quinta-feira, setembro 29, 2005


Simone de Oliveira deu uma grande entrevista à revista "Sénior Fórum Magazine", de Setembro. A revista, confesso, não a conhecia. Comprei-a porque tinha a Simone... e não me arrependi. Além da enorme e franca entrevista ao grande ícone musical português, a revista conta com artigos muito interessantes e diversos.
Mas a minha intenção é deixar-vos aqui um excerto da entrevista com Simone de Oliveira que, apesar de ser dito com o seu jeito caracteristico, não deixa de tocar em aspectos politicos muito pertinentes. Ora leiam e comentem:
"É preciso uma geração mais jovem na política."
Sénior Fórum Magazine - Cantora, actriz, entrevistadora em rádio ou televisão...
Simone de Oliveira - Faço tudo com a mesma paixão. Gosto muito de fazer programas em directo, detesto fazer gravado.
SFM - Porque acabou o seu programa na SIC Mulher?
SO - Foi um contrato de seis meses e acabou. Mas percebo que é por não ser muito cómoda. Não visto nenhuma camisola a não ser a minha.
SFM - Nem em política?
SO - Sempre votei PS, mas agora não o vou fazer para a Câmara de Lisboa.
SFM - Desiludida com o PS?
SO - Não, eu desiludo-me é com as pessoas. Não quer dizer que não vá votar. Vou votar e fui à apresentação da candidatura de Carmona Rodrigues. É apoiado pelo PSD, mas não é no PSD que eu vou votar, é em Carmona, que tem uma postura que me parece bem. Fui ao lançamento da candidatura: quando Marques Mendes falava do PSD, eu não batia palmas, quando falava do Carmona Rodrigues e eu concordava, então sim.
SFM - Aqui há uns tempos abandonou um jantar do PSD.
SO - Não cheguei a entrar. Não sabia que era um jantar político. Embora mantenha que o dr. Pedro Santana Lopes sempre tratou a Simone de Oliveira muitíssimo bem. Disseram-me que era um jantar sobre a cultura e eu fui, mas quando cheguei percebi que era campanha eleitoral. Ora, a pessoa que me convidou sabia que eu ia no dia seguinte fazer um vídeo de campanha para José Sócrates. Saí. Dou-lhe outro exemplo. Há poucas semanas, telefona para a minha assistente um dos candidatos à Câmara de Cascais pelo PS: 'Eu queria que a Simone fosse mandatária da minha candidatura'. 'Mas ela não vive em Cascais'. 'Não tem aqui uma casa de praia?' 'Não, nunca teve uma casa de praia em lado nenhum. Simone mora em Lisboa, já escolheu um candidato e deu-lhe o seu apoio'. 'Mas podia ser que ela quisesse vir aqui'. Acha isso normal?
Estão fartos de me telefonar por causa das presidenciais. Eu digo 'não' ao Mário Soares e não é pela idade. É uma figura incontornável da democracia portuguesa. Mas outra vez PR? Arranjem uma geração de políticos mais novos para isto andar para a frente!
SFM - Cavaco Silva?
SO - Não votarei. Não devo, não sou capaz. Por convicção. Que apareça um terceiro que dê credibilidade. Tem de aparecer uma geração mais nova que se interesse por política.
SFM - Sócrates desiludiu-a?
SO - Estas medidas todas estão a ser muito difíceis de engolir. Não sei de política o suficiente, nem os trâmites internacionais e da UE. Mas sou portuguesa e não foi para isto que o D. Afonso Henriques andou a bater na mãe. Ainda no outro dia o director de programas da RTP, Nuno Santos, falava sobre a Eurovisão e dizia que não há problema em os portugueses cantarem em inglês. Então não é um festival da canção, é um espectáculo musical da Europa. E ele responde que o inglês é como o esperanto... Uma das características de um país é a língua. A língua, a bandeira, o hino e o Presidente da República são símbolos, quer se goste ou não. Oh, senhores! Mandem o fado, mandem a Mariza com as guitarras e uma grande orquestra. É como a outra ministra da Cultura: 'detesto fado, mas gosto da Amália' escrito nos jornais todos. Percebe o meu inferno diário?
SFM - Carrilho, não?
SO - Carmona pode não ganhar, mas eu espero que não ganhe o Carrilho. Toda a vida votei PS, mas há cedências que não faço. Participei na campanha do general Eanes, do Soares e fui mandatária para a Emigração do Sampaio. Olho para Carrilho e não quero tê-lo como presidente da Câmara de Lisboa. O Ruben de Carvalho, do PCP, conheço-o da casa do Ary e é claro que o PCP tem de ter candidato. O outro senhor, que é independente, é uma canseira, com o túnel para cima e para baixo, já não se aguenta. Às três por quatro manda fechar o túnel e tirar o Marquês de Pombal mais para cima. Ou atapetar o Tejo porque incomoda um bocadinho. Não há pachorra! Não há trabalho de continuidade. De cada vez que muda um, muda tudo: o candeeiro estava ali, passa para acolá. Por isso, Lisboa está como está."

sexta-feira, setembro 23, 2005

Cartoon "Bandeira"

Dois mini-artigos sobre o vergonhoso carnaval de Fátima Felgueiras

A Fatinha
Regressada de umas longas férias em Copacabana, a Dona Fátima Felgueiras diz agora "estar disponível para a justiça". No entanto, durante dois anos e meio esteve fugida dos tribunais e de uma prisão preventiva que nunca cumpriu. A Dona Fátima Felgueiras justifica-se com os julgamentos mediáticos que sujeitam os políticos a condenações antecipadas. No entanto, durante mais de dois anos, usou a democracia mediática dando entrevistas às televisões em que se apresentava, para espanto geral, como uma exilada política e pressionava as autoridades portuguesas a reverem a sua prisão. A Dona Fátima Felgueiras defende o seu direito à presunção de inocência. Mas quando alguém foge por dois anos e meio a um processo em que é suspeito de ter praticado 23 crimes, não sobra muito dessa presunção de inocência. Pelo menos, não se é inocente de ter fugido a uma medida de coacção judicialmente decretada. A Dona Fátima Felgueiras exige os direitos iguais de qualquer cidadão comum. Mas um cidadão comum não anda fugido dois anos e meio a uma prisão preventiva da qual preventivamente escapou e, ao regressar a Portugal, acaba em situação mais confortável do que a que tinha quando saiu. A Dona Fátima Felgueiras quer colaborar com a justiça, esclarecendo tudo sobre um processo em que é suspeita da prática de crimes no exercício de um cargo político. Mas a primeira coisa que a Dona Fátima Felgueiras fez ao chegar a Portugal foi pestanejar aos habitantes de Felgueiras e anunciar heroicamente a sua candidatura à Câmara, como se nenhum processo existisse.
A Dona Fátima Felgueiras está há dois anos e meio a envergonhar a democracia e a justiça portuguesa. A sua candidatura à Câmara de Felgueiras só pode ser vista como um insulto. Portugal é um país brando, inofensivo, poucochinho. Não se pensava que também fosse uma farsa.
Pedro Lomba
Justiça e água de coco
A juíza que deixou sair em liberdade Fátima Felgueiras pode ter seguido à risca todas as leis da nação. Todas as leis, menos uma a do bom-senso. A fazer jurisprudência, a decisão tomada pelo tribunal aconselha o seguinte: se o caro amigo estiver a braços com a justiça e à beira de ser encarcerado, dê um tempo. Apanhe o primeiro avião para um paraíso tropical, dedique-se à água de coco, refresque- -se numa esplanada junto ao mar, passeie-se pelo calçadão de Ipanema, suba ao Cristo Redentor, visite o Museu de Arte Contemporânea de Oscar Niemeyer, e espere. Espere, pois, com calma, tudo se resolverá. É preciso algum dinheiro, mas sejamos francos: entre os calabouços da Judiciária e a baía da Guanabara, quem é que não escolheria a baía da Guanabara?
Fátima Felgueiras escolheu a Guanabara, e escolheu bem. Dezasseis meses depois voltou, a justiça agradeceu-lhe a amabilidade e o povo acolheu-a em delírio. Aliás, Fátima Felgueiras não voltou apenas - ela voltou muito melhor do que partira. Excelente cor, cabelo escadeado, nuances acobreadas, pele rejuvenescida, talvez mesmo um face lifting. É como se tivesse estado dois anos e meio num spa, parcialmente pago pelo Estado português, à espera que as feridas da justiça cicatrizassem.
E um dia, Fatinha olhou para o calendário, viu que era época de eleições e que a fase de inquérito do seu processo já tinha terminado, e decidiu regressar a Portugal. Combinou com a Polícia Judiciária um comité de boas-vindas, viajou para Felgueiras com gasolina paga pelos nossos impostos, e foi alegremente libertada pela juíza da comarca, porque, claro, já não existe perigo de fuga e toda a prova necessária ao julgamento do seu caso foi reunida. Lógico? Muito lógico. Muito legal. Muito constitucional. Só que no meio de todas estas leis rigorosamente cumpridas, há um País a afundar-se, ao ritmo do samba.
João Miguel Tavares

sexta-feira, setembro 09, 2005


Mariana: dar o máximo na hora exacta
Mariana Rey Monteiro: a mulher e a actriz para além das distinções atribuídas pelos criticos. Diante de si e do advento "de uma renovação no mundo inteiro". Sobretudo com grande força de vontade. Disposta a continuar. Aqui
Considerada pelos críticos teatrais a melhor actriz da temporada pelo seu trabalho em "Filomena Marturano". Mas já não é esse o verdadeiro "timing" da entrevista. Os críticos pronunciaram-se há um mês. Mariana Rey Monteiro - para além de os eminentes a reconhecerem, na actualidade, como uma das actrizes de primeira grandeza - percorreu pelos palcos uma longa trajectória, estudando enredos e ficções, acumulando uma experiência de artista e mulher que justificam, a todo o momento, ouvi-la. De preferência pontualmente, levando-a para as zonas de maior embaraço.
Possivelmente, não haverá em Portugal muitos encenadores à altura (estatura) dela.
Misteriosa. Subtil. Excelente jogadora (de ideias e palavras). Desconcertante, por vezes. Afável, depois.
Pelos vistos, robustecida interiormente, contou-nos quase num repente uma imensidade de evidências (que a tanta gente escapam) e de preocupações (suas e dos outros).
Pensa que é complicada. Não teme nem hesita em dizê-lo. Porém, não é difícil saquear-lhe o que de mais humano (e humanista) guarda em si.
Insistimos, apesar de acontecimento passado, em "Filomena Marturano". O que tinha aquela personagem dentro de Mariana Rey Monteiro? A resposta surge pronta, a desmanchar, facilmente, os mitos:
Pessoalmente nada tenho a ver com tal personagem. Um dos interesses da nossa profissão é saber como nos mostrar fora de nós próprios.
O que acha que as pessoas pensam dela?
Não faço a mínima ideia - replica - Como tenho uma péssima opinião de mim própria, desejaria saber como suscitar de pessoas os comentários mais favoráveis. Sinto-me, constantemente, vitima de muitos motivos de dúvida e calcanhares de fraqueza. Concretamente: não me vejo realizada, nem como actriz nem pessoalmente. Gostaria que o que sai de mim fosse melhor. E daí a insatisfação.
Angústia? - saímos ao atalho, afrontando, porventura, o seu depoimento.
Angústia, não. Tenho a percepção clarividente e total das minhas próprias fraquezas. E sei o que amaria conseguir. Tenho a ansia da perfeição e nunca o receio da minha personalidade. Da qual não pretendo mudar.
Salta-nos à ideia a imagem de artistas e cientistas que para buscarem mais rapidamente a perfeição (ou a especialização) vão temporariamente para o estrangeiro ou emigram mesmo. Confrontámos Mariana Rey Monteiro com a hipótese.
O êxodo? Com a família a acompanhar? Para quê? Aqui, na nossa terra, também podemos encontrar a perfeição. Nem na China eu seria capaz de fugir de mim própria. A não ser, claro, nas horas de palco, em que sucede a evasão.
O que é ser actor e ser cidadão em Portugal?
Mariana sorri, ante a questão dupla. Reage, contudo, ao primeiro assalto:
Na parte profissional, é conseguir oferecer ao publico uma, pelo menos, destas três coisas: cultivar-se, distrair-se, pensar. Na parte pessoal é suavizar o sofrimento e as carências do próximo.
A nivel social, que caminhos Portugal vai levar?
Gostaria de ser Deus para responder a isso - afirma.
Depois do laconismo, a pausa. E retoma. Confessa que "como as outras pessoas" tem montes de projectos para o futuro. "A maior parte deles vive e morre connosco" - e contrai-se, num encolher de ombros. Prossegue: No âmbito nacional, aconteceram, na ultima década, fenómenos interessantes. A criação da Companhia Nacional de Bailado. O arranque de grupos de teatro independentes com espectáculos importantes.
O que é para Mariana Rey Monteiro um espectáculo importante?
É todo aquele - expõe - que consegue os objectivos que indiquei para o actor, aquele que consegue montar uma boa encenação e uma boa interpretação. E que constitua coisa séria e, sobretudo, digna de respeito pelo que põe em prática.
Crise por crise, na sociedade nas épocas. E a entrevistada fala-nos, adiante, de uma crise internacional, em que se insere a convulsão para um estado de espírito menos agradável, mais preocupante. Penso - diz Mariana - que uma qualquer era está a chegar ao fim, constituindo o advento de uma renovação no mundo inteiro. Há crises cíclicas na História da Humanidade e atravessamos, agora, uma fase de mudança.
Mariana Rey Monteiro disserta, por avanço, sobre "a dificuldade de um actor ver, em Portugal, os seus frutos colhidos".
O teatro está na mesma proporção da riqueza de um país e o nosso é pobre. Por sua vez o publico conhece o teatro especialmente pelo teatro de revista (e sublinho, no entanto, que quem elabora um bom teatro de revista é bom artista). Tadavia, existe outro tipo de teatro mais profundo, ainda acessível apenas a sectores minoritários. As crianças sabem as horas dos programas da TV, mas ignoram quase totalmente (por culpa dos pais) o teatro, que é um sitio com cadeiras e um palco onde se vai passar alguma coisa ao vivo.
Contudo, a cavaqueira deu para muito mais. A actriz explicou-nos que não gosta de fazer teatro na televisão, para não se sentir "mecanizada".
O encanto da minha profissão é estar na hora exacta a dar o máximo sem poder voltar para trás - opinou.
Que pensa Mariana do Teatro Nacional?
Desde o incêndio nunca mais lá fui. Não sei como funciona, nem sequer como está construído.
Acrescentou, em mudanças de tema, que não é "nada supersticiosa. Nove netos já me chegam para tornar tudo bem real".
Por isso, não sendo supersticiosa, e imaginando-a num lado oposto, quisémos saber, de sua opinião em que pode a ciência constribuir para o teatro.
Com o estudo permanente - impõe -, nunca se acaba de aprender. A profissão tem ainda muitas buscas a fazer com base na leitura, na encenação, nos ensinamentos que cada encenador novo nos traz.
Parece-lhe existir, com alguma representatividade, um verdadeiro teatro de vanguarda?
Sim. O teatro de pesquisa.
Gostaria de participar nele?
Gostaria de passar por todas as experiências no campo do teatro.
E, depois, qual escolheria?
Só no momento adequado é que lhe poderia revelar.
Que influência teve a figura de sua mãe (Amélia Rey Colaço) na sua formação artística?
Não se esqueça de escrever que a minha resposta, neste caso, é muito suspeita. Mas como quer que lhe fale da minha mãe, dir-lhe-ei que é uma mulher extraordinária, superiormente inteligente e que se tivesse sido actriz na Alemanha, na Inglaterra ou na América não seria ignorada em qualquer canto do globo. Estou a dizer-lhe isto numa perspectiva em relação à minha mãe em que incluo aspectos de como actriz e como mulher também...
Que pensa das mulheres deste país?
Penso que as mulheres portuguesas são umas heroínas. Pelo menos no círculo em que me encontro, verifico como tanto as minhas filhas como as minhas noras são, constantemente, mulheres de armas a enfrentar a hora que passa e que lutam sozinhas, sem qualquer ajuda exterior, vencendo todas as escolhas.
Seria Mariana capaz de se integrar num movimento feminista?
Tenho um terrivel defeito, que, aliás, se encontra desactualizado: sou individualista. Sentir-me-ia incapaz de me filiar em qualquer organização. Não deixo, contudo, de admirar os movimentos que existem. Tento, simultaneamente, ajudar o meu semelhante no que posso, como já disse.
Preconceituada?
Não tenho qualquer preconceito - pronunciou tranquilamente.
Mas, neste particular, o jornalista interroga-se a si próprio em que medida a salvaguarda das aparências pode condicionar uma resposta.
Entrevista de Luís Cid Pinto a Mariana Rey Monteiro, Diário de Notícias, 10 de Agosto de 1980.

quarta-feira, setembro 07, 2005

DUAS ESTRELAS PLANETÁRIAS COM O MESMO CHEIRINHO A "LUX"

segunda-feira, setembro 05, 2005


Memórias Dum Teatro Desaparecido
A Estreia Buliçosa
da "CASA DA BONECA"
Lucília tinha entrado pouco antes (4 de Maio de 1895) no "Frei Luís de Sousa", contracenando com o avô, o velho actor Simões. O seu êxito, então, como os seguintes, tinha a medida de um verdadeiro talento incipiente e da corte que rendiam a sua mãe, a grande Lucinda. Menina prodigio que mais tarde, emancipando-se e dignificando-se, a faria distanta à sombra dos Rosas e Brasões, a jovem Lucília tinha só dezasseis anos quando fez deliciosamente "Casa da Boneca". Ibsen teria nela uma das suas mais notáveis intérpretes. Mas a estreia em Coimbra, estava escrito, não seria feliz.
Lucinda, a meio do primeiro acto, dava judiciosamente conselhos a Lucília quando uma voz, saída das primeiras filas, disse com calma naturalidade:
- Muito bem, D. Lucinda!
A plateia galhofou, no palco houve surpresa, indecisão e silêncio; depois, tudo se recompôs e a peça prosseguiu. Mas, com a entrada de Cristiano em cena, outra vez se ouviu a mesma voz com a mesma calma naturalidade:
- Lá vem este escangalhar tudo!
Cristiano suspendeu-se, houve um segundo de expectativa e ouviu-se a sua voz, dirigindo-se ao ponto:
- Mande descer o pano!
E o pano desceu, no meio de tumultuosos protestos... incluindo os da autoridade, que apareceu no palco e convenceu Cristiano a mandar subir o pano. De facto, o pano subiu e Cristiano apareceu, pálido e emocionado, no meio da gritante academia. E Cristiano, que se formara em Direito naquela mesma Coimbra, que fora delegado do Ministério Público e, pelo teatro, não quisera ser juiz, disse nervosamente:
- Também tive a honra de pertencer a esta academia, mas no tempo em que se respeitavam os artistas de teatro, muito especialmente se tinham a categoria de D. Lucinda Simões, que dá a Coimbra a primeira de uma peça de Ibsen. Não admito que interronpam o espectáculo. Por isso, quem não compreender Ibsen pode levantar o dinheiro do seu bilhete!
Aos gritos, mais de metade da plateia retirou-se e não houve espectáculo.
No dia seguinte, porém, tudo se esclareceu: o "comentador" da véspera "tocara-se" num banquete a que acabara de assistir e ali estava agora a pedir as suas desculpa; uma comissão de estudantes pedia e dava explicações; e, com tamanho reclame imprevisto, à noite a casa teve enchente memorável. O êxito de Lucília também ficou memorável.
Nunca em Portugal se representara com tamanha ingenuidade e singeleza!"
- Diário de Notícias, 14 de Agosto de 1962

quarta-feira, agosto 31, 2005

António J. Branco - Diário Digital

Esta é a ditosa pátria minha amada?

Um professor de história que tive há cerca de quinze anos – Pereira de Carvalho – apresentou a melhor definição de Pátria que até hoje os meus olhos leram; disse ele, Pátria, é Terra de Antepassados. E é. E não há melhor definição; pelo menos no meu entendimento ou pelo menos por enquanto - também no meu entendimento.

Terra de Antepassados, embora sendo uma expressão formada por poucos caracteres, constitui um universo composto por: pessoas; feitos; ideias e ideais. Tudo o que foram, tudo o que fizeram e tudo o que deixaram por fazer. Que ficou registado, que ficou na história; na história das pessoas do país e nas pessoas de um país com história.

Desde Afonso Primeiro que assim é. Estão lá todos e nós sabemos quem são ou quem foram: os bons, os maus, os menos bons e os muito maus; todos contribuíram para aquilo que hoje somos, todos fazem parte da nossa Terra de Antepassados, da Pátria cantada e enaltecida por poetas como Camões ou “enegrecida e amaldiçoada” por Jorge de Sena. Os dois mostrando sentimento; cada um cantando a sua verdade.

É uma Pátria estranha; esta que herdámos dos sucessores de Afonso. Pelo menos esta que hoje assim se nos apresenta. Pelo menos esta que deixou de moldar os homens em torno de ideais e o passou a fazer, ou a deixá-la fazer, apenas orientado por ideias; pequenas acções de momento, destinadas ao imediato à vista sem terem em conta a abrangência futura, o horizonte lá longe para o qual é preciso levantar os olhos do chão, desagrafando-os de cada umbigo.

É uma Pátria injusta; esta que se rege por nivelamentos negativos – se um tem e outro não, não se dá ao que não tem; tira-se ao que tem. Esta que quer impor igualdades mantendo diferenças; esta que não sabendo honrar os seus heróis, se entretém a produzir mitos de plástico em noites e dias nublados sem nevoeiro; como se Sebastião voltasse ou como se valesse a pena voltar.

É uma Pátria anónima; esta que coloca nas ruas – toponímia – placas de identificação sem dizer quem foram, quando nasceram, quando morreram e o que fizeram para que figurem ali, despertados e entardecidos, mas imortalizados pelo tempo. Não estão todas as ruas e avenidas assim identificadas, mas são muitas; são demais.

É uma Pátria opaca; esta que aplaude a existência de quintas de coisas; de celebridades de plástico; de esquadrões contra natura e outras tantas muitas, infelizmente mais que muitas e demais, ocupando mentes e multidões em distracção de lazer fugaz, em pedradas fúteis e mesquinhas que apenas apelam à parte bruta do ser humano, estupidificando-o ou assumindo-o como já estupidificado.

É uma Pátria hipócrita; esta que se ocupa em discussões abortadas, misturando direitos com deveres; consciência individual com liberdade de decisão; realidade com ficção; dicotomias com simbioses; vida com morte; nascença com vivença.

É uma Pátria inculta e ignorante; esta que vive da memória de impérios desencontrados e de glórias perdidas e passadas, ignorando a história ou esquecendo a memória. Uma história sem memória nunca poderá ser a memória da história.

É uma Pátria afogueada, triste e amargurada; esta que tão bem sabe fingir, que tão bem sabe olhar para o lado, que assobia como ninguém, que se estende ao sol de Agosto, que está (sempre) de consciência tranquila, que se “almofada encadeirado” à secretária, que ensurdece e enrouquece ao telemóvel, que conduz nas estradas melhor que todos e melhor que tudo, eremitando-se e anoitecendo-se em abismos e falésias de praias nuas, que se diluem no voar aleatório de gaivotas desnorteadas, perdidas e desencontradas.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis; ela o que costuma”– Padre António Vieira. É uma verdade ingrata, não é?...como a Pátria!

Talvez esta não seja, “a ditosa pátria minha amada” nem o “torpe dejecto de romano império”; talvez não seja esta a pátria que eu mereço ou que me merece. Mas é esta a minha Pátria; é esta a minha Terra de Antepassados.

Niquel Nausea

terça-feira, agosto 30, 2005

Luís Rocha - Imortalizador de Imagens

Conheci o "Rocha" (Luís Rocha), por intermédio de amigos, na noite de Lisboa, mais especificamente no simpático e "castiço" Bairro da Bica.
O "Rocha" é, antes de mais, fotógrafo. Imortaliza para todo o sempre situações. Depois, um contador de histórias (como ele próprio se assume). E conta histórias pelas fotografias que capta, captando a nossa atenção e admiração.
Todo este blog não chegaria para falar de todas as coisas, e já foram muitas, que o "Rocha" fez. A que mais me cativou e "invejou" foi saber que dava aulas de fotografia para invisuais... não é maravilhoso?
Já o ouvi falar de muitas experiências pelas quais passou, falando sempre com um fascínio e um brilho nos olhos próprio de quem, realmente, ama o que faz.
Mas melhor que o meu discurso, são as suas imagens.
Deixo-vos aqui dois sites que falam e mostram algum do trabalho do fotógrafo Luis Rocha. Passem por lá e deixem os vossos olhos lerem as histórias que o "Rocha" tanto gosta de contar.
E com muita amizade, deixo-vos aqui uma fotografia que o "Rocha" tirou a mim e a uma grande (das melhores) amigas. Nela, a história que vos conta é a de uma forte amizade, cúmplicidade e carinho. Espero que gostem tanto dela quanto eu gosto.
A ti, "Rocha", um abraço. A ti, Ligia, um beijinho.