terça-feira, agosto 30, 2005

Mais uma vez os concursos de professores

Mais um ano que passa e mais um ano em que fico sem dar aular, sem arranjar colocação. Diz-se, entre os historiadores, que a história não se repete... que apenas tem semelhanças quando certos e determinados factores se conjugam. Sabemos que em anos de muita seca, ou de muita chuva, os campos agricolas ficavam arrasados, haveria carência alimentar, levando ao aumento dos preços. Até à Idade Moderna levava, obrigatoriamente, à fome e desta para as pestes. Isto é ciclico e sabido.
Mas no caso dos concursos de professores, os factores que se conjugam não são sempre os mesmos e levam ao mesmo resultado: desemprego de milhares de pessoas que apostaram, como muitos outros em muitos áreas, a uma formação especificia com o objectivo de fazer da vida qualquer coisa de útil e benefico.
Os partidos sucedem-se no Governo; os ministros também; há reformas e contra-reformas no ensino; há novas leis que saem e outras que se revogam; há novos programas, novas pedagogias (normalmente cada uma pior que a outra), novas maneiras de se entender a escola. E qual é o resultado? Uma escola cada vez mais degradada, com professores cada vez mais incompetentes e com falta de paciência para os alunos que, com a conivência do Estado e da Familia, estudam cada vez menos, para quem o trabalho não existe, e para quem o que interessa é o recreio (que tem a sua continuidade na sala de aula) e o lazer.
Ano após anos a história repete-se com factores diferentes que se conjugam. Vejo a escola e os concursos de professores como um daqueles virus que, consoante o ambiente, as resistências e as vacinas que se arranjam, encontra maneira de se transformar, de se transmutar para conseguir sobrevivier e continuar a sua "destruição".
Haverá quarentena possivel para esta doença? Não sei. No estado avançado em que se encontra dúvido. Melhor mesmo é acabar com a espécie que serve de transmissor ao virus e recomeçar tudo de novo. Eu sugiro que se começe pelos pedagogos e supostos entendidos em educação e mandava implodir o Ministério da Educação... eu mesmo me ofereço para o detonar.
Daniel Ferreira
Os professores sem alunos
Filipe Rodrigues da Silva

A respeito do último texto deste espaço do DD, «No país dos tristes», vários leitores enviaram emails efectuando comentários sobre o mesmo.
Uns concordando. Outros discordando. Outros ainda opinando. Uns quantos questionando. E entre as questões surgidas, há uma - enviada por uma portuguesa a viver há alguns anos em França - pertinente: em que área da sociedade se deu o maior falhanço nacional?
Podemos falar das reformas do Estado que nunca chegaram. Da falta de dinâmica da economia. Da saúde. Da justiça. Mas julgo que o maior drama nacional se centra na educação, onde nenhuma política assumida pelos diferentes governos foi seguida de forma ordenada, equacionando-se muitas vezes se os sistemas adoptados haviam sido alguma vez realmente pensados para a realidade portuguesa.
O problema vai do pré-escolar às universidades. Dos programas adoptados à colocação de professores. Do início quase sempre confuso das aulas à qualidade das mesmas. Dos desejos de uma reforma do ensino às infraestruturas em degradação. Das fornadas de licenciados com cursos de papel e sem futuro à falta de preparação profissional e de saídas profissionais.
É uma luta antiga, mas que não pode ser abandonada, sob o risco de hipotecar-se o futuro do País. Uma área sensível, que não pode viver sob a instabilidade de 20 e tal ministros diferentes desde o 25 de Abril, cada um ansioso por deixar obra feita e borrar do mapa o trajecto do antecessor.
A poucas semanas do começo das aulas, foram conhecidos na segunda-feira os resultados dos concursos de professores que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação.
Os números terão as suas justificações, mas assustam. Findas as colocações, analisando-se os saldos dos récem-contratados pelo Ministério da Educação e os dos novos candidatos ao trabalho no ensino, cerca de 40 mil destes profissionais ficarão sem trabalho neste ano lectivo.
No entanto, a boa notícia é que - aparentemente - este ano lectivo vai começar sem grandes sobressaltos, ou, pelo menos, distante dos percalços do ano passado.
Notou-se um esforço meritório do Governo, de modo a garantir o arranque das aulas. Haja algo que comece a funcionar bem em Portugal.
Fica, no entanto, o drama. Estamos a salvaguardar o futuro ao dar melhores condições a milhares de jovens e a contribuir para a sua formação. Mas tal só valerá a pena se daqui a vinte ou trinta anos não houver 40 mil candidatos a professores desempregados. Desperdiçar tantos recursos é um suicídio social.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Luis Delgado - "Soares já era..."

É altamente improvável, nesta altura, que Mário Soares venha a ser o novo Presidente da República. As razões são várias, mas faça-se, apesar de tudo, o desconto dos imprevistos, mudanças de atitude, dificuldades e acontecimentos que tudo podem mudar. Em todo o caso, e se as eleições fossem agora, Soares perderia, à primeira volta, e irremediavelmente

1. Cavaco vai avançar, depois das autárquicas, e o clima político de grande desânimo, depressivo e de desconfiança nos políticos leva a que os eleitores se revejam num perfil como o do ex-PM, austero, credível, e com um capital acumulado de desempenho notável, que mais ninguém tem. A hora faz o vencedor. Soares teria outras hipóteses se este Governo tivesse cumprido o que prometeu e se o País estivesse a regressar ao seu melhor.

2. Soares é um has been, e os portugueses, mesmo os da sua cor e simpatia, gostariam de ver outras alternativas. É isso a democracia alternativa e a ideia fundamental de que todos têm a hipótese de chegar lá. O País não pode ficar refém do passado, por muito que esse fantasma resida na nossa consciência colectiva. Soares foi bom, foi tudo, e chega.

3. O aparecimento de outras candidaturas, mesmo que desistam à última hora, não ajudará o candidato Mário Soares. Haverá dispersão da mensagem, ataques mútuos, e o tempo de tapar os olhos e votar em Soares já passou. A história não se repete, por muito que se sonhe com isso.

4. A forma como Manuel Alegre, e os seus apoiantes, foi tratado não augura nada de bom para um eleitorado mais de esquerda do PS. E em teoria até se poderia dar o caso de Soares não avançar à última hora, depois de um sono bem dormido, e Alegre fazer a sua birra, com toda a razão, deixando o PS sem eira nem beira.

5. Por último, a colagem ao Governo ou o apoio de Sócrates a uma candidatura de Mário Soares não parece ser, nesta fase, um factor catalisador. Pelo contrário. Se há insatisfação, descontentamento e desilusão, isso deve-se ao Executivo e às suas entradas de leão e saídas de sendeiro. O Governo não é um balão de oxigénio para Soares, mas um incêndio descontrolado que só o pode queimar.

Luis Delgado, Diário de Noticias de 25 de Agosto de 2005

quarta-feira, agosto 24, 2005

Jornais de outras épocas - Notícias interessantes e cartoons hilariantes

Não é de agora as notícias sem interesse e os cartoons, mais ou menos engraçados, que vamos encontrando nos jornais de hoje. Ora veja estes dois exemplos, encontrados na mesma página, do Diário de Noticias, de 12 de Agosto de 1951.
O primeiro desenho mostra um importantissimo estudo sobre o "sobe e desce" das saías das senhoras, de 1918 a 1952. Reparem que atrevidas eram as senhoras em 1928... record.
A segunda imagem é um cartoon "hilariante" satirizando os constantes atropelamentos que os eléctricos provocavam em Lisboa. Rarissimos são os dias onde não aparecem pessoas mortas, feridas e, até mesmo, entaladas por eléctricos. Ora ria-se lá...

Para que serve um primeiro-ministro - José de Matos Correia

O primeiro-ministro esteve de férias. Fez bem. As férias são um direito fundamental, constitucionalmente garantido a qualquer cidadão que trabalhe. Na sua ausência, a direcção do Executivo ficou a cargo do ministro de Estado e da Administração Interna. Compreende-se que, em circunstâncias normais, assim seja. Afinal, trata-se do n.º 2 do Governo. O problema é que, no período em que o eng. José Sócrates esteve fora, o País foi assolado por uma verdadeira onda de fogo. E, talvez por estar muito longe e por lhe causar grande transtorno, o primeiro-ministro decidiu não interromper o seu período de descanso. Fez mal. Fez mesmo muito mal.
Como seria de esperar, tal atitude deu azo a críticas várias. Críticas muito moderadas, aliás, face não só à relevância do facto, mas também ao que certamente teria ocorrido caso o episódio se tivesse passado com os dois anteriores primeiros-ministros. Mesmo assim, e sempre muito sensível aos reparos que lhe são feitos, o primeiro-ministro abespinhou-se. Acusou os seus críticos de mesquinhez e de praticarem baixa política e considerou as acusações injustas, explicando que o Governo tivera, no período da sua ausência, um primeiro-ministro - António Costa - que era, para além do mais, o responsável político com tutela sobre os mecanismos de combate aos incêndios.
Estas justificações são surpreendentes. Mais do que isso, são desastradas. Ao ouvi-las ficamos com a nítida impressão de que o eng. José Sócrates não compreende qual é o verdadeiro estatuto do primeiro-ministro no quadro do nosso sistema político-constitucional. Que ignora que o primeiro-ministro não é um mero primus inter pares, mas o chefe do Governo. E que é por isso que a sua nomeação é um acto livre do Presidente da República, enquanto que a nomeação dos ministros é algo que o Presidente só pode fazer sob proposta do próprio primeiro-ministro (art. 187.º da Constituição). Que é por isso que o primeiro-ministro é responsável perante o Presidente da República, enquanto que os ministros respondem perante o primeiro-ministro (art. 191.º da Constituição). Que é por isso que a demissão de um ministro só o afecta a ele e à sua equipa de secretários de Estado, enquanto que a demissão do primeiro-ministro implica a queda do próprio Governo (art. 195.º da Constituição).
O eng. José Sócrates tem, contudo, um entendimento diverso. Para ele, primeiro-ministro e ministros encontram-se em plano idêntico. Têm o mesmo nível de responsabilidade política. E, nessa linha, o facto de o primeiro-ministro não regressar a Portugal quando o País se debate com uma calamidade pública de grandes proporções é irrelevante, porquanto alguém estará a fazer as vezes dele.
Poderão dizer os apoiantes do primeiro-ministro que estas considerações são despropositadas, na medida em que a própria lei fundamental expressamente acolhe a possibilidade de substituição do primeiro-ministro nas suas ausências. É verdade. Só que a questão no cerne das críticas não é jurídico- -constitucional, mas puramente política. É que há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de estar ausente. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de se fazer substituir. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de delegar responsabilidades que são, por natureza, indelegáveis.
Qualquer pessoa entende que, nos momentos em que um País atravessa momentos de extrema gravidade, os cidadãos precisam de sentir que o exemplo vem de cima. Precisam de ver que o comandante assume a direcção do barco, em vez de entregar o leme ao seu imediato. Precisam de ser motivados pela presença e pelo incentivo daquele que escolheram para os dirigir.
Em vez de tudo isso, os portugueses tiveram um primeiro-ministro que achou que nada justificava a interrupção do seu lazer estival. Mas, do mal o menos. É que se ao longo dos últimos meses tinha ficado já patente que o eng. José Sócrates não servia para primeiro- -ministro, agora torna-se também evidente que ele nem sequer percebe para que é que realmente serve um primeiro-ministro.
Diário de Noticias, 24 de Agosto de 2005

terça-feira, agosto 23, 2005

No país dos tristes - Diário Digital

É o país dos incêndios. O país que não tem meios materiais e humanos para apagar fogos. Mas, atenção – enquanto o seu PIB vai ardendo -, é o país do Euro 2004 e das SCUTs.
É o país que não tem dinheiro para comprar Canadair ou manter uma frota alargada de helicópteros Puma, que actuem onde bombeiros e viaturas não chegam, entre as estradas a rasgar serras e mato que nunca foram feitas.
É o país que não possui uma política séria para a floresta e a água. Mas que projecta Otas e TGVs. E que vibra com os cifrões que virão desses cegos que visitarem o então país da terra queimada.
É o país do maior défice da zona euro. Mas, mesmo pobre entre os ricos, vai sendo o país que alegremente mais lixo foi produzindo na Europa nas últimas décadas.
É o país que vê os seus cientistas partir e não regressar. O país onde o desemprego entre os jovens assusta o mais optimista dos licenciados. O país dos doutores e engenheiros de trazer por casa. O país do desemprego de longa duração, que já dobrou o existente há cinco anos. O país das feirinhas e festas de jet set da tanga.
É o país do «´tá tudo bem» e «dá cá o meu». Que tanto condecora estrelas da TV por ter um sorriso bonito, como admite que um irlandês receba com justiça uma comenda maior da Nação, ainda que vestido de cowboy. É o país do qualquer coisa com açúcar, mas de vida amargurada.
É o país dos festivais de música e dos telemóveis. O tal país que não poupa e se endivida. O país que, no entanto, não compra CDs e livros. E onde o IVA sobre a cultura mata qualquer ilusão de adolescente.
É o país dos paradoxos. Do inexplicável. O ponto de desencontro entre as mentes curtas e as visões progressistas. A terra dos milagres. A pátria dos desenrascanços. A morada das coisas belas do mundo. E a tumba dos seus sonhos.
É o país dos incongruentes. Dos que se moldam ao saltar a fronteira. Que procria inadaptados entre os seus. Faz-se gigante nos projectos impossíveis. Fracassa quando se lhe pede para somar «um e um».
Ri-se com a alma de um sul-americano. Mas, de costas voltadas para o Velho Continente, abraça-se no lamento, vidrado sem destino em África. É o país dos tristes e dos infelizes. E não era necessário um estudo do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho para dizer isso. Portugal perdeu o sorriso. Seria preciso recuar muitos anos para encontrar um fado tão negro e carregado como este.
Portugal enterrou-se na descrença enquanto se deixava guiar pela fé. Foi-se enganando guiado pela inveja e o egoísmo. Foi fiador do maldizer da sua sorte enquanto continuava à espera de mais um outro D. Sebastião. De um Eusébio. Uma Amália. Um Variações. Ou de um totalista no euromilhões. O Portugal acomodado é tão culpado como o Portugal megalómano. E ambos merecem um valente pontapé no cu.
Filipe Rodrigues da Silva

quarta-feira, agosto 17, 2005

O país do «meio mé» - Diário Digital

Luís de Carvalho

O Verão e as férias são momentos ideais para constatar as peculiaridades do país que temos.

Estava eu na praia, eram 6 da tarde, e verifico que o nadador-salvador começava a recolher o material de salvação. Olhei em redor e vi a praia a abarrotar de gente, o dia estava esplendoroso, quente, mais pareciam 4 horas. É verdade que neste barlavento sem levante o mar está chão e os perigos, estando lá, parecem não existir. Também é verdade que se alguma emergência houvesse mais valia apostar na hipótese, razoável, de lá estar algum médico ou enfermeiro, do que ficar à espera que aquele jovem magnificamente bronzeado percebesse alguma coisa de primeiros-socorros.

Mas nada disso está em causa, o que me importunou foi ver naquela atitude, de adiantar o arrumar da casa para que às 19 horas, em ponto, o dito pudesse dar o salto rumo à folia, a atitude dos portugueses. E naquele caso nem se pode dizer que o dia tenha sido trabalhoso, mas enfim, trabalho é sempre trabalho. Mas vi na atitude daquele miúdo muitas coisas que estão mal e que, na sua diminuta dimensão, me relembraram outras, que estando igualmente mal, mas tendo uma outra dimensão, mostram de forma demasiado evidente como isto está tudo tão decrépito.

Desde logo diga-se que a atitude daquele jovem se confunde com o paradigma que temos do “funcionário público”. Mas a verdade é que aquele jovem não é um funcionário público. Assim, fica a pergunta: afinal quantos “funcionários públicos” tem este país? A verdade verdadinha é que tem muitos, muitos mais do que aqueles 700.000 de que se fala sempre que se quer encontrar uns quantos bodes expiatórios para as crises e para os défices. E, no entanto, uns melhores que outros, a verdade é que são muitos desses 700.000, de quem se contam anedotas e se ridiculariza, que todos os dias fazem trabalhar os hospitais, as escolas, os tribunais, que abrem e cuidam dos museus, que protegem o ambiente, que enviam os magros cheques da segurança social para milhões de idosos deste país, que patrulham as ruas à noite correndo risco de vida. Do outro lado estão as empresas e os empresários que buscam o lucro e que não olham a meios para o conseguirem. Uns quantos querem fazer-nos acreditar que se o país for entregue a estes torna-se melhor. Tanga! A verdade é que nestas “empresas” muitas coisas e muitas pessoas funcionam mal, e aquelas que aparentemente funcionam bem, porque dão lucro e sobem de cotação na bolsa, podem afinal estar a consegui-lo pelas piores razões.

Em suma, não é só o Estado que está mal, nem é só o Estado o culpado pelo estado a que isto chegou. E aqueles que nos querem convencer do contrário são os primeiros a saber o “porquê” e os primeiros a beneficiar do estado de tudo isto.

Olhando em redor a verdade é que chegamos à triste conclusão que este é o país do “meio mé”. A expressão, que me ocorre, vem da do ditado popular:”Nem mé, nem meio mé…”.

É que as ovelhas deste país nem se dão sequer ao trabalho de balir o “mé” todo.

sábado, agosto 13, 2005

Fernando Dacosta - "Dar nas vistas"

Dar nas vistas

O afã de as pessoas em querer dar nas vistas torna-se, por vezes, patético. À «invisibilidade» reinante no passado (a discrição era um timbre das suas elites) sucedeu-se o exibicionismo da desbragação actual.

O impudor dos recém promovidos - novos ricos da política, das artes, da cultura, da ciência, da finança, da administração - fez-se, com efeito, insaciável. A comunicação social, sobretudo as televisões e as revistas róseas ensandeceram-nos irremediavelmente.

O conceito de que só existe quem aparece (nelas) tornou-se dogma - e objectivo de existência. Vende-se a alma ao diabo por um destaque nos média, seduzem-se (ou perseguem-se) jornalistas, provocam-se (ou ficcionam-se) acontecimentos para o conseguir. A vida privada é exposta, a família hipotecada, o corpo negociado, as convicções despidas.

As cenas mais desconcertantes que tenho presenciado são feitas por pessoas para ganhar evidência: políticos famosos entregam nos jornais entrevistas a si - fabricadas por si; autores de nomeada apresentam recensões de críticos estrangeiros - inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizam-se por uma notícia, uma foto, uma referência, um destaque.

O estarem do lado de dentro das redacções fez com que os jornalistas se tornassem, de uma maneira geral, irónicos ante estes vedetismos obsessivos. É que eles conhecem demasiado bem as costuras do sucesso, da popularidade, da moda, das ascensões e quedas para os levar a sério; sabem que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam fora dos marktings, dos tops, dos palcos.

Antes do 25 de Abril, os grandes criadores portugueses não tinham acesso à comunicação social pública, RTP, Emissora Nacional, etc. (e, como consequência, à privada), porque eram opositores políticos do regime; agora não o têm, ou quando o têm é irrelevante, porque não oferecem mais valias (audiências) ao sistema comercial (nela) vigente.

Os que dizem que «quem não aparece desaparece», deviam lembrar-se que «quem não aparece não aborrece». Torna-se, na verdade, um aborrecimento mortal ver quotidianamente (pateticamente) os propagandistas da moda, do oportunismo, da mistificação, da manipulação a abarrotar-nos de éticas públicas, de solidariedades insufláveis, de democracias instantâneas, de visibilidades coloridas - com as suas contas bancárias em engorda secreta.

O século em que entramos não passa de um reality show transmitido em directo, em vertigem, entre alegrias, ritmos, aplausos, entusiasmos fingidos por figurantes (mal) pagos à emissão.

Fernando Dacosta é Editor de Cultura da VISÃO

quarta-feira, agosto 10, 2005

Lucília Simões e Luz Veloso


Artigo da revista "Plateia", nº 118, Ano XII, de 1 de Julho de 1962, pág. 28.
Escrito pela ocasião da morte de duas actrizes de teatro de grande prestigio, a "Plateia" dá-nos um pouco das suas biografias, que a seguir transcrevo.
"Lucília Simões contracenou com os irmãos Rosa, Brazão, Ângela, Rosa Damasceno, irmã gémea, no talento, de Adelina Abranches. Fez a sua estreia oficial em 1895 em Maria de "Frei Luiz de Sousa", de Almeida Garrett. Durante Quinze anos esteve ausente do teatro, voltando a reaparecer no Politeama na peça de Wilde, "Uma mulher sem importância", um dos seus grandes trabalhos. É numerosa a lista de obras a que Lucília ligou o seu nome, mas recordamos mais recentemente "Baton", de Alfredo Cortês, escrita para ela e para João Villaret, "Perdoai-nos, Senhor", de Mendonça Alves, "Fogueiras de S. João", onde o seu trabalho mereceu justamente os louveres da Crítica. Nessa altura, formou a companhia Lucília Simões-Erico Braga, com quem se casara. Foi magnífica interprete da "Raça", de Linhares Rivas e da "Garçonne", depois de uma temporada brilhante em que levou à cena todo o género de teatro, apresentou também "Mar Alto", de António Ferro, com o autor como intérprete, uma noite ruidosa mas que mesmo assim serviu para mostrar que a empresa desejava lançar rajadas de ar novo no seu teatro.
Dissolvida a companhia, trabalhou no Nacional onde substituiu sua mãe na "Conspiradora", também de Mendonça Alves. Últimamente, integrada nos Comediantes de Lisboa, deu a esse óptimo agrupamento o melhor do seu valor e, após ter sido ensaiadora no Brasil da companhia Eva Todor, durante dois anos, voltou para deixar finalmente o teatro. (...)
No mesmo dia e quase à mesma hora que Lucília, faleceu Luz Veloso, com 83 anos.
Desde criança que Luz Veloso se dedicou ao teatro, fez a sua estreia no Porto, em 1892 na mágica "Lâmpada Maravilhosa". Fez parte da companhia do D. Maria de 1903 a 1904, seguindo depois sempre a sua carreira em várias empresas particulares. Trabalhou ao lado de Rosas e Brasões, fez algumas das figuras eternas das grandes peças, entre elas, Ofélia, do "Hamlet". Nós recordamo-la mais recentemente no Teatro Nacional, nas suas magníficas interpretações em "Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca, "As meninas da fonte da bica", de Ramada Curto, e em algumas curiosas figuras vicentinas. Ao lado de Ilda Stichini, trabalhou anos seguidos acompanhando-a nas suas digressões às nossas ilhas e províncias ultramarinas, obtendo sempre o melhor agrado.
Injustamente, um pouco também mercê da crise do teatro que se vem sofrendo há tempo, Luz Veloso esteve sem trabalho perto de dez anos, com leves interrupções em que intervinha numa sociedade de artistas sem futuro, e voltava à inactividade forçada que a levou quase ao desespero, chegando a tentar empregar-se, o que lhe seria difícil pois apenas o teatro era o seu mundo. Aí podia triunfar porque para ser actriz, acima de tudo, é preciso instinto e talento natural, o que não faltava a Luz Veloso.
Um dia, quando já desanimava da sorte, escreveu a Robles Monteiro e pouco depois era contratada para o Nacional onde ficou até morrer. Felizmente acabou como tinha começado: no teatro e ocupando o lugar que merecia.
Ultimamente a Televisão utilizou Luz Veloso, mas já a memória atraiçoava. Quem melhor a não conhecesse, não poderia por aí ajuizar o seu valor de artista, sempre disciplinada e cumpridora, tão diferente destes que já nascem "fenómenos" e crêem que em trabalho, a disciplina é uma inferioridade."
Quem assina o texto é Alice Ogando.