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sexta-feira, novembro 14, 2008

Os filhos menores de 50 anos de Carreira


A Valentim de Carvalho aproveitou os festejos dos 50 anos de carreira de Simone de Oliveira para lançar uma espécie de best-of da referida artista. O resultado é, no mínimo, desastroso. Passo a explicar.
Quem lê regularmente este blog sabe perfeitamente da admiração e do gosto pela carreira e pela figura de Simone de Oliveira. É raro o mês que não faço uma menção à artista, seja por algum concerto seja por uma música ou uma atitude. Custa-me por isso o lançamento deste disco.
É composto por dois CD's: um supostamente de clássicos e outro de versões. A distinção é já de si errada.
Do primeiro Cd consta: Desfolhada Portuguesa - Começar de Novo - Nem Eu Nem Vocês - Não Te Peço Palavras - Avé-Maria do Povo - Sensatez - De Saudade Em Saudade - Já Ouviste O Mar - Praia de Outono - Canção Cigana - Olhos Nos Olhos - Sol de Inverno - Canção Ao Meu Velho Piano - Pingos de Chuva - Nunca Mais A Solidão - As Palavras Que Eu Cantei - Apenas o Meu Povo - Mulher Presente.
Do segundo Cd consta: Yesterday (beatles) - Estranhos Na Noite/Strangers In The Night (Frank Sinatra) - Não Me Vais Deixar/Ne Me Quitte Pas (Jacques Brel) - Alguém Que Teve Coração/Anyone Who Had A Heart (Burt Bacharach) - As Coisas De Que Eu Gosto/My Favorite Things (Julie Andrews) - Aqueles Dias Felizes/Those Were The Days (Mary Hopkin) - Marionette/Puppet On A String (Sandie Shaw) - A Banda (Chico Buarque de Hollanda) - Falar Com Os Animais/Dr. Doolittle (Dr. Doolitle) - Eu Dançaria Assim/I Could Have Dance All Night ("My Fair Lady") - Quando Me Enamoro/Quando M'Innamoro (Anna Identici) - És A Minha Canção/This Is My Song (Petula Clark) - Que C'Est Triste Venise (Charles Aznavour) - Tu Só Tu (com Marco Paulo)/Something Stupid (Frank Sinatra) - Onde Vais/Edelweiss (Julie Andrews) - No Teu Poema (Carlos do Carmo) - Glória Glória Aleluia (com Quarteto 1111) (Tonicha) - Deshojada/Desfolhada Portuguesa
Relativamente ao primeiro, são raros os temas que terão sido pontos de interesse ou de viragem na carreira de Simone ou que se possam chamar realmente de "Clássicos". Nestes, a meu ver, deveriam estar o Tango Ribeiro, Prece, Degrau em Degrau, A Rosa e a Noite, Adeus (Palavras Gastas), Poema 8, Esta Lisboa que eu amo, Visita de Camarim e muitos outros que nem eu consigo, de momento, descortinar. Basta ver um concerto de Simone de Oliveira e perceber que os temas escolhidos para figurar no CD não são, concerteza, os seus favoritos ou aqueles que ela mesma escolheria para compôr um álbum de homenagem (de salientar que, como foi dito pela Simone no concerto do Maxime, a artista não teve "vota na matéria" na elaboração deste álbum, desconhecendo até a sua existência).
Relativamente ao CD 2, não entendo a existência do mesmo. A Simone não foi uma artista que fez carreira com Versões. Nunca foi reconhecida como tal. Foi sempre para além disso e procurou sempre originais. Estas versões apresentadas não têm, na minha opinião, qualquer expressão na construção da identidade artística de Simone de Oliveira.
Enfim, com isto quero apenas realçar que, mais uma vez, não foi feita justiça à música, aos poetas, aos músicos e à voz de Simone de Oliveira. No geral, não se realçou verdadeiramente a extraordinária pujança dos 50 anos que compõe a carreira de Simone. Há álbuns - que são autênticas perolas que há muito deviam ter re-edição em CD - que estão completamente omissos nesta colectânea.
Não sei quem fez a pesquisa e a recolha de temas para este álbum. Mas quem a fez, fê-la muito mal. Não sei se por ignorância, má vontade, falta de tempo ou problemas de direitos de autor. Mas confesso que, para se ter lançado isto, mas valia ter estado quietinho. Apenas uma mais valia deste conjunto: dar a conhecer ao grande público a extraordinária tradução de David Mourão-Ferreira do Ne Me Quites Pas, de Jacques Brel. Mas mesma esta, não é apresentada na sua melhor versão.

Concerto de Pedro Moutinho


Na Sexta-feira passada, Pedro Moutinho apresentou-se no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide, para um concerto integrado no ciclo de fados promovido por aquela autarquia.
Eu sou fã de Pedro Moutinho, mas apenas o havia visto uma vez na casa de fados Mesa de Frades e no concerto dos 50 anos de carreira de Simone de Oliveira, que se realizou no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Nunca tinha assistido a um concerto integral e único de Pedro Moutinho.
As expectativas eram muitas e foram totalmente superadas.
Contando apenas com dois álbuns editados, o concerto visitou alguns dos temas que compõem estes últimos, levantou o véu ao próximo álbum a ser editado por Pedro Moutinho e visitou um fado cantado pelo irmão - Camané - , outro de Carlos do Carmo e um outro de Fernando Maurício. Beatriz da Conceição foi também “homenageada” pelo fadista.
Pedro Moutinho venceu em palco. Demonstra uma capacidade vocal bem superior aquela que nos é apresentada nos álbuns, uma excelente dicção e postura. Mostrou uma bela cumplicidade com os seus músicos e soube manter a postura perante um problema técnico que ensombrou por momentos o concerto.
Mas acima de tudo, e para mim o mais importante, mostrou que não é cópia de ninguém. Tem um cunho pessoal bem vincado, um estilo, um modo próprio - e acertado - de estar no fado.
Não duvido que Pedro Moutinho vença na sua caminhada musical no mundo do fado. Tem voz, talento, poetas, músicos e originalidade. Tem, também, memória (todo o concerto foi marcado com a referência aos nomes que - implícita ou explicitamente - o marcam no fado).
Espero, ansioso, o novo trabalho e um novo concerto de Pedro Moutinho.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Coisas que nunca mudam

(Interior da Pastelaria Lobo)

Vim passar uns dias a Viseu. Instalado na casa da minha irmã, acompanhado com as minhas maravilhosas sobrinhas, sinto-me bem. Viseu tem algo que me põe para cima, que me alegra e me comove.

Ando pelas ruas, sozinho, e parece que as percorro como se fosse a primeira vez.

A verdade é que desde que me lembro de existir que venho à cidade de Viriato. Passando na infância e adolescência todas as férias em Santa Cruz da Trapa - São Pedro do Sul -, Viseu nunca me foi estranha.

Fosse para visitar familiares, para ir à Feira de São Mateus no Verão ou simplesmente passear, era uma ida sempre obrigatória. "Temos de ir à cidade", dizia-se.

Mas é com o meu avô que as recordações de Viseu mais se avivam, homem nascido nestas paragens.

Antigo Governador Civil desta cidade, conheci-a como ninguém. À cidade e às pessoas. Marcaram-me para sempre as idas ao Hotel Grão Vasco almoçar, a ida primeira ao Museu Grão Vasco, o seu velório numa capela da cidade.

Mas as recordações que mais sabor e cheiro têm, são as da ida à Confeitaria Lobo, bem no centro. A montra dos bolos, o cheiro reconfortante, os vidros trabalhados e pintados, as pessoas. Mas, mais do que tudo, os Pastéis de Feijão, que há anos que não os comia.

Resolvi ir até lá. Fiquei parado à porta uns momentos, com medo que as anteriores recordações fossem deturpadas por uma nova ordem, por um outro café que não fosse aquele que conheci.

Mas entrei. O ambiente é o mesmo. As mesmas montras, o meus conforto, o mesmo género de clientela, a mesma decoração. Sentei-me. Pedi um chá preto e, a medo, dois pasteis de feijão.

Quando vieram, trinquei desconfiado o primeiro pastel. Num ápice recuei para os meus 8 anos de idade e voltei a ter a companhia do meu avó bem ao meu lado.

Felizmente, existem ainda coisas que não mudaram...

terça-feira, outubro 07, 2008

SÓ EU SEI PORQUE NÃO FICO EM CASA

Está toda a gente muito preocupada por os homossexuais não se poderem casar - eu estou muito mais preocupado por os deputados não poderem pensar. Ao aprovar a disciplina de voto (com excepção de uma mascote da JS, que está autorizada a votar a favor da proposta e assim demonstrar a extraordinária "pluralidade" dos socialistas) numa matéria claríssima de costumes e de consciência individual como é o casamento dos homossexuais, o PS enfiou mais uma machadada na credibilidade do Parlamento e dos seus deputados. Obrigado, Alberto Martins.

A bancada parlamentar do Partido Socialista, que tanto se orgulha da sua liberdade, é assim como uma claque de futebol: o chefe manda bater palmas, eles batem palmas; o chefe manda sentar, eles sentam-se; o chefe manda levantar a mão, eles levantam a mão. Sinto até um certo embaraço por um dia ter pensado que cada deputado tinha o seu próprio cérebro e que era com ele que votava na Assembleia de República. Graças ao badalado projecto de lei do Bloco de Esquerda, o grupo parlamentar do PS teve a amabilidade de me mostrar o quanto eu estava enganado.

Por isso, pedia humildemente aos especialistas em ciência política que tivessem a caridade de esclarecer esta alma baralhada: para que raio serve, afinal, a disciplina de voto? Porque é que devemos permitir que os deputados que nós elegemos e cujos salários nós todos pagamos votem como se a única coisa que os distinguisse de um rebanho fosse a gravata? Para que é que existem 230 deputados na Assembleia da República se no momento mais nobre da sua actividade - a votação das propostas - eles não estão autorizados a decidir segundo a sua consciência? É que se cada deputado está impossibilitado de se exprimir individualmente, uns 20 tipos chegavam e sobravam para distribuir proporcionalmente os votos do País. Se a disciplina de voto é a regra, então há pelo menos 210 cabeças a mais em São Bento.

E tão grave quanto a disciplina de voto do PS é a sua justificação. Segundo Strecht Ribeiro, vice-presidente do grupo parlamentar, os socialistas não estão a votar contra o casamento dos homossexuais. Nada disso. O que eles estão é a votar contra "o oportunismo político" do Bloco de Esquerda. Ou seja, o PS acredita que a situação actual dos gays é manifestamente injusta. Mas entende que esta não é a altura certa para reparar a injustiça. Extraordinário. Nós vivemos num país onde o partido que nos governa entende que até a correcção de injustiças que não dependem de mais nada senão da aprovação de uma lei deve obedecer a um timing certo. E os oportunistas políticos são os outros, claro. Partidos destes não deviam sentar-se no Parlamento. Partidos destes deviam sentar-se nas bancadas do Estádio de Alvalade.

João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 07 de Outubro de 2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

Tenho bilhete e não vou.

Se em tempos idos me tivessem dito que iria ter um bilhete para o próximo concerto da Madonna em Portugal e que, a dois dias do concerto, iria despachar o bilhete (de graça), não acreditaria. Mas é exactamente isso que aconteceu. NÃO ME APETECE IR À MADONNA. Vou antes jantar com a minha prima e amigas/os e depois vamos ao Teatro.
Não me apetece ir para multidões, ouvir barulho, estar de pé, em histerias.
Mas a verdade é que Madonna, musicalmente, já nao me diz muito. Este álbum, que nem o comprei, ofereceram-mo nos anos, não me entra no ouvido. Adoro, de todo o álbum, o Give it to me e mais nenhuma.
Madonna continua-me a interessar como objecto de "culto", como prodígio de transformações e mudanças, como mulher inteligente, intuitiva e dominante. Musicalmente, parece-me, já pouco me poderá dizer se continuar a envergar pelas sonoridades dos dois, três últimos álbuns. Mas jamais poderei desligar-me das suas imagens e "mensagens".
O meu álbum favorito de Madonna é, sem sombra de dúvidas, o álbum mal-amado - Erotica. Esse sim, uma verdadeira pérola musical, de gosto, de estética, de mensagem, de sonoridade, de voz. Uma coerência musical como nunca mais assisti em nenhum álbum, dela ou de outro/a. Repleto de grandes máximas.
Enfim, isto tudo para dizer que tenho bilhete e não vou... Esperarei pelo DVD e comentarei depois e verei se me arrependo ou não... mas não creio.

domingo, julho 20, 2008

Casa dos Bicos vai para a Fundação José Saramago

Ao que consta, António Costa cede a emblemática Casa dos Bicos (no Campo das Cebolas, Lisboa) par a Fundação José Saramago. Eu confesso que não em agrada nada a ideia, até porque me desagrada o Nobilizado mais a sua pessoa. E, ao que parece, a ideia não agrada realmente a todos... ora leiam os comentários à notícia que está no site do jornal SOL (http://www.sol.pt/).

Comentários

Nunca se deu o devido valor á Casa dos Bicos, um edificio do ponto de vista arquitectónico lindo e desperdiçado (como é habitual). Também sou contra a cedencia á Fundação, poderiam ter arranjado outro edificio qualquer. O Saramago tem sido muito indelicado e arrogante com Portugal (confesso que nunca consegui ler nada dele), que a Fundação fosse para a terra onde ele nasceu e não em Lisboa. Dá-se tanta importância ao Saramago e só agora se lembraram de homenagear o Manuel de Oliveira por ocasião dos seus 100 anos, esse sim que nunca renegou ser português, e que é mais conhecido e premiado que o Saramago. E os outros escritores? Como o Lobo Antunes? Esse sim merecia um NOBEL. Mas como diz o ditado "Santos da Casa não fazem milagres", e nós vamos mais uma vez pagar a arrogancia do Saramago.
anonima, em 2008-07-20 01:02:41
Esta é a maior vergonha Nacional, ceder a Casa dos Bicos a uma Fundação Espanhola.
Esse tal de Antonio Costa, deveria ser penalizado por ter oferecido a Casa dos Bicos a Espanha.
Por este andar o ex-Cardeal cria uma Fundação e o " Tony " cede-lhe os Jeronimos.
Mais nós é que vamos andar a sustentar estas Fundações estranhas, perece-me que esta conduta deste comunismo capitalista deveria ser bastante criticado, onde já se viu um comunista puro ter uma Fundação, só mesmo neste pais e com essa gente que utiliza o dinheiro dos outros para fins pessoais, onde esta a oposição.
FORA COM O SARAMAGO e COM O SEU PREMIO NOBEL, nós sempre vivemos sem um premio NOBEL, se bem que esse premio só se deve a Portugal e aos Portugueses e um bocadinho ao escritor.
fiesta2008, em 2008-07-19 10:50:01
O Saramago trocou Portugal por Espanha, continue em Espanha!!!
A Casa dos Bicos nunca lhe deveria ser cedida!!!
A Casa dos Bicos é Histórico!!!
leoj, em 2008-07-18 23:08:47
Já em Os Maias do Eça de Queirós um dos dois arquitectos (um foi despedido) que renovou a casa do Ramalhete chamava-se Manuel Vicente. Coincidência? Cá para mim, acho que o Eça lia muitos mapas astrológicos para os seus romances que nos levam à brilhante conclusão: o futuro é sempre a mesma porcaria. Em Portugal nada (ou pouco) muda. Deve ser estrangeirite aguda, de que padece este Saramago e outros que tais...
Vencedor, em 2008-07-17 23:54:45
Bem, o homem é um Ibérico do género: "Coño, yo non soy español pero me gustaba de serlo. Olé!"
gipsyking, em 2008-07-17 21:22:44
Mas afinal o homem é português?
Que raio de portugueses que nós somos. Foge-nos sempre o olho para a desgraça. Pobretes mas alegretes. Logo logo vem o futebol e depois em Outubro vem Fátima, de seguida o Natal e para o ano tudo se repete. É verdade nos intervalos dos bicos temos fado. Assim se vai esquecendo para onde vai o nosso dinheirinho.
Deixamerir, em 2008-07-17 21:00:33
Irónico! De armazém do Henrique Tenreiro a armazém do José Saramago.
gipsyking, em 2008-07-16 20:43:46
Acho bem,
O Saramago tem dado tantas bicadas em Portugal e nos Portugueses, que nada mais justo que retribuir-lhe com a casa bos bicos.
Estou até disposta a oferecer à fundação, todos os livros que tenho dele, menos um, para memória. futura.
provinciana, em 2008-07-16 19:53:49
É verdade que a Casa estava sem aproveitamento condigno,como é hábito na Tugalandia.Mas, o sr Saramago já tem uma loja na sua terra ,Lanzarote.A medíocridade da "esquerda"...
surpreso, em 2008-07-16 19:18:04
Se "existia a possibilidade da fundação ficar bem Espanha, onde o autor reside", era lá que a mesma deveria ficar.
Assim a fundação seria o Pilar, mais eficiente, do projecto hegemónico de Portugal e Espanha tão do agrado do Saramago...
Trauliteiro, em 2008-07-16 18:13:56
Também partilho da opinião que é um desperdício. De facto,(com virgula) o museu do Nobel da Literatura bem podia ser um Rés do chão de um prédio qualquer que tenha agora vagado pela saída dos ciganos. A Casa dos Bicos seria muito mais útil como posto de entrega de bússolas, visto andar muita gente desorientada.
AZULCLARINHO, em 2008-07-16 18:05:44
Mais uma!
Costa já pagou as dívidas, quer fazer da Casa dos Bicos a casa de saramago e tudo isto com o dinheiro do "desastroso" negócio do Casino de Lisboa?
Será que ele pensa que somos tansos?
Porque será que só se sabem queixar das dívidas herdadas e nunca falam na herança recebida?
mulher, em 2008-07-16 17:21:41
O comentario mais inteligente é mesmo o do "Espesso". Vieram-me as lágrimas ao ohos de tanto me rir. "A casa dos bicos foi feita pelos reis" Se o Duarte Nuno se vai dedicar à construção civil ainda vem tudo abaixo. Roubar o povo, lindo só um amante da monarquia se lembraria de tal, terá alguma coutada por Mértola? E essa referência a Lisboa e ao facto de que saramago não gostará de Liboa é de um gajo se mijar a rir. Aí por Mértola estão esperando o metro ou o tempo passsssssa. O espírito que voa sobre estes comentadores é tão saudosista que me faz regressar a antanho e lembrar-me de uns quantos Lusitanos desfavorecidos a favor de uns certos mercenários germanos. Quanto a igrelas, maquiavel tinha razão, desconhecia era a tribo do futebol que aí vinha.
luxuriablack, em 2008-07-16 17:15:39
trampa de fundacion sin virgula
porque é que a Amália nunca conseguiu o que agora cedem ao estrangeirado?
vendidos!
DisMissed, em 2008-07-16 17:12:56
Adoro os comentadores. Bem ao nível dos momentos actuais. Ignorância quanto baste. Uma massa cinzenta muito transparente.
luxuriablack, em 2008-07-16 17:03:31
Mas que palhaçada é esta??? a casa dos bicos foi feita pelos reis que esta corja de esquerda nunca gostou e ate matou e agora querem ficar com a casa para mais branqueamento de impostos??? Não chega a do Mário? é só roubar o povo Português sem vergonha nenhuma, esse Saramago não é de Lisboa e nunca gostou de Portugal, inclusive queria que fossemos uma província Espanhola e estes gatunos fazem mais uma malandragem destas???? É UMA VERGONHA.
Espesso, em 2008-07-16 16:47:56
é mais um roubo governamental ao povo... força camaradas acabem com isto de vez...
Portugalaosbichos, em 2008-07-16 16:30:04
Gosto muito da Casa dos Bicos. É um edifício notável, muito original e que guarda a memória dos Descobrimentos, quando Lisboa foi considerada capital Mundial.

Não gosto da mensagem de Saramago. Não tenho nada contra a sua pessoa. Não acho que esteja à altura do prestígio daquela Casa.

Acho que foi uma decisão infeliz.
nunogil, em 2008-07-16 16:27:08
Discordo, na totalidade...
Saramago merece 1 Monumento mas já agora que seja em terras Espanholas, pagas pelos Espanhois.
manuelamarinho, em 2008-07-16 15:55:04
ACHO QUE A CML FEZ MUITO BEM. ACONTECE QUE EM 1999 A MESMA CAMARA (JOÃO SOARES) RECEBEU UMA CARTA DE UMA IGREJA EVANGÉLICA PEDINDO UM EDIFICIO DOS MILHARES QUE A CML TEM A CAIR E A ARDER, PARA CONSTRUIR UM LAR DA TERCEIRA IDADE E UM INFANTÁRIO; TUDO SEM CUSTOS PARA A CML POIS O EDIFICIO SERIA SEMPRE SUA PROPRIEDADE. A DITA IGREJA AINDA ESTÁ À ESPERA DA RESPOSTA?!...
MELHOR É IMPOSSÍVEL!...
TELMOVIEIRA, em 2008-07-16 15:54:40
Um caso com relevo embora sem relevancia de maior.
AZULCLARINHO, em 2008-07-16 15:54:25
Está mal.

A casa dos bicos tem um valor histórico por si só.
Saramago tambem. Por isso merecia uma casa só para ele.

Assim misturam-se a casa dos bicos com o Nobel do Saramago.
Zeus, em 2008-07-16 15:48:27

segunda-feira, julho 07, 2008

Admirável carta de Isabel Pires de Lima a Luís Miguel Cintra... ABENÇOADA



Penitencio-me, Sr. Dr. Nunca, eu deveria ter tido a veleidade de apontar o dedo a um bonzo intocável. Nos Dantas, nem pim

Carta ao Aristocrata da Cultura Luís Miguel Cintra

Venho com esta cartinha, Sr. Dr., pedir-lhe desculpa de mais uma vez o ter incomodado. Não era minha intenção, está bom de ver. Mas sabe, sou uma alma simples, vinda lá do Norte e carregando no lombo (do burro e não do “camelo”, Sr. Dr., que aqui para estes lados ele há mais é burros) a antiga “ignorância” e “incompetência” dos simples, assim a modos que uma Maria Papoila.


Esforcei-me, Sr. Dr., para escapar a esta fatalidade mas, sabe, isto é mesmo assim, cada um é pró que nasce, uns, como o Sr. Dr., para serem entes esclarecidos, aristocratas da cultura, toda a vida instalados na varanda dos iluminados a fazer o verdadeiro teatro subsidiado a quase 100% pelo Estado e a ver o poviléu ignaro passar (não pelo seu teatro, eu sei, que às vezes disfarço-me de inteligente e vou lá, embora o Sr. Dr. não goste que até não me cumprimenta); outros, como eu, para ajeitada a trouxa, meterem as mãos na massa que mais suja, a do serviço público e da política, e errarem quase sempre – é da sua natureza. Lá dizia a tia Zita: bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros. Nem os estudos me valeram, nem ser professora catedrática da Universidade do Porto (fica fora de mão, é verdade, mas ó Sr. Dr., é a maior do país), nem as andanças por esse mundo fora, onde por vezes fui vendo teatro imitando o seu. Não retive nada; deve ter sido por via da mente mole, já o sr. padre dizia.


É o mal, Sr. Dr., de democratizarem a Universidade e, pior ainda, a cultura. Onde já se viu, por exemplo, querer que o povo vá ao D. Maria II ou ao S. Carlos? São coisas mesmo de gente que “quer transformar a cultura em mercado”, como o Sr. Dr. perspicazmente percebeu das minhas palavras. Pior Sr. Dr., confesso, de gente que entende que um dos sinais do nosso tímido desenvolvimento cultural é o descaso entre mercado e cultura.


É como aquela coisa que o Sr. Dr. lembrou e bem da minha “tão defendida descentralização” que “corresponde apenas a um ponto de vista de mero consumidor” e de província, acrescento eu, e pagante, acrescentam muitos contribuintes simplórios. Está mal! Querem cultura de primeira, produzam-na lá na terrinha, como o Sr. Dr. reclama. Concordo! Imagine que até se criaram novos apoios para isso. E se a malta for alfabetizada de primeira geração, esforce-se, que foi o que o Sr. Dr. fez (embora os simplórios contribuintes venham ajudando, pelo menos há trinta anos, com constância, generosidade e, no caso único da Cornucópia, pagando até o aluguer, mas isso são minudências e, como o Sr. Dr., não há outro).


Só não gostei, desculpe Sr. Dr., foi a expressão “exportar para a província”; é que até parece que província e Lisboa não constam do mesmo país e sabe, a gente cá é muito patriota. Mas ó Sr. Dr., olhe que parece que o S. Carlos, a CNB e o D. Maria têm feito mais descentralização e internacionalização, concorrendo isso, é bom de ver, para a “decadência do nosso Teatro de Ópera” a que “conduziu a substituição ordenada por” mim, como o sr. Dr. recorda, “da anterior direcção”. Ó Sr. Dr. isso não será ter em pouca conta o corpo de músicos, cantores e técnicos do S. Carlos? Não me diga que o director artístico era insubstituível e eu, simplória também nestas matérias, e o prof. dr. Mário Vieira de Carvalho, ainda mais simplório, apesar de falar línguas estrangeiras e perceber de bandas de música, não entendemos que devíamos nomear para dirigir um teatro alguém que se recusara púbica e reiteradamente a aceitar o modelo de gestão empresarial (ai, ai, a linguagem!) que o Estado se atreveu a escolher para o S. Carlos? Está mal!


O Sr. Dr., mais do que com a minha fúria arrasadora de três escassos anos, ficou foi zangado por não ter compreendido que a Cinemateca Portuguesa é “uma das melhores cinematecas da Europa e talvez do mundo” – de facto não compreendi. Mas ó Sr. Dr. talvez isso derive de me situar intelectualmente ao nível minhoto e duriense e não europeu e universal; é uma questão de escala, desculpe-me mais uma vez. Em compensação, deu-me a alegria de saber que nalguma coisa, já que no Europeu de futebol foi o que se viu, somos os maiores. Com o espinhaço dobrado, atrevo-me contudo a manter as críticas que faço (no artigo a que se refere e numa entrevista regional que creio não terá lido), a propósito do chamado “pólo” da Cinemateca, ao modo como esta instituição é gerida e a concordar, de boca aberta, com o sr. Dr. quando qualifica de “saudável” a petição que o reclama. O Sr. Dr. é tão compreensivo!


Admira o facto de o Sr. Dr. ter resolvido vir em pública “defesa” de um amigo que acha que eu “insultei”. Fez muito bem, os amigos são para as ocasiões e os lobbies – lá na minha terra a gente chama-lhes a malta do Zé do Telhado, do Quim Bexigas, do Toino das Iscas, mas é o mesmo – existem para isso; e vai ver como virão outros ajudá-los a ambos... Só que, Sr. Dr., há-de ler com menos paixão e mais siso os dois artigos em causa e vai acabar por dar conta que se a motivação para vir em defesa do Sr. Director da Cinemateca foi questão de insultos ainda vai escrever um artiguinho em minha defesa, porque está-me a parecer que o seu amigo é como dizia dum patrício um homem cá de Ceide: “É estilista bilioso, explica-se azedamente, diz com afoiteza grosseira o que sabe; mas acontece às vezes não saber o que diz.” Em matéria de insultos, eu não faço uso deles nem em política, nem na discussão intelectual, por uma razão – simplória – é que o sr. padre sempre me disse que é pecado... Antes um pau de marmeleiro nos costados, mas também sou fraquinha de braços.


Uma coisinha fez-me doer a alma: então o Sr. Dr. acha-me arrogante? E logo o Sr. Dr., um intelectual tão humilde, como não pode deixar de ser um verdadeiro intelectual e príncipe das artes. Penitencio-me, Sr. Dr., nunca eu deveria, como diz, ter tido a “veleidade” de apontar o dedo a um bonzo intocável. Sempre assim foi, nos Dantas não se toca, nem pim, nem que se tenha estado num ponto privilegiado de avaliação. Calado, venerando e agradecido é assim que o poder político deve estar face aos outros poderes e é se quer ganhar eleições. Como os tempos mudaram!


Para terminar, que esta já vai longa, lamento Sr. Dr. ter de o contrariar naquele conselho final que me dá: “Sois belle et tais toi!” Bem queria ser-lhe agradável e seguir o conselho azedo, misógino e fora de moda, até para o sr. Dr. poder envergonhar-se menos de ser o português que é nesta matéria, mas não posso: quanto à beleza, cada um estende a perna até onde tem coberta, como dizia a tia Berta; quanto à faladura, sou dona da minha voz para não ser escrava do meu silêncio, como dizia a mãe dela, que era uma santa e não era deputada.


Dantes, eu sei, as Marias Papoilas calavam e os aristocratas de barba rija falavam, mas os tempos mudaram: é esta coisa da democracia e das igualdades que nos obriga a lidar com gente desqualificada, as mais das vezes, mal lavada até. Mas na vida é assim, Sr. Dr.: uns montam o circo, outros batem palmas. (Deputada do PS pelo Porto – Artigo escrito em 29/06/2008 e publicado no Jornal Público de 07/07/08) - Isabel Pires de Lima

domingo, julho 06, 2008

Aldina Duarte - Mulheres ao Espelho



Aldina Duarte - Não Vou, Não Vou (Criação de Lucília do Carmo)


Depois de uma ligeira decepção relativamente ao novo álbum do Camané, aguardava ansioso a chegada do novo álbum de Aldina Duarte. E ele eis que chegou - Mulheres ao Espelho - editado pela editora criada pela própria Aldina Duarte RODA-LA Music.
Este álbum é surpreendente. Começa pela leveza do design gráfico (de Rui Garrido), em tons de verde-água, luminoso, onde salta à vista as belissimas fotografias de Aldina Duarte tiradas por Isabel Pinto. A fotografia que acima coloquei é da contra-capa do álbum.
O disco fez-se no feminino. Ou melhor, é feminino. Feminino porque retrata vivências, atitudes, histórias, sentimentos, movimentos femininos. Uma ode à(s) Mulher(es), do príncipio ao fim.
Aldina assina cinco dos poemas (No Fim, Princesa Prometida, Uma amante, Uma noiva, Paraíso anunciado) que compõem este álbum de 11 faixas. Júlio de Sousa (Não vou, não vou), Lourenço Rodrigues (A Rua mais Lisboeta), Maria do Rosário Pedreira (Quadras do Amor Errante, O Amor não se desata e Mãe) e, por fim, Álvaro Duarte Simões (Barro Divino) assinam os restantes.
Este é um álbum de Fados Tradicionais - felizmente - e homenageia também mulheres fadistas, concerteza referências fortes para Aldina Duarte, nomeadamente em fados da criação de Lucília do Carmo e Hermínia Silva.
A voz de Aldina Duarte está segura (e feliz, parece-me), mantendo a sua forma característica de cantar. E é isto que eu adoro na Aldina: tem uma forma própria de cantar, que rapidamente nos leva a perceber de quem se trata quando se ouve. Assim como com a Beatriz da Conceição, ou Maria Teresa de Noronha ou Maria da Fé. E a superioridade está nisto: criação de um estilo próprio, de um cunho pessoal, de uma marca. A novidade acontece nisto.
É um álbum que recomendo vivamente. Belas melodias tradicionais, excelentes poemas e Fado no seu mais puro sentimento.
Resta agora o concerto ao vivo. Para quando? Espero que para breve.

sexta-feira, maio 23, 2008

Tosca com Elisabete Matos - Teatro Nacional de São Carlos


Na quarta-feira passada fui assistir, no Teatro Nacional de São Carlos, a mais uma representação de Tosca, de Puccini.

A casa estava cheia para receber a soprano Portuguesa Elisabete Matos. E não desiludiu.

Elisabete Matos, em Tosca, é figura forte em palco e com uma voz que facilmente encanta, juntando a esta uma preocupação interpretativa da personagem.

O restante elenco era composto por:

Cavaradossi - Evan Bowers

Scarpia - Vladimir Vaneev

Angelotti - Mário Redondo

Sacristão - Luís Rodrigues

Spoletta - Carlos Guilherme

Sciarrone - João Merino

Carcereiro - João Oliveira

Maus eram os cenários e os figurinos, de Anthony Ward. Pouca preocupação estética numa misturada de estilos sem sentido.

Mas no final, as excelentes interpretações de Elisabete Matos e Vladimir Vaneev abafaram ou desculparam tudo o resto, em que os constantes bravos e a ausência de pateada coroaram a noite.

Para o futuro, o desejo de ter Elisabete Matos novamente em palcos portugueses, de preferência com uma roupita melhor e um cenário a condizer.

domingo, maio 18, 2008

Camané no Coliseu dos Recreios de Lisboa



Camané apresentou-se dia 16 de Maio no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Sala esgotada. Dez minutos de atraso, mais coisa menos coisa. Luzes apagadas. Uma voz agressiva lembra aos menos educados ou menos cívicos que devem desligar os telemóveis e que não se pode fotografar ou gravar o espectáculo.

Saem os primeiros sons de guitarra... uma luz acende e Camané, sentado numa cadeira, de lado, começa com um incrivelmente belo e arrepiante Sei de um Rio, de Pedro Homem de Mello, a música jóia da coroa do novo álbum "Sempre de mim".

O resto, foi um desfilar emocionante e de rara beleza de 30 músicas, ou mais, non-stop.

Camané foi grande o suficiente para encantar, deslumbrar ou emocionar o Coliseu dos Recreios de Lisboa.

Com uma voz melhor que nunca, amadurecida e com belíssimas variações, Camané cantou alguns temas do novo álbum e grandes sucessos - como se constatou nos diversos encores - dos discos anteriores.

Qualquer tentativa que tenha em descrever o concerto ou qualquer tentativa que possa fazer para transmitir as emocões vividas em noite tão especial, ficarão sempre aquem da realidade.

Camané provou, numa sala que se sabe dificil, com um público indisciplinadissimo - num constante sai e entra, velhotas perdidas nos tapetes vermelhos do Coliseu, pessoas a quem a voz agressiva do início não meteu medo, mexendo nos telemóveis o tempo inteiro, até aos mal educadissimos operadores de câmara e fotografos que teimam em incomodar quem pagou (e convenhamos que não se pagou pouco) um bilhete para um espectáculo que não merece distracções - Camané, dizia, provou que nasceu para grandes vôos e que é, sem qualquer tipo de dúvida, a grande voz e a grande referência do Fado actualmente.
Humilde na sua maneira de ser, Camané quase pediu desculpa por um Fado que iria cantar e que não era seu. Percebe-se que não gosta de cantar o que já antes havia sido cantado por outros e, principalmente, quando os outros eram Amália Rodrigues. Mas fê-lo... e com muita autoridade. Falo de Asas Fechadas, Fado emblemático do não menos emblemático álbum Busto de Amália. E que extraordinária interpretação.

A comprovar a excelência do fadista e dos fados que interpreta estão, claro está, as inúmeras pessoas ligadas à música que compareceram no Coliseu: Aldina Duarte (que iluminou com o seu belissimo sorriso a sala), Celeste Rodrigues, Carlos do Carmo, Sérgio Godinho (que escreve uma letra bem ao seu estilo no novo álbum do Camané), os irmãos Pedro e Helder Moutinho, Rodrigo Costa Felix, entre outros.

Trapalhão na fala mas grandioso na postura, Camané, acompanhado pelo trio fantástico de José Manuel Neto – guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença – viola, Paulo Paz – contrabaixo e como convidado especial - Carlos Bica, dominaram por completo o palco, a alma e o coração de quem lá esteve, viu e ouviu. Espera-se mais, muitos mais concertos brevemente.
José Daniel Ferreira
"O Coliseu é feito de fado e Camané é o seu senhor
Quando Camané dedica palavras ao seu público, sem o acompanhamento de violas e guitarras, multiplica-se em agradecimentos e deixa explicações sobre os fados que canta. Mas cedo se perde entre os nervos que as canções afastam. Este é o senhor fado que nasceu para contar histórias de miseráveis apaixonados e infelizes boémios elevando a voz, tornando maior que tudo o que, no momento, a rodeia. E fá-lo com uma invejável expressão de contentamento. A noite de sexta-feira fica documentada como a sua estreia em nome próprio no Coliseu dos Recreios. Mas quando canta, juramos que a história e a tradição da sala também lhe pertencem.
O novo Sempre de Mim é ainda disco em crescimento junto de quem o ouve. Mas certezas como esta não pedem por muito tempo para se revelarem: esta é a poesia que melhor serve a tradição fadista que Camané apregoa. E o fadista fá-lo hoje melhor que nunca. Começa sentado, longe das luzes. Canta "sei de um rio onde a própria mentira tem o sabor da verdade" e contorce-se a cada palavra que Pedro Homem de Mello parece ter-lhe dedicado. Volta sempre a Alfredo Marceneiro e mesmo ali regressa à infância, quando escutou quem hoje ainda o acompanha. Fernando Pessoa e David Mourão-Ferreira ecoam pelo Coliseu como poucas vezes até aqui. Lembremos então Amália, que Camané recorda, tímido, em Asas Fechadas. A modéstia serve-lhe a elegância mas sabe vestir a canção como só o próprio poderia.
Camané fez-se fadista para o demonstrar em público. De mão no bolso e fato escolhido ao pormenor. Reservando espaço para quem lhe dá o suporte musical (nesta noite com Carlos Bica como convidado especial) e entregando-se. Na resposta, o Coliseu pediu-lhe quatro encores, aclamou-o e soltou típicos "bravos" ou uns menos ortodoxos "és lindo". Camané sorriu e respondeu que sim."
Crítica de dia 18 de Maio - Diário de Notícias - Tiago Pereira e Tiago Lourenço

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Simone de Oliveira – 50 Anos de Carreira


O Coliseu de Lisboa encheu-se ontem pelas 21h e 30m para comemorar os 50 anos de carreira de Simone de Oliveira, num espectáculo memorável.

Ao longo de mais de duas horas desfilaram pelo palco do Coliseu grande parte das músicas emblemáticas da carreira de Simone, escritas pelos maiores poetas que este país teve e cantadas por colegas e amigos da homenageada.

Anabela (comovente), Lara Li (surpreendente), Marisa (a que canta, a dos Donna Maria, não a outra), Pedro Abrunhosa (em dois momentos dolorosos e desenquadrados dos restantes convidados), Pedro Moutinho (emotivo), Dulce Pontes (momentos únicos), Wanda Stuart (em grande forma), Henrique Feist (no seu melhor) e Lúcia Moniz (descontraída).

Mas a estrela da noite foram os membros que compunham o grupo Gospel, criando uma atmosfera absolutamente fascinante e eufórica, com várias brilhantes perfomances (coube-lhes a interpretação do tema central de toda a carreira de Simone – Desfolhada à Portuguesa).

A acompanhar os interpretes a maravilhosa Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a batuta de Nuno Feist.

A concepção do espectáculo estava de se lhe tirar o chapéu. Percorreu-se o Portugal dos 50 anos de carreira de Simone, num cenário Beckettiano, com uma excelente concepção cenográfica e design de luzes. De cada um dos lados do palco, enormes telões mostravam-nos imagens de alguns acontecimentos da carreira de Simone ou da vida politica e social do país. A maior gargalhada da noite foi para um discurso de Marcello Caetano – discurso, esse, que podia perfeitamente ter sido feito ontem, - numa ousadia política bastante grande, uma vez que estavam presentes o Presidente da República Portuguesa e sua comitiva, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes e outros membros do actual e anterior governo.

No final do espectáculo – em quase encore – surge Simone de Oliveira. De imediato a casa se levantou para uma comovente, merecida e longa salva de palmas.

E Simone cantou de uma forma que não se consegue descrever porque ficará sempre àquem da realidade. Não se percebe como, nem porquê. De onde vem aquela voz, aquela postura, aquela tão falada força que a agiganta para lá do que é humanamente possível?

Os temas cantados por Simone souberam a pouco. Foram apenas cinco. Mas afinal, que diabo, ela estava ali para comemorar não para trabalhar... mas, repito, souberam a pouco.

Um grande momento, já perto do final, foi quando Madalena Iglésias entrou em palco para cantar com Simone. A sala não se conteve e novamente o público, de pé, aplaudiu as duas grandes “rivais”, pois os 50 anos de carreira de Simone são, em certa medida, os 50 anos de carreira de Madalena.

Para fechar a noite em puro extâse, António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entrega a Simone a Medalha de Ouro da Cidade. Afinal, era a ela que Ary dos Santos chamava de “Tejo” e foi ela quem cantou “Esta Lisboa que eu Amo”.

O saldo do espectáculo foi mais do que positivo. Emotivo, surpreendente e, acima de tudo, foi feita justiça a uma grande mulher do panorama artístico, social e, arrisco mesmo a dizer político, de Portugal. Simone de Oliveira teve casa cheia e mereceu-o.

Agora, resta-nos esperar por mais concertos, um DVD ou um CD (quem sabe?) e a estreia, para breve, de Vila Faia.

Parabéns a todos quantos estiveram envolvidos no espectáculo – desde a concepção, aos textos, passando pelo programa (do mais original que eu já vi – grande trabalho), bailarinos e músicos. Uma noite para gravar na memória e lembrar sempre.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Monologo das Avenidas Novas

(foto do autor)

É meu costume deambular pelas Avenidas Novas. – Faço-o muitas vezes quando a vida não me sorri, independentemente do dia da semana (as Avenidas Novas nunca encerram para descanso do pessoal), da hora (mais simpáticas a partir das duas da manhã, mas sempre disponiveis a qualquer hora do dia) ou do tempo (com chuva é pior, embora aumente o cenário). Caminhando por aquelas passadeiras de calçada portuguesa que nos levam a ruas cujo o nome não sei e, entre pensamentos e palavras que me saem pela boca – sim, por vezes caminho falando sozinho (ou melhor, falando de mim para mim, pois uma coisa é ouvir a voz do pensamento e outra é ouvir a nossa voz a expressar um nosso pensamento) apercebo-me de uma coisa: do meu verdadeiro way of life.

Apercebi-me na minha ultima caminhada sem sentido ou destino (paro apenas quando o cansaço me vence ou os olhos me estão pesados) que o sentido da minha vida é estar entre. Sim, estar entre.

Não é no sentido de: - “Entre, se faz favor, aqui está mais protegido” ou “porque não entra e descansa um pouco a cabeça e o corpo, e já agora a alma, os pulmões, o sexo, a barriga e o cú... descanse por inteiro vivo-morto-vivo neste divã suspenso de emoções. Faço-lhe um chá de recordações infantis com um aroma de esperança, adocicado com duas colheres de sonhos por cumprir. Verá que se sentirá melhor”.

O meu entre é estar no meio de duas coisas, sem nunca estar numa ou noutra. Esse é o meu estilo de vida.

ENTRE

Desde sempre que assim foi e só agora cheguei lá.

Passei a vida entre Lisboa e Viseu. Nasci a 10 de Agosto de 1977 mas sem ter tempo suficiente de me sentir Lisboeta. A 15 de Agosto já estava em Viseu. Entre uma cidade e outra, uma estrada de traça tortuosa, longa, com demasiadas subidas para que se chegue enjoado o suficiente ao destino. Veio depois a auto-estrada. Das 8 horas de viagem passou-se a 3 horas. Da excitação que era fazer a viagem (como se de todas as vezes viajássemos até ao reino do Preste João, de que apenas nós tinhamos o conhecimento do mapa) passou-se à chatice de conduzir três horas sem surpresas ou novas emoções até à aldeia que agora é vila, e por isso perdeu o interesse.

Cresci entre irmãos: três mais velhos e dois mais novos. Suficientemente distante de todos eles, por força de compadrios internos e gestão política de poderes. Eu sentia-me a Cuba de Fidel. Forçosamente só, a todo o custo e esforço.

Veio a escola primária e preparatória. Aí estive sempre entre o reprovar e o aprovar. Acabei sempre por nunca reprovar. Não sei como nem à custa de quantos subornos ou choraminguices da minha mãe isso aconteceu.

No entanto, na escola, sentia-me diferente. Não gostava de futebol, nem de porrada, espadas ou dragões mas gostava da companhia dos rapazes (mais tarde acabei de perceber porquê); mas gostava também das raparigas, porque elas iam a museus e gostavam, e eu também gostava; gostava de teatro (obrigado Mãe por esse vício); gostava da companhia dos avós e dos tios; das casas grandes de férias; do nevoeiro entre as árvores, do tanque da rega congelado pelo frio, do cheiro do fumo das lareiras a saír pelas chaminés, ou simplesmente da cascata de água do Poço Azul, da tosse provocada pelos pasteis de Vouzela, do galo estupor que me acordava cedo ou do morcego que se fazia convidado e voava pela casa fora. Das doze badaladas do relógio gigante do meio das escadas da casa da avó em sintonia com as doze badaladas do relógio divino da torre da igreja.

Na adolescência refinei-me. Estive sempre entre aquilo que eu sabia que era e aquilo que eu sei que teria de ser se queria sobreviver saudavelmente numa escola pública. Ou seja, estive sempre entre aquilo que eu verdadeiramente era e um meu outro. Criei em mim uma dupla persona[lidade] que geri como podia e sabia mas que era complicado comandar, pois fazer adormecer um lado para acordar o outro, consoante os locais e as pessoas, não me era fácil e até incómodo.

Mas ainda hoje, aos 30 anos, sinto-me feito de duas matérias diferentes (embora não opostas), sinto essa dupla persona ainda habitando em mim. Quando estou a sós comigo não me sinto igual ao eu que sou quando estou com os outros. Sinto-me diferente ou percepciono-me de maneira diferente.

Ainda não experimentei a sensação de ser apenas um.

Na vida laboral estive e estou entre trabalhos. Nunca me fixo. Não consigo, não quero, não me deixam, não entendo. Entre um trabalho e o seguinte ou o anterior só a insatisfação se mantêm, a sensação de tempo perdido em coisas inuteis, a ideia de que nada de frutifero faço para a Civilização, para a Cultura, para mim. Cada dia de trabalho que passa é mais um cavaco de lenha que lanço para a lareira da bestialidade... da minha bestialidade. Cada vez mais me afundo entre funções que não gosto e a luta infinita de saltar longe e fugir.

Salva-me por vezes a música, a poesia declamada. Com ela respiro, ausento-me, suspenso-me alto, junto de estrelas desconhecidas e pessoas mortas que me fazem falta. Com ela fecho os olhos e a vida é perfeita harmonia, felicidade de dois corpos juntos, convivio entre iguais e caminhadas com destino. Com ela o Amor existe e realiza-se. Sem entraves, sem perguntar como, porquê e onde, sem rejeições ou mentiras. Porque no Amor também estou entre. Entre quem amo e o mundo; entre quem amo e a vida; entre quem amo e os outros; entre quem amo e eu mesmo, principal obstáculo de eu próprio conseguir amar em dois. Apenas uma vez ouvi em Stereo o Amor. Com lado A (eu) e lado B (outro). Ambos perfeitos até aos primeiros riscos, à primeira faixa que se saltou, ao desgaste e consequente destruição. Voltei a ouvir em Mono e re-gravei o meu lado A com novas melodias, não necessariamente com melhor letra.

Entre o muito que ainda teria para contar e o tempo que tenho para o fazer, termino este texto sem causa nem efeito. Quem sabe se não continuo um outro dia, porque tese com antitese dá sintese.

“Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar” – Mário Cesariny

segunda-feira, agosto 27, 2007

E COMO TODOS OS DIAS MATAMOS DIANA ALEGREMENTE

Fernanda Câncio
jornalista

Nunca me contei entre as fãs de Diana de Gales. Não me tocou a história da rapariga espigadota e tímida que casou com o príncipe muitos anos mais velho e que acabaria por se divorciar, dois herdeiros e ene peripécias pouco edificantes depois. Interessou-me, no entanto, a construção do mito - que precedeu a sua morte -, a forma como contribuiu para erodir de forma irreversível a imagem da monarquia e interessou-me a sua complexa relação com os media.

E, sobretudo, interessou-me a tragédia. Uma tragédia que parecia ter sido anunciada, de tão exacta no simbolismo. Lembro-me da manhã em que acordei para a notícia, de como estranhamente me comoveu, a mim que não sentia nada por Diana, de como me pareceu mentira de tão caricatural. Lembro-me também da longa discussão que se seguiu, ao longo de meses, sobre o papel dos media na morte de uma das suas maiores estrelas, das propostas, no Reino Unido, de um "código de conduta", dos protestos de que nada nunca mais seria igual, que nunca mais se perseguiria ou exploraria de modo tão cruel a imagem ou a vida privada de alguém.

Dez anos depois, aquilo que nos parecia, de Portugal, uma realidade distante e estrangeira - a proliferação do cor-de-rosa, a tabloidização de toda a informação - chegou em todo o seu esplendor. O "acordo de cavalheiros" que foi prometido no pós-Diana, a ideia piedosa da auto-regulação, o primado do bom senso e do respeito pelas pessoas, onde é que isso vai. O caso Maddie - que não por acaso foi comparado, no Reino Unido, em impacto e adesão popular, ao de Diana -, demonstra, caso houvesse dúvidas, a obscenidade da noção prevalecente do que faz sentido publicar. Durante meses, assistimos, nos media britânicos e portugueses, a uma histeria que, incrivelmente, subsiste. Todos os dias saem "notícias" contraditórias e infundamentadas que mais não são que palpites: o sangue é dela, não é dela, é de um homem, "afinal não se sabe". Ela morreu, foi raptada, foi drogada, houve um acidente, os pais estão inocentes, os pais estão metidos na marosca, o Murat é um malandro, o Murat é uma vítima, a PJ é óptima, a PJ não presta para nada. Anunciam-se "buscas" antes de ocorrerem, "prováveis detenções" que não acontecem, fritam-se hoje os mártires/heróis de ontem e vice-versa. Uma alegria. Interessa lá que estejam a decorrer investigações, interessa lá que esteja em causa uma criança de 4 anos, interessa lá que a publicação de tanta falsidade evidencie o quão afastados os media andam da sua suposta missão de informar e esclarecer, interessa lá que haja gente inocente a ser enxovalhada e perseguida, interessa lá que se destruam vidas. Não, nunca saímos do túnel de Alma. Ainda lá estamos, pé no acelerador, atrás de Diana, sempre com a bela desculpa de que se não formos nós, outros serão. Porque elas, as Dianas, "vendem". E toda a gente compra.
Diário de Notícias - 24/08/07

sexta-feira, abril 06, 2007

A Extraordinária Arte de (Saber) Representar


Não se tem "Dúvida" alguma que este se trata de um enorme texto. Fala de tabús, da moralidade e do dever versus a realidade (normalmente dura, cruel, onde há subjugadores e subjugados, fortes e fracos, os que têm e podem e os que não têm e não podem.
Texto profundo, limpo do acessório, irónico e central.
A encenação de Ana Luísa Guimarães é muito bem conseguida, linear, contida, nada pretensiosa.
O cenário é muito bom, claustrófico q.b., fechado e em cunha, mas sempre iluminado com um feixe de luz... Deus?
Como referiu o Fernando D., para o Teatro só são necessárias duas coisas: as palavras do autor e o corpo do actor. Concordo.
Quanto às palavras não há a menor "Dúvida" de que se está perante um grande texto - vencedor do prémio Pulitzer 2005". E quanto aos actores?
A Eunice Muñoz dá uma grande lição da arte de representar naquele palco do Maria Matos. De uma força impressionante, irónia e com imenso sentido de humor, Eunice Muñoz é uma lição viva do que deve ser o ofício da representação e interpretação, de como se está num palco, a forma de dizer as palavras, de mexer corpo. Uma vivacidade comovente que nos convençe, a cada segundo, de que ainda muito tem para oferecer aos palcos portugueses. Chegou mesmo a ser presenteada com uma ovação no final de umas das cenas, tal foi o seu brilhantismo.
O mesmo, infelizmente, não se pode dizer relativamente ao Diogo Infante. A sua representação foi muito mediocre, sem a força e a subtileza que a personagem exigia. Sempre no mesmo tom, com uma voz colocada que não lembra a ninguém, não conseguiu transmitir qualquer tipo de sentimento ou reacção, chegando mesmo ao ponto de ser aborrecido nas "homilias" pregadas.
Isabel Abreu interpretou uma noviça altamente convincente e segura.
Lucília Raimundo, com um papel curto e extremamente interessante, protagoniza uma das cenas fulcrais e perturbantes da história. Contudo, o que tinha tudo para ser um dos momentos altos - devido ao tema em conversa e ao ponto de vista e de realidade da personagem por ela interpretada - não o foi. Lucília Raimundo aparece frouxa e desmaiada, sem dar a pujança que a defesa dos seus argumentos exigia.
Resumindo, estamos perante um excelente texto e duas representações - uma soberba, outra bem feita - que merecem a visita ao Teatro Maria Matos.
O último senão da noite veio com os agradecimentos. Por uma questão de respeito e consideração, quando se tem uma grande actriz - com uma longa e reconhecida carreira - o mínimo que se deve fazer é deixá-la chegar sozinha ao palco para agradecer. Tal não aconteceu com a Eunice Muñoz. Na primeira entrada para os agradecimentos a Eunice deveria, no início ou no fim da entrada do restanto elenco, comparecer no palco sozinha. Tive a perfeita consciência que a grande maioria das palmas destinavam-se, de facto, a homenagear a Eunice. Foram altamente merecidas, embora divididas pelos restantes três elementos.
Vá ao Teatro...
E uma última pergunta: Por que é que já não se usam as pancadas de Molière?

Cortem-lhe a cabeça!

Artigo de Luciano Amaral, Professor Universitário.

"Portugal tem mesmo coisas engraçadas. Um grupo de maduros sem mais nada para fazer põe-se a telefonar para a televisão do Estado e "elege" Salazar como o "maior português" de todos os tempos. Foi quanto bastou para as nossas almas pensantes se mortificarem em reflexões espantosas sobre um sinistro salazarismo latente ou renascente. Parece que não eram só os maduros dos telefones que não tinham mais nada para fazer.
Dos múltiplos e vastos lençóis perpetrados sobraram dois excelentes artigos de Jorge Almeida Fernandes e Pedro Magalhães, ambos no jornal Público. Concentro-me no primeiro, por ter apreciado especialmente algumas considerações. Almeida Fernandes relembrou a atávica "dificuldade da esquerda em pensar o salazarismo", nunca ultrapassando o prisma da caricatura. Coisa que, como muito bem notou, "saiu-lhe cara". Recorda ele que, ao longo dos anos 60, Portugal conheceu as mais elevadas taxas de crescimento da sua História, viu os campos esvaziarem-se e o país urbanizar-se, viu nascer uma nova classe média, viu os costumes alterarem-se. E podia ter ido mais longe: também foi sob Salazar que Portugal entrou na "Europa", a Europa da Escandinávia, do Reino Unido, da Suíça e da Áustria, que se juntou na EFTA em 1960; também foi sob Salazar que o analfabetismo se reduziu drasticamente no País; também foi sob Salazar que começou a primeira expansão séria da Segurança Social (ainda com o nome de "Previdência"). Tudo coisas que podem ser feitas sem liberdade política. Dito de forma breve, foi sob o salazarismo que o País começou a "modernizar-se", no sentido que o termo adquiriu no século XX, algo que entretanto prosseguiu até hoje, agora incluindo também a tal liberdade política. Fernandes nota até como, por causa disto, a oposição se sentiu obrigada nos anos 60 a alterar o seu discurso: da crítica "antifascista" passou à crítica "anticapitalista", precisamente porque via o País aproximar-se dos índices do "centro" capitalista.
Para Fernandes, estranho é o "antifascismo" serôdio que agora deu em aparecer. E está muito bem estranhado. Na verdade, não se percebe a que "fascismo" se opõe ele. Ou talvez perceba: também as crianças têm os seus amigos e inimigos imaginários. Parece a rainha de copas de Alice no País das Maravilhas, que via adversários por todo o lado e passava o tempo a mandar cortar--lhes a cabeça.
Donde se conclui que o mais interessante não foi o resultado do concurso mas as reacções da intelligentsia nacional a ele. Esta intelligentsia mostrou que não percebeu, não quer perceber e provavelmente nunca perceberá o século XX português. De facto, o nosso século XX só poderá ser percebido se também o salazarismo for percebido de forma apropriada. O salazarismo é o momento pivot do século, que define o seu passado e o seu futuro imediatos. Prova disso é o facto de tanta gente precisar ainda hoje de definir o nosso regime relativamente a ele, nem que seja por oposição. O que, aliás, não é bom sinal. O regime deveria valer pelo que tem a oferecer de positivo e não por comparação com uma coisa que, pelos vistos, era tão notoriamente má.
A concentração da reflexão (?) na violência política do salazarismo impede muita gente de perceber que ele teve mais adesões do que se julga. A maior parte dos que estavam com ele não era por medo da pancadaria e da censura, mas por gostarem da solução. Não falo de casos raros e minoritários, do estilo do comunista Carlos Rates, que se passou para o regime. Falo sobretudo do pessoal político da I República, gente que teria de ser considerada de "esquerda" e aderiu em grande número ao salazarismo. De facto, o salazarismo dividiu esse pessoal político entre um grupo que se lhe opôs e outro que se lhe juntou (talvez a maioria). Basta pensar em alguns colaboradores de Salazar, que incluíam maçons, carbonários e constituintes de 1911, como Albino dos Reis, Manuel Rodrigues, Bissaia Barreto ou Duarte Pacheco. Porque é que isto aconteceu não se percebe com as banalidades costumeiras sobre o assunto.
Salazar não merece certamente ser considerado o "maior português", mas merece algo mais do que aquilo que apologistas e detractores andam por aí a dizer. Sobretudo, merece ser estudado e desmitificado. Se isso já tivesse sido feito, provavelmente nem sequer ganharia o famoso reality show histórico. Como em muitas outras coisas, parece que o cidadão comum percebe melhor o que se passa do que tantas cabeças atafulhadas de livros e teorias. Quando perguntados sobre quem achavam ser o maior português, em sondagens que cumpriam os necessários requisitos técnicos, nomeadamente sem o enviesamento da amostra que existiu no concurso da televisão, os portugueses votaram nos clássicos Afonso Henriques, Camões ou D. Henrique. Mostraram ser bem mais crescidinhos do que as luminárias que querem guiar o nosso caminho.

Uma coisa é certa: À semelhança da História do mundo que ficou dividida entre antes e depois de Cristo, a nossa História parece caminhar a passos largos para um antes e depois de Salazar…

O seu a seu dono!

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Artigo de Opinião de Mário Viegas no Diário Económico, 30-06-1995


TEATRO
Por Mário Viegas

Crónica muito violenta, indignada, contra três bestas humanas inimigas de Portugal

Está na moda arrasar uns «pobres diabos» que aparecem nos 4 canais de televisão que temos e chamar-lhes: javardos, vendidos, produto da incultura e estupidez, atrazados menstais, ordinários, oportunistas, prostitutas, gandulos, boçais… uns montes de Merda, enfim!...
E lá se citam os nomes dos ex-actores de Teatro ou políticos como: o Baião, o Samora, o Zé Jorge Duarte, a Lídia Franco, o Monchique, a amiga Olga, o Luís Pereira de Sousa, o Pacheco Pereira, o Marco Paulo, a Rita Blanco, o Goucha… uns montes de figuras, enfim!...
Mas ninguém tem a coragem de chamar os mesmos nomes a uns «intelectuais», «pensadores», «analistas», «comentadores», que escrevem e dizem os jornais e Televisão, as maiores enormidades. Mais grave ou pior que as desses «pindéricos» que (coitados) andam a ganhar a vida, sem se arrumar automóveis…
Como são artigos ditos por malandrins e malandronas, que se infiltram num certo meio jornalístico, pela cama, pelos bares de opinião alcoólica, ninguém lhes toca.
Vejam lá se não são tão ordinários (ou mais!) do que os outros?!
Passo a citar:
CLARA FERREIRA ALVES – (uma pirosa, de cabelo mal-pintado, que fala pretenciosamente de tudo e todos, antes de atender um senhor que se segue… na SIC)
«(…) em Portugal não acontece nada (…) Portugal só é falado a reboque da Espanha (…) o nosso ritmo é o dos povos infelizes, com muito passado, pouco presente e nenhum futuro.»
Basta!!! Esta «amiga Olga dos intelectuais» deve andar na pré-menopausa dela e a confundi-la com o Povo Português. Pirosa!!!!! Volta amiga Olga, que estás perdoada!!!!
VASCO PULIDO VALENTE – (um homenzinho balofo, a destilar cubos de gelo para Whisky, por todos os lados e que já nos sacou dinheiro como Secretário de Estado da Cultura!!!)
«(…) Portugal, culturalmente não tem grande interesse, à excepção de 2 ou 3 coisas: a nave Alcobaça, o Convento de Cristo e uma e uma ou outra curiosidade. (…) os portugueses não lêem ou lêem lixo! Mas leio eu vários amigos meus e não vejo porque motivo o Estado nos sacrifica à estupidez da Raça!»
Basta!! Vamos Ordinário Cobardola!!! Volta Marco Paulo, que estás perdoado, perante tais vómitos de ódio a si mesmo e à Pátria que lhe tem dado tantos «tachos»!!!...
ALBERTO PIMENTA – (é um tipo que parece um gorila de rabo pelado. Julga-se humorista, escreveu um livro chamado «Discurso sobre o filho da puta», meteu-se numa jaula do Zoo, para ver as reacções dos outros. Mas os «outros» não reagiram, pois confundiram-no com um «macacóide» que estava ao lado dele a meter-lhe uma banana na boca.)
«A Arte em Portugal não tem nada a ver com a vida (…) Há um egoísmo parfeitamente catastrófico que caracteriza os Portugueses (…) Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo da civilização urbana.»
Basta!!! E ninguém lhe põe Pimenta no rabo, a ver se nos salta da nossa vida para fora? Volta Baião que estás perdoado!!!
Estas citações são tiradas de artigos que escreveram em jornais. Quem lhes paga para escrever estas opiniões demolidoras, racistas, fascistas, pretensiosas e inacreditáveis?! Faltam tantos Almada Negreiros por aí, para demolirem nuns bons «Manifestos Anti-Cagões Intelectuais». Estes «seres pensantes» são daquela raça de portugueses que afirma:
«- Este país é pequeno de mais para mim!»
Então não chateiem e vão ser professores, analistas, cronistas para a Amazónia ou para o deserto do Saara!!! E como são feios, porcos e maus já estou a vê-los vomitar cólera contra mim e a dizerem:
- Mas quem é que este medíocre do Actor Mário Viegas se julga, para nos atacar assim?!
Estou-me a ralar para eles! Eles até não me vão ver ao Teatro há anos… Nem a mim nem a ninguém!!
Voltarei, em próximas crónicas, a outros mitos de pé-de-barro! Se estes não andarem já a pensar como me hão-de calar a boca. É gente para isso e para muito pior! Até para lançar o gaz da «Verdade Suprema» na redacção do «Diário Económico». Cuidado!!

terça-feira, janeiro 23, 2007

Uma noite no Sr. Vinho

Capa do disco de Filipa Cardoso. Um nome a fixar e uma voz a adorar


Ontem - 2ª feira - tive uma noite inesperada. Depois de um jantar com dois amigos num restaurante chinês nas Avenidas Novas, fui levado - sem nenhum sacrificio, diga-se - até ao Restaurante Sr. Vinho, a Casa de Fados de Maria da Fé.

Foi a minha estreia.

Depois de uma recepção calorosa por parte dos responsáveis do Restaurante, sentámo-nos a uma mesa de canto, protegidos por duas belas estatuetas em madeira de Santa Anna e de Santo António. Pediram-se cafés e uma belissima sangria.

Estavamos em amena cavaqueira quando as luzes da sala quase se apagaram, e os primeiros acordes das guitarras começaram a soar. Aparece a primeira fadista da noite - Filipa Cardoso ( Vencedora da " Grande Noite do Fado" de 2004 ).

Um assombro. Uma autêntica alma de fadista espelhada na postura do corpo, na voz forte e no sentimento colocado na dureza das palavras cantadas. Quatro belissimos fados foram o arranque de uma noite de emoções fortes.

Terminada a actuação de Filipa Cardoso - que se pode também ver na Revista, no Parque Mayer - a conversa retomou o seu caminho, a sangria foi desaparecendo, os cigarros ardendo nos cinzeiros.

Pouco depois, começa a cantar António Zambujo, guitarrista da casa. Uma voz delico-doce, um pouco a puxar "para baixo", com bonitas letras de fado, embora intermináveis. Encanta mas não emociona.

Vem depois a dôr de alma maior. A senhora detentora da Voz, do Fado e da Força que não entendo de onde vem - Maria da Fé.

Três fados, entre eles o célebre "Cantarei até que a voz me doa". Nessa altura estava a nossa mesa aterrada, comovida, esmagada pelos sentimentos que daquela voz maior transparecem, pelo belo que o seu perfil à meia-luz nos afigura, pelo facto de a idade ser, sem dúvida, uma mais valia imensissima para as emoções do fado.

Quando as luzes se acenderam e as ovações terminaram, reinou o silêncio por uns momentos à mesa; todos a recuperar o folgo, mais um trago na sangria e mais um cigarro que ajudasse a colocar no seu andamento correcto o bater do coração, que estava descontrolado. A noite estava mais que ganha.

No fim da noite, já com apenas a minha mesa e outra, canta Vanessa Alves. Fadista nova, de voz mediana e uma postura algo sui-generis.

Uma experiência a repetir e a recomendar. No Sr. Vinho enche-se o espirito de som, de poesia, de emoções... enche-se a alma de um optimismo estranho, porque tudo nos parece mais belo, mais perfeito.

sábado, novembro 18, 2006

UM FADO DE MAGIA NA CULTURGEST


Depois de um belo jantar no restaurante Namur, acompanhado por três pessoas que me são muito queridas - Ligia (que já viciei em Aldina), o Pedro (viciámo-nos ao mesmo tempo em Aldina) e a Cristina (que ficou viciada hoje em Aldina), fomos até à Culturgest, em Lisboa, para assistir ao concerto Crua de Aldina Duarte.
Como já várias vezes referi, não morro de amores por aquela sala de espectáculos. Mas assim que entrei na Culturgest, deparei-me logo com Ana de Sousa Dias, Carlos Vaz Marques e Eduardo Prado Coelho. Adivinhei logo uma noite especial. Pelo menos uma noite entre "amigos". De lembrar que Aldina Duarte deu a Ana de Sousa Dias uma entrevista que me ficará na memória como um dos momentos mais especiais que alguma vez vi em televisão. Eduardo Prado Coelho penso que terá sentido o mesmo, pois acabou por escrever uma crónica exactamente sobre essa entrevista. Carlso Vaz Marques também já entrevistou a Aldina para a TSF numa belissima conversa que recomendo oiça através do site www.tsf.pt ou aqui mesmo no meu blog em http://conversamuitaconversa.blogspot.com/2005/05/aldina-duarte-culturgest-dia-3-de.html. Uma coisa em comum entre os três: renderam-se ao encanto timido e genuino de Aldina Duarte.
Entrámos na sala, dirigimo-nos para a segunda fila ao centro (que lugares tão bem escolhidos) e esperámos até ao inicio do concerto.
Tudo o resto foi magia. Qualquer tentativa de tentar exprimir o que se viveu e sentiu naquela sala ficará sempre muito áquem das emoções experimentadas.
Aldina conseguiu reduzir uma sala grande e fria a um recanto confortável, intimo, onde parecia que ela cantava apenas para cada um dos Eu que estavam a assistir ao concerto.
Com um figurino muito bonito, xaile preto aos ombros, Aldina cantou com a Alma, a força e a emoção que a caracterizam. Belíssima no rosto e na expressão... e no sorriso. Seduzia à dança discreta do Fado, batendo por vezes o pé, marcando o ritmo. As palavras dos poetas que cantou saiam ora doces, sussurradas, ora violentas, emocionadas.
A cumplicidade entre Aldina e os seus (excelentes) músicos foi, mais uma vez, uma das coisas que me comoveu. A troca de olhares, de sorrisos. A aproximidade corporal entre Aldina (não sei se por necessidade) e os seus músicos leva-os a fundirem-se, não sendo três mas apenas um, quem no palco nos encanta. Veio-me à cabeça durante o espectáculo a imagem de uma Pietá... assim me parece ser a união dos músicos com a fadista.
Imagem extraordinária de beleza foi aquela em que as franjas do xaile de Aldina se emaranharam (não sei se a fadista terá dado por isso) na lágrima da guitarra. Guitarrista e Fadista unidos pelos seus simbolos: a Guitarra e o Xaile.
Aldina cantou segura, sentida de Lisboa, do Fado, do Amor e do Sangue (fossem as franjas do xaile encarnadas e era sangue que escorria entre os seus dedos). Fados como a A Estação das Cerejas, Anjo Inutil, A Estação dos Lirios, Ai Meu Amor se Bastasse, Deste-me Tudo o Que Tnhas, entre outros, levaram a sala ao rubro.
Grande parte dos fados Aldina cantou-os sentada. Forma mais dificil de cantar mas que parece não ser um impedimento para a fadista, que demonstra assim toda a sua técnica, brilhantismo e voz. E muita sensualidade na postura.
A direcção cénica - desta vez - foi muito bem conseguida (excepção feita, talvez, ao compasso de espera que o sobe e desce dos cenários provocavam). O desenho de luzes irrepreensivel.
No final foi o que se imagina: muitas palmas, de pé, e uma sensação de "soube a pouco". Porque é que aquilo que realmente amamos e nos eleva dura sempre tão pouco... ou, pelo menos, assim parece?
Magia, palavra que resume a noite passada... embora tenha sido bem mais do que isso.
Parabéns Aldina Duarte. Bravo.

segunda-feira, novembro 13, 2006



Sexta-Feira, dia 10 de Novembro, a convite do meu amigo Duarte, fui assistir à estreia de Conversas de Camarim - com Simone de Oliveira, Vitor de Sousa e Nuno Feist, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal de São Luiz.
Foi um espectáculo muito bom, onde mais uma vez pude confirmar a excelência de Simone em palco, quer em postura quer em voz. A sensualidade e a profunda sensibilidade passada por Simone ao cantar são extraordinárias, sendo impossivel não nos comover.
O espectáculo inicia-se com "Visita de Camarim" e termina com "Palavras Gastas". O expoente máximo, para mim, foi quando Simone cantou "Rosa e a Noite", uma extraordinária música com poema de Vasco de Lima Couto.
No entanto, e apesar de achar que este é um espectáculo imprescindivel, não deixa de ter os seus "senãos"... tem Vitor de Sousa a mais. O equilibrio entre aquilo que foi a participação de Simone e aquilo que é a participação de Vitor não é o mais correcto.
Todos sabemos que Simone de Oliveira é uma contadora de histórias interessantíssima e com imensa piada. Pois da boca dela não se ouviu uma única... E o Vitor fala, fala, declama, declama, e fala, fala, declama, Simone canta, e Vitor fala, fala, declama, declama, declama, fala, fala, declama, fala, Simone canta, canta, e Vitor fala, fala, fala... é mais ou menos assim a coisa.

Acho que talvez deveriam ter chamado de Monólogos de Camarim com Vitor de Sousa e a participação generosa de Simone de Oliveira.
E atenção: eu não tenho rigosamente nada contra o Vitor de Sousa. Reconheço que tem o seu relativo valor. Mas temos de ser honesto e dizer que quem vai ver aquele espectáculo - 99,8% das pessoas - vão para ver e ouvir Simone de Oliveira, e não o Vitor de Sousa. E a sensação com que eu sai de lá foi: soube a muito pouco. Ela muito apagada - excepção feita quando canta, que aí dá tudo de uma forma espantosa - e o Vitor muito saliente.

Espero não estar a cometer nenhuma injustiça ao dizer estas coisas, que não é esse o propósito. É apenas uma opinião de alguém que esperava uma Simone mais interventiva na fala e durante o espectáculo.
Mas eu também acho que mesmo que Simone estivesse 4 horas em palco a falar e a cantar eu iria sempre dizer que sabe a pouco... porque Simone sabe sempre a pouco.
Eu ainda estou pasmo com a capacidade vocal, de graves limpos e claros, com que Simone está a cantar. Há muito tempo que não a ouvia cantar de uma forma tão certa, rigorosamente adequada à sua capacidade vocal neste momento. Simone tem, de facto, ainda muito para dar à música portuguesa e à historia do espectáculo em Portugal.

Já sabem que é só este mês de Novembro. É melhor irem já no próximo fim-de-semana. É no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz - aquele que fica nas traseiras do Teatro-Estúdio Mário Viegas - às 23.30 m. O preço dos bilhetes é de 15 € mas com alguns descontos que não vos sei dizer. Corram...

terça-feira, novembro 07, 2006


Ora vejam como em mais de cem anos nada mudou... e porque haveria de mudar...?

A Illustração – Revista Quinzenal para Portugal e Brazil, 20 de Maio de 1884, director Mariano Pina, Paris – cota Biblioteca Nacional J. 1505 M.

“Chronica

Ha dois seculos pelo menos que o mundo inteiro admitte sem discussões uma lenda que deseja passar ao estado de verdade e ao estado de axioma, e que diz assim – Paris é a terra onde melhor se fabrica o riso.
Em todo o seculo XVIII os francezes passaram a sua vida a conversar com Mlle. de Nesle e com a Pompadour, a fazer phrases pelos salões dourados e vastos das Tulherias e pelos velludos de relva dos jardins de Versailles, onde ha satyros que nos espreitam e que riem com o sorriso branco dos marmores por detraz das ramas dos castanheiros – para provarem ás gentes que só eles tinham graça, e que para além da França as sociedades matavam o seu tempo aborrecendo-se e abrindo a bocca. E appareceu Beaumarchais para confirmar a coisa, e hoje a graça parece ser feita exclusivamente de barro francez. Os inglezes, de quando em quando, pela boca de Punch ainda protestam contra semelhante lenda. Mas o Punch não tem razão – porque não tem bom barro! A Grã-Bretanha não precisa de mais gloria porque foi ella quem inventou o beef. Mas a graça, ainda não ha melhor no mercado do que a franceza, a que se encontra á venda por toda a parte, em S. Francisco e em Pekim, e que só se fabrica entre o Café de la Paix e o restaurante do Brébant, quasi sempre ás horas em que toda a Europa honesta dorme.
Mas se Paris é a terra onde melhor se fabrica o riso, é necessário tambem que todo o mundo saiba e que todo o mundo comprehenda que – Lisboa é a terra onde melhor se fabricam as cousas que fazem rir!

Uma das grandes causas que levaram Lisboa até á fabricação verdadeiramente indigena de coisas ridiculas, tendo mais originalidade e mais aspecto primitivo que a própria louça das Caldas e a louça preta d’Aveiro, é a preponderância da imbecilidade insolente nos negocios da terra, obrigando os espiritos sensatos a affastarem-se – deixando o campo livre a todos os banaes, a todos os idiotas, a todos os insignificantes, que se mettem em tudo e que tudo conquistam.
Presentemente em Lisboa raros são os indivíduos que se acham nos lugares que de direito lhes competem;
e são principalmente os governos que se encarregam de collocar os sapateiros nos lugares de alfayates e vice-versa.
De modo que um sensato e pacifico morador da Baixa que assista, sem alterar o seu sangue-frio, a tanta irregularidade e a tanto desconchavo, no dia em que precisar d’um par de botas não sabe ao certo a quem se ha de dirigir – se ao sr. Nunes Algibebe, se ao tribunal da Bôa-Hora, se á secção geodesica, se á Padaria Militar!...

(…)

Os governos lembraram-se um dia de soccorrer a arte portugueza, de ouvir todas as noutes a Somnambula, e de possuir gratis um camarote em S. Carlos. Sobretudo de possuir gratis um camarote! E como em Portugal se não sabe que destino dar a tanto dinheiro que atulha as arcas do thesouro, dão-se todos os annos 25 contos de reis para que venham italianos a Lisboa deliciar os ouvidos de Suas Excellencias os Ministros, - emquanto os pintores portuguezes que illustram em França e Italia o nosso paiz produzindo trabalhos de primeira ordem, teem que viver em Paris com pensões miseraveis;”