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terça-feira, agosto 30, 2005

Mais uma vez os concursos de professores

Mais um ano que passa e mais um ano em que fico sem dar aular, sem arranjar colocação. Diz-se, entre os historiadores, que a história não se repete... que apenas tem semelhanças quando certos e determinados factores se conjugam. Sabemos que em anos de muita seca, ou de muita chuva, os campos agricolas ficavam arrasados, haveria carência alimentar, levando ao aumento dos preços. Até à Idade Moderna levava, obrigatoriamente, à fome e desta para as pestes. Isto é ciclico e sabido.
Mas no caso dos concursos de professores, os factores que se conjugam não são sempre os mesmos e levam ao mesmo resultado: desemprego de milhares de pessoas que apostaram, como muitos outros em muitos áreas, a uma formação especificia com o objectivo de fazer da vida qualquer coisa de útil e benefico.
Os partidos sucedem-se no Governo; os ministros também; há reformas e contra-reformas no ensino; há novas leis que saem e outras que se revogam; há novos programas, novas pedagogias (normalmente cada uma pior que a outra), novas maneiras de se entender a escola. E qual é o resultado? Uma escola cada vez mais degradada, com professores cada vez mais incompetentes e com falta de paciência para os alunos que, com a conivência do Estado e da Familia, estudam cada vez menos, para quem o trabalho não existe, e para quem o que interessa é o recreio (que tem a sua continuidade na sala de aula) e o lazer.
Ano após anos a história repete-se com factores diferentes que se conjugam. Vejo a escola e os concursos de professores como um daqueles virus que, consoante o ambiente, as resistências e as vacinas que se arranjam, encontra maneira de se transformar, de se transmutar para conseguir sobrevivier e continuar a sua "destruição".
Haverá quarentena possivel para esta doença? Não sei. No estado avançado em que se encontra dúvido. Melhor mesmo é acabar com a espécie que serve de transmissor ao virus e recomeçar tudo de novo. Eu sugiro que se começe pelos pedagogos e supostos entendidos em educação e mandava implodir o Ministério da Educação... eu mesmo me ofereço para o detonar.
Daniel Ferreira
Os professores sem alunos
Filipe Rodrigues da Silva

A respeito do último texto deste espaço do DD, «No país dos tristes», vários leitores enviaram emails efectuando comentários sobre o mesmo.
Uns concordando. Outros discordando. Outros ainda opinando. Uns quantos questionando. E entre as questões surgidas, há uma - enviada por uma portuguesa a viver há alguns anos em França - pertinente: em que área da sociedade se deu o maior falhanço nacional?
Podemos falar das reformas do Estado que nunca chegaram. Da falta de dinâmica da economia. Da saúde. Da justiça. Mas julgo que o maior drama nacional se centra na educação, onde nenhuma política assumida pelos diferentes governos foi seguida de forma ordenada, equacionando-se muitas vezes se os sistemas adoptados haviam sido alguma vez realmente pensados para a realidade portuguesa.
O problema vai do pré-escolar às universidades. Dos programas adoptados à colocação de professores. Do início quase sempre confuso das aulas à qualidade das mesmas. Dos desejos de uma reforma do ensino às infraestruturas em degradação. Das fornadas de licenciados com cursos de papel e sem futuro à falta de preparação profissional e de saídas profissionais.
É uma luta antiga, mas que não pode ser abandonada, sob o risco de hipotecar-se o futuro do País. Uma área sensível, que não pode viver sob a instabilidade de 20 e tal ministros diferentes desde o 25 de Abril, cada um ansioso por deixar obra feita e borrar do mapa o trajecto do antecessor.
A poucas semanas do começo das aulas, foram conhecidos na segunda-feira os resultados dos concursos de professores que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação.
Os números terão as suas justificações, mas assustam. Findas as colocações, analisando-se os saldos dos récem-contratados pelo Ministério da Educação e os dos novos candidatos ao trabalho no ensino, cerca de 40 mil destes profissionais ficarão sem trabalho neste ano lectivo.
No entanto, a boa notícia é que - aparentemente - este ano lectivo vai começar sem grandes sobressaltos, ou, pelo menos, distante dos percalços do ano passado.
Notou-se um esforço meritório do Governo, de modo a garantir o arranque das aulas. Haja algo que comece a funcionar bem em Portugal.
Fica, no entanto, o drama. Estamos a salvaguardar o futuro ao dar melhores condições a milhares de jovens e a contribuir para a sua formação. Mas tal só valerá a pena se daqui a vinte ou trinta anos não houver 40 mil candidatos a professores desempregados. Desperdiçar tantos recursos é um suicídio social.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Luis Delgado - "Soares já era..."

É altamente improvável, nesta altura, que Mário Soares venha a ser o novo Presidente da República. As razões são várias, mas faça-se, apesar de tudo, o desconto dos imprevistos, mudanças de atitude, dificuldades e acontecimentos que tudo podem mudar. Em todo o caso, e se as eleições fossem agora, Soares perderia, à primeira volta, e irremediavelmente

1. Cavaco vai avançar, depois das autárquicas, e o clima político de grande desânimo, depressivo e de desconfiança nos políticos leva a que os eleitores se revejam num perfil como o do ex-PM, austero, credível, e com um capital acumulado de desempenho notável, que mais ninguém tem. A hora faz o vencedor. Soares teria outras hipóteses se este Governo tivesse cumprido o que prometeu e se o País estivesse a regressar ao seu melhor.

2. Soares é um has been, e os portugueses, mesmo os da sua cor e simpatia, gostariam de ver outras alternativas. É isso a democracia alternativa e a ideia fundamental de que todos têm a hipótese de chegar lá. O País não pode ficar refém do passado, por muito que esse fantasma resida na nossa consciência colectiva. Soares foi bom, foi tudo, e chega.

3. O aparecimento de outras candidaturas, mesmo que desistam à última hora, não ajudará o candidato Mário Soares. Haverá dispersão da mensagem, ataques mútuos, e o tempo de tapar os olhos e votar em Soares já passou. A história não se repete, por muito que se sonhe com isso.

4. A forma como Manuel Alegre, e os seus apoiantes, foi tratado não augura nada de bom para um eleitorado mais de esquerda do PS. E em teoria até se poderia dar o caso de Soares não avançar à última hora, depois de um sono bem dormido, e Alegre fazer a sua birra, com toda a razão, deixando o PS sem eira nem beira.

5. Por último, a colagem ao Governo ou o apoio de Sócrates a uma candidatura de Mário Soares não parece ser, nesta fase, um factor catalisador. Pelo contrário. Se há insatisfação, descontentamento e desilusão, isso deve-se ao Executivo e às suas entradas de leão e saídas de sendeiro. O Governo não é um balão de oxigénio para Soares, mas um incêndio descontrolado que só o pode queimar.

Luis Delgado, Diário de Noticias de 25 de Agosto de 2005

quarta-feira, agosto 24, 2005

Para que serve um primeiro-ministro - José de Matos Correia

O primeiro-ministro esteve de férias. Fez bem. As férias são um direito fundamental, constitucionalmente garantido a qualquer cidadão que trabalhe. Na sua ausência, a direcção do Executivo ficou a cargo do ministro de Estado e da Administração Interna. Compreende-se que, em circunstâncias normais, assim seja. Afinal, trata-se do n.º 2 do Governo. O problema é que, no período em que o eng. José Sócrates esteve fora, o País foi assolado por uma verdadeira onda de fogo. E, talvez por estar muito longe e por lhe causar grande transtorno, o primeiro-ministro decidiu não interromper o seu período de descanso. Fez mal. Fez mesmo muito mal.
Como seria de esperar, tal atitude deu azo a críticas várias. Críticas muito moderadas, aliás, face não só à relevância do facto, mas também ao que certamente teria ocorrido caso o episódio se tivesse passado com os dois anteriores primeiros-ministros. Mesmo assim, e sempre muito sensível aos reparos que lhe são feitos, o primeiro-ministro abespinhou-se. Acusou os seus críticos de mesquinhez e de praticarem baixa política e considerou as acusações injustas, explicando que o Governo tivera, no período da sua ausência, um primeiro-ministro - António Costa - que era, para além do mais, o responsável político com tutela sobre os mecanismos de combate aos incêndios.
Estas justificações são surpreendentes. Mais do que isso, são desastradas. Ao ouvi-las ficamos com a nítida impressão de que o eng. José Sócrates não compreende qual é o verdadeiro estatuto do primeiro-ministro no quadro do nosso sistema político-constitucional. Que ignora que o primeiro-ministro não é um mero primus inter pares, mas o chefe do Governo. E que é por isso que a sua nomeação é um acto livre do Presidente da República, enquanto que a nomeação dos ministros é algo que o Presidente só pode fazer sob proposta do próprio primeiro-ministro (art. 187.º da Constituição). Que é por isso que o primeiro-ministro é responsável perante o Presidente da República, enquanto que os ministros respondem perante o primeiro-ministro (art. 191.º da Constituição). Que é por isso que a demissão de um ministro só o afecta a ele e à sua equipa de secretários de Estado, enquanto que a demissão do primeiro-ministro implica a queda do próprio Governo (art. 195.º da Constituição).
O eng. José Sócrates tem, contudo, um entendimento diverso. Para ele, primeiro-ministro e ministros encontram-se em plano idêntico. Têm o mesmo nível de responsabilidade política. E, nessa linha, o facto de o primeiro-ministro não regressar a Portugal quando o País se debate com uma calamidade pública de grandes proporções é irrelevante, porquanto alguém estará a fazer as vezes dele.
Poderão dizer os apoiantes do primeiro-ministro que estas considerações são despropositadas, na medida em que a própria lei fundamental expressamente acolhe a possibilidade de substituição do primeiro-ministro nas suas ausências. É verdade. Só que a questão no cerne das críticas não é jurídico- -constitucional, mas puramente política. É que há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de estar ausente. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de se fazer substituir. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de delegar responsabilidades que são, por natureza, indelegáveis.
Qualquer pessoa entende que, nos momentos em que um País atravessa momentos de extrema gravidade, os cidadãos precisam de sentir que o exemplo vem de cima. Precisam de ver que o comandante assume a direcção do barco, em vez de entregar o leme ao seu imediato. Precisam de ser motivados pela presença e pelo incentivo daquele que escolheram para os dirigir.
Em vez de tudo isso, os portugueses tiveram um primeiro-ministro que achou que nada justificava a interrupção do seu lazer estival. Mas, do mal o menos. É que se ao longo dos últimos meses tinha ficado já patente que o eng. José Sócrates não servia para primeiro- -ministro, agora torna-se também evidente que ele nem sequer percebe para que é que realmente serve um primeiro-ministro.
Diário de Noticias, 24 de Agosto de 2005

terça-feira, agosto 23, 2005

No país dos tristes - Diário Digital

É o país dos incêndios. O país que não tem meios materiais e humanos para apagar fogos. Mas, atenção – enquanto o seu PIB vai ardendo -, é o país do Euro 2004 e das SCUTs.
É o país que não tem dinheiro para comprar Canadair ou manter uma frota alargada de helicópteros Puma, que actuem onde bombeiros e viaturas não chegam, entre as estradas a rasgar serras e mato que nunca foram feitas.
É o país que não possui uma política séria para a floresta e a água. Mas que projecta Otas e TGVs. E que vibra com os cifrões que virão desses cegos que visitarem o então país da terra queimada.
É o país do maior défice da zona euro. Mas, mesmo pobre entre os ricos, vai sendo o país que alegremente mais lixo foi produzindo na Europa nas últimas décadas.
É o país que vê os seus cientistas partir e não regressar. O país onde o desemprego entre os jovens assusta o mais optimista dos licenciados. O país dos doutores e engenheiros de trazer por casa. O país do desemprego de longa duração, que já dobrou o existente há cinco anos. O país das feirinhas e festas de jet set da tanga.
É o país do «´tá tudo bem» e «dá cá o meu». Que tanto condecora estrelas da TV por ter um sorriso bonito, como admite que um irlandês receba com justiça uma comenda maior da Nação, ainda que vestido de cowboy. É o país do qualquer coisa com açúcar, mas de vida amargurada.
É o país dos festivais de música e dos telemóveis. O tal país que não poupa e se endivida. O país que, no entanto, não compra CDs e livros. E onde o IVA sobre a cultura mata qualquer ilusão de adolescente.
É o país dos paradoxos. Do inexplicável. O ponto de desencontro entre as mentes curtas e as visões progressistas. A terra dos milagres. A pátria dos desenrascanços. A morada das coisas belas do mundo. E a tumba dos seus sonhos.
É o país dos incongruentes. Dos que se moldam ao saltar a fronteira. Que procria inadaptados entre os seus. Faz-se gigante nos projectos impossíveis. Fracassa quando se lhe pede para somar «um e um».
Ri-se com a alma de um sul-americano. Mas, de costas voltadas para o Velho Continente, abraça-se no lamento, vidrado sem destino em África. É o país dos tristes e dos infelizes. E não era necessário um estudo do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho para dizer isso. Portugal perdeu o sorriso. Seria preciso recuar muitos anos para encontrar um fado tão negro e carregado como este.
Portugal enterrou-se na descrença enquanto se deixava guiar pela fé. Foi-se enganando guiado pela inveja e o egoísmo. Foi fiador do maldizer da sua sorte enquanto continuava à espera de mais um outro D. Sebastião. De um Eusébio. Uma Amália. Um Variações. Ou de um totalista no euromilhões. O Portugal acomodado é tão culpado como o Portugal megalómano. E ambos merecem um valente pontapé no cu.
Filipe Rodrigues da Silva

quarta-feira, agosto 17, 2005

O país do «meio mé» - Diário Digital

Luís de Carvalho

O Verão e as férias são momentos ideais para constatar as peculiaridades do país que temos.

Estava eu na praia, eram 6 da tarde, e verifico que o nadador-salvador começava a recolher o material de salvação. Olhei em redor e vi a praia a abarrotar de gente, o dia estava esplendoroso, quente, mais pareciam 4 horas. É verdade que neste barlavento sem levante o mar está chão e os perigos, estando lá, parecem não existir. Também é verdade que se alguma emergência houvesse mais valia apostar na hipótese, razoável, de lá estar algum médico ou enfermeiro, do que ficar à espera que aquele jovem magnificamente bronzeado percebesse alguma coisa de primeiros-socorros.

Mas nada disso está em causa, o que me importunou foi ver naquela atitude, de adiantar o arrumar da casa para que às 19 horas, em ponto, o dito pudesse dar o salto rumo à folia, a atitude dos portugueses. E naquele caso nem se pode dizer que o dia tenha sido trabalhoso, mas enfim, trabalho é sempre trabalho. Mas vi na atitude daquele miúdo muitas coisas que estão mal e que, na sua diminuta dimensão, me relembraram outras, que estando igualmente mal, mas tendo uma outra dimensão, mostram de forma demasiado evidente como isto está tudo tão decrépito.

Desde logo diga-se que a atitude daquele jovem se confunde com o paradigma que temos do “funcionário público”. Mas a verdade é que aquele jovem não é um funcionário público. Assim, fica a pergunta: afinal quantos “funcionários públicos” tem este país? A verdade verdadinha é que tem muitos, muitos mais do que aqueles 700.000 de que se fala sempre que se quer encontrar uns quantos bodes expiatórios para as crises e para os défices. E, no entanto, uns melhores que outros, a verdade é que são muitos desses 700.000, de quem se contam anedotas e se ridiculariza, que todos os dias fazem trabalhar os hospitais, as escolas, os tribunais, que abrem e cuidam dos museus, que protegem o ambiente, que enviam os magros cheques da segurança social para milhões de idosos deste país, que patrulham as ruas à noite correndo risco de vida. Do outro lado estão as empresas e os empresários que buscam o lucro e que não olham a meios para o conseguirem. Uns quantos querem fazer-nos acreditar que se o país for entregue a estes torna-se melhor. Tanga! A verdade é que nestas “empresas” muitas coisas e muitas pessoas funcionam mal, e aquelas que aparentemente funcionam bem, porque dão lucro e sobem de cotação na bolsa, podem afinal estar a consegui-lo pelas piores razões.

Em suma, não é só o Estado que está mal, nem é só o Estado o culpado pelo estado a que isto chegou. E aqueles que nos querem convencer do contrário são os primeiros a saber o “porquê” e os primeiros a beneficiar do estado de tudo isto.

Olhando em redor a verdade é que chegamos à triste conclusão que este é o país do “meio mé”. A expressão, que me ocorre, vem da do ditado popular:”Nem mé, nem meio mé…”.

É que as ovelhas deste país nem se dão sequer ao trabalho de balir o “mé” todo.

segunda-feira, maio 02, 2005

A Verdade da Educação - Maria Fátima Bonifácio

Mais Dinheiro para a Educação?
Convenci-me ultimamente de que o panorama não melhoraria significativamente nem que os programas e os professores fossem todos excelentes. Não há assunto nem eloquência capazes de obrar o milagre de despertar a atenção e a curiosidade de uma massa estudantil inteiramente desinteressada em aprender e unicamente apostada em "passar". Por Maria Fátima Bonifácio
O engº. Sócrates renovou recentemente, à laia de manifesto da sua candidatura, a promessa de que com ele o país investirá a fundo na Educação (a isto se resumia o essencial da mensagem). Uma promessa que em Portugal tem sido feita, com intermitências, de há perto de duzentos anos a esta parte e que Guterres tentou erigir em desígnio digno de concitar uma "paixão" nacional. Injectou-se mais dinheiro no "sistema", promoveu-se a modernização pedagógica, reformularam-se os programas e refizeram-se os manuais. Reformas e dinheiro de nada serviram.
De há anos a esta parte, com assinalável regularidade, o país toma conhecimento de números que revelam o clamoroso fracasso da Escola. Ainda agora fomos escandalizados pela notícia de que metade dos alunos do secundário chumba nos exames nacionais do 12º ano. Desgraçadamente, este resultado encobre a péssima qualidade dos alunos que conseguem passar, chegam à Universidade quase analfabetos e saem de lá pouco melhor do que entraram. Há 25 anos que sou professora de História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Há 25 anos que observo, de ano para ano, a degradação da qualidade dos estudantes, e há 25 anos que vão sendo piores as notas que me vejo obrigada a dar, apesar de a minha complacência e tolerância terem aumentado com a idade e a sensata tendência para a acomodação que ela gera.
Convenci-me ultimamente de que o panorama não melhoraria significativamente nem que os programas e os professores fossem todos excelentes. Não há assunto nem eloquência capazes de obrar o milagre de despertar a atenção e a curiosidade de uma massa estudantil inteiramente desinteressada em aprender e unicamente apostada em "passar". A grande maioria dos alunos limita-se a tirar apontamentos nas aulas de forma totalmente acéfala, e os disparates que escrevem nos testes revelam uma total incompreensão das matérias mais simples e uma total incapacidade de exporem com sequência e clareza as ideias mais elementares ou de narrarem com nexo os factos mais básicos. Não percebem o que ouvem e menos ainda o que lêem. De resto, salvo uma ou outra excepção honrosa, lêem pouco ou mesmo nada. Como suponho que fazem também os meus colegas, trato de me ajustar à circunstância. Isto significa baixar o nível das aulas até ao ponto em que poderíamos estar numa qualquer turma do secundário.
Não sei que "competências" estes alunos adquiriram no liceu, mas sei que não adquiriram o mínimo de conhecimentos que lhes permitiriam ascender a um patamar de aprendizagem superior. Ensinar História na Universidade tornou-se quase impossível, porque em vez disso é necessário familiarizar os alunos com as matérias, os factos, os nomes, as datas e as noções ou conceitos a partir dos quais poderiam então começar a aprender História e a discernir entre as várias maneiras de a escrever. Acresce que não sabem português: o vocabulário de que dispõem é de uma pobreza confrangedora, e os erros de ortografia e gramática são de molde a arrepiar. Sendo a história uma disciplina literária, não admira que o desastre seja quase geral, como aconteceria ao engenheiro que pretendesse construir uma ponte ou um prédio sem saber física ou matemática.
Confrontados com a sua ignorância, poderíamos supor que os alunos, chegados à Universidade, se esforçassem por supri-la através da aplicação redobrada ao trabalho. Não espanta que tal não aconteça: não têm curiosidade intelectual e por isso não têm interesse em aprender; e o liceu não lhes inculcou hábitos de disciplina nem de esforço.
O estudante universitário - como o do liceu - tem antes de mais direito ao seu lazer. Estudará, ou não, no tempo que sobrar. Pela Universidade arrasta-se hoje uma preguiça generalizada que torna a docência um exercício frustrante e deprimente. Invejo colegas que têm prazer em declamar perante auditórios que não estão interessados no que dizem nem captam metade do que ouvem; que raramente levantam uma dúvida pertinente; que quase nunca suscitam um problema interessante. A docilidade dos estudantes de hoje só espanta quem não saiba que ela é a máscara de uma apatia e ignorância que não lhes permitem interrogar e muito menos debater. Em tempos tive alunos que são hoje meus colegas e académicos brilhantes. Essa raça desapareceu.
Não se pense que exagero. Os estudantes chegam hoje em dia à Universidade sem quaisquer hábitos de disciplina e de trabalho. A simples ideia de que aprender custa esforço e sacrifício, de que fazer um curso superior é algo que absorve e ocupa a tempo inteiro, é impensável. Neste aspecto, como noutros, a Universidade é um mero prolongamento do Secundário: o prolongamento de um imenso recreio que, por seu turno, já prolongava o jardim infantil em que se converteu o Ensino Básico. Desde a mais tenra idade, as crianças são educadas e formadas na noção errónea, e nefasta, de que aprender pode e deve ser tão lúdico como jogar à bola na praia ou saltar à corda nos intervalos. Chegadas ao Liceu, deparam com a mesma filosofia pedagógica. As matérias têm que ser interessantes, apelativas, divertidas, ensinadas de maneira que se não dê por ela e aprendidas de maneira que não dê trabalho. As aulas têm que ser animadas, participadas, de modo que a atenção se prenda sem esforço. As avaliações não podem ser traumatizantes: são sempre imperfeitas e, portanto, muito, muito relativas, tão relativas que até mesmo um péssimo aluno pode sempre ser desculpado. Em suma: as crianças, os adolescentes e os jovens adultos não podem ser maçados e qualquer embate com as duras realidades da vida lhes deve ser poupado.
De facto, tudo começa com a cultura de adulação da criança que domina a sociedade ocidental contemporânea e que não passa, como tantas outras características dela, da degradante e ridícula pieguice em que culminou a "Sensibilidade" descoberta na segunda metade do século XVIII. Tudo o que diz respeito às crianças - o seu bem-estar, a sua saúde, a sua protecção, o seu lazer - suscita imediatamente a atenção desvelada de um público adulto que erigiu as crianças no centro do mundo e entende, pelo menos "teoricamente", que tudo se deve subordinar aos seus interesses e às suas presumidas necessidades. (Felizmente já temos um ministério da Criança.)
Nas famílias, as crianças tornaram-se geralmente pequenos déspotas inteiramente desprovidos de quaisquer hábitos de obediência ou elementar respeito pelos pais e os mais velhos, que no entanto tudo fazem e sacrificam para que os rebentos possam gozar de condições ideais para desenvolverem livremente as suas promissoras personalidades. De tão mimadas, as crianças crescem, desde o berço, com a justificada sensação de que na vida só há brincadeira e direitos e de que tudo lhes é devido. Se por acaso algumas revelam um temperamento mais difícil, não se aplicam os bárbaros remédios clássicos. Arranja-se-lhes acompanhamento psicológico a fim de tentar, sem traumas nem violências, torná-las mais cordatas sem contudo prejudicar nem levemente o seu "crescimento natural". A "personalidade" da criança é sagrada e todo o respeito por ela é pouco.
Depois do jardim-escola, onde as educadoras de infância as ajudam a brincar, chegam ao primeiro ciclo do Básico, onde os professores se esforçam por que as aulas se pareçam o mais possível com recreios. Segue-se o antigo liceu. Pela primeira vez vislumbram - mas não mais do que vislumbram - a necessidade de refrearem os seus ímpetos e de se conformarem com um mínimo de disciplina e aplicação. Os trabalhos de casa são vistos, pelos alunos e por muitos pais, como um fardo cruel para crianças ou adolescentes que já passaram várias horas na escola sujeitos a constrangimentos "stressantes". É tarde para se habituarem. Trabalhar é a última das prioridades para adolescentes confrontados com mil e uma solicitações divertidas que os distraem das suas obrigações, a que não dão importância.
Portugal é o país europeu com mais alunos com dificuldade em aguentar o alegado "stress" escolar. O esforço de estudar é demasiado duro; a concentração que se exige é esgotante... Quando chegam ao 12º ano, metade dos alunos chumba. A metade que consegue passar, chega à Universidade e não é capaz de ler um livro do princípio ao fim. Grande parte desiste dos cursos depois de se ter arrastado anos pelo bar, pelos corredores e pelas salas. Quase todos os que chegam ao fim saem da Universidade tão ignorantes como lá entraram. Continuam a não escrever português e sem conseguir interpretar um texto. Mas são os senhores doutores de que sairão os quadros do país e os futuros professores do liceu. Não há dinheiro que resolva o problema.
Maria Fátima Bonifácio Historiadora e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

terça-feira, abril 05, 2005

O que se disse na Assembleia da República aquando do falecimento de Mário Viegas

Srs. Deputados, ontem foi um dia em que Portugal sofreu duas rudes perdas, pois perdemos ainda o grande actor, declamador e encenador Mário Viegas.
A Mesa tomou também a iniciativa de submeter à apreciação e votação dos Srs. Deputados o voto n.º 22/VII – De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
O voto é do seguinte teor.
Morreu Mário Viegas. Encenador, actor e declamador de raro talento, deixa vago um lugar de difícil preenchimento no teatro declamado.
Foi, além disso, um raro exemplo de humor inteligente. Interiorizou a poesia como poucos. Fez da sua própria vida um poema de combate por ideias. No teatro, no cinema, na declamação e nos projectos que animou, foi sempre um grande artista, um homem de cultura, uma voz de intervenção incomodada e crítica.
A Assembleia da República deplora a perda de um talentoso português e endereça à família de Mário Viegas a sincera expressão do seu pesar.
Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado José Niza.
O Sr. José Niza (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Mário Viegas, como acabou de ser dito, foi um grande actor, um grande encenador, um grande divulgador de poesia, um grande diseur, aliás, o maior divulgador de poesia que conheci em Portugal desde sempre milhares de horas a dizer poesia e os melhores poetas. Mas Mário Viegas foi também um homem digno e um grande amigo pessoal.
Mário Viegas, desde os 16 anos, e morreu com 47, esteve sempre debaixo dos holofotes e das luzes dos palcos. Estreou-se em Santarém, no Teatro Rosa Damasceno, com 16 anos, a dizer poesia de Alexandre O'Neill e de outros poetas e, a partir daí, nunca mais parou. Estreou-se profissionalmente no Teatro Experimental de Cascais, em 1970, e terminou na sua própria companhia, a Companhia do Chiado, que fundou há alguns anos.
Foi, pois, um homem que atravessou todo o firmamento dos palcos, dos textos e das grandes obras, de uma versatilidade extraordinária, grande humorista, grande actor satírico, mas também actor das grandes obras e dos grandes textos do teatro.
Virando a página do teatro, mudemos para a televisão. Não foi por acaso que, ontem à noite, todo o País conheceu e se entristeceu com a morte de Mário Viegas. Na televisão, deixou uma obra só comparável à de João Villaret. Recordo que Mário Viegas, antes do 25 de Abril, fez alguns programas recreativos, mas onde sempre dizia poesia e textos satíricos. Logo a seguir ao 25 de Abril, fez um programa histórico, chamado "Peço a palavra", dirigido a crianças, que era um Parlamento um pouco como aquele em que estamos, faccionado por ele para ensinar às crianças portuguesas os valores da democracia. Posteriormente, e tive a honra de o convidar para fazer esse programa, quando estive na televisão, colaborou numa célebre série chamada "Palavras Ditas", depois complementada com "Palavras Vivas". Recordo que, nessa altura, ainda havia televisão em Portugal, pois tivemos a coragem de passar o Mário Viegas aos sábados à noite, a seguir ao Telejornal, a dizer poesia, e a audiência não baixou. Espantosamente, e esse era o receio dos responsáveis, a audiência não baixou pelo facto de Mário Viegas aos sábados à noite, dizer poesia como ele a dizia.
Mas voltemos a página para a rádio. Foi aqui que Mário Viegas, durante longuíssimos anos, disse praticamente toda a poesia portuguesa de mérito, aquela que havia a dizer, e todos se recordam disso.
Mas há mais páginas, como a página do cinema. Recordo o sucesso que foi, por exemplo, um filme que fez com o Fonseca e Costa, Kilas, o mau da fita. Mas ainda ontem à noite, no trailer de apresentação do filme Aferroa Pereira, talvez alguém tenha visto Mário Viegas a contracenar com o célebre italiano Marcello Mastroianni, que era um actor do seu plano, só que Mário Viegas, sendo português, não conseguiu chegar a Hollywood.
Mas não se acaba aqui a intervenção cultural de Mário Viegas. E aqui iniciámos um caminho juntos, que é o dos discos, o dos 13 discos que Mário Viegas deixou gravados.
Só um desses discos se encontra editado em CD, mas, porque, hoje, o que não é CD não é ouvido, vou pedir à editora que adite em CD toda a obra de Mário Viegas. São 13 discos, produzi muitos deles, fiz música para muitos deles, porque ele aceitou que a música também fazia paute da poesia e as duas casavam-se para conseguir, digamos, um melhor resultado e melhoras climas. E lembro, por exemplo, outro meu amigo já falecido, Vinícius de Morais, a quem ofereci o disco de Mário Viegas, dizendo um poema dele sobre o Trópico de Câncer, que ficou completamente terrificado com o modo como Mário Viegas o disse, porque é um poema sobre o cancro.
Mas talvez o ponto máximo de Mário Viegas a dizer poesia tenha sido a Cena do ódio, totalmente actual, de José de Almada Negreiros.
Findas estas páginas, gostaria de falar um pouco do homem, do amigo que conheci.
Mário Viegas nasceu em Santarém e morava a 100 metros da minha casa. Quando tinha 17 anos e fui para a faculdade, tinha ele 7 e entrou para a escola. Nessas idades, 10 anos de diferença é muito tempo. Mário Viegas ia a minha casa, de calções, para a minha mãe lhe dar aulas de catequese – não serviram praticamente para nada, embora a minha mãe se tenha esforçado, mas o Mário Viegas também aprendeu alguns valores nesses momentos.
Desde essa data até hoje, fui amigo de Mário Viegas. Recordo, antes do 25 de Abril, a acção que ele teve, percorrendo o Pais, dizendo poesia, num grupo constituído por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes e outros. Percorreram todo o Pais, dizendo poesia, antes do 25 de Abril. Por isso, há pouco, à salda do funeral do Mosteiro dos Jerónimos, disse o seguinte ao pai de Mário Viegas: o funeral do Mário Viegas é no dia 2 de Abril, data em que se comemoram os 20 anos da Constituição portuguesa, e o Mário Viegas, não sendo constituinte, acabou por contribuir para que essa Constituição fosse feita aqui, nesta Sala, e trouxesse a democracia a Portugal. Penso que se trata de uma data que ele teria escolhido, mas não o pôde fazer.
Aplausos do PS.
1712 I SÉRIE – NÚMERO 54
O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ruben de Carvalho.
O Sr. Ruben Carvalho (PCP): - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados: A perda de um grande artista é sempre uma perda para um país e para um povo, o que amplamente justifica que esta Assembleia exprima o seu pesar pelo desaparecimento de Mário Viegas.
A essa condição de grande homem de teatro, Mário Viegas juntava muitas outras que igualmente justificam este nosso voto de pesar, nomeadamente o seu empenhamento cívico, o seu apego aos valores da liberdade, da solidariedade e da democracia.
Finalmente, Sr. Presidente e Srs. Deputado, Mário Viegas era, como artista e como cidadão, um homem livre, um homem convicto e lúcido, um homem firmemente disposto a viver a vida, simultaneamente céptico e entusiasta, contundentemente irónico e sarcástico e estimulantemente crítico e realizador.
A estas horas, possivelmente, estará algures, com a sua devastadora ironia e o seu imenso talento, perante uma audiência de anjos, a desempenhar uma sátira sobre esta sessão no Parlamento em que o recordamos e o seu público continuará a dizer o que sempre dissemos e continuaremos a dizer. Que grande artista!
Aplausos do PCP.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Vieira de Castro.
O Sr. Vieira de Castro (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Grupo Parlamentar do PSD associa-se a esta homenagem que o Parlamento presta à memória de Mário Viegas, um homem de quem não é certamente fácil falar porque isso acabaria por traduzir-se em repetir elogios atrás de elogios, tal era o seu talento.
Também não é fácil falar de Mário Viegas porque, na minha opinião, ele era um homem diferente dos homens comuns. Todos lhe reconhecemos a sua extraordinária capacidade artística no âmbito do teatro, do cinema e da poesia e, para Portugal, sempre que ocorre o desaparecimento de um artista, seja qual for a área em que se situe, representa sempre uma grande perda, uma perda maior porque, infelizmente, somos bem carecidos de homens e mulheres das artes. O desaparecimento de Mário Viegas constitui por isso uma grande perda, mas diria que é uma perda acrescida exactamente porque, infelizmente para todos nós, poucos portugueses têm o talento que Mário Viegas tinha. Paz à sua alma!
Aplausos do PSD.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis.
O Sr. Nuno Abecasis (CDS-PP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É um triste privilégio, numa mesma tarde, ter ocasião de prestar homenagem a dois amigos, Alfredo Nobre da Costa e Mário Viegas.
Mário Viegas era muito mais novo do que eu e conheci-o através de um amigo comum, também ele um grande humorista e um grande português, Samuel Torres de Carvalho, o saudoso Sam, de quem Mário Viegas interpretou as historiazinhas de televisão, tão carregadas de humor e sentido crítico.
Tive também o privilégio de, com o Sam e com o Mário Viegas, assistir à planificação dessas pequenas obras primas da nossa televisão e ver o entusiasmo que Mário Viegas punha nas coisas que fazia e com que imaginou outras que não chegou a fazer, como é o caso de passar a televisão a história do Guarda Ricardo, que ele – e a Maria do Céu Guerra, que iria fazer de Heloísa – viveu com grande entusiasmo, alegria, espírito crítico e humor efervescente.
Mário Viegas, pelo seu génio, tinha o privilégio de poder dizer coisas que outros não podiam dizer e todos lhe desculpavam a irreverência. Curiosamente, hoje de manhã, no Mosteiro dos Jerónimos, pensava o que teria a ver aquilo a que estava a assistir com o que tinha sido o homem Mário Viegas. De repente, lembrei-me que o que é importante para um homem é atingir, tanto quanto possível, a perfeição, ainda que seja no espírito crítico e no humor, porque também isso é um dom de Deus. E queria dizer ao meu amigo José Niza que a mãe dele não perdeu tempo.
O Sr. Presidente: - Vamos votar o voto n.º 22/VII - De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade, registando-se a ausência de Os Verdes.
Em sua memória, vamos guardar um minuto de silêncio.
A Câmara guardou, de pé, um minuto de silêncio.

quinta-feira, março 10, 2005

Mensagem do Presidente da República Portuguesa aquando da morte de Amália Rodrigues

Homenagem Nacional a Amália Rodrigues

Lisboa 08 de Julho de 2001

Cumpre-se, hoje, a decisão tomada, por unanimidade, pela Assembleia da República de conceder honras de Panteão Nacional a Amália Rodrigues. Esta é uma grande homenagem nacional, prestada em nome do Povo português, que reconheceu em Amália a altura de um símbolo colectivo.

A voz de Amália, essa voz criadora, transformou-lhe a vida em destino. Amália fez da sua voz uma pátria, um bilhete de identidade, dela e nosso, um passaporte que a levou, que nos levou, a todo o lado. Extraordinária vida a dela, a primeira mulher a entrar no nosso Panteão, que alcançou ser ouvida em todo o Mundo.

Iniciada num bairro popular de Lisboa, com raízes beirãs, a sua biografia é a história da fidelidade ao coração, à voz, à vocação, ao fado. Talvez por isso ela gostasse tanto de acentuar o que havia de involuntário e, por isso mesmo, de fatal no que lhe foi acontecendo. Isso que prodigiosamente lhe foi acontecendo constituiu a sua carreira, que durou mais de cinquenta anos e foi das mais gloriosas do século XX.

Amália conheceu o sucesso absoluto mal começou a cantar em público – primeiro, em Portugal; depois, no estrangeiro. Cantou nas mais míticas salas de espectáculo de todos os continentes. Deu ao Fado uma ressonância universal. Foi aclamada, idolatrada, comparada aos maiores nomes de sempre. Tudo o que fez, marcou, mesmo no cinema ou no teatro. Há versos da sua autoria que são belíssimos. Quem alguma vez viu Amália num palco não esqueceu mais o seu carisma, a sua entrega total ao público, feita de mistério, de generosidade, de dádiva.

No Retiro da Severa ou no Café Luso, em Tóquio ou em Paris, em Nova Iorque ou em Moscovo, em Telavive ou em Beirute, no Rio de Janeiro ou em Roma, por onde passou, foi provocando adoração.

Houve gente que aprendeu a falar português apenas para entender as palavras dos seus fados. Figuras tão prestigiadas e diferentes como Orson Welles, Yehudi Menuhin, Marguerite Yourcenar, Sofia Loren, Vinicius de Moraes, Rodolf Nureyev, Pedro Almodóvar falaram dela com um apreço excepcional. Recebeu, ao longo dos anos, os mais prestigiados prémios e as mais altas condecorações. Nos anos 70, a Unesco editou um disco com interpretações de Amália, Maria Callas e John Lennon.

No entanto, e apesar desta carreira internacional única, sentimos que, ao falar de Amália, estamos a falar de alguém que permaneceu sempre próximo de nós. Na casa da Rua de S. Bento, no campo onde colhia flores, nas ruas de Lisboa, encontrávamos a Amália de sempre, com a sua grande inteligência intuitiva, a sensibilidade apuradíssima, a sua naturalidade desarmante, a fidelidade à amizade, o seu bom gosto.

Nos momentos de glória ou nos momentos difíceis, vimo-la sempre igual a si mesma – livre, simples e subtil, cultivando uma irónica distância em relação a si própria, mas possuindo a consciência exacta de quem era e do que representava.

A obra que nos legou é, ao mesmo tempo, popular e erudita, antiga e moderna, portuguesa e universal. Quando escutamos o “Ai, Mouraria”, com música de Frederico Valério, ou o “Com que Voz”, com música de Alain Oulman; quando a ouvimos cantar os poemas de D. Dinis, Camões, Junqueiro, Régio, O’Neill, Homem de Mello, Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, Ary dos Santos e os dela própria, damo-nos conta dos múltiplos e assombrosos recursos do seu talento, das metamorfoses do seu génio trágico. Como todos os autênticos criadores, foi por vezes incompreendida.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Estamos aqui reunidos, familiares, amigos, admiradores, músicos que a acompanharam, para honrar a memória de Amália. Fazêmo-lo, com a saudade que ela disse ser toda dela, com gratidão, com reconhecimento.

Saudade da sua presença tão forte. Gratidão, pelo que nos deu – nos continua a dar - de encantamento, de beleza, de revelação. Reconhecimento, pelo muito que prestigiou Portugal e projectou a nossa cultura no Mundo.

A Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, que, em vida, por ocasião da homenagem prestada na Expo’98, lhe anunciei, e com que agora a condecoro, a título póstumo, é um testemunho desse reconhecimento.

Neste fim de tarde de Julho, o mês do seu nascimento, não muito longe do rio que foi espelho da sua voz, frente a este Panteão que ficará depositário da sua memória, de uma memória que não pertence a ninguém, particularmente, porque é de todos, neste momento de homenagem, temos uma certeza.

A certeza de que os grandes artistas como Amália não morrem. Vivem pela e na obra que legam. Quando, nas gravações que nos deixou, ouvimos a voz genial de Amália, sentimos de novo a sua presença, com uma força e uma intensidade que a tornam viva. Por isso, podemos dizer que a sua lembrança prevalecerá sobre o esquecimento, pois, como a sua voz, pertence ao futuro. Ao entregá-la a este templo civil da memória, é às gerações futuras que a entregamos. O canto de Amália será sempre um apelo, uma descoberta – a nossa própria descoberta. Em nome de Portugal, obrigado, Amália!

quinta-feira, março 03, 2005

JORGE DE SENA - CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, foram sacrificados, torturados, espancados, entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue». Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seu corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecido em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereís serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

quarta-feira, março 02, 2005

JORGE DE SENA - PORTUGAL

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

Jorge de Sena