quinta-feira, abril 21, 2005

A Minha Tia e Eu - Teatro Politeama

O que aqui vou escrever não é nem pretende ser uma critica de teatro, mas sim a minha impressão, a minha opinião.
Ontem fui assistir à representação da peça levada a cabo por Filipe La Feria - A Minha Tia e Eu, com José Pedro Vasconcelos e Fernanda Borsatti.
A sala estava composta. A plateia estava lotada e parte das galerias também.
Sobe o pano. Começa a peça.
Primeira observação: faltaram as Pancadinhas de Molière, hoje em dia substituidas na maior parte dos teatros pela voz gravada de um senhor ou de uma senhora a pedir "que se desliguem bip's e telemóveis" e a desejarem-nos um bom espectáculo". É uma pena que já não se oiçam as tradicionais pancadas e, pena maior, que seja necessário haver alguém que lembre o público que tem de desligar os ditos telemóveis. Numa sociedade educada, civilizada e habituada a ir a espectáculos tal não deveria ser preciso. Era algo que já deveriam fazer por instinto ou por respeito. Mas qual quê??? E já agora, podiam também avisar as pessoas que não é permitido fazer barulho com os papelinhos dos rebuçados "Bolas de Neve" ou tentar participar na peça quando não se é solicitado, acabando as falas dos actores ou dizendo alto e bom som o que se passa em palco. Porque raio é que alguém tem de gritar bem alto que a açcão da peça se passa no Inverno, se tal é mais que óbvio pois neva em palco e estamos a visualizar uma árvore de Natal bem na nossa frente? Enfim.... interactividade nada a propósito.
O texto da peça parece-me bom embora não o ache excelente nem muito original.
O J. P. Vasconcelos, embora não sendo actor, consegue aguentar minimamente o papel, o suficiente para que a peça não se torne enfadonha e monotona.
Fernanda Borsatti faz caretas a mais (estilo final de rábulas nos "Malucos do Riso) e nas poucas falas que tem ao longo da representação consegue não convencer. Vale-lhe a cara "cómica" que tem (confesso que nem eu sei se dizer isto é um elogio ou não).
Horrivel durante toda a peça é a mania que existe no Teatro Politeama de terem duas ou três pessoas pertencentes ao Staff do teatro a incentivar às palmas e, ainda por cima, sempre nos momentos errados ou nada a propósito. As palmas ou as ovações devem surgir espontaneamente. São como que o mercúrio existente no termometro que nos indica em que estado "febril" se encontra a sala de espectáculos. Ora ter um idiota qualquer a bater palmas, ainda por cima vindas sempre do mesmo local da sala (reggie), para que toda o público depois o acompanhe, é passar um atestado de estúpidez quer aos actores quer à assistência mais atenta às manobras de diversão "à la La Feria".
Mas o que me pareceu mais grave na peça foi o público e, acima de tudo, a incompreensão deste em relação à acção que se representava. Entendi pelo que se passou ontem que grande parte das pessoas só deve conceber um genéro de representação em palco. Se é comédia é comédia e só se ri. Se é drama é drama e só se chora. Parece que não concebem que hajam dois géneros misturados, com os seus momentos próprios.
Numa das cenas mais bem conseguidas da peça, estando finalmente a personagem de Fernanda Borsatti morta no seu leito, de braço estendido para fora da cama, e com J. P. Vasconcelos sentado a seu lado, numa ânsia de receber aquele carinho que nunca teve, a ternura há muito apetecida mas nunca dada, coloca na mão da defunda (de respiração ofegante) uma escova de cabelo e tenta desesperado passá-la pelo seu cabelo. No momento mais dramático da peça, ouviram-se gargalhadas e comentários. Estranho? Não vi nada nessa cena que me desse vontade rir. Nem a quem foi comigo assistir à representação.
Tal como há cada vez mais quem não compreende o que lê... também há quem cada vez mais quem não compreende o que vê. E isto é muito grave.

quinta-feira, abril 14, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

- Continuação
"Assim passa a glória neste mundo! Sic transit gloria mundi!
Da derrocada financeira da empresa, restou porém uma coisa: uma palmeira magnífica, objecto de todos o mais notável do estabelecimento, o único que realmente não é de papel, papelão ou cartão pintado. Os outros cartões subsistem ainda, verdade é; mas quão distantes das primeiras esperanças e como as suas frescuras estão baças e amortecidas! O teatro que aberto a todos os ventos se assemelha a uma estufa em que as vidraças estivessem quebradas, é exploradas por acrobatas, velocipedistas, bezerros de três cabeças e outros fenómenos e uma companhia de zarzuela espanhola (opereta). Merece esta menção honrosa; representam por vezes peças originais que não carecem de brio e de bom sainete.
A clientela habitual dos Recreios não é absolutamente de primeira plana; aos domingos de Verão uma excelente banda de música regimental atrai algumas pessoas de todas as classes ao jardim convertido em centro comercial de cocottes de toda a proveniência e natureza, convertendo-se assim em uma espécie de Bolsa galante; as vendedoras de água trajam à moda de vivandeiras, no género do vestuário da Isabel do Jockey-Club, e constituem uma das curiosidades daquele recinto e das duas pseudodivisões.
Numa palavra, a invenção do clown inglês é pouco bafejada pela aura da fortuna; o jardim é um verdadeiro calvário. Há ali Madalenas e capelinhas onde se podem fazer estações. A propósito devo mencionar uma curiosidade: dou ao leitor mil, cem mil coisas, para de entre elas adivinhar o que se colocou numa dessas capelinhas-grutas como ornamento. É inútil fatigarem a inteligência procurando acertar. Colocou-se uma dianteira de fogão em mármore!... Há portugueses que estacam assombrados diante desse fogão e perguntam qual a razão que determina a sua existência, e não deixam de confessar que a ideia é altamente engenhosa. Um fogão de mármore num jardim de Verão! Que singularíssima concepção!
O teatro da Rua dos Condes é uma ruína arqueológica. Tomou o nome da rua em que foi construído. É bastante concorrido, em primeiro lugar pela modicidade dos preços, em segundo porque se representam ali dramalhões de grandes lances assombrosos, como o Correio de Lião, Os homens do mar e outras máquinas de lágrimas e desesperos. Em toda a parte há gente que é preciso assustar e fazer chorar para a divertir. Confesso, porém, a minha parcialidade pelo drama... O teatro é dirigido pelo grande actor Santos, actualmente quase cego, uma das mais interessantes figuras artísticas de Portugal.
O teatro das Variedades, onde se representam mágicas e revistas, deixou de existir, em holocausto à futura Avenida da Liberdade.
O Circo Price, condenado à mesma sorte, assim designado pelo seu fundador, o sr. Price, antigo acrobata, é de madeira e suficientemente feio. Ultimamente, um industrioso vienense, o sr. Ebo Amann, deu-lhe o nome de Coliseu, atraindo ali grande concorrência por ocasião de exibir uma série de concertos notáveis, onde figuraram Sarrasate, a cantora Donadio e o maestro espanhol Breton. Perdoar-se-ia todo aquele rude desconforto e mau arranjo, se aí se pudesse estar, mas é impossível; só funciona durante o Inverno, e o vento e o frio, que se filtram por todas as junturas dos emadeiramentos, salteiam o espectador sob a forma de uma temperatura de mares glaciares. Ao cabo de um instante tirita-se; um quarto de hora depois está-se gelado, e muito feliz se será se no dia seguinte apenas nos sentirmos com uma defluxão ou um ligeiro ataque de reumático. Vê-se neste círculo o que se vê em todos os circos: cavalos que volteiam, levando Messieurs e Madames que saltam arcos de papel dourado ou rompem inumerável quantidade de círculos da mesma espécie, passando através deles. Sinal particular: é raro haver casa cheia no Circo Price, e as receitas apenas dão para o sustento dos cavalos, pelo menos foi o que se me afigurou nas duas vezes que me aventurei a ir lá.
Continua

quarta-feira, abril 13, 2005

Teatro Nacional D. Maria II


Teatro Nacional D. Maria II
Aqui está a capa da revista "O Século Ilustrado" uma semana após a estreia de "Macbeth" no Teatro Nacional D. Maria II.A fotografia é realmente assustadora.No interior da revista várias outras fotografias aparecerem, incluindo uma em que aparece Lurdes Norberto perfeitamente aterrorizada, com Varela Silva ao seu lado. Ainda uma fotografia de Amélia Rey Colaço com palavras, por parte do pessoal editorial da revista, de conforto e de ânimo perante o sucedido.Guardarei para outra oportunidade o visionamento de tal artigo.

terça-feira, abril 12, 2005

Dirk Bogarde e Bjorn Andresen - Morte em Veneza


Morte em Veneza - 1971

Cartaz de Morte em Veneza


Morte em Veneza - 1971

MORTE EM VENEZA - 1971


Bjorn Andresen - Morte em Veneza

Filme de Luchino Visconti, de 1971, a partir de uma obra de Thomas Mann com o mesmo nome, "Death in Venice", e conta com as extraordinárias interpretações de Dirk Bogarde, Bjorn Andresen, Silvana Mangano, entre outros, brilhantemente acompanhado pela música de Mahler.
Visconti criou uma obra prima perturbadora.
O filme é um excelente retrato visual da obsessão, da decadência, da beleza e da mortalidade.
Visconti leva-nos numa viagem assombrosa por Veneza, transformando cada cena numa pintura mágica. A Beleza de Tadzio (B. Andresen), a quase inexistência de diálogos, os pensamentos perturbadores (legítimos) de Gustav (D. Bogarde) e a música arrepiante de Mahler inibriam-nos o espírito, fazendo-nos viajar para dentro de cada uma das personagens, numa tentativa de os perceber... e assim, a nós próprios. Quantas vezes não teremos sido em nossas vidas um Tadzio? E um Gustav?
Editado recentemente em DVD, uma Master Piece que se recomenda para ver, rever, degustar.

Ary dos Santos e a Publicidade


Publicidade de outros tempos - 1973

Publicidade de 1973 para o Secretariado Nacional da Lã cujo slogan foi idealizado por José Carlos Ary dos Santos. O filme publicitário da "pura lã virgem" foi a estreia de António Pedro de Vasconcelos como Realizador.

quarta-feira, abril 06, 2005

João Paulo II e Rainier

Num espaço de apenas uma semana padeceram o Papa João Paulo II e o Príncipe Rainier do Monáco.

O primeiro detinha o Poder Espiritual. O segundo o Poder Temporal.
Ambos governavam apartir de pequenos Estados, menores que algumas cidades mais pacatas do nosso Portugal.

O Papa João Paulo II simbolizava aquilo que de melhor os humanos podiam ter/ser no seu interior, ao nível do espírito. Pregou a paz entre os homens, a caridade e a necessidade da ajuda ao próximo, abraçou políticos e assassínos (há algumas diferenças de espécie entre estes dois vocábulos), doentes e saudáveis, novos e velhos, mostrando-nos desta forma que todos somos iguais; encheu estádios e descampados, de maneira a fazer corar um qualquer Rock In Rio ou comício de Alberto João Jardim na Madeira (pequeno Estado em que a figura do soberano, à semelhança de Isabel II de Inglaterra, encerra em si o Poder Espiritual e o Poder Temporal), converteu Maria de Jesus Barroso do Socialismo para o Catolicismo e foi um dos responsáveis pela criação e aumento do número de pombas brancas no planeta, devendo ter sido, a meu ver, condecorado com a honra de Sócio Honorário da Quercus ou do Clube de Caça Desportiva do Crato. Colocou assim o Vaticano, de novo, no centro do mundo, local de peregrinação para milhares e milhares de homens e mulheres de todos os continentes (que são cinco). Segundo consta, tal também acontece porque João Paulo II nunca mandou encerrar as casas de banho públicas que servem a Praça de São Pedro, erro crasso cometido no Santuário de Fátima que deixou assim de figurar na "biblia dos alegres" - Spartacus - que, como alguns saberão, é o roteiro turístico campeão de vendas em todo o Mundo. E tudo isto em redor do símbolo da Cruz.

Homem notável... mas Rainier não lhe ficou atrás.
Representava tudo aquilo a que o Homem poderia ascender na vida material, o que poderia ser no seu exterior.

Rainier reuniu também os homens em uma mesma mesa onde no centro se figura o símbolo da Roleta. Ajudou os pobres e oprimidos, os falidos e deprimidos, oferecendo-lhes empréstimos a serem gastos nos Casinos Grimaldi.

Mas também abraçou os doentes (a começar pela filha mais nova), os artistas de circo (tendo acolhido um deles para seu genro), as estrelas de cinema (acolheu também uma, transformando-a na Nossa Senhora de Fátima do Monáco, tendo como pastorinho vidente Alfred Hitchcock) e todos os demais cujos braços de João Paulo II não chegaram. E arrastou multidões com o Grand Prix du Monáco - Formula 1.

Para mim estas duas mortes foram um sinal da divina providência. Assim como que a lembrar... nem João Paulo II nem Rainier devem ser imitados no seu extremo. É preciso um equílibrio, uma fusão. Espiritual e Material não têm de ser opostos, mas podem e devem ser complementares. Porque ter-se fé quando se tem fome é dor. E ter-se dinheiro sem se ter fé é nada.
Danies

terça-feira, abril 05, 2005

O que se disse na Assembleia da República aquando do falecimento de Mário Viegas

Srs. Deputados, ontem foi um dia em que Portugal sofreu duas rudes perdas, pois perdemos ainda o grande actor, declamador e encenador Mário Viegas.
A Mesa tomou também a iniciativa de submeter à apreciação e votação dos Srs. Deputados o voto n.º 22/VII – De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
O voto é do seguinte teor.
Morreu Mário Viegas. Encenador, actor e declamador de raro talento, deixa vago um lugar de difícil preenchimento no teatro declamado.
Foi, além disso, um raro exemplo de humor inteligente. Interiorizou a poesia como poucos. Fez da sua própria vida um poema de combate por ideias. No teatro, no cinema, na declamação e nos projectos que animou, foi sempre um grande artista, um homem de cultura, uma voz de intervenção incomodada e crítica.
A Assembleia da República deplora a perda de um talentoso português e endereça à família de Mário Viegas a sincera expressão do seu pesar.
Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado José Niza.
O Sr. José Niza (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Mário Viegas, como acabou de ser dito, foi um grande actor, um grande encenador, um grande divulgador de poesia, um grande diseur, aliás, o maior divulgador de poesia que conheci em Portugal desde sempre milhares de horas a dizer poesia e os melhores poetas. Mas Mário Viegas foi também um homem digno e um grande amigo pessoal.
Mário Viegas, desde os 16 anos, e morreu com 47, esteve sempre debaixo dos holofotes e das luzes dos palcos. Estreou-se em Santarém, no Teatro Rosa Damasceno, com 16 anos, a dizer poesia de Alexandre O'Neill e de outros poetas e, a partir daí, nunca mais parou. Estreou-se profissionalmente no Teatro Experimental de Cascais, em 1970, e terminou na sua própria companhia, a Companhia do Chiado, que fundou há alguns anos.
Foi, pois, um homem que atravessou todo o firmamento dos palcos, dos textos e das grandes obras, de uma versatilidade extraordinária, grande humorista, grande actor satírico, mas também actor das grandes obras e dos grandes textos do teatro.
Virando a página do teatro, mudemos para a televisão. Não foi por acaso que, ontem à noite, todo o País conheceu e se entristeceu com a morte de Mário Viegas. Na televisão, deixou uma obra só comparável à de João Villaret. Recordo que Mário Viegas, antes do 25 de Abril, fez alguns programas recreativos, mas onde sempre dizia poesia e textos satíricos. Logo a seguir ao 25 de Abril, fez um programa histórico, chamado "Peço a palavra", dirigido a crianças, que era um Parlamento um pouco como aquele em que estamos, faccionado por ele para ensinar às crianças portuguesas os valores da democracia. Posteriormente, e tive a honra de o convidar para fazer esse programa, quando estive na televisão, colaborou numa célebre série chamada "Palavras Ditas", depois complementada com "Palavras Vivas". Recordo que, nessa altura, ainda havia televisão em Portugal, pois tivemos a coragem de passar o Mário Viegas aos sábados à noite, a seguir ao Telejornal, a dizer poesia, e a audiência não baixou. Espantosamente, e esse era o receio dos responsáveis, a audiência não baixou pelo facto de Mário Viegas aos sábados à noite, dizer poesia como ele a dizia.
Mas voltemos a página para a rádio. Foi aqui que Mário Viegas, durante longuíssimos anos, disse praticamente toda a poesia portuguesa de mérito, aquela que havia a dizer, e todos se recordam disso.
Mas há mais páginas, como a página do cinema. Recordo o sucesso que foi, por exemplo, um filme que fez com o Fonseca e Costa, Kilas, o mau da fita. Mas ainda ontem à noite, no trailer de apresentação do filme Aferroa Pereira, talvez alguém tenha visto Mário Viegas a contracenar com o célebre italiano Marcello Mastroianni, que era um actor do seu plano, só que Mário Viegas, sendo português, não conseguiu chegar a Hollywood.
Mas não se acaba aqui a intervenção cultural de Mário Viegas. E aqui iniciámos um caminho juntos, que é o dos discos, o dos 13 discos que Mário Viegas deixou gravados.
Só um desses discos se encontra editado em CD, mas, porque, hoje, o que não é CD não é ouvido, vou pedir à editora que adite em CD toda a obra de Mário Viegas. São 13 discos, produzi muitos deles, fiz música para muitos deles, porque ele aceitou que a música também fazia paute da poesia e as duas casavam-se para conseguir, digamos, um melhor resultado e melhoras climas. E lembro, por exemplo, outro meu amigo já falecido, Vinícius de Morais, a quem ofereci o disco de Mário Viegas, dizendo um poema dele sobre o Trópico de Câncer, que ficou completamente terrificado com o modo como Mário Viegas o disse, porque é um poema sobre o cancro.
Mas talvez o ponto máximo de Mário Viegas a dizer poesia tenha sido a Cena do ódio, totalmente actual, de José de Almada Negreiros.
Findas estas páginas, gostaria de falar um pouco do homem, do amigo que conheci.
Mário Viegas nasceu em Santarém e morava a 100 metros da minha casa. Quando tinha 17 anos e fui para a faculdade, tinha ele 7 e entrou para a escola. Nessas idades, 10 anos de diferença é muito tempo. Mário Viegas ia a minha casa, de calções, para a minha mãe lhe dar aulas de catequese – não serviram praticamente para nada, embora a minha mãe se tenha esforçado, mas o Mário Viegas também aprendeu alguns valores nesses momentos.
Desde essa data até hoje, fui amigo de Mário Viegas. Recordo, antes do 25 de Abril, a acção que ele teve, percorrendo o Pais, dizendo poesia, num grupo constituído por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes e outros. Percorreram todo o Pais, dizendo poesia, antes do 25 de Abril. Por isso, há pouco, à salda do funeral do Mosteiro dos Jerónimos, disse o seguinte ao pai de Mário Viegas: o funeral do Mário Viegas é no dia 2 de Abril, data em que se comemoram os 20 anos da Constituição portuguesa, e o Mário Viegas, não sendo constituinte, acabou por contribuir para que essa Constituição fosse feita aqui, nesta Sala, e trouxesse a democracia a Portugal. Penso que se trata de uma data que ele teria escolhido, mas não o pôde fazer.
Aplausos do PS.
1712 I SÉRIE – NÚMERO 54
O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ruben de Carvalho.
O Sr. Ruben Carvalho (PCP): - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados: A perda de um grande artista é sempre uma perda para um país e para um povo, o que amplamente justifica que esta Assembleia exprima o seu pesar pelo desaparecimento de Mário Viegas.
A essa condição de grande homem de teatro, Mário Viegas juntava muitas outras que igualmente justificam este nosso voto de pesar, nomeadamente o seu empenhamento cívico, o seu apego aos valores da liberdade, da solidariedade e da democracia.
Finalmente, Sr. Presidente e Srs. Deputado, Mário Viegas era, como artista e como cidadão, um homem livre, um homem convicto e lúcido, um homem firmemente disposto a viver a vida, simultaneamente céptico e entusiasta, contundentemente irónico e sarcástico e estimulantemente crítico e realizador.
A estas horas, possivelmente, estará algures, com a sua devastadora ironia e o seu imenso talento, perante uma audiência de anjos, a desempenhar uma sátira sobre esta sessão no Parlamento em que o recordamos e o seu público continuará a dizer o que sempre dissemos e continuaremos a dizer. Que grande artista!
Aplausos do PCP.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Vieira de Castro.
O Sr. Vieira de Castro (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Grupo Parlamentar do PSD associa-se a esta homenagem que o Parlamento presta à memória de Mário Viegas, um homem de quem não é certamente fácil falar porque isso acabaria por traduzir-se em repetir elogios atrás de elogios, tal era o seu talento.
Também não é fácil falar de Mário Viegas porque, na minha opinião, ele era um homem diferente dos homens comuns. Todos lhe reconhecemos a sua extraordinária capacidade artística no âmbito do teatro, do cinema e da poesia e, para Portugal, sempre que ocorre o desaparecimento de um artista, seja qual for a área em que se situe, representa sempre uma grande perda, uma perda maior porque, infelizmente, somos bem carecidos de homens e mulheres das artes. O desaparecimento de Mário Viegas constitui por isso uma grande perda, mas diria que é uma perda acrescida exactamente porque, infelizmente para todos nós, poucos portugueses têm o talento que Mário Viegas tinha. Paz à sua alma!
Aplausos do PSD.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis.
O Sr. Nuno Abecasis (CDS-PP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É um triste privilégio, numa mesma tarde, ter ocasião de prestar homenagem a dois amigos, Alfredo Nobre da Costa e Mário Viegas.
Mário Viegas era muito mais novo do que eu e conheci-o através de um amigo comum, também ele um grande humorista e um grande português, Samuel Torres de Carvalho, o saudoso Sam, de quem Mário Viegas interpretou as historiazinhas de televisão, tão carregadas de humor e sentido crítico.
Tive também o privilégio de, com o Sam e com o Mário Viegas, assistir à planificação dessas pequenas obras primas da nossa televisão e ver o entusiasmo que Mário Viegas punha nas coisas que fazia e com que imaginou outras que não chegou a fazer, como é o caso de passar a televisão a história do Guarda Ricardo, que ele – e a Maria do Céu Guerra, que iria fazer de Heloísa – viveu com grande entusiasmo, alegria, espírito crítico e humor efervescente.
Mário Viegas, pelo seu génio, tinha o privilégio de poder dizer coisas que outros não podiam dizer e todos lhe desculpavam a irreverência. Curiosamente, hoje de manhã, no Mosteiro dos Jerónimos, pensava o que teria a ver aquilo a que estava a assistir com o que tinha sido o homem Mário Viegas. De repente, lembrei-me que o que é importante para um homem é atingir, tanto quanto possível, a perfeição, ainda que seja no espírito crítico e no humor, porque também isso é um dom de Deus. E queria dizer ao meu amigo José Niza que a mãe dele não perdeu tempo.
O Sr. Presidente: - Vamos votar o voto n.º 22/VII - De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade, registando-se a ausência de Os Verdes.
Em sua memória, vamos guardar um minuto de silêncio.
A Câmara guardou, de pé, um minuto de silêncio.