segunda-feira, julho 11, 2005

Critica do jornal "Expresso" à peça "Paris é uma Miragem", em cena no Teatro Estúdio Mário Viegas

O sorteio
Peripécias de um casal de tugas
Na peça Paris É Uma Miragem, do inglês John Godber, em cena na Companhia Teatral do Chiado, uma suburbana, leitora assídua da imprensa cor-de-rosa, ganha uma viagem a Paris. Depois de muito penar, consegue convencer o marido, um desempregado com pretensões a pintor, a acompanhá-la. Nenhum deles fala francês, quase nunca saíram da Cruz de Pau e estão cheios de ideias feitas acerca do mundo que não conhecem. Mas por detrás das aventuras hilariantes, das broncas indescritíveis e das «gaffes» impagáveis, acabam por fazer uma viagem única de enriquecimento e de descoberta interiores, ainda que temperada pelo desprezo contra tudo o que é português.

Naturalmente que John Godber não situou a acção na Cruz de Pau. Esta foi a escolha resultante da adaptação do texto para Portugal, por sinal muito boa. No trabalho de tradução de Gustavo Rubim e de Vítor d’Andrade tudo é plausível, nada soa a falso ou a forçado e até as pequenas inserções não deixam de vir a propósito. Personagens assim, aparentemente simples, exigem actores sagazes, inteligentes e com o dom da comédia, capazes de dosear o humor sem cair no tom revisteiro. A escolha de Sofia Duarte Silva e de Manuel Mendes foi excelente. Na sua prestação, este último não esconde o escárnio que sente pelo «seu» suburbano e cai muitas vezes na tentação de «overact», mas o registo do papel e a experiência do actor permitem-no. Sofia Duarte Silva é uma actriz muito associada a personagens mais sofisticadas, agarrando aqui a oportunidade de mostrar uma versatilidade quase insuspeita nos trabalhos que fez em televisão. A caracterização de ambos, desde o vestuário à linguagem, é perfeita e recria a simplicidade tocante do casal. A encenação de Juvenal Garcês, sem utilizar muitos adereços, é inteligente na gestão dos recursos e no modo como recria os espaços com apenas um ecrã. No mesmo registo de inteligência e de sobriedade encontra-se a iluminação de Vasco Letria e o som de Sérgio Silva, os quais sublinham a sugestão dos ambientes visitados.
Rui Nunes da Silva

Carlos do Carmo - E A VOZ CONTINUA

No passado sábado, dia 09 de Julho, Carlos do Carmo ofereceu aos Lisboetas um inesquecivel concerto no Auditório Keil do Amaral, em Monsanto.
Carlos do Carmos conta já com 42 anos de carreira, dando voz ao fado.
No palco estiveram a brilhante Sinfonieta de Lisboa, Bernardo Sassetti no piano, Alexandre Frazão, Carlos Bica, entre outros músicos "de produção nacional". E o resultado foi mágico.
Há dois anos atrás, na comemoração dos 40 anos de carreiro do cantor, no Coliseu dos Recreios em Lisboa, Carlos do Carmo experimentou esta fórmula e o resultado foi também muito agradável. Quem quiser ouvir, sugiro a compra do album ou do DVD do mesmo espectáculo.
Mas no Keil do Amaral e experiência mostrou-se amadurecida, com um Carlos do Carmo mais confiante e um público completamente rendido.
Carlos do Carmo afirmou, em palco, que "90% do meu reportório são fados e 10% são cantigas", estando estas últimas há muito esquecidas. Por isso, dedicou o espectáculo ao Luis Tinoco e cantou "cantigas" de sonho que já não cantava há perto de 25 anos. Assim, tivemos oportunidade de ouvir, entre outras, o espectacular "No teu Poema" (também normalmente cantada por Simone de Oliveira), "Estrela da Tarde", "Lobos e Ninguém (um dos pontos altos do espectaculo), etc. António Lobo Antunes foi por duas vezes cantado.
O som do espectáculo era irrepreensivel e a voz do "Charmoso" mostrou-se melhor que nunca, havendo alturas de puro extâse, quer no fadista quer no publico.
Carlos do Carmo conversou, cantou e encantou, num auditório repleto de pessoas de todas as idades, que prendaram o fadista com alongadissimas salva de palmas e muitos "bravos" e "bis".

domingo, junho 26, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Começaram em eras remotas a aproveitar os trabalhos executados pelos mouros, que foram os primeiros canalizadores do mundo e os mais hábeis hidrófilos. Depois, no século passado, fizeram novos trabalhos e por último o governo concedeu, há alguns anos, a uma companhia a concessão do fornecimento de águas da cidade. Ignoro em que condições se realizou este contrato. Mas suponho que não se estabeleceram regras bastante severas, ou antes, segundo ouvi dizer, não se executaram com a devida seriedade. O que é verdade é que os trabalhos caminham lentamente e que só estarão acabados quando metade da população tiver morrido de gosma. Queixaram-se alguns jornais das irregularidades da companhia e chamaram a atenção do governo para que tomasse na devida conta o interesse das gargantas secas; mas o governo parece ter razões particulares para não atender essas reclamações, porque não ouviu ou fingiu não ouvir.
Poucos países existem onde se consuma tanta água e onde se encontre tão pouca. Julgo que não há em toda a cidade de Lisboa três estabelecimentos de banhos quentes e os que existem pertencem a hotéis mais frequentados por estrangeiros. Em Lisboa tomam-se banhos unicamente por conselho dos médicos ou por motivo de doença. No Outono é que os portugueses se desforram, banhando-se no mar durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro; dizem que os banhos, nesse tempo, são mais proveitosos. Qual a razão? Hipócrates e Galeno que respondam.
No Inverno Portugal é excessivamente regado pelas águas do céu: por vezes, é mesmo demasiadamente; mas logo nos primeiros dias de Maio desaparecem as nuvens e o firmamento adquire uma cor serena e igual, não tornando a chover habitualmente até Outubro. É nessa época que a cidade carece de maior fornecimento de água; ora é justamente nesta época que falta a água para satisfazer as necessidades públicas. E efectivamente, os portugueses, ou porque bebem por natureza ou porque sejam excitados pela grande quantidade de peixe de que se alimentam, absorvem água como esponjas. Em todas as esquinas das ruas, em todas as praças públicas, em todos os passeios, em toda a parte enfim, deparam-se-nos vendedores de água cujo estabelecimento consta de uma bilha e dois copos. Todos eles têm numerosa freguesia, que bebe com a avidez de quem sente dentro de si um incêndio enorme.
Sempre que um português visita alguém a primeira coisa que faz é pedir-lhe um copo de água; quando sai de casa, quando entra, quando se deita, quando se levanta, sempre um copo de água! Costume altamente prejudicial, porque sendo as águas excessivamente calcárias arruinam o estômago e predispõem aos cálculos na bexiga, muito vulgares em Lisboa. Que importa, porém, se a troco de cinco ou dez réis por copo se satisfazem a sua paixão?" - Continua

sexta-feira, junho 24, 2005

38 760 caracteres - João Miguel Tavares - Diário de Noticias

"Manuel Maria Carrilho anda desconsolado, e foi-se queixar para as páginas do Público e do último Expresso. Então não é que ele tinha 18 páginas e "38 760 caracteres de ideias" no seu luminoso programa eleitoral e a comunicação social "embasbacou com uns segundos de vida familiar", limitando-se a discutir o vídeo da Bárbara e do Dinis? Coitadinho do Manuel. Passou tanto tempo a estudar o Sein und Zeit que desleixou o cultivo da sabedoria popular. De outro modo saberia que uma imagem vale mais do que mil palavras, e que a Bárbara e o Dinis valem muito mais do que 38 760 caracteres.
Carrilho tramou-se, e está a ver o tapete fugir-lhe debaixo dos pés. Quando no Público apenas Eduardo Prado Coelho permanece seu fiel escudeiro, enquanto nomes como Miguel Sousa Tavares, Augusto M. Seabra ou Ana Sá Lopes se demarcam da sua candidatura, algo de errado se passa. E esse algo é a incompatibilidade entre o político inteligente, sério e com iniciativa - que Carrilho talvez seja - e o político calculista, agressivo e capaz de empenhar a família como muleta eleitoral - que Carrilho definitivamente é.
No Público e no Expresso, Carrilho foi buscar uma série de exemplos para demonstrar como é costumeira a participação da família numa campanha eleitoral. Os exemplos incluíam Snu Abecassis e Sá Carneiro. Evidentemente, fez-se de sonso Snu e Sá Carneiro são exactamente o contrário de Bárbara e Manuel Maria, pois apareciam juntos em público apesar de poderem perder votos e não para ganhar votos. É claro que Carrilho tem toda a legitimidade para enfeitar a campanha com mulher e filho. Infelizmente para ele, nota-se demasiado que a decoração é artificial. O sorriso é de plástico. O penteado é de plástico. A roupa desportiva, a cadeirinha do bebé, o vídeo - tudo é de plástico. Carrilho pode ter imensas ideias, mas elas contam pouco se o eleitorado duvidar dos escrúpulos de quem as vai pôr em prática. Em política o que conta é o carácter - não os caracteres."
João Miguel Tavares - Diário de Noticias de 24 de Junho de 2005

terça-feira, junho 21, 2005

Vasco de Lima Couto


Fotografia de Vasco de Lima Couto, declamando.
Esta fotografia foi tirada em Estremoz, por ocasião do descerramento da placa que homenageia o Poeta Sebastião da Gama, colocada na casa que lhe serviu de morada (Largo do Espírito Santo) quando foi para aquela vila exercer a profissão de Professor.
Vasco de Lima Couto foi amigo e colega de Faculdade de Sebastião da Gama.
Além de Vasco de Lima Couto (em primeiro plano), podemos ainda destacar a presença do pai do Poeta Sebastião da Gama, o sr. Sebastião Leal da Gama Júnior (segundo da direita) e do sr. Eurico Lisboa, Professor do Conservatório (segundo da esquerda, ao lado da Senhora).
A fotografia está numerada no reverso com o nº 2107, da "Foto-Carvalho" - Estremoz.
Agradeco a gentil cedência e permissão de publicação da fotografia à familia do Poeta Sebastião da Gama.

"Os Olhos e o Silêncio" e "O Silêncio Quebrado" - Vasco de Lima Couto

Casa-Museu Vasco de Lima Couto, em Constância

Mini-Biografia de Vasco de Lima Couto


Só esta semana é que tomei consciência que já lá vão 25 anos desde a morte de um grande e esquecido poeta português - Vasco de Lima Couto.

Nascido no Porto a 26 de Novembro de 1923, vem a falecer em Lisboa no dia 10 de Março de 1980. E ninguém se lembrou de lhe prestar uma homenagem.
Vasco de Lima Couto foi um homem de Cultura. Poeta, actor, encenador, declamador e homem da rádio. E, pelo que consta, todos estas facetas fê-las bem, com dignidade e profissionalismo.

"Eu sou um poeta. Maldito, mas poeta. Sou, também, actor. Incómodo, mas actor. Como actor, empresto. Como poeta, dou. Entre estas duas posições, vivo. Não represento nenhuma escola, porque não preciso de falar ao tempo do meu povo. Sou o tempo do meu povo! Se algum mérito possuo, é o de não ser intelectual partido, para intelectuais de partido. Canto como sei e sei como sinto. Não dou respostas convenientes, porque - felizmente, sou inconveniente. Entre o homem chateado e a criança maravilhada, rasgo o tempo que possuo. O mais que queiram ver, em mim, é estrume de animal que mastiga a comida que não merece e que o povo paga."

Vasco de Lima Couto reflectia sobre as coisas do seu tempo. Pensava sobre a vida cultural e social do seu país, principalmente quando se embrenhava nelas. Em 1972, fala deste modo sobre a sua vida de actor:
"O Teatro está cheio de espertos. Tanto lhes faz que seja assim como assado, e como isso a que chamam teatro lhes facilita os dias, eles vão de peça em peça, sem talento e sem religião. Depois, os que comandam esta anarquia da inteligência, que finge não querer actores porque lhes têm de pagar de acordo com a força do seu trabalho; preferem contratar amadores, com jeito ou não, que, ingénuos e incipientes, podem ser enganados.
E o resultado está à vista. Há peças que caem redondas porque não foram vestidas, só foram cobertas. (...) O actor, hoje não pode ser só o hábil senhor que se movimenta e inflexiona. Tem que ser, por dedução, a inteligência e a cultura de quem espera e a angústia colectiva de quem procura. A experiência só por si não chega. O actor tem que estar atento aos movimentos sociais da sua época mesmo quando pelas circunstâncias anormais da vida tem de transigir.
Mas não deverá nunca transigir servindo-se da benevolência idiota dos mecenas, porque esses - como dizia Afonso Lopes Vieira - entram na poesia como os camelos no jardim. Ninguém proíbe ninguém de ser inteligente!"

É extraordinária a actualidade destas palavras no nosso panorama teatral. Infelizmente, mudou apenas uma coisa. Os mediocres, incipientes e amadores, continuam a encher os palcos dos nossos teatros (e, já agora, das nossas televisões), mas a receberem tanto ou mais de cachet, quanto os actores de qualidades comprovadas.

Vasco de Lima Couto estreou-se nos palcos em 27 de Março de 1947 "empurrado" por Alves da Cunha. Percorreu todo o país em digressão falando de poetas e de teatro até que, em 13 de Março de 1951, ingressa na Companhia de Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro, para o elenco da peça "La Niña Boba", de Lope de Vega, que seria posta em cena em 7 de Abril de 1953, com Gina Santos como "menina tonta", Helena Féliz, Álvaro Benamor e Maria Albergaria.
Lima Couto representou em mais de 40 peças ao longo de toda a sua carreira, nunca acusando qualquer atitude de concessão ao "status" ou amolecimento das linhas mestras da sua personalidade criativa e, por vezes, revolucionária.

Mas, como refere João Aguiar no Diário de Noticias de dia 14 de Março de 1980, "será exagerado dizer que Vasco de Lima Couto foi 'actor por acréscimo'. Algumas das suas interpretações não serão esquecidas tão cedo".

Por volta de 1952, Lima Couto volta ao Porto para se juntar ao Teatro Experimental, onde permanece cerca de oito anos. Aí, representou peças tão importantes como: "A Morte de um Caixeiro Viajante", de Miller; "As Guerras de Alecrim e Manjerona", de António José da Silva; "Volpone", de Ben Johnson; "Edda Gabler", de Ibsen; "Ratos e Homens", de Steinbeck; "Tio Vania", de Tchecov, entre outras.
Em 1960 volta para a capital portuguesa onde representará a figura de D. Afonso IV na peça "Castro", de António Ferreira. "Teve enorme êxito, o qual, segundo as próprias palavras, se deve à direcção de Paulo Renato".

Durante dois anos trabalhou para o Teatro da Câmara - Estufa Fria, sob a direcção de Pedro Bom, mas considerava o tipo repertório lá representado como "chato e despido de qualquer realidade".

O grande sucesso vem com o "Mercador de Veneza", de Shakespeare, onde Vasco de Lima Couto representava o papel de Lancelote Gobbo. "O êxito foi tal que, ao sair de cena, num dos melhores momentos da peça, o público interrompia a representação com uma salva de palmas".

Em 1966 vai para o Teatro da Trindade, para representar "Todos eram meus filhos", de Miller. A peça vai em tournée pelo pais inteiro.
Um ano depois vai para o TEL (Teatro Experimental de Lisboa) onde representa, basicamente, peças de Luzia Maria Martins.

Mas a situação do TEL era desastrosa. Vasco de Lima Couto viu-se sem dinheiro, sendo "obrigado" a ir trabalhar para a televisão, em peças que em nada lhe interessavam. Chega mesmo a aceitar o convite de Vasco Morgado para representar o "Vison Voador", no Villaret.

Em 1971 concorre ao "Festival da Canção" com o célebre e polémico "Zé Brasileiro Português de Braga".

Conhece finalmente África, por quem se apaixona. Em Angola, inicia uma série de programas na Emissora Oficial, como colaborador e assistente literário. Era o programa "Cantar de Amigo", dedicado à divulgação da poesia portuguesa. Aí, "muitos dos que sistematicamente o ignoravam na crítica, na presença e na divulgação, eram citados sem qualquer ressentimento".

Trava conhecimentos com o jornalista João Aguiar, sub-chefe de redacção do Diário Falado e produtor radiofónico. Este, leva Lima Couto a interpretar na rádio uma adaptação do romance "Um Cântico para Leibowitz", à altura com o nome, "A crónica de S. Leibowitz". "O original gravado, um dos raros documentos que se salvaram depois da independência, é a amostra mais que convincente do grande talento e capacidade de um actor".

Nos inicios de 1974, inexplicavelmente, Vasco de Lima Couto regressa a Portugal.
Com grande mágoa encontra António Pedro afastado do TEP. Vai para a Cornucópia, que depressa abandona para se fixar uns meses em Paris. Ao regressar, ingressa na Companhia Maria Matos para representar o "Encoberto", de Natália Correia.

No entanto surge uma vida nocturna intensa, cada vez mais ligado ao fado. No "Painel do Fado", na "Taberna de S. Jorge" (no Porto) ou na "Taberna do Embuçado", Vasco de Lima Couto escreve, lê e ouve cantar a sua poesia.
Grandes nomes da canção (ligeira e fado) cantam as suas palavras: Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Simone de Oliveira, entre outras.

No principio e no fim de tudo, estava a poesia. E à medida que o tempo foi passando, o "resto" foi ficando pelo caminho, como veste que se usa bem, mas que depois se larga - nem sempre por vontade própria, mas sempre com intima tranquilidade. Lima Couto sabia que, através do tumulto emocional, ideológico e politico, ele haveria de desentender-se com o "establishment", pois isso acontecera antes, acontecera sempre; e, como antes, como sempre, o "establishment" não lhe perdoaria e fechar-lhe-ia as portas. Mas sabia também que havia duas coisas que nunca ninguém lhe poderia tirar: Uma, a liberdade que lhe advinha de não ter nada para perder; a outra, a sua condição e essência de poeta
."
João Aguiar, Diário de Noticias, 14 de Março de 1980
LIVROS PUBLICADOS
- Arrebol - 1943
- Romance - 1947
- Recado Invisivel - 1950
- Os olhos e o silêncio - 1952
- O Silêncio Quebrado - 1959
- Esta continua saudade... - 1974
- Deixando discorrer os rios - 1980 (?)
- Canto de Vida e de Morte - 1981

domingo, junho 19, 2005

UM OÁSIS NO CHIADO - GUSTAVO RUBIM

O texto que a seguir vos transcrevo encontra-se presente no Programa da peça "Paris é uma miragem" (de que vos falo no post seguinte), em cena no Teatro Estúdio Mário Viegas, "casa" da Companhia Teatral do Chiado.
Transcrevo-o porque é verdadeiro. Transcrevo-o porque admiro a memória de Mário Viegas, a persistência, a coragem e a cultura de Juvenal Garcês (curvo-me respeitosamente perante os teus 25 anos de carreira, comemorados este ano), o trabalho, o talento e a amizade de Simão Rubim... e de todos vocês. Parabéns pelos vossos 15 anos como Companhia de Teatro, que navega por vezes em mar revolto... mas o vosso barco é forte e a tripulação, exímia e valente.
Continuem a amar o Teatro, os Actores, os Dramaturgos e o Público. Eu?! Continuarei a amar-vos.
UM OÁSIS NO CHIADO
"Parece que há gente incomodada com a insistência da Companhia Teatral do Chiado na montagem de espectáculos cómicos. A peça de John Godber - Paris É uma Miragem - é uma comédia que a CTC apresenta no ano do 15º aniversário da sua fundação por Mário Viegas e Juvenal Garcês. A título pessoal, quero, antes de mais, felicitar a CTC pelos seus 15 anos de existência: parabéns e obrigado pela oportunidade que me deram de colaborar convosco e, sobretudo, de ver na vossa Companhia o melhor teatro, o teatro como eu gosto dele, ao longo destes 15 anos. Quero também tentar explicar, em poucas palavras, o péssimo sinal que constitui aquele incómodo português com as comédias da CTC.
Não tenho visto nada mais cínico, em anos recentes, do que a invocação da memória de Mário Viegas para condenar o trabalho e a estética da CTC após a morte do grande actor e encenador, em 1996. Sem excepção, quem invoca a memória de Mário Viegas para atacar a CTC dirigida por Juvenal Garcês são as pessoas que não conheceram o Mário, que nunca aderiram ao seu estilo e, muitas vezes, que fazem ou apreciam em teatro coisas que ao Mário eram profundamente repugnantes. Trato-o assim pelo nome de baptismo, porque o conheci pessoalmente e não raras vezes o ouvi lamentar o destino do teatro português, que muito tempo depois do 25 de Abril continuava a ser (como ainda continua em grande parte, na minha opinião) um teatro submisso à ideologia, com ridículas pretensões didácticas ou, o que não é melhor, falsamente vanguardista e esteticista até ao enjoo e ao vazio total. Nada disso lhe agradava, nem de longe.
Como essas, uma convicção que o Mário deixou escrita (e todos podem ler) foi a de que a comédia não é um género menor. Parece ridículo ter de lembrar isto, quando foi na CTC que o Mário fez esse prodígio de comédio política chamado Europa Não! Portugal Nunca!!; quando foi com O Regresso de Bucha e Estica que lançou as raízes da CTC; quando alguns dos maiores êxitos da CTC, no tempo em que o Mário a dirigia, foram as suas encenações do teatro de Eduardo de Filippo, uma das quais - A Grande Magia - veio a ser a penúltima que assinou (a última, como é sabido, foi Uma Comédia às Escuras de Peter Shaffer). Por tudo isto e, mais ainda, porque o Mário era um incondicional admirador de Beckett, é que a única explicação razoável para o ataque ao gosto da CTC pela comédia só pode ser esta: através da actual CTC, os velhos inimigos de Mário Viegas continuam a depreciá-lo e a desdenhá-lo, amesquinhando a herança daquela que é, para mim, a maior figura do teatro português contemporâneo.
Há documentos oficiais desse desprezo nada inocente. Uma pessoa com responsabilidades na crítica e no ensino teatrais escreveu, há poucos anos, um balanço do teatro pós-25 de Abril: o nome de Mário Viegas mal aparecia nesse triste atestado de má-fé que destilava veneno em cada linha. Também há explicação para isto: o Mário nunca escondeu o seu apego a uma tradição de teatro popular que, paradoxal e estupidamente, os ideólogos da estética pós-revolucionária tudo fizeram para aniquilar. Com inteira justiça e toda a lucidez, Beckett e Shakespeare eram, aos olhos do Mário, teatro popular (recentemente, em Londres, os Happy Days esgotaram lotações com meses de antecedência). Tal como o recordo, o Mário nunca cometeu o grosseiro equívoco artístico destes 30 anos de teatro em liberdade: colocar Brecht acima de Shakespeare.
O Mário não tinha medo do sucesso nem do público. E nem uma coisa nem outra lhe bloqueavam a criatividade e o sentido poético. O Juvenal, o Simão, o João Nuno, o Vasco Letria e todos quantos têm mantido a CTC, desde 1990 até hoje, conservaram, intensificaram e transmitiram essa lição: a lição do teatro que só responde por si mesmo, do teatro sem limites, do teatro que ama todas as suas possibilidades sem exclusão de nenhuma. Quando tanta gente, sobretudo em lugares de poder político ou cultural, anseia e actua, de modo mais descarado e mais sinistro, pelo fim da CTC, alegra-me especialmente que a CTC responda com uma gargalhada.
Para o Zé e para a Guida, París é uma miragem. Mas para a Sofia Duarte Silva e para o Manuel Mendes, a pequena sala do Teatro-Estúdio Mário Viegas oferece-se a todos como um oásis no Chiado. Para os dois, muita merda!
À nossa CTC, ergo a taça e brindo a uma longa vida!
Gustavo Rubim

PARIS É UMA MIRAGEM - Companhia Teatral do Chiado - Teatro Estúdio Mário Viegas


Estreou na passada quinta-feira, no TEATRO ESTÚDIO MÁRIO VIEGAS, a nova peça de teatro - PARIS É UMA MIRAGEM - do inglês John Godber.
A encenação é de Juvenal Garcês (director e co-fundador da Companhia Teatral de Chiado) e conta com a dupla Manuel Mendes (também actor do maior sucesso de sempre na história do teatro em Portugal - As Obras Completas de William Shakespeare em 97, ainda em cena) e de Sofia Duarte Silva.
É mais uma aposta ganha da CTC para este Verão de 2005. O texto é simples e sem grandes "ensinamentos", contando com a excelente tradução de Gustavo Rubim e Victor de Andrade.
Um casal de Cruz de Pau, ele desempregado e ela empregada numa loja de desporto, passam o tempo em frente ao televisor, amorfos, enquanto refilam um com o outro. Ele, tenta ser pintor. Ela, devora revistas cor-de-rosa e responde, compulsivamente, a todos os concursos que lhe aparecem à frente. Milagrosamente, ganha um fim de semana romântico na cidade das Luzes. E este é o mote para o desenrolar da acção.
De guia túristico em punho, tentam sorver o máximo que podem de Paris e daquilo que esta cidade tem para oferecer, nomeadamente para os turistas.
Ela, uma tonta sonhadora. Ele, um bronco desconfiado, armado em Manuel Maria Carrilho, ou seja, julgando-se filósofo.
A mistura é explosiva e bem conseguida, havendo momentos de um enorme humor e de genuína gargalhada.
As interpretações são altamente convincentes, estando cada um dos actores à medida do papel a desempenhar.
Mas o melhor da peça é encontrarmos Juvenal Garcês ao mais alto estilo e em excelente forma. As soluções de encenação encontradas para os diversos ambientes em que a acção se desenrola foram muito bem conseguidas, proporcionando momentos de puro deleito.
Diga-se que o cenário é apenas constituido por duas cadeiras (sempre diferentes, consoante o espaço físico onde os actores se encontram) e uma tela branca. Nesta, vão sendo projectadas imagens (slides), criando ou materializando o espaço físico onde a acção decorre. Ainda levamos, como bonús delicioso, uma surpreendente actuação de Samantha Rox (Transformista no "Finalmente", em Lisboa) ao som de "I Am, What I Am". O gosto e a pertinência das imagens, tratadas por Luís Rocha, são de salientar.
E, como já é hábito nos espectáculos de Juvenal Garcês, é de se elogiar a excelente "banda sonora" que acompanha toda a peça, ouvindo-se as vozes de Jacques Brel, Dalida e Edith Piaf. Alguém já se lembrou de convidar Juvenal Garcês para fazer um programa de rádio? Porque é impressionante o cuidado e o bom-gosto das músicas com que sempre acompanha as suas encenações. Parabéns.
Inesperado é o fim destinado a cada uma das personagens. Uma mudança de personalidade da qual se pode, ou talvez não, tirar alguma lição ou "ensinamento". Mas não vou contar o que quero dizer com isto.
É um espectáculo de puro entretenimento, próprio para o calor da estação de veraneio. Aconselha-se vivamente.
Para mais informações consulte:
Por último, não podia deixar de referir o excelente trabalho na execução do Programa da peça, como é aliás habitual na Companhia Teatral do Chiado.
Vá ao Teatro (do bom)... divirta-se.