domingo, julho 24, 2005

Jorge de Sena


Não, Não, Não Subscrevo,...
Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim de contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta e calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo a força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorífico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suiça.
Tomais nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.
Santa Bárbara, Fevereiro 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
Sena, Jorge de, 40 anos de servidão, Lisboa, 1982, Moraes Editores - Círculo de Poesia, pps. 200 a 204

terça-feira, julho 19, 2005

O SURGIMENTO DOS ARDINAS


"O Diário de Noticias creou uma útil industria para menores, e até para adultos que não tenham occupação, e que não gostem da vida ociosa, incommoda e precária á sociedade e a elles. A venda dos jornaes pelas ruas, inaugurada por nós nesta terra, dá um lucro rasoavel, e sufficientes meios aos que nella se occupam. Os cento e tantos indivíduos que se empregam actualmente na venda desta folha não são sufficientes para as exigências do consumo.
Todos os dias vem á administração grande numero de pessoas comprar números avulsos por lhes não passarem pela porta os vendedores, e isto é por elles serem relativamente poucos, e não chegarem a todos os pontos da cidade, e arredores. E em Lisboa há muitos menores e adultos sem occupação, e sem meios de subsistência. Muitos pedem esmolla tendo saúde robusta, e outros andam em criminosa vadiagem. O Diário de Noticias vende-se-lhes a 700 rs. cada cento, ou 175 rs. cada mão de 25 folhas, as quaes vendidas a 10 rs., seu preço invariável, lhes dão um lucro nesta proporção: 100 numeros vendidos 300 rs.; 75 numeros vendidos 225 rs.; 50 numeros vendidos 150 rs. Nenhum individuo que seja diligente vende menos de 50 numeros n’um dia. O ganho é pois muito mais avultado que o de outras industrias mais fadigosas, aonde se empregam os que intendem que o homem veio ao mundo para trabalhar. A venda na loja da administração principia ás 4 horas da manhã.
"

Diário de Noticias, Ano 1º, nº 183, Quinta-Feira, 17 de Agosto de 1865, Lisboa, Typ. Universal, pág. 3, 4ª coluna.

Carlos Queiroz

APELO À POESIA

Por que vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava
(Nem triste nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé-ante-pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
- Não sejas como o Amor!

É verdade que vens como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame
- Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar.
Poesia! nunca mais venhas assim
- Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, senão tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame
- Não sejas como a Morte!

domingo, julho 17, 2005

Mau Génio - André Brun - 30 Junho 1913


MAU GÉNIO

Está demonstrado que um portuguez mata sete pessoas por dia, em média. Logo de manhã acorda e pergunta se já viéram as botas do sapateiro, onde estão a receber fabrico de meias solas e atacadores novos. Ao saber que o homem faltou como um cão ao prometido, primeiro homicídio:
- Mariola! Bandido! Pulha! Safardana! Com que botas hei-de sair agora? Só dando um tiro naquêle tipo...
A família lá o aquiéta com um chavena de café com leite, calmante poderoso para o alfacinha, e dá-lhe os jornais para lêr. Logo na terceira coluna vem a transcrição duma gasêta estrangeira, em que o regimen é caluniado e se reclama a intervenção das potências. O furôr não conhece limites:
- Ah cães! Infames! O que êles precisavam era a lingua cortada, a mão decepada, o bofe arrancado pelos tornesêlos e a vida fóra...
Para socegar os nervos, lê o anuncio do Zé Clemente, levanta-se, lava a cara e vae almoçar. Comparece um bacalhausinho, cercado duma numerosa comissão de grêlos. Fala-se na carestia dos géneros alimentícios, na exploração dos revendedôres, e erguida a faca escorrendo aseite, o nosso amigo berra:
- O que êles precisavam sei eu! Não querem crer que isto não vae lá doutra maneira. Se eu governasse meia hora, enforcava meia dûsia e veriam como isso ficava de emenda...
Enrolado o guardanapo, sae o homem á rua. Está uma carroça parada e um brutamontes á pancada ao pobre cavalinho? Claro está que a unica maneira de remedear o caso era dar uma chicotada no selvagem e matá-lo para o ensinar a viver. No placard dum jornal lê-se que um chauffer atropelou um cidadão pacato e ordeiro? Forma de faser justiça: fusilar metade dos chauffers e pegar fôgo aos automoveis que andem com excesso de velocidade. Se acrescentarmos a isto que os sindicalistas todos deviam ser fritos em aseite, que os namorados que matam as namoradas se lhes deviam arrancar as unhas dos pés, etc., etc., podemos faser uma pequena ideia do pitorêsco que teria a existencia, se fosse regulada pelas impulsões de que os portuguêses são tão pródigos. Nas questões particulares nem se fala. Todos nós temos pelo menos cincoenta vitimas em vista, pessoas que nos têm sido desagradeveis e a quem aplicariamos os mais inquisitoriais tormentos.
Afinal de contas somos todos incapases de faser mal a uma mosca e estamos sempre prontos a lançar nos ao mar para salvar uma sardinha que corra risco de se afogar.
André Brun, 30-Junho-913

quarta-feira, julho 13, 2005

"Receita de Dom Luis de Moura para os dentes" - Livro de Cozinha da Infanta D. Maria

Receita para o tratamento das dores de dentes, presente no "Livro de Cozinha da Infanta D. Maria", publicado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1987.
Mal por mal... antes os dentistas actuais...

Receita de Dom Luis de Moura para os dentes

Tomarão duas canadas de vinho vermelho
numa panela nova. Deitar-lhe-ão ali uma
pouca de murta verde e um pouco de alecrim
e uma mão-cheia de losna e umas poucas
de rosas secas e uma mão-cheia de
cascas de pinhas machucadas e umas
poucas de cascas de romãs e uma mão-
-cheiazinha de sal e uma colher
de prata de pimenta machucada e um pú-
caro de beber cheio de mel. Isto tudo há-
-de ferver, que mingúem trêsn dedos da pa-
nela. E então, quando se lançam na ca-
ma, à noite, cubram-se muito bem a cabeça
com uma toalha dobrada por cima da cabe-
ça e alguma mantelinha de pano, porque
não saia nenhum bafo; e então toma-
rão aquele bafo, assim, com a cabeça sobre
a panela; e estejam ali tanto, enquan-
to aquele lavatório lançar bafo, e terão
tirado um pouco deste lavatório para,
à derradeira, enxaguar a boca, morno,
e tê-lo assim um pouco na boca. E na
boca da panela há-de estar uma toalha
enrodilhada assim como rodilha, para que
aquele bafo não saia forte, espalhado,
porque escaldara o rosto, senão quanto
diz a boca da panela; e então cubram-se muito
bem, que lhe não dê o ar.

terça-feira, julho 12, 2005

Amélia Rey Colaço - 1917

Apesar da pessima qualidade da imagem, não podia deixar de partilhar convosco esta maravilhosa capa da revista "Illustração Portugueza", de 03 de Dezembro de 1917.
Uma extraordinária fotografia de Amélia Rey Colaço (que, na legenda, aparece como sendo Amélia dos Reis Colaço), cujo mau estado da imagem se deve ao facto de ser uma cópia retirada através de microfilme, presente na Biblioteca Nacional de Lisboa.

segunda-feira, julho 11, 2005

Critica do jornal "Expresso" à peça "Paris é uma Miragem", em cena no Teatro Estúdio Mário Viegas

O sorteio
Peripécias de um casal de tugas
Na peça Paris É Uma Miragem, do inglês John Godber, em cena na Companhia Teatral do Chiado, uma suburbana, leitora assídua da imprensa cor-de-rosa, ganha uma viagem a Paris. Depois de muito penar, consegue convencer o marido, um desempregado com pretensões a pintor, a acompanhá-la. Nenhum deles fala francês, quase nunca saíram da Cruz de Pau e estão cheios de ideias feitas acerca do mundo que não conhecem. Mas por detrás das aventuras hilariantes, das broncas indescritíveis e das «gaffes» impagáveis, acabam por fazer uma viagem única de enriquecimento e de descoberta interiores, ainda que temperada pelo desprezo contra tudo o que é português.

Naturalmente que John Godber não situou a acção na Cruz de Pau. Esta foi a escolha resultante da adaptação do texto para Portugal, por sinal muito boa. No trabalho de tradução de Gustavo Rubim e de Vítor d’Andrade tudo é plausível, nada soa a falso ou a forçado e até as pequenas inserções não deixam de vir a propósito. Personagens assim, aparentemente simples, exigem actores sagazes, inteligentes e com o dom da comédia, capazes de dosear o humor sem cair no tom revisteiro. A escolha de Sofia Duarte Silva e de Manuel Mendes foi excelente. Na sua prestação, este último não esconde o escárnio que sente pelo «seu» suburbano e cai muitas vezes na tentação de «overact», mas o registo do papel e a experiência do actor permitem-no. Sofia Duarte Silva é uma actriz muito associada a personagens mais sofisticadas, agarrando aqui a oportunidade de mostrar uma versatilidade quase insuspeita nos trabalhos que fez em televisão. A caracterização de ambos, desde o vestuário à linguagem, é perfeita e recria a simplicidade tocante do casal. A encenação de Juvenal Garcês, sem utilizar muitos adereços, é inteligente na gestão dos recursos e no modo como recria os espaços com apenas um ecrã. No mesmo registo de inteligência e de sobriedade encontra-se a iluminação de Vasco Letria e o som de Sérgio Silva, os quais sublinham a sugestão dos ambientes visitados.
Rui Nunes da Silva