terça-feira, agosto 23, 2005

No país dos tristes - Diário Digital

É o país dos incêndios. O país que não tem meios materiais e humanos para apagar fogos. Mas, atenção – enquanto o seu PIB vai ardendo -, é o país do Euro 2004 e das SCUTs.
É o país que não tem dinheiro para comprar Canadair ou manter uma frota alargada de helicópteros Puma, que actuem onde bombeiros e viaturas não chegam, entre as estradas a rasgar serras e mato que nunca foram feitas.
É o país que não possui uma política séria para a floresta e a água. Mas que projecta Otas e TGVs. E que vibra com os cifrões que virão desses cegos que visitarem o então país da terra queimada.
É o país do maior défice da zona euro. Mas, mesmo pobre entre os ricos, vai sendo o país que alegremente mais lixo foi produzindo na Europa nas últimas décadas.
É o país que vê os seus cientistas partir e não regressar. O país onde o desemprego entre os jovens assusta o mais optimista dos licenciados. O país dos doutores e engenheiros de trazer por casa. O país do desemprego de longa duração, que já dobrou o existente há cinco anos. O país das feirinhas e festas de jet set da tanga.
É o país do «´tá tudo bem» e «dá cá o meu». Que tanto condecora estrelas da TV por ter um sorriso bonito, como admite que um irlandês receba com justiça uma comenda maior da Nação, ainda que vestido de cowboy. É o país do qualquer coisa com açúcar, mas de vida amargurada.
É o país dos festivais de música e dos telemóveis. O tal país que não poupa e se endivida. O país que, no entanto, não compra CDs e livros. E onde o IVA sobre a cultura mata qualquer ilusão de adolescente.
É o país dos paradoxos. Do inexplicável. O ponto de desencontro entre as mentes curtas e as visões progressistas. A terra dos milagres. A pátria dos desenrascanços. A morada das coisas belas do mundo. E a tumba dos seus sonhos.
É o país dos incongruentes. Dos que se moldam ao saltar a fronteira. Que procria inadaptados entre os seus. Faz-se gigante nos projectos impossíveis. Fracassa quando se lhe pede para somar «um e um».
Ri-se com a alma de um sul-americano. Mas, de costas voltadas para o Velho Continente, abraça-se no lamento, vidrado sem destino em África. É o país dos tristes e dos infelizes. E não era necessário um estudo do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho para dizer isso. Portugal perdeu o sorriso. Seria preciso recuar muitos anos para encontrar um fado tão negro e carregado como este.
Portugal enterrou-se na descrença enquanto se deixava guiar pela fé. Foi-se enganando guiado pela inveja e o egoísmo. Foi fiador do maldizer da sua sorte enquanto continuava à espera de mais um outro D. Sebastião. De um Eusébio. Uma Amália. Um Variações. Ou de um totalista no euromilhões. O Portugal acomodado é tão culpado como o Portugal megalómano. E ambos merecem um valente pontapé no cu.
Filipe Rodrigues da Silva

quarta-feira, agosto 17, 2005

O país do «meio mé» - Diário Digital

Luís de Carvalho

O Verão e as férias são momentos ideais para constatar as peculiaridades do país que temos.

Estava eu na praia, eram 6 da tarde, e verifico que o nadador-salvador começava a recolher o material de salvação. Olhei em redor e vi a praia a abarrotar de gente, o dia estava esplendoroso, quente, mais pareciam 4 horas. É verdade que neste barlavento sem levante o mar está chão e os perigos, estando lá, parecem não existir. Também é verdade que se alguma emergência houvesse mais valia apostar na hipótese, razoável, de lá estar algum médico ou enfermeiro, do que ficar à espera que aquele jovem magnificamente bronzeado percebesse alguma coisa de primeiros-socorros.

Mas nada disso está em causa, o que me importunou foi ver naquela atitude, de adiantar o arrumar da casa para que às 19 horas, em ponto, o dito pudesse dar o salto rumo à folia, a atitude dos portugueses. E naquele caso nem se pode dizer que o dia tenha sido trabalhoso, mas enfim, trabalho é sempre trabalho. Mas vi na atitude daquele miúdo muitas coisas que estão mal e que, na sua diminuta dimensão, me relembraram outras, que estando igualmente mal, mas tendo uma outra dimensão, mostram de forma demasiado evidente como isto está tudo tão decrépito.

Desde logo diga-se que a atitude daquele jovem se confunde com o paradigma que temos do “funcionário público”. Mas a verdade é que aquele jovem não é um funcionário público. Assim, fica a pergunta: afinal quantos “funcionários públicos” tem este país? A verdade verdadinha é que tem muitos, muitos mais do que aqueles 700.000 de que se fala sempre que se quer encontrar uns quantos bodes expiatórios para as crises e para os défices. E, no entanto, uns melhores que outros, a verdade é que são muitos desses 700.000, de quem se contam anedotas e se ridiculariza, que todos os dias fazem trabalhar os hospitais, as escolas, os tribunais, que abrem e cuidam dos museus, que protegem o ambiente, que enviam os magros cheques da segurança social para milhões de idosos deste país, que patrulham as ruas à noite correndo risco de vida. Do outro lado estão as empresas e os empresários que buscam o lucro e que não olham a meios para o conseguirem. Uns quantos querem fazer-nos acreditar que se o país for entregue a estes torna-se melhor. Tanga! A verdade é que nestas “empresas” muitas coisas e muitas pessoas funcionam mal, e aquelas que aparentemente funcionam bem, porque dão lucro e sobem de cotação na bolsa, podem afinal estar a consegui-lo pelas piores razões.

Em suma, não é só o Estado que está mal, nem é só o Estado o culpado pelo estado a que isto chegou. E aqueles que nos querem convencer do contrário são os primeiros a saber o “porquê” e os primeiros a beneficiar do estado de tudo isto.

Olhando em redor a verdade é que chegamos à triste conclusão que este é o país do “meio mé”. A expressão, que me ocorre, vem da do ditado popular:”Nem mé, nem meio mé…”.

É que as ovelhas deste país nem se dão sequer ao trabalho de balir o “mé” todo.

sábado, agosto 13, 2005

Fernando Dacosta - "Dar nas vistas"

Dar nas vistas

O afã de as pessoas em querer dar nas vistas torna-se, por vezes, patético. À «invisibilidade» reinante no passado (a discrição era um timbre das suas elites) sucedeu-se o exibicionismo da desbragação actual.

O impudor dos recém promovidos - novos ricos da política, das artes, da cultura, da ciência, da finança, da administração - fez-se, com efeito, insaciável. A comunicação social, sobretudo as televisões e as revistas róseas ensandeceram-nos irremediavelmente.

O conceito de que só existe quem aparece (nelas) tornou-se dogma - e objectivo de existência. Vende-se a alma ao diabo por um destaque nos média, seduzem-se (ou perseguem-se) jornalistas, provocam-se (ou ficcionam-se) acontecimentos para o conseguir. A vida privada é exposta, a família hipotecada, o corpo negociado, as convicções despidas.

As cenas mais desconcertantes que tenho presenciado são feitas por pessoas para ganhar evidência: políticos famosos entregam nos jornais entrevistas a si - fabricadas por si; autores de nomeada apresentam recensões de críticos estrangeiros - inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizam-se por uma notícia, uma foto, uma referência, um destaque.

O estarem do lado de dentro das redacções fez com que os jornalistas se tornassem, de uma maneira geral, irónicos ante estes vedetismos obsessivos. É que eles conhecem demasiado bem as costuras do sucesso, da popularidade, da moda, das ascensões e quedas para os levar a sério; sabem que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam fora dos marktings, dos tops, dos palcos.

Antes do 25 de Abril, os grandes criadores portugueses não tinham acesso à comunicação social pública, RTP, Emissora Nacional, etc. (e, como consequência, à privada), porque eram opositores políticos do regime; agora não o têm, ou quando o têm é irrelevante, porque não oferecem mais valias (audiências) ao sistema comercial (nela) vigente.

Os que dizem que «quem não aparece desaparece», deviam lembrar-se que «quem não aparece não aborrece». Torna-se, na verdade, um aborrecimento mortal ver quotidianamente (pateticamente) os propagandistas da moda, do oportunismo, da mistificação, da manipulação a abarrotar-nos de éticas públicas, de solidariedades insufláveis, de democracias instantâneas, de visibilidades coloridas - com as suas contas bancárias em engorda secreta.

O século em que entramos não passa de um reality show transmitido em directo, em vertigem, entre alegrias, ritmos, aplausos, entusiasmos fingidos por figurantes (mal) pagos à emissão.

Fernando Dacosta é Editor de Cultura da VISÃO

quarta-feira, agosto 10, 2005

Lucília Simões e Luz Veloso


Artigo da revista "Plateia", nº 118, Ano XII, de 1 de Julho de 1962, pág. 28.
Escrito pela ocasião da morte de duas actrizes de teatro de grande prestigio, a "Plateia" dá-nos um pouco das suas biografias, que a seguir transcrevo.
"Lucília Simões contracenou com os irmãos Rosa, Brazão, Ângela, Rosa Damasceno, irmã gémea, no talento, de Adelina Abranches. Fez a sua estreia oficial em 1895 em Maria de "Frei Luiz de Sousa", de Almeida Garrett. Durante Quinze anos esteve ausente do teatro, voltando a reaparecer no Politeama na peça de Wilde, "Uma mulher sem importância", um dos seus grandes trabalhos. É numerosa a lista de obras a que Lucília ligou o seu nome, mas recordamos mais recentemente "Baton", de Alfredo Cortês, escrita para ela e para João Villaret, "Perdoai-nos, Senhor", de Mendonça Alves, "Fogueiras de S. João", onde o seu trabalho mereceu justamente os louveres da Crítica. Nessa altura, formou a companhia Lucília Simões-Erico Braga, com quem se casara. Foi magnífica interprete da "Raça", de Linhares Rivas e da "Garçonne", depois de uma temporada brilhante em que levou à cena todo o género de teatro, apresentou também "Mar Alto", de António Ferro, com o autor como intérprete, uma noite ruidosa mas que mesmo assim serviu para mostrar que a empresa desejava lançar rajadas de ar novo no seu teatro.
Dissolvida a companhia, trabalhou no Nacional onde substituiu sua mãe na "Conspiradora", também de Mendonça Alves. Últimamente, integrada nos Comediantes de Lisboa, deu a esse óptimo agrupamento o melhor do seu valor e, após ter sido ensaiadora no Brasil da companhia Eva Todor, durante dois anos, voltou para deixar finalmente o teatro. (...)
No mesmo dia e quase à mesma hora que Lucília, faleceu Luz Veloso, com 83 anos.
Desde criança que Luz Veloso se dedicou ao teatro, fez a sua estreia no Porto, em 1892 na mágica "Lâmpada Maravilhosa". Fez parte da companhia do D. Maria de 1903 a 1904, seguindo depois sempre a sua carreira em várias empresas particulares. Trabalhou ao lado de Rosas e Brasões, fez algumas das figuras eternas das grandes peças, entre elas, Ofélia, do "Hamlet". Nós recordamo-la mais recentemente no Teatro Nacional, nas suas magníficas interpretações em "Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca, "As meninas da fonte da bica", de Ramada Curto, e em algumas curiosas figuras vicentinas. Ao lado de Ilda Stichini, trabalhou anos seguidos acompanhando-a nas suas digressões às nossas ilhas e províncias ultramarinas, obtendo sempre o melhor agrado.
Injustamente, um pouco também mercê da crise do teatro que se vem sofrendo há tempo, Luz Veloso esteve sem trabalho perto de dez anos, com leves interrupções em que intervinha numa sociedade de artistas sem futuro, e voltava à inactividade forçada que a levou quase ao desespero, chegando a tentar empregar-se, o que lhe seria difícil pois apenas o teatro era o seu mundo. Aí podia triunfar porque para ser actriz, acima de tudo, é preciso instinto e talento natural, o que não faltava a Luz Veloso.
Um dia, quando já desanimava da sorte, escreveu a Robles Monteiro e pouco depois era contratada para o Nacional onde ficou até morrer. Felizmente acabou como tinha começado: no teatro e ocupando o lugar que merecia.
Ultimamente a Televisão utilizou Luz Veloso, mas já a memória atraiçoava. Quem melhor a não conhecesse, não poderia por aí ajuizar o seu valor de artista, sempre disciplinada e cumpridora, tão diferente destes que já nascem "fenómenos" e crêem que em trabalho, a disciplina é uma inferioridade."
Quem assina o texto é Alice Ogando.

sábado, agosto 06, 2005

Noticia da Inauguração da Primeira Cabine Telefónica de Coruche - 1931

Fruto da minha ocupação profissional, sou obrigado a ler e a reler antigos artigos de jornais nacionais. E, como não poderia deixar de ser, por vezes aparecem autênticas perolas, que contadas ninguém acredita.
A transcrição que seguidamente faço, reporta-se ao jornal "Diário de Noticias", de 16 de Agosto de 1931, e dá-nos conta da inauguração da primeira cabine telefónica de Coruche. E agora reparem na excitação... (principalmente o segundo corpo da noticia).
"Foi ontem inaugurada a cabine telefonica de Coruche
(do nosso enviado especial)
Coruche, 15 - Aproveitando o ensejo das tradicionais festas em honra de Nossa Senhora do Castelo, inaugurou-se hoje, com toda a solenidade, a cabine telefonica, melhoramento importante e de há muito desejado nesta vila.
A fim de assistirem ao acto, estiveram em Coruche os srs. major Miguel Bacelar, capitão Carlos Melo e José de Araujo, respectivamente, administrador, secretário e engenheiro da Administração Geral dos Correios e Telegrafos; major Verdades de Miranda, governador civil do distrito de Santarém, proprietarios, lavradores e outras personalidades a quem os progressos desta vila interessam.
A festa de inauguração da cabine, que estava anunciada para as 12 horas, só se pôde realizar ás 17, em virtude do comboio em que viajavam o sr. administrador geral dos Correios e os jornalistas ter chegado uma hora depois da tabela á estação de Vendas Novas e a ligação para Coruche não ter esperado, ao contrario do que era natural que acontecesse.
Felizmente o telefone resolveu o precalço, que foi sabido nesta vila por seu intermedio, começando assim a mostrar a grande utilidade da sua existência.
Um automovel com o sr. dr. Macario de Sousa, presidente da comissão administrativa, foi a Vendas Novas buscar os visitantes, que tiveram de fazer o resto da viagem através dum primitivo caminho de charneca, unico que liga Vendas Novas com Coruche.
Só a Junta Autonoma das Estradas nos pode salvar, dizia-nos um ilustre coruchense. No Inverno é impossivel alcançarmos, em carro, a estrada que liga Vendas Novas com o resto do país.
Antes do acto da inauguração, realizou-se no salão nobre dos Paços do Concelho uma sessão solene, tendo tomado lugar na mesa de honra os srs. majores Verdades de Miranda, Miguel Bacelar e capitão Luis Alberto de Oliveira, comandante de caçadores nº 5. Em nome do povo de Coruche, usou da palavra, em primeiro lugar, o sr. dr. Macario de Sousa, que apresentou as boas-vindas aos visitantes e recordou a visita do Chefe de Estado, ha um ano, quando da inauguração da ponte "General Teófilo Trindade". Disse que o sr. general Carmona, nessa altura prometeu interessar-se pela ligação telefonica em Coruche, verificando-se agora que a promessa não foi esquecida, pelo que os coruchenses lhe estão muito gratos.
O orador reudeu, depois, um largo elogio ao sr. administrador geral dos Correios.
Em seguida, o sr. capitão Luis Alberto de Oliveira, depois de ter aludido, lamentando-o ao atraso do comboio do Barreiro, facto que acima citámos, referiu-se á promessa agora efectivada, do Chefe de Estado, e disse que Coruche muito deve á actual situação. Por ultimo, interpretando os desejos de Coruche, solicitou que a estação telegrafo postal seja elevada á categoria de 2ª classe, atendendo ao seu movimento.
Das 11 estações existentes no concelho - afirmou - tem esta o maior movimento, pois expede e recebe cêrca de dois mil telegramas diários.
O sr. major Miguel Bacelar agradeceu as referencias que lhe foram dirigidas, afirmando que no seu cargo estabeleceu o principio de dar ás populações apenas aquilo a que elas têm direito, motivo porque não há razão para agradecimentos.
Prometeu estudar o pedido de elevação a 2ª classe da estação postal e fez um caloroso elogio ás altas virtudes de caracter e de inteligencia do sr. general Carmona.
Disse, por ultimo, que para a rêde urbana forneceria aparelhos novos, já encomendados á América.
Finalmente, o sr. Verdades de Miranda, como governador civil, agradeceu ao administrador geral dos correios as facilidades concedidas ao seu distrito, fazendo, ao terminar, o elogio da Ditadura.
Á inauguração da "Cabine" assistiram milhares de pessoas
Finda a sessão solene, formou-se um cortejo que se dirigiu, com a banda da Sociedade Instrução Coruchense, á estação telegrafo postal, onde foi inaugurada a "cabine" telefonica, acto este que foi saudado por milhares de pessoas.
A primeira ligação foi feita para o sr. ministro de Interior, a quem o sr. presidente do Municipio pedia que apresentasse saudações, em nome do povo de Coruche, ao sr. Presidente da Republica e ao Governo.
Foram ainda feitas ligações para o sr. general Carmona e ministro do Comércio, tendo comunicado com aquelas entidades os srs. capitão Alberto de Oliveira, major Verdades de Miranda e administrador geral dos Correios.
Após a inauguração foi o telefone posta á disposição do publico, que foi autorizado a comunicar, gratuitamente com todo o País, até ás 20 horas.
Pela Câmara Municipal foi, depois, oferecido um banquete aos convidados e autoridades locais, presidido pelo sr. governador civil do distrito.
Durante o dia foram queimadas muitas girandolas de foguetes.
A vila apresentava um aspecto festivo, vendo-se muitas colgaduras nas janelas.
Á noite, houve arraial com iluminações feéricas e na praça de touros realizou-se uma corrida com o concurso do caveleiro António Luis Lopes e do seu discipulo José da Silva."
In, Diário de Notícias, 16 de Agosto de 1931.
Tudo isto por uma "Cabine Telefónica"...

quinta-feira, agosto 04, 2005

Eunice Muñoz

A paixão pelo público e pelas artes do espectáculo era já característica da família de Eunice, tendo os seus avós, mãe – Júlia Muñoz (MIMI) – e tios formado uma companhia teatral que representava na província e era conhecida como a "Troupe Carmo".
Mimi, viria a conhecer, em Alter do Chão, Hernâni Muñoz que, era uma das atracções do Circo Muñoz, executando, na perfeição, um tango com a sua irmã Alzira.
Casaram em 1927, tendo, no ano seguinte, nascido a primogénita Eunice Muñoz, seguida do irmão Hernâni em 1929.
Mais tarde, esta família forma a sua própria companhia onde, desde os 5 anos, Eunice se exibia com grande intuição musical em canções em voga como "Uma Porta e Uma Janela".
Quando as variedades nos cinemas se tornaram inviáveis, surgiu o Teatro Desmontável Mimi Muñoz, daí que os estudos de Eunice tivessem decorrido ao sabor das tournées familiares, tendo feito a admissão ao liceu em Fornos de Algodres, onde, após se retirarem da actividade até então exercida, os pais se dedicaram à formação de pequenos grupos de variedades como empresários.
Eunice Muñoz, subiu pela primeira vez ao palco para interpretar o papel de Isabel na peça "Vendaval", no Teatro Nacional D. Maria II, pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, no dia 28 de Novembro de 1941, na sequência do conselho dado por Sales Ribeiro a Amélia Rey Colaço, aquando da necessidade de quatro raparigas para rodear Maria Lalande nesta peça, que seria a última de Virgínia Vitorino. Nesta peça, Eunice chama a atenção de João Villaret e desperta interesse e admiração por parte de Amélia Rey Colaço.
Após uma paragem, Eunice voltou ao palco do Nacional em 1942, integrando a companhia Rey Colaço Robles Monteiro e representando ao lado dos actores mais importantes da época em Portugal.
Durante as férias da companhia nos meses de verão, foi chamada para representar ao lado de Estevão Amarante na opereta "João Ratão", no Teatro Avenida. No mesmo verão subiu à cena no Teatro Variedades para a comédia "Raparigas Modernas". A interpretação que faz da personagem "Maria" em "Frei Luís de Sousa" pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro, engrandeceu o seu prestigio.
Deixou o Teatro Nacional no verão de 44 e, devido ao seu talento e grandes capacidades, passou da comédia sentimental à farsa e à opereta, percurso que a levou a figurar em lugares de destaque nos cartazes.
Dia 24 de Julho de 1945, Eunice prestou as provas finais no Conservatório com cenas do 2o acto da "Vivette", obtendo a classificação de 18 valores e para grande espanto na noite desse mesmo dia, o nome da actriz figurava com o mesmo tamanho e com a mesma força que Mirita Casimiro e Vasco Santana no cartaz de estreia da comédia musicada "Chuva de Filhos".
Este ciclo da vida de Eunice, foi encerrado dia 23 de Abril de 1946 na farsa "Cuidado com a Bernarda!", tendo-se estreado no cinema a 23 de Setembro do mesmo ano, no papel de "Má Fortuna", uma mulher da mais alta nobreza com uma paixão não correspondida por Camões, interpretação que lhe valeu o prémio de melhor actriz do SNI, com apenas 17 anos de idade.
Eunice casou em 1947 com o arquitecto Rui Couto e declarou, em várias revistas, querer trocar o teatro pelo cinema.
Participou ainda em mais uma filme mas reapareceu em palco em Novembro do mesmo ano como primeira figura na peça "A Noite de 16 de Janeiro".
Em 1949 voltou à companhia Rey Colaço Robles Monteiro para protagonizar a peça " Outono em Flor", a última de Júlio Dantas.
Ainda no mesmo ano, a actriz quase atingiu o ponto de ruptura com a profissão, tendo feito mais três filmes antes de 15 anos de paragem na sua carreira cinematográfica.
Nesta altura, Eunice foi desaproveitada na revista.
Viria, porém a fazer enorme furor na companhia formada em 1951 no Teatro do Ginásio sob a direcção de António Pedro, interpretando papeis e peças nacionais e internacionais.
Passando ainda pelo Trindade na peça "João da Lua" Eunice retirou-se da sua profissão que lhe teria sido quase imposta.
Foi então caixeira numa loja de cortiça.
O regresso ao palco teve lugar na noite de 9 de Novembro de 1955 no Teatro Avenida.
O nascimento de um filho levou a outro afastamento que terminou em 1957, desta vez no Teatro da Trindade, integrando a companhia Teatro Nacional Popular, formada por Francisco Ribeiro e interpretando um papel na "Noite de Reis" de Shakespeare.
Em 1965, aceitou o desafio de integrar a Companhia Portuguesa de Comediantes com duas sessões diárias e matinée ao Domingo.
No ano de 1969 a desilusão de Eunice perante o panorama teatral da época levou a que formasse uma companhia com José de Castro, a companhia "Somos Dois" que se destinava a levar a efeito uma longa tournée por Angola e Moçambique.
Passou ainda uma última vez pela companhia Rey Colaço Robles Monteiro em 1971.
O Teatro Experimental de Cascais envolveu mais uma vez Eunice Muñoz num grande sucesso em "As Criadas" de Jean Genet, ao qual se sucedeu uma longa tounée em África.
Voltando a Lisboa em Maio de 74, apenas voltou ao palco em 76.
Seguiram-se ainda mais ausências e regressos entre vários géneros dramáticos na vida de uma actriz " que é sem dúvida a actriz mais jovem e mais ousada de quantas actuam em palcos portugueses".

terça-feira, agosto 02, 2005

Jorge de Sena

NO PAÍS DOS SACANAS
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternamente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
10/10/73

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Além dos inconvenientes que resultam deste estado de coisas para a higiene particular, outros existem atentatórios da salubridade pública. As nascentes exaustas não dão aos chafarizes água bastante para refrescar a atmosfera e expurgá-la dos miasmas perigosos; as sarjetas, não recebendo gota de água, deixam acumular nos canos toda a imundície da cidade, o que torna alguns bairros inabitáveis. Outra ocorrência gravíssima: sempre que no estio se manifesta um incêndio, os bombeiros (corporação admiravelmente organizada, diga-se a verdade) não encontram um metro cúbico de água nos canos da companhia para extinguir o fogo; sendo necessário abater e demolir para cortar comunicações.
De todas estas anomalias resultam consequências deploráveis e que se poderiam evitar empregando medidas energéticas. Mas os que deviam falar calam-se, e o povo português deixa-se esfolar sem protesto. A companhia não se apressa na execução dos trabalhos e a população, as ruas, os canos e as bombas continuam a morrer à mingua de água. Parece, à primeira vista, que o governo e a câmara municipal deviam patrocinar a causa dos contribuintes. Mas nada disto sucede. Corre em Lisboa, a tal respeito, um boato que não referirei para não me tomarem por maldizente...
Se o país passa, às vezes, cinco, seis e mesmo sete meses sem absorver um pingo de chuva, em compensação chove torrencialmente duranto o Inverno, segundo me afirmaram. Não é a chuva como a conhecemos em França; mas sim jorros de água que se despenham em torrentes caudalosas, inundando a cidade e prolongando-se por espaço de muitos dias consecutivos. Não sabem então os habitantes onde hão-de ir abrigar-se, em consequência da humidade das casas onde nem sequer existe um fogão para combater as intempéries da temperatura; podendo considerar-se felizes quando o Inverno lhes deixa apenas uma grande constipação ou algumas dores reumáticas. A maior parte das casas em Lisboa não têm goteiras; a água que cai nos telhados escorre daí para a rua e sabe Deus de que maneira! Às vezes assemelham-se a catadupas enormes jorrando nos passeios, não bastando o guarda-chuva para nos abrigar. Quem tiver de sair em semelhante ocasião deverá resignar-se a caminhar pelo meio da rua.
Acabemos de vez com esta resenha, um pouco humorística talvez, mas que tem um grande fundo de verdade.
Montesquieu admirou os canos de Roma, construídos no tempo de Tarquínio, e foi a seu propósito que escreveu a magnífica antítese: "Já se começava a edificar a cidade eterna." Lisboa está muito longe daqueles tempos primitivos. Os canos da capital portuguesa só se podem comparar aos de Tarquínio... em não serem modernos. A sua construção pertence efectivamente a uma época bastante remota. Poder-se-ia julgar que foram construídos por um povo bárbaro, tão deficiente é a sua execução e o plano a que estão subordinados. Toda a cidade baixa, edificada sobre o Tejo, acha-se ao nível do rio; os alicerces das casas chegam a estar abaixo desse nível. Os canos da cidade alta ramificam-se com os da cidade baixa e estes últimos desaguam no Tejo, se acaso o Tejo se digna recebê-los. De facto, quando a maré sobre não só tapa a abertura dos canos como os enche, impelindo muito mais para dentro as imundíces e putrefacções; quando desce a maré o plano dos canos na cidade baixa não chega a ser tão inclinado como é necessário para arrastar o que já têm e o que lhes traz a cidade alta; o que podem conduzir deposita-se nas margens do rio, onde, facilmente se imagina, exalam emanações desagradabilíssimas." - Continua.