Poesia, musica, celebridades, teatro, cinema, selecção de textos, poetas e escritores, banalidades, fotografias, arte, literatura, pintura e muita conversa.
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
A Concordata de Salazar, de Rita Almeida de Carvalho
quinta-feira, janeiro 24, 2013
Casa e Mudança Social - Uma leitura das transformações da sociedade portuguesa a partir da casa, de Sandra Marques Pereira
A obra foi carinhosamente apresentada pela Dra. Isabel Guerra, que salientou os aspectos inovadores e centrais do trabalho realizado pela autora e que torna este livro de leitura obrigatória, como atestam os prémios IRHU 2011 e André Jordan 2012.
A sessão de lançamento terminou com um emotivo discurso da autora.
Uma vez mais: MUITOS PARABÉNS
Assim, as análises e conclusões apresentadas interessam não só a um grupo grande e diversificado de estudiosos - sociólogos, arquitetos, antropólogos, etc., mas também a grupos de empresários e técnicos intervenientes no mercado imobiliário atentos às mudanças sociais e à diversidade de grupos e de expectativas.
quarta-feira, janeiro 09, 2013
Casa e Mudança Social
sábado, junho 09, 2012
Thomas Mann - O Jovem José
terça-feira, dezembro 06, 2011
O Cavaleiro da Dinamarca
Então a treva encheu-se de pequenos pontos brilhantes, avermelhados e vivos.
Eram os olhos dos lobos.
Cavaleiro ouvia-os moverem-se em leves passos sobre a neve, sentia a sua respiração ardente e ansiosa, adivinhava o branco cruel dos seus dentes agudos.
Em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
E ao som destas palavras os olhos recuaram e desapareceram.
Mais adiante ouviu-se o ronco dum urso.
O Cavaleiro estacou a sua montada e a fera aproximou-se. Vinha de pé e pousou as patas da frente no pescoço do cavalo.
O homem ouviu-o respirar, sentiu o seu pêlo tocar-lhe a mão e viu a um palmo de si o brilho dos pequenos olhos ferozes.
E em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
Então o bicho recuou pesadamente e grunhindo desapareceu.
E o Cavaleiro entre silêncio e treva continuou a caminhar para a frente.
Caminhava ao acaso, levado por pura esperança, pois nada via e nada ouvia. As ramagens roçavam-lhe a cara e caminhava sem norte e sem oriente.
O cavalo enterrava-se na neve e avançava muito devagar. Até que de repente parou. O homem tocou-o com as esporas mas ele continuou imóvel e hirto.
— Vou morrer esta noite — pensou o Cavaleiro —.
Então lembrou-se da grande noite azul de Jerusalém toda bordada de constelações. E lembrou-se de Baltasar, Gaspar e Melchior, que tinham lido no céu o seu caminho. O céu aqui era escuro, velado, pesado de silêncio. Nele não se ouvia nenhuma voz nem se via nenhum sinal. Mas foi em frente desse céu fechado e mudo que o Cavaleiro rezou.
Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.
— Deus seja bendito — murmurou o Cavaleiro —. Deve ser uma fogueira. Deve ser algum lenhador perdido como eu que acendeu uma fogueira. A minha reza foi ouvida. Junto dum lume e ao lado de outro homem poderei esperar pelo nascer do dia.
O cavalo relinchou. Também ele tinha visto a luz. E reunindo as suas forças, o homem e o animal recomeçaram a avançar.
A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma dum cone.
Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
— Que maravilhosa fogueira — pensou o Cavaleiro —.
Nunca vi fogueira tão bela.
Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes. Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.
Esta história, levada de boca em boca, correu os países do Norte. E é por isso que na noite de Natal se iluminam os pinheiros."
Assim termina o livro O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen... o livro da minha vida.
domingo, julho 24, 2011
As Alsácias da Revolução, por Vera Lagoa
segunda-feira, abril 25, 2011
Vera Lagoa - Uma das "Crónicas do Tempo" - "Fizeste bem, Rogério Paulo"
Fizeste bem, Rogério Paulo
Confesso, Rogério, que ao ter conhecimento de que tinhas recusado a ser entrevistado para este jornal, fiquei surpreendida. Recusado, porquê? Pensei maduramente e, por fim, compreendi. Não podias fazer outra coisa.
Sim, porque um homem justo, honesto, recto, sincero como tu, ao ser entrevistado, teria de dizer a verdade. Toda a verdade. Não podia ser de outra maneira. E a verdade, Rogério, como a poderias tu dizer? Foi melhor assim. Praticamente passaste-me a palavra. Porque há coisas, que, como sabes, como imaginas, eu tenho há longos anos para dizer.
Tenho também a mania dos apartes. E por isso julgo vir a propósito contar que tenciono, nas minhas horas vagas, escrever um livro a que darei o título: “Revolucionários que conheci”. Dizem-me os que também conheceram esses revolucionários, que será um “best-seller”. Oxalá. Mas ainda não lá cheguei.
Pois, como ia dizendo, na altura em que estávamos todos contra o fascismo, em que todos éramos vítimas, não podíamos andar para aqui a dizer o que sabíamos uns dos outros. Seriam armas a fornecer ao inimigo. Mas agora, não. Agora o fascismo está dum lado, tu doutro, e eu, ainda, doutro. Estou do lado que não recebe protecções, ordenados acumulados, gasolina a 8$00 e as palmas por ter sido uma lutadora antifascista. Assim, achei de minha obrigação, visto que por ti, dada a tua honestidade e isenção, não te sentirias à vontade para contar a tua vida, fazê-lo eu. Por isso digo que “fizeste bem, Rogério”.
E aqui vai. Não. Não seria eu a entrevistar-te. Mas ia ensinar o entrevistador a perguntar-te, por exemplo, à custa de quantas mulheres subiste tu na vida. Sim. Ora deixa-me pensar, para eu responder ao entrevistador. Terias começado pela Magê, com quem foste ao baile de Cascais? Talvez. Foi nessa altura que começou a dar nas vistas o amparo, o apoio, que procuravas junto das mulheres. E a dar nas vistas a necessidade urgente que tinhas em te casar. Porque se murmurava que as pessoas que estavam no baile de Cascais tinham certos hábitos. O que contigo, não era verdade. Não era, mas para evitar rumores, casaste com a Suzana Prado. Ela foi leal. Ela foi a mulher que dá a cara e salva um amigo. Ela advertiu-te. Que sim, que te ajudava, mas que continuava a sua ligação como Oliveira Martinho. Aceitaste. Sempre eram umas coroas que vinham para ti.
A seguir à Suzana? Ora deixa-me pensar. Teria sido a Márcia Condessa? Ou a Márcia foi depois da patinadora? Não tem importância. O que interessa é que a Márcia não ficou arruinada (embora ficasse com uma terrível vontade de vomitar). Quem ficou nas lonas (a expressão não é bonita, mas o teu gesto, Rogério, também não) foi a patinadora. Não lhe digo o nome. É minha amiga. Disseste-lhe que a Pide te perseguia e que tinhas de fugir para Paris. A rapariga era pobre. Mas queria salvar-te. Procurou um agiota e arranjou-te trinta contos. Fugiste? Claro. Dela. Parece que os trinta contos (muito dinheiro na época, foi há muito tempo. Foi na altura em que morreu Sara Vale) foram para ajuda dum carro ou coisa parecida. Porque tu tinhas ordenado. Trabalhavas no “Nacional” com a D. Amélia [Rey Colaço].
Até me lembro do mal que ias naquela peça: ‘As Bruxas de Salém”. Era um horror. Também nunca entendi por que motivo elas gostavam de ti. Sempre pareceste um manequim da Rua dos Fanqueiros.
Como o agiota exigia o pagamento das letras e a patinadora não tinha dinheiro, foi para Paris cantar o fado para a Clara de Ovar. Pagou o que devia, voltou, mudou de profissão, ainda ajudou a viver dois valentíssimos democratas e hoje está em Angola. Gosto muito dela.
A seguir? Deixa-me pensar. A seguir (já disse que não me lembro em que altura se situa a Márcia) veio a locutora. Também não lhe digo o nome. É uma amiga muito querida. Tanto, que a acompanhava a pagar as letras do teu carro e a tua renda da casa todos os meses. Ajudou-te muito. Pensava ela (como tantos outros) que eras perseguido politicamente.
Foi na altura em que te candidataste a deputado. Que diabo! Tinhas de acabar com a locutora. Não tinha fama de ser suficientemente das esquerdas. E eis que te lembras dum golpe de mestre. Atracas-te à Maria Alçada Padez (dum esquerdismo indiscutível) e nada de melhor para um candidato a deputado. Tudo duma queijadada. Estava eu a jantar com a minha amiga locutora na ‘Viela’ para a consolar de ter esperado durante horas por ti à porta do emprego e entras tu, de braço dado com a Maria. Padez, claro. E assim ficou o assunto locutora arrumado. Lá se ia a renda da casa. Lá se iam as letras do carro. Mas havia o prestígio da Maria. Padez, claro.
O pior ainda estava para vir. Nunca tinhas segurança, pobre rapaz. A candidatura foi-se ao ar, como todas as daquele tempo, e tiveste mais uma vez de te apoiar. Até porque já estavas cansado. E precisavas de respeitabilidade… e apoio no governo.
Surge a Teresa. Simpática, solteira, admirando-te muito e… filha do lugar.tenente do Henrique Tenreiro. Agora, sim. Agora podias ser democrata à vontade, que não te prendiam.
Como me lembro daquele casamento que deu brado em Lisboa! Até veio na Eva. Sim, senhores. Na Eva. Foste de casaca (o que é incomportável num casamento, mas não te tinham ensinado que era de fraque). Foste de casaca e tiraste as fotografias oficiais na relva ao pé da Teresa. Não tenho o exemplar, mas na Eva devem ter.
Convites para o casamento? Tudo gente grada. Lembro-me (tenho, como deves pensar, uma memória lixada) de teres convidado o Silva Passos e o Tenreiro. Não sei se o primeiro foi, mas do Tenreiro sei eu que, para não desgostar o pai da Teresa (havia por ali um negócio de armas para os lados da António Augusto de Aguiar) foi para Madrid. Não gostava de ti, o Tenreiro. Mas depois, ajudou-te. Sim, foi ele, certamente. Como seria possível um perseguido político como tu sair de Portugal, entrar em Cuba, voltar a Portugal, etc., todas as vezes que querias? Se eles nem deixavam sair o Santareno, autor da peça que lá ias montar!
Não sei bem em que altura o teu sogro te ofereceu uma vivenda no Restelo que, na época (recuada) custou 2 mil contos. Uma bagatela. Os camaradas, esses, vivem para aí em barracas. E tu tens-te preocupado imenso com eles. Principalmente, com os teus camaradas actores.
Adiante. Pois chegou o 25 de Abril. E tu, homem impoluto, o grande lutador anti-fascista, eis-te a declarar na televisão que nunca lá tinhas ido. À Televisão. Pois não. Mas todas as peças em que entravas (no Teatro Maria Matos, da R.T.P.) eram passadas na televisão. E lá estavas tu. Muito mau actor, porque melhorar não melhoraste. Mas lá estavas tu. O perseguido. Sempre protegido pelo Ramiro Valadão, que dizia que eras muito bom rapaz e precisavas de apoio.
Curioso. Tenho ido visitar o Valadão à Judiciária, a Alcoentre e ultimamente ao Aljube, e nunca te encontrei. É porque vais noutros dias, certamente.
Esta já vai longa. Teria sido mais curta se fosses tu a responder ao entrevistador. Mas ainda tenho umas coisitas a dizer. E, se quero fazer o teu retrato de homem impoluto, digno, justo e, acima de tudo bom camarada, devo contar que o 25 de Abril te deu o lugar (os lugares) que merecias. Sempre no Teatro Maria Matos, claro, presidente da INATEL (ex-FNAT), programas de rádio, etc. Os teus colegas, aqui há tempos, contavam os teus tachos.
O que é chato é teres passado à frente da bicha da gasolina. Sim. Da bicha dos empregados da INATEL para terem gasolina a oito escudos. Foste o último a chegar e já tens a gasolina.
Pronto. O resto fica para o tal livro “Revolucionários que conheci”. O pior é se os tipógrafos se recusam a compô-lo. Mas não. Eles gostam de saber a vida de certos camaradas.
E boa viagem para Cuba. Lá, contigo, é uma loucura. Não fazem nada sem te consultar. O pior é se o Fidel lê uma tradução desta crónica. Mas não lê. Podes estar descansado e continuar a ser herói.
Já agora, que estás bem instalado na vida (aliás como se vê, sempre estiveste) aproveita para deixares de representar. Poupa-nos isso. E despeço-me, insistindo, a propósito de não teres dado a entrevista:
“Fizeste bem, Rogério Paulo.”
P. S. – E aquela tua ida à Casa dos Estudantes do Império, aí por volta dos anos 60, para falar de teatro revolucionário? Foi por seres angolano (de Silva Porto), certamente, que te convidaram. Até lá estava a Lília da Fonseca. Deves lembrar-te.
E aquela participação do nascimento da tua filha, que correu Lisboa e o maroto do Ramos da Costa me levou para Paris, para pensar que era brincadeira minha? Um nunca acabar. Fica para o livro.
Vera Lagoa, Crónicas do Tempo - 5.6.1975 - 2.10.1975, Porto, Livraria Internacional, 1975
quarta-feira, março 02, 2011
ALGUMAS PALAVRAS ACERCA DA CAÇA, DOS CAÇADORES, ETC.
ANDRÉ BRUN
ALGUMAS PALAVRAS ACERCA DA CAÇA, DOS CAÇADORES, ETC.
Há uns dias a esta parte não se encontram nas imediações da estação do Rossio senão cavalheiros com cara de ir à caça. (Rogo à revisão o favor de velar pela cedilha da ultima palavra do parágrafo antecedente a fim de evitar confusões que não estão no meu espirito.)
Em V. Exas. vendo um cavalheiro de polainas, bota grossa, levando a tiracolo um destes bornais que usam a barba toda, pela arreata um cão com bochechas em matações e suspenso do ombro um estojo de espingarda, não tenham a menor duvida: esse sujeito que passa é o Reis, o Silva ou o Costa que vai à caça. (Cautela com a cedilha.)
Aos meus leitores que nunca tenham praticado este desporto, posto em voga pelo falecido Nemrod, darei aqui rapidamente algumas indicações acerca das diferentes peças de caça e variadas maneiras de as caçar.
AVESTRUZ – O avestruz, como o seu nome indica, pertence à categoria das aves de truz. Não só a sua carne é saborosissima, como umas penas que costuma ter na parte oposta ao bico são apreciadissimas pelas senhoras que as utilizam para leques ou para as espetarem na cabeça quando vão aos “fox-trotts” da Nunciatura. O avestruz é muito fácil de caçar, pois, quando suspeita que lhe querem ir às penas e como não gosta de ver bater em ninguém, esconde a cabeça debaixo da asa. Quando ele se encontra nessa posição, o caçador, muito discretamente e sem que ele perceba, serra-lhe as patas rente ao chão com uma serra articulada.
CEGONHA – A cegonha, como V. Exas. sabem, é dotada de um bico []mente comprido e de uma predilecção especial pela melancia. Basta, pois, pôr um destes legumes nas imediações da toca onde a cegonha se encontra. O desprevenido volatil crava o bico na melancia e, quando quer depois levantar vôo, o peso do isco deslocando o centro de gravidade do sistema, impede-o de o fazer e fácil é então dar cabo da cegonha a tiro, a murro e a punhal. A melancia torna a servir, tendo-se o cuidado de tapar o buraco com massa de vidraceiro. Há piteireiros que apanham “cegonhas” formidáveis com o uso da Água de Vidago – fonte Burjacas.
PATO – O pato é de duas qualidades: o pato bravo e o pato doméstico. O pato bravo encontra-se principalmente e em quatro actos nas obras completas de Ibsen. Vive também em lagoas e pântanos e, mal vê um caçador, põe-se a voar sem olhar para trás. O pato doméstico, pelo contrário, mal se lhe diz adeus de longe, aproxima-se com um ar muito estúpido e dando ao rabo festivamente. Em vendo um quilo de arroz ou uma lata de azeitonas, vai ele próprio meter-se no forno. Por todas estas razões constitui um mistério absolutamente insondável, o facto de os discípulos de Santo Humberto se obstinarem a caçar o pato bravo em vez de tranquilamente cultivarem o doméstico. Quando um pato anda à pata, escusam de lhe oferecer um automóvel.
CARABU – Esta ave é oriunda das florestas do Brasil de Baixo. Encontra-se a miude numa modinha brasileira que diz assim:
- Ó minha Carabu
Dou-te o meu coração!
Tu és a minha paixão...
Para mim só tu,
Minha Carabu!
A sua carne tem um leve sabor a filetes de pescada com molho de tomate. Caça-se pela persuasão. Mete-se-lhe na cabeça que é uma vergonha andar por cima das árvores, que parece mal, etc. Deixa-se, por fim, agarrar à mão. É o pássaro mais estúpido da criação depois do contribuinte.
COELHO – Este bicharoco, se fosse da minha opinião, nunca se deixava esfolar. Com o pelo todo é simpático, mas depois de esfolado parece-se terrivelmente com os fetos que certos boticários têm o arrojo de expor nas montras dentro de frascos com álcool.
sexta-feira, junho 04, 2010
Maria Barroso diz Poesia...

Maria Barroso era a artista que mais marcou a minha juventude, pelo seu exemplo de Actriz corajosa, pondo a Poesia e o Teatro ao serviço do anti-fascismo. (...) Mas voltemos ao Bar "Toxinas" do Hospital de Santa Maria. Ei-la que sobe ao estrado para falar, com um casaco castanho. Lembro-me como se fosse hoje!! Logo um chefe da polícia a agarrar por um braço e diz: "A Senhora está proibida de falar!!!". - Uh! Uh! Uh! - vozes "de malta", claro... E diz Maria Barroso: Não posso falar, mas posso recitar!! E diz um Poema do velho Poeta Comunista Armindo Rodrigues.
Mário Viegas, Auto-Photo Biografia (Não Autorizada).
1 – Fernando Namora – Cacilda2 – Álvaro Feijó – Nossa Senhora da Apresentação
3 – Joaquim Namorado – Prometeu
4 – Mário Dionísio – Elegia ao companheiro morto
5 – João José Cochofel – XIII
6 – Políbio Gomes dos Santos – Poema da voz que escuta
7 – Francisco José Tenreiro – Epopeia
8 – Manuel da Fonseca – Estradas
9 – Carlos Oliveira – Descidas aos infernos
10 – Sidónio Muralha – Soneto imperfeito da caminhada perfeita
11 – Mário Dionísio – Utilidade
12 – Manuel da Fonseca – Maria Campaniça
13 – Álvaro Feijó – Dois sonetos da hora triste
14 – Mário Dionísio – Arte poética
15 – Carlos de Oliveira – Xácara das bruxas
16 – Mário Dionísio – Depois de mim
17 – Manuel da Fonseca – Mataram a tuna
quinta-feira, maio 27, 2010
Recomendo vivamente... Bela leitura de esplanada.
terça-feira, janeiro 19, 2010
Excelente Prosa ainda do Ano de 1833



quinta-feira, novembro 12, 2009
O Viúvo - Memórias do Fim do Império

"A escrita de Fernando Dacosta é expressiva duma certa tensão entre duas paixões essenciais: a função jornalística, exercida com a dignidade e a competência que se lhe reconhece e, acumulativamente, a criação literária - em cujo compromisso tem predominado a produção de textos para teatro. Posta nestes termos, esta constatação talvez possa parecer irrelevante, quano o objectivo é a abordagem crítica do romance O Viúvo, obra que mereceu o Prémio Literário Círculo de Leitores - 1986, atribuído por unanimidade. A circunstância de a obra vir já rotulada pelos sucessos dum tal evento (cuja meritória iniciativa não é demais realçar) não me inibe de problematizá-la à luz de outros parâmetros, como seja o de tentar stuá-la, primeiro, no âmbito da anterior obra literária do Autor, depois no centro dum fenómeno recente entre nós (o da ficção publicada por numerosos jornalistas portugueses) e, finalmente, no confronto com o romance que vem sendo o elemento polarizador duma nova geração de escritores.
Não é difícil provar que O Viúvo irrompe, como prova de maturidade e espaço de inovação, em qualquer dos domínios atrás assinalados. A começar, deixa a alguma distância a anterior ficção do A., de que conheço Um Jeep Em Segunda Mão e A Súplica (ambos de 1982) e Sequestraram o Senhor Presidente (1983).
Quanto às obras subscritas por outros jornalistas (ressalvadas que sejam as inevitáveis excepções), é também nítida a separação, assim como a irreversibilidade de O Viúvo relativamente à escrita jornalística (nem sempre despretensiosa) e à outra, a da criação literária - linguística e romanescamente entendida na sua especificidade e sobretudo na sua universalidade. A ruptura situa-se no ponto em que este romance, coexistindo embora com uma salutar estratégia de simplicidade, não cede ao elemento mais redutor da literatura, que é o despojar a linguagem, querê-la meramente epidérmica e, logo, amarelecida, contaminada pela “finalidade” jornalística. Resta, pois, falar de O Viúvo enquanto obra acabada de romance e inseri-lo no mundo diverso e capitoso da nova ficção portuguesa.
Toda a ideia e a própria esquematização estrutural da obra parecem assentar numa evidente dicotomia: a solidão mortal do “viúvo” (o inominado protagonista desta memória lusitana) e o povoamento progressivo dos mundos, dos tempos e dos perfis humanos que servem de suporte a uma certa autópsia moral de um país que enfrenta o seu futuro mas parece minado pelo eco, pela vicissitude convulsa dum passado de oito séculos. O trânsito dessa “memória” faz-se com base no recurso a um acróstico: cada capítulo encima com as letras da palavra LUSITÂNIA, no que parece ser uma organização vertical e paradigmática e, melhor ainda, uma interrogação acerca do devir histórico. Evidentes, também, os paralelismos: o velho octogenário simboliza os oito séculos “morais” (não históricos, mas também históricos] do país que já foi ponto de partida para o mundo desconhecido e agora se situa ao nível do estuário, sem identidade e novamente carecido dum encontro consigo próprio. Depois, os seus transparentes sinónimos éticos e simbólicos: o velho não é senão um despojo (na agonia, nas fezes, no marasmo da paralisia), posto o que a sua relação com o mundo exterior é predominantemente sensorial: o ouvido, a atenção do lobo, a auto-suficiência miserável e quase fantasmal do seu expediente de vida. O forte contraponto do ????????, como espaço fechado do não-acontecido, encontra ainda a possibilidade da fuga para o exterior: aí vívem os outros, num jogo de marionetas e em movimento circulatório, que é simultaneamente de ronda e de afastamento sem remédio. Á equação entre solidão e solidariedade repousa, assim, na sua absoluta contradição.
Prevalece a ideia (e O Viúvo é, substantivamente, um livro de ideias, exigindo, por isso, também uma leitura ideológica) do desconcerto do mundo, nesse progressivo desaguamento da intemporalidade portuguesa, no desenlace pós-imperial e pós-colonial, na própria inutilização dos mitos, no regresso marítimo do torna-viagem de todos nós, na volumétrica sensação de que um novo Alcácer-Quibir (não necessariamente apocalíptico) se reapoderou deste povo. O equilíbrio acentua-se na segurança da síntese, no manejo competente e não demagógico da idiossincrasia lusitana, na própria expressão da nossa típica saudade (dos bons tempos dos heróis, dos resistentes ao fascismo, da euforia revolucionária e do seu mar de sonhos, mesmo até dos símbolos práticos da nossa pequenez). É, como disse, centrado na interrogação dos sofismas portugueses, no refluir da nova identidade, que verdadeiramente assentam a moral e a lição do livro. Nenhuma possibilidade de o catalogar nas premissas do chamado romance histórico, porquanto da História ele capta apenas um universo ensimesmado, algo caótico e assistido até por algum pessimismo (a integraçao europeia será, por fatalidade, um horizonte baixo, uma ameaça cultural?). Não sendo histórico, decorre contudo duma marcada introspecção histórica - mas, sintomaticamente, o tempo físico cobre apenas um Inverno serrano, no berço de Viriato. O octogenário (o jacente, conformado e moribundo octogenário) quase pode ser entendido como o búzio em terra, labirinto e enigma do ser e do não ser português. E, posto assim, no sopé dum destino não cumprido e errado de nascença, é muito mais o depositário desse concerto de vozes na distância do que o mensageiro ideológico da circunstância histórica - nisso diferindo, e radicalmente, do Velho do Restelo de Os Lusíadas. Dentro destas considerações se compõe também esta antí-epopeia, sem idílios nem devaneios, valendo antes como a elegia discreta do nosso vinho e da tragédia que lhe assiste.
Há um novo realismo nesta matriz (típica dos anos 80) em que cada um de nós foi ou é pessoa implicada e pessoa problemática. Há o assomo dum lendário típicamente português e até ibérico (na linha, recorde-se, do inventário das nossas legendas comuns e da sua função etnofantástica). Há, ainda, a transparência da alegoria religiosa, nas mistificações da aparecida e na projecção dum maravilhoso caracterizadamente popular (politicamente utilizado pela ditadura e ainda hoje capitalizado por sectores ideológicos fixos).
Em suma, pela sua actualidade anti-sistêmica, pela inteligência simbólica e concreta dos seus tropos e motivos e pleo modo como O Viúvo parece comportar um mundo de sugestões cuja leitura terá de ser progressiva - não é excessivo afirmar que se trata duma obra exemoplar, a um tempo unívoca e numerosa. Na linha melódica e epistemológica que vem sendo ensaíada pelos escritores da geração a que eu julgo pertencer.
João de Melo
MELO, João de
“[Recensão crítica a “O Viúdo”, de Fernando Dacosta]” / João de Melo. In: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, nº 98, Jul. 1987, p. 122-123."
domingo, maio 17, 2009
Alice Vieira - O que dói às aves - Poesia


terça-feira, abril 21, 2009
Lançamento da Fotobiografia de Amélia Rey Colaço

Fotobiografia de Amélia Rey Colaço
Livro pode ser pretexto para pensar sobre o teatro português
A fotobiografia de Amélia Rey Colaço, lançada esta semana, procura dar a conhecer a vida da actriz de referência e ser pretexto para "pensar o teatro em Portugal", disse a sua autora, a historiadora Júlia Leitão de Barros. Amélia Rey Colaço é a quarta personalidade editada no âmbito da colecção "Fotobiografias do século XX", do Círculo de Leitores, dirigida por Joaquim Vieira, e que já publicou as de Amália Rodrigues, Fernando Pessoa e Vasco Santana.
"É um óptimo pretexto para pensarmos sobre a prática teatral portuguesa" tanto mais que, sublinhou Júlia Leitão de Barros, "quem conhece a historiografia respeitante a este vasto campo cultural sabe bem como as reflexões sobre o teatro em Portugal têm recaído, quase exclusivamente, nos autores e na sua dramaturgia".
"As empresas, os actores, a encenação, a cenografia, as práticas, a crítica, os públicos, etc., têm sido quase esquecidos", prosseguiu.
Esta obra apresenta "imagens sugestivas e um texto que permite "pensar sobre as relações da arte com o poder político e do poder político com a arte, sobre as representações sociais da arte (e a concorrência entre elas) sobre os campos de legitimação do artista, etc.", disse.
A historiadora afirmou que a principal dificuldade que encontrou foi "a carga política associada a Amélia Rey Colaço".
"Depois - prosseguiu - as inerentes à temática, isto é, o carácter efémero do acto de representar e, por último, a falta de estudos sobre o teatro em Portugal".
A feitura deste livro levou cerca de dois anos e meio, tendo cabido a selecção das 192 fotografias a Joaquim Vieira, alguns delas inéditas.
Quanto às fontes documentais utilizadas, Júlia Leitão de Barros consultou o espólio particular da actriz depositado no Museu Nacional do Teatro mas também a imprensa da época "e memórias de gente de diversa formação, que se cruzou com ela", para além de ter contado com os testemunhos da sua filha, a actriz Mariana Rey Monteiro, e da neta Rita Garnel.
Breve biografia da actriz
Amélia Rey Colaço nasceu em Lisboa em 1898 e representa pela primeira vez em 1904 numa récita particular. Em 1914, actua em Madrid, onde declama Afonso Lopes Vieira e Luís de Camões. Atravessa mais de cinco décadas de sucesso em sucessivas peças com êxito até que em 1974 suspende a actividade no Nacional D. Maria II.
Em 1982, participa pela primeira vez numa série televisiva, "Gente fina é outra coisa", ao lado da filha Mariana Rey Colaço, Simone de Oliveira, Nicolau Breyner, Rui de Carvalho, entre outros.
Em 1985, prepara a sua despedida dos palcos e monta a peça inédita de José Régio "D. Sebastião", em Portalegre, no Cine-Teatro Crisfal.
Faleceu na sua casa em Lisboa, a 8 de Julho de 1990.
Fonte: Lusa/SIC Notícias
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Fernando Dacosta - Os Mal-Amados

Através de casos pessoais, a presente narrativa pretende ser a evocação de uma época, de uma fractura na História de Portugal.
Ter-se nascido na ditadura (nas censuras, nas representações), vivdo a revolução (o sonho, a desmesura), contribuído para a Democracia (a liberdade, a diversidade), imergido no neoliberalismo (o lucro, a excendetarização) foram experiências-limite concedidas às gerações que, agora, começam a sair, mal-amadas, de cena. Mal-amadas por míngua de sentimentos, por excesso, ausência, desencontro, receio deles.
É a sua memória, mágoa, sarro, utopia, ousadia que aqui se encenam, nesta versão recriada so Nascido no Estado Novo.
Recentemente saído, “Os Mal-Amados”, de Fernando Dacosta, é uma espécie de segunda versão, refundida e recriada, acrescida e retemperada, de uma outra obra do autor, “Nascido no Estado Novo”. Dividida em cinco partes, começa na Primavera (da marcelista ao 25 de Abril de 1974), passando pelo Verão (quente!), pelo Estio (de Sá Carneiro às aparições de Fátima), pelo Inverno ( da guerra das colónias) acabando no Outono (do nosso descontentamento, nalguns casos). Partindo de aproximações e análises muito pessoais (e vividas) de contactos com alguns dos mitos maiores do nosso País, nos últimos 50 anos, Dacosta recorda Salazar e Cunhal, Marcelo Caetano e Mário Soares, Amália Rodrigues e Natália Correia, Agostinho da Silva e Saramago, a Irmã Lúcia e Snu Abecassis, e muitos e muitos outros nomes que fizeram a grande e a pequena história do Portugal contemporâneo. Isto por si só seria muito, mas há muito mais, há o que faz a diferença em Dacosta: uma escrita elegante e viva, inebriante de cor e de riqueza emocional, pejada de anotações e citações autênticas recolhidas das bocas dos visados, todos eles olhados com respeito e por vezes com alguma admiração, mesmo quando não estimados pelo autor (Salazar é um caso típico, já assim tratado em “As Máscaras de Salazar”, esse magnífico best seller da literatura portuguesa mais recente). Jornalista por profissão, mas ficcionista por temperamento, Dacosta mescla com extraordinária mestria a realidade dos factos com a névoa da memória emotiva e oferece-nos uma belíssima panorâmica desta terra madrasta e maravilhosa onde se erguem na glória e se afundam no desespero tantos e tantos vultos e tantos e tantos heróicos anónimos que fizeram e fazem a nossa gesta. Indispensável para reconforto da alma e para nos conhecermos um pouco melhor a nós próprios. (Ed. Casa das Artes, 2008). - Lauro António
Excerto:
Confidências de Pessoa
A meio do trajecto inclina-se para o motorista: «Por favor, em vez de levar-nos ao Príncipe Real deixe-nos no Café Martinho da Arcada». Recosta-se e comenta-me: «Vamos jantar com o Pessoa».
A sua mesa estava vaga. Dá-me o lugar que fora do poeta e senta-se de frente: «Era aqui que eu ficava».
Raramente Agostinho da Silva referia a sua relação com o autor de A Mensagem. Chegou até, incomodado com o afã das suas (de Pessoa) fanáticas universitárias, a negar que o tivesse conhecido. Num encontro ardilado por algumas, invectiveis do mesmo: «Deixem-se de coscuvilhices sobre a sua vida e estudem a sério a sua obra. Se ele entrasse aqui neste momento a pedir-lhes dinheiro para um bagaço, vocês corriam-no, nem sequer o reconheceriam.
Pedimos bacalhau com natas, água sem gás e café.
«Encontrámo-nos aqui em Dezembro de 1934. Eu tinha chegado há pouco a Lisboa, dava explicações a particulares, e entrei. Era um fim de tarde frio, chuvoso. Vi-o neste recanto, sozinho, papéis na mesa, um ovo estrelado, um copo de aguardente. Olhámo-nos. Eu lera artigos seus, ele coisas minhas. Fez sinal para o acompanhar. Quase não falou. Nem eu. Perguntou-me se queria um sol frito, era assim que chamava aos ovos estrelados. Passámos a estar juntos, discutíamos literatura, filosofia, política... Quis traçar a minha carta astrológica, mas recusei. Tinha feito a sua, iria morrer, asseverou, dentro de oito meses. Faleceu um pouco mais tarde, a 30 de Novembro de 1935».
«Nas últimas vezes que nos encontrámos, Pessoa estava invulgarmente acabrunhado. “Sinto-me muito arrependido”, disse-me, “pelas cartas de amor que escrevi a Ofélia”. Fizera-o movido pela sua irremediável fantasia heteronímica. Enfastiado, resolvera criar (interpretar) o papel de um vulgar empregado de escritório da Baixa de Lisboa, que se enamora, o que era frequente suceder, por uma vulgar colega. Para o papel desta foi buscar Ofélia, sem reparar que se tratava de uma mulher real, crédula, apaixonada. Divertiu-se durante bastante tempo (interrompeu e recomeçou o jogo do compromisso) com a escrita de ridículas cartas de amor a uma ridícula dactilógrafa carente de afecto e atenção. Quando percebeu a monstruosidade criada, caiu em si e, cerce, cortou o equívoco. A missiva onde o fazia, a última, num estilo completamente alheio ao das anteriores, é significativa disso».
Nela, escreve: «O meu destino pertence a outra lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinada cada vez mais a Mestres que não permitem nem perdoam».
Curiosamente «ninguém, até hoje, entre tantos especialistas, teses, congressos, ensaios, livros sobre ele, percebeu o drama que o dilacerou», exclama já no fresco do Terreiro do Paço, Agostinho da Silva.
Encarando-me, comenta: «Você devia escrever, no estilo de O Viúvo, um romance sobre o heterónimo em que ele se transformou no dia em que desapareceu, porque ele não morreu».
in Fernando DaCosta, Os Mal Amados, págs. 357-9, Casa Das Letras.
terça-feira, novembro 25, 2008
Fernando Dacosta edita "Os Mal Amados"
Café com... Fernando Dacosta, escritor
2008-11-21
LICÍNIA GIRÃO
Foi jornalista premiado, hoje é um escritor galardoado. Tem mais de 20 livros publicados nos géneros de reportagem, teatro, romance, narrativa e conto. O novo chega no dia 28. "Os mal amados".
Fernando Dacosta diz ser privilegiado por ter vivido um "compacto de experiências": do Estado Novo ao Liberalismo, a juntar aos grandes vultos com quem conviveu, como Natália Correia, Jorge de Sena e Agostinho da Silva. É defensor da preservação da memória e sobre ela muito escreve. "Os mal amados" é também um livro memoralista. Aborda a sociedade portuguesa desde o antigo regime até aos nossos dias. É o país visto pela oposição.
Por que faz da preservação da memória uma espécie de cavalo de batalha?
Temos um imaginário público que necessita de ser alimentado. Os sonhos que tivemos no passado continuam no futuro. Daí dizer-se que temos saudade do futuro e não do passado. A minha geração foi altamente privilegiada, porque viveu um compacto de experiências que marcaram definitivamente a segunda metade do século XX. Compete-nos agora sensibilizar os mais jovens. De momento, não há regimes em ascensão. Estamos a assistir ao desbravar de uma era que vai fazendo movimentos para olhar o passado. Já os surrealistas diziam que "se queres caminhar para o futuro tens de olhar para o passado".
Mas como é que a memória nos abre caminho para o futuro?
Sem memória não há ideias, sem ideias não há pensamento, sem pensamento não há criatividade e sem criatividade não há futuro. Agora as pessoas, sobretudo as que nos governam, estão perversamente a apagar a memória e a vender o seu peixe. É por esta razão que os grandes criadores portugueses estão a dar grande importância à memória.
E no seu caso pessoal?
Sempre fui sensível a esta questão. Convivi com grandes vultos da segunda metade do século XX desde o regime até à oposição.
Os livros que escreve e retratam a memória têm tido grande êxito. Não tem receio de haver repetições, de um regresso ao passado?
As coisas não se repetem. A Direita endeusou, a Esquerda simbolizou o Deus do bem e do mal, mas o político tem apenas de ser reduzido à sua condição humana. A maior parte dos nossos políticos, jovens, dinâmicos e pós-modernos ainda não repararam que estão todos no século XIX e não no XXI. Enquanto isto, o grosso das pessoas recusa pensar, sonhar e agarrasse à sua existência como se não houvesse vida paralela. Há medo, nunca vi tanto medo no meu país.
quarta-feira, outubro 22, 2008
A Casa Palmela - Livros Horizonte

sábado, outubro 04, 2008
Diniz Machado

O escritor Dinis Machado morreu esta sexta-feira em Lisboa, aos 78 anos, disseram à agência Lusa as editoras Bertrand e Assírio & Alvim.
O corpo do escritor estará ainda esta sexta-feira em câmara ardente na capela mortuária da Igreja de Santa Catarina, em Lisboa, indicou fonte da Assírio & Alvim.
O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, afirmou que a morte de Dinis Machado é "uma grande perda para a literatura e para a escrita portuguesa".
"É uma pena que tenha morrido", declarou à Lusa o ministro, sublinhando que era amigo do escritor, "um homem com uma sabedoria de vida extraordinária", que "gostava muito da vida e dos prazeres da vida".
"Dinis Machado era um escritor que soube encarnar o que são as questões da vida, da vida de um bairro, da vida do Bairro Alto, da vida popular, de uma festa popular, da experiência, da aventura, de tudo aquilo, como um dia disse Luiz Pacheco, numa espécie de cavalgada furiosa de episódios, com uma extraordinária proximidade do que é a vida", disse Pinto Ribeiro.
A sua escrita reproduziu essa "cavalgada furiosa", afirmou o ministro, destacando "O que diz Molero" como "uma coisa única" na literatura portuguesa.
Nascido a 21 de Março de 1930, em Lisboa, Dinis Machado foi jornalista desportivo, crítico de cinema e dedicou-se também à banda desenhada.
O seu maior êxito como escritor foi o romance "O Que Diz Molero", editado em 1977 e reeditado em 2007, no dia do seu 77.º aniversário, e já adaptado ao teatro.
Sob o pseudónimo Dennis McShade, escreveu alguns policiais, que estão agora a ser reeditados pela Assírio & Alvim.
quinta-feira, março 27, 2008
O Meu Colega William Shakespeare - Por António Pedro
O que ele foi é quem foi: William Shakespeare, nascido em Stratford-upon-Avon, no condado de Warwickshire em Inglaterra, (gentleman, sim senhor, mas depois de celebrizado) no dia 23 de Abril de 1564, ao que se supõe e gostariam os ingleses que fosse, por ser dia de S. Jorge. Esse, o tal que tendo escrito, montado e representado uma quantidade fabulosa de comédias e de tragédias durante cerca duma vintena de anos, deixou um dia a Londres que o glorificara e enriquecera tão calada e misteriosamente como lá chegara, para voltar a casa, aconchegar-se e morrer, outra vez no dia 23 de Abril - e desta feita a data é certa - de 1616, na cidade ribeirinha em que tinha nascido 52 anos antes.
Pois. E o resto é congeminação de congeminadores que nunca viram por dentro como uma peça se põe em pé. Que não sabem como o afluir do espectador à bilheteira depende de como é doseado o efeito dum diálogo ou acertado o comprimento duma cena. Pois! Que quem souber como elas mordem e vir como da exploração duma personagem pitoresca (nascida em outra peça e feita a pedido) surge essa maravilha de construção teatral que são as "nerry Wifes", aparentemente uma comédia de costumes, mas que toca as notas todas do divertimento, da farça à "féerie", não tem dúvida um momento sobre a identidade do autor. A identidade da profissão do autor - homem de dentro do teatro, a quem o génio fez sair do seu palco para a eternidade por obra e graça do Espírito Santo, que parece que é quem intervém nestas coisas, escrevendo, ali, às pressas, para que se pudesse ensaiar outra peça enquanto uma estava em cena, encurtando, aumentando, suprimindo e acrescentando cenas, segundo a qualidade e o número de actores de que dispunha e segundo o público a que destinava a representação.
Olha os literatos a fazerem destas coisas!
A grande trapalhada dos quartos e dos fólios, das discrepâncias textuais nas primeiras e segundas edições das suas obras, vem daí. A eternidade aconteceu-lhe. O que escrevia destinava-se à vida efémera da palavra falada, do conflito vivido por gente em face de gente - ao teatro, isto é - à ocasião.
Essa ocasião tinha condições extraordinárias no tempo da rainha Isabel. Os cais de Londres, ao pé dos quais estava "O Globo", formigavam de gente com dinheiro fácil e desejosa de emoções fortes; o mundo cultural da Renascença abrira-se a um horizonte imenso que os "humanistas" tinham sabido, pelo menos, ensinar que se podia conceber à medida do homem; o palco chamado isabelino - um grande proscénio aberto por três lados, encostado a uma parede perfurada e sobremontado por uma varanda - deixava livre a imaginação do autor sem as restrições aristolélicas da unidade de tempo e de lugar; a indumentária teatral era elementar, convencional e barata: Troilo e Créssida andavam em cena mais ou menos vestidos como o Hamlet e Lady Macbeth.
Ao grande aparato cenográfico da Idade Média sucedera-se a elementaridade sucinta dum palco em que tudo era a imaginar.
"Nesta arena de galos poderão caber
Os vastos campos da França?
Poder-se-ão, entre estas tábuas, juntar os capacetes
Que semeavam de espanto os ares de Agincourt?
Deixai trabalhar as forças da imaginação
Supondo agora que estão fechadas
Entre estas duas paredes
Duas grandes monarquias.
Supri com o pensamento a nossa imperfeição.
Quando falarmos de cavalos
Pensai vê-los marcando na terra mole os cascos orgulhosos.
É com essa imaginação que tendes de ataviar os reis,
Mudando-os de lugar, saltando sobre o tempo
E fazendo caber numa hora de ampulheta
O que leva muitos anos a acontecer." - Do prólogo de Henrique V.
É claro que o génio é génio e nunca o génio humano subiu a craveira mais alta do que a deste homem meão de estatura, bigodinho fruste, olhos redondos sempre de pálpebra visível e a testa despovoada de cabelo até ao cocuruto da cabeça, boca bem talhada, cabelos como asas emoldurando o oval do rosto até ao baixo das orelhas e, que nos seus retratos, se nos apresenta todo bem posto: gibão de veludo agaloado por várias bandas e o cabeção de renda engomada esticado, grande e todo triques-à-beirinha. Nem eu quero negar isso nem cometer a estultícia (tão à moda) de explicar por motivos sociais alheios e circundantes a misteriosa aparição do génio num indivíduo. Abelhas não somos e, mesmo as abelhas, só fabricam nas mestras a possibilidade monstruosa de porem ovos à bruta. Não é disso que se trata mas da liberdade.
Coitado do génio a que tudo atravanca o caminho e, desde a censura à finança, tudo o impede de manifestar-se! Nascido como nasceu, dotado como nasceu, um século mais cedo ou um século mais tarde, ou noutro lugar que não fosse a Londres daquele tempo (que o digam os espanhóis de génio seus contemporâneos) o significado, a extensão, a profundidade e a liberdade da sua obra, se não a sua beleza literária também genial, não teriam atingido o que atingiram.
Não fosse ele homem do palco ou fosse outro o palco para que concebia o seu teatro e as restrições do lugar lhe atrapalhariam a fluência. Prisões, campos de batalha, salas reais de trono, os pátios das conjuras, antros de feiticeiras, florestas, cemitérios, ruas de cidades a distâncias enormes umas das outras, sucedem-se ao ritmo fácil desta imaginação para que se apela, dum adereço dum telão ou dum letreiro.
Não fosse ele inglês e homem do seu tempo e essa cavalgada monstruosa de crimes, de ambições de conjuras infames e monstruosidades com que ele teceu o estofo dos tronos em que se sentaram as personagens duma história que viu à luz de mil archotes de sangue, e não soaria talvez ao cantante bronze dos sinos maravilhosos a sua liberdade de falar:
"Pompa vã e glória vã do mundo - eu vos odeio!
E sinto o coração de novo aberto. Quão miserável
É o pobre homem que depende do favor dos príncipes!
Existem, entre o sorriso a que aspiramos
No seu semblante ameno e a sua ruína
Mais angústias mortais e medos, do que existem
Ou guerras ou mulheres." - Henrique VIII, fala do cardeal Wolsey
Ser quem escreveu isto o próprio amante da rainha, como agora anda um preopinante a querer provar? Deixemo-nos de asneiras! [Nota Autor: É de propósito que não cito o autor da "nova teoria". Era só o que faltava dar-lhe publicidade!]
10 tragédias históricas, mais outras 13 tragédias, mais 14 comédias, ao que me lembro e falta-me a pachorra para ir verificar a certeza destes números... Tanto faz, neste caso, mais uma ou menos uma! Uma montanha. E, nessa montanha, a cada passo um espanto, quase a cada verso ou a cada linha de prosa uma beleza. Bem-aventurada fluência!
Notícias dele como autor e actor só se têm ao certo desde 1592. Tudo isso é mais ou menos depois dessa data e antes de 1614. E além das suas peças, ainda representou algumas de Ben Jonson. E, a avaliar pela comezaina que fez com ele e com Michael Drayton, de que lhe resultou a morte, segundo mais tarde contou o vigário de Stratford, e a contar com a caçada furtiva na coutada de Sir Thomas Lucy, a que deve ter-se seguido lauta ceia e foi o motivo concreto da sua quase fuga inesperada de Stratford para Londres - bendita hora! - ainda lhe sobrava tempo para pândegas...
Santo William Shakespeare, meu irmão, herói e mártir, como eu disse num programa de televisão, bicho de teatro pelo génio, pelo vício, por ofício e pelo sangue, perdoa aos literatos que não sabem o que dizem... e ensina-lhes, pelo menos, a escrever bem.
Festeja-se-lhe agora o centenário. Se houver homens na Terra e se não tiverem perdido a graça de falar, festejar-se-á o seu milenário também, que os homens mudam pouco, mesmo em mil anos, no que têm de essencialmente mau e essencialmente bom, nas suas ambições, no seu amor, nos seus ridículos e nas suas fúrias.
Festejá-lo-ão os homens, porque não arrefece o sangue vivo das suas personagens nem as envelhece o tempo. Festejá-lo-ão os poetas, porque foi poeta, os dramaturgos porque foi dramaturgo. Festejá-lo-ão sempre e sobretudo os homens de teatro, fabricantes do efémero, porque foi ao serviço dessas duas horas de riso ou de angústia que sempre tentam erguer no ar como um perfume que se desfaz, que um seu colega de génio compôs uma obra que o transcendeu ou transpôs efémero para a eternidade.
António Pedro, Revista Colóquio, nº 29, Junho de 1964, Fundação Calouste Gulbenkian".
quinta-feira, dezembro 20, 2007
Curioso artigo de 1901 sobre os Hotéis Portugueses








