segunda-feira, abril 04, 2005

Recordar Mário Viegas

A Um de Abril de 1996 Mário Viegas deixava-nos. Como memória deixo aqui o artigo escrito por Jorge Leitão Ramos no jornal "O Expresso", de Cinco de Abril de 1996.
"Quando eu morrer batam em latas", poderia ter dito, parafraseando um dos poetas que tanto amou, incitando-nos a não confundir a dor com tarefa de carpideira, a perda com necessidade de panegírico. Por mim não resisti, diante do seu féretro exposto nos Jerónimos, a lembrar-me de A Birra do Morto, de Vicente Sanches, com que inaugurou a sua Companhia Teatral do Chiado, em 1990, na Sala-Estúdio do Teatro São Luiz que agora tem o nome de Mário Viegas. Era o mesmo ambiente, as cadeiras, as pessoas em volta, a voz baixa, o cheiro morno a flores - quase que esperei que ele se levantasse, quebrando o frio do espaço e o queixume, quebrando a solidão em cada um de nós ali se encontrava, galhofando no nariz da morte, em passe de mágica, momento de teatro. Mar, por uma vez, pela última vez, a surpresa foi diversa. A voz de Mário Viegas calou-se, ficou um silêncio muito grande e não se vê quem o preencha.
Viveu muito e muito intensamente, com uma urgência sem medida. Foi actor, encenador, empresário, declamador, escreveu crónicas, traduziu peças de teatro, divulgou poetas, gravou discos, fez rádio, cinema e televisão - e sorveu a vida, em todas as direcções, às golfadas. Grandes amigos, grandes ódios, grandes sonhos. Podia ser "cabotiníssimo", como ele próprio disse do livro informe e impetuoso com que se despediu de nós em Novembro, essa Auto-Photo Biografia (não autorizada) em Formato A3, em que, "para bons entendedores", foi dando a saber que estava de partida. Um objecto comovente: terminava com uma enorme fotografia do actor, alucinado, junto a um caixão (da peça O Suicidário) e um verso terrível de Camilo Pessanha lá por cima ("Eu vi a luz em um país perdido./ A minha alma é lânguida e inerme./ Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme").
Excessivo, colérico, apaixonado, violento e doce, actor aceso pela graça da transfiguração, pelo riso que nos divertia e desinquietava, Mário Viegas era um personagem contraditório. Nenhum outro desafiou, do cimo de um palco, os poderes e os podres, as prepotências e as hipocrisias. Mas gostava de saber que o poder reconhecia a sua arte. Não adianta dizer, agora que morreu, que era uma figura consensual da cena e do cinema portugueses - porque não era. Dividiu muito, fustigou e foi fustigado, não sabia fazer as coisas em temperatura morna, em registo de assim-assim. Há 20 anos, quando o ouvi dizer, pela primeira vez, o Manifesto Anti-Dantas numa festa do teatro em luta (na FIL), estava David Mourão-Ferreira na SEC, percebi que era um adversário temível para quem quer que se sentasse na cadeira do poder. E o seu espectáculo a solo Europa Não! Portugal Nunca!, em 1994/95, em registo de conferência de imprensa de pré-pré-candidatura à Presidência da República, tinha uma fúria de iluminado, a corrosão de uma coragem sem limites, a louca a tocante fragilidade da auto-exposição, tudo caldeado em textos das mais diversas fontes que nos faziam ir do riso absoluto à dor de alma, porque era de nós todos e de si mesmo que falava.
Não me apetece, incréu de que nunca mais ouça a sua voz ao telefone convocando-me para a estreia de uma nova peça no teatrinho do Chiado, escrever hoje a sua ficha definitiva de dicionário. Não o vou escrever afora. Mas logo no dia da sua morte ouvi dizer nas rádios e televisões que Mário Viegas tinha 47, 48 e 49 anos, que se estreara no Teatro Experimental do Porto, que se candidatara várias vezes a Presidente da República - e esses disparates factuais tê-lo-iam posto ao rubro, e com razão. Um homem, quando morre, tem pelo menos direito a evocação biográfica que esteja certa. Do que de mais peculiar Viegas tinha como actor - e de que foram marcos os espectáculos que fez a solo, Mário Gin-Tónico (1986), Mário Gin-Tónico Volta a Atacar (1991), Tótó (1991) e Europa Não! Portugal Nunca! (1994) - não é possível saber algo, senão por ouvir dizer. Viviam daquilo que o teatro tem de mais específico, a directa circulação de energia entre o palco e o público, construindo-se num jogo de vaivém que os fazia diferentes a cada dia, a cada representação, jogo de risco de que o último daqueles títulos (um ano em cena!) era a expressão mais estremada porque quase inteiramente dependente da própria intervenção dos espectadores questionando o "candidato". Dia em que o público não estivesse para aí virado, era dia em que o espectáculo fenecia. De maneira que esse Viegas, actor de grandes cometimentos na corda bamba, só existirá enquando nos lembrarmos do que o vimos fazer. É esse o destino do teatro, em geral, mas muito especificamente daquele que Viegas praticou com mais singularidade.
Do outro actor, capaz de composições em registos vários, sobrarão os testemunhos do cimena - e, felizmente, Mário Viegas fez muitos filmes e, melhor ainda, filmes onde ficou presente a extrema diversidade de recursos que tinha e até os seus maiores defeitos e qualidades. A filmografia de Viegas é significativa, caso muito raro no panorama português.
Se houvesse que escolher, pôr-se-ia à cabeça um dos primeiros filmes em que participou, esse O Rei das Berlengas, de Artur Semedo (1975/76), onde atravessava em sátira desmedida toda a História de Portugal. Aí encontramos aquilo que se poderia chamar um actor-diamante em estado bruto, sem lapidação, indirigido. O cómico do esgar facial e da truculência, do excesso turbulento e sem margens, autocomplacente, capaz de provocar a gargalhada de primeiro grau e mal se podendo saber se distingue entre o devido e o mau gosto. Mas também se encontra o actor capaz de fazer fundir o estado de riso e o patético - numa linha que muito poucos são capazes de pisar - juntando o humor e o aperto no coração, em particular nas espontosas sequências em que o proclamado rei das Berlengas é entrevistado no hospício e descobre que o que o povo lhe gritara e aos seus antepassados, durante oito séculos, não era "come!, come!, come!), mas "fome!, fome!, fome!".
Veio, depois, José Fonseca e Costa, o cineasta essencial da carreira de Mário Viegas, aquele que lhe permitiu não apenas alguns êxitos históricos - como Kilas, o Mau da Fita (1977/79) e Sem Sombra de Pecado (1982) - mas também o que provocou que o actor controlasse e diversificasse os seus recursos. Fonseca e Costa nunca lhe pediu uma comicidade de primeiro grau, nunca quis despertar nele um registo de farsa, antes o sorriso que podia ser menos ou mais subtil, mas se ancorava as mais das vezes em detalhes. E, melhor do que tudo, entregou-lhe a figuração do português total, a que o actor correspondeu. Foi o pequeno manguelas lisboeta, muita parra pouca uva, no Kilas; foi um rapaz da alta burguesia, imberbe e crédulo, nas malhas tecidas pelo líbido de uma mulher em Sem Sombra de Pecado - talvez o seu grande desempenho cinematográfico. Foi caricatura de intelectual castrado em A Mulher do Próximo. Foi professoral e pomposo - vazio, vazio - em Os Cornos de Cronos.
Viegas era um actor tendencialmente calhado para a comédia (não por acaso, foi o género que estatisticamente mais praticou no teatro - e aquele a que se dedicou, quase em exclusivo, quando dirigiu, nos últimos cinco anos, a Companhia Teatral do Chiado). Mas nunca quis ficar preso a essa faceta. No teatro é possível lembrá-lo a fazer Brecht (Baal, em 1984, no Teatro Aberto, sob a direcção de João Lourenço) ou a notável criação de Na Solidão dos Campos de Algodão, de Bernard-Marie Koltès, encenação de João Lourenço no Teatro Aberto em Abril de 1990. Mas o cinema vai guardar essa vertente do actor, no ainda por estrear Rosa Negra, de Margarida Gil, na figura de um vagabundo sem-abrigo verdadeiramente singular. Havia ainda o actor-boneco, o actor-roberto, o que se despojava de psicologia para ser apenas ícone marionético, máscara, personagem de "cartoon": a série de 48 Filmezinhos de Sam que gravou para a RTP, em 1988, são disso testemunho.
E vão ficar os discos de poesia, infelizmente há muito esgotados e não reeditados, no que é uma injustiça profunda para com o grande divulgador de poetas que Viegas também o foi. Aí ficará guardada memória da multiplicidade de coisas que ele era capaz de fazer apenas com a voz. E não teriam sido precisos todos os discos para o saber: logo no segundo - Palavras Ditas, de 1972 - Viegas como que estabelece um catálogo de modulações, do lírico ao humor, da gravidade trágica à caricatura. É nesse disco que, quase em estilo de demonstração de que a voz é tudo, ele lê o boletim meteorológico como se estivesse a invocar um presságio funesto. O resultado é espantoso. De poesia perdurará, ainda, nos arquivos da RTP, pelo menos a série Palavras Vivas, que Nuno Teixeira dirigiu em 1984.
O resto, o teatro, esfuma-se devagar enquanto a nossa memória se apaga com o correr dos dias. A última vez que o vi representar no palco foi em Outubro, quando estreou aquela que viria a ser a sua última peça, quer como actor quer como encenador (Uma Comédia às Escuras, de Peter Shaffer). Depois disso vi-o representar na vida o papel de um homem ainda pronto para todos os combates, enquanto se ia despedindo, codificadamente, de cada um de nós.
Agora foi-se embora de vez, era 1 de Abril. Parece impossível.
Escrevi um dia acerca de Mário Viegas que era um declamador genial e um actor de grande talento. Não percebia eu então que dizer poesia era nele ainda um mode de ser Actor. Aqui o deixo dito, com maiúscula, como ele gostava. E acho que devemos, pelo menos, beber um copo em sua honra."

domingo, abril 03, 2005

Papa João Paulo II


Papa João Paulo II

A propósito da Morte do Santo Padre João Paulo II

Sábado, 02 de Abril de 2005, pelos 20 h e 37 minutos falecia o Santo Padre João Paulo II.
Durante cerca de três dias assistiu-se a um nojo jornalístico nos mais diversos meios que esta nobre arte de informar (e de chatear) possuiu: rádio, televisão e imprensa escrita.
Nestes cerca de três dias o penoso definhamento do Santo Padre foi explorado, violado e escandalosamente profanado.
Nestes cerca de três dias as gentes foram obrigadas a assistir, angustiadas, a todo este teatro mediático que teve como actor principal uma das figuras históricas mais exemplares do final do séc. XX e inícios do séc. XXI.
Nesta era da informação e da globalização a Morte deixou de ser pacífica, solitária, introspectiva e momento de consideração ou reverência. Antes transformou-se num espectáculo obstinado, de especulação, de falsos boatos e de alarmismo. A Morte está banalizada e desrespeitada.
Nestes cerca de três dias o que se viu foi a fome da comunicação social pela Morte efectiva do Papa. Não esconderam a ânsia do seu desejo. Exploraram-na até ao cansativo, ao nojo, ao perturbante.
Nestes cerca de três dias falou-se, sem qualquer tipo de pudor ou pejo, de João Paulo II, pai da Cristandade, venerado por milhares em todo o mundo, homem actuante em diversos domínios, do social ao político, figura de notariedade planetária, homem sem descanso durante a sua longa vida (84 anos), propagador da paz e da tranquilidade, do igualdade dos povos e das crenças.
Nestes cerca de três dias o que se assistiu foi o desrespeitar de todas estas permissas. Desrespeitou-se todos os católicos e admiradores de João Paulo II.
Nestes cerca de três dias houve um homem no mundo que não teve a Morte que merecia. Uma Morte calma, tranquila e serena.
Nestes cerca de três dias chocou-me a conivência e a alta participação do clero neste realitydeath-show. Estes, que desde o início deveriam ter tido a preocupação de terem aberto a porta dos seus templos aos milhares de anónimos que procuravam consolo nas rezas e nas palavras de um sacerdote, preferindo antes ir para o comil televisivo ou radiofónico debitar até à exaustão palavras e mais palavras que em nada ajudavam aqueles que sentiam no seu interior a dor da proximidade da perda de alguém que lhes era querido, que lhes era da família, que lhes era amigo.
A cobertura jornalística da Morte do Santo Padre em nada o glorificou. Os jornalistas e o próprio clero corromperam e devassaram o que de mais sagrado e misterioso há na vida de um Homem, um dos focos centrais e fundadores de toda a ideologia cristã - a Morte.

sexta-feira, março 25, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

- Continuação
"O Ginásio, é um teatro pequeno assaz elegante, género do Théâtre-Déjazet, de Paris. Representam-se aí vaudevilles e comédias francesas traduzidas em português. Uma vez por outra, peças de ocasião. Não está permanentemente aberto pela simples razão de que as receitas são mais do que medíocres. Os artistas e os directores encontram-se frequentemente uns para com os outros na mesma situação em que o sr. Talleyrand se achava para com um credor importuno:
- Desejava saber, disse este, quando V.ª Ex.ª me pagava.
- O sr. é muito curioso! Respondeu o príncipe.
Não obstante, o actor António Pedro, uma notabilidade da cena, um artista verdadeiramente distinto, representa nessa teatro, de maneira inexcedível, a obra-prima de António Enes, O Saltimbanco, secundado por duas jovens e formosas actrizes: Beatriz Rente e Emília dos Anjos. Pode dizer-se que os artistas gozam de uma graça da profissão: representam por amor da arte.
O teatro da Trindade toma o nome do bairro em que está situado. A sala, muito elegante, é construída pouco mais ou menos pelo modelo das salas francesas, com balcão e galerias. A companhia dedica-se especialmente às operetas de Offenbach, de Lecoq e outras, traduzidas em português. As peças são bem postas em cena, mas cantadas de maneira deplorável. Contudo, há neste teatro um artista, o sr. Ribeiro, actor de verdadeiro talento, e de mérito que merece ser registado. O teatro é bastante frequentado, se bem que os preços sejam relativamente elevados. Mas o ouro é uma quimera, tanto neste como nos outros templos de Talia. Os accionistas, que subscreveram com os seus dinheiros para a empresa num acesso de entusiasmo, apenas conhecem regularmente a época em que deveriam receber os dividendos das suas acções.
O teatro do Príncipe Real é um pequeno teatro que, como o do Ginásio, vive apenas durante alguns meses do ano. Estiveram ali duas troupes de opereta francesa com artistas franceses que não foram mais felizes do que as indígenas.
Os Recreios Whittoyne merecem atenção. É uma curiosidade sob muitos pontos de vista.
O sr. Whittoyne era um clown inglês que encantava o público dos circos pelas suas deslocações, arlequinadas e pantomimas. Dotado do instinto mercantil da sua pátria, teve a habilidade de farejar capitalistas e de conseguir interessá-los na ideia de criar um jardim de Verão, com diversões, jogos e teatro; o que prova a sua inteligência e constitui o seu melhor elogio, porque não é negócio de pouca monta, segundo me informam, resolver um português que tem dinheiro a empregar os seus fundos de maneira diversa que não seja a do empréstimo com hipoteca privilegiada, a juro de 25 por cento! Mas como descobrir, como obter um jardim no centro de Lisboa? Não era fácil empresa. Procurou-se, investigou-se por muito tempo; cansados de explorar, foram por fim assentar vistas numa propriedade do marquês de Castelo Melhor, numa colina cortada a pique, para a qual se sobe por quinze ou vinte lances de escada, habilmente dissimulados, mas cujos declives era preciso suavizar.

Encontrado o local, tratou-se de recrutar accionistas; constituiu-se uma empresa e emitiram-se acções de 100 francos, que tiveram fácil colocação, porque representavam uma multidão de direitos, qual deles mais próprio para engodar: a entrada livre, o passeio, o concerto, etc,; enfim, a colónia viu aparecer sucessivamente sobre as suas cristas, um pouco espantadas, um teatro de madeira e de cartão pintado, uma galeria de lona pintada, quiosques de papelão pintado, um circo liliputiano de papel pintado, e tudo isto subordinado a uma dministração igualmente de papelão pintado, porque, pouco tempo depois da abertura desse maravilhoso Eldorado que prometia todos os prazeres e que se inaugurara ao som dos hinos de risonhas esperanças, vendiam-se as acções, nas ruas de Lisboa, a 25 sous cada uma. Ora, aí está o que são as coisas!"
- Continua

quinta-feira, março 24, 2005

OS MEUS DISCOS - SIMONE MULHER, GUITARRA


Simone de Oliveira

Após ter-vos apresentado o disco que reúne Amália Rodrigues, Ary dos Santos e Natália Correia, apresento-vos um outro com um triunvirato igualmente fascinante e poético.
Tem Simone de Oliveira na voz, Ary dos Santos na escolha dos poemas e Carlos do Carmo na produção, e conheceu a sua edição em vinyl em 1984 com reedição em CD em 2003.
Simone mulher, guitarra é o seu nome.
Lá a Simone sabemos nós quem é... a mulher... mas guitarra? Porque raio guitarra?!?!
A explicação é simples. Trata-se de um álbum de fados... o único, salvo erro, da carreira de 45 anos de Simone.
Eu, que sou grande admirador de fados e fadistas, arrisco a dizer que é um dos melhores álbuns que já ouvi de fado e, consequentemente, um dos melhores de Simone de Oliveira.
Neste álbum está lá tudo. A capacidade vocal de Simone, a mestria na interpretação e a perícia na transmissão de sentimentos em cada nota cantada. A dicção perfeita. E o Fado, esse, está lá todo. Puro, sem artifícios, sentido.

São brilhantes o Fadinho das Iscas, as Pedras Preciosas, Alma Minha Gentil Que Te Partiste... o Fado Vivo é forte, irónico - "Sou mulher embora, embora, homens me queiram castrar porque vivo a toda a hora..."

Os fados que compõem este disco são:
- Fadinhos das Iscas, de Ary dos Santos
- Menor Maior, de Ary dos Santos
- Fado Vivo, de Ary dos Santos
- Demos as Mãos, de Ary dos Santos
- Pedras Preciosas, de Ary dos Santos
- Alma Minha Gentil Que Te Partiste, de Luiz de Camões
- Quadras, de Fernando Pessoa
- Canção, de Cecília Meireles
- Amiga Noiva Irmã, de Florbela Espanca
- Prece, de Miguel Torga
AH FADISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, março 20, 2005

Textos de Maria Rattazzi - ano de 1879

CARTA OITAVA
Os espectáculos - Teatros: de D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real, Recreios Whittoyne, Rua dos Condes, Variedades - O circo Price - As pateadas - Usos e costumes teatrais - O actor Santos - Emília das Neves
«Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és», observava um homem de espírito. Toca-me a vez de dizer, modificando o velho prolóquio popular, como Brillat-Savarin: «Diz-me que teatros frequentas, dir-te-ei quem és.»
O teatro D. Maria II, situado numa das extremidades da Praça de D. Pedro, forma como construção um monumento isolado. A sala é elegante, fabricada no gosto italiano; os camarotes grandes e cómodos; o foyer encantador.
Este teatro foi criado e veio à luz do mundo com um fim especial, com uma missão puramente nacional: deviam-se representar nele, segundo o pensamento gerador, peças exclusivamente portuguesas - tragédias, dramas, comédias -, salvo raras excepções; ora, ao presente, não se representam senão peças francesas, especialmente as que têm mais voga no momento em Paris. Tratava-se, primeiro, de favorecer a arte nacional, estimulando e alentando a coragem dos talentos mais prometedores, mas actores e autores estão ainda reduzidos às próprias forças; o governo transportou a sua protecção oficial para as regiões do paltonismo. Dadas estas circunstâncias, o infeliz teatro morre de inanição. E contudo conta no seu grémio bastantes actores distintos, alguns mesmo hors ligne; mas, que fazer com a indeferença do Estado e sobretudo com a minguada solecitude do público? Trabalha-se por ofício, e que ofício! Traduções absurdas de obras ineptas a maior parte das vezes. Quanto à arte nacional, salva-se o negócio. Deus sabe como, e debate-se no vácuo.
Como artistas dramáticos, salvo algumas excepções aliás raras, os actores são geralmente mais notáveis so que as actrizes. Emília das Neves, uma artista que em todos os países seria reputada uma sumidade, merece ser apontada como a excepção que confirma que a regra.
Os dois irmãos Rosa, são artistas de mérito; o seu talento chega por vezes a ter radiações que comunicam o fogo sagrado aos seus colegas. Vi-os representar nos Fourchambaults de maneira distintíssima, e se Augier os visse ficaria impressionado, seguramnte. Quanto ao pai desses actores, de tal modo se encarnou em o Marquês de la Seiglière, que faz esquecer Samson. Infelizmente, os esforços destes artistas conscienciosos são de todo o ponto estéreis. Em geral representam unicamente para as aranhas e, ainda mesmo nos lances do drama mais patético ou mais turbulento, não conseguem interrompê-las no trabalho melancólico e solitário da teia. Algumas vezes o domingo faz milagre de levar espectadores ao abandonado teatro. Nesses dias, os burgueses pacatos e atarefados vão ali descansar das canseiras da semana, nas cadeiras pouco cómodas da plateia. Recostam-se, docemente divididos entre as situações comoventes da peça e as doçuras seráficas do sono." - Continua
Maria Rattazzi - "Portugal de Relance" - Antigona, 2004. Titulo original de 1879 "Le Portugal à vol d'oiseau".

quarta-feira, março 16, 2005

Natália Correia


Natália Correia

Queixas das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia

Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

Natália Correia

PORTUGAL NO SEU PIOR - BESTAS EM SALAS DE ESPÉCTACULOS

A derrota do silêncio

Lisboa, Teatro São Luiz, noite de quinta-feira. Um telemóvel toca logo no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é sonoramente atendido. O músico pára a execução da peça e retoma-a logo a seguir. Mais adiante, torna a ouvir-se outro toque, mas desta vez Pizarro não pára. A seguir ao intervalo, soa outro telemóvel, longamente, porque o proprietário nem se digna desligá-lo. Artur Pizarro deixa de tocar e diz à criatura "Atenda, que eu paro. Mas saia". E pega nas partituras, levanta-se e vai-se embora. Há burburinho na sala e é anunciado que o pianista não regressará. O dono do telemóvel que estragou a noite a Pizarro e ao público do São Luiz dirige-se à bilheteira para exigir o dinheiro de volta, porque o recital foi interrompido.
O telemóvel já substituiu a tosse cava e o barulhinho do papel de rebuçado como grande elemento perturbador nas salas de espectáculos. Mas o fenómeno não se deve apenas a um punhado de esquecidos crónicos que nunca desligam os telemóveis no teatro, no cinema, na ópera ou no recital, nem à falta de educação e consideração de meia dúzia de grosseiros, os mesmos que antes de haver telemóveis faziam barulho e falavam alto nos espectáculos. Ele é a manifestação de um mal-estar social muito maior.
O adolescente parvinho, o novo-rico cultural, o grunho das novas tecnologias, a cinquentona impertinente que se vão sentar numa plateia ou num auditório sem silenciar o telemóvel e o atendem ostensivamente enquanto os actores interpretam, os músicos tocam, o filme corre ou os cantores vocalizam, já não sabem ser espectadores. Perderam a noção do que é assistir a um espectáculo partilhado colectivamente. A sociedade em que nasceram e foram "educados" é uma sociedade que tem horror ao silêncio e só está bem no meio do barulho, incomode a quem incomodar. A cultura em que vivem é a da comunicação redundante, da palavra vazia, do falar para dizer nada mas até se ficar sem voz, alimentada pelas empresas de telecomunicações e pelas campanhas de publicidade. No nosso mundo há educação a menos e som a mais. Admiram-se por isso que toquem cada vez mais telemóveis e sejam atendidos nas salas de espectáculos? Habituem-se!
Texto de Eurico de Barros, “A derrota do silêncio”, in Diário de Noticias OnLine, 12-03-2005
Para saber mais deste episódio visite www.pancadademoliere.blogspot.com

sábado, março 12, 2005

FRASES SOLTAS - I

" A CENSURA É A INCAPACIDADE DE VER"

Júlio Pomar, 79 anos, Pintor.

In Revista "Única", 5 de Março de 2005