domingo, junho 26, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Continuação

"Começaram em eras remotas a aproveitar os trabalhos executados pelos mouros, que foram os primeiros canalizadores do mundo e os mais hábeis hidrófilos. Depois, no século passado, fizeram novos trabalhos e por último o governo concedeu, há alguns anos, a uma companhia a concessão do fornecimento de águas da cidade. Ignoro em que condições se realizou este contrato. Mas suponho que não se estabeleceram regras bastante severas, ou antes, segundo ouvi dizer, não se executaram com a devida seriedade. O que é verdade é que os trabalhos caminham lentamente e que só estarão acabados quando metade da população tiver morrido de gosma. Queixaram-se alguns jornais das irregularidades da companhia e chamaram a atenção do governo para que tomasse na devida conta o interesse das gargantas secas; mas o governo parece ter razões particulares para não atender essas reclamações, porque não ouviu ou fingiu não ouvir.
Poucos países existem onde se consuma tanta água e onde se encontre tão pouca. Julgo que não há em toda a cidade de Lisboa três estabelecimentos de banhos quentes e os que existem pertencem a hotéis mais frequentados por estrangeiros. Em Lisboa tomam-se banhos unicamente por conselho dos médicos ou por motivo de doença. No Outono é que os portugueses se desforram, banhando-se no mar durante os meses de Setembro, Outubro e Novembro; dizem que os banhos, nesse tempo, são mais proveitosos. Qual a razão? Hipócrates e Galeno que respondam.
No Inverno Portugal é excessivamente regado pelas águas do céu: por vezes, é mesmo demasiadamente; mas logo nos primeiros dias de Maio desaparecem as nuvens e o firmamento adquire uma cor serena e igual, não tornando a chover habitualmente até Outubro. É nessa época que a cidade carece de maior fornecimento de água; ora é justamente nesta época que falta a água para satisfazer as necessidades públicas. E efectivamente, os portugueses, ou porque bebem por natureza ou porque sejam excitados pela grande quantidade de peixe de que se alimentam, absorvem água como esponjas. Em todas as esquinas das ruas, em todas as praças públicas, em todos os passeios, em toda a parte enfim, deparam-se-nos vendedores de água cujo estabelecimento consta de uma bilha e dois copos. Todos eles têm numerosa freguesia, que bebe com a avidez de quem sente dentro de si um incêndio enorme.
Sempre que um português visita alguém a primeira coisa que faz é pedir-lhe um copo de água; quando sai de casa, quando entra, quando se deita, quando se levanta, sempre um copo de água! Costume altamente prejudicial, porque sendo as águas excessivamente calcárias arruinam o estômago e predispõem aos cálculos na bexiga, muito vulgares em Lisboa. Que importa, porém, se a troco de cinco ou dez réis por copo se satisfazem a sua paixão?" - Continua

sexta-feira, junho 24, 2005

38 760 caracteres - João Miguel Tavares - Diário de Noticias

"Manuel Maria Carrilho anda desconsolado, e foi-se queixar para as páginas do Público e do último Expresso. Então não é que ele tinha 18 páginas e "38 760 caracteres de ideias" no seu luminoso programa eleitoral e a comunicação social "embasbacou com uns segundos de vida familiar", limitando-se a discutir o vídeo da Bárbara e do Dinis? Coitadinho do Manuel. Passou tanto tempo a estudar o Sein und Zeit que desleixou o cultivo da sabedoria popular. De outro modo saberia que uma imagem vale mais do que mil palavras, e que a Bárbara e o Dinis valem muito mais do que 38 760 caracteres.
Carrilho tramou-se, e está a ver o tapete fugir-lhe debaixo dos pés. Quando no Público apenas Eduardo Prado Coelho permanece seu fiel escudeiro, enquanto nomes como Miguel Sousa Tavares, Augusto M. Seabra ou Ana Sá Lopes se demarcam da sua candidatura, algo de errado se passa. E esse algo é a incompatibilidade entre o político inteligente, sério e com iniciativa - que Carrilho talvez seja - e o político calculista, agressivo e capaz de empenhar a família como muleta eleitoral - que Carrilho definitivamente é.
No Público e no Expresso, Carrilho foi buscar uma série de exemplos para demonstrar como é costumeira a participação da família numa campanha eleitoral. Os exemplos incluíam Snu Abecassis e Sá Carneiro. Evidentemente, fez-se de sonso Snu e Sá Carneiro são exactamente o contrário de Bárbara e Manuel Maria, pois apareciam juntos em público apesar de poderem perder votos e não para ganhar votos. É claro que Carrilho tem toda a legitimidade para enfeitar a campanha com mulher e filho. Infelizmente para ele, nota-se demasiado que a decoração é artificial. O sorriso é de plástico. O penteado é de plástico. A roupa desportiva, a cadeirinha do bebé, o vídeo - tudo é de plástico. Carrilho pode ter imensas ideias, mas elas contam pouco se o eleitorado duvidar dos escrúpulos de quem as vai pôr em prática. Em política o que conta é o carácter - não os caracteres."
João Miguel Tavares - Diário de Noticias de 24 de Junho de 2005

terça-feira, junho 21, 2005

Vasco de Lima Couto


Fotografia de Vasco de Lima Couto, declamando.
Esta fotografia foi tirada em Estremoz, por ocasião do descerramento da placa que homenageia o Poeta Sebastião da Gama, colocada na casa que lhe serviu de morada (Largo do Espírito Santo) quando foi para aquela vila exercer a profissão de Professor.
Vasco de Lima Couto foi amigo e colega de Faculdade de Sebastião da Gama.
Além de Vasco de Lima Couto (em primeiro plano), podemos ainda destacar a presença do pai do Poeta Sebastião da Gama, o sr. Sebastião Leal da Gama Júnior (segundo da direita) e do sr. Eurico Lisboa, Professor do Conservatório (segundo da esquerda, ao lado da Senhora).
A fotografia está numerada no reverso com o nº 2107, da "Foto-Carvalho" - Estremoz.
Agradeco a gentil cedência e permissão de publicação da fotografia à familia do Poeta Sebastião da Gama.

"Os Olhos e o Silêncio" e "O Silêncio Quebrado" - Vasco de Lima Couto

Casa-Museu Vasco de Lima Couto, em Constância

Mini-Biografia de Vasco de Lima Couto


Só esta semana é que tomei consciência que já lá vão 25 anos desde a morte de um grande e esquecido poeta português - Vasco de Lima Couto.

Nascido no Porto a 26 de Novembro de 1923, vem a falecer em Lisboa no dia 10 de Março de 1980. E ninguém se lembrou de lhe prestar uma homenagem.
Vasco de Lima Couto foi um homem de Cultura. Poeta, actor, encenador, declamador e homem da rádio. E, pelo que consta, todos estas facetas fê-las bem, com dignidade e profissionalismo.

"Eu sou um poeta. Maldito, mas poeta. Sou, também, actor. Incómodo, mas actor. Como actor, empresto. Como poeta, dou. Entre estas duas posições, vivo. Não represento nenhuma escola, porque não preciso de falar ao tempo do meu povo. Sou o tempo do meu povo! Se algum mérito possuo, é o de não ser intelectual partido, para intelectuais de partido. Canto como sei e sei como sinto. Não dou respostas convenientes, porque - felizmente, sou inconveniente. Entre o homem chateado e a criança maravilhada, rasgo o tempo que possuo. O mais que queiram ver, em mim, é estrume de animal que mastiga a comida que não merece e que o povo paga."

Vasco de Lima Couto reflectia sobre as coisas do seu tempo. Pensava sobre a vida cultural e social do seu país, principalmente quando se embrenhava nelas. Em 1972, fala deste modo sobre a sua vida de actor:
"O Teatro está cheio de espertos. Tanto lhes faz que seja assim como assado, e como isso a que chamam teatro lhes facilita os dias, eles vão de peça em peça, sem talento e sem religião. Depois, os que comandam esta anarquia da inteligência, que finge não querer actores porque lhes têm de pagar de acordo com a força do seu trabalho; preferem contratar amadores, com jeito ou não, que, ingénuos e incipientes, podem ser enganados.
E o resultado está à vista. Há peças que caem redondas porque não foram vestidas, só foram cobertas. (...) O actor, hoje não pode ser só o hábil senhor que se movimenta e inflexiona. Tem que ser, por dedução, a inteligência e a cultura de quem espera e a angústia colectiva de quem procura. A experiência só por si não chega. O actor tem que estar atento aos movimentos sociais da sua época mesmo quando pelas circunstâncias anormais da vida tem de transigir.
Mas não deverá nunca transigir servindo-se da benevolência idiota dos mecenas, porque esses - como dizia Afonso Lopes Vieira - entram na poesia como os camelos no jardim. Ninguém proíbe ninguém de ser inteligente!"

É extraordinária a actualidade destas palavras no nosso panorama teatral. Infelizmente, mudou apenas uma coisa. Os mediocres, incipientes e amadores, continuam a encher os palcos dos nossos teatros (e, já agora, das nossas televisões), mas a receberem tanto ou mais de cachet, quanto os actores de qualidades comprovadas.

Vasco de Lima Couto estreou-se nos palcos em 27 de Março de 1947 "empurrado" por Alves da Cunha. Percorreu todo o país em digressão falando de poetas e de teatro até que, em 13 de Março de 1951, ingressa na Companhia de Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro, para o elenco da peça "La Niña Boba", de Lope de Vega, que seria posta em cena em 7 de Abril de 1953, com Gina Santos como "menina tonta", Helena Féliz, Álvaro Benamor e Maria Albergaria.
Lima Couto representou em mais de 40 peças ao longo de toda a sua carreira, nunca acusando qualquer atitude de concessão ao "status" ou amolecimento das linhas mestras da sua personalidade criativa e, por vezes, revolucionária.

Mas, como refere João Aguiar no Diário de Noticias de dia 14 de Março de 1980, "será exagerado dizer que Vasco de Lima Couto foi 'actor por acréscimo'. Algumas das suas interpretações não serão esquecidas tão cedo".

Por volta de 1952, Lima Couto volta ao Porto para se juntar ao Teatro Experimental, onde permanece cerca de oito anos. Aí, representou peças tão importantes como: "A Morte de um Caixeiro Viajante", de Miller; "As Guerras de Alecrim e Manjerona", de António José da Silva; "Volpone", de Ben Johnson; "Edda Gabler", de Ibsen; "Ratos e Homens", de Steinbeck; "Tio Vania", de Tchecov, entre outras.
Em 1960 volta para a capital portuguesa onde representará a figura de D. Afonso IV na peça "Castro", de António Ferreira. "Teve enorme êxito, o qual, segundo as próprias palavras, se deve à direcção de Paulo Renato".

Durante dois anos trabalhou para o Teatro da Câmara - Estufa Fria, sob a direcção de Pedro Bom, mas considerava o tipo repertório lá representado como "chato e despido de qualquer realidade".

O grande sucesso vem com o "Mercador de Veneza", de Shakespeare, onde Vasco de Lima Couto representava o papel de Lancelote Gobbo. "O êxito foi tal que, ao sair de cena, num dos melhores momentos da peça, o público interrompia a representação com uma salva de palmas".

Em 1966 vai para o Teatro da Trindade, para representar "Todos eram meus filhos", de Miller. A peça vai em tournée pelo pais inteiro.
Um ano depois vai para o TEL (Teatro Experimental de Lisboa) onde representa, basicamente, peças de Luzia Maria Martins.

Mas a situação do TEL era desastrosa. Vasco de Lima Couto viu-se sem dinheiro, sendo "obrigado" a ir trabalhar para a televisão, em peças que em nada lhe interessavam. Chega mesmo a aceitar o convite de Vasco Morgado para representar o "Vison Voador", no Villaret.

Em 1971 concorre ao "Festival da Canção" com o célebre e polémico "Zé Brasileiro Português de Braga".

Conhece finalmente África, por quem se apaixona. Em Angola, inicia uma série de programas na Emissora Oficial, como colaborador e assistente literário. Era o programa "Cantar de Amigo", dedicado à divulgação da poesia portuguesa. Aí, "muitos dos que sistematicamente o ignoravam na crítica, na presença e na divulgação, eram citados sem qualquer ressentimento".

Trava conhecimentos com o jornalista João Aguiar, sub-chefe de redacção do Diário Falado e produtor radiofónico. Este, leva Lima Couto a interpretar na rádio uma adaptação do romance "Um Cântico para Leibowitz", à altura com o nome, "A crónica de S. Leibowitz". "O original gravado, um dos raros documentos que se salvaram depois da independência, é a amostra mais que convincente do grande talento e capacidade de um actor".

Nos inicios de 1974, inexplicavelmente, Vasco de Lima Couto regressa a Portugal.
Com grande mágoa encontra António Pedro afastado do TEP. Vai para a Cornucópia, que depressa abandona para se fixar uns meses em Paris. Ao regressar, ingressa na Companhia Maria Matos para representar o "Encoberto", de Natália Correia.

No entanto surge uma vida nocturna intensa, cada vez mais ligado ao fado. No "Painel do Fado", na "Taberna de S. Jorge" (no Porto) ou na "Taberna do Embuçado", Vasco de Lima Couto escreve, lê e ouve cantar a sua poesia.
Grandes nomes da canção (ligeira e fado) cantam as suas palavras: Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Simone de Oliveira, entre outras.

No principio e no fim de tudo, estava a poesia. E à medida que o tempo foi passando, o "resto" foi ficando pelo caminho, como veste que se usa bem, mas que depois se larga - nem sempre por vontade própria, mas sempre com intima tranquilidade. Lima Couto sabia que, através do tumulto emocional, ideológico e politico, ele haveria de desentender-se com o "establishment", pois isso acontecera antes, acontecera sempre; e, como antes, como sempre, o "establishment" não lhe perdoaria e fechar-lhe-ia as portas. Mas sabia também que havia duas coisas que nunca ninguém lhe poderia tirar: Uma, a liberdade que lhe advinha de não ter nada para perder; a outra, a sua condição e essência de poeta
."
João Aguiar, Diário de Noticias, 14 de Março de 1980
LIVROS PUBLICADOS
- Arrebol - 1943
- Romance - 1947
- Recado Invisivel - 1950
- Os olhos e o silêncio - 1952
- O Silêncio Quebrado - 1959
- Esta continua saudade... - 1974
- Deixando discorrer os rios - 1980 (?)
- Canto de Vida e de Morte - 1981

domingo, junho 19, 2005

UM OÁSIS NO CHIADO - GUSTAVO RUBIM

O texto que a seguir vos transcrevo encontra-se presente no Programa da peça "Paris é uma miragem" (de que vos falo no post seguinte), em cena no Teatro Estúdio Mário Viegas, "casa" da Companhia Teatral do Chiado.
Transcrevo-o porque é verdadeiro. Transcrevo-o porque admiro a memória de Mário Viegas, a persistência, a coragem e a cultura de Juvenal Garcês (curvo-me respeitosamente perante os teus 25 anos de carreira, comemorados este ano), o trabalho, o talento e a amizade de Simão Rubim... e de todos vocês. Parabéns pelos vossos 15 anos como Companhia de Teatro, que navega por vezes em mar revolto... mas o vosso barco é forte e a tripulação, exímia e valente.
Continuem a amar o Teatro, os Actores, os Dramaturgos e o Público. Eu?! Continuarei a amar-vos.
UM OÁSIS NO CHIADO
"Parece que há gente incomodada com a insistência da Companhia Teatral do Chiado na montagem de espectáculos cómicos. A peça de John Godber - Paris É uma Miragem - é uma comédia que a CTC apresenta no ano do 15º aniversário da sua fundação por Mário Viegas e Juvenal Garcês. A título pessoal, quero, antes de mais, felicitar a CTC pelos seus 15 anos de existência: parabéns e obrigado pela oportunidade que me deram de colaborar convosco e, sobretudo, de ver na vossa Companhia o melhor teatro, o teatro como eu gosto dele, ao longo destes 15 anos. Quero também tentar explicar, em poucas palavras, o péssimo sinal que constitui aquele incómodo português com as comédias da CTC.
Não tenho visto nada mais cínico, em anos recentes, do que a invocação da memória de Mário Viegas para condenar o trabalho e a estética da CTC após a morte do grande actor e encenador, em 1996. Sem excepção, quem invoca a memória de Mário Viegas para atacar a CTC dirigida por Juvenal Garcês são as pessoas que não conheceram o Mário, que nunca aderiram ao seu estilo e, muitas vezes, que fazem ou apreciam em teatro coisas que ao Mário eram profundamente repugnantes. Trato-o assim pelo nome de baptismo, porque o conheci pessoalmente e não raras vezes o ouvi lamentar o destino do teatro português, que muito tempo depois do 25 de Abril continuava a ser (como ainda continua em grande parte, na minha opinião) um teatro submisso à ideologia, com ridículas pretensões didácticas ou, o que não é melhor, falsamente vanguardista e esteticista até ao enjoo e ao vazio total. Nada disso lhe agradava, nem de longe.
Como essas, uma convicção que o Mário deixou escrita (e todos podem ler) foi a de que a comédia não é um género menor. Parece ridículo ter de lembrar isto, quando foi na CTC que o Mário fez esse prodígio de comédio política chamado Europa Não! Portugal Nunca!!; quando foi com O Regresso de Bucha e Estica que lançou as raízes da CTC; quando alguns dos maiores êxitos da CTC, no tempo em que o Mário a dirigia, foram as suas encenações do teatro de Eduardo de Filippo, uma das quais - A Grande Magia - veio a ser a penúltima que assinou (a última, como é sabido, foi Uma Comédia às Escuras de Peter Shaffer). Por tudo isto e, mais ainda, porque o Mário era um incondicional admirador de Beckett, é que a única explicação razoável para o ataque ao gosto da CTC pela comédia só pode ser esta: através da actual CTC, os velhos inimigos de Mário Viegas continuam a depreciá-lo e a desdenhá-lo, amesquinhando a herança daquela que é, para mim, a maior figura do teatro português contemporâneo.
Há documentos oficiais desse desprezo nada inocente. Uma pessoa com responsabilidades na crítica e no ensino teatrais escreveu, há poucos anos, um balanço do teatro pós-25 de Abril: o nome de Mário Viegas mal aparecia nesse triste atestado de má-fé que destilava veneno em cada linha. Também há explicação para isto: o Mário nunca escondeu o seu apego a uma tradição de teatro popular que, paradoxal e estupidamente, os ideólogos da estética pós-revolucionária tudo fizeram para aniquilar. Com inteira justiça e toda a lucidez, Beckett e Shakespeare eram, aos olhos do Mário, teatro popular (recentemente, em Londres, os Happy Days esgotaram lotações com meses de antecedência). Tal como o recordo, o Mário nunca cometeu o grosseiro equívoco artístico destes 30 anos de teatro em liberdade: colocar Brecht acima de Shakespeare.
O Mário não tinha medo do sucesso nem do público. E nem uma coisa nem outra lhe bloqueavam a criatividade e o sentido poético. O Juvenal, o Simão, o João Nuno, o Vasco Letria e todos quantos têm mantido a CTC, desde 1990 até hoje, conservaram, intensificaram e transmitiram essa lição: a lição do teatro que só responde por si mesmo, do teatro sem limites, do teatro que ama todas as suas possibilidades sem exclusão de nenhuma. Quando tanta gente, sobretudo em lugares de poder político ou cultural, anseia e actua, de modo mais descarado e mais sinistro, pelo fim da CTC, alegra-me especialmente que a CTC responda com uma gargalhada.
Para o Zé e para a Guida, París é uma miragem. Mas para a Sofia Duarte Silva e para o Manuel Mendes, a pequena sala do Teatro-Estúdio Mário Viegas oferece-se a todos como um oásis no Chiado. Para os dois, muita merda!
À nossa CTC, ergo a taça e brindo a uma longa vida!
Gustavo Rubim

PARIS É UMA MIRAGEM - Companhia Teatral do Chiado - Teatro Estúdio Mário Viegas


Estreou na passada quinta-feira, no TEATRO ESTÚDIO MÁRIO VIEGAS, a nova peça de teatro - PARIS É UMA MIRAGEM - do inglês John Godber.
A encenação é de Juvenal Garcês (director e co-fundador da Companhia Teatral de Chiado) e conta com a dupla Manuel Mendes (também actor do maior sucesso de sempre na história do teatro em Portugal - As Obras Completas de William Shakespeare em 97, ainda em cena) e de Sofia Duarte Silva.
É mais uma aposta ganha da CTC para este Verão de 2005. O texto é simples e sem grandes "ensinamentos", contando com a excelente tradução de Gustavo Rubim e Victor de Andrade.
Um casal de Cruz de Pau, ele desempregado e ela empregada numa loja de desporto, passam o tempo em frente ao televisor, amorfos, enquanto refilam um com o outro. Ele, tenta ser pintor. Ela, devora revistas cor-de-rosa e responde, compulsivamente, a todos os concursos que lhe aparecem à frente. Milagrosamente, ganha um fim de semana romântico na cidade das Luzes. E este é o mote para o desenrolar da acção.
De guia túristico em punho, tentam sorver o máximo que podem de Paris e daquilo que esta cidade tem para oferecer, nomeadamente para os turistas.
Ela, uma tonta sonhadora. Ele, um bronco desconfiado, armado em Manuel Maria Carrilho, ou seja, julgando-se filósofo.
A mistura é explosiva e bem conseguida, havendo momentos de um enorme humor e de genuína gargalhada.
As interpretações são altamente convincentes, estando cada um dos actores à medida do papel a desempenhar.
Mas o melhor da peça é encontrarmos Juvenal Garcês ao mais alto estilo e em excelente forma. As soluções de encenação encontradas para os diversos ambientes em que a acção se desenrola foram muito bem conseguidas, proporcionando momentos de puro deleito.
Diga-se que o cenário é apenas constituido por duas cadeiras (sempre diferentes, consoante o espaço físico onde os actores se encontram) e uma tela branca. Nesta, vão sendo projectadas imagens (slides), criando ou materializando o espaço físico onde a acção decorre. Ainda levamos, como bonús delicioso, uma surpreendente actuação de Samantha Rox (Transformista no "Finalmente", em Lisboa) ao som de "I Am, What I Am". O gosto e a pertinência das imagens, tratadas por Luís Rocha, são de salientar.
E, como já é hábito nos espectáculos de Juvenal Garcês, é de se elogiar a excelente "banda sonora" que acompanha toda a peça, ouvindo-se as vozes de Jacques Brel, Dalida e Edith Piaf. Alguém já se lembrou de convidar Juvenal Garcês para fazer um programa de rádio? Porque é impressionante o cuidado e o bom-gosto das músicas com que sempre acompanha as suas encenações. Parabéns.
Inesperado é o fim destinado a cada uma das personagens. Uma mudança de personalidade da qual se pode, ou talvez não, tirar alguma lição ou "ensinamento". Mas não vou contar o que quero dizer com isto.
É um espectáculo de puro entretenimento, próprio para o calor da estação de veraneio. Aconselha-se vivamente.
Para mais informações consulte:
Por último, não podia deixar de referir o excelente trabalho na execução do Programa da peça, como é aliás habitual na Companhia Teatral do Chiado.
Vá ao Teatro (do bom)... divirta-se.

quinta-feira, junho 16, 2005

Maria Rattazzi - Portugal de Relance - Carta Décima Quinta - Cont.

"Eça de Queirós, afirma, no Primo Basílio, que em Lisboa não existem só baratas, que há também percevejos.
Não o quero acreditar; mas visto que oferecem prémios aos que descobrirem um meio de destruir o oídio e a filoxera, porque é que não propõem um prémio ao homem de génio, ao filantropo ilustrado que inventar o modo de aniquilar a raça das baratas e dos percevejos e de limpar a terra destes parasitas?
O gato é o traste inseparável de todas as casas portuguesas. Não há no mundo país que tenha tantos gatos como Portugal.
Em alguns bairros de Lisboa vêem-se as ruas cheias de gatos. Diga-se em verdade que são muito úteis, visto que a cidade está inçada de ratos, às vezes tão grandes que, não raro, vingam-se majestosamente devorando os gatos inexperientes... Parte destes gatos são nómadas e livres pensadores.
Há-os magníficos! Vivem de cabeças de peixe que se atiram para as ruas. O que é singular, explicando-se unicamente pelos combates desesperados que sustentam com os ratos, é que, logo que nascem, cortam-lhes as orelhas e a cauda como aos buldogues.
Em Portugal desconhece-se completamente a arte culinária. A cozinha é tão má como a de Espanha e já não é dizer pouco. Desde a sopa até à sobremesa nada se faz sem azeite. Não é só isto que a torna abominável, são os cozinheiros (?) do país que podem alcunhar-se de estraga molhos.
Os elementos principais da alimentação das famílias constam de peixe, arroz e chá. Às nove horas da manhã, chá com leite e pão torrado coberto de uma camada de manteiga salgada, impossível! Às três horas, sopa, em que se deita um pedaço de carne acompanhado de couves e nabos; sardinhas ou bacalhau salgado e arroz. Às nove horas da noite, chá e uma segunda edição de pão torrado com unto rançoso.
O povo, esse alimenta-se exclusivamente de sardinhas e bacalhau; de resto, as sardinhas são, como todo o peixe de Lisboa, deliciosas e muito baratas. Come-se em Lisboa uma quantidade prodigiosa de sardinhas e expedem-se todos os dias milheiros para o resto do país. Quanto a vinhos, o de Colares é excelente. Já não falo dos outros vinhos de luxo que correspondem à sua merecida reputação.
A água em Lisboa é uma das mais importantes questões, ainda não resolvida. Como todos os países quentes, Portugal carece de enorme quantidade de água; de Verão, principalmente, é uma necessidade de primeira ordem, de que dependem a saúde dos habitantes e a higiene da cidade." - Continua

Os Olhos Rasos de Água - Eugénio de Andrade

Os Olhos Rasos de Água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao Paraiso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.
É a hora de adormecer na tua boca,
como um marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Álvaro Cunhal - Manuel Tiago

domingo, junho 05, 2005

Critica de Música ao espectáculo de Aldina Duarte - Diário de Noticias - João Miguel Tavares

"Uma manifestação de amor ao fado
A actual fórmula dos concertos da Culturgest tem a graça de convidar o público para um encontro com o artista no final do espectáculo. Claro que esta interactividade é um pouco ingénua, porque há sempre um maluco de serviço que entende expor aos presentes as suas teorias sobre a origem do universo, acabando o artista por dizer pouco mais do que meia dúzia de palavras de circunstância.
Mas enquanto pôde falar e o maluco de serviço não apareceu, Aldina Duarte traçou uma comparação fundamental: disse que a diferença entre cantar numa casa de fados e cantar numa grande sala como a da Culturgest era a mesma que estar em casa com amigos que partilham as suas ideias ou estar no meio de uma manifestação por uma causa comum. O concerto da noite de sexta-feira foi, portanto, uma manifestação - a manifestação do amor de Aldina ao fado. Mas, como em todas as manifestações, houve palavras certas e actos falhados.
O público era uma mistura interclassista de fiéis, amigos da Caixa Geral de Depósitos e turistas, o que produziu uma amálgama de boas vontades que aplaudia sempre muito, qualquer que fosse a ocasião. Contudo, apesar da generosidade dos ouvintes, demorou algum tempo para que a voz de Aldina encolhesse as paredes do grande auditório até se sentir em casa, encontrando um espaço de intimidade essencial à exposição da sua arte.
Foi preciso esperar pelo mais emblemático fado dos fados - o menor, no tema M. F. - para que Aldina começasse a mostrar alguma da sua graça e a garra de fadista que se reconhece tanto nas suas letras como no seu disco. A partir daí, o concerto cresceu, com momentos de grande inspiração como Muro Vazio ou Estação das Cerejas, onde Aldina trabalhou sobre os graves, sem dúvida um dos seus melhores maiores trunfos.
Com um timbre limitado, Aldina é uma fadista à moda antiga - o que interessa não é tanto a limpidez da voz, a correcção da dicção ou o acerto da afinação, mas sim a quantidade de alma que é colocada em cada interpretação, com quanto de vida se embrulha cada nota. E aí, Aldina sempre foi generosa. O seu fado é pobre, rugoso, com arestas, mas tem a pureza dos velhos mestres. Em Portugal, ninguém com menos de 60 anos canta assim o fado - e isto é um elogio dos grandes." - João Miguel Tavares

sábado, junho 04, 2005

Aldina Duarte - Culturgest

Na noite passada um momento mágico aconteceu em Lisboa - O concerto de Aldina Duarte, na Culturgest.
Aldina Duarte provou o que há muito já se sabia: que é uma fadista de alma e coração, sem artificios nem rodeios.
Vestida de preto com um belissimo xaile sobre os ombros (só não sei se seria um dos xailes-amuleto feitos por Argentina Santos), Aldina Duarte estava bonita.
A casa estava lotada. Algumas caras conhecidas como Maria da Fé, David Ferreira e Margarida Mercês de Melo, Ana Sousa Dias (a quem Aldina Duarte havia dado uma entrevista que ficará para sempre na minha memória), João Lopes, entre outros. O público foi altamente receptivo, ouvindo os habituais "bravos" e "Ah, Fadista". Aldina mereceu-o.
No palco apenas dois músicos: José Manuel Neto, na Guitarra e Carlos Manuel Proença, na Viola. Quatro cadeiras vazias e uma instalação em madeira a fazer lembrar (segundo o meu acompanhante no concerto) a estrutura em madeira que circunda uma arena de uma praça de touros. Tudo obra de Jorge Silva Melo.
Aldina Duarte cantou bem embora, a meu ver, seja um pouco inconstante na utilização da voz. Mas penso que isso não a desfavorece. Antes pelo contrário, é a sua imagem de marca. Aldina é uma fadista de tabernas e casas de fado. É uma fadista das ruas ingremes dos Bairros de Lisboa. Reúne em si, e sem querer fazer comparações, as vozes de Beatriz da Conceição, Lucilia do Carmo e Herminia Silva.
No rosto estava estampado as contradicções do próprio fado: a dor e a alegria; a saudade e o reencontro; o amor e o traição.
E que sorriso inocente, simpático, sincero e belo tem Aldina Duarte. É impossivel não nos comovermos. Aldina está ali verdadeiramente. Não finge, não mostra o que não é. Está como se estivesse despida, nua.
Cantou músicas do seu album "Apenas o Amor" e alguns temas novos. Recordou Alfredo Marceneiro, Lucilia do Carmo e Herminia Silva (que fechou o espectáculo).
O carinho que sente pelos músicos, e eles por Aldina, não passou despercebido. Troca de meiguices foram acontecendo ao longo do concerto, olhares cúmplices e de encorajamento foram sendo trocados.
Mas eu acho que Aldina Duarte não sabia ao que ia, nem o que iria encontrar. Não esperava aquele sucesso nem aquele acolhimento. Como posso esquecer a expressão no rosto de Aldina quando, já no fim do concerto, as luzes da sala se acenderam e ela pode, realmente, olhar a sala e o público, da primeira à última fila. A expressão foi de terror, de susto, de algo surpreendente e de que não esperava. Estavamos todos de pé a aplaudir. Aldina abandona de imediato o palco e não voltou.
- Desculpa lá Fadista se te assustámos. Não foi por mal... e a culpa é tua. Quem te manda mexeres com os nossos sentimentos daquela forma? Tiveste o que mereceste por seres tão genuina. Espero que tenhas percebido que aquelas palmas eram mesmo para ti. E se tivesses voltado terias muitas mais.
Obrigado Aldina.
"Acredito que os artistas existem para servir as pessoas na construção dum mundo onde todos viverão de forma mais justa e mais feliz - Ai de nós e do mundo quando os artistas deixarem de ser a voz da coragem e da luta das pessoas por uma vida mais feliz!
Como diria o poeta Teixeira de Pascoaes "Eliminem a palavra Humanidade e ficaremos cobertos de pêlo, num instante".
Aldina Duarte

sexta-feira, junho 03, 2005

Dois poemas para o fim-de-semana

BAILATA DOS DOIDOS
Se os doidos não sabem
Seu nome e idade
- Quem dera ser doido,
Que felicidade!
Se os doidos não sentem
As mágoas reais
- Quem dera ser doido,
Não as sentir mais!
Se os doidos não vêem
Como os outros são
- Quem dera ser doido,
Ter essa ilusão!
Se os doidos não cuidam
Do que é necessário
- Quem dera ser doido,
Sem este fadário!
Se os doidos não temem
A hora da morte
- Quem dera ser doido,
Para ser tão forte!
Carlos Queiroz, Epístola aos Vindouros e outros poemas, Edições Ática
FADO
A que tinha no andar restos de infância
Saudosos de correr atrás do arco,
Deixando no ar um rastro
De inocência e de constância;
A que no olhar denunciava
- Quando olhava sem ver, mas calma e doce -
Sintomas de morte precoce;
A que lembrava
Quando sorria, estar pensando
Nas fadas dos contos antigos;
A que num lago sem perigos
- No mínimo gesto brando
Das suas mãos impolutas -
Dava a imagem da vida...
É hoje a mais conhecida
No bairro das prostitutas.
Junho de 1930
Carlos Queiroz, Desaparecido * Breve Tratado de Não-Versificação,
Edições Ática

Palmira Bastos - Uma Legenda Do Teatro Português


Lenda do Teatro Nacional

Palmira Bastos - Uma Legenda Do Teatro Português


Palmira Bastos
Este artigo sobre Palmira Bastos foi publicado na revista "Plateia", nº 116, de 10 de Junho de 1962. Mais do que pelo texto em si, o interesse desta reportagem reside nas fotografias de Palmira Bastos.
Para visualizar as imagens em modo aumentado, clique por cima das mesmas.
Quero agradecer ao Pedro Urbano o ter-me facultado um sem número de revistas "Plateia" para poder ir publicando no blog. Um obrigado especial.