Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
terça-feira, abril 12, 2005
MORTE EM VENEZA - 1971
Filme de Luchino Visconti, de 1971, a partir de uma obra de Thomas Mann com o mesmo nome, "Death in Venice", e conta com as extraordinárias interpretações de Dirk Bogarde, Bjorn Andresen, Silvana Mangano, entre outros, brilhantemente acompanhado pela música de Mahler.
Visconti criou uma obra prima perturbadora.
O filme é um excelente retrato visual da obsessão, da decadência, da beleza e da mortalidade.
Visconti leva-nos numa viagem assombrosa por Veneza, transformando cada cena numa pintura mágica. A Beleza de Tadzio (B. Andresen), a quase inexistência de diálogos, os pensamentos perturbadores (legítimos) de Gustav (D. Bogarde) e a música arrepiante de Mahler inibriam-nos o espírito, fazendo-nos viajar para dentro de cada uma das personagens, numa tentativa de os perceber... e assim, a nós próprios. Quantas vezes não teremos sido em nossas vidas um Tadzio? E um Gustav?
Editado recentemente em DVD, uma Master Piece que se recomenda para ver, rever, degustar.
Ary dos Santos e a Publicidade
Publicidade de 1973 para o Secretariado Nacional da Lã cujo slogan foi idealizado por José Carlos Ary dos Santos. O filme publicitário da "pura lã virgem" foi a estreia de António Pedro de Vasconcelos como Realizador.
quarta-feira, abril 06, 2005
João Paulo II e Rainier
Num espaço de apenas uma semana padeceram o Papa João Paulo II e o Príncipe Rainier do Monáco.
O primeiro detinha o Poder Espiritual. O segundo o Poder Temporal.
Ambos governavam apartir de pequenos Estados, menores que algumas cidades mais pacatas do nosso Portugal.
O Papa João Paulo II simbolizava aquilo que de melhor os humanos podiam ter/ser no seu interior, ao nível do espírito. Pregou a paz entre os homens, a caridade e a necessidade da ajuda ao próximo, abraçou políticos e assassínos (há algumas diferenças de espécie entre estes dois vocábulos), doentes e saudáveis, novos e velhos, mostrando-nos desta forma que todos somos iguais; encheu estádios e descampados, de maneira a fazer corar um qualquer Rock In Rio ou comício de Alberto João Jardim na Madeira (pequeno Estado em que a figura do soberano, à semelhança de Isabel II de Inglaterra, encerra em si o Poder Espiritual e o Poder Temporal), converteu Maria de Jesus Barroso do Socialismo para o Catolicismo e foi um dos responsáveis pela criação e aumento do número de pombas brancas no planeta, devendo ter sido, a meu ver, condecorado com a honra de Sócio Honorário da Quercus ou do Clube de Caça Desportiva do Crato. Colocou assim o Vaticano, de novo, no centro do mundo, local de peregrinação para milhares e milhares de homens e mulheres de todos os continentes (que são cinco). Segundo consta, tal também acontece porque João Paulo II nunca mandou encerrar as casas de banho públicas que servem a Praça de São Pedro, erro crasso cometido no Santuário de Fátima que deixou assim de figurar na "biblia dos alegres" - Spartacus - que, como alguns saberão, é o roteiro turístico campeão de vendas em todo o Mundo. E tudo isto em redor do símbolo da Cruz.
Homem notável... mas Rainier não lhe ficou atrás.
Representava tudo aquilo a que o Homem poderia ascender na vida material, o que poderia ser no seu exterior.
Rainier reuniu também os homens em uma mesma mesa onde no centro se figura o símbolo da Roleta. Ajudou os pobres e oprimidos, os falidos e deprimidos, oferecendo-lhes empréstimos a serem gastos nos Casinos Grimaldi.
Mas também abraçou os doentes (a começar pela filha mais nova), os artistas de circo (tendo acolhido um deles para seu genro), as estrelas de cinema (acolheu também uma, transformando-a na Nossa Senhora de Fátima do Monáco, tendo como pastorinho vidente Alfred Hitchcock) e todos os demais cujos braços de João Paulo II não chegaram. E arrastou multidões com o Grand Prix du Monáco - Formula 1.
Para mim estas duas mortes foram um sinal da divina providência. Assim como que a lembrar... nem João Paulo II nem Rainier devem ser imitados no seu extremo. É preciso um equílibrio, uma fusão. Espiritual e Material não têm de ser opostos, mas podem e devem ser complementares. Porque ter-se fé quando se tem fome é dor. E ter-se dinheiro sem se ter fé é nada.
O primeiro detinha o Poder Espiritual. O segundo o Poder Temporal.
Ambos governavam apartir de pequenos Estados, menores que algumas cidades mais pacatas do nosso Portugal.
O Papa João Paulo II simbolizava aquilo que de melhor os humanos podiam ter/ser no seu interior, ao nível do espírito. Pregou a paz entre os homens, a caridade e a necessidade da ajuda ao próximo, abraçou políticos e assassínos (há algumas diferenças de espécie entre estes dois vocábulos), doentes e saudáveis, novos e velhos, mostrando-nos desta forma que todos somos iguais; encheu estádios e descampados, de maneira a fazer corar um qualquer Rock In Rio ou comício de Alberto João Jardim na Madeira (pequeno Estado em que a figura do soberano, à semelhança de Isabel II de Inglaterra, encerra em si o Poder Espiritual e o Poder Temporal), converteu Maria de Jesus Barroso do Socialismo para o Catolicismo e foi um dos responsáveis pela criação e aumento do número de pombas brancas no planeta, devendo ter sido, a meu ver, condecorado com a honra de Sócio Honorário da Quercus ou do Clube de Caça Desportiva do Crato. Colocou assim o Vaticano, de novo, no centro do mundo, local de peregrinação para milhares e milhares de homens e mulheres de todos os continentes (que são cinco). Segundo consta, tal também acontece porque João Paulo II nunca mandou encerrar as casas de banho públicas que servem a Praça de São Pedro, erro crasso cometido no Santuário de Fátima que deixou assim de figurar na "biblia dos alegres" - Spartacus - que, como alguns saberão, é o roteiro turístico campeão de vendas em todo o Mundo. E tudo isto em redor do símbolo da Cruz.
Homem notável... mas Rainier não lhe ficou atrás.
Representava tudo aquilo a que o Homem poderia ascender na vida material, o que poderia ser no seu exterior.
Rainier reuniu também os homens em uma mesma mesa onde no centro se figura o símbolo da Roleta. Ajudou os pobres e oprimidos, os falidos e deprimidos, oferecendo-lhes empréstimos a serem gastos nos Casinos Grimaldi.
Mas também abraçou os doentes (a começar pela filha mais nova), os artistas de circo (tendo acolhido um deles para seu genro), as estrelas de cinema (acolheu também uma, transformando-a na Nossa Senhora de Fátima do Monáco, tendo como pastorinho vidente Alfred Hitchcock) e todos os demais cujos braços de João Paulo II não chegaram. E arrastou multidões com o Grand Prix du Monáco - Formula 1.
Para mim estas duas mortes foram um sinal da divina providência. Assim como que a lembrar... nem João Paulo II nem Rainier devem ser imitados no seu extremo. É preciso um equílibrio, uma fusão. Espiritual e Material não têm de ser opostos, mas podem e devem ser complementares. Porque ter-se fé quando se tem fome é dor. E ter-se dinheiro sem se ter fé é nada.
Danies
terça-feira, abril 05, 2005
O que se disse na Assembleia da República aquando do falecimento de Mário Viegas
Srs. Deputados, ontem foi um dia em que Portugal sofreu duas rudes perdas, pois perdemos ainda o grande actor, declamador e encenador Mário Viegas.
A Mesa tomou também a iniciativa de submeter à apreciação e votação dos Srs. Deputados o voto n.º 22/VII – De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
O voto é do seguinte teor.
Morreu Mário Viegas. Encenador, actor e declamador de raro talento, deixa vago um lugar de difícil preenchimento no teatro declamado.
Morreu Mário Viegas. Encenador, actor e declamador de raro talento, deixa vago um lugar de difícil preenchimento no teatro declamado.
Foi, além disso, um raro exemplo de humor inteligente. Interiorizou a poesia como poucos. Fez da sua própria vida um poema de combate por ideias. No teatro, no cinema, na declamação e nos projectos que animou, foi sempre um grande artista, um homem de cultura, uma voz de intervenção incomodada e crítica.
A Assembleia da República deplora a perda de um talentoso português e endereça à família de Mário Viegas a sincera expressão do seu pesar.
Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado José Niza.
O Sr. José Niza (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Mário Viegas, como acabou de ser dito, foi um grande actor, um grande encenador, um grande divulgador de poesia, um grande diseur, aliás, o maior divulgador de poesia que conheci em Portugal desde sempre milhares de horas a dizer poesia e os melhores poetas. Mas Mário Viegas foi também um homem digno e um grande amigo pessoal.
Mário Viegas, desde os 16 anos, e morreu com 47, esteve sempre debaixo dos holofotes e das luzes dos palcos. Estreou-se em Santarém, no Teatro Rosa Damasceno, com 16 anos, a dizer poesia de Alexandre O'Neill e de outros poetas e, a partir daí, nunca mais parou. Estreou-se profissionalmente no Teatro Experimental de Cascais, em 1970, e terminou na sua própria companhia, a Companhia do Chiado, que fundou há alguns anos.
Foi, pois, um homem que atravessou todo o firmamento dos palcos, dos textos e das grandes obras, de uma versatilidade extraordinária, grande humorista, grande actor satírico, mas também actor das grandes obras e dos grandes textos do teatro.
Virando a página do teatro, mudemos para a televisão. Não foi por acaso que, ontem à noite, todo o País conheceu e se entristeceu com a morte de Mário Viegas. Na televisão, deixou uma obra só comparável à de João Villaret. Recordo que Mário Viegas, antes do 25 de Abril, fez alguns programas recreativos, mas onde sempre dizia poesia e textos satíricos. Logo a seguir ao 25 de Abril, fez um programa histórico, chamado "Peço a palavra", dirigido a crianças, que era um Parlamento um pouco como aquele em que estamos, faccionado por ele para ensinar às crianças portuguesas os valores da democracia. Posteriormente, e tive a honra de o convidar para fazer esse programa, quando estive na televisão, colaborou numa célebre série chamada "Palavras Ditas", depois complementada com "Palavras Vivas". Recordo que, nessa altura, ainda havia televisão em Portugal, pois tivemos a coragem de passar o Mário Viegas aos sábados à noite, a seguir ao Telejornal, a dizer poesia, e a audiência não baixou. Espantosamente, e esse era o receio dos responsáveis, a audiência não baixou pelo facto de Mário Viegas aos sábados à noite, dizer poesia como ele a dizia.
Mas voltemos a página para a rádio. Foi aqui que Mário Viegas, durante longuíssimos anos, disse praticamente toda a poesia portuguesa de mérito, aquela que havia a dizer, e todos se recordam disso.
Mas há mais páginas, como a página do cinema. Recordo o sucesso que foi, por exemplo, um filme que fez com o Fonseca e Costa, Kilas, o mau da fita. Mas ainda ontem à noite, no trailer de apresentação do filme Aferroa Pereira, talvez alguém tenha visto Mário Viegas a contracenar com o célebre italiano Marcello Mastroianni, que era um actor do seu plano, só que Mário Viegas, sendo português, não conseguiu chegar a Hollywood.
Mas não se acaba aqui a intervenção cultural de Mário Viegas. E aqui iniciámos um caminho juntos, que é o dos discos, o dos 13 discos que Mário Viegas deixou gravados.
Só um desses discos se encontra editado em CD, mas, porque, hoje, o que não é CD não é ouvido, vou pedir à editora que adite em CD toda a obra de Mário Viegas. São 13 discos, produzi muitos deles, fiz música para muitos deles, porque ele aceitou que a música também fazia paute da poesia e as duas casavam-se para conseguir, digamos, um melhor resultado e melhoras climas. E lembro, por exemplo, outro meu amigo já falecido, Vinícius de Morais, a quem ofereci o disco de Mário Viegas, dizendo um poema dele sobre o Trópico de Câncer, que ficou completamente terrificado com o modo como Mário Viegas o disse, porque é um poema sobre o cancro.
Mas talvez o ponto máximo de Mário Viegas a dizer poesia tenha sido a Cena do ódio, totalmente actual, de José de Almada Negreiros.
Findas estas páginas, gostaria de falar um pouco do homem, do amigo que conheci.
Mário Viegas nasceu em Santarém e morava a 100 metros da minha casa. Quando tinha 17 anos e fui para a faculdade, tinha ele 7 e entrou para a escola. Nessas idades, 10 anos de diferença é muito tempo. Mário Viegas ia a minha casa, de calções, para a minha mãe lhe dar aulas de catequese – não serviram praticamente para nada, embora a minha mãe se tenha esforçado, mas o Mário Viegas também aprendeu alguns valores nesses momentos.
Desde essa data até hoje, fui amigo de Mário Viegas. Recordo, antes do 25 de Abril, a acção que ele teve, percorrendo o Pais, dizendo poesia, num grupo constituído por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes e outros. Percorreram todo o Pais, dizendo poesia, antes do 25 de Abril. Por isso, há pouco, à salda do funeral do Mosteiro dos Jerónimos, disse o seguinte ao pai de Mário Viegas: o funeral do Mário Viegas é no dia 2 de Abril, data em que se comemoram os 20 anos da Constituição portuguesa, e o Mário Viegas, não sendo constituinte, acabou por contribuir para que essa Constituição fosse feita aqui, nesta Sala, e trouxesse a democracia a Portugal. Penso que se trata de uma data que ele teria escolhido, mas não o pôde fazer.
Aplausos do PS.
Aplausos do PS.
1712 I SÉRIE – NÚMERO 54
O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ruben de Carvalho.
O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ruben de Carvalho.
O Sr. Ruben Carvalho (PCP): - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados: A perda de um grande artista é sempre uma perda para um país e para um povo, o que amplamente justifica que esta Assembleia exprima o seu pesar pelo desaparecimento de Mário Viegas.
A essa condição de grande homem de teatro, Mário Viegas juntava muitas outras que igualmente justificam este nosso voto de pesar, nomeadamente o seu empenhamento cívico, o seu apego aos valores da liberdade, da solidariedade e da democracia.
Finalmente, Sr. Presidente e Srs. Deputado, Mário Viegas era, como artista e como cidadão, um homem livre, um homem convicto e lúcido, um homem firmemente disposto a viver a vida, simultaneamente céptico e entusiasta, contundentemente irónico e sarcástico e estimulantemente crítico e realizador.
A estas horas, possivelmente, estará algures, com a sua devastadora ironia e o seu imenso talento, perante uma audiência de anjos, a desempenhar uma sátira sobre esta sessão no Parlamento em que o recordamos e o seu público continuará a dizer o que sempre dissemos e continuaremos a dizer. Que grande artista!
Aplausos do PCP.
Aplausos do PCP.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Vieira de Castro.
O Sr. Vieira de Castro (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Grupo Parlamentar do PSD associa-se a esta homenagem que o Parlamento presta à memória de Mário Viegas, um homem de quem não é certamente fácil falar porque isso acabaria por traduzir-se em repetir elogios atrás de elogios, tal era o seu talento.
Também não é fácil falar de Mário Viegas porque, na minha opinião, ele era um homem diferente dos homens comuns. Todos lhe reconhecemos a sua extraordinária capacidade artística no âmbito do teatro, do cinema e da poesia e, para Portugal, sempre que ocorre o desaparecimento de um artista, seja qual for a área em que se situe, representa sempre uma grande perda, uma perda maior porque, infelizmente, somos bem carecidos de homens e mulheres das artes. O desaparecimento de Mário Viegas constitui por isso uma grande perda, mas diria que é uma perda acrescida exactamente porque, infelizmente para todos nós, poucos portugueses têm o talento que Mário Viegas tinha. Paz à sua alma!
Aplausos do PSD.
Aplausos do PSD.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis.
O Sr. Nuno Abecasis (CDS-PP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É um triste privilégio, numa mesma tarde, ter ocasião de prestar homenagem a dois amigos, Alfredo Nobre da Costa e Mário Viegas.
Mário Viegas era muito mais novo do que eu e conheci-o através de um amigo comum, também ele um grande humorista e um grande português, Samuel Torres de Carvalho, o saudoso Sam, de quem Mário Viegas interpretou as historiazinhas de televisão, tão carregadas de humor e sentido crítico.
Tive também o privilégio de, com o Sam e com o Mário Viegas, assistir à planificação dessas pequenas obras primas da nossa televisão e ver o entusiasmo que Mário Viegas punha nas coisas que fazia e com que imaginou outras que não chegou a fazer, como é o caso de passar a televisão a história do Guarda Ricardo, que ele – e a Maria do Céu Guerra, que iria fazer de Heloísa – viveu com grande entusiasmo, alegria, espírito crítico e humor efervescente.
Mário Viegas, pelo seu génio, tinha o privilégio de poder dizer coisas que outros não podiam dizer e todos lhe desculpavam a irreverência. Curiosamente, hoje de manhã, no Mosteiro dos Jerónimos, pensava o que teria a ver aquilo a que estava a assistir com o que tinha sido o homem Mário Viegas. De repente, lembrei-me que o que é importante para um homem é atingir, tanto quanto possível, a perfeição, ainda que seja no espírito crítico e no humor, porque também isso é um dom de Deus. E queria dizer ao meu amigo José Niza que a mãe dele não perdeu tempo.
O Sr. Presidente: - Vamos votar o voto n.º 22/VII - De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade, registando-se a ausência de Os Verdes.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade, registando-se a ausência de Os Verdes.
Em sua memória, vamos guardar um minuto de silêncio.
A Câmara guardou, de pé, um minuto de silêncio.
segunda-feira, abril 04, 2005
Recordar Mário Viegas
A Um de Abril de 1996 Mário Viegas deixava-nos. Como memória deixo aqui o artigo escrito por Jorge Leitão Ramos no jornal "O Expresso", de Cinco de Abril de 1996.
"Quando eu morrer batam em latas", poderia ter dito, parafraseando um dos poetas que tanto amou, incitando-nos a não confundir a dor com tarefa de carpideira, a perda com necessidade de panegírico. Por mim não resisti, diante do seu féretro exposto nos Jerónimos, a lembrar-me de A Birra do Morto, de Vicente Sanches, com que inaugurou a sua Companhia Teatral do Chiado, em 1990, na Sala-Estúdio do Teatro São Luiz que agora tem o nome de Mário Viegas. Era o mesmo ambiente, as cadeiras, as pessoas em volta, a voz baixa, o cheiro morno a flores - quase que esperei que ele se levantasse, quebrando o frio do espaço e o queixume, quebrando a solidão em cada um de nós ali se encontrava, galhofando no nariz da morte, em passe de mágica, momento de teatro. Mar, por uma vez, pela última vez, a surpresa foi diversa. A voz de Mário Viegas calou-se, ficou um silêncio muito grande e não se vê quem o preencha.
Viveu muito e muito intensamente, com uma urgência sem medida. Foi actor, encenador, empresário, declamador, escreveu crónicas, traduziu peças de teatro, divulgou poetas, gravou discos, fez rádio, cinema e televisão - e sorveu a vida, em todas as direcções, às golfadas. Grandes amigos, grandes ódios, grandes sonhos. Podia ser "cabotiníssimo", como ele próprio disse do livro informe e impetuoso com que se despediu de nós em Novembro, essa Auto-Photo Biografia (não autorizada) em Formato A3, em que, "para bons entendedores", foi dando a saber que estava de partida. Um objecto comovente: terminava com uma enorme fotografia do actor, alucinado, junto a um caixão (da peça O Suicidário) e um verso terrível de Camilo Pessanha lá por cima ("Eu vi a luz em um país perdido./ A minha alma é lânguida e inerme./ Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme").
Excessivo, colérico, apaixonado, violento e doce, actor aceso pela graça da transfiguração, pelo riso que nos divertia e desinquietava, Mário Viegas era um personagem contraditório. Nenhum outro desafiou, do cimo de um palco, os poderes e os podres, as prepotências e as hipocrisias. Mas gostava de saber que o poder reconhecia a sua arte. Não adianta dizer, agora que morreu, que era uma figura consensual da cena e do cinema portugueses - porque não era. Dividiu muito, fustigou e foi fustigado, não sabia fazer as coisas em temperatura morna, em registo de assim-assim. Há 20 anos, quando o ouvi dizer, pela primeira vez, o Manifesto Anti-Dantas numa festa do teatro em luta (na FIL), estava David Mourão-Ferreira na SEC, percebi que era um adversário temível para quem quer que se sentasse na cadeira do poder. E o seu espectáculo a solo Europa Não! Portugal Nunca!, em 1994/95, em registo de conferência de imprensa de pré-pré-candidatura à Presidência da República, tinha uma fúria de iluminado, a corrosão de uma coragem sem limites, a louca a tocante fragilidade da auto-exposição, tudo caldeado em textos das mais diversas fontes que nos faziam ir do riso absoluto à dor de alma, porque era de nós todos e de si mesmo que falava.
Não me apetece, incréu de que nunca mais ouça a sua voz ao telefone convocando-me para a estreia de uma nova peça no teatrinho do Chiado, escrever hoje a sua ficha definitiva de dicionário. Não o vou escrever afora. Mas logo no dia da sua morte ouvi dizer nas rádios e televisões que Mário Viegas tinha 47, 48 e 49 anos, que se estreara no Teatro Experimental do Porto, que se candidatara várias vezes a Presidente da República - e esses disparates factuais tê-lo-iam posto ao rubro, e com razão. Um homem, quando morre, tem pelo menos direito a evocação biográfica que esteja certa. Do que de mais peculiar Viegas tinha como actor - e de que foram marcos os espectáculos que fez a solo, Mário Gin-Tónico (1986), Mário Gin-Tónico Volta a Atacar (1991), Tótó (1991) e Europa Não! Portugal Nunca! (1994) - não é possível saber algo, senão por ouvir dizer. Viviam daquilo que o teatro tem de mais específico, a directa circulação de energia entre o palco e o público, construindo-se num jogo de vaivém que os fazia diferentes a cada dia, a cada representação, jogo de risco de que o último daqueles títulos (um ano em cena!) era a expressão mais estremada porque quase inteiramente dependente da própria intervenção dos espectadores questionando o "candidato". Dia em que o público não estivesse para aí virado, era dia em que o espectáculo fenecia. De maneira que esse Viegas, actor de grandes cometimentos na corda bamba, só existirá enquando nos lembrarmos do que o vimos fazer. É esse o destino do teatro, em geral, mas muito especificamente daquele que Viegas praticou com mais singularidade.
Do outro actor, capaz de composições em registos vários, sobrarão os testemunhos do cimena - e, felizmente, Mário Viegas fez muitos filmes e, melhor ainda, filmes onde ficou presente a extrema diversidade de recursos que tinha e até os seus maiores defeitos e qualidades. A filmografia de Viegas é significativa, caso muito raro no panorama português.
Se houvesse que escolher, pôr-se-ia à cabeça um dos primeiros filmes em que participou, esse O Rei das Berlengas, de Artur Semedo (1975/76), onde atravessava em sátira desmedida toda a História de Portugal. Aí encontramos aquilo que se poderia chamar um actor-diamante em estado bruto, sem lapidação, indirigido. O cómico do esgar facial e da truculência, do excesso turbulento e sem margens, autocomplacente, capaz de provocar a gargalhada de primeiro grau e mal se podendo saber se distingue entre o devido e o mau gosto. Mas também se encontra o actor capaz de fazer fundir o estado de riso e o patético - numa linha que muito poucos são capazes de pisar - juntando o humor e o aperto no coração, em particular nas espontosas sequências em que o proclamado rei das Berlengas é entrevistado no hospício e descobre que o que o povo lhe gritara e aos seus antepassados, durante oito séculos, não era "come!, come!, come!), mas "fome!, fome!, fome!".
Veio, depois, José Fonseca e Costa, o cineasta essencial da carreira de Mário Viegas, aquele que lhe permitiu não apenas alguns êxitos históricos - como Kilas, o Mau da Fita (1977/79) e Sem Sombra de Pecado (1982) - mas também o que provocou que o actor controlasse e diversificasse os seus recursos. Fonseca e Costa nunca lhe pediu uma comicidade de primeiro grau, nunca quis despertar nele um registo de farsa, antes o sorriso que podia ser menos ou mais subtil, mas se ancorava as mais das vezes em detalhes. E, melhor do que tudo, entregou-lhe a figuração do português total, a que o actor correspondeu. Foi o pequeno manguelas lisboeta, muita parra pouca uva, no Kilas; foi um rapaz da alta burguesia, imberbe e crédulo, nas malhas tecidas pelo líbido de uma mulher em Sem Sombra de Pecado - talvez o seu grande desempenho cinematográfico. Foi caricatura de intelectual castrado em A Mulher do Próximo. Foi professoral e pomposo - vazio, vazio - em Os Cornos de Cronos.
Viegas era um actor tendencialmente calhado para a comédia (não por acaso, foi o género que estatisticamente mais praticou no teatro - e aquele a que se dedicou, quase em exclusivo, quando dirigiu, nos últimos cinco anos, a Companhia Teatral do Chiado). Mas nunca quis ficar preso a essa faceta. No teatro é possível lembrá-lo a fazer Brecht (Baal, em 1984, no Teatro Aberto, sob a direcção de João Lourenço) ou a notável criação de Na Solidão dos Campos de Algodão, de Bernard-Marie Koltès, encenação de João Lourenço no Teatro Aberto em Abril de 1990. Mas o cinema vai guardar essa vertente do actor, no ainda por estrear Rosa Negra, de Margarida Gil, na figura de um vagabundo sem-abrigo verdadeiramente singular. Havia ainda o actor-boneco, o actor-roberto, o que se despojava de psicologia para ser apenas ícone marionético, máscara, personagem de "cartoon": a série de 48 Filmezinhos de Sam que gravou para a RTP, em 1988, são disso testemunho.
E vão ficar os discos de poesia, infelizmente há muito esgotados e não reeditados, no que é uma injustiça profunda para com o grande divulgador de poetas que Viegas também o foi. Aí ficará guardada memória da multiplicidade de coisas que ele era capaz de fazer apenas com a voz. E não teriam sido precisos todos os discos para o saber: logo no segundo - Palavras Ditas, de 1972 - Viegas como que estabelece um catálogo de modulações, do lírico ao humor, da gravidade trágica à caricatura. É nesse disco que, quase em estilo de demonstração de que a voz é tudo, ele lê o boletim meteorológico como se estivesse a invocar um presságio funesto. O resultado é espantoso. De poesia perdurará, ainda, nos arquivos da RTP, pelo menos a série Palavras Vivas, que Nuno Teixeira dirigiu em 1984.
O resto, o teatro, esfuma-se devagar enquanto a nossa memória se apaga com o correr dos dias. A última vez que o vi representar no palco foi em Outubro, quando estreou aquela que viria a ser a sua última peça, quer como actor quer como encenador (Uma Comédia às Escuras, de Peter Shaffer). Depois disso vi-o representar na vida o papel de um homem ainda pronto para todos os combates, enquanto se ia despedindo, codificadamente, de cada um de nós.
Agora foi-se embora de vez, era 1 de Abril. Parece impossível.
Escrevi um dia acerca de Mário Viegas que era um declamador genial e um actor de grande talento. Não percebia eu então que dizer poesia era nele ainda um mode de ser Actor. Aqui o deixo dito, com maiúscula, como ele gostava. E acho que devemos, pelo menos, beber um copo em sua honra."
domingo, abril 03, 2005
A propósito da Morte do Santo Padre João Paulo II
Sábado, 02 de Abril de 2005, pelos 20 h e 37 minutos falecia o Santo Padre João Paulo II.
Durante cerca de três dias assistiu-se a um nojo jornalístico nos mais diversos meios que esta nobre arte de informar (e de chatear) possuiu: rádio, televisão e imprensa escrita.
Nestes cerca de três dias o penoso definhamento do Santo Padre foi explorado, violado e escandalosamente profanado.
Nestes cerca de três dias as gentes foram obrigadas a assistir, angustiadas, a todo este teatro mediático que teve como actor principal uma das figuras históricas mais exemplares do final do séc. XX e inícios do séc. XXI.
Nesta era da informação e da globalização a Morte deixou de ser pacífica, solitária, introspectiva e momento de consideração ou reverência. Antes transformou-se num espectáculo obstinado, de especulação, de falsos boatos e de alarmismo. A Morte está banalizada e desrespeitada.
Nestes cerca de três dias o que se viu foi a fome da comunicação social pela Morte efectiva do Papa. Não esconderam a ânsia do seu desejo. Exploraram-na até ao cansativo, ao nojo, ao perturbante.
Nestes cerca de três dias falou-se, sem qualquer tipo de pudor ou pejo, de João Paulo II, pai da Cristandade, venerado por milhares em todo o mundo, homem actuante em diversos domínios, do social ao político, figura de notariedade planetária, homem sem descanso durante a sua longa vida (84 anos), propagador da paz e da tranquilidade, do igualdade dos povos e das crenças.
Nestes cerca de três dias o que se assistiu foi o desrespeitar de todas estas permissas. Desrespeitou-se todos os católicos e admiradores de João Paulo II.
Nestes cerca de três dias houve um homem no mundo que não teve a Morte que merecia. Uma Morte calma, tranquila e serena.
Nestes cerca de três dias chocou-me a conivência e a alta participação do clero neste realitydeath-show. Estes, que desde o início deveriam ter tido a preocupação de terem aberto a porta dos seus templos aos milhares de anónimos que procuravam consolo nas rezas e nas palavras de um sacerdote, preferindo antes ir para o comil televisivo ou radiofónico debitar até à exaustão palavras e mais palavras que em nada ajudavam aqueles que sentiam no seu interior a dor da proximidade da perda de alguém que lhes era querido, que lhes era da família, que lhes era amigo.
A cobertura jornalística da Morte do Santo Padre em nada o glorificou. Os jornalistas e o próprio clero corromperam e devassaram o que de mais sagrado e misterioso há na vida de um Homem, um dos focos centrais e fundadores de toda a ideologia cristã - a Morte.
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