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quarta-feira, dezembro 14, 2005

Quadras ao gosto popular


Pia, pia, pia
O mocho,
Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia…

Fernando Pessoa

terça-feira, dezembro 06, 2005


BREVE ENCONTRO

Entre parêntesis de fogo
a indolência do nenúfar
soletramos como o cão dançando
uma valsa de torrão de açúcar.

Carícias vagarosas de fumo,
lenta lente de aumentar
a ampulheta onde escorre
a areia de um amor sem rumo.

Cobertos pelo pedaço
de um céu de coisa nenhuma
que deus nos livra do embaraço
de sermos feitos de barro e bruma?

Acaso de um planeta alcoólico
somos inocentes nativos
e existimos pela bebedeira
de pensar que estamos vivos?

Natália Correira

terça-feira, novembro 22, 2005





ROMANCE DO COMBOIO

Vastos campos do Mondego
(eram campos, campos, campos...),
com choupos que têm alma
(António Nobre morreu...),
com verdes que são saudades
de Primaveras antigas.

Onde a água é mais calada
foi que perdi os meus olhos.
(Mas onde estava a tricana?)
Eram campos, campos, campos...
Mas onde estava a tricana?
Já Coimbra se não via
e ainda ela sorria
no aceno das minhas mãos.

No meu gesto havia choupos,
campos vastos, vastos, vastos,
águas suspensas à escuta
(que versos de que poeta
escutam aquelas águas?),
risos, silêncios e mágoas
de uma tricana escondida.

Na sua marcha o comboio
era uma égua de Espanha.
(Só vento norte de Espanha
lhe pode matar o cio.)
Fumegava, fumegava...
De paixão e de volúpia,
tinha as crinas eriçadas...
Só eu ouvia a voz triste
(por que mistério fui eu?)
que vinha não sei de aonde.
Era triste, triste, triste...

- Se não foi choupo nenhum,
quem foi que disse à tricana
que António Nobre morreu?

Sebastião da Gama, Campo Aberto

terça-feira, agosto 02, 2005

Jorge de Sena

NO PAÍS DOS SACANAS
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternamente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
10/10/73

domingo, julho 24, 2005

Jorge de Sena


Não, Não, Não Subscrevo,...
Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim de contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do país no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta e calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo a força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorífico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suiça.
Tomais nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com firmeza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.
Santa Bárbara, Fevereiro 1976
(aniversário de uma tentativa heróica de conter uma noite que duraria décadas)
Sena, Jorge de, 40 anos de servidão, Lisboa, 1982, Moraes Editores - Círculo de Poesia, pps. 200 a 204

terça-feira, julho 19, 2005

Carlos Queiroz

APELO À POESIA

Por que vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava
(Nem triste nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé-ante-pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
- Não sejas como o Amor!

É verdade que vens como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame
- Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar.
Poesia! nunca mais venhas assim
- Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, senão tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame
- Não sejas como a Morte!

quinta-feira, junho 16, 2005

Os Olhos Rasos de Água - Eugénio de Andrade

Os Olhos Rasos de Água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao Paraiso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.
É a hora de adormecer na tua boca,
como um marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.
Eugénio de Andrade

sexta-feira, junho 03, 2005

Dois poemas para o fim-de-semana

BAILATA DOS DOIDOS
Se os doidos não sabem
Seu nome e idade
- Quem dera ser doido,
Que felicidade!
Se os doidos não sentem
As mágoas reais
- Quem dera ser doido,
Não as sentir mais!
Se os doidos não vêem
Como os outros são
- Quem dera ser doido,
Ter essa ilusão!
Se os doidos não cuidam
Do que é necessário
- Quem dera ser doido,
Sem este fadário!
Se os doidos não temem
A hora da morte
- Quem dera ser doido,
Para ser tão forte!
Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e outros poemas, Edições Ática
FADO
A que tinha no andar restos de infância
Saudosos de correr atrás do arco,
Deixando no ar um rastro
De inocência e de constância;
A que no olhar denunciava
- Quando olhava sem ver, mas calma e doce -
Sintomas de morte precoce;
A que lembrava
Quando sorria, estar pensando
Nas fadas dos contos antigos;
A que num lago sem perigos
- No mínimo gesto brando
Das suas mãos impolutas -
Dava a imagem da vida...
É hoje a mais conhecida
No bairro das prostitutas.
Junho de 1930
Carlos Queiroz, Desaparecido * Breve Tratado de Não-Versificação,
Edições Ática

segunda-feira, maio 16, 2005

Assembleia - Poema de Vasco de Lima Couto - Lisboa, 11 de Junho de 1979

ASSEMBLEIA

A esquerda gritou:
é um vendido.

O centro disse:
não nos interessa.

E a direita exclamou:
é um comprado.

E no entanto,
não sou mais
que um homem sentado
a ver a festa
que resta.

domingo, maio 08, 2005

Revista GENTE - Última antes do 25 de Abril de 1974

Esta é a capa da revista "Gente" (mãe da actual "Nova Gente") da semana de 23 - 29 de Abril de 1974. Assim sendo, foi a última "Gente" antes do 25 de Abril de 1974, dia da Liberdade, dos Cravos e de ilusões para a Esquerda.
Muitos são os artigos no interior da revista mas um me parece interessante salientar: a homenagem à poetisa Natércia Freire pelo número mil da sua famosa página literária no jornal "Diário de Noticias".
Estas páginas literárias, que então tinham o nome de "Artes e Letras", foram iniciadas por Natércia Freire em 1955. "Pode dizer-se que a maioria dos grandes vultos artísticos e literários do país aí estiveram representados", refere-nos o artigo.
Na homenagem estiveram vários vultos da cultura de então em Portugal: David Mourão-Ferreira, Fernanda Botelho, Vitorino Nemésio, Ferreira de Castro, Maria Lamas, Fernando Namora, Amélia Rey Colaço, escultor Martins Correia, Hernâni Cidade, entre outros.
Ironia do destino é que pouco depois deste artigo dá-se o 25 de Abril. A revolução que esqueceu Natércia Freire... injustamente. Não havia mulher mais livre de pensamento e de acção que Natércia Freire, pois a escrita é a forma mais leve de libertação.
É maltratada pelos "filhos", alguns bem "nobéis", que ajudou a criar no Diário de Noticias. Foi esquecida. Pouco depois deste artigo deixou de haver "Artes e Letras" com Natércia Freire.
Natércia Freire morreu com 85 anos no dia 17 de Dezembro de 2004. Aqui fica a homenagem, a recordação e um poema.
Um dia
Um dia partirei muito cansada
Com as lembranças cingidas ao meu peito
E uma voz de saudade e de nortada.
(Levarei voz para gemer de espanto.
Levarei mãos para dizer adeus...
Olhos de espelho, e não olhos de pranto,
Eu levarei. Os olhos, serão meus?)
Um dia partirei, talvez manhã.
Uma canção de amor virá das dunas.
De finas pernas, seguirei a margem
Límpida, boa, enorme, no ribeiro
De água discreta a reflectir miragem,
Braços de ramos, gestos de salgueiro.
Um dia partirei, muito diferente.
Enfim, aquela que jamais eu fora!
E os de Cá hão-de achar que vou contente.

quarta-feira, março 16, 2005

Queixas das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia

Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

Natália Correia

sexta-feira, março 11, 2005

Pedro Barroso - Impressões do Concerto


Pedro Barroso

Assisti esta quinta-feira, dia 10 de Março, ao concerto (ou convívio, como ele próprio apelidou) de Pedro Barroso, no Forúm Lisboa.
Foram duas horas e meia de puro prazer musical e linguístico.
Pedro Barroso, que comemora 35 anos de carreira, nada tem já a provar.
É um poeta irónico e carregado de humor, sempre com umas boas "ferruadas" prontas a serem lançadas para o ar.
Mas acima de tudo Pedro Barroso é um homem que emociona. Emociona pelas palavras, emociona pela postura, emociona pela voz(eirão).
O concerto, em modos bem intimistas, tinha na assistência uma geração bem representada - a dos que viveram e fizeram o 25 de Abril e, portanto, em perfeita sintonia com o anfitrião da noite.
Numa "rapsódia" que durou cerca de 10 minutos, Pedro Barroso evocou/homenageou grandes figuras da canção de intervenção, poetas e outros cantores. Fanhais, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, entre outros. Mas o ponto alto, pela emoção que causou, foi a referência a José Afonso. A sala em unissono entoou emocionada as palavras de Zeca. A meu lado, um casal deu as mãos de forma forte e comovente, levando-as aos lábios para as beijar... aquele gesto foi, concerteza, o mesmo gesto tantas vezes feito em horas de luta durante a vida, o gesto feito quando festejaram nas ruas o dia de 25 de Abril de 1974. Foi, de longe, o mais bonito gesto que alguma vez presenciei.
Pedro Barroso não esqueceu porém Ary dos Santos, Sofia de Mello Breyner, António Gedeão ou Manuel Alegre. Falou de Natália Correia, caricaturando-a de forma respeitosa e divertida, ilustrando os seus jeitos e trejeitos megalómanos.
Mas a gargalhada sadia mais forte surge quando homenageia Simone de Oliveira, frisando ser admirador e respeitador da mulher e da obra. Confesso que me surpreendeu.
Não raras vezes ouvimos apelidar Simone de Oliveira como "mulher do regime Salarista", "simpatizante do regime".... etc. Mas também se disse o mesmo de Amália Rodrigues, de Almada Negreiros ou de Amélia Rey Colaço. Disparates.... E muito me alegrou ouvir a homenagem feita a Simone. Afinal, foi ela que cantou a Desfolhada de Ary e que teve, na sua chegada a Santa Apolónia após o Festival da Canção em 1969, a maior manifestação espontânea de sempre em Portugal, sem contar com o 25 de Abril. Simone de Oliveira ofereceu, a todos os portugueses, ao cantar o Ary, um primeiro raio de luz, de esperança, de um Portugal Novo possível.
E o "convívio" continuou, com alusões a vários episódios da História de Portugal e dos Portugueses. Houve ainda tempo de descrever os Romanos (os da era antiga, entenda-se) como sendo "sujeitos de saias de cabedal por cima do joelho e piaçaba na cabeça".
Pedro Barroso declamou de forma comovente alguns dos seus poemas, publicados num livro recentemente editado.
Antes de tudo, Pedro Barroso é um mestre de brincar e ironizar com as palavras e os seus sentidos, criando jogos de ideias e significações brilhantes.
Mas o que rege toda a escrita e música de Pedro Barroso é o amor/ódio/desencanto/confusão a Portugal. Acho mesmo que a palavra Portugal poderia ser o sub-título de todas as suas composições.
Bem haja Pedro pela belíssima noite. Que, como havias pedido, daqui a 35 anos estejamos de novo naquela sala a ouvir-te.
Ah.... um aviso a todos os que lerem este texto... o Pedro Barroso pediu que, quando falecesse, não digam nos Telejornais que - "Faleceu o músico de 'Menina dos Olhos de Água', Pedro Barroso" - Ele pede que se diga que tem mais quatrocentas e tal músicas além dessa.... variem...
Anúncio confidencial


Arranja-me um fio de prata dois silêncios e um sorriso
e desaperta no peito dois botões p'ro paraíso
e dá-me beijos na testa quando começar o dia
sorri-me longa a manhã no teu corpo devagar
sendo horas de nascer tu sabes o teu lugar
de dia estamos distantes como quem não dá por isso
mas pressentimos no corpo uma espécie de feitiço
responde à posta restante anúncios confidenciais
se não existires eu faço-te
já esculpi outras que tais
que às vezes ao fim da tarde quando me vem cansaço
vou atirar-me p´ro maple e encontro o teu regaço
e tu dizes coisas andas zangada comigo
e eu fico na plateia e nem sei bem o que digo
e irritada tu beijas resvalas mordes ondulas
e eu que andava tão longe quando m'insultas e pulas
eu transformo-me da pedra em ondas gaivotas mar
e eu que não estava ali reparo nas tuas pernas
reparo na tua boca
e passo de novo a estar
reparo na tua boca que eu nunca soube explicar
e sinto incêndios nas veias e sinto incêndios no mar
vêm aí horas ternas são horas de mergulhar
desculpa Mundo - já demos!... São horas de te esquecer
são horas de enlouquecer - desculpa lá vou fechar...

(música e letra de Pedro Barroso in LP «Pedro Barroso», 1988)

Viriato



Trago comigo uma guitarra para a viagem
na minha voz esta canção antiga
tenho nos olhos mais do que a paisagem
a memória e o sal da gente amiga
não feneceu ainda em mim o velho sonho
trago na ideia uma razão e um sentido
que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha
e a esse mar que em mim navega tudo é devido
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
É do verde e fresco Minho que eu vos falo
e dessa calma alentejana que nos cala
e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo
e é em Sagres que essa história mais nos fala
lá nas Atlântidas perdidas de um sonho
ou num velho cacilheiro que nos leva
e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,
todo um mundo que nos lembra e que celebra
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
(letra e música de Pedro Barroso in CD "Cantos D' Oxalá", 1996)

quinta-feira, março 03, 2005

JORGE DE SENA - CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, foram sacrificados, torturados, espancados, entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue». Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seu corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecido em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereís serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

CARLOS QUEIRÓS

APELO À POESIA

Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento...
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

Poesia de Carlos Queirós

quarta-feira, março 02, 2005

JORGE DE SENA - PORTUGAL

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

Jorge de Sena