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quinta-feira, junho 16, 2005
terça-feira, junho 07, 2005
domingo, junho 05, 2005
Critica de Música ao espectáculo de Aldina Duarte - Diário de Noticias - João Miguel Tavares
"Uma manifestação de amor ao fado
A actual fórmula dos concertos da Culturgest tem a graça de convidar o público para um encontro com o artista no final do espectáculo. Claro que esta interactividade é um pouco ingénua, porque há sempre um maluco de serviço que entende expor aos presentes as suas teorias sobre a origem do universo, acabando o artista por dizer pouco mais do que meia dúzia de palavras de circunstância.
Mas enquanto pôde falar e o maluco de serviço não apareceu, Aldina Duarte traçou uma comparação fundamental: disse que a diferença entre cantar numa casa de fados e cantar numa grande sala como a da Culturgest era a mesma que estar em casa com amigos que partilham as suas ideias ou estar no meio de uma manifestação por uma causa comum. O concerto da noite de sexta-feira foi, portanto, uma manifestação - a manifestação do amor de Aldina ao fado. Mas, como em todas as manifestações, houve palavras certas e actos falhados.
O público era uma mistura interclassista de fiéis, amigos da Caixa Geral de Depósitos e turistas, o que produziu uma amálgama de boas vontades que aplaudia sempre muito, qualquer que fosse a ocasião. Contudo, apesar da generosidade dos ouvintes, demorou algum tempo para que a voz de Aldina encolhesse as paredes do grande auditório até se sentir em casa, encontrando um espaço de intimidade essencial à exposição da sua arte.
Foi preciso esperar pelo mais emblemático fado dos fados - o menor, no tema M. F. - para que Aldina começasse a mostrar alguma da sua graça e a garra de fadista que se reconhece tanto nas suas letras como no seu disco. A partir daí, o concerto cresceu, com momentos de grande inspiração como Muro Vazio ou Estação das Cerejas, onde Aldina trabalhou sobre os graves, sem dúvida um dos seus melhores maiores trunfos.
Com um timbre limitado, Aldina é uma fadista à moda antiga - o que interessa não é tanto a limpidez da voz, a correcção da dicção ou o acerto da afinação, mas sim a quantidade de alma que é colocada em cada interpretação, com quanto de vida se embrulha cada nota. E aí, Aldina sempre foi generosa. O seu fado é pobre, rugoso, com arestas, mas tem a pureza dos velhos mestres. Em Portugal, ninguém com menos de 60 anos canta assim o fado - e isto é um elogio dos grandes." - João Miguel Tavares
sábado, junho 04, 2005
Aldina Duarte - Culturgest
Na noite passada um momento mágico aconteceu em Lisboa - O concerto de Aldina Duarte, na Culturgest.
Aldina Duarte provou o que há muito já se sabia: que é uma fadista de alma e coração, sem artificios nem rodeios.
Vestida de preto com um belissimo xaile sobre os ombros (só não sei se seria um dos xailes-amuleto feitos por Argentina Santos), Aldina Duarte estava bonita.
A casa estava lotada. Algumas caras conhecidas como Maria da Fé, David Ferreira e Margarida Mercês de Melo, Ana Sousa Dias (a quem Aldina Duarte havia dado uma entrevista que ficará para sempre na minha memória), João Lopes, entre outros. O público foi altamente receptivo, ouvindo os habituais "bravos" e "Ah, Fadista". Aldina mereceu-o.
No palco apenas dois músicos: José Manuel Neto, na Guitarra e Carlos Manuel Proença, na Viola. Quatro cadeiras vazias e uma instalação em madeira a fazer lembrar (segundo o meu acompanhante no concerto) a estrutura em madeira que circunda uma arena de uma praça de touros. Tudo obra de Jorge Silva Melo.
Aldina Duarte cantou bem embora, a meu ver, seja um pouco inconstante na utilização da voz. Mas penso que isso não a desfavorece. Antes pelo contrário, é a sua imagem de marca. Aldina é uma fadista de tabernas e casas de fado. É uma fadista das ruas ingremes dos Bairros de Lisboa. Reúne em si, e sem querer fazer comparações, as vozes de Beatriz da Conceição, Lucilia do Carmo e Herminia Silva.
No rosto estava estampado as contradicções do próprio fado: a dor e a alegria; a saudade e o reencontro; o amor e o traição.
E que sorriso inocente, simpático, sincero e belo tem Aldina Duarte. É impossivel não nos comovermos. Aldina está ali verdadeiramente. Não finge, não mostra o que não é. Está como se estivesse despida, nua.
Cantou músicas do seu album "Apenas o Amor" e alguns temas novos. Recordou Alfredo Marceneiro, Lucilia do Carmo e Herminia Silva (que fechou o espectáculo).
O carinho que sente pelos músicos, e eles por Aldina, não passou despercebido. Troca de meiguices foram acontecendo ao longo do concerto, olhares cúmplices e de encorajamento foram sendo trocados.
Mas eu acho que Aldina Duarte não sabia ao que ia, nem o que iria encontrar. Não esperava aquele sucesso nem aquele acolhimento. Como posso esquecer a expressão no rosto de Aldina quando, já no fim do concerto, as luzes da sala se acenderam e ela pode, realmente, olhar a sala e o público, da primeira à última fila. A expressão foi de terror, de susto, de algo surpreendente e de que não esperava. Estavamos todos de pé a aplaudir. Aldina abandona de imediato o palco e não voltou.
- Desculpa lá Fadista se te assustámos. Não foi por mal... e a culpa é tua. Quem te manda mexeres com os nossos sentimentos daquela forma? Tiveste o que mereceste por seres tão genuina. Espero que tenhas percebido que aquelas palmas eram mesmo para ti. E se tivesses voltado terias muitas mais.
Obrigado Aldina.
"Acredito que os artistas existem para servir as pessoas na construção dum mundo onde todos viverão de forma mais justa e mais feliz - Ai de nós e do mundo quando os artistas deixarem de ser a voz da coragem e da luta das pessoas por uma vida mais feliz!
Como diria o poeta Teixeira de Pascoaes "Eliminem a palavra Humanidade e ficaremos cobertos de pêlo, num instante".
Aldina Duarte
sexta-feira, junho 03, 2005
Dois poemas para o fim-de-semana
BAILATA DOS DOIDOS
Se os doidos não sabem
Seu nome e idade
- Quem dera ser doido,
Que felicidade!
Seu nome e idade
- Quem dera ser doido,
Que felicidade!
Se os doidos não sentem
As mágoas reais
- Quem dera ser doido,
Não as sentir mais!
As mágoas reais
- Quem dera ser doido,
Não as sentir mais!
Se os doidos não vêem
Como os outros são
- Quem dera ser doido,
Ter essa ilusão!
Como os outros são
- Quem dera ser doido,
Ter essa ilusão!
Se os doidos não cuidam
Do que é necessário
- Quem dera ser doido,
Sem este fadário!
Do que é necessário
- Quem dera ser doido,
Sem este fadário!
Se os doidos não temem
A hora da morte
- Quem dera ser doido,
Para ser tão forte!
A hora da morte
- Quem dera ser doido,
Para ser tão forte!
Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e outros poemas, Edições Ática
FADO
A que tinha no andar restos de infância
Saudosos de correr atrás do arco,
Deixando no ar um rastro
De inocência e de constância;
Saudosos de correr atrás do arco,
Deixando no ar um rastro
De inocência e de constância;
A que no olhar denunciava
- Quando olhava sem ver, mas calma e doce -
Sintomas de morte precoce;
- Quando olhava sem ver, mas calma e doce -
Sintomas de morte precoce;
A que lembrava
Quando sorria, estar pensando
Nas fadas dos contos antigos;
Quando sorria, estar pensando
Nas fadas dos contos antigos;
A que num lago sem perigos
- No mínimo gesto brando
Das suas mãos impolutas -
Dava a imagem da vida...
- No mínimo gesto brando
Das suas mãos impolutas -
Dava a imagem da vida...
É hoje a mais conhecida
No bairro das prostitutas.
No bairro das prostitutas.
Junho de 1930
Carlos Queiroz, Desaparecido * Breve Tratado de Não-Versificação,
Edições Ática
Palmira Bastos - Uma Legenda Do Teatro Português
Palmira Bastos - Uma Legenda Do Teatro Português
Este artigo sobre Palmira Bastos foi publicado na revista "Plateia", nº 116, de 10 de Junho de 1962. Mais do que pelo texto em si, o interesse desta reportagem reside nas fotografias de Palmira Bastos.
Para visualizar as imagens em modo aumentado, clique por cima das mesmas.
Quero agradecer ao Pedro Urbano o ter-me facultado um sem número de revistas "Plateia" para poder ir publicando no blog. Um obrigado especial.
segunda-feira, maio 30, 2005
Visitando Mr. Green - Teatro Tivoli
Ontem assisti a mais um bom momento de teatro protagonizado por Paul Autran e Dan Stulbach, em "Visitando Mr. Green", que está em cena no Teatro Tivoli em Lisboa. O texto é do norte-americano Jeff Baron.
Após "Variações Enigmáticas" do francês Eric-Emmanuel Schimitt, apresentada no teatro S. Luiz, em Lisboa, no final do ano de 2002, "Visitando Mr. Green" marca o reencontro de Paul Autran nos palcos portugueses.
A história é simples, embora o conteúdo seja "pesado", não podendo ser visto com leviandade.
Paul Autran e Dan Stulbach são dois judeus em Nova Iorque. O primeiro, já velhinho, é viúvo e aparentemente só no mundo. O segundo, é um executivo com sucesso, homossexual. Este por pouco não atropela o primeiro. O Juiz dá ordem que seja obrigado, durante 6 meses, a visitar o judeu velhinho todas as semanas.
A história cresce, quer em nivel dramático quer de interesse, quando o ancião sabe que o outro é homossexual, e quando o outro descobre que o ancião afinal tem uma filha.
Ao longo de toda a peça são nos postas questões pertinentes e o choque de gerações é inevitável.
Extraordinário é o paralelismo que a personagem protagonizada por Dan Stulbach faz entre as perseguições desde há muito feitas a judeus com as perseguições desde há muito feitas a homossexuais. Tudo isto tratado com seriedade, verdade e, acima de tudo, realidade.
A personagem de Paul Autran, quanto a mim, é a que tem uma dose de veracidade maior, especialmente no modo como vai tentando perceber e encaixar a vida sexual do judeu mais novo. Demonstra como é dificil às gerações mais velhas perceberem e aceitarem determinadas realidades, principalmente quando estas vão, aparentemente, contra a sua religião.
É uma peça, sem sombra de dúvida, a ver e um texto a ler ou escutar com toda a atenção.
Paul Autran não envelhece nem perde a capacidade interpretativa e Dan Stulbach uma promessa a não deixar escapar.
Uma nota negativa para o preço dos bilhetes, que são absurdos. As escolhas vão apenas dos 28 euros (um roubo) para a primeira plateia aos 15 euros (outro roubo) para as "galinheiras". Não que a representação e o texto não valham a pena. Antes pelo contrário. São óptimos. Mas para um elenco de duas pessoas e para aquilo a que é tido como normal para os preços em teatro em Portugal, é muito exagerado.
Mas não deixo de achar engraçado que brasileiros e portugueses estão nos palcos como estão na vida.
A primeira vez que tive esta sensação foi quando assisti à representação de "Madame", com Eunice Munoz e Eva Wilma, em que a primeira fazia a heroina de Eça de Queiróz - Maria Eduarda - enquanto a segunda fazia a heroina de Machado de Assis - Capitolina.
Enquanto que os portugueses, em cena, me parecem mais "pesados", monoliticos, arrastando-se no palco como quem carrega o mundo às costas (como o são na vida "real"), os brasileiros são de uma leveza que parecem que pairam sob as tábuas, sem que isso traga prejuizo algum à representação.
Até nos palcos a diferença entre o nosso Fado e o Samba deles se nota.
Nota: No final da representação Dan Stulbach anunciou que, devido ao sucesso da peça em Portugal, esta iria ficar mais uma semana. Aproveite.
Após "Variações Enigmáticas" do francês Eric-Emmanuel Schimitt, apresentada no teatro S. Luiz, em Lisboa, no final do ano de 2002, "Visitando Mr. Green" marca o reencontro de Paul Autran nos palcos portugueses.
A história é simples, embora o conteúdo seja "pesado", não podendo ser visto com leviandade.
Paul Autran e Dan Stulbach são dois judeus em Nova Iorque. O primeiro, já velhinho, é viúvo e aparentemente só no mundo. O segundo, é um executivo com sucesso, homossexual. Este por pouco não atropela o primeiro. O Juiz dá ordem que seja obrigado, durante 6 meses, a visitar o judeu velhinho todas as semanas.
A história cresce, quer em nivel dramático quer de interesse, quando o ancião sabe que o outro é homossexual, e quando o outro descobre que o ancião afinal tem uma filha.
Ao longo de toda a peça são nos postas questões pertinentes e o choque de gerações é inevitável.
Extraordinário é o paralelismo que a personagem protagonizada por Dan Stulbach faz entre as perseguições desde há muito feitas a judeus com as perseguições desde há muito feitas a homossexuais. Tudo isto tratado com seriedade, verdade e, acima de tudo, realidade.
A personagem de Paul Autran, quanto a mim, é a que tem uma dose de veracidade maior, especialmente no modo como vai tentando perceber e encaixar a vida sexual do judeu mais novo. Demonstra como é dificil às gerações mais velhas perceberem e aceitarem determinadas realidades, principalmente quando estas vão, aparentemente, contra a sua religião.
É uma peça, sem sombra de dúvida, a ver e um texto a ler ou escutar com toda a atenção.
Paul Autran não envelhece nem perde a capacidade interpretativa e Dan Stulbach uma promessa a não deixar escapar.
Uma nota negativa para o preço dos bilhetes, que são absurdos. As escolhas vão apenas dos 28 euros (um roubo) para a primeira plateia aos 15 euros (outro roubo) para as "galinheiras". Não que a representação e o texto não valham a pena. Antes pelo contrário. São óptimos. Mas para um elenco de duas pessoas e para aquilo a que é tido como normal para os preços em teatro em Portugal, é muito exagerado.
Mas não deixo de achar engraçado que brasileiros e portugueses estão nos palcos como estão na vida.
A primeira vez que tive esta sensação foi quando assisti à representação de "Madame", com Eunice Munoz e Eva Wilma, em que a primeira fazia a heroina de Eça de Queiróz - Maria Eduarda - enquanto a segunda fazia a heroina de Machado de Assis - Capitolina.
Enquanto que os portugueses, em cena, me parecem mais "pesados", monoliticos, arrastando-se no palco como quem carrega o mundo às costas (como o são na vida "real"), os brasileiros são de uma leveza que parecem que pairam sob as tábuas, sem que isso traga prejuizo algum à representação.
Até nos palcos a diferença entre o nosso Fado e o Samba deles se nota.
Nota: No final da representação Dan Stulbach anunciou que, devido ao sucesso da peça em Portugal, esta iria ficar mais uma semana. Aproveite.
sexta-feira, maio 27, 2005
Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação
"Na casa de jantar, uma mesa de madeira ordinária, algumas cadeiras de palhinha e um guarda-louça envidraçado.
Na cozinha, alguns fogareiros de barro, tachos, também de barro, como em Espanha; poucos utensílios, mas uma pia (espécie de bacia de esgoto) onde se despejam as águas das lavagens. E se ela só servisse para isso!!!
O meu dever de historiadora, exacta e verídica, obrigar-me-ia a entrar em certos detalhes, capazes de fazer recuar o próprio Zola, se, francamente, eu me atrevesse a tanto. Prefiro enviar os meus leitores para o Balzac e Zola português, o sr. Eça de Queirós.
Exceptuando algumas casas particulares, não há fogões nos quartos. Não senti a falta deles porque não gosto de lume; mas muitos estrangeiros ouvi eu queixarem-se de não terem um simples braseiro para se aquecerem.
É verdade que se existissem fogões grande dificuldade haveria em alimentá-los, a menos que não servisse a mobília para combustível. Desconhece-se inteiramente em Portugal o uso da lenha e custa 300 réis cada quilo, o que torna o seu uso quase impossível para as bolsas menos abastadas.
Se muitas casas, mesmo os grandes hotéis, estão mobiladas de maneira que falta quase o indispensável, poucas há que não tenham capela. Entendamo-nos. Nos palácios a capela é quase uma igreja, como em Sintra no palácio de D. Fernando. Os proprietários assistem às cerimónias religiosas numa tribuna e o povo tem entrada por uma porta que dá para a rua.
Nas grandes casas destina-se a esse emprego um aposento qualquer, que se adorna com um altar, lampadários, imagens e grande profusão de ornatos dourados. Nas casas modestas a capela resume-se em uma espécie de armário envidraçado, colocado em cima de uma cómoda e que se abre sempre que se quer orar.
Entre o povo a capela resume-se a meia dúzia de registos emoldurados em caixilhos de madeira.
Sempre que o português muda de residência leva consigo os seus santinhos, no mesmo carro que o conduz a ele, à mulher, aos filhos, aos colchões e à modesta bagagem que possui.
As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente de Verão, por um enxame de baratas que à noite saem pelas fendas do sobrado, do tecto, das paredes, por todos os lados, enegrecendo as casas; verdadeira invasão que dura desde o anoitecer até de madrugada, mexendo, andando, formigando... Disseram-me que todos acabavam por habituar-se.
Eu não o pude conseguir!
Uma noite, fugi horrorizada do Hotel Gibraltar, convencida de que era inútil lutar, pois que quantas mais se matam mais aparecem.
Uma Saint Barthélemy de baratas traz no dia seguinte uma recrudescência de hereges, tanto que não duvidamos que as que sobrevivem à hecatombe vão chamar os vizinhos e conhecidos para as auxiliar. As baratas são uns animaizinhos muito feios, que atingem o tamanho de um besouro adulto; o que vale é que são quase inofensivas."
Na cozinha, alguns fogareiros de barro, tachos, também de barro, como em Espanha; poucos utensílios, mas uma pia (espécie de bacia de esgoto) onde se despejam as águas das lavagens. E se ela só servisse para isso!!!
O meu dever de historiadora, exacta e verídica, obrigar-me-ia a entrar em certos detalhes, capazes de fazer recuar o próprio Zola, se, francamente, eu me atrevesse a tanto. Prefiro enviar os meus leitores para o Balzac e Zola português, o sr. Eça de Queirós.
Exceptuando algumas casas particulares, não há fogões nos quartos. Não senti a falta deles porque não gosto de lume; mas muitos estrangeiros ouvi eu queixarem-se de não terem um simples braseiro para se aquecerem.
É verdade que se existissem fogões grande dificuldade haveria em alimentá-los, a menos que não servisse a mobília para combustível. Desconhece-se inteiramente em Portugal o uso da lenha e custa 300 réis cada quilo, o que torna o seu uso quase impossível para as bolsas menos abastadas.
Se muitas casas, mesmo os grandes hotéis, estão mobiladas de maneira que falta quase o indispensável, poucas há que não tenham capela. Entendamo-nos. Nos palácios a capela é quase uma igreja, como em Sintra no palácio de D. Fernando. Os proprietários assistem às cerimónias religiosas numa tribuna e o povo tem entrada por uma porta que dá para a rua.
Nas grandes casas destina-se a esse emprego um aposento qualquer, que se adorna com um altar, lampadários, imagens e grande profusão de ornatos dourados. Nas casas modestas a capela resume-se em uma espécie de armário envidraçado, colocado em cima de uma cómoda e que se abre sempre que se quer orar.
Entre o povo a capela resume-se a meia dúzia de registos emoldurados em caixilhos de madeira.
Sempre que o português muda de residência leva consigo os seus santinhos, no mesmo carro que o conduz a ele, à mulher, aos filhos, aos colchões e à modesta bagagem que possui.
As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente de Verão, por um enxame de baratas que à noite saem pelas fendas do sobrado, do tecto, das paredes, por todos os lados, enegrecendo as casas; verdadeira invasão que dura desde o anoitecer até de madrugada, mexendo, andando, formigando... Disseram-me que todos acabavam por habituar-se.
Eu não o pude conseguir!
Uma noite, fugi horrorizada do Hotel Gibraltar, convencida de que era inútil lutar, pois que quantas mais se matam mais aparecem.
Uma Saint Barthélemy de baratas traz no dia seguinte uma recrudescência de hereges, tanto que não duvidamos que as que sobrevivem à hecatombe vão chamar os vizinhos e conhecidos para as auxiliar. As baratas são uns animaizinhos muito feios, que atingem o tamanho de um besouro adulto; o que vale é que são quase inofensivas."
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