quinta-feira, março 10, 2005

Mensagem do Presidente da República Portuguesa aquando da morte de Amália Rodrigues

Homenagem Nacional a Amália Rodrigues

Lisboa 08 de Julho de 2001

Cumpre-se, hoje, a decisão tomada, por unanimidade, pela Assembleia da República de conceder honras de Panteão Nacional a Amália Rodrigues. Esta é uma grande homenagem nacional, prestada em nome do Povo português, que reconheceu em Amália a altura de um símbolo colectivo.

A voz de Amália, essa voz criadora, transformou-lhe a vida em destino. Amália fez da sua voz uma pátria, um bilhete de identidade, dela e nosso, um passaporte que a levou, que nos levou, a todo o lado. Extraordinária vida a dela, a primeira mulher a entrar no nosso Panteão, que alcançou ser ouvida em todo o Mundo.

Iniciada num bairro popular de Lisboa, com raízes beirãs, a sua biografia é a história da fidelidade ao coração, à voz, à vocação, ao fado. Talvez por isso ela gostasse tanto de acentuar o que havia de involuntário e, por isso mesmo, de fatal no que lhe foi acontecendo. Isso que prodigiosamente lhe foi acontecendo constituiu a sua carreira, que durou mais de cinquenta anos e foi das mais gloriosas do século XX.

Amália conheceu o sucesso absoluto mal começou a cantar em público – primeiro, em Portugal; depois, no estrangeiro. Cantou nas mais míticas salas de espectáculo de todos os continentes. Deu ao Fado uma ressonância universal. Foi aclamada, idolatrada, comparada aos maiores nomes de sempre. Tudo o que fez, marcou, mesmo no cinema ou no teatro. Há versos da sua autoria que são belíssimos. Quem alguma vez viu Amália num palco não esqueceu mais o seu carisma, a sua entrega total ao público, feita de mistério, de generosidade, de dádiva.

No Retiro da Severa ou no Café Luso, em Tóquio ou em Paris, em Nova Iorque ou em Moscovo, em Telavive ou em Beirute, no Rio de Janeiro ou em Roma, por onde passou, foi provocando adoração.

Houve gente que aprendeu a falar português apenas para entender as palavras dos seus fados. Figuras tão prestigiadas e diferentes como Orson Welles, Yehudi Menuhin, Marguerite Yourcenar, Sofia Loren, Vinicius de Moraes, Rodolf Nureyev, Pedro Almodóvar falaram dela com um apreço excepcional. Recebeu, ao longo dos anos, os mais prestigiados prémios e as mais altas condecorações. Nos anos 70, a Unesco editou um disco com interpretações de Amália, Maria Callas e John Lennon.

No entanto, e apesar desta carreira internacional única, sentimos que, ao falar de Amália, estamos a falar de alguém que permaneceu sempre próximo de nós. Na casa da Rua de S. Bento, no campo onde colhia flores, nas ruas de Lisboa, encontrávamos a Amália de sempre, com a sua grande inteligência intuitiva, a sensibilidade apuradíssima, a sua naturalidade desarmante, a fidelidade à amizade, o seu bom gosto.

Nos momentos de glória ou nos momentos difíceis, vimo-la sempre igual a si mesma – livre, simples e subtil, cultivando uma irónica distância em relação a si própria, mas possuindo a consciência exacta de quem era e do que representava.

A obra que nos legou é, ao mesmo tempo, popular e erudita, antiga e moderna, portuguesa e universal. Quando escutamos o “Ai, Mouraria”, com música de Frederico Valério, ou o “Com que Voz”, com música de Alain Oulman; quando a ouvimos cantar os poemas de D. Dinis, Camões, Junqueiro, Régio, O’Neill, Homem de Mello, Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, Ary dos Santos e os dela própria, damo-nos conta dos múltiplos e assombrosos recursos do seu talento, das metamorfoses do seu génio trágico. Como todos os autênticos criadores, foi por vezes incompreendida.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Estamos aqui reunidos, familiares, amigos, admiradores, músicos que a acompanharam, para honrar a memória de Amália. Fazêmo-lo, com a saudade que ela disse ser toda dela, com gratidão, com reconhecimento.

Saudade da sua presença tão forte. Gratidão, pelo que nos deu – nos continua a dar - de encantamento, de beleza, de revelação. Reconhecimento, pelo muito que prestigiou Portugal e projectou a nossa cultura no Mundo.

A Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, que, em vida, por ocasião da homenagem prestada na Expo’98, lhe anunciei, e com que agora a condecoro, a título póstumo, é um testemunho desse reconhecimento.

Neste fim de tarde de Julho, o mês do seu nascimento, não muito longe do rio que foi espelho da sua voz, frente a este Panteão que ficará depositário da sua memória, de uma memória que não pertence a ninguém, particularmente, porque é de todos, neste momento de homenagem, temos uma certeza.

A certeza de que os grandes artistas como Amália não morrem. Vivem pela e na obra que legam. Quando, nas gravações que nos deixou, ouvimos a voz genial de Amália, sentimos de novo a sua presença, com uma força e uma intensidade que a tornam viva. Por isso, podemos dizer que a sua lembrança prevalecerá sobre o esquecimento, pois, como a sua voz, pertence ao futuro. Ao entregá-la a este templo civil da memória, é às gerações futuras que a entregamos. O canto de Amália será sempre um apelo, uma descoberta – a nossa própria descoberta. Em nome de Portugal, obrigado, Amália!

terça-feira, março 08, 2005

OS MEUS DISCOS - CANTIGAS DE AMIGOS


Natália, Amália e Ary dos Santos

Vou aproveitar este blog para falar dos meus discos favoritos, sejam eles de música ou de poesia.
E começo por um que é uma pérola. Quer pelos seus autores, quer pela selecção efectuada dos textos.
Chama-se "CANTIGAS DE AMIGOS" e junta Amália Rodrigues, Natália Correia e José Carlos Ary dos Santos. A capa deste disco é da autoria de Maluda. Já viram que mistura explosiva...
Mas o que resulta dele é absolutamente genial. A capacidade vocal de Amália, com a sua extraordinária dicção, a megalomania de Natália Correia e a brutalidade de Ary dos Santos resultam que nem ginjas... são minutos de puro deleite e prazer.... cada palavra dita faz-nos vibrar que nem cordas de guitarra.
Infelizmente este disco não conhece edição em CD, o que me parece incompreensível e, acima de tudo, um crime.
Do lado A deste disco constam:
- Vim esperar o meu amigo, Cantiga de Amigo (Tenção) de Bernaldo de Bonaval, com Amália e Ary
- Vem comigo irmã, Cantiga de Amigo de Fernando Esguio, com Natália
- Perigosas elas são, Cantigo de Escárnio de D. Afonso X de Castela e de Leão, o Sábio, com Ary
- Ah quisesse Deus, Cantiga de Amigo de D. Dinis, com Amália
- Senhora que bem pareceis, Cantiga de Amor de Mestria de D. Dinis, com Ary
- ... E pedem-me agora o que não devia, Cantiga de Amigo de João Garcia de Guilhade, com Amália
- O rapinante, Cantiga de Escárnio de João Airas, de Santiago, com Natália
- Uma pastora delgada, Cantiga de Amigo (Pastorela) de D. Dinis, com Ary e Natália
Do lado B constam:
- Lá vão as flores, Cantiga de Amigo de Paio Gomes Charinho, com Amália
- Nem por rei ou infante, eu me trocaria, Cantiga de Amor de Refrão de D. Dinis, com Ary
- Sejamos como toda a gente, Cantiga de Amigo de Mestria de João Garcia de Guilhade, com Natália
- Ermida de São Simeão, Cantiga de Amigo de Mendinho, com Amália
- Ai Dona Feia foste-vos queixar, Cantiga de Maldizer de João Garcia de Guilhade, com Ary
- Amores eu tenho, Cantiga de Amigo (Tenção) de Pero Meogo, com Amália e Natália
- Alegre eu ando, Cantiga de Amigo (Alba) de Nuno Fernandes Torneol, com Natália
Transparece, em cada uma das Cantigas, o cuidado e a paixão que cada trovador deste disco tem pelas palavras.
Claro está que a adaptação das cantigas ficou a cargo de Natália Correia, algo aliás que vem já ameaçado no albúm "Amália e Vinicius", recentemente editado em CD, onde Natália também participa e nos diz que está a fazer uma adaptação do Cancioneiro Medieval para português "recente".
Engraçadissimo também é o texto que nos aparece na contra-capa do albúm, escrito por Ary dos Santos, e que a seguir vos transcrevo:


" Era uma vez um livro muito bonito, que cheirava muito bem. Umas vezes a flores, outras vezes a urtigas. Mas a urtigas sadias. Tinha sido feito pela Natália Correia que o desenterrara de alfarrábios muito, muito velhos, com mãos de chama e de poeta. Escusado será, pois, dizer que o livro era de poemas.
Eis senão quando, uma bela noite em casa da Amália, os tais poemas sairam das páginas e ganharam voz. Pareciam ervas dançando no meio da sala. O Fontes Rocha foi-os apanhando um a um e fez com eles um feixe de música. O Carlos, o Pedro e o Joel, ajudavam muito. E a Amália deu-lhes um nome como só ela sabe: Cantigas de Amigos.
O resto? O resto foi apenas convivio e entendimento perfeitos. Às vezes, pela meia-noite, os poemas tinham fome e comiam sopa de coentros e arroz de bacalhau. O Rui e o João também apareceram e ficaram calados que nem ratos ao pé do Ribeiro, que é um mágico que sabe fazer música com luzes, enquanto este regia a orquestra.
Depois, chegou a bruxa Maluda (que por sinal é bem bonita) a cavalo numa vassoura, com um pincel e uma tesoura. E zás, pôs-nos a todos na Idade Média.
Parece uma história para meninos, é certo. Mas não é verdade que, no Natal, todos gostamos de nos sentirmos um pouco mais crianças? Ou anjos com caracóis de fios de ovos, como diz a Natália...


José Carlos Ary dos Santos"


segunda-feira, março 07, 2005

LADY MACBETH - MARIANA REY MONTEIRO

MARIANA REY MONTEIRO
Esta espantosa fotografia (de uma beleza e de uma força que não se explica) pertence à Revista de "O Século Ilustrado", nº 1404, de 28 de Novembro de 1964, na semana de estreia de "Macbeth" no Teatro Nacional D. Maria II, sob a encenação de "Sir" Michael Benthal.
Diz-se que esta famosa peça de Shakespeare está envolta numa maldição terrivel... BBBBBUUUUUUU....
Vamos lá ver se consigo, em poucas palavras, resumi-la.
Parece que quando se leva à cena tal obra (MACBETH), a actriz que representa o papel principal, o de "Lady Macbeth", tem que ter umas certas atenções especiais.
Se a memória não me falha, ela tem que murmurar umas quantas deixas do texto da peça ou cantarolar umas tantas rezas antes de entrar em cena, ou chatice da grossa acontecerá...
Claro que os mais cepticos não acreditam em nada disto mas... como diz a outra - "eu não acredito em bruxas, mas que as há... HÁ". E o certo é que temos imensos relatos de desgraças ou acidentes em teatros acontecidos durante as representações desta peça de Shakespeare.
E como não há desgraça que Portugal não acolha, também levámos com a de Macbeth...
A prová-lo está o nº 1405 da Revista "O Século Ilustrado", em que na capa aparece-nos o Teatro Nacional D. Maria II em chamas, num incêndio que o destruiu por completo.
É verdade.
Uma semana após a estreia, e todo o teatro ficou reduzido a cinzas, destruindo todo o material que a extraordinária Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro havia fabricado e guardado durante anos de intensa actividade artística: cenários, figurinos, projectos...
Não é extraordinário? Será coincidência? Coisa estranha...
Só não sei porque tornaram a levantar o Teatro Nacional.... assim como assim não se passa lá nada... bom, quer dizer, abriga da chuva... já não é mau...
Prometo que amanhã coloco a imagem da capa da revista aqui no blog.
As coisas que se descobrem nos alfarrabistas.... vale muito a pena cheiriscar...

SEBASTIÃO DE MAGALHÃES LIMA


Magalhães Lima

Para os interessados (admiradores, amigos e estudiosos) faz-se aviso de que se encontra já publicada a Tese de Mestrado de Maria Rita Lino Garnel, com o titulo "A República de Sebastião de Magalhães Lima", pela editora Livros Horizontes.
Para atiçar os apetites aqui fica um escrito elogioso (de propaganda política, entenda-se) de Rafael Bordalo Pinheiro sobre Magalhães Lima, o fundador do jornal "O Século".
Sebastião de Magalhães Lima
Tem todo o enthusiasmo, toda a sinceridade, toda a honradez, toda a persistencia d'um rapaz compenetrado d'uma ideia nobre e elevada! É seguramente uma das physionomias mais sympathicas para as classes populares da nossa capital, para aquellas que teem assistido ao espantoso movimento republicano d'estes ultimos tres annos.

Magalhães Lima é perfeitamente um arrojado! É um typo completo do jornalista revolucionario, do jornalista atrevido, que sente a força e o enthusiasmo na lucta pelas ideias grandes, exhaltando-se com a mesma aspiração elevada que elle procura fazer comprehendida d'um grupo menos ilustrado.

Formado em Direito, Magalhães Lima, dedicou-se primeiro á litteratura onde conquistou um lugar distincto. O jornalismo politico, porém, attrahia-o, e a sua aspiração democratica arrastava-o para a lucta. Fundou o Commercio de Portugal, jornal declaradamente republicano, d'onde depois teve de sair pelos attrictos conservadores que ali encontrou, para ir fundar O Seculo. O Seculo é especialmente a sua grande obra, aquella que mais o tem elevado, e mais o tem collocado na consideração e no respeito do publico.

Quando na legislatura passada, Lourenço Marques estava sendo presa da ambição britannica, O Seculo tomou a mais notavel attitude patriotica. Esse jornal era vendido aos milhares por toda a parte, e Magalhães Lima tendo a seu lado homens d'um grande e vigoroso talento como Alexandre da Conceição, Augusto Rocha, Manuel d'Arriaga, Theophilo Braga, Gomes Leal e outros, fez a mais temivel das propagandas e deu a queda ao ministerio progressista. É este o seu grande, o seu enorme trabalho!

Magalhães Lima na imprensa é o jornalista fogoso, arrebatado, dispondo d'uma palavra cortante, que fére no lombo d'uma instituição, como uma chicotada violenta. Magalhães Lima no meeting é o tribuno ardente que inflamma milhares de pessoas com a sua palavra fluentissima e accendida, a que o gesto e a physionomia dão uma grande expressão de força e de sinceridade.

Magalhães Lima na vida intima é o mais honesto e o mais querido dos rapazes, é uma alma bôa e um coração generoso. Dedicando-se devotadamente á causa republicana, passando por ella os maiores dissabores, vendo alguns dos seus collegas processados, preso Gomes Leal, O Seculo prestes a ser supprimido, Magalhães Lima continua ainda e sempre com o mesmo enthusiasmo, a mesma fé, o mesmo ardor, que é o das consciencias fortes e impollutas.

O movimento republicano deve-lhe muito, muitissimo até! A sua guerra franca e aberta ás instituições velhas e decadentes, vacillantes e verminadas, tem sido implacavel e rigido. O Seculo tem dado os mais certeiros e fundos golpes.

Pois bem! Este homem tem necessidade absoluta de exercer a sua influencia n'outras regiões. Depois de educar e de enthusiasmar nos comicios, precisa corrigir e emendar no parlamento. Tem de ir ahi fazer a revolução, prégando a verdade. Assim, eleitores, filhos do povo, o vosso unico movimento será votar n'estas eleições por este nome que é só por si uma garantia e uma esperança, o nome de: Sebastião de Magalhães Lima.

quinta-feira, março 03, 2005


Madonna

Mário Viegas


Mário Viegas

ALMA MAHLER


Simone de Oliveira - Convento dos Inglesinhos

ALMA MAHLER


Simone de Oliveira - Convento dos Inglesinhos

Fotografia de Simone de Oliveira aquando da peça ALMA MAHLER, em Lisboa.

JORGE DE SENA - CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, foram sacrificados, torturados, espancados, entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue». Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seu corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecido em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereís serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

CARLOS QUEIRÓS

APELO À POESIA

Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento...
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

Poesia de Carlos Queirós