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quarta-feira, junho 06, 2012

O Actor Carlos Santos, El-Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho



O actor Carlos Santos, o Rei D. Carlos e o Conde de Ficalho



“26 de Março de 1897



Nesta data realizei a minha récita de que fazia parte o seguinte programa: A Gravata Branca, comédia em I acto, em verso, de Gondinet, tradução de Pinheiro Chagas; O Dinheiro, cançoneta original de Geraldes de Queirós, música de Filipe Duarte, desempenhada pelo Telmo; Os Namorados, comédia em 3 actos, de Goldoni, tradução de Pinheiro Chagas.

Uns dias antes da exibição deste espectáculo, El-Rei D. Carlos assistia à representação de qualquer comédia hilariante do reportório do nosso Teatro que Ele frequentava assiduamente, talvez para repouso do seu espírito atormentado pelas misérias politiqueiras que tantas vezes tinha de suportar. Lembrei-me então de que me cumpria o dever de convidá-Lo a assistir à minha récita, a realizar daí a dias, deliberação de que fiz confidente o Telmo, a quem confessei, no entanto, o embaraço em que me colocava uma falta de ensaio para ir ao Paço da Ajuda fazer tal pedido de formalidade protocolar. A esta minha observação logo o Telmo sugeriu com a sua costumada desenvoltura:



- Porque não vais ter com Ele ao camarote, logo no final do acto?



De começo renitente a pôr em prática tal alvitre, vim afinal a aceitá-lo perante a insistência do Telmo e, no final do 2º acto dos Namorados, vá de galgar ao camarote real e corajosamente bater à porta, que me foi franqueada pelo oficial às ordens. Depois de apresentar a El-Rei as desculpas que se impunham de me permitir aparecer-lhe assim vestido e caracterizado para entrar em cena, e ao convite que me atrevia a fazer-lhe, em lugar tão impróprio, para que honrasse com a sua presença a minha récita, El-Rei, acedendo prontamente ao meu pedido, rematou com esta graciosa frase:



- Fizeste muito bem. Não faltarei. E, assim não indo à Ajuda, metes na algibeira as três corõas da tipóia, o que não deixa de ser também uma pequena “ajuda”…



Poucos dias depois de haver realizado a minha récita fui, como me cumpria, até à cidadela de Cascais para agradecer pessoalmente a El-Rei a honra que me concedera a ter assistido a esse espectáculo, como me havia prometido.

Quando entro no grande terreiro da parada deparo com El-Rei que, apoiado ao varandim duma janela, repousava o olhar na imensa toalha de água do Oceano em plena calmaria, pondo-a talvez em contraste com a tumultuosa e sórdida agitação dos conluios políticos que Ele tanto desprezava e se empenhava em aniquilar.

El-Rei então dá por mim e, notando talvez o meu enleio para entrar no palácio, convida-me num gesto afectuoso para que suba, o que faço prontamente. No entanto, ao chegar ao topo da escadaria, deparo com o Conde de Ficalho que, numa expressão de estranheza, inquere:



- Que deseja?

- Falar a El-Rei, que tendo-me visto me convidou a subir – respondo. Num movimento de indignação o sr. Conde ainda me pergunta:

- Mas afinal que é feito do protocolo?

E eu fazendo-me desentendido, acrescento:

- É sujeito que não conheço. – Momentos depois de entrar, a convite de El-Rei, num gabinete contíguo ao seu atelier, começo por Lhe contar o episódio que acabara de dar-se. El-Rei então sorrindo-se discretamente, dignou-se aceitar os agradecimentos que me levaram á sua presença e, antes de dar por finda a honrosa audiência que amavelmente me concedera, fez-me entrar no seu atelier, onde me entregou gentilmente um desenho à pena, de sua autoria e por ele assinado, e com esta legenda: “Couraçado de Esquadra – 1883 – Carlos” – acompanhando a oferta das seguintes palavras:



- E agora aqui tens esta lembrança pela noite da tua récita.

No momento porém em que transpunha a porta de saída, El-Rei detém-me inopinadamente para me dizer:



- Olha lá, se vires por aí o protocolo, dá-lhe saudades minhas!”

sábado, maio 19, 2012

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa




O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)








Uma exposição que importava fazer: a evocação da obra de Joaquim Machado de Castro (Coimbra, 1731 - Lisboa, 1822), considerado o maior escultor português de todos os tempos.

Quase 60 anos após a última mostra dedicada ao artista (comissariada por Maria José Mendonça, no MNAA, em 1954), “O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)” reúne mais de 100 peças – esculturas, modelos, desenhos e importantes documentos, do acervo do Museu e provenientes de diversas instituições públicas e privadas – possibilitando um balanço crítico e a definição de novos critérios de classificação.

Revendo a historiografia tradicional, que consagrou Machado de Castro sobretudo como escultor da Estátua Equestre de D. José I e como autor de presépios, os comissários – Ana Duarte Rodrigues e Anísio Franco – pretendem tornar evidente, aos olhos do público, Machado de Castro como um estatuário à la grande maniera romana.
Senhor de uma longevidade imensa – morreu aos 91 anos –, fundou a primeira aula de escultura em Portugal, para formar artistas que colaborassem no seu Laboratório, e lutou pela elevação do estatuto da escultura no País.

A Estátua Equestre de D. José, a Fonte do Neptuno do Chafariz do Loreto, as esculturas da Basílica da Estrela e do Palácio da Ajuda, em Lisboa, a estátua de D. Maria I (agora, na Biblioteca Nacional) ou os bustos da Cascata dos Poetas da Quinta do Marquês de Pombal, em Oeiras, são algumas das obras monumentais criadas pelo artista. As circunstâncias levaram ainda Machado de Castro a produzir imaginária religiosa, da qual são exemplos Santa Ana Ensinando a Virgem a Ler (MNAA), a Virgem da Piedade (Capela Palatina de Salvaterra de Magos), São João Baptista (Igreja Matriz de Almeirim), Nossa Senhora da Encarnação (Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, Lisboa). O artista realizou também escultura funerária, como os túmulos de D. Mariana de Áustria, no Real Hospício de S. João Nepomuceno (hoje, no Museu Arqueológico do Carmo), ou o de D. Mariana Vitória, na Igreja de S. Francisco de Paula, na freguesia dos Prazeres em Lisboa.

Ocupando todo o Piso 0 do MNAA, dividida em oito núcleos, a exposição insere-se num programa de divulgação da obra deste virtuoso criador, que engloba a intervenção na Estátua Equestre de D. José na Praça do Comércio (coordenada pelo World Monuments Fund) e o colóquio internacional “Machado de Castro. Da Utilidade da Escultura”, organizado pela Universidade Autónoma de Lisboa em colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras, que conta, na conferência inaugural (a 19 de Maio, no MNAA), com intervenções de José-Augusto França e Alexandre Quintanilha.

domingo, abril 08, 2012

Mimi Tavares - VACANT - Galeria Monumental







Acaba de inaugurar na galeria Monumental uma exposição de Mimi Tavares com o título de Vacant. Depois da fase eminentemente pop, a mais decisiva da sua trajectória e de que conserva ainda resquícios, esta artista debruça-se sobre os objectos e a maneira como reflectem a luz. Diz ela que "estes núcleos de trabalhos foram desenvolvidos como estudos sobre a penumbra e a forma particular como os espaços e os objectos se vão revelando ao nosso olhar e se vão tornando identificáveis à medida que se destacam da obscuridade". Digo eu que lhe interessam aspectos inerentes à autonomia da pintura de sempre: a cor, a forma, a superfície e o gesto. Gosto especialmente das salas de aula vazias que transmitem sensações angustiantes e ao mesmo tempo nostálgicas. Mimi conjuga o manejo dos pincéis com passeios intensos pelas bandas, a desenhada e a musical do Ena Pá 2000 onde participa. - texto do Blog: http://withbubbles.blogspot.pt/

quinta-feira, maio 18, 2006

Bernardino Luini (c. 1485-1532), Retrato de jovem mulher, c. 1525. Óleo sobre madeira. Pertencente à Colecção Rau, s/A, Cologne.
A misteriosa vida e morte do Dr. Rau

Paula Lobo

Louco? Envenenado? Durante quatro décadas Gustav Rau guardou o tesouro longe da cobiça alheia e dos olhares do público, mas nos últimos quatro anos de vida foi mesmo obrigado a provar aos tribunais que, apesar de viver numa cadeira de rodas e de se perder pelas ruas por exagerar na auto-medicação, continuava na plena posse das suas faculdades.

Quando em 1999 fez um novo testamento a favor da Unicef alemã, Rau enfureceu os advogados das fundações suíças que criara para gerir a sua valiosa colecção privada de arte - avaliada, numa estimativa conservadora de 2001, em 600 milhões de dólares (hoje, 470 milhões de euros) -, a segunda maior do mundo, dizem os peritos, depois da Thyssen (Madrid). Um juiz de Baden-Baden acabaria por dar-lhe razão.

Em 2000, Michel Dauberville ganhou na justiça francesa a propriedade de Mar em L'Estaque (1836), de Cézanne, alegadamente roubada ao avô durante a II Guerra Mundial.

Já depois da morte do coleccionador, duas suspeitas recaíram sobre os seus colaboradores mais próximos: Robert Clementz, o secretário (que veio a Lisboa apresentar a exposição), e Sigrid Thost, que geria judicialmente os bens. Em 2002, o procurador de Estugarda abriu investigações sobre a possível venda de obras sem conhecimento do dono. E exigiu novas análises ao corpo, já que a autópsia revelou níveis elevados de substâncias tóxicas no sangue. Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha.

Filho único de um industrial que se associou à Mercedez-Benz e fez fortuna com peças para automóveis, sobrinho do milionário que produzia os caldos culinários Maggi, Gustav Rau nasceu a 21 de Janeiro 1922 e parecia destinado aos negócios.

A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os estudos de Ciências Políticas e Económicas na Universidade de Tübingen. Mobilizado para a Wermacht aos 19 anos, as convicções anti-nazis ditaram a deserção. Quando a Holanda foi invadida, Gustav entregou-se aos ingleses. E acabou o curso com distinção, em 1947.

Como esperado, continuou a gerir empresas. Solteiro e sem filhos, em 1958 gastou pela primeira vez dinheiro naquele que viria a ser o seu único luxo: comprou A Cozinheira, de Gerard Dou (século XVII). Tinha 40 anos quando foi estudar medicina na Universidade de Munique. Graduou-se em 1969, vendeu os negócios herdados do pai e do tio, especializou-se em medicina tropical e pediatria e, em 1971, criou a Fundação Médica do Dr. Rau. Objectivos: combater a pobreza no Terceiro Mundo e promover a saúde e alfabetização.

Gustav Rau começou pela Nigéria, mas foi na fronteira do Zaire com o Ruanda que concentrou esforços e fortuna. Em 1977, construiu um hospital que atendia dois mil pacientes/ano e distribuía alimentos a mais de oito mil pessoas/dia. O hospital ainda existe e foi por ele que abdicou do sonho de ter um museu em Marselha (chegou a construí-lo mas ofereceu-o à cidade). Regressado à Europa em 1997, viveu em França e no Mónaco e guardava em Zurique o seu tesouro artístico - que aumentou deixando África três vezes por ano, para ir a leilões na Europa e EUA. Um acervo ímpar que cobre 500 anos de História da Arte, adquirido seguindo apenas o próprio gosto.

Por disposição testamentária de Gustav Rau, a sua colecção terá de correr mundo durante 25 anos. A Unicef decidirá depois o que fazer com ela, mas o dinheiro só poderá ser usado em causas filantrópicas.

Seis séculos de celebração do Belo no Museu Nacional de Arte Antiga

Maria João Pinto

Tudo começa com ecos de Leonardo, em Retrato de uma jovem, de Bernardino Luini, para terminar num espaço de liberdade, com Janela Aberta em Uriage, de Pierre Bonnard. Atravessando o tempo como uma flecha, entre um e outro se percorrem seis séculos de demanda do Belo no olhar da arte europeia. Muitas são as escalas no caminho, mas essas duas obras ficarão na memória como marca d'água de Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard, a mega-exposição que, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), reúne pela primeira vez entre nós uma selecção de 95 obras--primas da colecção do médico e filantropo Gustav Rau (1922-2002).

Na apresentação da exposição - a inaugurar hoje, Dia Internacional dos Museus -, Dalila Rodrigues definiria este como "um momento histórico" na já longa trajectória do museu que dirige - pela excepcionalidade das obras em apreço, "fazendo o trânsito entre arte antiga e arte contemporânea", e pela "dimensão internacional" desta mostra, tornada fenómeno de massas na sua itinerância pelo mundo.

Nesta sua passagem por Lisboa, devido à flexibilidade de escolha que a colecção permite, Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard privilegiará, sobretudo, critérios cronológicos e geográficos em matéria de discurso expositivo: num primeiro momento, abarcando criações dos séculos XV a XVIII, com particular realce para as escolas italiana, flamenga, francesa e espanhola (Fra Angelico, Canaletto, Cranach, Fragonard, El Greco, entre outros); num segundo, percorrendo movimentos artísticos de Oitocentos e Novecentos (num desfile de criadores de primeira grandeza como Corot, Courbet, Cézanne, Manet, Degas, Monet ou Renoir).

E porque esta exposição pode ser igualmente lida "como complemento", também essa dimensão será explorada em "diálogo com o acervo do MNAA". Uma vez mais trabalhando a noção de tempo, dado que, lembrou Dalila Rodrigues, "o nosso acervo pára no início do século XIX e esta exposição progride até meados do século XX".

Pelo seu impacto e por constituir uma oportunidade de excepção, a directora do MNAA espera ver esta mostra - que obrigou ao natural reforço de medidas de segurança - receber "cem mil visitantes, no mínimo". Uma fasquia que, disse, "certamente será ultrapassada".

A inauguração está marcada para as 18.00 e prosseguirá noite dentro, até às 03.00, nos jardins do museu. "Em festa", como sublinhou Dalila Rodrigues, mesmo que "os restantes dias do ano" sejam, para os museus portugueses, "dias difíceis" num quadro de recorrentes constrangimentos orçamentais. Nessa medida, frisou ainda, o apoio externo, "em particular o apoio mecenático do Millennium bcp", representado na cerimónia pelo seu presidente, Paulo Teixeira Pinto, "foi decisivo" para que a passagem desta exposição pelas Janelas Verdes "fosse possível".

Grandes Mestres da Pintura - De Fra Angelico a Bonnard ficará patente ao público até 17 de Setembro. Sendo o Dia Internacional dos Museus dedicado, este ano, aos jovens, a mostra será envolvida por uma especial atenção à "dimensão do entretenimento e do lazer". Porque, salientou Dalila Rodrigues,"também num museu é fundamental programar para todos os públicos".

terça-feira, maio 16, 2006


"Sesimbra: Retrato de uma vila de pesca" - Fotografia e cinema de Denyse Gerin-Lajoie de 17 de Maio a 24 de Junho
SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES
Rua Barata Salgueiro, nº 36
1250-044 Lisboa
Tel.: 213138510
Fax: 213138519

SESIMBRA
FOTOGRAFIA E CINEMA


Quando, há quinze anos, decidi partilhar a minha vida entre Montreal e Lisboa interessei-me fotograficamente por diferentes aspectos da vida portuguesa e em especial pela questão da pesca, questão que sempre me pareceu primordial na vida e na cultura dos portugueses. Uma região me apaixonou: Sesimbra. Ávida desta vila, onde jovens e adultos se dedicavam à pesca artesanal e onde os preparativos para as idas ao mar se desenrolavam nas próprias ruas, fasci­nou-me de maneira indescritível. Lembrei-me então de uma época, agora longínqua, em que os pescadores do Québec navegavam pelo rio Saint Laurent à procura do bacalhau que, naqueles anos, existia em grande abundância naquelas águas frias. Veio-me também à memória a epo­peia dos pescadores portugueses que partiam para aquelas regiões à procura dos cardumes do rei dos peixes e isso antes de o Canadá existir como país.

Dizem que Sesimbra foi em tempos um abrigo para piratas. Mas também foi de lá que parti­ram muitos dos barcos que levaram os portugueses até mares inóspitos e desconhecidos, assim como serviu de fortaleza estratégica, primordial nas lutas contra os inimigos, vindos por terra e por mar. Mas agora, na minha frente, ali estavam os homens que, desde tempos imemoráveis, arriscam a vida no mar e as mulheres que, desde sempre, ficam em terra à espera, abafando a angústia, esperando um regresso são e salvo, ambos, tanto eles como elas, vivendo simultanea­mente a tradição e a modernidade.

Foi em 1989 que, pela primeira vez, fui a Sesimbra. Estávamos no mês de Março e fazia um tempo esplendoroso. Ainda me lembro, com toda a nitidez, da minha primeira descida em direcção à Vila seguindo a estrada que serpenteia a colina, da vista sobre o mar, das casas disper­sas pela encosta, até chegarmos, de súbito, ao Porto de Abrigo, fervendo de múltiplas activi­dades, por entre os barcos de mil cores, ancorados na água azul. Seguiram-se as marchas pela ruas estreitas e sinuosas, evitando as redes e as cordagens para não importunar o trabalho dos pescadores que se preparavam para voltar ao mar. As pessoas na rua, o mercado, as lojas, os restaurantes e os cafés, as janelas floridas, por vezes com peixes pendurados a secar ou roupa estendida, ao Sol, nas cordas, formavam um quadro palpitante de vida e de cor. Vinda do Norte, tudo isto me parecia um sonho, inesquecível. Um verdadeiro espectáculo, uma imensa explosão de cores. Intrigava-me também a atmosfera muito especial que se desprendia deste canto do mundo que eu desconhecia e que encontrava pela primeira vez. Disse então para comigo: um dia voltarei para fotografar a vida desta radiosa vila.

Vai-se a Sesimbra, não se passa por ela. De facto, a estrada que lá nos leva não tem outro des­tino, ela acaba junto ao mar. Quando alguém vai a Sesimbra fá-lo porque quer, por desejo, por necessidade. Ou então por erro, ou por sorte, dir-se-ia. Embora aí tenha voltado várias vezes, só no Outono de 1993 iniciei de facto o meu projecto e durante três anos fiz inúmeras estadias, fotografando as pessoas, os lugares, as actividades, os gestos e os objectos, a todas as horas do dia e durante quase todos os meses do ano. A pouco e pouco, dos planos afastados, fui-me aproximando dos pescadores e das suas famílias, das crianças, das pessoas na rua, dos comer­ciantes e da vida que se desenrolava em frente dos meus olhos e da minha câmara.
Exposição integrada no Lisbon Village Festival

terça-feira, janeiro 17, 2006

A"coisa cultural" tem estado na berlinda, nos últimos tempos. Foi o Centro Cultural de Belém, foi o Teatro Nacional de D. Maria II. A "coisa cultural" é sempre polémica, uma espécie de futebolês. Há os de um clube e os de outro, os dos subsídios e os que ficam de fora - não sei bem se há os de uma política cultural e os de outra ou, apenas, os que raparam do tacho e os que não raparam. O que noto, ao longo dos anos e seja qual for o responsável governamental pela tutela do sector, é haver sempre um monte de contentes e outro de descontentes (uma espécie de reedição do "Senhor Contente e Senhor Feliz"). E, nos media, os que protegem os rapadores de um lado e os que protegem os que não raparam nada. A este debate de bolsos se tem chamado "debate cultural".

Eu que, nestas coisas e noutras, funciono com a cabeça do eleitor útil, iniciei a semana que findou como "eleitor contente". Porquê? Porque a nomeação do António Mega Ferreira para a direcção do CCB me pareceu uma excelente escolha. A seu favor, o António Mega tem a inteligência, a imaginação, a criatividade, um currículo inexpugnável. É um homem de modernidade e de paixão. Tudo o que o CCB precisa, sobretudo em tempo de vacas magras. Tenho a certeza de que o novo director vai fazer, por lá, de Luís de Matos. Vai conseguir tirar coelhos de qualidade da estreita cartola do CCB.

Não pretendo, com isto, menorizar o trabalho e a seriedade de quem lá esteve antes - e, muito menos, a figura do prof. Fraústo da Silva. Mas o CCB precisa de um vendaval de criatividade, de aliar elitismo (no bom e profundo sentido) com popular. De utilizar com inteligência, por exemplo, a colecção Berardo. Precisa de agitação. De inquietação. De sentido de marketing. De boa gestão dos meios de que dispõe. E são muitos. Excelentes instalações para espectáculos, exposições, happenings culturais - pode dar passagem à festa da cultura. O trabalho que o António Mega fez na Expo e noutros locais, o seu jeito de ser, o entendimento que tem da "coisa cultural" é um sinal de esperança. O seu discurso será isso mesmo uma boa agitação contraposta (que me desculpe o prof. Fraústo) à resignação académica do anterior titular. O País não vai para a frente só com dinheiro, também vai com criatividade e inteligência na optimização dos meios.

Quer isto dizer que a tarefa vai ser fácil? Nada disso. Mas estou certo de que também foi por isso que o António Mega, homem de desafios, aceitou o cargo.

D. MARIA II. O Teatro Nacional teve, a meu ver, nos tempos do salazarismo, uma boa tradição. Uma companhia residente - a de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro - que ganhou essa qualidade por concurso e desempenhou um papel de vanguarda, apesar da ditadura. Nenhum dos grandes nomes do teatro português dos últimos 50 anos nega isso. Pela programação, apesar da censura e de alguma "auto-regulação" por via do peso do regime, passou o melhor da dramaturgia clássica portuguesa, muito da melhor estrangeira, autores modernos, teatro mais popular e menos popular, teatro infantil, teatro para todos os públicos. Que é para tal, parece-me, que o Teatro Nacional deveria servir. Ele também, deveria ser um centro de agitação cultural.

Não entendi, ainda, porque essa via não foi seguida, após o 25 de Abril. Abrir concurso, com premissas de programação obrigatória e regras de financiamento público definidas, exigência de consistência cultural e empresarial aos concorrentes, controlo de resultados. A rota do D. Maria II, nestas últimas décadas, foi por demais errática. E, como tal, de resultados medíocres. O Teatro Nacional tem sido um pássaro de asas cortadas. O Estado que enquadre a sua actividade e deixe quem tem unhas tocar aquela guitarra.


O HINO. Tem havido muita polémica em torno do uso, pela PT, do Hino Nacional num anúncio institucional. Discordo dos críticos. A PT, como a TAP, por exemplo, é uma empresa de bandeira. Um pouco da imagem interna e externa de Portugal resulta da sua actividade. E temos de desencalhar o Hino, sem o desrespeitar. Não vejo porque ele há-de ficar reservado para o futebol e as aparições do Presidente da República. O Hino é uma afirmação nacional, em tempo de globalização. Das poucas que nos restam. Nas escolas pouco é aprendido e cantado já. E, não fora a selecção portuguesa de futebol, talvez prosseguisse o seu caminho de esquecimento - da música, da letra e do sentimento nacional. Deixem os acordes dos "heróis do mar, nobre povo" ser arautos do que de bom Portugal tem.

"De Mega Ferreira ao D. Maria II", in Diário de Noticias de 17 de Janeiro de 2006

José Manuel Barroso
Jornalista

quarta-feira, janeiro 04, 2006


Estampa alusiva aos "maleficios" do Jogo - c. Séc. XV