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segunda-feira, outubro 09, 2006

ISABEL RUTH - FOTOPOESIA


Foi acabadinho de lançar um livro que constitui uma autêntica surpresa. Chama-se "ISABEL RUTH - FOTOPOESIA". Trata-se de um livro belíssimo onde cada fotografia (por vezes mais que uma até) da actriz Isabel Ruth é acompanhada por um poema escrito pela própria. É um livro surpreendente, bonito, onde podemos acompanhar a vida da actriz pela imagem e pela palavra. O livro é da editora "Guerra e Paz".
Para os Amalianos, refira-se que o livro contem uma série de três fotografias da actriz na praia acompanhada por Amália Rodrigues. Penso que serão fotografias nunca antes editadas.
De todos os poemas, deixo o primeiro porque é aquele que me é mais querido. O dedicado ao melhor Actor de Teatro do século XX português - Mário Viegas


"A Mário Viegas

Querias amigo
que eu escrevesse
palavras sobre mim
que tecesse um manto
de quimeras de verdade
falasse outro tempo, outra idade
memórias de era uma vez...
desencantasse do fundo
de mim mesma
outra realidade de que gostavas
querias graça "clairs de lunes"
graças que já em ti
eram costume
mas eu não sabia
que os dois
éramos da mesma raça
querias amigo
ler em mim
palavras que sabias de cor
e eu senti dor ao ver-te perdido
de copo na mão
bebendo de um trago
o teu sentido de tanto amor
eufórico, destemido
falavas pertinente
e mal te conhecendo
eu sabia que não falavas
de mim somente
julgo as palavras hoje
pelo ouvido
e fazem-me sentido
recordo-te agora
quando o tempo de ver-te
já passou
mas o tempo não muda
escuta
somos o Verbo
um só
quem anda por aí
quem nos habita?
quem senão nós
acredita na voz
que nos dita e descreve
desde que fizeste greve"

sexta-feira, julho 07, 2006

TEATRO
Por Mário Viegas


Um beijinho no actor Simão Rubim

Na última crónica que escrevi, fui de uma violência verbal enorme contra uns pseudo-intelectuais. Aquilo é que foi dizer mal e destilar veneno!!
Hoje (só para variar) apetece-me só dizer bem. E, para dizer bem de «pessoas de Teatro», passo a citar:
CARLOS AVILEZ – Encenador e actual Director do Teatro Nacional Dona Maria Dois e fundador, há 30 anos (com outros amigos Actores), do Teatro Experimental de Cascais, onde eu me estreei em 16 de Janeiro de 1968, como Actor profissional. Perdoem-me a efeméride!...
Este homem ama, de facto, o Teatro como poucos! Há muitos anos que vou ver os espectáculos do T.E.C. e lá está sempre o Carlos, à porta, a ver entrar e sair o público. A ver se gostaram ou não... A controlar os espectáculos... Agora no Dona Maria Dois, sucede o mesmo!! Ele lá está, diariamente no átrio ou no restaurante, a viver os espectáculos. Só assim se pode ser um grande homem de Teatro!!
Fazendo do Teatro a sua casa e dos seus amigos. Que bonito!
EUNICE MUÑOZ – Vão vê-la na peça «O Caminho para Meca». Que humildade, aparente simplicidade, que bonita!! Obrigado pelo seu comovedor Trabalho, que acompanho há anos, Eunice!!!
«A Humildade deve ser a 1ª qualidade de um Actor»
Ora aqui estão dois belos exemplos, num meio teatral em que qualquer «menina ou menino», fazem um reclame na TV, dizem 6 frases numa telenovela e numa peça que ninguém vê e se permitem logo «cagar sentenças» sobre o Teatro entrevistas... Ou, pior do que isso, identificarem-se como Actores. São logo Actores...
Mas dentro do reino da Humildade e da Simplicidade, gostaria de dizer bem do:
SIMÃO RUBIM – Está na Companhia Teatral do Chiado há cinco anos. Fez, muitíssimo bem, 4 papéis lindíssimos em peças do Eduardo De Fillippo que eu encenei: «Nápoles Milionária», «A Arte da Comédia» e «A Grande Magia». Foi o protagonista de «A Birra do Morto» de Vicente Sanches e prepara-se agora para ser um dos protagonistas de «O Homem-Elefante», o nosso próximo espectáculo. Tem-me ajudado em tudo: bilheteira, programas, traduções (fala perfeitamente o inglês), produções, luzes, sei lá...
E sabem como eu o reconheci?!
Fui passar uma semana a Londres com o Actor Juvenal Garcês, para ver Teatro. E não é que Dustin Hoffman, o famoso super-star do Cinema, estava a fazer «O Mercador de Veneza» no Teatro Phoenix, em pleno centro de Londres. Esgotadíssimo há semanas, claro!!! Lembrei-me de ir espreitar o final do espectáculo, para lhe pedir um autógrafo, à porta dos artistas. Podem pensar que é piroso, mas foi mesmo assim!! Bem, estavam lá mais de 100 pessoas com a mesma ideia: japoneses, meninas histéricas com máquinas fotográficas, e até uma senhora de bengala, sentada numa cadeira de lona, mesmo em frente da porta...
Esperamos aí uns 45 minutos. Saiam outros actores, técnicos, etc. Fecharam a luz das traseiras do Teatro e ficou tudo frustradíssimo. Eis que aparece o director do Teatro, acompanhado por 2 guarda-costas do Dustin Hoffman, de aspecto sinistro. Um era forte, rabo de cavalo, óculos escuros. Outro alto, magro, cara com borbulhas, óculos escuros. Dois verdadeiros «gangsters»... E diz:
«-Desculpem, mas o senhor Dustin Hoffman já saiu por outra porta, pois está muito cansado esta noite».
Desilusão e fúria total. Houve uns assobios e eu, como bom português e no meu péssimo inglês, avanço e digo-lhes provocatóriamente:
«-E nós também estamos muito cansados de estar, aqui ao frio, à espera do Sr. Hoffman!»
Logo os dois «guarda-costas» avançaram para mim e o magrinho tira os óculos e põe-me a mão no braço:
«-Olha!! Tu não és o Mário Viegas?! Eu sou português. De Cascais. Comecei a fazer Teatro no TEC, com o Avillez. E agora estou aqui a trabalhar neste Teatro».
Logo nessa noite eu, o Juvenal Garcês e o Simão, ficamos amigos para sempre. E este homem apareceu-nos, um ano depois, em Lisboa, para inaugurar connosco a Companhia Teatral do Chiado em 1990. Já tinha conseguido fazer uma peça em Londres, figurações em Óperas, pequenos papéis numa óptima série da BBC, trabalhando em hotéis, como porteiro e como «pseudo-guarda-costas» de Hoffman. E mais grave ainda, ter sido aceite numa das melhores escolas de Teatro inglesas, o que é dificílimo!!
É com estas pessoas AMIGAS, HUMILDES, TALENTOSAS; que se constrói uma Companhia... Um Espectáculo. E não com pretensiosos e medíocres, que proliferam cada vez mais no nosso Teatro, Televisão e Cinema. Que até apresentam falsas biografias e cursos tirados «lá fora»...
Bem... Hoje é só para dizer bem!
Obrigado Simãozinho! (Pela tua Humildade e Talento)
Obrigado Eunice! (Pela sua Luz para Meca)
Obrigado Carlos! (Pelo seu Amor aos Actores)

P.S. – Atenção! Esta croniqueta não tem nada a ver com o nosso Joaquim d’Almeida, mais conhecido pelo «Quim d’Hollywood», ou com o nosso Filipe La Féria, que escreveu um «curriculum» num programa do Dona Maria, a dizer que tinha um Curso de Encenação tirado em Londres, quando só lá esteve uns tempos a servir à mesa num restaurante... o que, aliás não é vergonha.

segunda-feira, julho 03, 2006

Os mandamentos de um espectador de teatro

TEATRO

Por Mário Viegas

10 mandamentos para 1 espectador de teatro

1º NÃO CHEGARÁS ATRASADO, incomodando a concentração daqueles que estão a Representar e dos outros (que chegaram religiosamente a horas) que estão a assistir ao Santo Sacrifício do Teatro.

2º NÃO FALARÁS BAIXINHO com o ou a acompanhante; incomodando com a tua inclinação de cabeça o Espectador de trás, e distraindo os Actores celebrantes do Santo Sacrifício do teatro.

3º NÃO ADORMECERÁS NEM RESSONARÁS, dando marradas para a frente ou para trás, ou pondo a mão nos olhos para os outros pensarem que estás muito concentrado no Santo Sacrifício do teatro.

4º NÃO TOSSIRÁS NEM TE ASSOARÁS com grande ruído, escolhendo as melhores pausas dos celebrantes do Santo Sacrifício do Teatro.

5º NÃO TE ABANARÁS constantemente com o programa, distraindo os que estão, religiosamente, ao teu lado e irritando os que estão no palco a celebrar o Santo Sacrifício do Teatro.

6º NÃO COMERÁS rebuçados, pipocas, caramelos, chocolates, pastilhas, comprimidos; tirando-os muito devagarinho, fazendo com o papel e as pratinhas o mais diabólico, satânico e herético ruído numa sala de espectáculos em que se celebra o Santo Sacrifício do Teatro.

7º NÃO LEVARÁS relógios com pipis electrónicos, telemóveis e sacos de plásticos que andarás constantemente a pôr, ora entre as pernas, ora no colo, perturbando os que celebram o Santo Sacrifício do Teatro.

8º NÃO LERÁS OU FOLHEARÁS o programa durante a celebração do Santo Sacrifício do Teatro para tentar saber qual é o nome de determinado Actor, ou para tentar perceber a sequência do Santo Sacrifício do Teatro.

9º NÃO PEDIRÁS borlas ou insistirás em descontos, a que não tens direito, para assistir à celebração do Santo Sacrifício do Teatro.

10º NÃO OLHARÁS «com umas grandes ventas» para o vizinho do lado, que achou religiosamente Graça ao que tu não achaste, ou que, piamente e cheio de Fé, se levantou logo para aplaudir, enquanto tu bates palmas por frete e já a pensar ir a correr tirar a porcaria do teu carrinho, ou a porcaria do teu sobretudo do bengaleiro, mais cedo do que os outros.

ASSIM: SUBIRÁS PURO AOS CÉUS!

OU

ASSIM: PODERÁS IR A 13 DE MAIO À COVA DA IRIA

OU

ASSIM: PODERÁS IR E COMUNGAR NO CASAMENTO REAL

de Sua Majestade Sereníssima Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael De Bragança, chefe da Sereníssima Casa de Bragança, Duque de Bragança, de Guimarães e de Barcelos, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, de Ourém, de Barcelos, de Faria, de Neiva e de Guimarães; e de sua Augusta Noiva Isabel Inês De Castro Corvello de Herédia.

IDE E ESPALHAI A BOA NOVA!!
Os mandamentos de um espectador de teatro

terça-feira, abril 11, 2006

Descobrir Mário Viegas como autor


Obras originais de Mário Viegas, algumas manuscritas ou dactilografadas, vão ser pela primeira vez apresentadas ao público numa mostra que procura homenagear o actor, encenador e declamador que morreu há dez anos. A exposição, que estará patente na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em Lisboa, é constituída por fotografias do actor, de cena, em ensaios ou de promoção, e foi já apresentada no Museu Nacional do Teatro em 2001, além dos textos de sua autoria. Segundo fonte da SPA, "esta mostra reflecte a diversidade e a criatividade de um percurso artístico único no nosso país e que foi prematuramente interrompido".

Mário Viegas, que morreu a 1 de Abril de 1996, foi um dos fundadores da Companhia Teatral do Chiado, Lisboa, tendo-se popularizado, em meados da década de 80, através da televisão em programas de divulgação de poesia. Além de actor e declamador, a exposição procura aprofundar a sua faceta como autor de diversas textos dramatúrgicos.

Mário Viegas foi também um dos fundadores do Novo Grupo e do Grupo 4, tendo-se distinguido pela divulgação da poesia e das principais dramaturgias contemporâneas.

Apesar da curta existência - morreu com 48 anos -, Mário Viegas foi celebrado em vida com uma série de prémios relevantes. A Casa da Imprensa distinguiu-o com dois galardões e a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro premiou-o quatro vezes. Recebeu ainda o Prémio Garrett, o Prémio de Honra do Festival de Teatro de Sitges e o Prémio de Melhor Actor no Festival Europeu de Cinema da Corunha (ambos em Espanha). Em 1993, a Câmara Municipal de Santarém atribuiu-lhe a Medalha de Mérito e, em 1994, tornou-se comendador da Ordem do Infante D.Henrique, um das mais altas distinções do Estado português.

Sobre Viegas, escreveu José Saramago "Pouca gente em Portugal tem valido tanto". Descobrir Mário Viegas como autor

Sublinho a talhe de foice, que se encontra já à venda o segundo volume da poesia dita por Mário Viegas, da fantástica colecção que acompanha, às terças-feiras, o jornal "Publico".
Considero, sem sombra de dúvidas, que o lançamento desta colecção é um dos eventos culturais mais importantes deste ano e, quiça, da década.
Através dela ficará a conhecer a espantosa genialidade de Mário Viegas na dificil arte de dizer poesia, percorrendo os melhores poetas da lingua portuguesa... e a um preço menor que um bilhete para o futebol.
Delicie-se.

domingo, novembro 27, 2005


Mário Viegas: a vida em alta velocidade
(entrevista)


Viriato Teles
O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirigem para nós. Pontua a conversa com gestos largos, próprios de quem sabe o que quer e tem pressa de o concretizar. A sua vida é um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Olho-o e penso que poucos actores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer.
Discípulo da escola brechtiana de teatro vivo e actuante, Mário Viegas fez tudo o que de melhor se pode fazer nas artes de palco. Sem claudicar. Mais do que «apenas um actor de teatro», como gostava de se definir, foi um interveniente, um recriador de palavras. Vinícius de Morais comoveu-se até ao arrepio quando ouviu a sua interpretação de "Trópico de Cancer", Almada Negreiros morreu sem imaginar que o seu "Manifesto Anti-Dantas" havia de renascer um dia com tanto vigor, Mário-Henrique Leiria deve boa parte da popularidade que alcançou postumamente ao talento deste Mário Viegas que um dia trocou Santarém pela cidade grande e se tornou no maior actor e recitador de poesia da sua geração.
Os últimos anos de vida dedicou-os, por inteiro, à Companhia Teatral do Chiado, instalada na sala-estúdio do Teatro São Luiz, um projecto que «nasceu da ideia de fazer uma companhiazinha com meia-dúzia de tarecos e sem dinheiro». Com três mil contos atribuídos pela Secretaria de Estado da Cultura para a montagem de uma peça de Miguel Rovisco, "Um Homem Dentro do Armário", Viegas acabou por levar à cena quatro espectáculos. Depois deitou contas à vida e chegou à conclusão de que «mesmo com as casas permanentemente esgotadas, o dinheiro não dá para pagar a toda a gente». Mas não parou de trabalhar e de sonhar.
Assim, quando nos encontrámos para esta entrevista, em meados de Fevereiro de 1992, o actor estava a preparar a estreia de "A Tersseira Classe" (assim mesmo, com dois esses), uma peça ao jeito de todas as produções de Mário Viegas, provando que, mesmo sem meios grandiosos e com montagens "pobrezinhas" ("A Birra do Morto", por exemplo, custou 38 contos, o preço do caixão) é possível fazer um teatro de grande humor e muita qualidade, «a pensar nas pessoas normais e não naqueles que já pensam saber tudo.”
"A vida em alta velocidade" foi o título, quase premonitório, que na altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer. Desconcertante até na morte, partiu a 1 de Abril de 1996, dia das mentiras, com 47 anos, deixando aparvalhados os amigos e a legião de admiradores do seu talento e da sua verticalidade. Como herança, deixou a sua memória de uma arte que reinventou com invulgar mestria de cada vez que subiu ao palco. Fosse na pele de "D. João V", de "Baal", ou "A Espera de Godot", no cinema onde criou o memorável "Kilas", fosse ainda como divulgador de poesia, onde teve um papel só comparável ao de João Villaret, deixando disso testemunho em mais de uma dúzia de registos discográficos e em duas séries de programas de televisão que deram a conhecer também o grande humorista que sempre foi.
Algum tempo antes de morrer anunciou a sua candidatura à Presidência da República, cujo programa foi apresentado no espectáculo "Europa, Não! Portugal, Nunca!" - uma genial provocação a favor de "uma política sem máscaras", que só a doença impediu de levar até ao fim, mas que ficou como derradeiro exemplo de insubmissão. Total, radical, verdadeira, absoluta. A doer, como a vida. [V.T.]

VT - Não é comum um actor ter tanto trabalho como tu tens agora. Como é que isto aconteceu?MV - Olha, calhou. No ano passado fiz várias coisas que me deram muito trabalho, mas que só este ano terão os seus eventuais "lucros" artísticos. Uma foi o filme do Manoel de Oliveira, "A Divina Comédia", no final do ano. Foi a primeira vez que trabalhei com o Manoel de Oliveira…
VT - E gostaste?MV - Muitíssimo. Só o conheci pessoalmente no primeiro dia de filmagens. E, quando acabei o filme, estava completamente fascinado por ele, como pessoa. É um homem duma vitalidade extraordinária, duma simpatia humana, duma educação exemplar. Há nele um grande gosto de trabalhar com os adores, uma segurança até aos mais pequenos pormenores que faz com que as pessoas realizem mesmo o que ele quer. Do ponto de vista de trabalho e de contacto humano, fiquei fã máximo do Manoel de Oliveira.
VT - E o filme?MV - Acho que vai resultar: o argumento é muito bonito, os diálogos são muito engraçados. E reuniu-se ali uma equipa de actores e de técnicos com um enorme respeito pela obra e pelo passado do Manoel de Oliveira. Vai ser, com certeza, mais um filme polémico e, até, diferente daquilo que ele tem feito. Foi uma honra muito grande ter trabalhado com ele. E, para mim, que, estava habituado a trabalhar de outra maneira, com outro tipo de cineastas, (principalmente com o José Fonseca e Costa, meu querido amigo, até já estávamos a ficar "conotados" um com o outro), este era um mundo diferente, uma nova estética. E isso, profissionalmente, foi muito bom para mim.
VT - Entretanto criaste a Companhia Teatral do Chiado…
MV - Foi mais ou menos ao mesmo tempo. A formação da Companhia surgiu na "ressaca" de uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa "Palavras Vivas", realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a ideia - penso que, até agora, feliz - de formar a Companhia com um grupo de amigos e de jovens actores.
VT - E vens parar ao São Luiz…MV - …porque sabia que havia aqui um "buraquinho" aberto - aliás, fechado - e que os serviços culturais da Câmara queriam dinamizar o Teatro Municipal. De facto não há fome que não dê em fartura: neste momento, há no São Luiz imensos espectáculos de jazz, bailado, ópera, despedidas de cantores… E há esta sala-estúdio, que eu já conhecia, sabia que tinha havido aqui teatro infantil, o "Teatrinho Branca Flor". Então fiz a proposta de apresentar nesta temporada de 1990/91 seis espectáculos diferentes. Foi um trabalho muito exaustivo, não só porque os encenei a todos como ainda participo como actor.
VT - Em todos?
MV - Quase. Só não entro no espectáculo infantil e na "Tersseira Classe". Além disso, tinha já um compromisso com o João Lourenço, do Teatro Aberto, para entrar novamente na peça "O Suicidário", de que fui protagonista há oito anos. Portanto, neste início do ano, vou estar em cena simultaneamente em quatro espectáculos: quatro papéis diferentes por semana, como actor, e em dois teatros diferentes. Ou seja: à segunda-feira que é o dia de folga, faço na sala-estúdio do São Luiz o monólogo "Mário Gin Tónico Volta a Atacar", com novos textos e inéditos de Mário-Henrique Leiria. Além disso tenho duas representações com "A Última Badana de Krapp" (uma das peças dos "Três Actos" de Samuel Beckett, que estou a fazer com a Carmen Dolores), mais três espectáculos com "A Birra do Morto". E depois vou a correr para o Teatro Aberto ensaiar "O Suicidário", que tem estreia prevista para Março…
VT - E consegues conciliar isso tudo?MV - Até agora sim. É uma situação um bocado louca. Mas penso que aguentarei isso tudo, não só física como psicologicamente, porque como me sinto melhor é a fazer teatro…
VT - O regresso do "Mário Gin Tónico" está a ser um êxito. E tu tens uma predilecção grande pelo Mário-Henrique Leiria…
MV - Durante anos, sempre trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que gostaria de ter escrito… Depois, na minha passagem pelo Teatro Experimental do Porto, aconteceu ser necessário fazer mais um espectáculo. Mas, porque só estava lá como encenador, achei que era melhor fazê-lo sozinho. Aí reuni uma série de textos do Mário-Henrique e construí um espectáculo com uma hora e quarenta e cinco minutos, só com palavras dele. Depois fui acrescentando mais textos, aquilo foi aumentando e quando me dei conta o espectáculo estava já com três horas…
VT - É aquilo a que pode chamar-se um grande espectáculo…MV - …em grande parte porque fui descobrindo umas coisas que ele tinha escrito, com os pseudónimos de Vovô Gasosa e Wilson Gasosa, no jornal O Coiso e no Pé de Cabra: eram receitas de cozinha, contos para crianças, umas fábulas, aquelas coisas que ele fazia. O espectáculo foi uma bola de neve, acabei por andar durante dois anos a correr o país. E aconteceram noites memoráveis… Agora, que tive de apresentar um conjunto de propostas para fazer no estúdio do São Luiz, o mais fácil era repor este espectáculo. Que tem a particularidade de ser sempre um espectáculo diferente, já que os textos todos que eu reuni do Mário-Henrique davam para quatro horas e eu acho que o tempo certo devem ser duas horas. Portanto, todas as segundas-feiras, vou tirando do bolso este ou aquele texto, conforme o público e de acordo com a minha disposição…
VT - Isso já acontecia na primeira vez…MV - Pois, mas agora acontece mais, até porque descobri outros textos inéditos. Durante a gravação do "Palavras Vivas" - um dos programas é dedicado precisamente ao Mário-Henrique - confirmei aquilo que já sabia: que na Biblioteca Nacional se encontra um espólio dele muito importante, com colagens e textos inéditos que deviam ser publicados. E eu sei, por exemplo, que o Manuel de Brito, da Galeria 111, tem várias coisas do espólio do Mário-Henrique Leiria e está, penso eu, totalmente aberto a quem esteja interessado em publicá-las. Ele já morreu vai fazer onze anos e creio que era necessário editar um novo livro. Poderiam ser os "Novíssimos Contos do Gin" ou os "Contos Póstumos", qualquer coisa assim… Porque ele é, de facto, um humorista extremamente original. Não é um autor menor nem é só um contador de histórias, mas também um poeta, com grande qualidade, ligado ao surrealismo. Penso que valia a pena fazer isso…
VT - Conheceste bem o Mário-Henrique?MV - Conheci-o, ocasionalmente, em 1978. Já conhecia os livros dele, claro, sobretudo os Contos do Gin Tónico e os Novos Contos do Gin, mas a partir daí passei a dizer mais coisas dele. Nunca fui muito íntimo do Mário-Henrique Leiria, mas tivemos uma cumplicidade imediata pelos copos, pelo convívio, pelo sentido de humor… Ele achava muita graça à maneira como eu dizia os seus poemas - que ele, aliás, dizia de uma maneira muito diferente… E sei disso não só porque o ouvi, algumas vezes, mas também porque há duas gravações que conheço, uma delas uma entrevista autobiográfica, extraordinária. A outra, feita antes do 25 de Abril, foi a que me deu a ideia deste espectáculo. É um documento um pouco trágico-cómico, em que ele se vai embebedando progressivamente, tal como eu faço no espectáculo (quer dizer: eu finjo que me embebedo, ele embebedava-se mesmo…), à medida que diz os textos.
VT - Voltando ao teu programa na televisão. Que poetas privilegiaste?MV - Eu é que fui privilegiado por ter a oportunidade de dizer esses poetas. Escolhi só portugueses que já morreram, para que os vivos me não chateassem. E escolhi vários, sobretudo do nosso século: Fernando Pessoa, é óbvio, com "A Tabacaria", o Almada Negreiros, a quem me sinto muito ligado até por ter gravado o "Manifesto Anti-Dantas" e "A Cena do Ódio", o Mário-Henrique, o Pedro Oom, o Miguel Rovisco… Mas sobretudo procurei poetas com quem tenho afinidades sentimentais ou pessoais. O programa é assumidamente muito pessoal: falo de mim, das minhas ligações, das minhas primeiras leituras e das minhas amizades com alguns poetas que tive o prazer e o privilégio de conhecer e de conviver, casos do José Gomes Ferreira, Zeca Afonso, Raul de Carvalho, Pedro Homem de MeIo, etc. É mais ou menos um programa sobre amigos meus, uns que conheci pessoalmente, outros só através dos livros, e que me fizeram crescer como recitador e como actor. E que acabou por despoletar a descoberta dos imensos espólios literários. Sempre que se fala de espólios ou de defesa do património pensa-se logo num pedregulho que cai, nos Jerónimos ou numa igreja não sei aonde. Mas os papéis são, de facto, mais frágeis do que as pedras…

(Este é o Mário Viegas que eu conheci. Actor de teatro e cidadão, homem preocupado com o seu mundo e com a nossa memória colectiva, tão fascinado , pelas palavras como pelos pedaços de história viva que elas lhe revelam. O trabalho é, assim, não só um prazer, mas também um acto de cidadania, assumido com o mesmo empenhamento com que fez tudo aquilo a que se propôs. Siga a prosa e a conversa.)

MV - Um dos programas é dedicado ao Camilo Pessanha, esse genial poeta da literatura portuguesa, que tem, na Biblioteca Nacional, os poemas da Clepsidra escritos todos com a letrinha dele, que é lindíssima - o que dá uma extraordinária "fotografia" do Camilo Pessanha e da sua poesia. Aliás, quando estava a gravar, mexia naquilo com muito cuidado e até tive ocasião de dizer a um técnico que achava graça ao meu respeito: "Olhe, cada folhinha destas dava-lhe para comprar um andar ou um automóvel de luxo…". Mas não foram só papéis e arcas como a do Pessoa ou fotografias como as do Sá-Carneiro ou do António Pedro que descobri na Biblioteca Nacional. Foram também gravações e filmes. É o caso dos arquivos da RTP onde, ao procurar imagens para o programa, fui encontrar no meio de uma série de milhares de horas ainda por catalogar, filmes e documentos visuais inestimáveis: com o Zeca, o Raul de Carvalho ou o José Gomes Ferreira. Coisas que foram apresentadas logo após o 25 de Abril, em "Artes e Letras", ninguém deu por elas no meio daquela confusão toda e nunca mais foram vistas. Outras estão perdidas no meio de bobines que é preciso identificar… Por exemplo: ao procurar, numa longa bobine, o poeta Raul de Carvalho encontrei, misturado, o antigo actor Raul de Carvalho, do Teatro D. Maria II. E atrás dele, encontrei mais uma série de coisas. Até me descobri a mim, dizendo uns poemas n'A Barraca, com o Zeca Afonso, num encontro sobre a vinda a Lisboa do Paco Ibáñez…
VT - Quer dizer: foste uma espécie de "arqueólogo literário"…
MV - Mais ou menos. Aliás, há histórias curiosas. Como sabes, eu tive durante cinco anos um programa de poesia na Rádio Comercial. Um dia, telefonou-me uma senhora a dizer que tinha uma gravação do Mestre Almada a dizer o "Manifesto Anti-Dantas". Ainda pensei que era uma senhora perturbada ou confusa, que tivesse ouvido o meu disco, mas não. Era uma grande amiga do Almada, a casa de quem ele ia todos os domingos depois do almoço passar as tardes e que um dia, já velhote, dois anos antes de falecer, gravou o "Manifesto Anti-Dantas", que é um documento fundamental na história do humor do nosso século. E mais: à conversa com a senhora e o marido, ia contando como tinha nascido o "Manifesto". Só esta gravação daria um extraordinário disco… E provavelmente ter-se-ia perdido se a senhora não tivesse telefonado.
VT - Mas nunca ninguém o editou…MV - Eu sei que o filho dessa senhora contactou várias editoras. Mas parece que nenhuma se mostrou interessada… Essa é mais uma das surpresas de "Palavras Vivas": a voz do Almada a dizer, comigo, o "Manifesto". E mais coisas: há dezenas de fotografias e de quadras inéditas do António Aleixo, no Algarve… Quer dizer: pensa-se que alguns poetas já estão "fechados", que já está tudo feito, quando, afinal, está tudo em aberto, por descobrir e por defender. E se, de facto, nós temos alguma coisa que valha a pena defender é a nossa cultura, os nossos poetas. Pese embora o que alguns dizem, nós temos uma das poesias mais originais de toda a Europa.
VT - Mas entre nós há uma certa tendência para o "deixa andar", não é?
MV - Pois é. Olha: na Rua da Conceição, em plena baixa lisboeta, há uma placa na casa onde nasceu o Mário de Sá-Carneiro que tem um número da data enganado. Eu sei, é uma coisa que não interessa nada: ele nasceu a 19 de Maio e está lá a dizer que foi a 10. Aparentemente não tem importância nenhuma…

VT - É uma questão de rigor.
MV - Claro. E não custa nada mudar a placa. Ainda por cima, no ano passado houve o centenário do Mário de Sá-Carneiro. Houve tanta conferência, tanto colóquio, tanta coisa e, afinal, ninguém ligou a um pormenor tão elementar. Ou o caso da casa do Fernando Pessoa em Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, onde filmei um dos programas. É uma casa que estava completamente destruída, a maior parte das pessoas nem sabia do que se tratava. "Ah, é a casa onde viveu um tempo o Fernando Pessoa", pensam. Mas não foi "um tempo", foram 20 e tal anos. É a casa onde ele criou o fundamental da sua obra e de onde só saiu para o Hospital de Saint Louis, três dias antes de morrer. É o verdadeiro mundo do Fernando Pessoa! Felizmente alguém dos serviços culturais da Câmara já conseguiu tornar aquilo património municipal, vai haver ali um museu sobre o poeta e o Orfeu. Mas, antes disso, era uma coisa patética: havia revistas pornográficas no chão e sinais de que era um sítio frequentado por pessoas que iam ali para se drogar ou fazer outro tipo de coisas. E saber-se que era a casa do nosso maior poeta depois de Camões… Ou o jazigo de Cesário Verde, que teria sido destruído, se a Câmara não tivesse agido a tempo… Até parece que estou a querer "engraxar" a Câmara Municipal de Lisboa, mas estas coisas têm que se dizer… [1]
VT - Entretanto gravaste um disco com a Manuela de Freitas.
MV - Foi. "Poemas de Bibe", produção da UPAV. É um dos discos que mais prazer me deu: eu e a Manuela, estilo paizinho e mãezinha, a lermos, muito calmamente, umas dezenas de pequenos poemas, que podem ser ouvidos por meninos e meninas, de preferência com menos de dez anos. Porque são poemas muito ingénuos, muito simples e que abrem janelas e portas aos miúdos, despertando-os para a poesia. E também tivemos a preocupação de pôr uma grande lista de poetas, para que aqueles nomes fiquem já nas cabeças das crianças. É um disco extremamente didáctico e agradável de ouvir, não só para crianças como para adultos. Muito calmo, muito sereno, está muito bem gravado. É o décimo terceiro disco que eu gravo, os outros estão todos esgotados, e é talvez aquele que mais gozo me deu fazer.
VT - Tu tens, normalmente, uma relação fácil com as crianças?
MV - Não, nem por isso. Nunca fiz teatro infantil, não tenho filhos… Não tenho assim uma relação muito íntima com elas…
VT - Mas lembro-me de um programa teu, "Peço a Palavra", feito com miúdos, que dava um pouco essa ideia…
MV - Foi um programa que me deu um prazer muito grande, uma experiência muito bonita e que me enriqueceu muito como actor. Mas, mesmo assim, não tenho uma grande experiência de trabalho com crianças. Não é que não goste de crianças, muito pelo contrário. Tenho muito respeito por elas e acho que não são atrasados mentais nem anões - isto sem querer ofender os anões, por quem tenho muito respeito. Até já trabalhei no teatro com um, o senhor Lúcio, que era uma pessoa extraordinária. Foi na peça "Baal", no Teatro do Mundo… Lembro-me até de ter dito, nessa altura, a um colega teu, que era urgente fazer-lhe uma entrevista, era um homem com imensas histórias para contar. Por exemplo, o modo como foi utilizado, pela propaganda oficial no tempo do fascismo: lembras-te daquela fotografia em que se vê o Salazar morto, na urna, com um anão e aquele gigante de Moçambique, que morreu há pouco tempo?
VT - O Gabriel Mondjane?MV - Esse mesmo. O anão da fotografia era o senhor Lúcio… A tal entrevista nunca foi feita, é mais uma das histórias que ficaram por contar…
VT - Ainda é vivo?
MV - Não, já faleceu. Morreu, salvo erro na Mitra, na miséria, completamente desconhecido…
VT - Tudo isso a propósito das crianças…
MV - Pois. Como eu estava a dizer, as crianças não são nem anões nem atrasados mentais em crescimento. Tenho um grande respeito pelas crianças, pela opinião delas e este disco não tem nada de paternalista. Não adianta pensarmos que as crianças não vão perceber, porque elas percebem muitíssimo bem e têm uma grande sensibilidade em relação à poesia. Eu tenho feito vários recitais que os miúdos ouvem e de que gostam muito. Aquelas imagens que, às vezes, para nós são misteriosas, para eles não têm mistério absolutamente nenhum. E mesmo que tenham, como dizia um grande criador, fica um "buraquinho negro" na cabeça delas e, se calhar, anos mais tarde, o "vírus" da poesia vai-se despoletar: "Ah, afinal o que aquele tipo quis dizer, quando eu tinha dez anos, era isto…" É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes, percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada dele e só tendo lido algumas "caganças" sobre o assunto.
VT - Recentemente fizeste regressar o "Bucha e Estica". Qual é o público que reage melhor a esse espectáculo?
MV - É o público que ronda os setenta anos. Porque o Laurel e o Hardy eram os heróis da infância deles. E os miúdos. Nós temos aqui ao sábado e ao domingo, um espectáculo com a Maria Vieira contando histórias, fazendo jogos, lendo poemas e convidando vários artistas. Cada semana é diferente. É um cantinho dela, em que dá largas à sua imaginação e ao seu talento junto dos miúdos e que está a resultar muito bem. Chama-se mesmo "O Cantinho de Maria", mas esteve para se chamar "Simplesmente Maria"…
VT - E a Carmen Dolores, como é que ela aparece na Companhia Teatral do Chiado?
MV - Eu estreei-me como encenador num espectáculo chamado "Confissões numa Esplanada de Verão", que era constituído por quatro peças em um acto: uma de Strindberg, outra de Tchekov, outra de Pirandelo e outra de Beckett. E nessa altura convidei a Carmen para fazer a do Strindberg, um monólogo de vinte e tal minutos chamado "A Mais Forte". Ela aceitou imediatamente e eu fiquei-lhe sempre muito grato. Depois trabalhámos juntos no filme do Zé Fonseca, "A Mulher do Próximo", dei-me sempre muito bem com ela. Agora convidei-a outra vez. A razão é simples: por um lado, pela grande amizade que tenho por ela, pelo seu grande talento. E também porque a Carmen é muito mandriona, estava há dois anos e tal sem fazer teatro e acho que não tem o direito de fazer isso. Também lhe faltava ainda representar um autor como o Beckett e ficou fascinada pelo texto. Chama-se "Balanceado", é muito bonito, com tradução do Luís Francisco Rebello. É uma peça pré-gravada, que vive muito da voz. E a voz da Carmen é uma voz milagrosa, em que acontecem várias coisas, tanto mais que ela fez teatro radiofónico durante muitos anos.
VT - Depois de todos estes anos a fazer teatro, o balanço tem mais recordações boas ou más?
MV - A maioria são boas. Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei principalmente fora de Lisboa,
por norma as menos publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo antes do 25 de Abril. "O Manifesto Anti-Dantas", do Almada Negreiros, "0 Operário em Construção", do Vinícius de Moraes… Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis. E tive a oportunidade, graças ao meu trabalho como divulgador de poesia e recitador, de contactar com milhares e milhares de pessoas por todo o País e de ter convivido, de ter acompanhado, de ter crescido como cidadão e como artista com as pessoas da nova música portuguesa, como são os casos do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Carlos Paredes. Foi, para mim, uma experiência extraordinária. Paralelamente, tinha uma carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por causa da censura. Aí, no teatro, não me sentirei tão realizado. Porque, evidentemente, estando integrado numa companhia, mesmo que essa companhia seja dirigida por mim, é muito mais difícil fazer tantas digressões e contactar com o público tão facilmente como numa colectividade de recreio ou numa escola. Mas todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro ou à recitação de poesia.
VT - Uma vez, numa entrevista, definiste-te como "um anarquista de esquerda". Essa "loucura" de que falas não tem nada de premeditado?
MV - Não. Nem é loucura nenhuma. Vim para Lisboa com 17 anos e, nessa altura, em vez de me dedicar ao futebol ou a outra coisa qualquer, comecei a interessar-me pela política. E fiz da política, do antifascismo e dos movimentos contra a guerra colonial e o regime, uma grande bandeira. E tinha as minhas referências: o Zeca, pelo seu comportamento, era e continua a ser uma referência fundamental para mim. Outra era a Maria Barroso. Lembro-me que a vi actuar pela primeira vez em Alpiarça, localidade que era um grande baluarte do Partido Comunista Português e da Oposição, antes do 25 de Abril. Nunca mais me esqueço que as duas primeiras filas da plateia estavam ocupadas por agentes da PIDE e da GNR. Eu também queria fazer aquelas coisas todas. E fiquei com o mito da Maria Barroso, que era uma mulher que, de facto, dizia muito bem e que empolgava as pessoas.

(À medida que fala, Mário Viegas vai desfiando memórias, lembranças de outro tempo que é também o seu tempo, encantos perdidos e achados, desencantos e anedotas de si mesmo. Um nome, uma imagem, um episódio perdido algures no tempo. Histórias sempre com gente, muita gente, toda a gente.)

MV - Há dias descobri uma carta que escrevi aos meus pais, quando vim para Lisboa, e onde Ihes dava muitos pormenores sobre o que fazia, aquilo que via, as coisas que me aconteciam. E uma das que lá conto tem a ver com uma festa da Associação de Estudantes de Medicina que acabou com uma intervenção violenta da polícia de choque e onde eu tinha ido recitar uns poemas. Ninguém sabia quem eu era, mas estavam lá, lembro-me perfeitamente, o Sinde Filipe, de quem mais tarde me tornei muito amigo, o Carlos Paredes e a Maria Barroso, que foi ali dizer vários poemas. Disse um de que me lembro muito bem, chamado "Liberdade" de um velho poeta comunista, o Armindo Rodrigues. Isso impressionou-me tanto que, no primeiro disco que gravei, o primeiro poema da face A é exactamente o poema "Homem Abre os Olhos e Verás" do Armindo Rodrigues. E eu, na carta aos meus pais, lá mandava dizer que a Maria Barroso era "uma mulher extraordinária, casada com o grande poeta Mário Dionísio"… Estás a ver a minha ingenuidade da altura! Um dia destes vou-lhe enviar uma fotocópia dessa carta (já passaram as eleições, não é nenhuma "engraxadela"), que demonstra até que ponto ela foi para mim uma referência muito grande. E eu pus sempre esses valores à frente, antes e depois do 25 de Abril. Tanto que, quando eu fiz a tropa… Eu fui posto à força na tropa em 1971, e foi uma coisa, essa sim, que marcou muito a minha vida pessoal e a minha vida artística, porque estive três anos sem poder fazer teatro nem actuar em público, apesar de actuar às escondidas…
VT - E aprendeste alguma coisa na tropa?MV - Hmm… Sim… Quer dizer: agora, com 42 anos, a gente começa a ver à distância e tem é saudades de não ter 22 anos, que era a minha idade quando fui para Mafra. Mas sim, aprendi alguma coisa. Do mal também nasce o bem… Pelo menos deu-me uma certa energia e uma certa disciplina que, afinal, eu tenho - porque se não fosse assim eu não aguentava estar a fazer quatro peças ao mesmo tempo. Mas, pronto, aprendi algumas coisas. Não sou cem por cento anti-militarista. Sem falar, claro, daquela estupidez da hierarquia militar. O que eu te quero dizer é isto: hoje em dia, entre a malta mais nova, não há estes "grandes mestres" que teve a geração que tem agora 40 anos: o Zeca, o poeta Raul de Carvalho, o José Gomes Ferreira, o mestre Almada, que eu não tive a honra de conhecer, o Zé Carlos Ary dos Santos, com quem tanto convivi, nas suas loucuras, nas bebedeiras e tudo isso… São pessoas que eram referências, eram mitos que, hoje, a malta mais nova não tem…
VT - Isso talvez tenha a ver com a queda dos mitos que se verifica um pouco por toda a parte…MV - Sim. Mas olha que talvez não seja bom. Isso de se dizer que os jovens estão muito mais libertos… Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é aquela coisa ultrapassada e passadista, "lá vêm os quarentões, lá vêm os anos 60". De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem, era com um objectivo "anarqueirante", era contra o regime, tudo isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17 anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. Eu, por exemplo, passei o 25 de Abril na tropa, fui um militar do MFA, e até acabei por "meter o chico" por mais seis meses, uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça… Se calhar está a nascer uma nova ideologia, que é a ideologia do vazio, da despolitização absoluta, da falta de respeito pelas pessoas que criaram coisas. E é isso que leva a que muitos jovens não tenham respeito por nada. A verdade é que tenho ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões sabem quem é…
VT - Começa a haver uma falta de memória preocupante, é isso?
MV - Sim. Mas olha que não estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações de "A Birra do Morto", quarenta por cento dos bilhetes que vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à "onda" de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia, tal como há no "Mário Gin Tónico", e que passa por brincar com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez chegaram a sê-lo) , isso não me interessa nada…

NOTA[1] A casa a que se refere Mário Viegas foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa durante a presidência de Jorge Sampaio, por iniciativa do então vereador da Cultura, João Soares, dando origem ao museu-biblioteca Casa de Femando Pessoa, inaugurada em 1993. O jazigo de Cesário Verde foi restaurado durante o mesmo mandato camarário.

quarta-feira, novembro 23, 2005

(Isabel de Castro com Mário Viegas em "O Rei das Berlengas")

"Morreu a actriz Isabel de Castro

A actriz Isabel de Castro morreu hoje em Borba, Évora, aos 74 anos, vítima de doença prolongada. Isabel de Castro participou em dezenas de filmes e peças de teatro. Passou também pela televisão, numa carreira com mais de 60 anos.
( 15:28 / 23 de Novembro 05 )

O funeral da actriz Isabel de Castro, está marcado para quinta-feira no cemitério local.
O mais recente trabalho de Isabel de Castro, que teve os seus primeiros êxitos no cinema nomeadamente em Espanha, foi na telenovela "Anjo Selvagem" exibida na TVI.
Isabel Maria Bastos Osório de Oliveira estreou-se aos 14 anos no filme "Ladrão precisa-se", de Jorge do Canto. Com o diploma do Conservatório Nacional vai para Espanha onde, durante meia dúzia de anos, trabalha regulamente no cinema espanhol.
De regresso a Portugal realizou inúmeros trabalhos de cinema, teatro e televisão. Recentemente, trabalhou com companhias mais experimentais como os Artistas Unidos e o Teatro da Garagem.
Ouvido pela TSF, o encenador Carlos Avilez, destaca a beleza e o talento e Isabel de castro. «A Isabel era uma actriz maravilhosa, uma mulher sensacional. Estava sempre presente nos momentos difíceis dos colegas. Além disso era linda», salienta o encenador." - TSF
FILMOGRAFIA PORTUGUESA
Ladrão, Precisa-se!... (1946)
Fogo! (1949)
Heróis do Mar (1949)
O Dinheiro dos Pobres (1956)
As Pupilas do Senhor Reitor (1961)
Sexta-Feira, 13 (1962)
Fado Corrido (1964)
Domingo à Tarde (1966)
O Destino Marca a Hora (1970)
Brandos Costumes (1975)
O Rei das Berlengas (1978)
Passagem - Ou a Meio Caminho (1980)
Francisca (1981)
Conversa Acabada (1982)
Sem Sombra de Pecado (1983)
Jogo de Mão (1984)
Um Adeus Português (1985)
O Desejado ou As Montanhas da Lua (1987)
Mensagem (1988)
Tempos Difíceis (1988)
Três Menos Eu (1988)
Uma Pedra no Bolso (1988)
A Sétima Letra (1989)
A Lição de Inglês (1990)
O Sangue (1991)
Vertigem (1991)
Xavier (1992)
Aqui Na Terra (1993)
Chá Forte Com Limão (1993)
O Miradouro da Lua (1993)
Vale Abraão (1993)
Três Palmeiras (1994)
Casa de Lava (1995)
Viagem ao Princípio do Mundo (1997)
A Testemunha (1998)
Desvio (1996)
Jerónimo (1998)
Tráfico (1998)
Uma Voz na Noite (1998)
A Sombra de Cain (1999)
Glória (1999)
Ilhéu de Contenda (1999)
O Anjo da Guarda (1999)
Quando Troveja (1999)
Amo-te, Teresa (2000)
O Fato (2000)
Henrique (2001)
A Dupla Viagem (2002)
FILMOGRAFIA ESPANHOLA

terça-feira, abril 05, 2005

O que se disse na Assembleia da República aquando do falecimento de Mário Viegas

Srs. Deputados, ontem foi um dia em que Portugal sofreu duas rudes perdas, pois perdemos ainda o grande actor, declamador e encenador Mário Viegas.
A Mesa tomou também a iniciativa de submeter à apreciação e votação dos Srs. Deputados o voto n.º 22/VII – De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
O voto é do seguinte teor.
Morreu Mário Viegas. Encenador, actor e declamador de raro talento, deixa vago um lugar de difícil preenchimento no teatro declamado.
Foi, além disso, um raro exemplo de humor inteligente. Interiorizou a poesia como poucos. Fez da sua própria vida um poema de combate por ideias. No teatro, no cinema, na declamação e nos projectos que animou, foi sempre um grande artista, um homem de cultura, uma voz de intervenção incomodada e crítica.
A Assembleia da República deplora a perda de um talentoso português e endereça à família de Mário Viegas a sincera expressão do seu pesar.
Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado José Niza.
O Sr. José Niza (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Mário Viegas, como acabou de ser dito, foi um grande actor, um grande encenador, um grande divulgador de poesia, um grande diseur, aliás, o maior divulgador de poesia que conheci em Portugal desde sempre milhares de horas a dizer poesia e os melhores poetas. Mas Mário Viegas foi também um homem digno e um grande amigo pessoal.
Mário Viegas, desde os 16 anos, e morreu com 47, esteve sempre debaixo dos holofotes e das luzes dos palcos. Estreou-se em Santarém, no Teatro Rosa Damasceno, com 16 anos, a dizer poesia de Alexandre O'Neill e de outros poetas e, a partir daí, nunca mais parou. Estreou-se profissionalmente no Teatro Experimental de Cascais, em 1970, e terminou na sua própria companhia, a Companhia do Chiado, que fundou há alguns anos.
Foi, pois, um homem que atravessou todo o firmamento dos palcos, dos textos e das grandes obras, de uma versatilidade extraordinária, grande humorista, grande actor satírico, mas também actor das grandes obras e dos grandes textos do teatro.
Virando a página do teatro, mudemos para a televisão. Não foi por acaso que, ontem à noite, todo o País conheceu e se entristeceu com a morte de Mário Viegas. Na televisão, deixou uma obra só comparável à de João Villaret. Recordo que Mário Viegas, antes do 25 de Abril, fez alguns programas recreativos, mas onde sempre dizia poesia e textos satíricos. Logo a seguir ao 25 de Abril, fez um programa histórico, chamado "Peço a palavra", dirigido a crianças, que era um Parlamento um pouco como aquele em que estamos, faccionado por ele para ensinar às crianças portuguesas os valores da democracia. Posteriormente, e tive a honra de o convidar para fazer esse programa, quando estive na televisão, colaborou numa célebre série chamada "Palavras Ditas", depois complementada com "Palavras Vivas". Recordo que, nessa altura, ainda havia televisão em Portugal, pois tivemos a coragem de passar o Mário Viegas aos sábados à noite, a seguir ao Telejornal, a dizer poesia, e a audiência não baixou. Espantosamente, e esse era o receio dos responsáveis, a audiência não baixou pelo facto de Mário Viegas aos sábados à noite, dizer poesia como ele a dizia.
Mas voltemos a página para a rádio. Foi aqui que Mário Viegas, durante longuíssimos anos, disse praticamente toda a poesia portuguesa de mérito, aquela que havia a dizer, e todos se recordam disso.
Mas há mais páginas, como a página do cinema. Recordo o sucesso que foi, por exemplo, um filme que fez com o Fonseca e Costa, Kilas, o mau da fita. Mas ainda ontem à noite, no trailer de apresentação do filme Aferroa Pereira, talvez alguém tenha visto Mário Viegas a contracenar com o célebre italiano Marcello Mastroianni, que era um actor do seu plano, só que Mário Viegas, sendo português, não conseguiu chegar a Hollywood.
Mas não se acaba aqui a intervenção cultural de Mário Viegas. E aqui iniciámos um caminho juntos, que é o dos discos, o dos 13 discos que Mário Viegas deixou gravados.
Só um desses discos se encontra editado em CD, mas, porque, hoje, o que não é CD não é ouvido, vou pedir à editora que adite em CD toda a obra de Mário Viegas. São 13 discos, produzi muitos deles, fiz música para muitos deles, porque ele aceitou que a música também fazia paute da poesia e as duas casavam-se para conseguir, digamos, um melhor resultado e melhoras climas. E lembro, por exemplo, outro meu amigo já falecido, Vinícius de Morais, a quem ofereci o disco de Mário Viegas, dizendo um poema dele sobre o Trópico de Câncer, que ficou completamente terrificado com o modo como Mário Viegas o disse, porque é um poema sobre o cancro.
Mas talvez o ponto máximo de Mário Viegas a dizer poesia tenha sido a Cena do ódio, totalmente actual, de José de Almada Negreiros.
Findas estas páginas, gostaria de falar um pouco do homem, do amigo que conheci.
Mário Viegas nasceu em Santarém e morava a 100 metros da minha casa. Quando tinha 17 anos e fui para a faculdade, tinha ele 7 e entrou para a escola. Nessas idades, 10 anos de diferença é muito tempo. Mário Viegas ia a minha casa, de calções, para a minha mãe lhe dar aulas de catequese – não serviram praticamente para nada, embora a minha mãe se tenha esforçado, mas o Mário Viegas também aprendeu alguns valores nesses momentos.
Desde essa data até hoje, fui amigo de Mário Viegas. Recordo, antes do 25 de Abril, a acção que ele teve, percorrendo o Pais, dizendo poesia, num grupo constituído por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes e outros. Percorreram todo o Pais, dizendo poesia, antes do 25 de Abril. Por isso, há pouco, à salda do funeral do Mosteiro dos Jerónimos, disse o seguinte ao pai de Mário Viegas: o funeral do Mário Viegas é no dia 2 de Abril, data em que se comemoram os 20 anos da Constituição portuguesa, e o Mário Viegas, não sendo constituinte, acabou por contribuir para que essa Constituição fosse feita aqui, nesta Sala, e trouxesse a democracia a Portugal. Penso que se trata de uma data que ele teria escolhido, mas não o pôde fazer.
Aplausos do PS.
1712 I SÉRIE – NÚMERO 54
O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Ruben de Carvalho.
O Sr. Ruben Carvalho (PCP): - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados: A perda de um grande artista é sempre uma perda para um país e para um povo, o que amplamente justifica que esta Assembleia exprima o seu pesar pelo desaparecimento de Mário Viegas.
A essa condição de grande homem de teatro, Mário Viegas juntava muitas outras que igualmente justificam este nosso voto de pesar, nomeadamente o seu empenhamento cívico, o seu apego aos valores da liberdade, da solidariedade e da democracia.
Finalmente, Sr. Presidente e Srs. Deputado, Mário Viegas era, como artista e como cidadão, um homem livre, um homem convicto e lúcido, um homem firmemente disposto a viver a vida, simultaneamente céptico e entusiasta, contundentemente irónico e sarcástico e estimulantemente crítico e realizador.
A estas horas, possivelmente, estará algures, com a sua devastadora ironia e o seu imenso talento, perante uma audiência de anjos, a desempenhar uma sátira sobre esta sessão no Parlamento em que o recordamos e o seu público continuará a dizer o que sempre dissemos e continuaremos a dizer. Que grande artista!
Aplausos do PCP.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Vieira de Castro.
O Sr. Vieira de Castro (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Grupo Parlamentar do PSD associa-se a esta homenagem que o Parlamento presta à memória de Mário Viegas, um homem de quem não é certamente fácil falar porque isso acabaria por traduzir-se em repetir elogios atrás de elogios, tal era o seu talento.
Também não é fácil falar de Mário Viegas porque, na minha opinião, ele era um homem diferente dos homens comuns. Todos lhe reconhecemos a sua extraordinária capacidade artística no âmbito do teatro, do cinema e da poesia e, para Portugal, sempre que ocorre o desaparecimento de um artista, seja qual for a área em que se situe, representa sempre uma grande perda, uma perda maior porque, infelizmente, somos bem carecidos de homens e mulheres das artes. O desaparecimento de Mário Viegas constitui por isso uma grande perda, mas diria que é uma perda acrescida exactamente porque, infelizmente para todos nós, poucos portugueses têm o talento que Mário Viegas tinha. Paz à sua alma!
Aplausos do PSD.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis.
O Sr. Nuno Abecasis (CDS-PP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É um triste privilégio, numa mesma tarde, ter ocasião de prestar homenagem a dois amigos, Alfredo Nobre da Costa e Mário Viegas.
Mário Viegas era muito mais novo do que eu e conheci-o através de um amigo comum, também ele um grande humorista e um grande português, Samuel Torres de Carvalho, o saudoso Sam, de quem Mário Viegas interpretou as historiazinhas de televisão, tão carregadas de humor e sentido crítico.
Tive também o privilégio de, com o Sam e com o Mário Viegas, assistir à planificação dessas pequenas obras primas da nossa televisão e ver o entusiasmo que Mário Viegas punha nas coisas que fazia e com que imaginou outras que não chegou a fazer, como é o caso de passar a televisão a história do Guarda Ricardo, que ele – e a Maria do Céu Guerra, que iria fazer de Heloísa – viveu com grande entusiasmo, alegria, espírito crítico e humor efervescente.
Mário Viegas, pelo seu génio, tinha o privilégio de poder dizer coisas que outros não podiam dizer e todos lhe desculpavam a irreverência. Curiosamente, hoje de manhã, no Mosteiro dos Jerónimos, pensava o que teria a ver aquilo a que estava a assistir com o que tinha sido o homem Mário Viegas. De repente, lembrei-me que o que é importante para um homem é atingir, tanto quanto possível, a perfeição, ainda que seja no espírito crítico e no humor, porque também isso é um dom de Deus. E queria dizer ao meu amigo José Niza que a mãe dele não perdeu tempo.
O Sr. Presidente: - Vamos votar o voto n.º 22/VII - De pesar pelo falecimento do actor Mário Viegas.
Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade, registando-se a ausência de Os Verdes.
Em sua memória, vamos guardar um minuto de silêncio.
A Câmara guardou, de pé, um minuto de silêncio.

segunda-feira, abril 04, 2005

Mário Viegas


Mário Viegas

Recordar Mário Viegas

A Um de Abril de 1996 Mário Viegas deixava-nos. Como memória deixo aqui o artigo escrito por Jorge Leitão Ramos no jornal "O Expresso", de Cinco de Abril de 1996.
"Quando eu morrer batam em latas", poderia ter dito, parafraseando um dos poetas que tanto amou, incitando-nos a não confundir a dor com tarefa de carpideira, a perda com necessidade de panegírico. Por mim não resisti, diante do seu féretro exposto nos Jerónimos, a lembrar-me de A Birra do Morto, de Vicente Sanches, com que inaugurou a sua Companhia Teatral do Chiado, em 1990, na Sala-Estúdio do Teatro São Luiz que agora tem o nome de Mário Viegas. Era o mesmo ambiente, as cadeiras, as pessoas em volta, a voz baixa, o cheiro morno a flores - quase que esperei que ele se levantasse, quebrando o frio do espaço e o queixume, quebrando a solidão em cada um de nós ali se encontrava, galhofando no nariz da morte, em passe de mágica, momento de teatro. Mar, por uma vez, pela última vez, a surpresa foi diversa. A voz de Mário Viegas calou-se, ficou um silêncio muito grande e não se vê quem o preencha.
Viveu muito e muito intensamente, com uma urgência sem medida. Foi actor, encenador, empresário, declamador, escreveu crónicas, traduziu peças de teatro, divulgou poetas, gravou discos, fez rádio, cinema e televisão - e sorveu a vida, em todas as direcções, às golfadas. Grandes amigos, grandes ódios, grandes sonhos. Podia ser "cabotiníssimo", como ele próprio disse do livro informe e impetuoso com que se despediu de nós em Novembro, essa Auto-Photo Biografia (não autorizada) em Formato A3, em que, "para bons entendedores", foi dando a saber que estava de partida. Um objecto comovente: terminava com uma enorme fotografia do actor, alucinado, junto a um caixão (da peça O Suicidário) e um verso terrível de Camilo Pessanha lá por cima ("Eu vi a luz em um país perdido./ A minha alma é lânguida e inerme./ Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme").
Excessivo, colérico, apaixonado, violento e doce, actor aceso pela graça da transfiguração, pelo riso que nos divertia e desinquietava, Mário Viegas era um personagem contraditório. Nenhum outro desafiou, do cimo de um palco, os poderes e os podres, as prepotências e as hipocrisias. Mas gostava de saber que o poder reconhecia a sua arte. Não adianta dizer, agora que morreu, que era uma figura consensual da cena e do cinema portugueses - porque não era. Dividiu muito, fustigou e foi fustigado, não sabia fazer as coisas em temperatura morna, em registo de assim-assim. Há 20 anos, quando o ouvi dizer, pela primeira vez, o Manifesto Anti-Dantas numa festa do teatro em luta (na FIL), estava David Mourão-Ferreira na SEC, percebi que era um adversário temível para quem quer que se sentasse na cadeira do poder. E o seu espectáculo a solo Europa Não! Portugal Nunca!, em 1994/95, em registo de conferência de imprensa de pré-pré-candidatura à Presidência da República, tinha uma fúria de iluminado, a corrosão de uma coragem sem limites, a louca a tocante fragilidade da auto-exposição, tudo caldeado em textos das mais diversas fontes que nos faziam ir do riso absoluto à dor de alma, porque era de nós todos e de si mesmo que falava.
Não me apetece, incréu de que nunca mais ouça a sua voz ao telefone convocando-me para a estreia de uma nova peça no teatrinho do Chiado, escrever hoje a sua ficha definitiva de dicionário. Não o vou escrever afora. Mas logo no dia da sua morte ouvi dizer nas rádios e televisões que Mário Viegas tinha 47, 48 e 49 anos, que se estreara no Teatro Experimental do Porto, que se candidatara várias vezes a Presidente da República - e esses disparates factuais tê-lo-iam posto ao rubro, e com razão. Um homem, quando morre, tem pelo menos direito a evocação biográfica que esteja certa. Do que de mais peculiar Viegas tinha como actor - e de que foram marcos os espectáculos que fez a solo, Mário Gin-Tónico (1986), Mário Gin-Tónico Volta a Atacar (1991), Tótó (1991) e Europa Não! Portugal Nunca! (1994) - não é possível saber algo, senão por ouvir dizer. Viviam daquilo que o teatro tem de mais específico, a directa circulação de energia entre o palco e o público, construindo-se num jogo de vaivém que os fazia diferentes a cada dia, a cada representação, jogo de risco de que o último daqueles títulos (um ano em cena!) era a expressão mais estremada porque quase inteiramente dependente da própria intervenção dos espectadores questionando o "candidato". Dia em que o público não estivesse para aí virado, era dia em que o espectáculo fenecia. De maneira que esse Viegas, actor de grandes cometimentos na corda bamba, só existirá enquando nos lembrarmos do que o vimos fazer. É esse o destino do teatro, em geral, mas muito especificamente daquele que Viegas praticou com mais singularidade.
Do outro actor, capaz de composições em registos vários, sobrarão os testemunhos do cimena - e, felizmente, Mário Viegas fez muitos filmes e, melhor ainda, filmes onde ficou presente a extrema diversidade de recursos que tinha e até os seus maiores defeitos e qualidades. A filmografia de Viegas é significativa, caso muito raro no panorama português.
Se houvesse que escolher, pôr-se-ia à cabeça um dos primeiros filmes em que participou, esse O Rei das Berlengas, de Artur Semedo (1975/76), onde atravessava em sátira desmedida toda a História de Portugal. Aí encontramos aquilo que se poderia chamar um actor-diamante em estado bruto, sem lapidação, indirigido. O cómico do esgar facial e da truculência, do excesso turbulento e sem margens, autocomplacente, capaz de provocar a gargalhada de primeiro grau e mal se podendo saber se distingue entre o devido e o mau gosto. Mas também se encontra o actor capaz de fazer fundir o estado de riso e o patético - numa linha que muito poucos são capazes de pisar - juntando o humor e o aperto no coração, em particular nas espontosas sequências em que o proclamado rei das Berlengas é entrevistado no hospício e descobre que o que o povo lhe gritara e aos seus antepassados, durante oito séculos, não era "come!, come!, come!), mas "fome!, fome!, fome!".
Veio, depois, José Fonseca e Costa, o cineasta essencial da carreira de Mário Viegas, aquele que lhe permitiu não apenas alguns êxitos históricos - como Kilas, o Mau da Fita (1977/79) e Sem Sombra de Pecado (1982) - mas também o que provocou que o actor controlasse e diversificasse os seus recursos. Fonseca e Costa nunca lhe pediu uma comicidade de primeiro grau, nunca quis despertar nele um registo de farsa, antes o sorriso que podia ser menos ou mais subtil, mas se ancorava as mais das vezes em detalhes. E, melhor do que tudo, entregou-lhe a figuração do português total, a que o actor correspondeu. Foi o pequeno manguelas lisboeta, muita parra pouca uva, no Kilas; foi um rapaz da alta burguesia, imberbe e crédulo, nas malhas tecidas pelo líbido de uma mulher em Sem Sombra de Pecado - talvez o seu grande desempenho cinematográfico. Foi caricatura de intelectual castrado em A Mulher do Próximo. Foi professoral e pomposo - vazio, vazio - em Os Cornos de Cronos.
Viegas era um actor tendencialmente calhado para a comédia (não por acaso, foi o género que estatisticamente mais praticou no teatro - e aquele a que se dedicou, quase em exclusivo, quando dirigiu, nos últimos cinco anos, a Companhia Teatral do Chiado). Mas nunca quis ficar preso a essa faceta. No teatro é possível lembrá-lo a fazer Brecht (Baal, em 1984, no Teatro Aberto, sob a direcção de João Lourenço) ou a notável criação de Na Solidão dos Campos de Algodão, de Bernard-Marie Koltès, encenação de João Lourenço no Teatro Aberto em Abril de 1990. Mas o cinema vai guardar essa vertente do actor, no ainda por estrear Rosa Negra, de Margarida Gil, na figura de um vagabundo sem-abrigo verdadeiramente singular. Havia ainda o actor-boneco, o actor-roberto, o que se despojava de psicologia para ser apenas ícone marionético, máscara, personagem de "cartoon": a série de 48 Filmezinhos de Sam que gravou para a RTP, em 1988, são disso testemunho.
E vão ficar os discos de poesia, infelizmente há muito esgotados e não reeditados, no que é uma injustiça profunda para com o grande divulgador de poetas que Viegas também o foi. Aí ficará guardada memória da multiplicidade de coisas que ele era capaz de fazer apenas com a voz. E não teriam sido precisos todos os discos para o saber: logo no segundo - Palavras Ditas, de 1972 - Viegas como que estabelece um catálogo de modulações, do lírico ao humor, da gravidade trágica à caricatura. É nesse disco que, quase em estilo de demonstração de que a voz é tudo, ele lê o boletim meteorológico como se estivesse a invocar um presságio funesto. O resultado é espantoso. De poesia perdurará, ainda, nos arquivos da RTP, pelo menos a série Palavras Vivas, que Nuno Teixeira dirigiu em 1984.
O resto, o teatro, esfuma-se devagar enquanto a nossa memória se apaga com o correr dos dias. A última vez que o vi representar no palco foi em Outubro, quando estreou aquela que viria a ser a sua última peça, quer como actor quer como encenador (Uma Comédia às Escuras, de Peter Shaffer). Depois disso vi-o representar na vida o papel de um homem ainda pronto para todos os combates, enquanto se ia despedindo, codificadamente, de cada um de nós.
Agora foi-se embora de vez, era 1 de Abril. Parece impossível.
Escrevi um dia acerca de Mário Viegas que era um declamador genial e um actor de grande talento. Não percebia eu então que dizer poesia era nele ainda um mode de ser Actor. Aqui o deixo dito, com maiúscula, como ele gostava. E acho que devemos, pelo menos, beber um copo em sua honra."