sexta-feira, setembro 23, 2005

Dois mini-artigos sobre o vergonhoso carnaval de Fátima Felgueiras

A Fatinha
Regressada de umas longas férias em Copacabana, a Dona Fátima Felgueiras diz agora "estar disponível para a justiça". No entanto, durante dois anos e meio esteve fugida dos tribunais e de uma prisão preventiva que nunca cumpriu. A Dona Fátima Felgueiras justifica-se com os julgamentos mediáticos que sujeitam os políticos a condenações antecipadas. No entanto, durante mais de dois anos, usou a democracia mediática dando entrevistas às televisões em que se apresentava, para espanto geral, como uma exilada política e pressionava as autoridades portuguesas a reverem a sua prisão. A Dona Fátima Felgueiras defende o seu direito à presunção de inocência. Mas quando alguém foge por dois anos e meio a um processo em que é suspeito de ter praticado 23 crimes, não sobra muito dessa presunção de inocência. Pelo menos, não se é inocente de ter fugido a uma medida de coacção judicialmente decretada. A Dona Fátima Felgueiras exige os direitos iguais de qualquer cidadão comum. Mas um cidadão comum não anda fugido dois anos e meio a uma prisão preventiva da qual preventivamente escapou e, ao regressar a Portugal, acaba em situação mais confortável do que a que tinha quando saiu. A Dona Fátima Felgueiras quer colaborar com a justiça, esclarecendo tudo sobre um processo em que é suspeita da prática de crimes no exercício de um cargo político. Mas a primeira coisa que a Dona Fátima Felgueiras fez ao chegar a Portugal foi pestanejar aos habitantes de Felgueiras e anunciar heroicamente a sua candidatura à Câmara, como se nenhum processo existisse.
A Dona Fátima Felgueiras está há dois anos e meio a envergonhar a democracia e a justiça portuguesa. A sua candidatura à Câmara de Felgueiras só pode ser vista como um insulto. Portugal é um país brando, inofensivo, poucochinho. Não se pensava que também fosse uma farsa.
Pedro Lomba
Justiça e água de coco
A juíza que deixou sair em liberdade Fátima Felgueiras pode ter seguido à risca todas as leis da nação. Todas as leis, menos uma a do bom-senso. A fazer jurisprudência, a decisão tomada pelo tribunal aconselha o seguinte: se o caro amigo estiver a braços com a justiça e à beira de ser encarcerado, dê um tempo. Apanhe o primeiro avião para um paraíso tropical, dedique-se à água de coco, refresque- -se numa esplanada junto ao mar, passeie-se pelo calçadão de Ipanema, suba ao Cristo Redentor, visite o Museu de Arte Contemporânea de Oscar Niemeyer, e espere. Espere, pois, com calma, tudo se resolverá. É preciso algum dinheiro, mas sejamos francos: entre os calabouços da Judiciária e a baía da Guanabara, quem é que não escolheria a baía da Guanabara?
Fátima Felgueiras escolheu a Guanabara, e escolheu bem. Dezasseis meses depois voltou, a justiça agradeceu-lhe a amabilidade e o povo acolheu-a em delírio. Aliás, Fátima Felgueiras não voltou apenas - ela voltou muito melhor do que partira. Excelente cor, cabelo escadeado, nuances acobreadas, pele rejuvenescida, talvez mesmo um face lifting. É como se tivesse estado dois anos e meio num spa, parcialmente pago pelo Estado português, à espera que as feridas da justiça cicatrizassem.
E um dia, Fatinha olhou para o calendário, viu que era época de eleições e que a fase de inquérito do seu processo já tinha terminado, e decidiu regressar a Portugal. Combinou com a Polícia Judiciária um comité de boas-vindas, viajou para Felgueiras com gasolina paga pelos nossos impostos, e foi alegremente libertada pela juíza da comarca, porque, claro, já não existe perigo de fuga e toda a prova necessária ao julgamento do seu caso foi reunida. Lógico? Muito lógico. Muito legal. Muito constitucional. Só que no meio de todas estas leis rigorosamente cumpridas, há um País a afundar-se, ao ritmo do samba.
João Miguel Tavares

sexta-feira, setembro 09, 2005


Mariana: dar o máximo na hora exacta
Mariana Rey Monteiro: a mulher e a actriz para além das distinções atribuídas pelos criticos. Diante de si e do advento "de uma renovação no mundo inteiro". Sobretudo com grande força de vontade. Disposta a continuar. Aqui
Considerada pelos críticos teatrais a melhor actriz da temporada pelo seu trabalho em "Filomena Marturano". Mas já não é esse o verdadeiro "timing" da entrevista. Os críticos pronunciaram-se há um mês. Mariana Rey Monteiro - para além de os eminentes a reconhecerem, na actualidade, como uma das actrizes de primeira grandeza - percorreu pelos palcos uma longa trajectória, estudando enredos e ficções, acumulando uma experiência de artista e mulher que justificam, a todo o momento, ouvi-la. De preferência pontualmente, levando-a para as zonas de maior embaraço.
Possivelmente, não haverá em Portugal muitos encenadores à altura (estatura) dela.
Misteriosa. Subtil. Excelente jogadora (de ideias e palavras). Desconcertante, por vezes. Afável, depois.
Pelos vistos, robustecida interiormente, contou-nos quase num repente uma imensidade de evidências (que a tanta gente escapam) e de preocupações (suas e dos outros).
Pensa que é complicada. Não teme nem hesita em dizê-lo. Porém, não é difícil saquear-lhe o que de mais humano (e humanista) guarda em si.
Insistimos, apesar de acontecimento passado, em "Filomena Marturano". O que tinha aquela personagem dentro de Mariana Rey Monteiro? A resposta surge pronta, a desmanchar, facilmente, os mitos:
Pessoalmente nada tenho a ver com tal personagem. Um dos interesses da nossa profissão é saber como nos mostrar fora de nós próprios.
O que acha que as pessoas pensam dela?
Não faço a mínima ideia - replica - Como tenho uma péssima opinião de mim própria, desejaria saber como suscitar de pessoas os comentários mais favoráveis. Sinto-me, constantemente, vitima de muitos motivos de dúvida e calcanhares de fraqueza. Concretamente: não me vejo realizada, nem como actriz nem pessoalmente. Gostaria que o que sai de mim fosse melhor. E daí a insatisfação.
Angústia? - saímos ao atalho, afrontando, porventura, o seu depoimento.
Angústia, não. Tenho a percepção clarividente e total das minhas próprias fraquezas. E sei o que amaria conseguir. Tenho a ansia da perfeição e nunca o receio da minha personalidade. Da qual não pretendo mudar.
Salta-nos à ideia a imagem de artistas e cientistas que para buscarem mais rapidamente a perfeição (ou a especialização) vão temporariamente para o estrangeiro ou emigram mesmo. Confrontámos Mariana Rey Monteiro com a hipótese.
O êxodo? Com a família a acompanhar? Para quê? Aqui, na nossa terra, também podemos encontrar a perfeição. Nem na China eu seria capaz de fugir de mim própria. A não ser, claro, nas horas de palco, em que sucede a evasão.
O que é ser actor e ser cidadão em Portugal?
Mariana sorri, ante a questão dupla. Reage, contudo, ao primeiro assalto:
Na parte profissional, é conseguir oferecer ao publico uma, pelo menos, destas três coisas: cultivar-se, distrair-se, pensar. Na parte pessoal é suavizar o sofrimento e as carências do próximo.
A nivel social, que caminhos Portugal vai levar?
Gostaria de ser Deus para responder a isso - afirma.
Depois do laconismo, a pausa. E retoma. Confessa que "como as outras pessoas" tem montes de projectos para o futuro. "A maior parte deles vive e morre connosco" - e contrai-se, num encolher de ombros. Prossegue: No âmbito nacional, aconteceram, na ultima década, fenómenos interessantes. A criação da Companhia Nacional de Bailado. O arranque de grupos de teatro independentes com espectáculos importantes.
O que é para Mariana Rey Monteiro um espectáculo importante?
É todo aquele - expõe - que consegue os objectivos que indiquei para o actor, aquele que consegue montar uma boa encenação e uma boa interpretação. E que constitua coisa séria e, sobretudo, digna de respeito pelo que põe em prática.
Crise por crise, na sociedade nas épocas. E a entrevistada fala-nos, adiante, de uma crise internacional, em que se insere a convulsão para um estado de espírito menos agradável, mais preocupante. Penso - diz Mariana - que uma qualquer era está a chegar ao fim, constituindo o advento de uma renovação no mundo inteiro. Há crises cíclicas na História da Humanidade e atravessamos, agora, uma fase de mudança.
Mariana Rey Monteiro disserta, por avanço, sobre "a dificuldade de um actor ver, em Portugal, os seus frutos colhidos".
O teatro está na mesma proporção da riqueza de um país e o nosso é pobre. Por sua vez o publico conhece o teatro especialmente pelo teatro de revista (e sublinho, no entanto, que quem elabora um bom teatro de revista é bom artista). Tadavia, existe outro tipo de teatro mais profundo, ainda acessível apenas a sectores minoritários. As crianças sabem as horas dos programas da TV, mas ignoram quase totalmente (por culpa dos pais) o teatro, que é um sitio com cadeiras e um palco onde se vai passar alguma coisa ao vivo.
Contudo, a cavaqueira deu para muito mais. A actriz explicou-nos que não gosta de fazer teatro na televisão, para não se sentir "mecanizada".
O encanto da minha profissão é estar na hora exacta a dar o máximo sem poder voltar para trás - opinou.
Que pensa Mariana do Teatro Nacional?
Desde o incêndio nunca mais lá fui. Não sei como funciona, nem sequer como está construído.
Acrescentou, em mudanças de tema, que não é "nada supersticiosa. Nove netos já me chegam para tornar tudo bem real".
Por isso, não sendo supersticiosa, e imaginando-a num lado oposto, quisémos saber, de sua opinião em que pode a ciência constribuir para o teatro.
Com o estudo permanente - impõe -, nunca se acaba de aprender. A profissão tem ainda muitas buscas a fazer com base na leitura, na encenação, nos ensinamentos que cada encenador novo nos traz.
Parece-lhe existir, com alguma representatividade, um verdadeiro teatro de vanguarda?
Sim. O teatro de pesquisa.
Gostaria de participar nele?
Gostaria de passar por todas as experiências no campo do teatro.
E, depois, qual escolheria?
Só no momento adequado é que lhe poderia revelar.
Que influência teve a figura de sua mãe (Amélia Rey Colaço) na sua formação artística?
Não se esqueça de escrever que a minha resposta, neste caso, é muito suspeita. Mas como quer que lhe fale da minha mãe, dir-lhe-ei que é uma mulher extraordinária, superiormente inteligente e que se tivesse sido actriz na Alemanha, na Inglaterra ou na América não seria ignorada em qualquer canto do globo. Estou a dizer-lhe isto numa perspectiva em relação à minha mãe em que incluo aspectos de como actriz e como mulher também...
Que pensa das mulheres deste país?
Penso que as mulheres portuguesas são umas heroínas. Pelo menos no círculo em que me encontro, verifico como tanto as minhas filhas como as minhas noras são, constantemente, mulheres de armas a enfrentar a hora que passa e que lutam sozinhas, sem qualquer ajuda exterior, vencendo todas as escolhas.
Seria Mariana capaz de se integrar num movimento feminista?
Tenho um terrivel defeito, que, aliás, se encontra desactualizado: sou individualista. Sentir-me-ia incapaz de me filiar em qualquer organização. Não deixo, contudo, de admirar os movimentos que existem. Tento, simultaneamente, ajudar o meu semelhante no que posso, como já disse.
Preconceituada?
Não tenho qualquer preconceito - pronunciou tranquilamente.
Mas, neste particular, o jornalista interroga-se a si próprio em que medida a salvaguarda das aparências pode condicionar uma resposta.
Entrevista de Luís Cid Pinto a Mariana Rey Monteiro, Diário de Notícias, 10 de Agosto de 1980.

quarta-feira, setembro 07, 2005

DUAS ESTRELAS PLANETÁRIAS COM O MESMO CHEIRINHO A "LUX"

segunda-feira, setembro 05, 2005


Memórias Dum Teatro Desaparecido
A Estreia Buliçosa
da "CASA DA BONECA"
Lucília tinha entrado pouco antes (4 de Maio de 1895) no "Frei Luís de Sousa", contracenando com o avô, o velho actor Simões. O seu êxito, então, como os seguintes, tinha a medida de um verdadeiro talento incipiente e da corte que rendiam a sua mãe, a grande Lucinda. Menina prodigio que mais tarde, emancipando-se e dignificando-se, a faria distanta à sombra dos Rosas e Brasões, a jovem Lucília tinha só dezasseis anos quando fez deliciosamente "Casa da Boneca". Ibsen teria nela uma das suas mais notáveis intérpretes. Mas a estreia em Coimbra, estava escrito, não seria feliz.
Lucinda, a meio do primeiro acto, dava judiciosamente conselhos a Lucília quando uma voz, saída das primeiras filas, disse com calma naturalidade:
- Muito bem, D. Lucinda!
A plateia galhofou, no palco houve surpresa, indecisão e silêncio; depois, tudo se recompôs e a peça prosseguiu. Mas, com a entrada de Cristiano em cena, outra vez se ouviu a mesma voz com a mesma calma naturalidade:
- Lá vem este escangalhar tudo!
Cristiano suspendeu-se, houve um segundo de expectativa e ouviu-se a sua voz, dirigindo-se ao ponto:
- Mande descer o pano!
E o pano desceu, no meio de tumultuosos protestos... incluindo os da autoridade, que apareceu no palco e convenceu Cristiano a mandar subir o pano. De facto, o pano subiu e Cristiano apareceu, pálido e emocionado, no meio da gritante academia. E Cristiano, que se formara em Direito naquela mesma Coimbra, que fora delegado do Ministério Público e, pelo teatro, não quisera ser juiz, disse nervosamente:
- Também tive a honra de pertencer a esta academia, mas no tempo em que se respeitavam os artistas de teatro, muito especialmente se tinham a categoria de D. Lucinda Simões, que dá a Coimbra a primeira de uma peça de Ibsen. Não admito que interronpam o espectáculo. Por isso, quem não compreender Ibsen pode levantar o dinheiro do seu bilhete!
Aos gritos, mais de metade da plateia retirou-se e não houve espectáculo.
No dia seguinte, porém, tudo se esclareceu: o "comentador" da véspera "tocara-se" num banquete a que acabara de assistir e ali estava agora a pedir as suas desculpa; uma comissão de estudantes pedia e dava explicações; e, com tamanho reclame imprevisto, à noite a casa teve enchente memorável. O êxito de Lucília também ficou memorável.
Nunca em Portugal se representara com tamanha ingenuidade e singeleza!"
- Diário de Notícias, 14 de Agosto de 1962

quarta-feira, agosto 31, 2005

António J. Branco - Diário Digital

Esta é a ditosa pátria minha amada?

Um professor de história que tive há cerca de quinze anos – Pereira de Carvalho – apresentou a melhor definição de Pátria que até hoje os meus olhos leram; disse ele, Pátria, é Terra de Antepassados. E é. E não há melhor definição; pelo menos no meu entendimento ou pelo menos por enquanto - também no meu entendimento.

Terra de Antepassados, embora sendo uma expressão formada por poucos caracteres, constitui um universo composto por: pessoas; feitos; ideias e ideais. Tudo o que foram, tudo o que fizeram e tudo o que deixaram por fazer. Que ficou registado, que ficou na história; na história das pessoas do país e nas pessoas de um país com história.

Desde Afonso Primeiro que assim é. Estão lá todos e nós sabemos quem são ou quem foram: os bons, os maus, os menos bons e os muito maus; todos contribuíram para aquilo que hoje somos, todos fazem parte da nossa Terra de Antepassados, da Pátria cantada e enaltecida por poetas como Camões ou “enegrecida e amaldiçoada” por Jorge de Sena. Os dois mostrando sentimento; cada um cantando a sua verdade.

É uma Pátria estranha; esta que herdámos dos sucessores de Afonso. Pelo menos esta que hoje assim se nos apresenta. Pelo menos esta que deixou de moldar os homens em torno de ideais e o passou a fazer, ou a deixá-la fazer, apenas orientado por ideias; pequenas acções de momento, destinadas ao imediato à vista sem terem em conta a abrangência futura, o horizonte lá longe para o qual é preciso levantar os olhos do chão, desagrafando-os de cada umbigo.

É uma Pátria injusta; esta que se rege por nivelamentos negativos – se um tem e outro não, não se dá ao que não tem; tira-se ao que tem. Esta que quer impor igualdades mantendo diferenças; esta que não sabendo honrar os seus heróis, se entretém a produzir mitos de plástico em noites e dias nublados sem nevoeiro; como se Sebastião voltasse ou como se valesse a pena voltar.

É uma Pátria anónima; esta que coloca nas ruas – toponímia – placas de identificação sem dizer quem foram, quando nasceram, quando morreram e o que fizeram para que figurem ali, despertados e entardecidos, mas imortalizados pelo tempo. Não estão todas as ruas e avenidas assim identificadas, mas são muitas; são demais.

É uma Pátria opaca; esta que aplaude a existência de quintas de coisas; de celebridades de plástico; de esquadrões contra natura e outras tantas muitas, infelizmente mais que muitas e demais, ocupando mentes e multidões em distracção de lazer fugaz, em pedradas fúteis e mesquinhas que apenas apelam à parte bruta do ser humano, estupidificando-o ou assumindo-o como já estupidificado.

É uma Pátria hipócrita; esta que se ocupa em discussões abortadas, misturando direitos com deveres; consciência individual com liberdade de decisão; realidade com ficção; dicotomias com simbioses; vida com morte; nascença com vivença.

É uma Pátria inculta e ignorante; esta que vive da memória de impérios desencontrados e de glórias perdidas e passadas, ignorando a história ou esquecendo a memória. Uma história sem memória nunca poderá ser a memória da história.

É uma Pátria afogueada, triste e amargurada; esta que tão bem sabe fingir, que tão bem sabe olhar para o lado, que assobia como ninguém, que se estende ao sol de Agosto, que está (sempre) de consciência tranquila, que se “almofada encadeirado” à secretária, que ensurdece e enrouquece ao telemóvel, que conduz nas estradas melhor que todos e melhor que tudo, eremitando-se e anoitecendo-se em abismos e falésias de praias nuas, que se diluem no voar aleatório de gaivotas desnorteadas, perdidas e desencontradas.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis; ela o que costuma”– Padre António Vieira. É uma verdade ingrata, não é?...como a Pátria!

Talvez esta não seja, “a ditosa pátria minha amada” nem o “torpe dejecto de romano império”; talvez não seja esta a pátria que eu mereço ou que me merece. Mas é esta a minha Pátria; é esta a minha Terra de Antepassados.

Niquel Nausea

terça-feira, agosto 30, 2005

Luís Rocha - Imortalizador de Imagens

Conheci o "Rocha" (Luís Rocha), por intermédio de amigos, na noite de Lisboa, mais especificamente no simpático e "castiço" Bairro da Bica.
O "Rocha" é, antes de mais, fotógrafo. Imortaliza para todo o sempre situações. Depois, um contador de histórias (como ele próprio se assume). E conta histórias pelas fotografias que capta, captando a nossa atenção e admiração.
Todo este blog não chegaria para falar de todas as coisas, e já foram muitas, que o "Rocha" fez. A que mais me cativou e "invejou" foi saber que dava aulas de fotografia para invisuais... não é maravilhoso?
Já o ouvi falar de muitas experiências pelas quais passou, falando sempre com um fascínio e um brilho nos olhos próprio de quem, realmente, ama o que faz.
Mas melhor que o meu discurso, são as suas imagens.
Deixo-vos aqui dois sites que falam e mostram algum do trabalho do fotógrafo Luis Rocha. Passem por lá e deixem os vossos olhos lerem as histórias que o "Rocha" tanto gosta de contar.
E com muita amizade, deixo-vos aqui uma fotografia que o "Rocha" tirou a mim e a uma grande (das melhores) amigas. Nela, a história que vos conta é a de uma forte amizade, cúmplicidade e carinho. Espero que gostem tanto dela quanto eu gosto.
A ti, "Rocha", um abraço. A ti, Ligia, um beijinho.

Mais uma vez os concursos de professores

Mais um ano que passa e mais um ano em que fico sem dar aular, sem arranjar colocação. Diz-se, entre os historiadores, que a história não se repete... que apenas tem semelhanças quando certos e determinados factores se conjugam. Sabemos que em anos de muita seca, ou de muita chuva, os campos agricolas ficavam arrasados, haveria carência alimentar, levando ao aumento dos preços. Até à Idade Moderna levava, obrigatoriamente, à fome e desta para as pestes. Isto é ciclico e sabido.
Mas no caso dos concursos de professores, os factores que se conjugam não são sempre os mesmos e levam ao mesmo resultado: desemprego de milhares de pessoas que apostaram, como muitos outros em muitos áreas, a uma formação especificia com o objectivo de fazer da vida qualquer coisa de útil e benefico.
Os partidos sucedem-se no Governo; os ministros também; há reformas e contra-reformas no ensino; há novas leis que saem e outras que se revogam; há novos programas, novas pedagogias (normalmente cada uma pior que a outra), novas maneiras de se entender a escola. E qual é o resultado? Uma escola cada vez mais degradada, com professores cada vez mais incompetentes e com falta de paciência para os alunos que, com a conivência do Estado e da Familia, estudam cada vez menos, para quem o trabalho não existe, e para quem o que interessa é o recreio (que tem a sua continuidade na sala de aula) e o lazer.
Ano após anos a história repete-se com factores diferentes que se conjugam. Vejo a escola e os concursos de professores como um daqueles virus que, consoante o ambiente, as resistências e as vacinas que se arranjam, encontra maneira de se transformar, de se transmutar para conseguir sobrevivier e continuar a sua "destruição".
Haverá quarentena possivel para esta doença? Não sei. No estado avançado em que se encontra dúvido. Melhor mesmo é acabar com a espécie que serve de transmissor ao virus e recomeçar tudo de novo. Eu sugiro que se começe pelos pedagogos e supostos entendidos em educação e mandava implodir o Ministério da Educação... eu mesmo me ofereço para o detonar.
Daniel Ferreira
Os professores sem alunos
Filipe Rodrigues da Silva

A respeito do último texto deste espaço do DD, «No país dos tristes», vários leitores enviaram emails efectuando comentários sobre o mesmo.
Uns concordando. Outros discordando. Outros ainda opinando. Uns quantos questionando. E entre as questões surgidas, há uma - enviada por uma portuguesa a viver há alguns anos em França - pertinente: em que área da sociedade se deu o maior falhanço nacional?
Podemos falar das reformas do Estado que nunca chegaram. Da falta de dinâmica da economia. Da saúde. Da justiça. Mas julgo que o maior drama nacional se centra na educação, onde nenhuma política assumida pelos diferentes governos foi seguida de forma ordenada, equacionando-se muitas vezes se os sistemas adoptados haviam sido alguma vez realmente pensados para a realidade portuguesa.
O problema vai do pré-escolar às universidades. Dos programas adoptados à colocação de professores. Do início quase sempre confuso das aulas à qualidade das mesmas. Dos desejos de uma reforma do ensino às infraestruturas em degradação. Das fornadas de licenciados com cursos de papel e sem futuro à falta de preparação profissional e de saídas profissionais.
É uma luta antiga, mas que não pode ser abandonada, sob o risco de hipotecar-se o futuro do País. Uma área sensível, que não pode viver sob a instabilidade de 20 e tal ministros diferentes desde o 25 de Abril, cada um ansioso por deixar obra feita e borrar do mapa o trajecto do antecessor.
A poucas semanas do começo das aulas, foram conhecidos na segunda-feira os resultados dos concursos de professores que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação.
Os números terão as suas justificações, mas assustam. Findas as colocações, analisando-se os saldos dos récem-contratados pelo Ministério da Educação e os dos novos candidatos ao trabalho no ensino, cerca de 40 mil destes profissionais ficarão sem trabalho neste ano lectivo.
No entanto, a boa notícia é que - aparentemente - este ano lectivo vai começar sem grandes sobressaltos, ou, pelo menos, distante dos percalços do ano passado.
Notou-se um esforço meritório do Governo, de modo a garantir o arranque das aulas. Haja algo que comece a funcionar bem em Portugal.
Fica, no entanto, o drama. Estamos a salvaguardar o futuro ao dar melhores condições a milhares de jovens e a contribuir para a sua formação. Mas tal só valerá a pena se daqui a vinte ou trinta anos não houver 40 mil candidatos a professores desempregados. Desperdiçar tantos recursos é um suicídio social.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Luis Delgado - "Soares já era..."

É altamente improvável, nesta altura, que Mário Soares venha a ser o novo Presidente da República. As razões são várias, mas faça-se, apesar de tudo, o desconto dos imprevistos, mudanças de atitude, dificuldades e acontecimentos que tudo podem mudar. Em todo o caso, e se as eleições fossem agora, Soares perderia, à primeira volta, e irremediavelmente

1. Cavaco vai avançar, depois das autárquicas, e o clima político de grande desânimo, depressivo e de desconfiança nos políticos leva a que os eleitores se revejam num perfil como o do ex-PM, austero, credível, e com um capital acumulado de desempenho notável, que mais ninguém tem. A hora faz o vencedor. Soares teria outras hipóteses se este Governo tivesse cumprido o que prometeu e se o País estivesse a regressar ao seu melhor.

2. Soares é um has been, e os portugueses, mesmo os da sua cor e simpatia, gostariam de ver outras alternativas. É isso a democracia alternativa e a ideia fundamental de que todos têm a hipótese de chegar lá. O País não pode ficar refém do passado, por muito que esse fantasma resida na nossa consciência colectiva. Soares foi bom, foi tudo, e chega.

3. O aparecimento de outras candidaturas, mesmo que desistam à última hora, não ajudará o candidato Mário Soares. Haverá dispersão da mensagem, ataques mútuos, e o tempo de tapar os olhos e votar em Soares já passou. A história não se repete, por muito que se sonhe com isso.

4. A forma como Manuel Alegre, e os seus apoiantes, foi tratado não augura nada de bom para um eleitorado mais de esquerda do PS. E em teoria até se poderia dar o caso de Soares não avançar à última hora, depois de um sono bem dormido, e Alegre fazer a sua birra, com toda a razão, deixando o PS sem eira nem beira.

5. Por último, a colagem ao Governo ou o apoio de Sócrates a uma candidatura de Mário Soares não parece ser, nesta fase, um factor catalisador. Pelo contrário. Se há insatisfação, descontentamento e desilusão, isso deve-se ao Executivo e às suas entradas de leão e saídas de sendeiro. O Governo não é um balão de oxigénio para Soares, mas um incêndio descontrolado que só o pode queimar.

Luis Delgado, Diário de Noticias de 25 de Agosto de 2005