sexta-feira, março 25, 2005

Textos de Maria Rattazzi - 1879

- Continuação
"O Ginásio, é um teatro pequeno assaz elegante, género do Théâtre-Déjazet, de Paris. Representam-se aí vaudevilles e comédias francesas traduzidas em português. Uma vez por outra, peças de ocasião. Não está permanentemente aberto pela simples razão de que as receitas são mais do que medíocres. Os artistas e os directores encontram-se frequentemente uns para com os outros na mesma situação em que o sr. Talleyrand se achava para com um credor importuno:
- Desejava saber, disse este, quando V.ª Ex.ª me pagava.
- O sr. é muito curioso! Respondeu o príncipe.
Não obstante, o actor António Pedro, uma notabilidade da cena, um artista verdadeiramente distinto, representa nessa teatro, de maneira inexcedível, a obra-prima de António Enes, O Saltimbanco, secundado por duas jovens e formosas actrizes: Beatriz Rente e Emília dos Anjos. Pode dizer-se que os artistas gozam de uma graça da profissão: representam por amor da arte.
O teatro da Trindade toma o nome do bairro em que está situado. A sala, muito elegante, é construída pouco mais ou menos pelo modelo das salas francesas, com balcão e galerias. A companhia dedica-se especialmente às operetas de Offenbach, de Lecoq e outras, traduzidas em português. As peças são bem postas em cena, mas cantadas de maneira deplorável. Contudo, há neste teatro um artista, o sr. Ribeiro, actor de verdadeiro talento, e de mérito que merece ser registado. O teatro é bastante frequentado, se bem que os preços sejam relativamente elevados. Mas o ouro é uma quimera, tanto neste como nos outros templos de Talia. Os accionistas, que subscreveram com os seus dinheiros para a empresa num acesso de entusiasmo, apenas conhecem regularmente a época em que deveriam receber os dividendos das suas acções.
O teatro do Príncipe Real é um pequeno teatro que, como o do Ginásio, vive apenas durante alguns meses do ano. Estiveram ali duas troupes de opereta francesa com artistas franceses que não foram mais felizes do que as indígenas.
Os Recreios Whittoyne merecem atenção. É uma curiosidade sob muitos pontos de vista.
O sr. Whittoyne era um clown inglês que encantava o público dos circos pelas suas deslocações, arlequinadas e pantomimas. Dotado do instinto mercantil da sua pátria, teve a habilidade de farejar capitalistas e de conseguir interessá-los na ideia de criar um jardim de Verão, com diversões, jogos e teatro; o que prova a sua inteligência e constitui o seu melhor elogio, porque não é negócio de pouca monta, segundo me informam, resolver um português que tem dinheiro a empregar os seus fundos de maneira diversa que não seja a do empréstimo com hipoteca privilegiada, a juro de 25 por cento! Mas como descobrir, como obter um jardim no centro de Lisboa? Não era fácil empresa. Procurou-se, investigou-se por muito tempo; cansados de explorar, foram por fim assentar vistas numa propriedade do marquês de Castelo Melhor, numa colina cortada a pique, para a qual se sobe por quinze ou vinte lances de escada, habilmente dissimulados, mas cujos declives era preciso suavizar.

Encontrado o local, tratou-se de recrutar accionistas; constituiu-se uma empresa e emitiram-se acções de 100 francos, que tiveram fácil colocação, porque representavam uma multidão de direitos, qual deles mais próprio para engodar: a entrada livre, o passeio, o concerto, etc,; enfim, a colónia viu aparecer sucessivamente sobre as suas cristas, um pouco espantadas, um teatro de madeira e de cartão pintado, uma galeria de lona pintada, quiosques de papelão pintado, um circo liliputiano de papel pintado, e tudo isto subordinado a uma dministração igualmente de papelão pintado, porque, pouco tempo depois da abertura desse maravilhoso Eldorado que prometia todos os prazeres e que se inaugurara ao som dos hinos de risonhas esperanças, vendiam-se as acções, nas ruas de Lisboa, a 25 sous cada uma. Ora, aí está o que são as coisas!"
- Continua

quinta-feira, março 24, 2005

OS MEUS DISCOS - SIMONE MULHER, GUITARRA


Simone de Oliveira

Após ter-vos apresentado o disco que reúne Amália Rodrigues, Ary dos Santos e Natália Correia, apresento-vos um outro com um triunvirato igualmente fascinante e poético.
Tem Simone de Oliveira na voz, Ary dos Santos na escolha dos poemas e Carlos do Carmo na produção, e conheceu a sua edição em vinyl em 1984 com reedição em CD em 2003.
Simone mulher, guitarra é o seu nome.
Lá a Simone sabemos nós quem é... a mulher... mas guitarra? Porque raio guitarra?!?!
A explicação é simples. Trata-se de um álbum de fados... o único, salvo erro, da carreira de 45 anos de Simone.
Eu, que sou grande admirador de fados e fadistas, arrisco a dizer que é um dos melhores álbuns que já ouvi de fado e, consequentemente, um dos melhores de Simone de Oliveira.
Neste álbum está lá tudo. A capacidade vocal de Simone, a mestria na interpretação e a perícia na transmissão de sentimentos em cada nota cantada. A dicção perfeita. E o Fado, esse, está lá todo. Puro, sem artifícios, sentido.

São brilhantes o Fadinho das Iscas, as Pedras Preciosas, Alma Minha Gentil Que Te Partiste... o Fado Vivo é forte, irónico - "Sou mulher embora, embora, homens me queiram castrar porque vivo a toda a hora..."

Os fados que compõem este disco são:
- Fadinhos das Iscas, de Ary dos Santos
- Menor Maior, de Ary dos Santos
- Fado Vivo, de Ary dos Santos
- Demos as Mãos, de Ary dos Santos
- Pedras Preciosas, de Ary dos Santos
- Alma Minha Gentil Que Te Partiste, de Luiz de Camões
- Quadras, de Fernando Pessoa
- Canção, de Cecília Meireles
- Amiga Noiva Irmã, de Florbela Espanca
- Prece, de Miguel Torga
AH FADISTA!!!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, março 20, 2005

Textos de Maria Rattazzi - ano de 1879

CARTA OITAVA
Os espectáculos - Teatros: de D. Maria II, Ginásio, Príncipe Real, Recreios Whittoyne, Rua dos Condes, Variedades - O circo Price - As pateadas - Usos e costumes teatrais - O actor Santos - Emília das Neves
«Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és», observava um homem de espírito. Toca-me a vez de dizer, modificando o velho prolóquio popular, como Brillat-Savarin: «Diz-me que teatros frequentas, dir-te-ei quem és.»
O teatro D. Maria II, situado numa das extremidades da Praça de D. Pedro, forma como construção um monumento isolado. A sala é elegante, fabricada no gosto italiano; os camarotes grandes e cómodos; o foyer encantador.
Este teatro foi criado e veio à luz do mundo com um fim especial, com uma missão puramente nacional: deviam-se representar nele, segundo o pensamento gerador, peças exclusivamente portuguesas - tragédias, dramas, comédias -, salvo raras excepções; ora, ao presente, não se representam senão peças francesas, especialmente as que têm mais voga no momento em Paris. Tratava-se, primeiro, de favorecer a arte nacional, estimulando e alentando a coragem dos talentos mais prometedores, mas actores e autores estão ainda reduzidos às próprias forças; o governo transportou a sua protecção oficial para as regiões do paltonismo. Dadas estas circunstâncias, o infeliz teatro morre de inanição. E contudo conta no seu grémio bastantes actores distintos, alguns mesmo hors ligne; mas, que fazer com a indeferença do Estado e sobretudo com a minguada solecitude do público? Trabalha-se por ofício, e que ofício! Traduções absurdas de obras ineptas a maior parte das vezes. Quanto à arte nacional, salva-se o negócio. Deus sabe como, e debate-se no vácuo.
Como artistas dramáticos, salvo algumas excepções aliás raras, os actores são geralmente mais notáveis so que as actrizes. Emília das Neves, uma artista que em todos os países seria reputada uma sumidade, merece ser apontada como a excepção que confirma que a regra.
Os dois irmãos Rosa, são artistas de mérito; o seu talento chega por vezes a ter radiações que comunicam o fogo sagrado aos seus colegas. Vi-os representar nos Fourchambaults de maneira distintíssima, e se Augier os visse ficaria impressionado, seguramnte. Quanto ao pai desses actores, de tal modo se encarnou em o Marquês de la Seiglière, que faz esquecer Samson. Infelizmente, os esforços destes artistas conscienciosos são de todo o ponto estéreis. Em geral representam unicamente para as aranhas e, ainda mesmo nos lances do drama mais patético ou mais turbulento, não conseguem interrompê-las no trabalho melancólico e solitário da teia. Algumas vezes o domingo faz milagre de levar espectadores ao abandonado teatro. Nesses dias, os burgueses pacatos e atarefados vão ali descansar das canseiras da semana, nas cadeiras pouco cómodas da plateia. Recostam-se, docemente divididos entre as situações comoventes da peça e as doçuras seráficas do sono." - Continua
Maria Rattazzi - "Portugal de Relance" - Antigona, 2004. Titulo original de 1879 "Le Portugal à vol d'oiseau".

quarta-feira, março 16, 2005

Natália Correia


Natália Correia

Queixas das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia

Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

Natália Correia

PORTUGAL NO SEU PIOR - BESTAS EM SALAS DE ESPÉCTACULOS

A derrota do silêncio

Lisboa, Teatro São Luiz, noite de quinta-feira. Um telemóvel toca logo no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é sonoramente atendido. O músico pára a execução da peça e retoma-a logo a seguir. Mais adiante, torna a ouvir-se outro toque, mas desta vez Pizarro não pára. A seguir ao intervalo, soa outro telemóvel, longamente, porque o proprietário nem se digna desligá-lo. Artur Pizarro deixa de tocar e diz à criatura "Atenda, que eu paro. Mas saia". E pega nas partituras, levanta-se e vai-se embora. Há burburinho na sala e é anunciado que o pianista não regressará. O dono do telemóvel que estragou a noite a Pizarro e ao público do São Luiz dirige-se à bilheteira para exigir o dinheiro de volta, porque o recital foi interrompido.
O telemóvel já substituiu a tosse cava e o barulhinho do papel de rebuçado como grande elemento perturbador nas salas de espectáculos. Mas o fenómeno não se deve apenas a um punhado de esquecidos crónicos que nunca desligam os telemóveis no teatro, no cinema, na ópera ou no recital, nem à falta de educação e consideração de meia dúzia de grosseiros, os mesmos que antes de haver telemóveis faziam barulho e falavam alto nos espectáculos. Ele é a manifestação de um mal-estar social muito maior.
O adolescente parvinho, o novo-rico cultural, o grunho das novas tecnologias, a cinquentona impertinente que se vão sentar numa plateia ou num auditório sem silenciar o telemóvel e o atendem ostensivamente enquanto os actores interpretam, os músicos tocam, o filme corre ou os cantores vocalizam, já não sabem ser espectadores. Perderam a noção do que é assistir a um espectáculo partilhado colectivamente. A sociedade em que nasceram e foram "educados" é uma sociedade que tem horror ao silêncio e só está bem no meio do barulho, incomode a quem incomodar. A cultura em que vivem é a da comunicação redundante, da palavra vazia, do falar para dizer nada mas até se ficar sem voz, alimentada pelas empresas de telecomunicações e pelas campanhas de publicidade. No nosso mundo há educação a menos e som a mais. Admiram-se por isso que toquem cada vez mais telemóveis e sejam atendidos nas salas de espectáculos? Habituem-se!
Texto de Eurico de Barros, “A derrota do silêncio”, in Diário de Noticias OnLine, 12-03-2005
Para saber mais deste episódio visite www.pancadademoliere.blogspot.com

sábado, março 12, 2005

FRASES SOLTAS - I

" A CENSURA É A INCAPACIDADE DE VER"

Júlio Pomar, 79 anos, Pintor.

In Revista "Única", 5 de Março de 2005

Amélia Rey Colaço - Palavras Para Quê?


Amélia Rey Colaço

Natália Correia e Fernanda de Castro chamavam-lhe, pelo seu porte aristocrático e energia marcial, a Imperadora.

Oriunda de famílias de aristocratas e artistas (o pai era o compositor Alexandre Rey Colaço, professor dos príncipes, a avó, a célebre Madame Reinhardt, com salão literário e musical em Berlim), Amélia recebe, desde criança, uma formação invulgarmente requintada.

Apaixona-se pelo teatro aos 15 anos, ao ver, na Alemanha, os espectáculos de Max Reinhardt. Recebe aulas de Augusto Rosa e, a 17 de Novembro de 1917, estreia-se no Teatro República, na peça Marinela. Para fazer a personagem, uma rude vagabunda, aprende, durante meses, a andar descalça e a usar farrapos, no interior do jardim do seu palacete. O êxito é retumbante.

Casa, em Dezembro de 1920, com o actor Robles Monteiro, um ex-seminarista vindo da Beira Baixa, para trocar, a conselho do bispo (entusiasmado com as suas récitas religiosas), o altar pelo palco. Rapidamente os dois fundam uma companhia própria - será a mais antiga (durou 53 anos) da Europa.

Amélia imprime aos seus espectáculos um cunho de elegância, de bom-gosto, de invenção, de requinte desconhecidos entre nós. Chama pintores prestigiados para colaborarem com ela, casos de Raul Lino, Almada Negreiros, Eduardo Malta. Contrata nomes que são ídolos do público (Ângela Pinto, Palmira Bastos, Nascimento Fernandes, Alves da Cunha, Lucília Simões, Estêvão Amarante, Maria Matos, Vasco Santana) e revela, fazendo escola, novos actores, como Raul de Carvalho, Álvaro Benamor, Maria Lalande, Assis Pacheco, João Villaret, Augusto de Figueiredo, Paiva Raposo, Pedro Lemos, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Maria Barroso, João Perry, Madalena Sotto, Helena Félix, Rogério Paulo, José de Castro, Lurdes Norberto, Varela Silva, João Mota.

Robles Monteiro, um dos maiores ensaiadores do teatro português, apaga-se deliberadamente para a projectar. «Toda a sua vida foi feita em função de mim. Trocou as suas ambições pelas minhas. Tinha os seus sonhos próprios e pô-los de lado pelos meus sonhos», afirmar-nos-á Amélia Rey Colaço.

ÉPOCA DE OIRO

A concepção que Amélia Rey Colaço tinha do que devia ser uma companhia nacional resultou em pleno. Fará no século XX o mesmo que Almeida Garrett no XIX.

Actuando em vários planos, estrutura, primeiro, uma companhia coesa e disciplinada, metódica e exigente. A seguir, joga na dignificação social do actor, conquistando para ele um estatuto de superioridade inovador. Organiza, ao mesmo tempo, um reportório ambicioso, diversificado, alternando contemporâneos com clássicos, estrangeiros com portugueses. Abre (e nisso foi única) as portas à dramaturgia nacional, fomentando-a, recompensado-a como ninguém mais fez depois dela.

O incentivo dado aos nossos autores fê-los conhecer, contra a Censura e o dirigismo cultural, uma época de oiro. José Régio, Luiz Francisco Rebello, Bernardo Santareno, Romeu Correia, Miguel Franco são alguns dos que, então, se afirmaram.

«Nesse período admirável de ressurgimento da nossa dramaturgia são levadas à cena 116 peças de autores nacionais, 63 em estreia absoluta», anota Vítor Pavão dos Santos, para quem a Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro «é a espinha dorsal do teatro português do século XX».
«Amélia Rey Colaço soube, como ninguém, manter a chama do teatro apesar da ditadura. Conheci muitas pessoas do teatro e ela foi a única que me ensinou, pessoalmente, algo dos seus diversos ofícios», comenta-nos o dramaturgo Mário Sério.

SALAZAR ADMIRAVA-A

Com ousadia revela, por outro lado, o que de mais avançado surge no mundo: Jean Cocteau, Jean Anouih, Lorca, Valle Ínclan, Alejandro Casona, O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Pirandello, Eduardo De Filippo, Diego Fabri, Max Firisch, Ionesco, Durrenmatt, Albee, Pinter.

Apaixonada por Brecht, pede ao ministro da Educação (entidade que tutelava o teatro Nacional) uma audiência. Ao entrar no seu gabinete, o governante diz-lhe: «Se vem cá pedir para eu autorizar esses comunistas de que gosta, o Brecht, o Camus, o Sartre, pode ir-se embora.» Amélia pára e diz: «Então, boa tarde», e dá meia volta.

Salazar gostava do seu porte altivo e grave. Apreciava-lhe a fineza, a inteligência, a cultura. Ficava-se a ouvi-la, quando se deslocava aos ensaios gerais das suas peças (nunca ia a estreias), com curiosidade, com prazer. Ela não lhe fazia pedidos, ele não lhe agredia a independência.

ANCIÃ BELÍSSIMA

Aos 90 anos, Amélia Rey Colaço era uma anciã belíssima, serena por fora, vibrátil por dentro. Luminosidades intensas fulguravam-lhe com frequência o olhar, como se a alma, a energia se quisessem libertar do corpo que as arqueava.

Era um ser notável de sedução, de ironia, de humildade, de orgulho. Como poucos, sabia aproximar-se e distanciar-se, revelar-se e ocultar-se. Tornou-se numa personagem ficcionada, encenada por si própria com, por vezes, genialidade.

O reverso dos aplausos, das benesses, chegar-lhe-ia penosamente à medida que a companhia se decompunha por incêndios, por bloqueios, por incomprensões, em agonia lenta, densa. «O meio fechou-se, os críticos estavam, no final, contra nós», recorda-nos Mariana Rey Monteiro.
Em princípios de 1974, Amélia Rey Colaço regressa ao S. Luiz, de onde partira. O ciclo fecha-se. Pouco depois dá-se o 25 de Abril. Percebendo que a vão encarar como um símbolo do Estado Novo, suspende a companhia e sai de cena.

Assume a injustiça com dignidade, com discrição. Em silêncios imerge no outro lado da ribalta, o da penumbra, o do apagamento. Para trás dela ficam - o futuro irá comprová-lo - espectáculos (a Castro, O Processo de Jesus, A Visita da Velha Senhora, Tango) que são obras-primas, patrimónios preciosos da nossa cultura, da nossa memória.

RECORDAÇÕES NEFASTAS

«Incêndios em teatros», e «datas em 8» perseguiram dramaticamente a actriz durante a vida. Quatro edifícios onde actuou foram, com efeito, pasto das chamas, ruindo dois por completo.

A série começa no São Luiz (ex-Teatro República), que arde pouco antes de Amélia se estrear. Logo a seguir, o fogo obriga-a a deixar o Trindade, onde se instalara. Radicada no D. Maria, por concessão pública, vê as labaredas reduzirem-no a escombros na noite de 2 de Dezembro de 1964. Três anos mais tarde, o Avenida, onde se acolhera, transforma-se em cinzas. Novo incêndio (no Capitólio) obriga-a, em 1970, a nova mudança (para o Trindade).

As datas terminadas em 8 revelam-se-lhe; entretanto (anota a revista Guia na sua última edição), um flagelo. A avó materna e o pai, por exemplo, falecem em 1928, a mãe em 1938, o marido e o genro em 1958.

Dificuldades graves obrigam-na a deixar, em 1968, a moradia onde nascera, na Lapa. A sua companhia é oficialmente extinta em 1988, altura em que a actriz se vê obrigada a leiloar o recheio da casa do Dafundo (cedida pela marquesa do Cadaval) e a abandoná-la. A 8 de Julho morre, em Lisboa, junto da filha.

TEXTO DE FERNANDO DACOSTA - In Revista "Visão", Lisboa, 26 de Fevereiro de 1998

sexta-feira, março 11, 2005

Pedro Barroso - Impressões do Concerto


Pedro Barroso

Assisti esta quinta-feira, dia 10 de Março, ao concerto (ou convívio, como ele próprio apelidou) de Pedro Barroso, no Forúm Lisboa.
Foram duas horas e meia de puro prazer musical e linguístico.
Pedro Barroso, que comemora 35 anos de carreira, nada tem já a provar.
É um poeta irónico e carregado de humor, sempre com umas boas "ferruadas" prontas a serem lançadas para o ar.
Mas acima de tudo Pedro Barroso é um homem que emociona. Emociona pelas palavras, emociona pela postura, emociona pela voz(eirão).
O concerto, em modos bem intimistas, tinha na assistência uma geração bem representada - a dos que viveram e fizeram o 25 de Abril e, portanto, em perfeita sintonia com o anfitrião da noite.
Numa "rapsódia" que durou cerca de 10 minutos, Pedro Barroso evocou/homenageou grandes figuras da canção de intervenção, poetas e outros cantores. Fanhais, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. Mas o ponto alto, pela emoção que causou, foi a referência a José Afonso. A sala em unissono entoou emocionada as palavras de Zeca. A meu lado, um casal deu as mãos de forma forte e comovente, levando-as aos lábios para as beijar... aquele gesto foi, concerteza, o mesmo gesto tantas vezes feito em horas de luta durante a vida, o gesto feito quando festejaram nas ruas o dia de 25 de Abril de 1974. Foi, de longe, o mais bonito gesto que alguma vez presenciei.
Pedro Barroso não esqueceu porém Ary dos Santos, Sofia de Mello Breyner, António Gedeão ou Manuel Alegre. Falou de Natália Correia, caricaturando-a de forma respeitosa e divertida, ilustrando os seus jeitos e trejeitos megalómanos.
Mas a gargalhada sadia mais forte surge quando homenageia Simone de Oliveira, frisando ser admirador e respeitador da mulher e da obra. Confesso que me surpreendeu.
Não raras vezes ouvimos apelidar Simone de Oliveira como "mulher do regime Salarista", "simpatizante do regime".... etc. Mas também se disse o mesmo de Amália Rodrigues, de Almada Negreiros ou de Amélia Rey Colaço. Disparates.... E muito me alegrou ouvir a homenagem feita a Simone. Afinal, foi ela que cantou a Desfolhada de Ary e que teve, na sua chegada a Santa Apolónia após o Festival da Canção em 1969, a maior manifestação espontânea de sempre em Portugal, sem contar com o 25 de Abril. Simone de Oliveira ofereceu, a todos os portugueses, ao cantar o Ary, um primeiro raio de luz, de esperança, de um Portugal Novo possível.
E o "convívio" continuou, com alusões a vários episódios da História de Portugal e dos Portugueses. Houve ainda tempo de descrever os Romanos (os da era antiga, entenda-se) como sendo "sujeitos de saias de cabedal por cima do joelho e piaçaba na cabeça".
Pedro Barroso declamou de forma comovente alguns dos seus poemas, publicados num livro recentemente editado.
Antes de tudo, Pedro Barroso é um mestre de brincar e ironizar com as palavras e os seus sentidos, criando jogos de ideias e significações brilhantes.
Mas o que rege toda a escrita e música de Pedro Barroso é o amor/ódio/desencanto/confusão a Portugal. Acho mesmo que a palavra Portugal poderia ser o sub-título de todas as suas composições.
Bem haja Pedro pela belíssima noite. Que, como havias pedido, daqui a 35 anos estejamos de novo naquela sala a ouvir-te.
Ah.... um aviso a todos os que lerem este texto... o Pedro Barroso pediu que, quando falecesse, não digam nos Telejornais que - "Faleceu o músico de 'Menina dos Olhos de Água', Pedro Barroso" - Ele pede que se diga que tem mais quatrocentas e tal músicas além dessa.... variem...
Anúncio confidencial


Arranja-me um fio de prata dois silêncios e um sorriso
e desaperta no peito dois botões p'ro paraíso
e dá-me beijos na testa quando começar o dia
sorri-me longa a manhã no teu corpo devagar
sendo horas de nascer tu sabes o teu lugar
de dia estamos distantes como quem não dá por isso
mas pressentimos no corpo uma espécie de feitiço
responde à posta restante anúncios confidenciais
se não existires eu faço-te
já esculpi outras que tais
que às vezes ao fim da tarde quando me vem cansaço
vou atirar-me p´ro maple e encontro o teu regaço
e tu dizes coisas andas zangada comigo
e eu fico na plateia e nem sei bem o que digo
e irritada tu beijas resvalas mordes ondulas
e eu que andava tão longe quando m'insultas e pulas
eu transformo-me da pedra em ondas gaivotas mar
e eu que não estava ali reparo nas tuas pernas
reparo na tua boca
e passo de novo a estar
reparo na tua boca que eu nunca soube explicar
e sinto incêndios nas veias e sinto incêndios no mar
vêm aí horas ternas são horas de mergulhar
desculpa Mundo - já demos!... São horas de te esquecer
são horas de enlouquecer - desculpa lá vou fechar...

(música e letra de Pedro Barroso in LP «Pedro Barroso», 1988)

Viriato



Trago comigo uma guitarra para a viagem
na minha voz esta canção antiga
tenho nos olhos mais do que a paisagem
a memória e o sal da gente amiga
não feneceu ainda em mim o velho sonho
trago na ideia uma razão e um sentido
que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha
e a esse mar que em mim navega tudo é devido
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
É do verde e fresco Minho que eu vos falo
e dessa calma alentejana que nos cala
e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo
e é em Sagres que essa história mais nos fala
lá nas Atlântidas perdidas de um sonho
ou num velho cacilheiro que nos leva
e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,
todo um mundo que nos lembra e que celebra
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
(letra e música de Pedro Barroso in CD "Cantos D' Oxalá", 1996)