueses, pode redundar em muita seriedade.»
ANTES DE COMEÇAR
de Almada Negreiros
ilustração de Miguel Sá Fernandes
“(...) as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!”
ANTES DE COMEÇAR, Almada Negreiros

Algures no teatro do mundo, há um boneco e uma boneca que se mexem como as pessoas. O boneco não sabe que a boneca se mexe como as pessoas e a boneca não sabe que o boneco se mexe como as pessoas. As pessoas não sabem que o boneco e a boneca se mexem como elas.
ANTES DE COMEÇAR é uma conversa entre o boneco e a boneca, quando descobrem que se mexem e falam como as pessoas.
Almada Negreiros, único grande dramaturgo português do séc. XX, construiu uma fábula comovente e simples: não são animais que falam, são dois seres que, criados por humanos, se animam na ausência dos humanos. Fantoches? Marionetas?
Boneco e boneca, soprados de vida, vêem o mundo das pessoas; o mundo das pessoas grandes e o mundo das pessoas pequeninas porque “as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!”. O boneco revela as poucas certezas do pequeno mundo que conhece; a boneca conta o que lhe aconteceu e que é tudo o que sabe. Ambos aprendem que o coração, ao invés da cabeça, sabe sempre o que quer.
Fantoches? Marionetas? Talvez. Mas…silêncio, por favor. Porque a peça antes da peça vai agora começar...

ANTES DE COMEÇAR, de Almada Negreiros é o novo espectáculo da CTC, com estreia marcada para dia 27 de Novembro, pelas 16h.

interpretação: João Marta e Maria Albergaria
encenação: Juvenal Garcês
horário: sábados e domingos às 16h; segunda a sexta-feira para escolas mediante marcação

domingo, novembro 27, 2005


Entrevista da fadista Kátia Guerreiro a Carlos Vaz Marques, por ocasião do seu penúltimo disco "Nas mãos do fado".
Kátia Guerreiro estará nos próximos dias 9 e 10 de Dezembro de 2005 no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, para dois concertos que se esperam, uma vez mais, inesqueciveis. Este concerto dará a conhecer o seu último trabalho "Tudo ou Nada".

Mário Viegas: a vida em alta velocidade
(entrevista)


Viriato Teles
O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer.
Discípulo da escola brechtiana de teatro vivo e actuante, Mário Viegas fez tudo o que de melhor se pode fazer nas artes de palco. Sem claudicar. Mais do que «apenas um actor de teatro», como gostava de se definir, foi um interveniente, um recriador de palavras. Vinícius de Morais comoveu-se até ao arrepio quando ouviu a sua interpretação de "Trópico de Cancer", Almada Negreiros morreu sem imaginar que o seu "Manifesto Anti-Dantas" havia de renascer um dia com tanto vigor, Mário-Henrique Leiria deve boa parte da popularidade que alcançou postumamente ao talento deste Mário Viegas que um dia trocou Santarém pela cidade grande e se tornou no maior actor e recitador de poesia da sua geração.
Os últimos anos de vida dedicou-os, por inteiro, à Companhia Teatral do Chiado, instalada na sala-estúdio do Teatro São Luiz, um projecto que «nasceu da ideia de fazer uma companhiazinha com meia-dúzia de tarecos e sem dinheiro». Com três mil contos atribuídos pela Secretaria de Estado da Cultura para a montagem de uma peça de Miguel Rovisco, "Um Homem Dentro do Armário", Viegas acabou por levar à cena quatro espectáculos. Depois deitou contas à vida e chegou à conclusão de que «mesmo com as casas permanentemente esgotadas, o dinheiro não dá para pagar a toda a gente». Mas não parou de trabalhar e de sonhar.
Assim, quando nos encontrámos para esta entrevista, em meados de Fevereiro de 1992, o actor estava a preparar a estreia de "A Tersseira Classe" (assim mesmo, com dois esses), uma peça ao jeito de todas as produções de Mário Viegas, provando que, mesmo sem meios grandiosos e com montagens "pobrezinhas" ("A Birra do Morto", por exemplo, custou 38 contos, o preço do caixão) é possível fazer um teatro de grande humor e muita qualidade, «a pensar nas pessoas normais e não naqueles que já pensam saber tudo.”
"A vida em alta velocidade" foi o título, quase premonitório, que na altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer. Desconcertante até na morte, partiu a 1 de Abril de 1996, dia das mentiras, com 47 anos, deixando aparvalhados os amigos e a legião de admiradores do seu talento e da sua verticalidade. Como herança, deixou a sua memória de uma arte que reinventou com invulgar mestria de cada vez que subiu ao palco. Fosse na pele de "D. João V", de "Baal", ou "A Espera de Godot", no cinema onde criou o memorável "Kilas", fosse ainda como divulgador de poesia, onde teve um papel só comparável ao de João Villaret, deixando disso testemunho em mais de uma dúzia de registos discográficos e em duas séries de programas de televisão que deram a conhecer também o grande humorista que sempre foi.
Algum tempo antes de morrer anunciou a sua candidatura à Presidência da República, cujo programa foi apresentado no espectáculo "Europa, Não! Portugal, Nunca!" - uma genial provocação a favor de "uma política sem máscaras", que só a doença impediu de levar até ao fim, mas que ficou como derradeiro exemplo de insubmissão. Total, radical, verdadeira, absoluta. A doer, como a vida. [V.T.]

VT - Não é comum um actor ter tanto trabalho como tu tens agora. Como é que isto aconteceu?MV - Olha, calhou. No ano passado fiz várias coisas que me deram muito trabalho, mas que só este ano terão os seus eventuais "lucros" artísticos. Uma foi o filme do Manoel de Oliveira, "A Divina Comédia", no final do ano. Foi a primeira vez que trabalhei com o Manoel de Oliveira…
VT - E gostaste?MV - Muitíssimo. Só o conheci pessoalmente no primeiro dia de filmagens. E, quando acabei o filme, estava completamente fascinado por ele, como pessoa. É um homem duma vitalidade extraordinária, duma simpatia humana, duma educação exemplar. Há nele um grande gosto de trabalhar com os adores, uma segurança até aos mais pequenos pormenores que faz com que as pessoas realizem mesmo o que ele quer. Do ponto de vista de trabalho e de contacto humano, fiquei fã máximo do Manoel de Oliveira.
VT - E o filme?MV - Acho que vai resultar: o argumento é muito bonito, os diálogos são muito engraçados. E reuniu-se ali uma equipa de actores e de técnicos com um enorme respeito pela obra e pelo passado do Manoel de Oliveira. Vai ser, com certeza, mais um filme polémico e, até, diferente daquilo que ele tem feito. Foi uma honra muito grande ter trabalhado com ele. E, para mim, que, estava habituado a trabalhar de outra maneira, com outro tipo de cineastas, (principalmente com o José Fonseca e Costa, meu querido amigo, até já estávamos a ficar "conotados" um com o outro), este era um mundo diferente, uma nova estética. E isso, profissionalmente, foi muito bom para mim.
VT - Entretanto criaste a Companhia Teatral do Chiado…
MV - Foi mais ou menos ao mesmo tempo. A formação da Companhia surgiu na "ressaca" de uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa "Palavras Vivas", realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a ideia - penso que, até agora, feliz - de formar a Companhia com um grupo de amigos e de jovens actores.
VT - E vens parar ao São Luiz…MV - …porque sabia que havia aqui um "buraquinho" aberto - aliás, fechado - e que os serviços culturais da Câmara queriam dinamizar o Teatro Municipal. De facto não há fome que não dê em fartura: neste momento, há no São Luiz imensos espectáculos de jazz, bailado, ópera, despedidas de cantores… E há esta sala-estúdio, que eu já conhecia, sabia que tinha havido aqui teatro infantil, o "Teatrinho Branca Flor". Então fiz a proposta de apresentar nesta temporada de 1990/91 seis espectáculos diferentes. Foi um trabalho muito exaustivo, não só porque os encenei a todos como ainda participo como actor.
VT - Em todos?
MV - Quase. Só não entro no espectáculo infantil e na "Tersseira Classe". Além disso, tinha já um compromisso com o João Lourenço, do Teatro Aberto, para entrar novamente na peça "O Suicidário", de que fui protagonista há oito anos. Portanto, neste início do ano, vou estar em cena simultaneamente em quatro espectáculos: quatro papéis diferentes por semana, como actor, e em dois teatros diferentes. Ou seja: à segunda-feira que é o dia de folga, faço na sala-estúdio do São Luiz o monólogo "Mário Gin Tónico Volta a Atacar", com novos textos e inéditos de Mário-Henrique Leiria. Além disso tenho duas representações com "A Última Badana de Krapp" (uma das peças dos "Três Actos" de Samuel Beckett, que estou a fazer com a Carmen Dolores), mais três espectáculos com "A Birra do Morto". E depois vou a correr para o Teatro Aberto ensaiar "O Suicidário", que tem estreia prevista para Março…
VT - E consegues conciliar isso tudo?MV - Até agora sim. É uma situação um bocado louca. Mas penso que aguentarei isso tudo, não só física como psicologicamente, porque como me sinto melhor é a fazer teatro…
VT - O regresso do "Mário Gin Tónico" está a ser um êxito. E tu tens uma predilecção grande pelo Mário-Henrique Leiria…
MV - Durante anos, sempre trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que gostaria de ter escrito… Depois, na minha passagem pelo Teatro Experimental do Porto, aconteceu ser necessário fazer mais um espectáculo. Mas, porque só estava lá como encenador, achei que era melhor fazê-lo sozinho. Aí reuni uma série de textos do Mário-Henrique e construí um espectáculo com uma hora e quarenta e cinco minutos, só com palavras dele. Depois fui acrescentando mais textos, aquilo foi aumentando e quando me dei conta o espectáculo estava já com três horas…
VT - É aquilo a que pode chamar-se um grande espectáculo…MV - …em grande parte porque fui descobrindo umas coisas que ele tinha escrito, com os pseudónimos de Vovô Gasosa e Wilson Gasosa, no jornal O Coiso e no Pé de Cabra: eram receitas de cozinha, contos para crianças, umas fábulas, aquelas coisas que ele fazia. O espectáculo foi uma bola de neve, acabei por andar durante dois anos a correr o país. E aconteceram noites memoráveis… Agora, que tive de apresentar um conjunto de propostas para fazer no estúdio do São Luiz, o mais fácil era repor este espectáculo. Que tem a particularidade de ser sempre um espectáculo diferente, já que os textos todos que eu reuni do Mário-Henrique davam para quatro horas e eu acho que o tempo certo devem ser duas horas. Portanto, todas as segundas-feiras, vou tirando do bolso este ou aquele texto, conforme o público e de acordo com a minha disposição…
VT - Isso já acontecia na primeira vez…MV - Pois, mas agora acontece mais, até porque descobri outros textos inéditos. Durante a gravação do "Palavras Vivas" - um dos programas é dedicado precisamente ao Mário-Henrique - confirmei aquilo que já sabia: que na Biblioteca Nacional se encontra um espólio dele muito importante, com colagens e textos inéditos que deviam ser publicados. E eu sei, por exemplo, que o Manuel de Brito, da Galeria 111, tem várias coisas do espólio do Mário-Henrique Leiria e está, penso eu, totalmente aberto a quem esteja interessado em publicá-las. Ele já morreu vai fazer onze anos e creio que era necessário editar um novo livro. Poderiam ser os "Novíssimos Contos do Gin" ou os "Contos Póstumos", qualquer coisa assim… Porque ele é, de facto, um humorista extremamente original. Não é um autor menor nem é só um contador de histórias, mas também um poeta, com grande qualidade, ligado ao surrealismo. Penso que valia a pena fazer isso…
VT - Conheceste bem o Mário-Henrique?MV - Conheci-o, ocasionalmente, em 1978. Já conhecia os livros dele, claro, sobretudo os Contos do Gin Tónico e os Novos Contos do Gin, mas a partir daí passei a dizer mais coisas dele. Nunca fui muito íntimo do Mário-Henrique Leiria, mas tivemos uma cumplicidade imediata pelos copos, pelo convívio, pelo sentido de humor… Ele achava muita graça à maneira como eu dizia os seus poemas - que ele, aliás, dizia de uma maneira muito diferente… E sei disso não só porque o ouvi, algumas vezes, mas também porque há duas gravações que conheço, uma delas uma entrevista autobiográfica, extraordinária. A outra, feita antes do 25 de Abril, foi a que me deu a ideia deste espectáculo. É um documento um pouco trágico-cómico, em que ele se vai embebedando progressivamente, tal como eu faço no espectáculo (quer dizer: eu finjo que me embebedo, ele embebedava-se mesmo…), à medida que diz os textos.
VT - Voltando ao teu programa na televisão. Que poetas privilegiaste?MV - Eu é que fui privilegiado por ter a oportunidade de dizer esses poetas. Escolhi só portugueses que já morreram, para que os vivos me não chateassem. E escolhi vários, sobretudo do nosso século: Fernando Pessoa, é óbvio, com "A Tabacaria", o Almada Negreiros, a quem me sinto muito ligado até por ter gravado o "Manifesto Anti-Dantas" e "A Cena do Ódio", o Mário-Henrique, o Pedro Oom, o Miguel Rovisco… Mas sobretudo procurei poetas com quem tenho afinidades sentimentais ou pessoais. O programa é assumidamente muito pessoal: falo de mim, das minhas ligações, das minhas primeiras leituras e das minhas amizades com alguns poetas que tive o prazer e o privilégio de conhecer e de conviver, casos do José Gomes Ferreira, Zeca Afonso, Raul de Carvalho, Pedro Homem de MeIo, etc. É mais ou menos um programa sobre amigos meus, uns que conheci pessoalmente, outros só através dos livros, e que me fizeram crescer como recitador e como actor. E que acabou por despoletar a descoberta dos imensos espólios literários. Sempre que se fala de espólios ou de defesa do património pensa-se logo num pedregulho que cai, nos Jerónimos ou numa igreja não sei aonde. Mas os papéis são, de facto, mais frágeis do que as pedras…

(Este é o Mário Viegas que eu conheci. Actor de teatro e cidadão, homem preocupado com o seu mundo e com a nossa memória colectiva, tão fascinado , pelas palavras como pelos pedaços de história viva que elas lhe revelam. O trabalho é, assim, não só um prazer, mas também um acto de cidadania, assumido com o mesmo empenhamento com que fez tudo aquilo a que se propôs. Siga a prosa e a conversa.)

MV - Um dos programas é dedicado ao Camilo Pessanha, esse genial poeta da literatura portuguesa, que tem, na Biblioteca Nacional, os poemas da Clepsidra escritos todos com a letrinha dele, que é lindíssima - o que dá uma extraordinária "fotografia" do Camilo Pessanha e da sua poesia. Aliás, quando estava a gravar, mexia naquilo com muito cuidado e até tive ocasião de dizer a um técnico que achava graça ao meu respeito: "Olhe, cada folhinha destas dava-lhe para comprar um andar ou um automóvel de luxo…". Mas não foram só papéis e arcas como a do Pessoa ou fotografias como as do Sá-Carneiro ou do António Pedro que descobri na Biblioteca Nacional. Foram também gravações e filmes. É o caso dos arquivos da RTP onde, ao procurar imagens para o programa, fui encontrar no meio de uma série de milhares de horas ainda por catalogar, filmes e documentos visuais inestimáveis: com o Zeca, o Raul de Carvalho ou o José Gomes Ferreira. Coisas que foram apresentadas logo após o 25 de Abril, em "Artes e Letras", ninguém deu por elas no meio daquela confusão toda e nunca mais foram vistas. Outras estão perdidas no meio de bobines que é preciso identificar… Por exemplo: ao procurar, numa longa bobine, o poeta Raul de Carvalho encontrei, misturado, o antigo actor Raul de Carvalho, do Teatro D. Maria II. E atrás dele, encontrei mais uma série de coisas. Até me descobri a mim, dizendo uns poemas n'A Barraca, com o Zeca Afonso, num encontro sobre a vinda a Lisboa do Paco Ibáñez…
VT - Quer dizer: foste uma espécie de "arqueólogo literário"…
MV - Mais ou menos. Aliás, há histórias curiosas. Como sabes, eu tive durante cinco anos um programa de poesia na Rádio Comercial. Um dia, telefonou-me uma senhora a dizer que tinha uma gravação do Mestre Almada a dizer o "Manifesto Anti-Dantas". Ainda pensei que era uma senhora perturbada ou confusa, que tivesse ouvido o meu disco, mas não. Era uma grande amiga do Almada, a casa de quem ele ia todos os domingos depois do almoço passar as tardes e que um dia, já velhote, dois anos antes de falecer, gravou o "Manifesto Anti-Dantas", que é um documento fundamental na história do humor do nosso século. E mais: à conversa com a senhora e o marido, ia contando como tinha nascido o "Manifesto". Só esta gravação daria um extraordinário disco… E provavelmente ter-se-ia perdido se a senhora não tivesse telefonado.
VT - Mas nunca ninguém o editou…MV - Eu sei que o filho dessa senhora contactou várias editoras. Mas parece que nenhuma se mostrou interessada… Essa é mais uma das surpresas de "Palavras Vivas": a voz do Almada a dizer, comigo, o "Manifesto". E mais coisas: há dezenas de fotografias e de quadras inéditas do António Aleixo, no Algarve… Quer dizer: pensa-se que alguns poetas já estão "fechados", que já está tudo feito, quando, afinal, está tudo em aberto, por descobrir e por defender. E se, de facto, nós temos alguma coisa que valha a pena defender é a nossa cultura, os nossos poetas. Pese embora o que alguns dizem, nós temos uma das poesias mais originais de toda a Europa.
VT - Mas entre nós há uma certa tendência para o "deixa andar", não é?
MV - Pois é. Olha: na Rua da Conceição, em plena baixa lisboeta, há uma placa na casa onde nasceu o Mário de Sá-Carneiro que tem um número da data enganado. Eu sei, é uma coisa que não interessa nada: ele nasceu a 19 de Maio e está lá a dizer que foi a 10. Aparentemente não tem importância nenhuma…

VT - É uma questão de rigor.
MV - Claro. E não custa nada mudar a placa. Ainda por cima, no ano passado houve o centenário do Mário de Sá-Carneiro. Houve tanta conferência, tanto colóquio, tanta coisa e, afinal, ninguém ligou a um pormenor tão elementar. Ou o caso da casa do Fernando Pessoa em Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, onde filmei um dos programas. É uma casa que estava completamente destruída, a maior parte das pessoas nem sabia do que se tratava. "Ah, é a casa onde viveu um tempo o Fernando Pessoa", pensam. Mas não foi "um tempo", foram 20 e tal anos. É a casa onde ele criou o fundamental da sua obra e de onde só saiu para o Hospital de Saint Louis, três dias antes de morrer. É o verdadeiro mundo do Fernando Pessoa! Felizmente alguém dos serviços culturais da Câmara já conseguiu tornar aquilo património municipal, vai haver ali um museu sobre o poeta e o Orfeu. Mas, antes disso, era uma coisa patética: havia revistas pornográficas no chão e sinais de que era um sítio frequentado por pessoas que iam ali para se drogar ou fazer outro tipo de coisas. E saber-se que era a casa do nosso maior poeta depois de Camões… Ou o jazigo de Cesário Verde, que teria sido destruído, se a Câmara não tivesse agido a tempo… Até parece que estou a querer "engraxar" a Câmara Municipal de Lisboa, mas estas coisas têm que se dizer… [1]
VT - Entretanto gravaste um disco com a Manuela de Freitas.
MV - Foi. "Poemas de Bibe", produção da UPAV. É um dos discos que mais prazer me deu: eu e a Manuela, estilo paizinho e mãezinha, a lermos, muito calmamente, umas dezenas de pequenos poemas, que podem ser ouvidos por meninos e meninas, de preferência com menos de dez anos. Porque são poemas muito ingénuos, muito simples e que abrem janelas e portas aos miúdos, despertando-os para a poesia. E também tivemos a preocupação de pôr uma grande lista de poetas, para que aqueles nomes fiquem já nas cabeças das crianças. É um disco extremamente didáctico e agradável de ouvir, não só para crianças como para adultos. Muito calmo, muito sereno, está muito bem gravado. É o décimo terceiro disco que eu gravo, os outros estão todos esgotados, e é talvez aquele que mais gozo me deu fazer.
VT - Tu tens, normalmente, uma relação fácil com as crianças?
MV - Não, nem por isso. Nunca fiz teatro infantil, não tenho filhos… Não tenho assim uma relação muito íntima com elas…
VT - Mas lembro-me de um programa teu, "Peço a Palavra", feito com miúdos, que dava um pouco essa ideia…
MV - Foi um programa que me deu um prazer muito grande, uma experiência muito bonita e que me enriqueceu muito como actor. Mas, mesmo assim, não tenho uma grande experiência de trabalho com crianças. Não é que não goste de crianças, muito pelo contrário. Tenho muito respeito por elas e acho que não são atrasados mentais nem anões - isto sem querer ofender os anões, por quem tenho muito respeito. Até já trabalhei no teatro com um, o senhor Lúcio, que era uma pessoa extraordinária. Foi na peça "Baal", no Teatro do Mundo… Lembro-me até de ter dito, nessa altura, a um colega teu, que era urgente fazer-lhe uma entrevista, era um homem com imensas histórias para contar. Por exemplo, o modo como foi utilizado, pela propaganda oficial no tempo do fascismo: lembras-te daquela fotografia em que se vê o Salazar morto, na urna, com um anão e aquele gigante de Moçambique, que morreu há pouco tempo?
VT - O Gabriel Mondjane?MV - Esse mesmo. O anão da fotografia era o senhor Lúcio… A tal entrevista nunca foi feita, é mais uma das histórias que ficaram por contar…
VT - Ainda é vivo?
MV - Não, já faleceu. Morreu, salvo erro na Mitra, na miséria, completamente desconhecido…
VT - Tudo isso a propósito das crianças…
MV - Pois. Como eu estava a dizer, as crianças não são nem anões nem atrasados mentais em crescimento. Tenho um grande respeito pelas crianças, pela opinião delas e este disco não tem nada de paternalista. Não adianta pensarmos que as crianças não vão perceber, porque elas percebem muitíssimo bem e têm uma grande sensibilidade em relação à poesia. Eu tenho feito vários recitais que os miúdos ouvem e de que gostam muito. Aquelas imagens que, às vezes, para nós são misteriosas, para eles não têm mistério absolutamente nenhum. E mesmo que tenham, como dizia um grande criador, fica um "buraquinho negro" na cabeça delas e, se calhar, anos mais tarde, o "vírus" da poesia vai-se despoletar: "Ah, afinal o que aquele tipo quis dizer, quando eu tinha dez anos, era isto…" É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes, percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada dele e só tendo lido algumas "caganças" sobre o assunto.
VT - Recentemente fizeste regressar o "Bucha e Estica". Qual é o público que reage melhor a esse espectáculo?
MV - É o público que ronda os setenta anos. Porque o Laurel e o Hardy eram os heróis da infância deles. E os miúdos. Nós temos aqui ao sábado e ao domingo, um espectáculo com a Maria Vieira contando histórias, fazendo jogos, lendo poemas e convidando vários artistas. Cada semana é diferente. É um cantinho dela, em que dá largas à sua imaginação e ao seu talento junto dos miúdos e que está a resultar muito bem. Chama-se mesmo "O Cantinho de Maria", mas esteve para se chamar "Simplesmente Maria"…
VT - E a Carmen Dolores, como é que ela aparece na Companhia Teatral do Chiado?
MV - Eu estreei-me como encenador num espectáculo chamado "Confissões numa Esplanada de Verão", que era constituído por quatro peças em um acto: uma de Strindberg, outra de Tchekov, outra de Pirandelo e outra de Beckett. E nessa altura convidei a Carmen para fazer a do Strindberg, um monólogo de vinte e tal minutos chamado "A Mais Forte". Ela aceitou imediatamente e eu fiquei-lhe sempre muito grato. Depois trabalhámos juntos no filme do Zé Fonseca, "A Mulher do Próximo", dei-me sempre muito bem com ela. Agora convidei-a outra vez. A razão é simples: por um lado, pela grande amizade que tenho por ela, pelo seu grande talento. E também porque a Carmen é muito mandriona, estava há dois anos e tal sem fazer teatro e acho que não tem o direito de fazer isso. Também lhe faltava ainda representar um autor como o Beckett e ficou fascinada pelo texto. Chama-se "Balanceado", é muito bonito, com tradução do Luís Francisco Rebello. É uma peça pré-gravada, que vive muito da voz. E a voz da Carmen é uma voz milagrosa, em que acontecem várias coisas, tanto mais que ela fez teatro radiofónico durante muitos anos.
VT - Depois de todos estes anos a fazer teatro, o balanço tem mais recordações boas ou más?
MV - A maioria são boas. Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei principalmente fora de Lisboa,
por norma as menos publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo antes do 25 de Abril. "O Manifesto Anti-Dantas", do Almada Negreiros, "0 Operário em Construção", do Vinícius de Moraes… Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis. E tive a oportunidade, graças ao meu trabalho como divulgador de poesia e recitador, de contactar com milhares e milhares de pessoas por todo o País e de ter convivido, de ter acompanhado, de ter crescido como cidadão e como artista com as pessoas da nova música portuguesa, como são os casos do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Carlos Paredes. Foi, para mim, uma experiência extraordinária. Paralelamente, tinha uma carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por causa da censura. Aí, no teatro, não me sentirei tão realizado. Porque, evidentemente, estando integrado numa companhia, mesmo que essa companhia seja dirigida por mim, é muito mais difícil fazer tantas digressões e contactar com o público tão facilmente como numa colectividade de recreio ou numa escola. Mas todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro ou à recitação de poesia.
VT - Uma vez, numa entrevista, definiste-te como "um anarquista de esquerda". Essa "loucura" de que falas não tem nada de premeditado?
MV - Não. Nem é loucura nenhuma. Vim para Lisboa com 17 anos e, nessa altura, em vez de me dedicar ao futebol ou a outra coisa qualquer, comecei a interessar-me pela política. E fiz da política, do antifascismo e dos movimentos contra a guerra colonial e o regime, uma grande bandeira. E tinha as minhas referências: o Zeca, pelo seu comportamento, era e continua a ser uma referência fundamental para mim. Outra era a Maria Barroso. Lembro-me que a vi actuar pela primeira vez em Alpiarça, localidade que era um grande baluarte do Partido Comunista Português e da Oposição, antes do 25 de Abril. Nunca mais me esqueço que as duas primeiras filas da plateia estavam ocupadas por agentes da PIDE e da GNR. Eu também queria fazer aquelas coisas todas. E fiquei com o mito da Maria Barroso, que era uma mulher que, de facto, dizia muito bem e que empolgava as pessoas.

(À medida que fala, Mário Viegas vai desfiando memórias, lembranças de outro tempo que é também o seu tempo, encantos perdidos e achados, desencantos e anedotas de si mesmo. Um nome, uma imagem, um episódio perdido algures no tempo. Histórias sempre com gente, muita gente, toda a gente.)

MV - Há dias descobri uma carta que escrevi aos meus pais, quando vim para Lisboa, e onde Ihes dava muitos pormenores sobre o que fazia, aquilo que via, as coisas que me aconteciam. E uma das que lá conto tem a ver com uma festa da Associação de Estudantes de Medicina que acabou com uma intervenção violenta da polícia de choque e onde eu tinha ido recitar uns poemas. Ninguém sabia quem eu era, mas estavam lá, lembro-me perfeitamente, o Sinde Filipe, de quem mais tarde me tornei muito amigo, o Carlos Paredes e a Maria Barroso, que foi ali dizer vários poemas. Disse um de que me lembro muito bem, chamado "Liberdade" de um velho poeta comunista, o Armindo Rodrigues. Isso impressionou-me tanto que, no primeiro disco que gravei, o primeiro poema da face A é exactamente o poema "Homem Abre os Olhos e Verás" do Armindo Rodrigues. E eu, na carta aos meus pais, lá mandava dizer que a Maria Barroso era "uma mulher extraordinária, casada com o grande poeta Mário Dionísio"… Estás a ver a minha ingenuidade da altura! Um dia destes vou-lhe enviar uma fotocópia dessa carta (já passaram as eleições, não é nenhuma "engraxadela"), que demonstra até que ponto ela foi para mim uma referência muito grande. E eu pus sempre esses valores à frente, antes e depois do 25 de Abril. Tanto que, quando eu fiz a tropa… Eu fui posto à força na tropa em 1971, e foi uma coisa, essa sim, que marcou muito a minha vida pessoal e a minha vida artística, porque estive três anos sem poder fazer teatro nem actuar em público, apesar de actuar às escondidas…
VT - E aprendeste alguma coisa na tropa?MV - Hmm… Sim… Quer dizer: agora, com 42 anos, a gente começa a ver à distância e tem é saudades de não ter 22 anos, que era a minha idade quando fui para Mafra. Mas sim, aprendi alguma coisa. Do mal também nasce o bem… Pelo menos deu-me uma certa energia e uma certa disciplina que, afinal, eu tenho - porque se não fosse assim eu não aguentava estar a fazer quatro peças ao mesmo tempo. Mas, pronto, aprendi algumas coisas. Não sou cem por cento anti-militarista. Sem falar, claro, daquela estupidez da hierarquia militar. O que eu te quero dizer é isto: hoje em dia, entre a malta mais nova, não há estes "grandes mestres" que teve a geração que tem agora 40 anos: o Zeca, o poeta Raul de Carvalho, o José Gomes Ferreira, o mestre Almada, que eu não tive a honra de conhecer, o Zé Carlos Ary dos Santos, com quem tanto convivi, nas suas loucuras, nas bebedeiras e tudo isso… São pessoas que eram referências, eram mitos que, hoje, a malta mais nova não tem…
VT - Isso talvez tenha a ver com a queda dos mitos que se verifica um pouco por toda a parte…MV - Sim. Mas olha que talvez não seja bom. Isso de se dizer que os jovens estão muito mais libertos… Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é aquela coisa ultrapassada e passadista, "lá vêm os quarentões, lá vêm os anos 60". De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem, era com um objectivo "anarqueirante", era contra o regime, tudo isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17 anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. Eu, por exemplo, passei o 25 de Abril na tropa, fui um militar do MFA, e até acabei por "meter o chico" por mais seis meses, uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça… Se calhar está a nascer uma nova ideologia, que é a ideologia do vazio, da despolitização absoluta, da falta de respeito pelas pessoas que criaram coisas. E é isso que leva a que muitos jovens não tenham respeito por nada. A verdade é que tenho ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões sabem quem é…
VT - Começa a haver uma falta de memória preocupante, é isso?
MV - Sim. Mas olha que não estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações de "A Birra do Morto", quarenta por cento dos bilhetes que vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à "onda" de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia, tal como há no "Mário Gin Tónico", e que passa por brincar com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez chegaram a sê-lo) , isso não me interessa nada…

NOTA[1] A casa a que se refere Mário Viegas foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa durante a presidência de Jorge Sampaio, por iniciativa do então vereador da Cultura, João Soares, dando origem ao museu-biblioteca Casa de Femando Pessoa, inaugurada em 1993. O jazigo de Cesário Verde foi restaurado durante o mesmo mandato camarário.