segunda-feira, setembro 05, 2005


Memórias Dum Teatro Desaparecido
A Estreia Buliçosa
da "CASA DA BONECA"
Lucília tinha entrado pouco antes (4 de Maio de 1895) no "Frei Luís de Sousa", contracenando com o avô, o velho actor Simões. O seu êxito, então, como os seguintes, tinha a medida de um verdadeiro talento incipiente e da corte que rendiam a sua mãe, a grande Lucinda. Menina prodigio que mais tarde, emancipando-se e dignificando-se, a faria distanta à sombra dos Rosas e Brasões, a jovem Lucília tinha só dezasseis anos quando fez deliciosamente "Casa da Boneca". Ibsen teria nela uma das suas mais notáveis intérpretes. Mas a estreia em Coimbra, estava escrito, não seria feliz.
Lucinda, a meio do primeiro acto, dava judiciosamente conselhos a Lucília quando uma voz, saída das primeiras filas, disse com calma naturalidade:
- Muito bem, D. Lucinda!
A plateia galhofou, no palco houve surpresa, indecisão e silêncio; depois, tudo se recompôs e a peça prosseguiu. Mas, com a entrada de Cristiano em cena, outra vez se ouviu a mesma voz com a mesma calma naturalidade:
- Lá vem este escangalhar tudo!
Cristiano suspendeu-se, houve um segundo de expectativa e ouviu-se a sua voz, dirigindo-se ao ponto:
- Mande descer o pano!
E o pano desceu, no meio de tumultuosos protestos... incluindo os da autoridade, que apareceu no palco e convenceu Cristiano a mandar subir o pano. De facto, o pano subiu e Cristiano apareceu, pálido e emocionado, no meio da gritante academia. E Cristiano, que se formara em Direito naquela mesma Coimbra, que fora delegado do Ministério Público e, pelo teatro, não quisera ser juiz, disse nervosamente:
- Também tive a honra de pertencer a esta academia, mas no tempo em que se respeitavam os artistas de teatro, muito especialmente se tinham a categoria de D. Lucinda Simões, que dá a Coimbra a primeira de uma peça de Ibsen. Não admito que interronpam o espectáculo. Por isso, quem não compreender Ibsen pode levantar o dinheiro do seu bilhete!
Aos gritos, mais de metade da plateia retirou-se e não houve espectáculo.
No dia seguinte, porém, tudo se esclareceu: o "comentador" da véspera "tocara-se" num banquete a que acabara de assistir e ali estava agora a pedir as suas desculpa; uma comissão de estudantes pedia e dava explicações; e, com tamanho reclame imprevisto, à noite a casa teve enchente memorável. O êxito de Lucília também ficou memorável.
Nunca em Portugal se representara com tamanha ingenuidade e singeleza!"
- Diário de Notícias, 14 de Agosto de 1962

quarta-feira, agosto 31, 2005

António J. Branco - Diário Digital

Esta é a ditosa pátria minha amada?

Um professor de história que tive há cerca de quinze anos – Pereira de Carvalho – apresentou a melhor definição de Pátria que até hoje os meus olhos leram; disse ele, Pátria, é Terra de Antepassados. E é. E não há melhor definição; pelo menos no meu entendimento ou pelo menos por enquanto - também no meu entendimento.

Terra de Antepassados, embora sendo uma expressão formada por poucos caracteres, constitui um universo composto por: pessoas; feitos; ideias e ideais. Tudo o que foram, tudo o que fizeram e tudo o que deixaram por fazer. Que ficou registado, que ficou na história; na história das pessoas do país e nas pessoas de um país com história.

Desde Afonso Primeiro que assim é. Estão lá todos e nós sabemos quem são ou quem foram: os bons, os maus, os menos bons e os muito maus; todos contribuíram para aquilo que hoje somos, todos fazem parte da nossa Terra de Antepassados, da Pátria cantada e enaltecida por poetas como Camões ou “enegrecida e amaldiçoada” por Jorge de Sena. Os dois mostrando sentimento; cada um cantando a sua verdade.

É uma Pátria estranha; esta que herdámos dos sucessores de Afonso. Pelo menos esta que hoje assim se nos apresenta. Pelo menos esta que deixou de moldar os homens em torno de ideais e o passou a fazer, ou a deixá-la fazer, apenas orientado por ideias; pequenas acções de momento, destinadas ao imediato à vista sem terem em conta a abrangência futura, o horizonte lá longe para o qual é preciso levantar os olhos do chão, desagrafando-os de cada umbigo.

É uma Pátria injusta; esta que se rege por nivelamentos negativos – se um tem e outro não, não se dá ao que não tem; tira-se ao que tem. Esta que quer impor igualdades mantendo diferenças; esta que não sabendo honrar os seus heróis, se entretém a produzir mitos de plástico em noites e dias nublados sem nevoeiro; como se Sebastião voltasse ou como se valesse a pena voltar.

É uma Pátria anónima; esta que coloca nas ruas – toponímia – placas de identificação sem dizer quem foram, quando nasceram, quando morreram e o que fizeram para que figurem ali, despertados e entardecidos, mas imortalizados pelo tempo. Não estão todas as ruas e avenidas assim identificadas, mas são muitas; são demais.

É uma Pátria opaca; esta que aplaude a existência de quintas de coisas; de celebridades de plástico; de esquadrões contra natura e outras tantas muitas, infelizmente mais que muitas e demais, ocupando mentes e multidões em distracção de lazer fugaz, em pedradas fúteis e mesquinhas que apenas apelam à parte bruta do ser humano, estupidificando-o ou assumindo-o como já estupidificado.

É uma Pátria hipócrita; esta que se ocupa em discussões abortadas, misturando direitos com deveres; consciência individual com liberdade de decisão; realidade com ficção; dicotomias com simbioses; vida com morte; nascença com vivença.

É uma Pátria inculta e ignorante; esta que vive da memória de impérios desencontrados e de glórias perdidas e passadas, ignorando a história ou esquecendo a memória. Uma história sem memória nunca poderá ser a memória da história.

É uma Pátria afogueada, triste e amargurada; esta que tão bem sabe fingir, que tão bem sabe olhar para o lado, que assobia como ninguém, que se estende ao sol de Agosto, que está (sempre) de consciência tranquila, que se “almofada encadeirado” à secretária, que ensurdece e enrouquece ao telemóvel, que conduz nas estradas melhor que todos e melhor que tudo, eremitando-se e anoitecendo-se em abismos e falésias de praias nuas, que se diluem no voar aleatório de gaivotas desnorteadas, perdidas e desencontradas.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis; ela o que costuma”– Padre António Vieira. É uma verdade ingrata, não é?...como a Pátria!

Talvez esta não seja, “a ditosa pátria minha amada” nem o “torpe dejecto de romano império”; talvez não seja esta a pátria que eu mereço ou que me merece. Mas é esta a minha Pátria; é esta a minha Terra de Antepassados.

Niquel Nausea

terça-feira, agosto 30, 2005

Luís Rocha - Imortalizador de Imagens

Conheci o "Rocha" (Luís Rocha), por intermédio de amigos, na noite de Lisboa, mais especificamente no simpático e "castiço" Bairro da Bica.
O "Rocha" é, antes de mais, fotógrafo. Imortaliza para todo o sempre situações. Depois, um contador de histórias (como ele próprio se assume). E conta histórias pelas fotografias que capta, captando a nossa atenção e admiração.
Todo este blog não chegaria para falar de todas as coisas, e já foram muitas, que o "Rocha" fez. A que mais me cativou e "invejou" foi saber que dava aulas de fotografia para invisuais... não é maravilhoso?
Já o ouvi falar de muitas experiências pelas quais passou, falando sempre com um fascínio e um brilho nos olhos próprio de quem, realmente, ama o que faz.
Mas melhor que o meu discurso, são as suas imagens.
Deixo-vos aqui dois sites que falam e mostram algum do trabalho do fotógrafo Luis Rocha. Passem por lá e deixem os vossos olhos lerem as histórias que o "Rocha" tanto gosta de contar.
E com muita amizade, deixo-vos aqui uma fotografia que o "Rocha" tirou a mim e a uma grande (das melhores) amigas. Nela, a história que vos conta é a de uma forte amizade, cúmplicidade e carinho. Espero que gostem tanto dela quanto eu gosto.
A ti, "Rocha", um abraço. A ti, Ligia, um beijinho.

Mais uma vez os concursos de professores

Mais um ano que passa e mais um ano em que fico sem dar aular, sem arranjar colocação. Diz-se, entre os historiadores, que a história não se repete... que apenas tem semelhanças quando certos e determinados factores se conjugam. Sabemos que em anos de muita seca, ou de muita chuva, os campos agricolas ficavam arrasados, haveria carência alimentar, levando ao aumento dos preços. Até à Idade Moderna levava, obrigatoriamente, à fome e desta para as pestes. Isto é ciclico e sabido.
Mas no caso dos concursos de professores, os factores que se conjugam não são sempre os mesmos e levam ao mesmo resultado: desemprego de milhares de pessoas que apostaram, como muitos outros em muitos áreas, a uma formação especificia com o objectivo de fazer da vida qualquer coisa de útil e benefico.
Os partidos sucedem-se no Governo; os ministros também; há reformas e contra-reformas no ensino; há novas leis que saem e outras que se revogam; há novos programas, novas pedagogias (normalmente cada uma pior que a outra), novas maneiras de se entender a escola. E qual é o resultado? Uma escola cada vez mais degradada, com professores cada vez mais incompetentes e com falta de paciência para os alunos que, com a conivência do Estado e da Familia, estudam cada vez menos, para quem o trabalho não existe, e para quem o que interessa é o recreio (que tem a sua continuidade na sala de aula) e o lazer.
Ano após anos a história repete-se com factores diferentes que se conjugam. Vejo a escola e os concursos de professores como um daqueles virus que, consoante o ambiente, as resistências e as vacinas que se arranjam, encontra maneira de se transformar, de se transmutar para conseguir sobrevivier e continuar a sua "destruição".
Haverá quarentena possivel para esta doença? Não sei. No estado avançado em que se encontra dúvido. Melhor mesmo é acabar com a espécie que serve de transmissor ao virus e recomeçar tudo de novo. Eu sugiro que se começe pelos pedagogos e supostos entendidos em educação e mandava implodir o Ministério da Educação... eu mesmo me ofereço para o detonar.
Daniel Ferreira
Os professores sem alunos
Filipe Rodrigues da Silva

A respeito do último texto deste espaço do DD, «No país dos tristes», vários leitores enviaram emails efectuando comentários sobre o mesmo.
Uns concordando. Outros discordando. Outros ainda opinando. Uns quantos questionando. E entre as questões surgidas, há uma - enviada por uma portuguesa a viver há alguns anos em França - pertinente: em que área da sociedade se deu o maior falhanço nacional?
Podemos falar das reformas do Estado que nunca chegaram. Da falta de dinâmica da economia. Da saúde. Da justiça. Mas julgo que o maior drama nacional se centra na educação, onde nenhuma política assumida pelos diferentes governos foi seguida de forma ordenada, equacionando-se muitas vezes se os sistemas adoptados haviam sido alguma vez realmente pensados para a realidade portuguesa.
O problema vai do pré-escolar às universidades. Dos programas adoptados à colocação de professores. Do início quase sempre confuso das aulas à qualidade das mesmas. Dos desejos de uma reforma do ensino às infraestruturas em degradação. Das fornadas de licenciados com cursos de papel e sem futuro à falta de preparação profissional e de saídas profissionais.
É uma luta antiga, mas que não pode ser abandonada, sob o risco de hipotecar-se o futuro do País. Uma área sensível, que não pode viver sob a instabilidade de 20 e tal ministros diferentes desde o 25 de Abril, cada um ansioso por deixar obra feita e borrar do mapa o trajecto do antecessor.
A poucas semanas do começo das aulas, foram conhecidos na segunda-feira os resultados dos concursos de professores que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação.
Os números terão as suas justificações, mas assustam. Findas as colocações, analisando-se os saldos dos récem-contratados pelo Ministério da Educação e os dos novos candidatos ao trabalho no ensino, cerca de 40 mil destes profissionais ficarão sem trabalho neste ano lectivo.
No entanto, a boa notícia é que - aparentemente - este ano lectivo vai começar sem grandes sobressaltos, ou, pelo menos, distante dos percalços do ano passado.
Notou-se um esforço meritório do Governo, de modo a garantir o arranque das aulas. Haja algo que comece a funcionar bem em Portugal.
Fica, no entanto, o drama. Estamos a salvaguardar o futuro ao dar melhores condições a milhares de jovens e a contribuir para a sua formação. Mas tal só valerá a pena se daqui a vinte ou trinta anos não houver 40 mil candidatos a professores desempregados. Desperdiçar tantos recursos é um suicídio social.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Luis Delgado - "Soares já era..."

É altamente improvável, nesta altura, que Mário Soares venha a ser o novo Presidente da República. As razões são várias, mas faça-se, apesar de tudo, o desconto dos imprevistos, mudanças de atitude, dificuldades e acontecimentos que tudo podem mudar. Em todo o caso, e se as eleições fossem agora, Soares perderia, à primeira volta, e irremediavelmente

1. Cavaco vai avançar, depois das autárquicas, e o clima político de grande desânimo, depressivo e de desconfiança nos políticos leva a que os eleitores se revejam num perfil como o do ex-PM, austero, credível, e com um capital acumulado de desempenho notável, que mais ninguém tem. A hora faz o vencedor. Soares teria outras hipóteses se este Governo tivesse cumprido o que prometeu e se o País estivesse a regressar ao seu melhor.

2. Soares é um has been, e os portugueses, mesmo os da sua cor e simpatia, gostariam de ver outras alternativas. É isso a democracia alternativa e a ideia fundamental de que todos têm a hipótese de chegar lá. O País não pode ficar refém do passado, por muito que esse fantasma resida na nossa consciência colectiva. Soares foi bom, foi tudo, e chega.

3. O aparecimento de outras candidaturas, mesmo que desistam à última hora, não ajudará o candidato Mário Soares. Haverá dispersão da mensagem, ataques mútuos, e o tempo de tapar os olhos e votar em Soares já passou. A história não se repete, por muito que se sonhe com isso.

4. A forma como Manuel Alegre, e os seus apoiantes, foi tratado não augura nada de bom para um eleitorado mais de esquerda do PS. E em teoria até se poderia dar o caso de Soares não avançar à última hora, depois de um sono bem dormido, e Alegre fazer a sua birra, com toda a razão, deixando o PS sem eira nem beira.

5. Por último, a colagem ao Governo ou o apoio de Sócrates a uma candidatura de Mário Soares não parece ser, nesta fase, um factor catalisador. Pelo contrário. Se há insatisfação, descontentamento e desilusão, isso deve-se ao Executivo e às suas entradas de leão e saídas de sendeiro. O Governo não é um balão de oxigénio para Soares, mas um incêndio descontrolado que só o pode queimar.

Luis Delgado, Diário de Noticias de 25 de Agosto de 2005

quarta-feira, agosto 24, 2005

Jornais de outras épocas - Notícias interessantes e cartoons hilariantes

Não é de agora as notícias sem interesse e os cartoons, mais ou menos engraçados, que vamos encontrando nos jornais de hoje. Ora veja estes dois exemplos, encontrados na mesma página, do Diário de Noticias, de 12 de Agosto de 1951.
O primeiro desenho mostra um importantissimo estudo sobre o "sobe e desce" das saías das senhoras, de 1918 a 1952. Reparem que atrevidas eram as senhoras em 1928... record.
A segunda imagem é um cartoon "hilariante" satirizando os constantes atropelamentos que os eléctricos provocavam em Lisboa. Rarissimos são os dias onde não aparecem pessoas mortas, feridas e, até mesmo, entaladas por eléctricos. Ora ria-se lá...

Para que serve um primeiro-ministro - José de Matos Correia

O primeiro-ministro esteve de férias. Fez bem. As férias são um direito fundamental, constitucionalmente garantido a qualquer cidadão que trabalhe. Na sua ausência, a direcção do Executivo ficou a cargo do ministro de Estado e da Administração Interna. Compreende-se que, em circunstâncias normais, assim seja. Afinal, trata-se do n.º 2 do Governo. O problema é que, no período em que o eng. José Sócrates esteve fora, o País foi assolado por uma verdadeira onda de fogo. E, talvez por estar muito longe e por lhe causar grande transtorno, o primeiro-ministro decidiu não interromper o seu período de descanso. Fez mal. Fez mesmo muito mal.
Como seria de esperar, tal atitude deu azo a críticas várias. Críticas muito moderadas, aliás, face não só à relevância do facto, mas também ao que certamente teria ocorrido caso o episódio se tivesse passado com os dois anteriores primeiros-ministros. Mesmo assim, e sempre muito sensível aos reparos que lhe são feitos, o primeiro-ministro abespinhou-se. Acusou os seus críticos de mesquinhez e de praticarem baixa política e considerou as acusações injustas, explicando que o Governo tivera, no período da sua ausência, um primeiro-ministro - António Costa - que era, para além do mais, o responsável político com tutela sobre os mecanismos de combate aos incêndios.
Estas justificações são surpreendentes. Mais do que isso, são desastradas. Ao ouvi-las ficamos com a nítida impressão de que o eng. José Sócrates não compreende qual é o verdadeiro estatuto do primeiro-ministro no quadro do nosso sistema político-constitucional. Que ignora que o primeiro-ministro não é um mero primus inter pares, mas o chefe do Governo. E que é por isso que a sua nomeação é um acto livre do Presidente da República, enquanto que a nomeação dos ministros é algo que o Presidente só pode fazer sob proposta do próprio primeiro-ministro (art. 187.º da Constituição). Que é por isso que o primeiro-ministro é responsável perante o Presidente da República, enquanto que os ministros respondem perante o primeiro-ministro (art. 191.º da Constituição). Que é por isso que a demissão de um ministro só o afecta a ele e à sua equipa de secretários de Estado, enquanto que a demissão do primeiro-ministro implica a queda do próprio Governo (art. 195.º da Constituição).
O eng. José Sócrates tem, contudo, um entendimento diverso. Para ele, primeiro-ministro e ministros encontram-se em plano idêntico. Têm o mesmo nível de responsabilidade política. E, nessa linha, o facto de o primeiro-ministro não regressar a Portugal quando o País se debate com uma calamidade pública de grandes proporções é irrelevante, porquanto alguém estará a fazer as vezes dele.
Poderão dizer os apoiantes do primeiro-ministro que estas considerações são despropositadas, na medida em que a própria lei fundamental expressamente acolhe a possibilidade de substituição do primeiro-ministro nas suas ausências. É verdade. Só que a questão no cerne das críticas não é jurídico- -constitucional, mas puramente política. É que há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de estar ausente. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de se fazer substituir. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de delegar responsabilidades que são, por natureza, indelegáveis.
Qualquer pessoa entende que, nos momentos em que um País atravessa momentos de extrema gravidade, os cidadãos precisam de sentir que o exemplo vem de cima. Precisam de ver que o comandante assume a direcção do barco, em vez de entregar o leme ao seu imediato. Precisam de ser motivados pela presença e pelo incentivo daquele que escolheram para os dirigir.
Em vez de tudo isso, os portugueses tiveram um primeiro-ministro que achou que nada justificava a interrupção do seu lazer estival. Mas, do mal o menos. É que se ao longo dos últimos meses tinha ficado já patente que o eng. José Sócrates não servia para primeiro- -ministro, agora torna-se também evidente que ele nem sequer percebe para que é que realmente serve um primeiro-ministro.
Diário de Noticias, 24 de Agosto de 2005

terça-feira, agosto 23, 2005

No país dos tristes - Diário Digital

É o país dos incêndios. O país que não tem meios materiais e humanos para apagar fogos. Mas, atenção – enquanto o seu PIB vai ardendo -, é o país do Euro 2004 e das SCUTs.
É o país que não tem dinheiro para comprar Canadair ou manter uma frota alargada de helicópteros Puma, que actuem onde bombeiros e viaturas não chegam, entre as estradas a rasgar serras e mato que nunca foram feitas.
É o país que não possui uma política séria para a floresta e a água. Mas que projecta Otas e TGVs. E que vibra com os cifrões que virão desses cegos que visitarem o então país da terra queimada.
É o país do maior défice da zona euro. Mas, mesmo pobre entre os ricos, vai sendo o país que alegremente mais lixo foi produzindo na Europa nas últimas décadas.
É o país que vê os seus cientistas partir e não regressar. O país onde o desemprego entre os jovens assusta o mais optimista dos licenciados. O país dos doutores e engenheiros de trazer por casa. O país do desemprego de longa duração, que já dobrou o existente há cinco anos. O país das feirinhas e festas de jet set da tanga.
É o país do «´tá tudo bem» e «dá cá o meu». Que tanto condecora estrelas da TV por ter um sorriso bonito, como admite que um irlandês receba com justiça uma comenda maior da Nação, ainda que vestido de cowboy. É o país do qualquer coisa com açúcar, mas de vida amargurada.
É o país dos festivais de música e dos telemóveis. O tal país que não poupa e se endivida. O país que, no entanto, não compra CDs e livros. E onde o IVA sobre a cultura mata qualquer ilusão de adolescente.
É o país dos paradoxos. Do inexplicável. O ponto de desencontro entre as mentes curtas e as visões progressistas. A terra dos milagres. A pátria dos desenrascanços. A morada das coisas belas do mundo. E a tumba dos seus sonhos.
É o país dos incongruentes. Dos que se moldam ao saltar a fronteira. Que procria inadaptados entre os seus. Faz-se gigante nos projectos impossíveis. Fracassa quando se lhe pede para somar «um e um».
Ri-se com a alma de um sul-americano. Mas, de costas voltadas para o Velho Continente, abraça-se no lamento, vidrado sem destino em África. É o país dos tristes e dos infelizes. E não era necessário um estudo do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho para dizer isso. Portugal perdeu o sorriso. Seria preciso recuar muitos anos para encontrar um fado tão negro e carregado como este.
Portugal enterrou-se na descrença enquanto se deixava guiar pela fé. Foi-se enganando guiado pela inveja e o egoísmo. Foi fiador do maldizer da sua sorte enquanto continuava à espera de mais um outro D. Sebastião. De um Eusébio. Uma Amália. Um Variações. Ou de um totalista no euromilhões. O Portugal acomodado é tão culpado como o Portugal megalómano. E ambos merecem um valente pontapé no cu.
Filipe Rodrigues da Silva