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quarta-feira, março 22, 2006



Quinta-feira passada voltei ao Teatro Nacional D. Maria II para ver e OUVIR a actriz Lia Gama. Bonita, mantendo o seu sorriso lindo, quase ingénuo, desfilando um rol de belas canções "antigas", com uma graça e um encanto raros num artista.
Lia mostrou que (man)tem voz (para aqueles que não o sabiam ou que não haviam visto o "Kilas"), a sensualidade de sempre e o amor ao palco.
Pena e CHOCANTE é que num Teatro Nacional acontecam gralhas (para não chamar ignorância, estupidez, burrice, idiotice, falta de atenção, etc) GRAVES, como a que Cândida Vieira - concepção e direcção do espectáculo - refere no seu [inteligente] texto.
E passo a transcrever: "Almada Negreiros dizia que "as palavras já estão gastas". Afirmação drástica a que a escrita..... blá blá blá blá blá blá.
Alguém reparou na asneira? Não vos soou nada de estranho.
Minha querida e fofinha Cândida Vieira. Com um curriculum tão extenso e interessante diz uma coisa destas? Coitado do Eugénio de Andrade, merecia melhor sorte. "Adeus" é um poema - FANTÁSTICO - de Eugénio de Andrade, e cantado - caso não lhe apeteca ler - por Simone de Oliveira.
Fica aqui o reparo.... e o poema
ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Há dias em que uma pessoa não devia sair de casa para não se arriscar a dar de caras com uma realidade que lhe troca todas as voltas. Foi o que aconteceu na tarde de sexta-feira, em que uma vulgar viagem de autocarro entre Setúbal e Lisboa se transformou numa aventura recheada de episódios quase surreais.

Tudo estava a correr sobre rodas, quando, a meio do caminho, em plena auto-estrada, o autocarro dos Transportes Sul do Tejo (TST) encosta à berma e pára. O motorista sai para a rua e fecha a porta. Os passageiros ficam a olhar uns para os outros, pensando alguns que o homem teria ido fazer alguma necessidade fisiológica inadiável. Mas não. Pouco depois ele volta, anuncia que se rompeu o tubo da água e "é preciso esperar por outro autocarro".

Logo se levanta um coro de protestos, enquanto uma senhora se recosta no banco e suspira "Isto é de mais. Na terça-feira também o autocarro avariou a meio da viagem. Já é a segunda vez numa semana". As pessoas desatam todas a ligar do telemóvel a avisar que vão chegar atrasadas, porque "o autocarro avariou outra vez. É o costume!"

Outra passageira queixa-se que "vai ficar tudo atrasado para fazer o exame médico. Como é que os vou convencer que o autocarro avariou na auto-estrada?"

Passados 25 minutos, outro autocarro encosta à berma. As pessoas desatam a sair para o apanhar, mas acabam por desistir. Afinal, aquele não ia para Lisboa. Cacilhas era o seu destino. Desanimados, os passageiros ficaram na estrada a apanhar ar e a fumar.

Mas logo a seguir entram todos a correr para o autocarro avariado. Mas o que é que se passa?, pergunta alguém. A explicação é simples chegou um carro da Brigada de Trânsito da GNR com dois agentes, que mandaram entrar toda a gente, porque não se pode estar apeado na auto-estrada. Ainda por cima, sem colete retrorreflector.

Meia hora após a avaria, lá chegou o autocarro de substituição, para onde os agentes da GNR escoltaram os passageiros. Ao passar pelo motorista da viatura avariada, uma senhora disse-lhe que "isto é inconcebível". E ele tentou justificar-se "Sabe. São coisas que acontecem. É como as pessoas. Às vezes estão bem e de repente dá-lhes uma coisinha má"...

Daniel Lam

Jornalista

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Do extraordinário blog http://blogcasmurro.blogspot.com/ - Gustavo Rubim escreveu:

"Os saudosos de Carrilho
Eu poderia, claro, subscrever esta posição do Eduardo Pitta no Da Literatura (como, de facto, subscrevo) e não me chatear mais. Infelizmente, abri a caixa de correio electrónico e estava lá uma mensagem a sugerir, pasme-se, que eu assinasse a petição contra o Ministério da Cultura a que o Eduardo Pitta se refere. Ora, isso já pede que uma pessoa se chateie. E como o Groucho meteu férias há que tempos, aproveito para me chatear aqui.
Começo pela evidência: se há um projecto para privilegiar, no Teatro Nacional, o teatro nacional e se a nação calha a ser a portuguesa, só resta discordar. Para ser claro: discordar com veemência. Talvez só restasse também discordar se a nação fosse outra qualquer, mas já não seria, digo eu, com a mesma evidência (e muito menos com a mesma veemência) se a nação calhasse a ser, por exemplo, a inglesa. Há diferenças. Estamos a falar de teatro.
Agora, se continuarmos por aí, a propósito do Teatro D. Maria II e da tal petição, vamos de certeza desconversar. A petição não tem nada a ver com isto. A petição apareceu porque o director até aqui do Teatro D. Maria II ― António Lagarto ― foi trocado por outro director. O agora ex-director António Lagarto não é um qualquer: é uma pessoa com ligações conhecidas, mais amigo de umas pessoas «da cultura» do que de outras pessoas «da cultura», e essas ligações e esses amigos é que foram aos arames com a substituição e é que tiveram a ideia da petição. O ex-director António Lagarto não estava no Teatro Nacional só pela sua pessoa: representava com muita competência os amigos e as ligações, como só não vê quem anda cá a ver passar os eléctricos.
Portanto, não vale a pena sequer discutir a programação que o ex-director inventou para o Teatro D. Maria II, porque salta aos olhos que não era nada que se parecesse com o que deve ser a programação de um Teatro Nacional. Há muitos anos que em Portugal (não é só em Lisboa) deixou de haver qualquer coisa de parecido com um Teatro Nacional, com a programação artística de um Teatro Nacional e o público de um Teatro Nacional. Com o ex-director António Lagarto apenas continuou a deixar de haver.
Os autores da famigerada petição não têm saudades de haver um verdadeiro Teatro Nacional em Portugal, têm só saudades de outro ministro e por isso é que a petição deles é contra a ministra actual e não tem nada a ver com teatro. Os autores da petição têm (e por excelentes razões) saudades do ministro Manuel Maria Carrilho e querem-no de volta, a ele ou a alguém do género dele ou com as, vamos lá, ideias dele.
Isto é que chateia: as pessoas não dizerem mesmo ao que vêm!"

terça-feira, janeiro 17, 2006

A"coisa cultural" tem estado na berlinda, nos últimos tempos. Foi o Centro Cultural de Belém, foi o Teatro Nacional de D. Maria II. A "coisa cultural" é sempre polémica, uma espécie de futebolês. Há os de um clube e os de outro, os dos subsídios e os que ficam de fora - não sei bem se há os de uma política cultural e os de outra ou, apenas, os que raparam do tacho e os que não raparam. O que noto, ao longo dos anos e seja qual for o responsável governamental pela tutela do sector, é haver sempre um monte de contentes e outro de descontentes (uma espécie de reedição do "Senhor Contente e Senhor Feliz"). E, nos media, os que protegem os rapadores de um lado e os que protegem os que não raparam nada. A este debate de bolsos se tem chamado "debate cultural".

Eu que, nestas coisas e noutras, funciono com a cabeça do eleitor útil, iniciei a semana que findou como "eleitor contente". Porquê? Porque a nomeação do António Mega Ferreira para a direcção do CCB me pareceu uma excelente escolha. A seu favor, o António Mega tem a inteligência, a imaginação, a criatividade, um currículo inexpugnável. É um homem de modernidade e de paixão. Tudo o que o CCB precisa, sobretudo em tempo de vacas magras. Tenho a certeza de que o novo director vai fazer, por lá, de Luís de Matos. Vai conseguir tirar coelhos de qualidade da estreita cartola do CCB.

Não pretendo, com isto, menorizar o trabalho e a seriedade de quem lá esteve antes - e, muito menos, a figura do prof. Fraústo da Silva. Mas o CCB precisa de um vendaval de criatividade, de aliar elitismo (no bom e profundo sentido) com popular. De utilizar com inteligência, por exemplo, a colecção Berardo. Precisa de agitação. De inquietação. De sentido de marketing. De boa gestão dos meios de que dispõe. E são muitos. Excelentes instalações para espectáculos, exposições, happenings culturais - pode dar passagem à festa da cultura. O trabalho que o António Mega fez na Expo e noutros locais, o seu jeito de ser, o entendimento que tem da "coisa cultural" é um sinal de esperança. O seu discurso será isso mesmo uma boa agitação contraposta (que me desculpe o prof. Fraústo) à resignação académica do anterior titular. O País não vai para a frente só com dinheiro, também vai com criatividade e inteligência na optimização dos meios.

Quer isto dizer que a tarefa vai ser fácil? Nada disso. Mas estou certo de que também foi por isso que o António Mega, homem de desafios, aceitou o cargo.

D. MARIA II. O Teatro Nacional teve, a meu ver, nos tempos do salazarismo, uma boa tradição. Uma companhia residente - a de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro - que ganhou essa qualidade por concurso e desempenhou um papel de vanguarda, apesar da ditadura. Nenhum dos grandes nomes do teatro português dos últimos 50 anos nega isso. Pela programação, apesar da censura e de alguma "auto-regulação" por via do peso do regime, passou o melhor da dramaturgia clássica portuguesa, muito da melhor estrangeira, autores modernos, teatro mais popular e menos popular, teatro infantil, teatro para todos os públicos. Que é para tal, parece-me, que o Teatro Nacional deveria servir. Ele também, deveria ser um centro de agitação cultural.

Não entendi, ainda, porque essa via não foi seguida, após o 25 de Abril. Abrir concurso, com premissas de programação obrigatória e regras de financiamento público definidas, exigência de consistência cultural e empresarial aos concorrentes, controlo de resultados. A rota do D. Maria II, nestas últimas décadas, foi por demais errática. E, como tal, de resultados medíocres. O Teatro Nacional tem sido um pássaro de asas cortadas. O Estado que enquadre a sua actividade e deixe quem tem unhas tocar aquela guitarra.


O HINO. Tem havido muita polémica em torno do uso, pela PT, do Hino Nacional num anúncio institucional. Discordo dos críticos. A PT, como a TAP, por exemplo, é uma empresa de bandeira. Um pouco da imagem interna e externa de Portugal resulta da sua actividade. E temos de desencalhar o Hino, sem o desrespeitar. Não vejo porque ele há-de ficar reservado para o futebol e as aparições do Presidente da República. O Hino é uma afirmação nacional, em tempo de globalização. Das poucas que nos restam. Nas escolas pouco é aprendido e cantado já. E, não fora a selecção portuguesa de futebol, talvez prosseguisse o seu caminho de esquecimento - da música, da letra e do sentimento nacional. Deixem os acordes dos "heróis do mar, nobre povo" ser arautos do que de bom Portugal tem.

"De Mega Ferreira ao D. Maria II", in Diário de Noticias de 17 de Janeiro de 2006

José Manuel Barroso
Jornalista

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Mais uma vez reafirmo que o propósito deste blog mais não é do que "publicar" artigos que a mim chamaram a atenção, na minha óptica pessoal e por isso muito discutivel, e que quero "imortalizá-los" ou tê-los sempre a mão, sempre que os quiser ler ou reler. É uma espécie de arquivo privado, album de fotos ou diário. Os textos que escrevo são, por assim dizer, acrescentos que saem da norma, do que este blog deveria ser.
Espero que fique então claro, de uma vez por todas, o propósito a que se destina. Recolha de textos que a mim me dizem algo, e pouco mais.
Em relação à actuação da Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, pouco de positivo existe a dizer. Mas como ela, todos os outros anteriores a ela, de todos os governos que existiram. Falta-lhes planificação, uma ideia claro do que pretendem ou não pretendem em termos culturais para o país, falta-lhes Cultura. Bem ou mal, durante o Estado-Novo, havia uma ideia de Cultura para o país, e esta deveria servir o Estado e os seus propositos. A Cultura era um meio de propaganda dos ideias politicos. Sempre foi e sempre o será, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias. Mas como a politica anda também um pouco às avessas, assim anda a Cultura.
Falta inteligência, conhecimento da Mentalidade do povo português e, por conseguinte, da sua "Cultura".
Mas uma coisa é certa, as politicas culturais realizadas neste país nos ultimos anos nunca se destinaram para o "povo" (palavra que abomino pela carga demasiadamente perjurativa que contém). Foram sempre realizadas tendo em conta um grupo de pessoas muito restrito, que anseiam há muito serem o espelho da cultura, do bom-gosto e da inteligência em Portugal. Falo, claro, das Cornucópias todas deste país, que não sendo pessoas boas para a cultura, ganham Prémios Pessoa, entregues pelos meia duzia que os seguem, como um comboio "Expresso", da Lisboa ao Porto, que, infelizmente, não descarrila.
Mas a nomeação de Carlos Fragateiro para o Nacional foi o primeiro boicote na linha, o primeiro prego que ajudará a descarrilar esta máquina há muito imposta.
Claro que Carlos Fragateiro não será a resposta para os problemas nem a melhor solução. Mas é um começo. Depois dele virão outros, que espero, esses sim, com o programa da revolução cultural há muito esperada e que tarda.
DANIES

segunda-feira, janeiro 09, 2006

VIVA A MINISTRA PIRES DE LIMA
A ministra da Cultura Isabel Pires de Lima parece que pretende chutar do Nacional o António Lagarto para colocar à frente daquele Teatro, Carlos Fragateiro. Amén.
É já altura do Teatro em Portugal sair da tutela dos pseudo-intelectuais, dos pseudo-encenadores, dos pseudo-tudo. Chega de Luis Miguel Cintra; Chega de Jorge Silva Melo; Chega de Ricardo Pais; Chega de Lucia Sigalho. Chega! Chega! Chega! Abaixo essa corja que corrompe e manipula o Teatro em Portugal.
É tempo de o Teatro virar-se para o público, para os portugueses. Fora com todos aqueles que fazem Teatro para o seu umbigo e para o umbigo dos seus amigos.
É tempo de o Teatro ser Teatro. É tempo de o Teatro ser feito pelos amantes de Teatro, pelos Actores de Teatro, pelos do Teatro.
Não sei se o Fragateiro é a solução. Mas, pelo menos, não pertence ao grupo dos retardados supracitados atrás. E quer fazer Teatro de portugueses, e quer que todos os portugueses vejam Teatro no país inteiro. Quer prestar serviço público, de norte a sul, do litoral ao interior.
A ministra, só por se ter virado para o outro Teatro - o verdadeiro, o Teatro a valer (Experimental de Cascais, Estúdio Mário Viegas, entre outros) - merece aplausos. VIVA A MINISTRA! VIVA O TEATRO!

quarta-feira, dezembro 07, 2005


O Sebastianismo e o Fado

Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.
As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.
O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou.
No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião.

Fernando Pessoa
O Catolicismo Português
O catolicismo – cujos méritos ou defeitos, sociais ou outros, não tenho aqui que examinar – tem a singularidade notável, provinda talvez do que nele resta de Império Romano, de ser, ao mesmo tempo que universal, particularizado em cada região onde existe. A Igreja de Roma é como um regime de municípios morais centralizados num império imponderável. Vasto sistema sincrético, tanto a podemos considerar uma sobrevivência do paganismo como uma transmutação dele. E em cada onde essa religião existe, esse paganismo sobrevive, ou se transmuta, de uma maneira peculiar. Nisto se assemelha a Igreja à Ordem Maçónica, ressalvando que nesta não há elementos pagãos.
Entre os portugueses, em quem, em meu entender, a emoção supera a paixão – e é isto, creio, o que radicalmente nos distingue dos vários espanhóis – o catolicismo assume naturalmente o que poderemos chamar o aspecto franciscano, que é, por assim dizer, o aspecto essencialmente emotivo do cristianismo católico.
Do paganismo latente no catolicismo não se manifesta em nós o aspecto estético, como diversamente nos italianos e nos espanhóis, nem o aspecto imperial, como diversamente nestes e nos franceses, mas o aspecto dispersivo e fluido, próprio de tudo quanto a emoção conduz. O nosso catolicismo é sem contornos – uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do em que realmente crê. Por isso o nosso ver o Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado o Menino Jesus. Por isso não curamos de Maria Virgem, mas só de Maria Mãe.
Por isso os nossos santos autênticos são um S. João Baptista menino – isto é, de muito antes de ele ser Baptista – ou um Santo António, concebido irremediavelmente como um adolescente infantil, cuja função distintivo – a de consertar bilhas – é um milagre-brinquedo.
Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria.

Fernando Pessoa

quarta-feira, novembro 23, 2005

Assim vai a onda (Tsunami, mesmo) "reformista" da nossa mui leal e querida Igreja Católica.

"Vaticano exclui homossexuais do sacerdócio (act.)



A Igreja exclui dos seminários e do sacerdócio quem praticar a homossexualidade, apresentar tendências homossexuais profundas ou apoiar a chamada cultura gay, segundo um documento divulgado na terça-feira.
Estas afirmações estão incluídas no documento aprovado pelo Papa Bento XVI a 31 de Agosto de 2005 e preparado pela Congregação para a Educação católica, que foi divulgado pela agência católica Adista, uma semana antes da sua prevista publicação.
Segundo esta «Instrução», de que largos extractos foram já publicados pela imprensa italiana, a Igreja «não poderá admitir no seminário e nas ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais enraizadas ou apoiam o que se chama a cultura gay».
O texto, aprovado por Bento XVI a 31 de Agosto, foi enviado a semana passada aos bispos e responsáveis de seminários de todo o mundo, indicaram fontes concordantes.
O documento vai ser publicado pelo Osservatore Romano, o órgão de imprensa do Vaticano, a 29 de Novembro.
Sublinha que, embora os homossexuais tenham direito ao «respeito», a igreja considera os «actos» homossexuais como «pecados graves» e em todos os casos a homossexualidade como uma «desordem».
Para o Vaticano, os homossexuais não podem ser ordenados padres porque «eles encontram-se numa situação que cria obstáculos a uma relação justa com homens e mulheres».
Evoca também, sem mais precisão, «as consequências negativas que podem decorrer da ordenação de pessoas que apresentam tendências homossexuais profundamente enraizadas».
Várias Igrejas, nomeadamente nos Estados Unidos, foram recentemente abaladas por escândalos sexuais.
O texto sublinha que a ordenação não é «um direito» e acrescenta, dirigindo-se aos seminaristas, que «seria extremamente desonesto que um candidato esconda a sua homossexualidade» para ser ordenado padre.
Mesmo que a homossexualidade tenha sido apenas um «problema transitório» para jovens acabados de sair da adolescência, sem que isso traduza a sua personalidade profunda, é-lhes pedido terem «ultrapassado» isso três anos antes de pedirem para serem ordenados diáconos, a etapa que precede a ordenação para padre.
O documento, que esteve na gaveta durante longos anos, foi redigido pela Congregação para a educação católica - o serviço do Vaticano encarregado dos seminários - , de acordo com a congregação para o culto divino.
Reafirma, ao actualizá-lo, uma linha constante da Igreja Católica, que é recusar o acesso ao sacerdócio daqueles a que se chamava outrora os «sodomitas».
O último texto sobre este assunto remonta a 1961.
A instrução do Vaticano diz respeito apenas aos seminaristas, candidatos ao sacerdócio, e não aos padres já ordenados."

Diário Digital / Lusa
E digo mais. Segundo declarações de um padre à nossa também mui leal e querida Antena 1, este documento deve-se ao facto de terem existido inúmeros casos de pedofilia, envolvendo padres. Aqui está um erro grave, embora não inocente (os padres nunca fazem nada de modo inocente), de se confundir pedofilia e pedofilos com homossexualidade e homossexuais... e isto quando um dos actores desta douta Igreja dizia: - "deixai vir a mim as criancinhas".
E dizia também este padre: - "O Amor é muito mais complexo do que o amor genital que hoje se pratica. Os tempos actuais só querem o amor genital. Ora, há outro Amor, o que liberta..." e outras frases igualmente emblemáticas e de alto teor filosofico... sempre referindo o amor genital.
Enfim... Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo... Assim Seja (=Amén)

segunda-feira, outubro 31, 2005


"O novo single de Madonna, Hung Up, já roda em algumas rádios, e soma entusiasmos. A canção está construída sob a força luminosa e convidativa de um sample do clássico Gimmie Gimmie Gimmie (A Man After Midnight) dos Abba, que assim sustenta um irresistível monumento de pura pop bem ritmada que não deixa o corpo indiferente. E é seguro cartão de visita para Confessions On A Dance Floor, álbum anunciado como essencialmente dançável, a editar a 15 de Novembro. O sample dos Abba não foi tarefa fácil de conseguir, até porque os quatro suecos tinham apenas, até aqui, autorizado uma única cedência de um sample seu, mais concretamente um fragmento de The Name Of The Game para o tema Rumble In The Jungle dos Fugees (1996). E, no passado, chegaram mesmo a mandar retirar do mercado o álbum de estreia dos KLF (mais concretamente em 1987), por recorrer a samples não autorizados da sua música.
Madonna declarou ao The Sun que enviou um emissário seu a Estocolmo com uma cópia da gravação de Hung Up e uma carta na qual implorava pela cedência do sample desejado. Nessa carta confessava venerar a música dos Abba, afirmando ser este single uma simples homenagem ao grupo. Benny Anderson e Björn Ulvaeus não deram imediatamente o sim desejado... E explicaram que recebem regularmente inúmeros pedidos do género e que sistematicamente respondem um não. Mas ambos admiram Madonna, desde há muito, confessaram. Admiram-lhe a coragem e a forma como tem mantido uma carreira firme ao longo de mais de 20 anos. Se a canção não fosse boa, teriam rejeitado o pedido, mas já descreveram Hung Up como 100 por cento de sólida pop. Benção dada. Sample cedido. Et volià...
O Sound + Vision já escutou o single e...
N.G.: Viciante! Absolutamente viciante! Madonna não tinha um single tão ostensivamente pop, tão luminoso, cativante e irremediavelmente festivo desde... Ray Of Light. É certo que houve Music pelo meio, American Life... Mas há muito que não víamos em disco uma Madonna 100 por cento pop (os Abba têm razão), como a que fez escola nos dias de 80, de Like A Virgin a Express Youself, de Open Your Heart a Material Girl... Hung Up é uma brilhante construção de uma canção com alma própria, que mesmo remetendo-nos para a memória evidente do sample de Gimmie Gimmie Gimmie que lhe é estrutural, não impede o reconhecimento do que é novo como protagonista. O filet mignon de pop sueca é magnificamente enquadrado numa composição que sabe, depois, projectar a vitalidade pop samplada num todo que segue o mesmo caminho, suportando o edifício pelo recurso a uma aqruitectura electro (pop). Hung Up é daquelas canções que se ouvem "em repeat" até mais não. E é, como muitas das canções clássicas dos Abba, um belo exemplo de pop bem estruturada e incapaz de deixar alguém indiferente. Até os sisudos vão gostar...
J.L.: Pop mais pop não há! Ou dito de outro modo: e se fizéssemos uma maldade à vaga planetária do hip hop, tirássemos os «hh» e outras redundâncias, os temperos e as modernices, e servíssemos apenas o champanhe? Que sobra? A mais pura cozinha pop, abençoada pelos Abba e com cheirinho a coisas remotas como «Holiday» ou «Burning Up» — foi há tanto tempo que já nem nos lembramos quem inventou tais coisas... Em todo o caso, aqui fica a denúncia: esta senhora anda a copiá-las!
P.S. Post servido com mais uma foto de Steve Klein tirada na sessão da qual nasceu a capa de Confessions On A Dance Floor."
Este texto foi retirado do FABULOSO blog de Nuno Galopim e João Lopes, ambos jornalistas do Diário de Notícias e excelentes comentadores de música e cinema. Vale a pena uma visita diária, pois está em constante actualização.
http://sound--vision.blogspot.com/ - VISITEM CLICANDO AQUI

Greve? Qual Greve?

Professores em greve transtorna. Camionistas em greve chateia. Médicos em greve incomoda. Juízes em greve? Aborrece, com esforço, um ministro, e recebe a mais olímpica indiferença por parte do resto da população.
A justiça fazer greve em Portugal é uma redundância e, por isso, uma decisão pouco inteligente. OK, fica tudo parado durante dois dias - e então? Se fossem dois anos, talvez algum cidadão mais arguto, que tivesse um processo a correr nos tribunais, pudesse concluir após longa reflexão "isto está a atrasar um bocadinho". Agora, dois dias, ou até dois meses, são uma pinga de água no imenso oceano de atrasos, incompetências e má organização da nossa máquina judicial.
Há um mês escrevi aqui um texto crítico sobre os efeitos desta anunciada greve na justiça, que deu origem a uma longa resposta, muito simpática mas indignada, de uma magistrada. Ela dizia recusar-se a ser "bode expiatório de um sistema que está inquinado", acusava-me de "ideias preconcebidas e desrespeito pelas instituições" - duas grandes verdades - e aconselhava-me a investigar mais antes de emitir opiniões públicas.
Eu segui o conselho e fui investigar. Cheio de empenho, lancei-me às 137 páginas do relatório sobre o sistema judicial europeu elaborado pela Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (encontra-se em www.coe.int/cepej), que traça comparações entre dezenas de países. Aí descobri, por exemplo, estes dois factos deliciosos 1) Portugal tem 14,9 juízes por 100 mil habitantes, mais do triplo da Inglaterra (esse país subdesenvolvido). 2) Entre 33 países europeus analisados, Portugal é, de longe, aquele que, tendo em conta o salário médio, melhor paga aos seus juízes. Isto são números oficiais. Lidos, digeridos, investigados. A justiça portuguesa é efectivamente privilegiada. O que nós lhe pagamos é muito, mas muito mais do que aquilo que ela nos está a oferecer.
João Miguel Tavares - Diário de Notícias - 28 de Outubro de 2005

Quinta-feira, dia 27 de Outubro, fui visitar o mais belo jazigo cultural de Portugal, que se encontrava de portas abertas para receber o primeiro de dois concertos da fadista Mísia. Falo pois do Teatro Nacional D. Maria II, que tem como coveiro principal António Lagarto.
Confesso que desconhecia, de todo, o trabalho de Mísia. Fui ver o espectáculo porque, primeiro, sou um grande apaixonado por fado e por poesia. Depois, porque sabia que ia estar presente a bela e sofisticada actriz francesa Fanny Ardant. E, por último, porque ninguém fica indeferente a Mísia, mais não seja pela sua figura "exótica" e fora do comum.
Cheguei a horas e, primeira das surpresas, fiquei surpreendido pela quantidade de caras famosas e famosinhas que lá se encontravam. Carrilho e Bárbara, Francisco Louça, caras do PS, Eduardo Prado Coelho, Fernanda Lapa e Fernanda Montemor, Ana de Sousa Dias, Maria João Seixas, Lurdes Norberto, Lia Gama, o grande poeta (ah, ah, ah) Tito Livio, Celeste Rodrigues e muitas outras caras que de momento não me recordo.
Pensei cá para comigo - "Bolas, que a Mísia deve ser mesmo muito boa... tanta gente, não é costume."
Entrei na sala. Lá estava a Sala Garrett com a sua mediana opulência e o seu cheirinho a mofo. Acenos para ali, beijinhos para acolá, todos se foram acomodando na plateia e nos camarotes. A sala estava composta.
Com um atraso algo longo, os músicos entram no palco onde uma tela projectava uma imagem fixa de uma cama com um telefone vermelho por cima da colcha. Estavamos num quarto de hotel.
Da afinação, um a um, dos instrumentos, começa a sair a primeira melodia da noite. E eis que entra Mísia, bonita, vestindo uma saia-casaco negro.
Quando estava prestes a bater palmas pela sua entrada, eis que não se ouve nada... nem uma palminha, nem um cochicho.... nada. Ter entrado ou não em palco era a mesmíssima coisa. Foi a segunda surpresa da noite.
Confesso que acho que nem ouvi bem a primeira música. Fiquei a matutar naquilo. Então mas que raio. Entra uma artista em palco e nem um espirro se ouve. Fiquei incomodado e gelado.
Mas as músicas e as conversas foram-se desenrolando e passando e eu abismado com a capacidade vocal de Mísia, o seu sentido de humor, a sua beleza em palco. Fados, boleros, tangos, foi tudo quanto se ouviu no concerto.
Como prelúdio de cada música, Mísia contava uma pequena história sobre o hóspede do "Drama Box Hotel", e como era o seu quarto. Um mimo.
Após duas músicas, Mísia anuncia Fanny Ardant. Eu nem coloquei as mãos a jeito para a saudar, como havia feito quando a fadista entrou em palco. Surpresa número três.... eis que a sala em peso começa toda numa histeria de palmas e de bravos. Pensei, novamente, para mim - "Mas que raio, esta gente tá parva? Quer dizer, entra-me a artista principal em palco e ninguém mexe uma palha; entra uma artista convidada (que podia ser a Ardant como outra qualquer) e desata tudo aos bravos". Só depois entendi. A sala estava inundada de cagões e projectos a cagões. Que estupidez a minha. Então não haviam de bater palmas a uma actriz francesa, de França, que vem declamar um poema de Vasco Graça Moura e ainda por cima no Teatro Nacional D. Maria II. Até parecia mal.
Enfim... ainda sou muito ingénuo nestas coisas.
A pequena declamou, lá se foi embora e instalou-se no camarote em frente ao do Carrilho. O que a Mísia faz para obrigar a Ardant a não tirar os olhos do palco... se olhasse em frente via o Carrilho, para baixo via o Eduardo Prado Coelho e a Maria João Seixas, ao lado o Tito Livio... perante tal horror, só restava mesmo à Fanny olhar para o palco.
E o concerto lá continou. Espantoso, cheio de surpresas. Eu cada vez mais boquiaberto pelo "vozeirão" de Mísia e a excelência dos músicos.
O mesmo termina com o "Lágrima", de Amália Rodrigues, que Mísia diz ser o seu "fado fetish". Como eu a entendo.
As pessoas lá se levantaram, soltaram-se e bateram muitas palmas com alguns timidos bravos.
Conclusão do espectáculo: - Fados no Teatro Nacional, nunca mais. Ou é pelo "peso" da casa e de tudo o que ela representa ou é pelo público que lá vai, gelado, armados em parvos intelectuais e elitistas. Acho que por tudo isto o concerto não resultou como deveria ter resultado.
Em relação a Mísia, foi uma surpresa agradável. Adorei a postura e a voz. Adorei os seus boleros e os seus tangos. Se estivessemos 50 anos atrás no tempo e em Espanha, não teria existido Sarita Montiel mas sim a Mísia Montiel ou Sarita Mísia. Agora, em relação ao Fado, confesso que não fiquei fã. Não me emocionaram nem me tocaram de qualquer forma. O porquê, não sei. A Mísia tem voz e postura. Os poemas, na sua maioria, são excelentes. Terei que ir vê-la de novo, com outro público e noutra casa. Só aí direi, realmente, se gosto ou não dela como fadista... para já, fica o benificio da dúvida.

terça-feira, outubro 18, 2005

TUDO OU NADA - KÁTIA GUERREIRO


"Tudo ou Nada" é o novíssimo álbum de Kátia Guerreiro. E é um álbum que me faz dar graças a Deus por ser deste cantinho do mundo, por falar esta língua e ter quem cante assim, como ela. É um álbum que faz esquecer os problemas do mundo, a incompetência dos nossos políticos, o povinho que vota e elege criminosos, os 142 euros de segurança social que tenho de pagar todos os meses, entre outras desgraças maiores... ou menores.
Neste álbum, Kátia Guerreiro confirma tudo o que vinha demonstrando ao longo dos dois álbuns anteriores... uma superioridade invulgar, quer vocal quer sentimental, para cantar o fado... genuinamente. Sem artifícios, efeitos ou manobras de distração.
Sendo este um disco que se aproxima da perfeição é, na minha opinião, nos espectáculos ao vivo que podemos ver, ouvir e sentir esta fadista "em tom maior" em todo o seu esplendor e deslumbramento. Quem assistiu ao concerto no CCB, junto da Orquestra Metropolitana de Lisboa, no passado dia 1 de Outubro, concordará que a interprete mostra-se mais tímida e contida em álbum que no palco. Pelo que, vê-la ao vivo a cantar é ataque cardíaco na certa... graças a Deus para nós que ela é médica de profissão e fadista de coração.
Em "Tudo ou Nada", as melodias tiradas da Guitarra Portuguesa de Paulo Valentim, Viola de João Veiga e do Contrabaixo de Rodrigo Serrão envolvem a voz de Kátia como se de abraços de ternura se tratassem. Além destes músicos obrigatórios ao lado de Kátia, surge-nos neste álbum o dedilhar do piano por Bernardo Sassetti, numa das belas canções do alinhamento - "Minha Senhora das Dores".
Vários são os poetas que emprestam as palavras à voz de Kátia: António Lobo Antunes, António Calém, Mª Luísa Baptista, Dulce Pontes, Sophia de Mello Breyner, José Carlos Ary dos Santos (com a "Menina do Alto da Serra", tema interpretado por Tonicha no Festival da Canção), Vinícius de Morais, Joaquim Pessoa, entre outros.
Sinto que me faltam as palavras para descrever este álbum e as emoções que fui sentindo ao ouvi-lo. Sei, convictamente, que o que senti foi Fado.... e do bom.
Espero agora, impacientemente, pelos dois espectáculos de Kátia Guerreiro, agendados para Dezembro, no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa.
Alinhamento:
1. Disse-te Adeus À Partida/O Mar Acaba Ao Teu Lado - António Lobo Antunes
2. Despedida - António Calém
3. Ser Tudo Ou Nada - João Veiga
4. Muda Tudo. Até O Mundo - Mª Luísa Baptista
5. Minha Senhora Das Dores - Jorge Rosa
6. Canto Da Fantasia - Paulo Valentim
7. Vaga - Rodrigo Serrão
8. Dulce Caravela - Dulce Pontes
9. Quando - Sophia de Mello Breyner
10. Menina Do Alto Da Serra - José Carlos Ary dos Santos
11. Saudades Do Brasil Em Portugal - Vinícius de Morais
12. O Meu Navio - Rodrigo Serrão
13. Talvez Não Saibas - Joaquim Pessoa
14. Tenho Uma Saia Rodada
Produção Executiva: Kátia Guerreiro

sexta-feira, setembro 23, 2005

Dois mini-artigos sobre o vergonhoso carnaval de Fátima Felgueiras

A Fatinha
Regressada de umas longas férias em Copacabana, a Dona Fátima Felgueiras diz agora "estar disponível para a justiça". No entanto, durante dois anos e meio esteve fugida dos tribunais e de uma prisão preventiva que nunca cumpriu. A Dona Fátima Felgueiras justifica-se com os julgamentos mediáticos que sujeitam os políticos a condenações antecipadas. No entanto, durante mais de dois anos, usou a democracia mediática dando entrevistas às televisões em que se apresentava, para espanto geral, como uma exilada política e pressionava as autoridades portuguesas a reverem a sua prisão. A Dona Fátima Felgueiras defende o seu direito à presunção de inocência. Mas quando alguém foge por dois anos e meio a um processo em que é suspeito de ter praticado 23 crimes, não sobra muito dessa presunção de inocência. Pelo menos, não se é inocente de ter fugido a uma medida de coacção judicialmente decretada. A Dona Fátima Felgueiras exige os direitos iguais de qualquer cidadão comum. Mas um cidadão comum não anda fugido dois anos e meio a uma prisão preventiva da qual preventivamente escapou e, ao regressar a Portugal, acaba em situação mais confortável do que a que tinha quando saiu. A Dona Fátima Felgueiras quer colaborar com a justiça, esclarecendo tudo sobre um processo em que é suspeita da prática de crimes no exercício de um cargo político. Mas a primeira coisa que a Dona Fátima Felgueiras fez ao chegar a Portugal foi pestanejar aos habitantes de Felgueiras e anunciar heroicamente a sua candidatura à Câmara, como se nenhum processo existisse.
A Dona Fátima Felgueiras está há dois anos e meio a envergonhar a democracia e a justiça portuguesa. A sua candidatura à Câmara de Felgueiras só pode ser vista como um insulto. Portugal é um país brando, inofensivo, poucochinho. Não se pensava que também fosse uma farsa.
Pedro Lomba
Justiça e água de coco
A juíza que deixou sair em liberdade Fátima Felgueiras pode ter seguido à risca todas as leis da nação. Todas as leis, menos uma a do bom-senso. A fazer jurisprudência, a decisão tomada pelo tribunal aconselha o seguinte: se o caro amigo estiver a braços com a justiça e à beira de ser encarcerado, dê um tempo. Apanhe o primeiro avião para um paraíso tropical, dedique-se à água de coco, refresque- -se numa esplanada junto ao mar, passeie-se pelo calçadão de Ipanema, suba ao Cristo Redentor, visite o Museu de Arte Contemporânea de Oscar Niemeyer, e espere. Espere, pois, com calma, tudo se resolverá. É preciso algum dinheiro, mas sejamos francos: entre os calabouços da Judiciária e a baía da Guanabara, quem é que não escolheria a baía da Guanabara?
Fátima Felgueiras escolheu a Guanabara, e escolheu bem. Dezasseis meses depois voltou, a justiça agradeceu-lhe a amabilidade e o povo acolheu-a em delírio. Aliás, Fátima Felgueiras não voltou apenas - ela voltou muito melhor do que partira. Excelente cor, cabelo escadeado, nuances acobreadas, pele rejuvenescida, talvez mesmo um face lifting. É como se tivesse estado dois anos e meio num spa, parcialmente pago pelo Estado português, à espera que as feridas da justiça cicatrizassem.
E um dia, Fatinha olhou para o calendário, viu que era época de eleições e que a fase de inquérito do seu processo já tinha terminado, e decidiu regressar a Portugal. Combinou com a Polícia Judiciária um comité de boas-vindas, viajou para Felgueiras com gasolina paga pelos nossos impostos, e foi alegremente libertada pela juíza da comarca, porque, claro, já não existe perigo de fuga e toda a prova necessária ao julgamento do seu caso foi reunida. Lógico? Muito lógico. Muito legal. Muito constitucional. Só que no meio de todas estas leis rigorosamente cumpridas, há um País a afundar-se, ao ritmo do samba.
João Miguel Tavares

quarta-feira, agosto 31, 2005

António J. Branco - Diário Digital

Esta é a ditosa pátria minha amada?

Um professor de história que tive há cerca de quinze anos – Pereira de Carvalho – apresentou a melhor definição de Pátria que até hoje os meus olhos leram; disse ele, Pátria, é Terra de Antepassados. E é. E não há melhor definição; pelo menos no meu entendimento ou pelo menos por enquanto - também no meu entendimento.

Terra de Antepassados, embora sendo uma expressão formada por poucos caracteres, constitui um universo composto por: pessoas; feitos; ideias e ideais. Tudo o que foram, tudo o que fizeram e tudo o que deixaram por fazer. Que ficou registado, que ficou na história; na história das pessoas do país e nas pessoas de um país com história.

Desde Afonso Primeiro que assim é. Estão lá todos e nós sabemos quem são ou quem foram: os bons, os maus, os menos bons e os muito maus; todos contribuíram para aquilo que hoje somos, todos fazem parte da nossa Terra de Antepassados, da Pátria cantada e enaltecida por poetas como Camões ou “enegrecida e amaldiçoada” por Jorge de Sena. Os dois mostrando sentimento; cada um cantando a sua verdade.

É uma Pátria estranha; esta que herdámos dos sucessores de Afonso. Pelo menos esta que hoje assim se nos apresenta. Pelo menos esta que deixou de moldar os homens em torno de ideais e o passou a fazer, ou a deixá-la fazer, apenas orientado por ideias; pequenas acções de momento, destinadas ao imediato à vista sem terem em conta a abrangência futura, o horizonte lá longe para o qual é preciso levantar os olhos do chão, desagrafando-os de cada umbigo.

É uma Pátria injusta; esta que se rege por nivelamentos negativos – se um tem e outro não, não se dá ao que não tem; tira-se ao que tem. Esta que quer impor igualdades mantendo diferenças; esta que não sabendo honrar os seus heróis, se entretém a produzir mitos de plástico em noites e dias nublados sem nevoeiro; como se Sebastião voltasse ou como se valesse a pena voltar.

É uma Pátria anónima; esta que coloca nas ruas – toponímia – placas de identificação sem dizer quem foram, quando nasceram, quando morreram e o que fizeram para que figurem ali, despertados e entardecidos, mas imortalizados pelo tempo. Não estão todas as ruas e avenidas assim identificadas, mas são muitas; são demais.

É uma Pátria opaca; esta que aplaude a existência de quintas de coisas; de celebridades de plástico; de esquadrões contra natura e outras tantas muitas, infelizmente mais que muitas e demais, ocupando mentes e multidões em distracção de lazer fugaz, em pedradas fúteis e mesquinhas que apenas apelam à parte bruta do ser humano, estupidificando-o ou assumindo-o como já estupidificado.

É uma Pátria hipócrita; esta que se ocupa em discussões abortadas, misturando direitos com deveres; consciência individual com liberdade de decisão; realidade com ficção; dicotomias com simbioses; vida com morte; nascença com vivença.

É uma Pátria inculta e ignorante; esta que vive da memória de impérios desencontrados e de glórias perdidas e passadas, ignorando a história ou esquecendo a memória. Uma história sem memória nunca poderá ser a memória da história.

É uma Pátria afogueada, triste e amargurada; esta que tão bem sabe fingir, que tão bem sabe olhar para o lado, que assobia como ninguém, que se estende ao sol de Agosto, que está (sempre) de consciência tranquila, que se “almofada encadeirado” à secretária, que ensurdece e enrouquece ao telemóvel, que conduz nas estradas melhor que todos e melhor que tudo, eremitando-se e anoitecendo-se em abismos e falésias de praias nuas, que se diluem no voar aleatório de gaivotas desnorteadas, perdidas e desencontradas.

“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, fizestes o que devíeis; ela o que costuma”– Padre António Vieira. É uma verdade ingrata, não é?...como a Pátria!

Talvez esta não seja, “a ditosa pátria minha amada” nem o “torpe dejecto de romano império”; talvez não seja esta a pátria que eu mereço ou que me merece. Mas é esta a minha Pátria; é esta a minha Terra de Antepassados.

terça-feira, agosto 30, 2005

Luís Rocha - Imortalizador de Imagens

Conheci o "Rocha" (Luís Rocha), por intermédio de amigos, na noite de Lisboa, mais especificamente no simpático e "castiço" Bairro da Bica.
O "Rocha" é, antes de mais, fotógrafo. Imortaliza para todo o sempre situações. Depois, um contador de histórias (como ele próprio se assume). E conta histórias pelas fotografias que capta, captando a nossa atenção e admiração.
Todo este blog não chegaria para falar de todas as coisas, e já foram muitas, que o "Rocha" fez. A que mais me cativou e "invejou" foi saber que dava aulas de fotografia para invisuais... não é maravilhoso?
Já o ouvi falar de muitas experiências pelas quais passou, falando sempre com um fascínio e um brilho nos olhos próprio de quem, realmente, ama o que faz.
Mas melhor que o meu discurso, são as suas imagens.
Deixo-vos aqui dois sites que falam e mostram algum do trabalho do fotógrafo Luis Rocha. Passem por lá e deixem os vossos olhos lerem as histórias que o "Rocha" tanto gosta de contar.
E com muita amizade, deixo-vos aqui uma fotografia que o "Rocha" tirou a mim e a uma grande (das melhores) amigas. Nela, a história que vos conta é a de uma forte amizade, cúmplicidade e carinho. Espero que gostem tanto dela quanto eu gosto.
A ti, "Rocha", um abraço. A ti, Ligia, um beijinho.

Mais uma vez os concursos de professores

Mais um ano que passa e mais um ano em que fico sem dar aular, sem arranjar colocação. Diz-se, entre os historiadores, que a história não se repete... que apenas tem semelhanças quando certos e determinados factores se conjugam. Sabemos que em anos de muita seca, ou de muita chuva, os campos agricolas ficavam arrasados, haveria carência alimentar, levando ao aumento dos preços. Até à Idade Moderna levava, obrigatoriamente, à fome e desta para as pestes. Isto é ciclico e sabido.
Mas no caso dos concursos de professores, os factores que se conjugam não são sempre os mesmos e levam ao mesmo resultado: desemprego de milhares de pessoas que apostaram, como muitos outros em muitos áreas, a uma formação especificia com o objectivo de fazer da vida qualquer coisa de útil e benefico.
Os partidos sucedem-se no Governo; os ministros também; há reformas e contra-reformas no ensino; há novas leis que saem e outras que se revogam; há novos programas, novas pedagogias (normalmente cada uma pior que a outra), novas maneiras de se entender a escola. E qual é o resultado? Uma escola cada vez mais degradada, com professores cada vez mais incompetentes e com falta de paciência para os alunos que, com a conivência do Estado e da Familia, estudam cada vez menos, para quem o trabalho não existe, e para quem o que interessa é o recreio (que tem a sua continuidade na sala de aula) e o lazer.
Ano após anos a história repete-se com factores diferentes que se conjugam. Vejo a escola e os concursos de professores como um daqueles virus que, consoante o ambiente, as resistências e as vacinas que se arranjam, encontra maneira de se transformar, de se transmutar para conseguir sobrevivier e continuar a sua "destruição".
Haverá quarentena possivel para esta doença? Não sei. No estado avançado em que se encontra dúvido. Melhor mesmo é acabar com a espécie que serve de transmissor ao virus e recomeçar tudo de novo. Eu sugiro que se começe pelos pedagogos e supostos entendidos em educação e mandava implodir o Ministério da Educação... eu mesmo me ofereço para o detonar.
Daniel Ferreira
Os professores sem alunos
Filipe Rodrigues da Silva

A respeito do último texto deste espaço do DD, «No país dos tristes», vários leitores enviaram emails efectuando comentários sobre o mesmo.
Uns concordando. Outros discordando. Outros ainda opinando. Uns quantos questionando. E entre as questões surgidas, há uma - enviada por uma portuguesa a viver há alguns anos em França - pertinente: em que área da sociedade se deu o maior falhanço nacional?
Podemos falar das reformas do Estado que nunca chegaram. Da falta de dinâmica da economia. Da saúde. Da justiça. Mas julgo que o maior drama nacional se centra na educação, onde nenhuma política assumida pelos diferentes governos foi seguida de forma ordenada, equacionando-se muitas vezes se os sistemas adoptados haviam sido alguma vez realmente pensados para a realidade portuguesa.
O problema vai do pré-escolar às universidades. Dos programas adoptados à colocação de professores. Do início quase sempre confuso das aulas à qualidade das mesmas. Dos desejos de uma reforma do ensino às infraestruturas em degradação. Das fornadas de licenciados com cursos de papel e sem futuro à falta de preparação profissional e de saídas profissionais.
É uma luta antiga, mas que não pode ser abandonada, sob o risco de hipotecar-se o futuro do País. Uma área sensível, que não pode viver sob a instabilidade de 20 e tal ministros diferentes desde o 25 de Abril, cada um ansioso por deixar obra feita e borrar do mapa o trajecto do antecessor.
A poucas semanas do começo das aulas, foram conhecidos na segunda-feira os resultados dos concursos de professores que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação.
Os números terão as suas justificações, mas assustam. Findas as colocações, analisando-se os saldos dos récem-contratados pelo Ministério da Educação e os dos novos candidatos ao trabalho no ensino, cerca de 40 mil destes profissionais ficarão sem trabalho neste ano lectivo.
No entanto, a boa notícia é que - aparentemente - este ano lectivo vai começar sem grandes sobressaltos, ou, pelo menos, distante dos percalços do ano passado.
Notou-se um esforço meritório do Governo, de modo a garantir o arranque das aulas. Haja algo que comece a funcionar bem em Portugal.
Fica, no entanto, o drama. Estamos a salvaguardar o futuro ao dar melhores condições a milhares de jovens e a contribuir para a sua formação. Mas tal só valerá a pena se daqui a vinte ou trinta anos não houver 40 mil candidatos a professores desempregados. Desperdiçar tantos recursos é um suicídio social.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Luis Delgado - "Soares já era..."

É altamente improvável, nesta altura, que Mário Soares venha a ser o novo Presidente da República. As razões são várias, mas faça-se, apesar de tudo, o desconto dos imprevistos, mudanças de atitude, dificuldades e acontecimentos que tudo podem mudar. Em todo o caso, e se as eleições fossem agora, Soares perderia, à primeira volta, e irremediavelmente

1. Cavaco vai avançar, depois das autárquicas, e o clima político de grande desânimo, depressivo e de desconfiança nos políticos leva a que os eleitores se revejam num perfil como o do ex-PM, austero, credível, e com um capital acumulado de desempenho notável, que mais ninguém tem. A hora faz o vencedor. Soares teria outras hipóteses se este Governo tivesse cumprido o que prometeu e se o País estivesse a regressar ao seu melhor.

2. Soares é um has been, e os portugueses, mesmo os da sua cor e simpatia, gostariam de ver outras alternativas. É isso a democracia alternativa e a ideia fundamental de que todos têm a hipótese de chegar lá. O País não pode ficar refém do passado, por muito que esse fantasma resida na nossa consciência colectiva. Soares foi bom, foi tudo, e chega.

3. O aparecimento de outras candidaturas, mesmo que desistam à última hora, não ajudará o candidato Mário Soares. Haverá dispersão da mensagem, ataques mútuos, e o tempo de tapar os olhos e votar em Soares já passou. A história não se repete, por muito que se sonhe com isso.

4. A forma como Manuel Alegre, e os seus apoiantes, foi tratado não augura nada de bom para um eleitorado mais de esquerda do PS. E em teoria até se poderia dar o caso de Soares não avançar à última hora, depois de um sono bem dormido, e Alegre fazer a sua birra, com toda a razão, deixando o PS sem eira nem beira.

5. Por último, a colagem ao Governo ou o apoio de Sócrates a uma candidatura de Mário Soares não parece ser, nesta fase, um factor catalisador. Pelo contrário. Se há insatisfação, descontentamento e desilusão, isso deve-se ao Executivo e às suas entradas de leão e saídas de sendeiro. O Governo não é um balão de oxigénio para Soares, mas um incêndio descontrolado que só o pode queimar.

Luis Delgado, Diário de Noticias de 25 de Agosto de 2005

quarta-feira, agosto 24, 2005

Para que serve um primeiro-ministro - José de Matos Correia

O primeiro-ministro esteve de férias. Fez bem. As férias são um direito fundamental, constitucionalmente garantido a qualquer cidadão que trabalhe. Na sua ausência, a direcção do Executivo ficou a cargo do ministro de Estado e da Administração Interna. Compreende-se que, em circunstâncias normais, assim seja. Afinal, trata-se do n.º 2 do Governo. O problema é que, no período em que o eng. José Sócrates esteve fora, o País foi assolado por uma verdadeira onda de fogo. E, talvez por estar muito longe e por lhe causar grande transtorno, o primeiro-ministro decidiu não interromper o seu período de descanso. Fez mal. Fez mesmo muito mal.
Como seria de esperar, tal atitude deu azo a críticas várias. Críticas muito moderadas, aliás, face não só à relevância do facto, mas também ao que certamente teria ocorrido caso o episódio se tivesse passado com os dois anteriores primeiros-ministros. Mesmo assim, e sempre muito sensível aos reparos que lhe são feitos, o primeiro-ministro abespinhou-se. Acusou os seus críticos de mesquinhez e de praticarem baixa política e considerou as acusações injustas, explicando que o Governo tivera, no período da sua ausência, um primeiro-ministro - António Costa - que era, para além do mais, o responsável político com tutela sobre os mecanismos de combate aos incêndios.
Estas justificações são surpreendentes. Mais do que isso, são desastradas. Ao ouvi-las ficamos com a nítida impressão de que o eng. José Sócrates não compreende qual é o verdadeiro estatuto do primeiro-ministro no quadro do nosso sistema político-constitucional. Que ignora que o primeiro-ministro não é um mero primus inter pares, mas o chefe do Governo. E que é por isso que a sua nomeação é um acto livre do Presidente da República, enquanto que a nomeação dos ministros é algo que o Presidente só pode fazer sob proposta do próprio primeiro-ministro (art. 187.º da Constituição). Que é por isso que o primeiro-ministro é responsável perante o Presidente da República, enquanto que os ministros respondem perante o primeiro-ministro (art. 191.º da Constituição). Que é por isso que a demissão de um ministro só o afecta a ele e à sua equipa de secretários de Estado, enquanto que a demissão do primeiro-ministro implica a queda do próprio Governo (art. 195.º da Constituição).
O eng. José Sócrates tem, contudo, um entendimento diverso. Para ele, primeiro-ministro e ministros encontram-se em plano idêntico. Têm o mesmo nível de responsabilidade política. E, nessa linha, o facto de o primeiro-ministro não regressar a Portugal quando o País se debate com uma calamidade pública de grandes proporções é irrelevante, porquanto alguém estará a fazer as vezes dele.
Poderão dizer os apoiantes do primeiro-ministro que estas considerações são despropositadas, na medida em que a própria lei fundamental expressamente acolhe a possibilidade de substituição do primeiro-ministro nas suas ausências. É verdade. Só que a questão no cerne das críticas não é jurídico- -constitucional, mas puramente política. É que há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de estar ausente. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de se fazer substituir. Há circunstâncias em que um primeiro-ministro não tem o direito de delegar responsabilidades que são, por natureza, indelegáveis.
Qualquer pessoa entende que, nos momentos em que um País atravessa momentos de extrema gravidade, os cidadãos precisam de sentir que o exemplo vem de cima. Precisam de ver que o comandante assume a direcção do barco, em vez de entregar o leme ao seu imediato. Precisam de ser motivados pela presença e pelo incentivo daquele que escolheram para os dirigir.
Em vez de tudo isso, os portugueses tiveram um primeiro-ministro que achou que nada justificava a interrupção do seu lazer estival. Mas, do mal o menos. É que se ao longo dos últimos meses tinha ficado já patente que o eng. José Sócrates não servia para primeiro- -ministro, agora torna-se também evidente que ele nem sequer percebe para que é que realmente serve um primeiro-ministro.
Diário de Noticias, 24 de Agosto de 2005