sábado, março 12, 2005

Amélia Rey Colaço - Palavras Para Quê?


Amélia Rey Colaço

Natália Correia e Fernanda de Castro chamavam-lhe, pelo seu porte aristocrático e energia marcial, a Imperadora.

Oriunda de famílias de aristocratas e artistas (o pai era o compositor Alexandre Rey Colaço, professor dos príncipes, a avó, a célebre Madame Reinhardt, com salão literário e musical em Berlim), Amélia recebe, desde criança, uma formação invulgarmente requintada.

Apaixona-se pelo teatro aos 15 anos, ao ver, na Alemanha, os espectáculos de Max Reinhardt. Recebe aulas de Augusto Rosa e, a 17 de Novembro de 1917, estreia-se no Teatro República, na peça Marinela. Para fazer a personagem, uma rude vagabunda, aprende, durante meses, a andar descalça e a usar farrapos, no interior do jardim do seu palacete. O êxito é retumbante.

Casa, em Dezembro de 1920, com o actor Robles Monteiro, um ex-seminarista vindo da Beira Baixa, para trocar, a conselho do bispo (entusiasmado com as suas récitas religiosas), o altar pelo palco. Rapidamente os dois fundam uma companhia própria - será a mais antiga (durou 53 anos) da Europa.

Amélia imprime aos seus espectáculos um cunho de elegância, de bom-gosto, de invenção, de requinte desconhecidos entre nós. Chama pintores prestigiados para colaborarem com ela, casos de Raul Lino, Almada Negreiros, Eduardo Malta. Contrata nomes que são ídolos do público (Ângela Pinto, Palmira Bastos, Nascimento Fernandes, Alves da Cunha, Lucília Simões, Estêvão Amarante, Maria Matos, Vasco Santana) e revela, fazendo escola, novos actores, como Raul de Carvalho, Álvaro Benamor, Maria Lalande, Assis Pacheco, João Villaret, Augusto de Figueiredo, Paiva Raposo, Pedro Lemos, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Maria Barroso, João Perry, Madalena Sotto, Helena Félix, Rogério Paulo, José de Castro, Lurdes Norberto, Varela Silva, João Mota.

Robles Monteiro, um dos maiores ensaiadores do teatro português, apaga-se deliberadamente para a projectar. «Toda a sua vida foi feita em função de mim. Trocou as suas ambições pelas minhas. Tinha os seus sonhos próprios e pô-los de lado pelos meus sonhos», afirmar-nos-á Amélia Rey Colaço.

ÉPOCA DE OIRO

A concepção que Amélia Rey Colaço tinha do que devia ser uma companhia nacional resultou em pleno. Fará no século XX o mesmo que Almeida Garrett no XIX.

Actuando em vários planos, estrutura, primeiro, uma companhia coesa e disciplinada, metódica e exigente. A seguir, joga na dignificação social do actor, conquistando para ele um estatuto de superioridade inovador. Organiza, ao mesmo tempo, um reportório ambicioso, diversificado, alternando contemporâneos com clássicos, estrangeiros com portugueses. Abre (e nisso foi única) as portas à dramaturgia nacional, fomentando-a, recompensado-a como ninguém mais fez depois dela.

O incentivo dado aos nossos autores fê-los conhecer, contra a Censura e o dirigismo cultural, uma época de oiro. José Régio, Luiz Francisco Rebello, Bernardo Santareno, Romeu Correia, Miguel Franco são alguns dos que, então, se afirmaram.

«Nesse período admirável de ressurgimento da nossa dramaturgia são levadas à cena 116 peças de autores nacionais, 63 em estreia absoluta», anota Vítor Pavão dos Santos, para quem a Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro «é a espinha dorsal do teatro português do século XX».
«Amélia Rey Colaço soube, como ninguém, manter a chama do teatro apesar da ditadura. Conheci muitas pessoas do teatro e ela foi a única que me ensinou, pessoalmente, algo dos seus diversos ofícios», comenta-nos o dramaturgo Mário Sério.

SALAZAR ADMIRAVA-A

Com ousadia revela, por outro lado, o que de mais avançado surge no mundo: Jean Cocteau, Jean Anouih, Lorca, Valle Ínclan, Alejandro Casona, O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Pirandello, Eduardo De Filippo, Diego Fabri, Max Firisch, Ionesco, Durrenmatt, Albee, Pinter.

Apaixonada por Brecht, pede ao ministro da Educação (entidade que tutelava o teatro Nacional) uma audiência. Ao entrar no seu gabinete, o governante diz-lhe: «Se vem cá pedir para eu autorizar esses comunistas de que gosta, o Brecht, o Camus, o Sartre, pode ir-se embora.» Amélia pára e diz: «Então, boa tarde», e dá meia volta.

Salazar gostava do seu porte altivo e grave. Apreciava-lhe a fineza, a inteligência, a cultura. Ficava-se a ouvi-la, quando se deslocava aos ensaios gerais das suas peças (nunca ia a estreias), com curiosidade, com prazer. Ela não lhe fazia pedidos, ele não lhe agredia a independência.

ANCIÃ BELÍSSIMA

Aos 90 anos, Amélia Rey Colaço era uma anciã belíssima, serena por fora, vibrátil por dentro. Luminosidades intensas fulguravam-lhe com frequência o olhar, como se a alma, a energia se quisessem libertar do corpo que as arqueava.

Era um ser notável de sedução, de ironia, de humildade, de orgulho. Como poucos, sabia aproximar-se e distanciar-se, revelar-se e ocultar-se. Tornou-se numa personagem ficcionada, encenada por si própria com, por vezes, genialidade.

O reverso dos aplausos, das benesses, chegar-lhe-ia penosamente à medida que a companhia se decompunha por incêndios, por bloqueios, por incomprensões, em agonia lenta, densa. «O meio fechou-se, os críticos estavam, no final, contra nós», recorda-nos Mariana Rey Monteiro.
Em princípios de 1974, Amélia Rey Colaço regressa ao S. Luiz, de onde partira. O ciclo fecha-se. Pouco depois dá-se o 25 de Abril. Percebendo que a vão encarar como um símbolo do Estado Novo, suspende a companhia e sai de cena.

Assume a injustiça com dignidade, com discrição. Em silêncios imerge no outro lado da ribalta, o da penumbra, o do apagamento. Para trás dela ficam - o futuro irá comprová-lo - espectáculos (a Castro, O Processo de Jesus, A Visita da Velha Senhora, Tango) que são obras-primas, patrimónios preciosos da nossa cultura, da nossa memória.

RECORDAÇÕES NEFASTAS

«Incêndios em teatros», e «datas em 8» perseguiram dramaticamente a actriz durante a vida. Quatro edifícios onde actuou foram, com efeito, pasto das chamas, ruindo dois por completo.

A série começa no São Luiz (ex-Teatro República), que arde pouco antes de Amélia se estrear. Logo a seguir, o fogo obriga-a a deixar o Trindade, onde se instalara. Radicada no D. Maria, por concessão pública, vê as labaredas reduzirem-no a escombros na noite de 2 de Dezembro de 1964. Três anos mais tarde, o Avenida, onde se acolhera, transforma-se em cinzas. Novo incêndio (no Capitólio) obriga-a, em 1970, a nova mudança (para o Trindade).

As datas terminadas em 8 revelam-se-lhe; entretanto (anota a revista Guia na sua última edição), um flagelo. A avó materna e o pai, por exemplo, falecem em 1928, a mãe em 1938, o marido e o genro em 1958.

Dificuldades graves obrigam-na a deixar, em 1968, a moradia onde nascera, na Lapa. A sua companhia é oficialmente extinta em 1988, altura em que a actriz se vê obrigada a leiloar o recheio da casa do Dafundo (cedida pela marquesa do Cadaval) e a abandoná-la. A 8 de Julho morre, em Lisboa, junto da filha.

TEXTO DE FERNANDO DACOSTA - In Revista "Visão", Lisboa, 26 de Fevereiro de 1998

sexta-feira, março 11, 2005

Pedro Barroso - Impressões do Concerto


Pedro Barroso

Assisti esta quinta-feira, dia 10 de Março, ao concerto (ou convívio, como ele próprio apelidou) de Pedro Barroso, no Forúm Lisboa.
Foram duas horas e meia de puro prazer musical e linguístico.
Pedro Barroso, que comemora 35 anos de carreira, nada tem já a provar.
É um poeta irónico e carregado de humor, sempre com umas boas "ferruadas" prontas a serem lançadas para o ar.
Mas acima de tudo Pedro Barroso é um homem que emociona. Emociona pelas palavras, emociona pela postura, emociona pela voz(eirão).
O concerto, em modos bem intimistas, tinha na assistência uma geração bem representada - a dos que viveram e fizeram o 25 de Abril e, portanto, em perfeita sintonia com o anfitrião da noite.
Numa "rapsódia" que durou cerca de 10 minutos, Pedro Barroso evocou/homenageou grandes figuras da canção de intervenção, poetas e outros cantores. Fanhais, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. Mas o ponto alto, pela emoção que causou, foi a referência a José Afonso. A sala em unissono entoou emocionada as palavras de Zeca. A meu lado, um casal deu as mãos de forma forte e comovente, levando-as aos lábios para as beijar... aquele gesto foi, concerteza, o mesmo gesto tantas vezes feito em horas de luta durante a vida, o gesto feito quando festejaram nas ruas o dia de 25 de Abril de 1974. Foi, de longe, o mais bonito gesto que alguma vez presenciei.
Pedro Barroso não esqueceu porém Ary dos Santos, Sofia de Mello Breyner, António Gedeão ou Manuel Alegre. Falou de Natália Correia, caricaturando-a de forma respeitosa e divertida, ilustrando os seus jeitos e trejeitos megalómanos.
Mas a gargalhada sadia mais forte surge quando homenageia Simone de Oliveira, frisando ser admirador e respeitador da mulher e da obra. Confesso que me surpreendeu.
Não raras vezes ouvimos apelidar Simone de Oliveira como "mulher do regime Salarista", "simpatizante do regime".... etc. Mas também se disse o mesmo de Amália Rodrigues, de Almada Negreiros ou de Amélia Rey Colaço. Disparates.... E muito me alegrou ouvir a homenagem feita a Simone. Afinal, foi ela que cantou a Desfolhada de Ary e que teve, na sua chegada a Santa Apolónia após o Festival da Canção em 1969, a maior manifestação espontânea de sempre em Portugal, sem contar com o 25 de Abril. Simone de Oliveira ofereceu, a todos os portugueses, ao cantar o Ary, um primeiro raio de luz, de esperança, de um Portugal Novo possível.
E o "convívio" continuou, com alusões a vários episódios da História de Portugal e dos Portugueses. Houve ainda tempo de descrever os Romanos (os da era antiga, entenda-se) como sendo "sujeitos de saias de cabedal por cima do joelho e piaçaba na cabeça".
Pedro Barroso declamou de forma comovente alguns dos seus poemas, publicados num livro recentemente editado.
Antes de tudo, Pedro Barroso é um mestre de brincar e ironizar com as palavras e os seus sentidos, criando jogos de ideias e significações brilhantes.
Mas o que rege toda a escrita e música de Pedro Barroso é o amor/ódio/desencanto/confusão a Portugal. Acho mesmo que a palavra Portugal poderia ser o sub-título de todas as suas composições.
Bem haja Pedro pela belíssima noite. Que, como havias pedido, daqui a 35 anos estejamos de novo naquela sala a ouvir-te.
Ah.... um aviso a todos os que lerem este texto... o Pedro Barroso pediu que, quando falecesse, não digam nos Telejornais que - "Faleceu o músico de 'Menina dos Olhos de Água', Pedro Barroso" - Ele pede que se diga que tem mais quatrocentas e tal músicas além dessa.... variem...
Anúncio confidencial


Arranja-me um fio de prata dois silêncios e um sorriso
e desaperta no peito dois botões p'ro paraíso
e dá-me beijos na testa quando começar o dia
sorri-me longa a manhã no teu corpo devagar
sendo horas de nascer tu sabes o teu lugar
de dia estamos distantes como quem não dá por isso
mas pressentimos no corpo uma espécie de feitiço
responde à posta restante anúncios confidenciais
se não existires eu faço-te
já esculpi outras que tais
que às vezes ao fim da tarde quando me vem cansaço
vou atirar-me p´ro maple e encontro o teu regaço
e tu dizes coisas andas zangada comigo
e eu fico na plateia e nem sei bem o que digo
e irritada tu beijas resvalas mordes ondulas
e eu que andava tão longe quando m'insultas e pulas
eu transformo-me da pedra em ondas gaivotas mar
e eu que não estava ali reparo nas tuas pernas
reparo na tua boca
e passo de novo a estar
reparo na tua boca que eu nunca soube explicar
e sinto incêndios nas veias e sinto incêndios no mar
vêm aí horas ternas são horas de mergulhar
desculpa Mundo - já demos!... São horas de te esquecer
são horas de enlouquecer - desculpa lá vou fechar...

(música e letra de Pedro Barroso in LP «Pedro Barroso», 1988)

Viriato



Trago comigo uma guitarra para a viagem
na minha voz esta canção antiga
tenho nos olhos mais do que a paisagem
a memória e o sal da gente amiga
não feneceu ainda em mim o velho sonho
trago na ideia uma razão e um sentido
que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha
e a esse mar que em mim navega tudo é devido
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
É do verde e fresco Minho que eu vos falo
e dessa calma alentejana que nos cala
e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo
e é em Sagres que essa história mais nos fala
lá nas Atlântidas perdidas de um sonho
ou num velho cacilheiro que nos leva
e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,
todo um mundo que nos lembra e que celebra
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
(letra e música de Pedro Barroso in CD "Cantos D' Oxalá", 1996)

quinta-feira, março 10, 2005

Amália Rodrigues


Amália Rodrigues

Mensagem do Presidente da República Portuguesa aquando da morte de Amália Rodrigues

Homenagem Nacional a Amália Rodrigues

Lisboa 08 de Julho de 2001

Cumpre-se, hoje, a decisão tomada, por unanimidade, pela Assembleia da República de conceder honras de Panteão Nacional a Amália Rodrigues. Esta é uma grande homenagem nacional, prestada em nome do Povo português, que reconheceu em Amália a altura de um símbolo colectivo.

A voz de Amália, essa voz criadora, transformou-lhe a vida em destino. Amália fez da sua voz uma pátria, um bilhete de identidade, dela e nosso, um passaporte que a levou, que nos levou, a todo o lado. Extraordinária vida a dela, a primeira mulher a entrar no nosso Panteão, que alcançou ser ouvida em todo o Mundo.

Iniciada num bairro popular de Lisboa, com raízes beirãs, a sua biografia é a história da fidelidade ao coração, à voz, à vocação, ao fado. Talvez por isso ela gostasse tanto de acentuar o que havia de involuntário e, por isso mesmo, de fatal no que lhe foi acontecendo. Isso que prodigiosamente lhe foi acontecendo constituiu a sua carreira, que durou mais de cinquenta anos e foi das mais gloriosas do século XX.

Amália conheceu o sucesso absoluto mal começou a cantar em público – primeiro, em Portugal; depois, no estrangeiro. Cantou nas mais míticas salas de espectáculo de todos os continentes. Deu ao Fado uma ressonância universal. Foi aclamada, idolatrada, comparada aos maiores nomes de sempre. Tudo o que fez, marcou, mesmo no cinema ou no teatro. Há versos da sua autoria que são belíssimos. Quem alguma vez viu Amália num palco não esqueceu mais o seu carisma, a sua entrega total ao público, feita de mistério, de generosidade, de dádiva.

No Retiro da Severa ou no Café Luso, em Tóquio ou em Paris, em Nova Iorque ou em Moscovo, em Telavive ou em Beirute, no Rio de Janeiro ou em Roma, por onde passou, foi provocando adoração.

Houve gente que aprendeu a falar português apenas para entender as palavras dos seus fados. Figuras tão prestigiadas e diferentes como Orson Welles, Yehudi Menuhin, Marguerite Yourcenar, Sofia Loren, Vinicius de Moraes, Rodolf Nureyev, Pedro Almodóvar falaram dela com um apreço excepcional. Recebeu, ao longo dos anos, os mais prestigiados prémios e as mais altas condecorações. Nos anos 70, a Unesco editou um disco com interpretações de Amália, Maria Callas e John Lennon.

No entanto, e apesar desta carreira internacional única, sentimos que, ao falar de Amália, estamos a falar de alguém que permaneceu sempre próximo de nós. Na casa da Rua de S. Bento, no campo onde colhia flores, nas ruas de Lisboa, encontrávamos a Amália de sempre, com a sua grande inteligência intuitiva, a sensibilidade apuradíssima, a sua naturalidade desarmante, a fidelidade à amizade, o seu bom gosto.

Nos momentos de glória ou nos momentos difíceis, vimo-la sempre igual a si mesma – livre, simples e subtil, cultivando uma irónica distância em relação a si própria, mas possuindo a consciência exacta de quem era e do que representava.

A obra que nos legou é, ao mesmo tempo, popular e erudita, antiga e moderna, portuguesa e universal. Quando escutamos o “Ai, Mouraria”, com música de Frederico Valério, ou o “Com que Voz”, com música de Alain Oulman; quando a ouvimos cantar os poemas de D. Dinis, Camões, Junqueiro, Régio, O’Neill, Homem de Mello, Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, Ary dos Santos e os dela própria, damo-nos conta dos múltiplos e assombrosos recursos do seu talento, das metamorfoses do seu génio trágico. Como todos os autênticos criadores, foi por vezes incompreendida.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Estamos aqui reunidos, familiares, amigos, admiradores, músicos que a acompanharam, para honrar a memória de Amália. Fazêmo-lo, com a saudade que ela disse ser toda dela, com gratidão, com reconhecimento.

Saudade da sua presença tão forte. Gratidão, pelo que nos deu – nos continua a dar - de encantamento, de beleza, de revelação. Reconhecimento, pelo muito que prestigiou Portugal e projectou a nossa cultura no Mundo.

A Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, que, em vida, por ocasião da homenagem prestada na Expo’98, lhe anunciei, e com que agora a condecoro, a título póstumo, é um testemunho desse reconhecimento.

Neste fim de tarde de Julho, o mês do seu nascimento, não muito longe do rio que foi espelho da sua voz, frente a este Panteão que ficará depositário da sua memória, de uma memória que não pertence a ninguém, particularmente, porque é de todos, neste momento de homenagem, temos uma certeza.

A certeza de que os grandes artistas como Amália não morrem. Vivem pela e na obra que legam. Quando, nas gravações que nos deixou, ouvimos a voz genial de Amália, sentimos de novo a sua presença, com uma força e uma intensidade que a tornam viva. Por isso, podemos dizer que a sua lembrança prevalecerá sobre o esquecimento, pois, como a sua voz, pertence ao futuro. Ao entregá-la a este templo civil da memória, é às gerações futuras que a entregamos. O canto de Amália será sempre um apelo, uma descoberta – a nossa própria descoberta. Em nome de Portugal, obrigado, Amália!

terça-feira, março 08, 2005

OS MEUS DISCOS - CANTIGAS DE AMIGOS


Natália, Amália e Ary dos Santos

Vou aproveitar este blog para falar dos meus discos favoritos, sejam eles de música ou de poesia.
E começo por um que é uma pérola. Quer pelos seus autores, quer pela selecção efectuada dos textos.
Chama-se "CANTIGAS DE AMIGOS" e junta Amália Rodrigues, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos. A capa deste disco é da autoria de Maluda. Já viram que mistura explosiva...
Mas o que resulta dele é absolutamente genial. A capacidade vocal de Amália, com a sua extraordinária dicção, a megalomania de Natália Correia e a brutalidade de Ary dos Santos resultam que nem ginjas... são minutos de puro deleite e prazer.... cada palavra dita faz-nos vibrar que nem cordas de guitarra.
Infelizmente este disco não conhece edição em CD, o que me parece incompreensível e, acima de tudo, um crime.
Do lado A deste disco constam:
- Vim esperar o meu amigo, Cantiga de Amigo (Tenção) de Bernaldo de Bonaval, com Amália e Ary
- Vem comigo irmã, Cantiga de Amigo de Fernando Esguio, com Natália
- Perigosas elas são, Cantigo de Escárnio de D. Afonso X de Castela e de Leão, o Sábio, com Ary
- Ah quisesse Deus, Cantiga de Amigo de D. Dinis, com Amália
- Senhora que bem pareceis, Cantiga de Amor de Mestria de D. Dinis, com Ary
- ... E pedem-me agora o que não devia, Cantiga de Amigo de João Garcia de Guilhade, com Amália
- O rapinante, Cantiga de Escárnio de João Airas, de Santiago, com Natália
- Uma pastora delgada, Cantiga de Amigo (Pastorela) de D. Dinis, com Ary e Natália
Do lado B constam:
- Lá vão as flores, Cantiga de Amigo de Paio Gomes Charinho, com Amália
- Nem por rei ou infante, eu me trocaria, Cantiga de Amor de Refrão de D. Dinis, com Ary
- Sejamos como toda a gente, Cantiga de Amigo de Mestria de João Garcia de Guilhade, com Natália
- Ermida de São Simeão, Cantiga de Amigo de Mendinho, com Amália
- Ai Dona Feia foste-vos queixar, Cantiga de Maldizer de João Garcia de Guilhade, com Ary
- Amores eu tenho, Cantiga de Amigo (Tenção) de Pero Meogo, com Amália e Natália
- Alegre eu ando, Cantiga de Amigo (Alba) de Nuno Fernandes Torneol, com Natália
Transparece, em cada uma das Cantigas, o cuidado e a paixão que cada trovador deste disco tem pelas palavras.
Claro está que a adaptação das cantigas ficou a cargo de Natália Correia, algo aliás que vem já ameaçado no albúm "Amália e Vinicius", recentemente editado em CD, onde Natália também participa e nos diz que está a fazer uma adaptação do Cancioneiro Medieval para português "recente".
Engraçadissimo também é o texto que nos aparece na contra-capa do albúm, escrito por Ary dos Santos, e que a seguir vos transcrevo:


" Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas.
Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos, o Pedro e o Joel, ajudavam muito. E a Amália deu-lhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos.
O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra.
Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média.
Parece uma história para meninos, é certo. Mas não é verdade que, no Natal, todos gostamos de nos sentirmos um pouco mais crianças? Ou anjos com caracóis de fios de ovos, como diz a Natália...


José Carlos Ary dos Santos"


segunda-feira, março 07, 2005

LADY MACBETH - MARIANA REY MONTEIRO

MARIANA REY MONTEIRO
Esta espantosa fotografia (de uma beleza e de uma força que não se explica) pertence à Revista de "O Século Ilustrado", nº 1404, de 28 de Novembro de 1964, na semana de estreia de "Macbeth" no Teatro Nacional D. Maria II, sob a encenação de "Sir" Michael Benthal.
Diz-se que esta famosa peça de Shakespeare está envolta numa maldição terrivel... BBBBBUUUUUUU....
Vamos lá ver se consigo, em poucas palavras, resumi-la.
Parece que quando se leva à cena tal obra (MACBETH), a actriz que representa o papel principal, o de "Lady Macbeth", tem que ter umas certas atenções especiais.
Se a memória não me falha, ela tem que murmurar umas quantas deixas do texto da peça ou cantarolar umas tantas rezas antes de entrar em cena, ou chatice da grossa acontecerá...
Claro que os mais cepticos não acreditam em nada disto mas... como diz a outra - "eu não acredito em bruxas, mas que as há... HÁ". E o certo é que temos imensos relatos de desgraças ou acidentes em teatros acontecidos durante as representações desta peça de Shakespeare.
E como não há desgraça que Portugal não acolha, também levámos com a de Macbeth...
A prová-lo está o nº 1405 da Revista "O Século Ilustrado", em que na capa aparece-nos o Teatro Nacional D. Maria II em chamas, num incêndio que o destruiu por completo.
É verdade.
Uma semana após a estreia, e todo o teatro ficou reduzido a cinzas, destruindo todo o material que a extraordinária Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro havia fabricado e guardado durante anos de intensa actividade artística: cenários, figurinos, projectos...
Não é extraordinário? Será coincidência? Coisa estranha...
Só não sei porque tornaram a levantar o Teatro Nacional.... assim como assim não se passa lá nada... bom, quer dizer, abriga da chuva... já não é mau...
Prometo que amanhã coloco a imagem da capa da revista aqui no blog.
As coisas que se descobrem nos alfarrabistas.... vale muito a pena cheiriscar...

SEBASTIÃO DE MAGALHÃES LIMA


Magalhães Lima

Para os interessados (admiradores, amigos e estudiosos) faz-se aviso de que se encontra já publicada a Tese de Mestrado de Maria Rita Lino Garnel, com o titulo "A República de Sebastião de Magalhães Lima", pela editora Livros Horizontes.
Para atiçar os apetites aqui fica um escrito elogioso (de propaganda política, entenda-se) de Rafael Bordalo Pinheiro sobre Magalhães Lima, o fundador do jornal "O Século".
Sebastião de Magalhães Lima
Tem todo o enthusiasmo, toda a sinceridade, toda a honradez, toda a persistencia d'um rapaz compenetrado d'uma ideia nobre e elevada! É seguramente uma das physionomias mais sympathicas para as classes populares da nossa capital, para aquellas que teem assistido ao espantoso movimento republicano d'estes ultimos tres annos.

Magalhães Lima é perfeitamente um arrojado! É um typo completo do jornalista revolucionario, do jornalista atrevido, que sente a força e o enthusiasmo na lucta pelas ideias grandes, exhaltando-se com a mesma aspiração elevada que elle procura fazer comprehendida d'um grupo menos ilustrado.

Formado em Direito, Magalhães Lima, dedicou-se primeiro á litteratura onde conquistou um lugar distincto. O jornalismo politico, porém, attrahia-o, e a sua aspiração democratica arrastava-o para a lucta. Fundou o Commercio de Portugal, jornal declaradamente republicano, d'onde depois teve de sair pelos attrictos conservadores que ali encontrou, para ir fundar O Seculo. O Seculo é especialmente a sua grande obra, aquella que mais o tem elevado, e mais o tem collocado na consideração e no respeito do publico.

Quando na legislatura passada, Lourenço Marques estava sendo presa da ambição britannica, O Seculo tomou a mais notavel attitude patriotica. Esse jornal era vendido aos milhares por toda a parte, e Magalhães Lima tendo a seu lado homens d'um grande e vigoroso talento como Alexandre da Conceição, Augusto Rocha, Manuel d'Arriaga, Theophilo Braga, Gomes Leal e outros, fez a mais temivel das propagandas e deu a queda ao ministerio progressista. É este o seu grande, o seu enorme trabalho!

Magalhães Lima na imprensa é o jornalista fogoso, arrebatado, dispondo d'uma palavra cortante, que fére no lombo d'uma instituição, como uma chicotada violenta. Magalhães Lima no meeting é o tribuno ardente que inflamma milhares de pessoas com a sua palavra fluentissima e accendida, a que o gesto e a physionomia dão uma grande expressão de força e de sinceridade.

Magalhães Lima na vida intima é o mais honesto e o mais querido dos rapazes, é uma alma bôa e um coração generoso. Dedicando-se devotadamente á causa republicana, passando por ella os maiores dissabores, vendo alguns dos seus collegas processados, preso Gomes Leal, O Seculo prestes a ser supprimido, Magalhães Lima continua ainda e sempre com o mesmo enthusiasmo, a mesma fé, o mesmo ardor, que é o das consciencias fortes e impollutas.

O movimento republicano deve-lhe muito, muitissimo até! A sua guerra franca e aberta ás instituições velhas e decadentes, vacillantes e verminadas, tem sido implacavel e rigido. O Seculo tem dado os mais certeiros e fundos golpes.

Pois bem! Este homem tem necessidade absoluta de exercer a sua influencia n'outras regiões. Depois de educar e de enthusiasmar nos comicios, precisa corrigir e emendar no parlamento. Tem de ir ahi fazer a revolução, prégando a verdade. Assim, eleitores, filhos do povo, o vosso unico movimento será votar n'estas eleições por este nome que é só por si uma garantia e uma esperança, o nome de: Sebastião de Magalhães Lima.