segunda-feira, maio 30, 2005

Visitando Mr. Green - Teatro Tivoli


VistandoMrGreen
Ontem assisti a mais um bom momento de teatro protagonizado por Paul Autran e Dan Stulbach, em "Visitando Mr. Green", que está em cena no Teatro Tivoli em Lisboa. O texto é do norte-americano Jeff Baron.
Após "Variações Enigmáticas" do francês Eric-Emmanuel Schimitt, apresentada no teatro S. Luiz, em Lisboa, no final do ano de 2002, "Visitando Mr. Green" marca o reencontro de Paul Autran nos palcos portugueses.
A história é simples, embora o conteúdo seja "pesado", não podendo ser visto com leviandade.
Paul Autran e Dan Stulbach são dois judeus em Nova Iorque. O primeiro, já velhinho, é viúvo e aparentemente só no mundo. O segundo, é um executivo com sucesso, homossexual. Este por pouco não atropela o primeiro. O Juiz dá ordem que seja obrigado, durante 6 meses, a visitar o judeu velhinho todas as semanas.
A história cresce, quer em nivel dramático quer de interesse, quando o ancião sabe que o outro é homossexual, e quando o outro descobre que o ancião afinal tem uma filha.
Ao longo de toda a peça são nos postas questões pertinentes e o choque de gerações é inevitável.
Extraordinário é o paralelismo que a personagem protagonizada por Dan Stulbach faz entre as perseguições desde há muito feitas a judeus com as perseguições desde há muito feitas a homossexuais. Tudo isto tratado com seriedade, verdade e, acima de tudo, realidade.
A personagem de Paul Autran, quanto a mim, é a que tem uma dose de veracidade maior, especialmente no modo como vai tentando perceber e encaixar a vida sexual do judeu mais novo. Demonstra como é dificil às gerações mais velhas perceberem e aceitarem determinadas realidades, principalmente quando estas vão, aparentemente, contra a sua religião.
É uma peça, sem sombra de dúvida, a ver e um texto a ler ou escutar com toda a atenção.
Paul Autran não envelhece nem perde a capacidade interpretativa e Dan Stulbach uma promessa a não deixar escapar.
Uma nota negativa para o preço dos bilhetes, que são absurdos. As escolhas vão apenas dos 28 euros (um roubo) para a primeira plateia aos 15 euros (outro roubo) para as "galinheiras". Não que a representação e o texto não valham a pena. Antes pelo contrário. São óptimos. Mas para um elenco de duas pessoas e para aquilo a que é tido como normal para os preços em teatro em Portugal, é muito exagerado.
Mas não deixo de achar engraçado que brasileiros e portugueses estão nos palcos como estão na vida.
A primeira vez que tive esta sensação foi quando assisti à representação de "Madame", com Eunice Munoz e Eva Wilma, em que a primeira fazia a heroina de Eça de Queiróz - Maria Eduarda - enquanto a segunda fazia a heroina de Machado de Assis - Capitolina.
Enquanto que os portugueses, em cena, me parecem mais "pesados", monoliticos, arrastando-se no palco como quem carrega o mundo às costas (como o são na vida "real"), os brasileiros são de uma leveza que parecem que pairam sob as tábuas, sem que isso traga prejuizo algum à representação.
Até nos palcos a diferença entre o nosso Fado e o Samba deles se nota.
Nota: No final da representação Dan Stulbach anunciou que, devido ao sucesso da peça em Portugal, esta iria ficar mais uma semana. Aproveite.

sexta-feira, maio 27, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Na casa de jantar, uma mesa de madeira ordinária, algumas cadeiras de palhinha e um guarda-louça envidraçado.

Na cozinha, alguns fogareiros de barro, tachos, também de barro, como em Espanha; poucos utensílios, mas uma pia (espécie de bacia de esgoto) onde se despejam as águas das lavagens. E se ela só servisse para isso!!!

O meu dever de historiadora, exacta e verídica, obrigar-me-ia a entrar em certos detalhes, capazes de fazer recuar o próprio Zola, se, francamente, eu me atrevesse a tanto. Prefiro enviar os meus leitores para o Balzac e Zola português, o sr. Eça de Queirós.

Exceptuando algumas casas particulares, não há fogões nos quartos. Não senti a falta deles porque não gosto de lume; mas muitos estrangeiros ouvi eu queixarem-se de não terem um simples braseiro para se aquecerem.

É verdade que se existissem fogões grande dificuldade haveria em alimentá-los, a menos que não servisse a mobília para combustível. Desconhece-se inteiramente em Portugal o uso da lenha e custa 300 réis cada quilo, o que torna o seu uso quase impossível para as bolsas menos abastadas.

Se muitas casas, mesmo os grandes hotéis, estão mobiladas de maneira que falta quase o indispensável, poucas há que não tenham capela. Entendamo-nos. Nos palácios a capela é quase uma igreja, como em Sintra no palácio de D. Fernando. Os proprietários assistem às cerimónias religiosas numa tribuna e o povo tem entrada por uma porta que dá para a rua.

Nas grandes casas destina-se a esse emprego um aposento qualquer, que se adorna com um altar, lampadários, imagens e grande profusão de ornatos dourados. Nas casas modestas a capela resume-se em uma espécie de armário envidraçado, colocado em cima de uma cómoda e que se abre sempre que se quer orar.

Entre o povo a capela resume-se a meia dúzia de registos emoldurados em caixilhos de madeira.

Sempre que o português muda de residência leva consigo os seus santinhos, no mesmo carro que o conduz a ele, à mulher, aos filhos, aos colchões e à modesta bagagem que possui.

As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente de Verão, por um enxame de baratas que à noite saem pelas fendas do sobrado, do tecto, das paredes, por todos os lados, enegrecendo as casas; verdadeira invasão que dura desde o anoitecer até de madrugada, mexendo, andando, formigando... Disseram-me que todos acabavam por habituar-se.

Eu não o pude conseguir!

Uma noite, fugi horrorizada do Hotel Gibraltar, convencida de que era inútil lutar, pois que quantas mais se matam mais aparecem.

Uma Saint Barthélemy de baratas traz no dia seguinte uma recrudescência de hereges, tanto que não duvidamos que as que sobrevivem à hecatombe vão chamar os vizinhos e conhecidos para as auxiliar. As baratas são uns animaizinhos muito feios, que atingem o tamanho de um besouro adulto; o que vale é que são quase inofensivas."
Continua

terça-feira, maio 24, 2005

Aldina Duarte - CulturGest dia 3 de Junho de 2005


Aldina Duarte
Aldina Duarte vai, finalmente, dar um grande concerto numa sala da capital. É dia 3 de Junho de 2005 no Grande Auditório da Culturgest.
Aldina é, a meu ver e juntamente com Kátia Guerreiro, a grande voz do fado. Tem o povo português na Voz e no Olhar, em toda a sua ingenuidade e transparência.
Jamais poderei esquecer a fantástica entrevista que Aldina Duarte deu a Ana Sousa Dias, na RTP2, que muito deu que falar, especialmente na escrita de Eduardo Prado Coelho.
Aldina Duarte não precisa de artifícios ou "efeitos por fora" para se impôr. Não há penteados do Eduardo Beauté ou fatos pirosos do João Rôlo. Não precisou de aparecer como uma das carpideiras na morte de Amália Rodrigues para voltar a ser falado (tipo João Braga, entendem?!?).
Bastam-lhe apenas os xailes feitos por Argentina Santos e a sua voz.
Aqui ficam os links para ouvirem, por completo, a entrevista dada por esta fadista à TSF, no programa Pessoal e... Transmissível, Carlos Vaz Marques. E ainda se ouvem 3 ou 4 fados cantados no estúdio.
(ATENÇÃO: Para ouvirem a entrevista e continuarem a navegar no blog abram os seguintes links carregando no botão do lado direito do rato e, de seguida, em "Abrir numa nova janela".)
Querem um conselho? Corram para arranjar bilhete. Custa apenas 5 euros para os menores de 30 anos e 15 euros os restantes.

domingo, maio 22, 2005

A Fronteira - Texto de Alexandre O'Neill - Jornal "A Capital"


Alexandre O'Neill - Clique na Imagem
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"Numa situação-fronteira, como esta, vale mais ter graça do que andar armado. Prazenteira como parece, esperará a mulher que a reboquem por mau estacionamento? O Largo das Duas Igrejas é um dos postos mais apropriados para quem vive de esmolas. Passa por aqui muita gente, muito boa e muito má consciência. A mulher está no seu posto. Como os painéis publicitários, os sinais de trânsito, etc. Que quer dela o agente da autoridade? Desalojá-la para que outro pobre, com mais direitos, venha ocupar o seu lugar? Afastá-la momentaneamente para que passe um nutrido grupo turístico? Nunca se saberá. A não ser indo lá e experimentando..."
Texto de Alexandre O'Neill com fotografia de Alberto Peixoto, in: "Fotos de "A Capital" - Texto de Alexandre ='Neill - Cota Biblioteca Nacional - L 54669 V

Planta o teu velho num jardim - Alexandre O'Neill - Jornal "A Capital"


Alexandre O'Neill - Clique na Imagem
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"Velhos, reformados, desempregados, simples, desocupados, dão, lá como podem, à dobradiça e vêm ajudar a fazer de Lisboa um jardim, como pede, tão oportunamente, a Câmara, a quem gira só ou acompanhado. A ajuda que pessoalmente dou a esse iniciativa, enquanto não entro, também eu, a "fazer jardim", é levar o meu pai, todas as tardes, ao que fica mais perto de casa. A minha mulher, a Hortência, vai, depois, buscá-lo. O que acontece é que, às vezes, se esquece dele. Trazido por alguém, o velho chega, já frio, ao nosso lar e tristemente desabafa:
- No tempo em que a Câmara pedia que puséssemos sardinheiras à janela era melhor. Não tínhamos de sair de casa... É um ingrato, para não dizer é um munícipe dos reles!"
Texto de Alexandre O'Neill com fotografia de Alberto Peixoto, in: "Fotos de "A Capital" - Texto de Alexandre ='Neill - Cota Biblioteca Nacional - L 54669 V

quarta-feira, maio 18, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta

Nos próximos dias irei transcrever-vos a carta 15ª do livro "Portugal de Relance", de Maria Rattazzi, na edição recente da editora Antigona.
Chamo a atenção para o humor extraordinário destes textos que não devem deixar de serem lidos.
"Lisboa por dentro - As casas - Os quartos - As pias - Os parasitas - A alimentação - A cozinha - A questão da água - Sistema de esgoto - Primeiro os vivos, depois os mortos - Os enterros
Como quase todas as grandes capitais da Europa, Lisboa divide-se em duas cidades: Lisboa antiga e Lisboa moderna. Em toda a parte diferem; em Lisboa, porém, assemelham-se como a irmã mais velha à irmã mais nova de uma família em que todos os congéneres se confundem. A parte moderna de Lisboa só tem de moderno a colocação das pedras, muito juntas umas das outras. O resto pertence ao passado: o sistema de construção, a disposição interna, portas, janelas, escadas, sem falar da mobília e na colecção de parasitas: insectos, ratos, gatos, que são como que parte integrante da casa e do seu pessoal.
A feição comum mais característica das construções, tanto modernas como antigas, é a falta de um pátio interior, o que dá em resultado não receberem as casas luz senão pela frente e pela retaguarda, de forma que os compartimentos do centro ficam transformados em câmaras escuras sem ar nem claridade. As divisões da frente que dão para a rua utilizam-se para salas; as que recebem luz pela parte posterior servem para cozinha e casa de jantar; os compartimentos escuros do centro reservam-se para quartos de dormir.
Os portugueses desprezam quase totalmente a mobília. Na sala, um canapé, dois fauteuils e cadeiras de palhinha. É notável a indiferença que mantêm com respeito a comodidades. Na maioria dos palácios reais, ou clubes, nas assembleias, no elegante Club Portuense e mesmo no casino das Caldas da Rainha, frequentado aliás por príncipes, não se vê senão a tradicional cadeira de palhinha! Por vezes, em casa de alguns portugueses pertencentes à burguesia, amantes das belas-artes, deparam-se-nos vários animais de vidro, porcelanas modernas, abat-jours de papel recortado, relógios da Floresta Negra, conhecidos vulgarmente pelo nome de cucos, etc.
Nos quartos de dormir, um leito de ferro com dois colchões de palha batida, pisada e tão dura que quem nela se deita pela primeira vez fica durante muitos dias inteiriçado como uma tábua e privado de servir-se das articulações.
Do uso desses leitos conservo ainda dolorosas reminiscências. Uma cadeira e uma mesa de cabeceira completam a mobília."
Continua

terça-feira, maio 17, 2005

Maria Barroso em "Mudar de Vida", de Paulo Rocha


Maria Barroso
Esta é uma reportagem de Óscar Alves, para a Revista "Plateia", de 7 de Junho de 1966.
A entrevistada é, nada mais nada menos que, Maria de Jesus Barroso. Actualmente ex-actriz, ex-primeira dama, ex-directora do Colégio Moderno, ex-Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, uma das caras da revista "Cais" (da direcção, entenda-se; não estão a ver a Maria Barroso à porta de um Pingo Doce, vestida de amarelo, a vender a "Cais"), católica fervorosa (mas há pouco tempo), e muitas outras coisas que já nem me lembro.
Esta entrevista foi dada à revista "Plateia" devido à estreia nacional do filme "Mudar de Vida", de Paulo Rocha.
Eis alguns excertos da entrevista:
"Por grande amabilidade para com a "Plateia", Maria Barroso, que detesta publicidade e vive num mundo completamente extra-artistico, o seu mundo de familia e de mãe, acedeu a conceder-nos esta entrevista."
"- Porque não representou durante os dezassete anos em que esteve ausente do palco?
- Porque não se me deparou qualquer oportunidade de interesse. Dediquei-me por isso apenas a recitais poéticos, sobretudo em meios estudantis e operários".
"- Sendo algarvia, foi-lhe dificil adaptar-se ao tipo de mulher piscatória nortenha?
- Sai do Algarve há muitos anos. E não se esqueça que o nivel do actor se revela, sobretudo, na capacidade de adaptação a cada nova situação que se lhe apresente."
"- Em Portugal os actores têm ou não um nivel de cultura suficiente?
- Temos actores muitos cultos e temos outros que porventura o serão menos. O grave, é que não possuimos, infelizmente, os meios necessários para podermos progredir e para melhorar a nossa condição de profissionais. É no entanto, com agrado, que verifico haver imensa gente nova que se interessa pelo teatro e que tem preocupações culturais muito sérias.
- Parece-lhe certo o teatro que actualmente se apresenta em Portugal?
- Acho que, de uma maneira geral, está errado. Mas, a maior parte das vezes, as empresas não têm outras possibilidades...
Ao terminar esta entrevista, Maria Barroso falou acerca da sua situação de actriz num pais onde ela não o pôde nem pode ser, a não ser por espaços, muito longe da medida das suas excepcionais faculdades.
- O futuro é sempre uma incógnita. Acima de tudo estou interessada em ter uma vida calma, dedicada ao meu lar e à minha familia. Se as condições de trabalho, em Portugal, não se modificarem, não creio muito provável que volte a representar."
Agora pergunto eu: Se naquela altura achava errado o teatro que se fazia, que diria Maria Barroso hoje? Em vez de um Teatro Nacional temos um jazigo plantado na Praça do Rossio. Em vez de Actores em palco, temos manequins. Seria uma Ivone Silva pior que uma Teresa Guilherme? Seria uma Fernanda Serrano superior a uma Mariana Rey Monteiro? Será que um Diogo Amaral é superior a um Rui de Carvalho (naquela época)?
Assim como assim, Maria Barroso teve o maior palco que se podia imaginar: Portugal. E se não continuou actriz foi pedagoga, sendo directora de um Colégio que muito me orgulho ter frequentado (tal como meu pai e meus muitos irmãos).

segunda-feira, maio 16, 2005

Assembleia - Poema de Vasco de Lima Couto - Lisboa, 11 de Junho de 1979

ASSEMBLEIA

A esquerda gritou:
é um vendido.

O centro disse:
não nos interessa.

E a direita exclamou:
é um comprado.

E no entanto,
não sou mais
que um homem sentado
a ver a festa
que resta.

Textos de Maria Rattazzi - 1879

Conclusão da Carta Oitava do livro "Portugal de Relance" de Maria Rattazzi, da Editora Antígona.

"Antes de pôr de parte os teatros e os espectáculos, mencionarei algumas circunstâncias características.
Em primeiro lugar, as pateadas. Em Portugal há três meios de mostrar aprovação aos artistas. Primeiro, aplaudir com as mãos, como em toda a parte; segundo, que traduz vivíssimo contentamento, gritar: bravo! bravo! muito bem! Como em Itália; terceiro, que representa a quinta-essência do entusiasmo, levantar-se e agitar com o lenço.
Para manifestar desaprovação ou descontentamento, o assobio é desconhecido. Bate-se no soalho da sala com os pés ou com a bengala, com moderação, com força ou ruidosamente, segundo o grau de desprazer que se experimenta. A acção chama-se patear, o efeito pateadas. Em França, quando não se quer rasgar as luvas - refiro-me aos que as usam -, bate-se com a bengala, o que equivale ao aplauso. Em Portugal, essa manifestação corresponde ao fim inteiramente oposto; portanto, quando a plateia pateia, é um barulho, uma confusão com que ninguém se entende e, um momento depois, uma poeirada cega.
Aproveito esta ocasião para emitir a minha opinião pessoal com referência às pessoas que assobiam no teatro. Acho-as estúpidas e injustas. Estúpidas, porque não remedeiam coisa alguma: imjustas, porque às vezes despedaça, a carreira de um pobre diabo que ganha o pão quotidiano à custa de um trabalho duro e doloroso. Quando ides a um estabelecimento e vos vendem gato por lebre, não tornais lá outra vez, não é assim? Fazei o mesmo com relação ao teatro onde sois mal servido, mas não assobieis!
Os usos e costumes teatrais em Portugal estão ainda em estado primitivo. São mais burgueses do que desregrados, Há nos pequenos teatros mulheres que se determinam a aparecer no palco com o fim único de produzir às luzes da ribalta o efeito que decerto não fariam na rua, mas é por excepção, pela boa e excelente razão de que há poucos amadores ricos. Na maior parte das cenas, as actrizes são casadas ou vivem maridadas com pessoas da sua eleição, dando tanto que falar do seu comportamento como da sua inteligência nos domínios da arte, com algumas excepções. Se quisesse citar uma que se distinguisse das demais, pelo seu luxo ou galantearias, ficaria deveras embaraçada, embora tivesse interrogado a este respeito todo o mundo. Sob este ponto de vista, Lisboa não tem afinidade alguma com Paris.
No teatro de S. Carlos, que é mais italiano que português, pois que não se representam senão obras italianas interpretadas por artistas italianos, as cantoras são na máxima parte mulheres honestíssimas, escoltadas pelos pais quando estão em estado de núpcias, vigiadas pelos maridos e muitas vezes pela prole quando são mães de família.
Não há, no meu conceito, situação mais grotesca no mundo do que a de marido de mulher de teatro, principalmente quando o sobredito não tem outra ocupação senão acompanhar a esposa e meter na algibeira o dinheiro que ela ganha. Parece, porém, que o ofício é bom, porque nunca falta gente para o exercer; essas damas casam quase sempre.
As dançarinas do teatro de S. Carlos não dão ensejo a que o mundo fale delas. E duas razões há para isso: a primeira é que, salvo duas ou três escepções, são feias de meter medo ao mais animoso; a segunda é que na maior parte, ao que parece, atingiram essa idade feliz em que há todos os direitos ao respeito da multidão."
A próxima Carta que será retirada deste livro "Portugal de Relance" será a Décima Quinta. Para mim a mais cómica e hilariante das descrições de Rattazzi. Nesta serão focados os seguintes temas: Lisboa por dentro - As casas - Os quartos - As pias - Os parasitas - A alimentação - A cozinha - A questão da água - Sistema do esgoto - Primeiro os vivos, depois os mortos - Os enterros.
Mas isto ficará para depois.

sexta-feira, maio 13, 2005

Marlene Dietrich no Queen's Theatre, em Londres - 1964

E a proposito da peça Marlene, com Simone de Oliveira no principal papel, aqui fica uma reportagem da revista "O Século Ilustrado" de 5 de Dezembro de 1964 da saída de Marlene Dietrich do Queen's Theatre, em Londres.
Com 62 anos, a revista refere que "Marlene deu uma autêntica lição de "sex-appel" a jovens de 20 anos" e que "o delírio foi tal que ao longo da Shapterbury Avenue, o tráfico ficou interrompido".
É exactamente nesta altura da vida de Marlene que se desenrola o enredo da peça presente no Cinema Mundial e que conta com encenação de Carlos Quintas. Para saber mais leia o artigo que se segue.

Marlene